O NATURALISMO

Pe. Emmanuel-André

Apresentação

Abra este livrinho, leitor católico, com a certeza de nele encontrar uma análise profunda daquilo que resta de catolicismo na nossa sociedade. O Pe. Emmanuel escreveu-o no século passado, mas temos a impressão que assiste ao que nós vivemos.

Na verdade, as realidades expostas pelo autor só fizeram se acentuar nestes cem anos que nos separam da sua redação. O catolicismo desapareceu da vida social, Nosso Senhor Jesus Cristo não reina mais sobre as nações; nossas famílias se vêem ameaçadas por todos os lados: o espírito naturalista, tendo penetrado nos lares cristãos, não deixa nada intacto, e os melhores deixaram-se corromper pelo liberalismo reinante.

Dentro do esforço empreendido há mais de trinta anos de restauração de uma elite católica, mais uma vez pedimos ajuda ao Pe. Emmanuel, certos de que sua fé profunda, associada a uma rara penetração nos assuntos de que trata e de uma grande simplicidade de expressão, proporcionará aos nossos leitores uma boa ocasião de conhecerem melhor o perigo que corremos de diminuir nossa santa religião, deixando-nos contaminar pelo naturalismo.

É preciso defender nossa fé, defender a Santa Igreja dos ataques dos seus inimigos. Viver em torno da Cruz, em torno do altar de Nosso Senhor, porque «o justo vive de fé». Isso quer dizer viver da vida sobrenatural, ou seja, da Caridade, que é o amor de Deus presente em toda nossa vida, nos nossos interesses, nos nossos atos. Assim fazendo fugiremos do espírito naturalista e trabalharemos para a vida eterna.

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

ÍNDICE

 

O Naturalismo Teórico

Capítulo I - ............................................................ .

Capítulo II - , visto pela Imitação de Cristo............... .

Capítulo III - .............

Capítulo IV - ............................................

Capítulo V - .

Capítulo VI - ............................................

O Naturalismo Prático

Capítulo VII - ...........................................................

Capítulo VIII - .............................................................

Capítulo IX - ........................

Capítulo X - ................................................

Capítulo XI - ............................................

 

O Naturalismo Teórico

Capítulo I

O que é o Naturalismo

 

 

Capítulo II

A natureza e seu mal, vista pelo autor da Imitação de Cristo

 

Capítulo III

Explicação dos termos: natural, sobrenatural, graça

 

Capítulo IV

Uma profissão de fé naturalista

 

Capítulo V

As ilusões naturalistas sobre o amor de Deus e do próximo

 

Capítulo VI

O naturalismo entre os católicos

 

Capítulo VII

As chagas da natureza

 

Capítulo VIII

Os pecados capitais

 

Capítulo IX

A moral do decálogo e a moral independente

 

 

Capítulo X

 

As ignorâncias do naturalismo

 

Três conhecimentos fundamentais são necessários à humanidade. É da mais alta importância conhecer a sua origem, seu fim e os meios de alcançá-lo.

A fé nos traz todas as luzes que podemos desejar sobre essas graves questões: Quem sou? De onde venho? Para onde vou? Que caminho tomar? Nossas crianças católicas o sabem melhor do que todos os sábios da antiguidade grega e romana, chinesa ou hindú. E as luzes que nossas crianças têm sobre esses assuntos são puras e livres de todo perigo de erro; são claras tanto quanto o permite o estado da criatura neste mundo: são consoladoras, acima de tudo o que se possa dizer e, depois de todas as satisfações que nos trazem nesta vida, nos levam por um caminho seguro às alegrias da bemaventurada eternidade.

Na pura luz da fé sabemos que viemos de Deus e que vamos para Deus e que não há outro caminho a não ser o caminho do Deus feito homem para salvar os homens.

Eis o que é claro sobre a nossa origem e sobre a verdadeira dignidade do homem; claro sobre o fim para o qual devemos tender, claro ainda sobre os meios necessários para chegar ao nosso fim, que é a participação da felicidade de nosso Criador.

