SEXTO CAPÍTULO
O Naturalismo entre os católicos

Pe. Emmanuel-André

O naturalismo é um mal antigo; é verdade que, em nossos dias, ele chegou a limites extremos. Mas precisamente por ser um mal antigo, ele penetrou lá mesmo onde todas as entradas lhe deviam estar fechadas. Os próprios católicos, muitas vezes, são enganados por opiniões naturalistas. Por exemplo, a fé nos ensina tudo o que devemos a Nosso Senhor Jesus Cristo; o naturalismo quer constituir a natureza sem o Redentor e assim não lhe dever nada. Como conseqüência infeliz da difusão do mal, muitos católicos pensam não dever tudo ao Redentor e, de bom grado, prestam uma homenagem exagerada às forças e aos poderes da natureza.

Há muito tempo que o naturalismo, sob as aparências de opiniões permitidas, se infiltrou em muitos espíritos, mesmo nos melhores.

Sobre esse assunto, transcrevemos aqui uma das cartas que recebemos a respeito de nossos artigos sobre o naturalismo que nos chegou com o seguinte título:

O Cardeal de Berulle e o naturalismo

«Conjuro o senhor a levar até o fim a vigorosa campanha que empreendeu contra o naturalismo para a alegria das almas e o triunfo da graça de Nosso Senhor. Para empregar uma locução célebre: O naturalismo é para nós , o inimigo.

Eis uma pequena passagem sobre as origens do naturalismo que poderá edificar muitos leitores do Bulletin . Foi tirado de uma edificante compilação das vidas dos Padres do Oratório, escrita no começo do século passado (sec.XVIII) pelo padre Cloyseault, oratoriano, e reeditada pelo Padre Ingold, do novo Oratório. O texto que lhe envio foi tomado da vida do Padre Gibieuf, um dos discípulos mais íntimos do Cardeal de Bérulle.

"Naquele tempo – diz o Pe.Cloyseault – as discussões sobre a graça não haviam ainda chegado ao ponto a que chegaram mais tarde e era permitido a cada doutor, de boa fé, ter o sentimento que quisesse sobre esse assunto, desde que apoiado sobre a autoridade de alguns escolásticos, sem que ficasse exposto nem à censura nem à crítica de ninguém. O Pe. Gibieuf que, enquanto estivera na Sorbonne, quase que só se ocupara em ler os escolásticos dos últimos tempos, deles recebeu opiniões no tocante às questões da graça que estavam muito mais apoiadas sobre raciocínios humanos do que sobre a autoridade das Escrituras divinas. Ainda que, depois de ter entrado para o Oratório, ele tenha se dedicado inteiramente aos exercícios de piedade, tenha se curado de várias máximas falsas, das quais havia se alimentado anteriormente, no entanto isso não impedia que, de tempos em tempos, ele raciocinasse sobre essas questões da graça de acordo com os princípios que tinha. O Pe. Bérulle, cuja conduta era cheia de doçura e de paciência, não julgou apropriado, no início, fazê-lo ver a falsidade de tais colocações, temendo dar lugar a discussões escolásticas; contentava-se, algumas vezes, em dizer-lhe amavelmente: "O senhor me parece um pobre cristão; não tem bastante gratidão por Jesus Cristo: tem, certamente, mais obrigações para com Ele do que pensa". Outras vezes, explicando-lhe a profundidade das chagas que o pecado de Adão fez no homem, ele levava-o a concluir o quanto somos devedores ao Libertador que nos tirou de um estado tão deplorável. Enfim, desejando que seu espírito fosse esclarecido do alto, invocou as luzes do Espírito Santo sobre ele. Felizmente chegou um dia em que, tomando-o como acompanhante em uma visita de caridade, enquanto o Pe. Berulle falava com a pessoa que tinha ido ver, o bom Pe. Gibieuf tirou de seu bolso as epístolas de São Paulo para ler alguns versículos; e, à medida que meditava seu sentido, sentiu como que escamas lhe caírem dos olhos. As trevas de seu espírito se dispersaram e achou-se de tal modo penetrado das mais sublimes luzes deste Apóstolo, no tocante à graça de Jesus Cristo, que não podia conceber como tinha tido opiniões tão contrárias à verdade e tão indignas de Jesus Cristo. Depois desse tempo, dizia estar surpreso de ter caído em erros tão grosseiros como crer que alguém pode se salvar sob a lei da graça sem conhecer e amar Jesus Cristo em toda a sua vida; que fosse possível, no paganismo, merecer o céu sem a graça e que devêssemos nossa salvação mais à nossa própria vontade do que à misericórdia desse divino Salvador. Ficou tão plenamente penetrado da abundância e da eficácia desse dom que Deus nos fez em Jesus Cristo, seu Filho, que disto falava com tal unção que encantava todos os que o ouviam, e chegava a transmitir seus efeitos, de uma maneira muito santa e eficaz, às almas que tinham a vantagem de estar sob a sua direção"».

Depois de nos dar esse relato muito instrutivo e edificante, nosso correspondente continuou dizendo que esse texto mostra:

1. Que existiam no começo do século XVII opiniões demasiadamente humanas no tocante à graça de Deus, opiniões que induziam a diminuir o valor do inestimável benefício da Redenção;

2. que essas opiniões, carregadas de naturalismo, tinham livre curso nas escolas e nas próprias faculdades de teologia;

3. Que tinham imbuído delas mesmo os bons espíritos e que paralisavam em muitos padres a graça do santo ministério;

4. Que as luzes do Espírito Santo, sozinhas, têm poder para destruir completamente esses preconceitos, digamos melhor, esses erros grosseiros. A meditação das Epístolas de São Paulo é igualmente excelente remédio.

Em nossos dias, Nosso Santo Padre, Leão XIII, nos propõe um outro remédio que, no fundo, é a aplicação dos dois primeiros: o estudo aprofundado da tradição da Igreja apresentada por São Tomás de Aquino.

A este propósito, Reverendo Padre, poderia o senhor me dizer porque...»

Na verdade, nosso honrado correspondente nada tem a aprender conosco.

 

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