O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
Pe. Emmanuel-André
I
A Fé e Seus Mistérios
O conhecimento de um só Deus em três Pessoas que nós recebemos pela fé é mais alto, sem comparação, do que o conhecimento que temos de Deus pela simples razão natural.
Existem três graus no conhecimento que o homem pode ter de seu Criador. O primeiro é o conhecimento natural, que lhe é dado pela luz da razão. O segundo, o conhecimento sobrenatural, que ele recebe pela luz da fé. O terceiro, o conhecimento ou visão beatífica, que ele recebe pela luz da glória.
Estes três graus se assemelham um pouco com os diversos modos com que nossos sentidos se aplicam ao conhecimento de um objeto sensível. Podemos conhecer um objeto material ou pelo tato, quando o apalpamos, ou pelo ouvido, quando escutamos sua descrição, ou pela visão, quando o vemos. Isso é explicado por São Tomás na sua Suma Contra os Gentios. Ora, esses três modos se aplicam bem aos três graus do conhecimento de Deus que vimos acima.
I) A razão procura de certo modo tocar Deus, que está fora de sua visão. É o que diz S.Paulo: "Que busquem a Deus como que às apalpadelas" (Atos XVII,27). São Paulo desenha aqui um quadro que representa os pobres pagãos às apalpadelas, como cegos, atravessando a natureza e procurando tocar em Deus. O Apóstolo lhes mostra o meio de O encontrar: Ele não está longe, diz ele, pois vivemos, nos movemos e existimos por ele. (idem) Entrem em si mesmos e O encontrarão, Ele que é o Pai de toda a vida.
Quando apalpamos um objeto nos convencemos da existência desse objeto; em seguida medimos aproximadamente suas dimensões. Assim a razão natural, que apalpa Deus, está em condições de demonstrar a existência de Deus. Ela chega até a alcançar algo de sua imensidade, de sua eternidade, de seu poder infinito. Eis até onde puderam ir, segundo atesta São Paulo, os filósofos da antiguidade, pela investigação racional. (Rom.I,20)
II) Este estágio não pode nos satisfazer, a nós católicos. Somos chamados a subir mais alto e a aprofundar nossa busca pelo conhecimento sobrenatural. Trata-se do conhecimento pela luz da fé, semelhante à que nos vem pelo sentido da audição: "Fides ex auditu", diz São Paulo, a fé nos vem por audição, ou seja, quando ouvimos a palavra de Cristo, "audito autem per verbum Christi". Ela nos traz um conhecimento mais íntimo de Deus, na medida em que a palavra santa nos revela as maravilhas escondidas na Sua essência, na medida em que ela nos inicia nos segredos dessa natureza criadora onde aprendemos a adorar a Trindade de Pessoas.
Temos ainda, é verdade, um pano nos olhos; mas em vez de só apalpar o quadro, ouvimos deslumbrados sua descrição, pelo menos até onde nossa inteligência, presa às imagens terrestres, é capaz de o penetrar. Em vez de tocar somente em Deus, o Grande Vivo, analisamos, por assim dizer, a força e os atos da Vida divina.
III) Virá um dia em que a venda será retirada de nossos olhos. Uma luz, chamada luz de glória, virá fortificar, elevar, dilatar nossa inteligência. Então veremos Deus. Sim, diz São João, nós o veremos como Ele é. "Videbimus eum sicuti est". (IJo,III,2); Sim, diz São Paulo, nós o veremos face a face. "Videbimus facie ad faciem" (ICor.XIII,12). O conheceremos como Ele nos conhece (idem). O que mais dizer?
Elevados a este grau, teremos chegado ao termo dos desejos da criatura racional; possuiremos nosso fim.
