PRIMEIRO CAPÍTULO
O que é o Naturalismo?

Pe. Emmanuel-André

A fé nos ensina que a natureza humana foi elevada a um estado sobrenatural pelas graças que Deus quis derramar sobre os nossos primeiros pais. Quis que eles fossem não apenas suas criaturas, mas seus amigos. Deu-lhes a fé, a esperança, a caridade, tesouros infinitamente preciosos, pelos quais os homens viriam a merecer bens ainda mais preciosos, uma felicidade infinita no seio do próprio Deus.

O que Deus deu a Adão, destinou a todos os seus filhos, que deveriam receber, ao mesmo tempo, a natureza e a graça.

Este magnífico plano de Deus foi atrapalhado pelo pecado de Adão. Desde então, todos os seus filhos recebem dele a natureza, mas a natureza despojada da graça, manchada pelo pecado, deteriorada quanto ao corpo e quanto à alma. Quanto ao corpo, que tornou-se sujeito às doenças e à morte; quanto à alma, que foi subjugada pela ignorância, pela concupiscência e, finalmente, pela morte eterna.

Sem esses dados da fé, o homem é para si mesmo um mistério inexplicável, porque há no homem traços ainda bem sensíveis de sua primitiva grandeza. Ele aspira à felicidade, que procura com incomparável ardor. Quer a imortalidade. A morte é para ele um enigma. Por outro lado encontra em si inclinações que o fazem enrubescer, apetites que condena mas que desejam ser satisfeitos. Carrega consigo a vergonha e essa vergonha é também um enigma. Porque se envergonhar do que é natural? E, por outro lado, porque a natureza humana traz em si mesma aquilo que a envergonha?

Esses problemas são grandes no presente, porém não maiores do que os do futuro. O que se tornará essa alma que quer ser imortal? Qual será o resultado final da responsabilidade dos atos de cada dia?

Somente a fé pode responder a todas essas questões que têm ocupado os espíritos sérios de todos os tempos. Somente na fé o homem pode encontrar a explicação de sua natureza. E isso é uma prova, entre tantas outras, de que a natureza foi e permanece criada para um fim sobrenatural.

O estado natural, quer dizer, o homem criado em estado puramente natural, sem a graça e sem pecado, é um estado que nunca existiu. A humanidade só conheceu ou o estado de graça ou a decaída da graça, que é, por via de conseqüência, o estado de pecado.

Quando a humanidade estava em estado de graça, caminhava na via da felicidade por onde a mão de Deus a conduzia infalivelmente.

Agora que a humanidade caiu do estado de graça para o de pecado, ela está fora do caminho da felicidade e, por conseqüência, se encontra na via da infelicidade eterna.

A vinda do Redentor retira-nos do caminho infeliz, retira-nos do pecado, nos reintegra na graça de Deus, leva-nos para o céu. Fora da Redenção de Nosso Senhor não há salvação para a humanidade. Só lhe resta sofrer aqui em baixo e tais sofrimentos são apenas o começo dos males que não têm fim.

Eis a verdade.

Ora, existe um sistema pseudo religioso, pseudo filosófico,que pretende abarcar tudo, no presente e no futuro.

Um sistema que não leva em conta a queda primitiva, nem as chagas que carregamos em conseqüência dessa queda.

Um sistema que nem sequer se digna a prestar atenção ao que é, para a nós, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que não leva em conta nosso batismo, nem os sacramentos que recebemos da misericórdia de Deus para a nossa salvação.

Um sistema que, insurgindo-se contra a palavra dita a S. Paulo: "minha graça te basta", diz ao contrário: "a natureza se basta".

Um sistema que, voluntariamente, fecha os olhos à vergonha que levamos em nós mesmos e que, longe de explica-la, põe sua glória naquilo que traz a confusão.

Um sistema que não tendo doutrina sobre a origem de nossa natureza, não tendo doutrina sobre o futuro da humanidade, faz-se de mestre, de doutor, de panegirista da natureza, gritando em todos os tons que, para ela, tudo está bem.

Esse sistema é o naturalismo.

Imaginem um doente que tendo caído, machucado pela queda, queimando de febre, é devorado por uma sede que nada pode aplacar.

Um médico chega e lhe diz: A sede que te devora,a febre que te queima, a dor do que chamas as tuas chagas, não passa de um efeito de tua imaginação trabalhada por preconceitos de infância. Despoja-te de toda essa bagagem, nós trabalharemos em seguida para te fazer conhecer, estimar e seguir a natureza. Suas aspirações são justas e boas. O desenvolvimento de tuas faculdades nativas te convencerá disso cada vez mais. Não digas que tens chagas, não acredites no que chamas febre. E quanto a essa sede, temos calmantes....Não estás doente!

Esse doente é a humanidade, esse médico, o naturalismo.

Tomando a humanidade como ela é, o naturalismo grita-lhe: Vai muito bem, avante!

No nascimento, o registro civil é natural, é o que basta. Depois de um nascimento civil, o casamento civil. E na morte, um enterro civil. Tudo isso se atrai, se encadeia, se sucede.

Os indivíduos podem caminhar nessa via, a humanidade nunca. A humanidade tem outras aspirações às quais os particulares podem se subtrair, mas ela permanece como Deus a fez. Ela existe para o sobrenatural, do qual tem uma necessidade invencível. As grandes indagações se põem necessariamente diante dela: Quem sou? De onde venho? Para onde vou? que caminho seguir?

