QUARTO CAPÍTULO
Uma Profissão de Fé naturalista

Pe. Emmanuel-André

Em Paris, a cidade-luz, como disse Victor Hugo, um homem não batizado publica um jornal chamado La Justice, onde lemos uma declaração de princípios naturalista, apresentada nesse termos:

«O que distingue a ciência da religião não é o dogma teológico, é a própria noção de sobrenatural.

As religiões brigam entre si para saber se há um só Deus ou vários...se os homens tem almas...A ciência não aborda tais dissensões.. Tudo o que escapa à observação e à experiência lhe é estranho. Para ela, são igualmente indiferentes as concepções do judaísmo, do catolicismo, do bramanismo, do fetichismo, do deismo, do teismo, do espiritismo e de todas as teorias que repousam sobre o absoluto e sobre a pura hipótese.

A instrução pública estatal só deve ter por base a ciência....»

Examinemos essa profissão de fé.

«O que distingue a ciência da religião é a própria noção do sobrenatural». Se o autor quisesse dizer que a ciência é um bem da ordem natural e a religião um bem da ordem sobrenatural, só poderíamos aplaudi-lo. Mas seu pensamento está longe disso. Para ele, a ciência só é ciência porque rejeita a noção de sobrenatural.

E nós dizemos que isto não tem nada de científico. Com efeito, vemos a ciência agir de diversas maneiras sobre as naturezas inferiores. Ora o homem decompõe um corpo, transforma-o e, por assim dizer, o faz passar de uma natureza para outra. Tomando um agente natural, o faz operar de uma maneira inteiramente extranatural para tal corpo assim dominado pela ciência. Será natural que o fogo conduza veículos na terra e navios no mar? Será natural que o ferro transmita o pensamento a distâncias incomensuráveis com uma rapidez só igualada pelo raio? Não vemos nisso uma ação humana, realmente natural no homem, mas extra-natural e quase sobrenatural na matéria, elevada pela ciência a um poder que ela não tinha antes?

E, se o homem exerce assim seu poder, elevando à altura da ciência as naturezas que lhe são inferiores, não é lógico admitir que Deus possa exercer um poder análogo sobre sua criatura e elevar o homem ao estado sobrenatural?

A ciência sentiu a força desta razão de analogia; assim, temendo ser levada a reconhecer o sobrenatural divino se ela reconhecesse a natureza divina, tratou de negar a existência de Deus. Ora, uma vez que se entra no caminho das negações vai-se longe. Em breve teremos a prova.

Escutemos nosso autor:

«As religiões...» Somos obrigados a dizer que esse modo de falar não é verdadeiro. A religião é uma só, como a humanidade, como a verdade, como o próprio Deus. Não se diz as religiões assim como não se diz as humanidades, os deuses. Mas, como a verdade é uma e o erro pode ser múltiplo, diz-se: as religiões falsas, diz-se os falsos deuses. Continuemos.

«As religiões discutem entre si para saberem se há um só Deus ou vários deuses. A ciência não aborda tais discussões».

No entanto, tais discussões são muito dignas de um ser racional que efetivamente raciocina. Não há efeito sem causa. À vista das maravilhas da natureza, não será digno da ciência remontar à causa de tudo isso que vemos? O homem, que não se fez a si mesmo, não agiria cientificamente se procurasse raciocinar sobre sua existência, conhecer a causa e o fim de seu ser? Certamente aí está uma ciência que a ciência não pode desdenhar.

Mas distingamos: há ciência e ciência. Há uma ciência que confessa que existe uma causa, uma causa primeira; mas, diz ela, essa causa nos escapa. Em outros termos, nós percebemos bem a verdade, a verdade que é Deus, mas não queremos essa verdade.

É essa a ciência da moda. Deus lhe dá medo, ela O nega. Sua negação não é um ato de ciência, é um efeito do medo.