Lembremos que este conhecimento beatífico, tão grande, tão glorioso, está em germe no conhecimento que temos pela fé, pois a fé é um começo de possessão da verdade total que é o próprio Deus. A fé é obscura, visto que os mistérios que ela nos propõe estão acima da capacidade da razão, no estado de vida atual; mas ela é luminosa, pois esses mistérios, escondidos a nossos olhos pela excessiva luz, iluminam com sua luz maravilhosa as coisas temporais e as eternas.
Logo, não devemos considerar os mistérios da fé como pontos negros que atrapalhariam o olhar de nossa inteligência; eles são astros explodindo de luz e que se escondem de nós nessa própria luz, cujo reflexo nos descobre todo um oceano de verdades escondidas aos sábios deste mundo e reveladas aos humildes e aos pequenos.
O primeiro e mais luminoso desses astros é, sem dúvida, o mistério da Santíssima Trindade.
Sentimos nossa fraqueza quando tentamos falar dele: se não podemos fazê-lo dignamente, que Deus nos ajude, ao menos, a falar humildemente e com proveito.
II
O Mistério da Santíssima Trindade
Sabemos pelo catecismo que os principais mistérios da nossa fé são a Santíssima Trindade, a Encarnação e a Redenção.
É muito importante lembrar sempre que desses três mistérios, o da Santíssima Trindade é o maior, o mais impenetrável, o mais adorável; e que os demais lhe são subordinados.
De fato, a encarnação e a redenção são atos temporais realizados no Homem-Deus, Jesus Cristo. Já o primeiro, ao contrário, tem por objeto os atos eternamente subsistentes da vida divina, ou seja, a geração do Filho e a processão do Espírito Santo.
Se a Encarnação e a Redenção ultrapassam a medida de nossa inteligência é porque elas se unem a uma das três Pessoas divinas, ao Filho de Deus: é isso que leva esses dois fatos a uma ordem absolutamente divina, ultrapassando inteiramente a luz da razão. É por estarem na dependência do mistério da Santíssima Trindade que eles são também mistérios. Assim, só há um mistério, e todos os outros são prolongamentos desse dogma fundamental.
Segue daí que ele é o objeto principal da nossa fé e como o centro para onde ela é levada e para onde ela tende.
Sim, ela tende. Pois a fé traz com ela uma tendência a nos unir a Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Por essa razão nós dizemos: eu creio em Deus.
Jesus Cristo Nosso Senhor, na sua natureza humana e no mistério de sua vida temporal é um laço destinado a nos unir à Santíssima Trindade, que é nosso fim supremo e último.
Não devemos nunca nos esquecer que Jesus Cristo, como homem, é apenas um intermediário, um mediador, como diz São Paulo, entre a Santíssima Trindade e a alma humana. "Mediator Dei et hominum homo Christus Jesus".(I Timot. II,5) Ele cimentou no seu Sangue essa aliança indissolúvel; é só por Ele que se realiza essa união eterna; mas ele não é, como homem, a finalidade superior que a fé nos revela, onde a esperança nos eleva e a caridade nos faz participar por antecipação. "Ninguém vem ao Pai senão por mim", nos diz Ele (Jo XIV,6). Só podemos ir ao Pai por Jesus Cristo; mas é ao Pai que devemos ir. O Pai é tomado aqui como toda a Trindade.
Essas considerações nos mostram como é importante para nós conhecer a Santíssima Trindade. Ela é o principal objeto de nossa fé: se esforçar para a conhecer é alimentar sua fé, mas ao mesmo tempo é preciso estudar esse mistério com imenso respeito, como Moisés diante do arbusto que ardia. Devemos suplicar a Deus que ele queira, ele próprio se descobrir para nós, nessas sombras luminosas da fé que apagam toda luz desse mundo e que são a bendita aurora da visão beatífica.
III
A Unidade da Natureza Divina
Antes de estudar em Deus a Trindade de Pessoas, convém compreender bem a unidade indissolúvel da natureza divina.
