SEGUNDO
CAPÍTULO
A Natureza e seu mal
Na visão do autor da Imitação de Cristo
Pe. Emmanuel-André
No capítulo anterior mostramos como o espírito naturalista, querendo lisonjear a natureza, só pode enganá-la, lançando-a no impossível e no absurdo. Dissemos que a natureza está doente e a prova é que ela está morrendo. Vamos apresentar e com satisfação, um autor que, tendo estudado a fundo a natureza, e a essência do seu mal, consignou suas conclusões nos seguintes termos:
«Observa com diligência os impulsos da natureza:
Ela é maliciosa e a muitos arrasta, enreda e engana e sempre faz de si mesma seu último fim.
A natureza não quer morrer, nem ser mortificada, nem dominada ou vencida, nem se submete de boa vontade.
Trabalha por sua comodidade e atenta só para o proveito que de outrem lhe advenha.
Recebe com prazer honras e homenagens.
Teme a vergonha e o desprezo.
Ama o ócio e o descanso do corpo.
Procura possuir coisas raras e belas e repele as feias e grosseiras.
Cobiça os bens temporais, alegra-se quando ganha, entristece-se quando perde, irrita-se com a menor palavra injuriosa.
É interesseira; prefere receber do que dar; aprecia o que lhe e próprio e particular.
Inclina-se para as criaturas, para a própria carne, para a vaidade e os passatempos.
Folga com algumas consolações externas que lhe afaguem os sentidos.
Tudo faz por amor do proveito e do interesse próprio; nada sabe fazer gratuitamente, mas só pelos benefícios que espera obter, iguais ou melhores em elogios ou favores e exige que sejam tidos em alta conta seus dons e feitos.
Compras-se de ter muitos amigos e parentes; gloria-se de sua nobre posição e linhagem, sorri para os poderosos, lisonjeia os ricos e aplaude os que lhe são semelhantes.
Depressa se queixa da necessidade e da ofensa e só combate e discute pelos seus interesses.
É curiosa, quer saber os segredos e novidades; quer aparecer e experimentar muitas sensações; deseja tornar-se conhecida e proceder de modo a conquistar louvor e admiração».
Eis uma fotografia da natureza bem anterior à fotografia moderna. O autor deste quadro não é conhecido nem procurou sê-lo. É o autor da Imitação (Liv.III. C. LIV).
Ele nos mostrou a natureza vista na realidade. Sua característica fundamental é o egoísmo e a vaidade.
Disso ela se gloria. E nem tentem lhe dizer que ela está doente!