Mas a verdadeira ciência não tem medo nem receio. Graças à razão que Deus nos deu, ela nos demonstra a existência e a unidade de Deus, a distinção entre o espírito e a matéria, a espiritualidade de nossa alma. A verdadeira ciência goza desta verdade e o estudo que faz de Deus e de suas obras lhe mostra que Deus pode agir e, efetivamente age sobre a natureza, ora por uma ação que deixa a natureza na ordem natural, como quando dá a saúde, a força, a inteligência, ou por uma ação que eleva nossa natureza acima de si mesma, como quando nos dá a fé, a caridade, a bemaventurança.

Tudo isso é bem mais científico do que a ciência vulgarizada. Mas estudemos de mais perto essa ciência: «Tudo o que escapa à observação e à experiência lhe é estranho». A verdadeira ciência emprega precisamente estes dois grandes meios; a experiência e a observação. Observando que não há efeito sem causa, ela remonta à causa primeira que é Deus. Observando que os seres criados são contigentes, remonta ao ser necessário que é Deus. Tudo isso nos parece científico no mais alto nível. Por outro lado, a experiência nos demonstra a impossibilidade de seres que se sucedem por gerações sem que tenha havido um começo que não foi gerado, o que só pode ser a criação. A experiência vem ainda nos demonstrar o Criador que é Deus.

Mas, para nosso autor, a observação intelectual não existe. Para ele só existe a observação materialista, positiva. Depois de ter negado Deus por medo, precisará negar a inteligência humana. É um passo avante no caminho das negações; a ciência materialista deverá ir ainda mais longe. Ela irá e, para bem compreendermos, vamos acompanhá-la.

«Para a ciência... são igualmente indiferentes as concepções do judaísmo, do catolicismo, do bramanismo, do fetichismo, do deismo, do teismo do espiritismo e de todas as teorias que repousam sobre o absoluto e sobre uma pura hipótese».

Notemos, primeiramente, que só as concepções materialistas não são tidas como indiferentes por nosso autor.. Para ele, o materialismo é a ciência. Sua enumeração é calculada à sua maneira, ela é científica. Começa pelo judaísmo e o catolicismo. O que é perfeitamente correto e de acordo com a tradição da humanidade. A verdade vem antes de tudo e nosso autor não perdeu completamente seu património. Façamos a reflexão de Tertuliano: Oh! testemunho de um espírito naturalmente cristão!

Nosso autor lança em seguida os olhos sobre a Ásia e diz: do bramanismo; depois sobre a África e a Oceania : o fetichismo. Está completo, deu a vonta ao mundo.

Continuando, faz uma síntese filosófica e, voltando das regiões do erro às puras luzes da verdade diz: do deismo, do teísmo, do espiritismo. Mas a fraqueza aparece logo, ele acrescenta: E de todas as teorias que repousam sobre o absoluto e sobre uma pura hipótese.

Já que nosso autor sabe filosofia, ele deve compreender que, negando o absoluto, torna impossível o relativo. E desde então não haverá mais nem homens, nem ciência, nem tese, nem hipótese.

Depois de ter negado Deus, precisará negar a inteligência humana; depois precisará negar tudo. A última palavra da ciência será uma negação completa. A ciência terá cavado para si uma fossa e sobre seu túmulo se escreverá um ponto de interrogação: «O que?»

Falta-nos saborear ainda essas palavras: A instrução estatal só deve ter por base a ciência...Gostaríamos de saber como a ciência demonstrará a uma criança que seu pai é seu pai, que sua mãe é sua mãe. «Tudo o que escapa à observação e à experiência lhe é estranho.» Com que observações, com que experiências, a criança conseguirá demonstrar a si mesma quem é seu pai, quem é sua mãe? Até agora a criança aprendia a crer em seu pai e em sua mãe, como aprendia a crer em Deus. Mas a ciência mudará tudo isso. A criança vai se achar diante de uma pura hipótese, de um absoluto inadmissível. Ela só poderá se estabelecer em uma igual indiferença e decretar, em nome da ciência, que não tem pai, que não tem mãe e que é filho da natureza, se é que é filho de alguma coisa.

Não exageramos nada. Pois as conseqüências monstruosas desse naturalismo ímpio são admitidas pela escola que quer a abolição do casamento.

Terríveis conseqüências da lógica. Depois de negar seu Pai que está no céu, nega seu pai daqui da terra. Essa é a profissão de fé do naturalismo.

 

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