Deus é essencialmente um e único. Ele não poderia, de modo algum, ser vários deuses, como há vários homens. Quem diz Deus, diz o poder, a sabedoria infinita, a bondade por essência. Se pudesse haver vários deuses, cada um deles seria limitado por algum lado, nenhum seria Deus. Logo só pode haver um Deus.
Dizendo que só há um Deus, entende-se que a natureza divina é essencialmente una, e que ela não pode se multiplicar entre várias pessoas diferentes umas das outras. A natureza humana, por exemplo, se multiplica tantas vezes quantos são os indivíduos que a possuem. Tomemos dois homens: eles têm cada um a natureza humana e é por isso que são homens; mas a natureza de um não é a natureza do outro, são dois homens diferentes.
Em Deus, a natureza divina não se multiplica assim, ela não pode se multiplicar assim: e no entanto, sendo essencialmente una em si mesma, ela é comum a três Pessoas distintas. O Pai possui a natureza divina, o Filho a possui, o Espírito Santo a possui; e é a mesma e única natureza nos três. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três deuses, mas um só Deus. Se eles fossem três deuses, haveria três naturezas divinas; ora, não pode haver mais do que uma.
Essa natureza única não é dividida entre as três Pessoas, como se cada uma possuísse um terço; ela é inteira em cada, como a natureza humana é inteira em cada homem. O mistério consiste justamente nisso que a natureza divina é inteira em cada uma das três Pessoas sem ser por isso multiplicada ou triplicada.
Uma santa italiana, Santa Clara de Montefalco, meditou muito sobre o mistério da Santíssima Trindade. Depois de sua morte achou-se no seu fígado três bolinhas iguais. Essas bolinhas tinham esse particular que cada uma delas pesava tanto quanto as três juntas. Que se pesasse uma, duas ou três, era sempre o mesmo peso. Uma imagem impressionante da Santíssima Trindade! Tome uma Pessoa divina: a natureza divina está toda nela. Tome duas Pessoas divinas: ela está toda nas duas. Tome todas as três, ela está toda nas três, mas tanto nas três quanto em uma só, como a bolinha que não pesava mais quando as três juntas ou quando uma só separada.
Isso vem do fato que, diz Sto Anselmo, acrescentar Deus a Deus nunca dá mais que um Deus, assim como somar a eternidade à eternidade nunca dá mais que uma eternidade, como juntar uma superfície a uma superfície sempre dá uma superfície. A concepção da natureza divina pede que ela seja una e indivisível; é assim impossível que ela seja multiplicada.
O catecismo exprime essa verdade quando diz: O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus; não são três deuses, mas um só Deus em três Pessoas.
IV
A Distinção das Pessoas
Temos a natureza humana porque temos um corpo e uma alma. Somos cada um uma pessoa porque nosso corpo é só nosso e nossa alma é só nossa. Todos os homens têm a mesma natureza, nesse sentido que todos têm um corpo e uma alma; todos são pessoas diferentes, nesse sentido que o corpo de um não é o corpo do outro, a alma de um não é a alma do outro; cada corpo e cada alma têm características particulares e incomunicáveis.
Em Deus há três pessoas e uma única natureza. A distinção entre as pessoas não vem da natureza que é única para todas as três, mas do fato que a natureza divina mantém em cada pessoa Relações diferentes.
O Pai tem para com o Filho uma relação de Paternidade. O Filho tem com o Pai uma relação de Filiação. O Espírito Santo tem com o Pai e com o Filho uma relação de Processão. A natureza divina é Pai na Pessoa do Pai, mas não é Pai na Pessoa do Filho; essa mesma natureza é Filho na Pessoa do Filho, mas não é Filho na Pessoa do Pai; enfim, esta mesma natureza é Espírito Santo na terceira Pessoa, mas não é Espírito Santo nem no Pai nem no Filho. Logo o Pai não é a mesma pessoa que o Filho, o Filho não é a mesma pessoa que o Pai, o Espírito Santo não é a mesma pessoa que o Pai nem que o Filho.
