QUINTO
CAPÍTULO
As ilusões naturalistas sobre o amor
de Deus e do próximo
Pe. Emmanuel-André
Quando a cólera de Deus lança sobre uma população o temível flagelo que se chama peste, alguns são atingidos e feridos de morte; outros, sem serem precisamente tocados pelo flagelo, sofrem de um mal estar às vezes considerável.
O naturalismo é para as almas uma verdadeira peste. Os que são atingidos em cheio são, por isso mesmo, postos fora da vida da salvação. Semelhantes a esses pestilentos que é preciso isolar do resto dos homens, eles se excomungam a si mesmos. Neste caso o naturalismo é levado até a heresia formal, renovando as impiedades de Arius e Pelágio e assumindo sobre si todos os anátemas com que a Igreja abateu essas horríveis heresias.
Mas o mal se mostra algumas vezes em estado mais benigno. Evita tudo o que é heresia e com isso se faz passar por inofensivo. Mas não quer abraçar, de modo algum, o sobrenatural divino em sua plenitude. Procura de bom grado pequenas querelas contra ele e se mantém, a seu respeito, em atitude de desconfiança. Numa palavra, prefere a natureza do que o natural.
Mesmo nesse estado que parece benigno o naturalismo é um mal perigoso. Para demonstrá-lo basta duas das numerosas ilusões nas quais costuma lançar as almas.
Todos sabem que para nós, cristãos, o grande mandamento é amar a Deus; o segundo, que é semelhante ao primeiro, é amar ao próximo.
Ora, dizemos que, a respeito desse duplo dever, o naturalismo lança as almas em ilusões muito funestas.
Deus que nos criou, pôs no fundo da nossa natureza uma inclinação invencível para amar o bem em geral. E como Deus é o soberano Bem, o único Bem das almas, as almas, naturalmente, devem se voltar para Deus. Todo homem que pensa e medita no Autor de seu ser, sente-se naturalmente voltado para ele. É um dever ao mesmo tempo de justiça e de gratidão. E as noções de justiça e de gratidão têm sobre nós um poder tão grande que não podemos nos furtar desse dever e é sempre honroso cumprir deveres fundados em tão autênticos títulos.
Sem o pecado original, a natureza se voltaria diretamente para seu Criador. Mas a ignorância e a concupiscência, frutos infelizes da queda original, fazem com que, muitas vezes, a alma pare diante de bens passageiros, se distraia e se acostume a amar ninharias em lugar de elevar seu amor até a fonte de seu ser.
Mesmo nesse estado de queda a lei de Deus permanece: Amarás o senhor teu Deus. E a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo nos torna possível, fácil e doce a observação do grande mandamento.
O mal é que, com freqüência, depois de ter perdido a graça, depois de ter decaído da caridade, como continua a encontrar em si o amor do bem em geral, a inclinação natural para amar a Deus, as pessoas se contentam com estas disposições, e crêem estar quites com Deus. Estão em pecado mortal mas, como as inclinações naturais de amar a Deus , de amar o bem em geral, permanecem no fundo da alma, tomam essas disposições naturais, comuns a todos os homens, por disposições pessoais, como se fosse seu estado particular diante de Deus. Este estado, diante de Deus, é de pecado mortal, mas não percebem: as inclinações naturais ficam, são percebidas, contentam-se com elas e se induzem a crer que Deus se contentará também. Dizem para si mesmas: Não quero mal a Deus, sei que Ele é bom; sou inclinado a amá-lo; como Deus poderia me querer mal se eu não lho quero? Seria pior do que eu?
Aqui está, vista no fato, a grande ilusão cuja raiz é o naturalismo. Quantas pobres almas negligenciam os deveres mais essenciais do cristianismo, vivem sem a graça santificante, sem Nosso Senhor Jesus Cristo e, no entanto, afirmam com segurança que amam muito a Deus!
Lembra-nos um infeliz que pôs fim a seus dias, e antes de cometer seu irremediável crime, escreveu um adeus à sua família e nesse escrito, afirmava seu amor pelo bom Deus!
É evidente que ele tomava a inclinação natural de amar a Deus, que todos nós temos, por sua disposição pessoal, que não podia ser mais contrária ao amor de Deus!
O
segundo de nossos grandes deveres é o amor ao próximo. Esse amor tem por base uma inclinação natural que leva todos os seres semelhantes a se associarem, e amar uns aos outros. A Escritura diz: «Omne animal diligit simile sibi». (Ecles,XIII,19).Essa inclinação natural é muito viva e muito poderosa. Muitas vezes ela é mais sensível do que a própria inclinação de amar a Deus. Pois não vemos a Deus e vemos os nossos semelhantes.
É essa inclinação que leva os homens a se ajudarem mutuamente e a prestarem socorro e assistência de mil maneiras e em mil circunstâncias. Essa inclinação é tão poderosa, tão inerente à humanidade que lhe dá seu próprio nome. Ser insensível ao mal de um outro é não ter humanidade; compartilhar do sofrimento do próximo é ser humano, é ter humanidade.
Vindas de Deus, certamente essas inclinações são boas; louvamos suas obras, aplaudimos todas as beneficências. Mas, como cristãos que somos, temos que amar o próximo como Deus quer que o amemos, quer dizer, com amor sobrenatural que quer o bem da vida presente e o bem da vida eterna; com o amor, que é sensível a todas as necessidades do próximo, as do tempo e as da eternidade, as do corpo e as da alma, pois o homem não vive só de pão.
Esse amor sobrenatural que engloba todas as necessidades do próximo, não é um amor facultativo: ele é estritamente e rigorosamente obrigatório.
Mas, quando um cristão perde o amor sobrenatural do próximo, não perde, por causa disso essa inclinação natural de amar seus semelhantes; e a ilusão consiste em se contentar com a inclinação natural, como se ela bastasse para cumprir com o dever de amar o próximo.
Essa nova ilusão não é tão rara quanto se pode acreditar. O senhor X era rico, absorvido por seus negócios, seu comércio, talvez seus prazeres, vivia alheio a Nosso Senhor Jesus Cristo e não dava nada a Deus. Mas era generoso para com os pobres. Morreu quase repentinamente e certamente não teve tempo de se arrepender de uma vida tão pouco cristã. Ora! Ouviram-se vozes que lhe prometeram a vida eterna por suas obras beneficentes, fruto natural da inclinação natural que tinha por seus semelhantes.
A ilusão naturalista consiste em se contentar com as obras naturais, quando Deus pede obras sobrenaturais; em prometer a salvação sem fé, sem a caridade, sem as obras da fé e da caridade; em prometer a salvação pelas obras e para as obras puramente naturais.
Entendido assim, o naturalismo seria pura e simplesmente o pelagianismo.
Preferimos a graça de Deus que cura a natureza, salva-a e a leva à vida eterna.
Deus nos guarde das ilusões do materialismo!
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