É nessas santas e divinas luzes que repousam nossas pequenas almas, e ali, elas estão ao lado dos mais sublimes gênios que honram a humanidade. Os grandes e os pequenos, os mais simples e os mais sábios saboreiam a mesma paz na unidade de uma mesma fé, de uma mesma esperança, de um mesmo amor.

É aí que o homem encontra o repouso de seu espírito, a paz de seu coração, o remédio para os seus males, o freio para suas paixões, o campo de ação aberto para todas as suas faculdades, a condição, a regra, a lei de todo o progresso, de toda perfeição, de toda felicidade possível nesta vida e na outra. Vem o naturalismo, semelhante a um flagelo desencadeado pelo inferno, e começa por nos tirar tudo o que possuíamos como cristãos. Arranca-nos o amor que temos no coração, a esperança que brilha no firmamento de nossa alma, a fé que nos esclarece o passado, o presente e o futuro.

O naturalismo nos arranca tudo. É impossível, repetimos, impossível, para ele, nos dizer se somos criatura ou Criador, se nós somos nós ou alguma partícula de um grande todo. Sobre nossa origem não sabe nada de nada.

E depois de ter produzido essas trevas três vezes profundas, gaba-se de bastar para tudo.

Mas, para bastar para tudo é preciso não ter falta de nada. E o que constitui o naturalismo é precisamente estar fora de toda verdade, de toda luz. O naturalismo é, pois, a própria indigência e, por conseqüência, a própria impotência.

Quem não tem nada, nada pode.

Mas o naturalismo tem, no entanto, alguma coisa: pretensões. E essas pretensões são, por si mesmas, uma nova demonstração de sua impotência.

Na verdade, o naturalismo nunca pode unir duas almas. Por mais forte razão nunca poderá falar à humanidade, nem persuadi-la, nem esclarece-la, nem lhe dar a paz, nem torna-la feliz.

O naturalismo não tem nada, não pode nada, não é nada; e esta é a última palavra que diremos sobre ele.

 

 

Capítulo XI

 

O remédio para o naturalismo.

 

Acabamos com o naturalismo: dissemos-lhe a última palavra que ele merece. Agora nos dirigimos aos homens de fé que estão interessados em nos ler e lhes dizemos: Vigiai! Recebemos de Deus a fé, a graça, o Batismo, a Crisma, a Eucaristia, todos os grande benefícios do Redentor que curam nossas almas e as recolocam no estado sobrenatural e na via da salvação eterna.

Mas trazemos em nós essa natureza cujo mal é o naturalismo. Nosso dever é não decair do estado sobrenatural onde nos pôs a graça do Redentor. A decadência poderia acontecer de diversas maneiras. «Non uno modo sacrificatur trangressoribus Angelis – há mais de uma maneira de sacrificar aos anjos transgressores», dizia Santo Agostinho.

A graça do Salvador, que nos foi dada, leva-nos não somente a fazer obras sobrenaturais, como os atos de fé, de esperança e de caridade, mas, além disso, leva-nos a sobrenaturalizar os atos que, por si mesmos, são de ordem natural, como beber e comer, andar e falar, sofrer e trabalhar, e o resto que nos toma uma boa parte de nossa curta vida.

É o que nos ensina claramente o apóstolo São Paulo: «Tudo o que fizerdes em palavras ou por obras, fazei em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando por ele, graças a Deus Pai».(Col.III,17.).

Depois, querendo expressamente fazer compreender que nesse mandamento estão as obras mais estritamente da ordem natural, diz: «Logo, ou comais ou bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus».(I Cor.X,31).

Assim, os cristãos não têm com que se enganar: devem fazer sobrenaturalmente as obras essencialmente sobrenaturais e tanto quanto possível elevar até um fim sobrenatural as obras que são naturais em si mesmas.