Lemos no Símbolo de Santo Atanásio:
"O Pai não procede de ninguém, Ele não é feito, nem criado, nem engendrado".
"O Filho procede só do Pai, Ele não é feito, nem criado mas engendrado".
"O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, Ele não é feito, nem criado, nem engendrado, mas procede".
Assim, as três pessoas divinas têm isso em comum, elas não são feitas nem criadas. E elas têm em próprio que o Pai não é de ninguém; que o Filho é do Pai unicamente, por geração; que o Espírito Santo é do Pai e do Filho por processão.
Um é o Pai, outro o Filho, outro o Espírito Santo, mas pela unidade de natureza, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só e mesmo Deus, visto que em Deus não pode haver nada além de Deus.
Vamos agora procurar as luzes que a Sagrada Escritura e a Tradição nos trazem sobre a maneira da geração do Filho pelo Pai e da maneira de processão do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho. Mas antes é preciso ter algumas noções sobre os atos da vida divina.
V
Os Atos da Vida Divina
Deus se chama a si próprio de Deus vivo. Ele possui a vida no mais alto grau. Ele é a própria vida, segundo esta palavra de Nosso Senhor: "Eu sou a vida" (Jo. XVI,6). Sendo a vida, Deus é a fonte da vida de todos os seres vivos.
O que é a vida? A vida é a faculdade que tem um ser de se mover ele próprio. As pedras, por exemplo, são inertes, não vivem. Já as plantas são vivas, nós as vemos sair da terra e se desenvolver por um princípio interno. Mas a vida da planta é imperfeita; encontramos nos animais uma vida mais perfeita do que nas plantas porque eles sentem, eles mudam de lugar como querem, eles reconhecem e procuram aquilo que lhes convém, eles se afastam e se defendem daquilo que lhes é contrário. Mas a vida é ainda mais perfeita no homem.
Além das qualidades que são comuns com os outros animais, o homem tem uma alma. A alma é vida e a morte não tem sobre ela nenhum poder. A alma traz consigo as sublimes faculdades de conhecer e amar. A vida da alma consiste em exercer essas duas faculdades, fazê-las agir sem sair de si mesma. Ela conhece, e por isso ela representa dentro de si os objetos, como num espelho interior. Ela ama e se lança interiormente na busca do objeto amado como num impulso interior.
A vida da alma é admirável, mas ela é uma fraca imagem, um distante eco da vida divina. A alma às vezes conhece, às vezes não: mas Deus é só inteligência e amor. Conhecer e amar é a própria natureza de Deus.
A alma conhece as coisas uma após as outras e as afeições de seu coração se sucedem uma depois da outra: Deus conhece todas as coisas de um só olhar que não tem começo nem fim; ele ama de um amor imutável e eterno.
A alma busca seu conhecimento nos objetos exteriores; ela é levada a amá-los pela beleza que neles descobre. Deus conhece tudo em si mesmo, sua ciência é a regra suprema de tudo o que existe; é sua ciência que, junto com seu amor, tirou do nada todas as criaturas; a bondade que está nelas é um reflexo da bondade divina. Digamos, com Santo Agostinho, que Deus não conhece as coisas porque elas são, mas as coisas são porque Deus as conhece. Deus não ama as coisas porque elas são boas, mas elas são boas porque Ele as ama. É seu conhecimento que as faz ser, é seu amor que as faz boas.
Procuremos, então, entrar neste grande e insondável mistério da vida divina. Deus se conhece a si próprio e conhece todas as coisas em si. Deus se ama e ama todas as coisas em si. Ora, por uma infinita bondade de sua natureza, o seu ato de conhecimento se termina numa pessoa divina que é seu Filho, e o seu ato de amor se termina em outra pessoa divina que é o Espírito Santo.
Examinaremos separadamente estes dois atos divinos, contemplando primeiro a geração eterna do Filho e em seguida a Processão do Espírito Santo.