TERCEIRO CAPÍTULO
Explicação dos termos: Sobrenatural, Natural, Graça

Pe. Emmanuel-André

Falamos do naturalismo e acertamos no alvo, porque muitos leitores nos escreveram sobre esse interessante assunto. Todos nos encorajam a continuar o trabalho começado e, sem dúvida, para nos ajudar, pedem o desenvolvimento que julgam necessário ou explicações que deverão ser úteis.

Estamos encantados com a cooperação que nos trouxeram. É nossa firme intenção ir ainda mais fundo no assunto do naturalismo a fim de mostrar a todos a necessidade que temos do divino sobrenatural. Comecemos então as explicações que nos pediram.

Chamamos natural tudo que é inerente à constituição do homem composto de um corpo e de uma alma. Chamamos natural tudo o que constitui o corpo, com seu órgãos tão variados, a alma, com suas faculdade tão poderosas e tão belas. Chamamos natural o uso e o desenvolvimento dos órgãos do corpo e das faculdades da alma em tudo o que não eleva a natureza acima dela mesma, acima do conhecimento natural e do conhecimento dela mesma, daquilo que a cerca e até mesmo do seu Criador, porque este pode ser naturalmente conhecido por suas obras, que estão diante dos olhos de todos e falam igualmente a todos uma linguagem que nem todos compreendem igualmente.

Mas como o homem não foi criado para permanecer na medida do natural e Deus quis destiná-lo a um fim superior, não temos que indagar o que o homem teria podido ser, o que ele teria se tornado, se Deus o tivesse criado para um fim que não conhecemos. É preciso dizer agora o que é o sobrenatural.

Chamamos sobrenatural tudo o que encaminha, conduz e faz o homem chegar ao fim sobrenatural que foi do agrado de Deus lhe dar. Fim este que é a participação na felicidade do próprio Deus pela clara visão da própria essência de Deus.

Todo dom de Deus acrescentado à natureza para ajudar o homem a atingir seu fim se chama graça, já que é dado ao homem por uma pura liberalidade de Deus, sem que o homem jamais possa, por si mesmo, elevar-se ao conhecimento, ou ao desejo, e ainda menos ao mérito desses dons sobrenaturais.

A passagem do natural ao sobrenatural é impossível à criatura. Nisso o anjo não pode mais do que o homem. O anjo e o homem receberam de Deus o fim sobrenatural que foi do agrado de sua Majestade soberana lhes assinalar; com esta destinação, receberam também os dons sobrenaturais, sem os quais lhes seria impossível atingir um fim tão alto e tão desproporcionado à natureza, inclusive à angélica.

São Tomás pergunta se o homem pode obter esta suprema felicidade de ver a Deus. E responde: Pode. Sendo a inteligência humana capaz de conhecer o bem supremo e perfeito que é Deus; sendo sua vontade capaz de desejar e de amar, segue-se que o homem é capaz de chegar ao gozo desse bem que está tão acima dele e de achar nesse bem a sua felicidade eterna.

Em seguida, o santo doutor pergunta: O homem, por suas faculdades naturais, pode chegar à felicidade suprema? E responde: Não!

E acrescenta: Existe uma felicidade imperfeita à qual se pode chegar naturalmente nesta vida. Mas, consistindo a bemaventurança do homem na visão do próprio Deus, ninguém pode atingi-la por suas faculdades naturais, nem as do corpo, nem as da alma, as quais não podem atingir a essência divina. Podemos conhecer as obras de Deus, e pela obra conhecer seu Autor. Mas chegar a vê-lo tal como Ele é , isso nos ultrapassa e nos ultrapassa completamente. Se o homem tivesse o poder natural de ver a Deus, de alguma maneira Deus lhe seria submisso, e isso não pode ser. Se, então, o homem chega à visão de Deus é porque Deus quis se revelar a ele, é porque Deus quis lhe dar os meios de ver seu Criador. É ai que está a verdadeira e única felicidade do homem, e ela é toda sobrenatural: sobrenatural em si mesma e sobrenatural no meio de atingi-la.

Dissemos que esse meio é a graça. Mas como dissemos a graça e, em seguida, as graças, um de nossos correspondentes nos pergunta se há diferença entre os dois modos de nos exprimirmos. No fundo não há. Quando dizemos a graça, entendemos tudo o que Deus acrescenta à natureza para conduzi-la à vida eterna. Quando dizemos as graças, temos em vista o conjunto dos dons divinos pelos quais o homem é ordenado à soberana bemaventurança.

Estas graças são, principalmente, ou em primeiro lugar, a fé a esperança e a caridade. A fé, que eleva a inteligência submetendo-a à Revelação divina; a esperança, que eleva e aperfeiçoa o deseja natural que o homem tem de ser feliz, orientando esse desejo para o próprio Deus; enfim, a caridade, que diviniza, de certa forma, a capacidade de amar que Deus nos deu, e aperfeiçoa a disposição da alma para a suprema felicidade, unindo-a a Deus de antemão por meio do mais doce e mais forte vínculo: o vínculo do amor.

Mas, para que o homem chegue realmente a essa suprema felicidade é preciso que ele não apenas tenha recebido essas graças divinas da fé , da esperança e da caridade, mas que nelas persevere; é o que chamamos da perseverança final, a qual assegura, para sempre, a felicidade eterna da criatura, anjo ou homem.

Foi assim que Deus constituiu a humanidade. Nem todos os homens juntos poderão jamais fazer uma revolução tão radical que a constitua de outro modo. O sonho de uma constituição diferente para a humanidade é exatamente a essência do naturalismo.

Porém, se o naturalismo trabalha para tirar da humanidade a única felicidade que lhe foi preparada, não tem nenhum tipo novo de felicidade para lhe oferecer. Nem as riquezas, nem os prazeres, nem as alegrias desta vida podem ser partilhados por todos. Mesmo aqueles que gozam das riquezas e dos prazeres nos dizem que são infelizes.

Os que podem, num sentido relativo e restrito, ser felizes na terra, são os que procuram, desejam e trabalham para merecer a felicidade perfeita na vida eterna.

Se o naturalismo prevalecer, que acontecerá? Os homens serão desviados da felicidade parcial que poderiam conhecer aqui embaixo enquanto procuram a felicidade do alto. Em suma, a terra se tornaria o átrio do inferno.

Quando, na vontade de Deus, ela deveria ser o átrio do Paraíso.

É evidente que o naturalismo é, ao mesmo tempo, um crime contra Deus e contra a humanidade.

Crime contra Deus, de quem rejeita os benefícios, contradiz a Providência, condena a Sabedoria, ultraja a Bondade, provoca a Justiça , atrai os castigos.

Crime contra a humanidade, da qual arruína as esperanças, relaxa os esforços, impede a felicidade no tempo e na eternidade.

Conclui-se, portanto, que o naturalismo, apesar do nome, é inimigo da natureza.

Sob o pretexto de querer seu bem, despoja-a do verdadeiro bem e depois lhe grita: Trabalha e aproveita! Trabalha, se queres e aproveita, se puderes!

O naturalismo derruba tudo e não edifica nada: nos tira tudo e não nos dá nada. Sua obra, obra de Satanás, só faz infelizes. Portanto, como já dissemos: o naturalismo é o mal.

 

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