Um cristão não pode comer por comer, nem dormir por dormir, nem trabalhar por trabalhar. Nisso, como em todas as coisas, ele deve relacionar sua vida e suas obras a um fim mais elevado, ao cumprimento da vontade de Deus: deve fazer tudo para agradar a Deus, tudo pela glória de Deus, segundo a palavra do apóstolo. Todo ato que não preencher essas condições é pecado ou matéria de pecado.

É pecado, se é feito para obedecer a uma das três concupiscências, que procuram sempre se apoderar de nossos atos e fazer-nos decair da ordem sobrenatural. É matéria de pecado se, por falta de vigilância, a alma se expõe à queda, esquecendo a palavra de Nosso Senhor: «Vigiai e orai, a fim de não cairdes em tentação!» (1)

O pecado é a porta pela qual, do estado sobrenatural, o cristão cai no naturalismo.

Cai, não fazendo atos sobrenaturais; cai também, naturalizando, por assim dizer, os atos sobrenaturais.

Assim, um cristão que faz suas orações com a mesma seriedade com que diz bom dia ao vizinho, que recita simplesmente as fórmulas que encontra na memória e nos seus hábitos; que vai a Igreja como a qualquer outro lugar; que escuta a palavra de Deus com o mesmo gosto que escuta qualquer outra; que assiste à Missa esperando o fim; que comunga na Páscoa porque é de bom tom; que não faz mal a ninguém porque é correto, etc.,etc., tal cristão está longe de levar uma vida sobrenatural.

Ainda pior é usar as coisas sobrenaturais para servir a interesses terrestres, a fins naturais, digamos melhor: impregnados de naturalismo. A esse respeito escutemos Bossuet:

«Cristãos, o que corrompe nossas devoções até a raiz é que ao invés de as relacionarmos com a nossa salvação, pretendemos fazê-las servir a nossos interesses temporais.»

O interesse temporal ser o fim das devoções é uma verdadeira impiedade, é um naturalismo semelhante ao antigo paganismo.

«Então, caridosos por interesses e piedosos por obrigação, damos um pouco a Deus para recebermos muito; e satisfeitos com o nosso zelo, que não passa de solicitude por nossos próprios interesses, achamos que Deus nos deve tudo, até milagres, para satisfazer os desejos de nosso amor próprio

O cristianismo eleva a natureza para Deus: o naturalismo abaixa Deus até a natureza; tocamos com o dedo a impiedade causada por ele.

«Que religião! Cremos ter feito tudo pela Virgem Santíssima, quando elevamos sua glória acima do coro dos anjos, e levamos sua santidade até o momento de sua concepção. Mas se a mancha original lhes faz tanto horror, porque não combatem em si mesmos a avareza, a ambição e a sensualidade, que são sua infeliz seqüela?»

Avareza, ambição e sensualidade; amor ilícito pelo dinheiro, pela glória e pelo prazer: são as três concupiscências. Se Bossuet falasse hoje em dia, não deixaria de acrescentar: Se lhes agrada tanto exaltar o Coração de Jesus, porque não se inclinam a essa palavra de Jesus: «Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração».

«Estranha ilusão com a qual o inimigo do gênero humano nos fascina! Ele não pode arrancar do coração do homem o princípio da religião, que ele sabe que está profundamente gravado; ele lhe dá então, não seu verdadeiro emprego, mas um divertimento alegre, afim de que, enganado por essa aparência, acreditemos ter satisfeito, por nossos tíbios cuidados, as sérias obrigações que a religião nos impõe: Não se enganem, Cristãos!»

Assim, os pequenos cuidados, as devoções mesquinhas, que não atrapalham a natureza e deixam que a concuspicência reine facilmente, esses pequenos cuidados não nos dipensarão nunca das nossas sérias obrigações. Se nos enganamos com isso, tratemos de nos desenganar. Nossa grande obrigação é amar a Deus sobre todas as coisas. A obediência a esse grande mandamento nos eleva acima da natureza, nos salva totalmente do naturalismo, nos leva para a vida sobrenatural e, de lá, diretamente para a vida eterna.

Por isso, amemos o bom Deus!