O naturalismo tem ensaios de resposta. Pode insinua-los a um e a outro, mas não para a humanidade. Ela não crê nisto. Porque ela tem necessidade de crer: isto é sobrenatural e está dentro dela. Mesmo se a matassem não a fariam renunciar ao sobrenatural.

O naturalismo tem seus doutores que vão chegando e dissertando sobre o que chamam religião natural, moral natural.

Gostaríamos de ouvi-los e saber deles em nome de quem eles falam, se são suas próprias palavras ou de um outro. Se são autorizadas ou não. E se são autorizadas, por quem e como? Porque para falar a um homem basta ser homem mas para falar à humanidade é preciso ser Deus ou enviado de Deus.

Gostaríamos de saber se os doutores do naturalismo crêem em suas próprias palavras ou não. Chamamos crer em suas próprias palavras estar pronto a morrer por elas, como os Apóstolos e os mártires de nossa santa religião.

Perguntaríamos também aos doutores do naturalismo se o que chamam religião natural, moral natural, foi praticado em algum lugar ou se ainda é praticado por alguma parte da humanidade. E em que lugar e por quem?

Porque desde que a humanidade é humanidade, a religião e a moral foram sempre ensinadas sobrenaturalmente aos homens. Se aqui ou ali alguns pagãos, dando a si mesmos o nome de filósofos, ensinaram alguma coisa sobre religião e moral, a humanidade deixou-os dissertar à vontade, sem nunca escutá-los.

A humanidade nunca existiu em estado natural. O próprio paganismo se bem que fosse uma imensa aberração, procurava o sobrenatural. Nunca o atingiu, pela simples razão de que depois lhe voltava as costas e pedia luz ao príncipe das trevas.

Os doutores do naturalismo acham que há coisas boas em nosso Decálago, sobretudo nos mandamentos da segunda Tábua.

Se tivessem podido quebrar a primeira, esconde-la para sempre e dizer que a segunda é deles, acreditariam ter feito muito pelo sistema.

Mas não poderiam fazê-lo. O Decálogo é anterior ao naturalismo. O Decálogo, em certo sentido , é muito natural porque regula melhor os deveres da natureza, mas acima de tudo é sobrenatural porque foi entregue por Deus a Adão e depois a Moisés.

O naturalismo pode tomar empréstimos ao Decálogo e até mesmo grandes empréstimos. Mas falta-lhe uma coisa importante: a autoridade para nos falar.

Concedamos que o naturalismo possa formular um código de moral. É evidente que ele não tem autoridade para isso, mas concedamos. O código de moral uma vez editado, teria de ser guardado.

Mas se a natureza é entregue a si mesma, não lhe acontecerá seguir suas próprias inclinações (que não são nem levadas em conta) mais do que as lições de moral dos doutores do naturalismo?

Suponhamos mesmo que a natureza quisesse guardar os preceitos desses doutores, que meios teriam eles para fortifica-la contra suas próprias deficiências? Infelizmente não têm nenhum! Não podem fazer absolutamente nada a esse respeito.

A instrução, a instrução, dirão! Ora a instrução se dirige ao espírito e não pode curar uma vontade doente. Pela instrução não se pode curar o mal e, muito pelo contrário, freqüentemente abre-se com ela uma porta para que o mal aumente.

As estatísticas judiciárias nos permitem saber quantos crimes são cometidos por gente instruída, porém instruída de modo naturalista.

A instrução que moraliza só pode ser dada por uma instituição sobrenatural que se chama a santa Igreja Católica.

Impotente para curar a natureza e sem autoridade para instruir, em suma que pode fazer o naturalismo? Uma só coisa, lisonjear a natureza. E para isso ele se põe em posição nada lisonjeira.

Primeiramente, ele se divide. O que já não é uma prova de força. Divide-se em naturalismo espiritualista e naturalismo materialista.

O naturalismo materialista, para dizer a verdade, não é um sistema, é uma brutal negação. Mas nessa negação há uma lógica formidável. O naturalismo negou a ordem sobrenatural contentando-se com a natureza e em seguida é levado a negar a alma humana, contentando-se em ser corpo, carne e sangue.

Há ai uma justiça de Deus, adoremo-Lo. Mas quando o naturalismo se faz assim materialista, deixamos de argumentar com ele.

Consideremos agora o naturalismo espiritualista que quer reconhecer a existência de Deus e a imortalidade da alma.

A imortalidade da alma leva consigo a alternativa das recompensas ou dos castigos na vida futura.

O naturalismo espiritualista nos concede esta verdade.

A qual acrescentamos: Se um dia a alma deverá ser assim feliz ou infeliz, o que acontecerá com o corpo? Será ou não participante desse estado feliz ou infeliz da alma?

Neste ponto o naturalismo não está sobre um leito de rosas.

Se ele diz que o corpo ressuscitará, é apanhado em flagrante delito porque transporta para a natureza o que é da ordem sobrenatural. Se o sobrenatural é indispensável ao fim, porque repelir no começo?

Se, por outro lado, o naturalismo tem um horror persistente pelo sobrenatural e diz: não, o corpo não ressuscitará, o sistema cai em dois grandes inconvenientes. O primeiro é destruir a moral que prescreve deveres nos quais o corpo tem sua parte, porque se o corpo não tem nada a esperar depois da vida presente, porque não gozará nela, a seu modo, diga o que diga a moral? O segundo inconveniente é que, voltando o corpo ao nada, o sistema destrói a natureza.

Eis como o naturalismo, depois de ter repelido a graça, chega inevitavelmente a destruição da natureza.

Assim o naturalismo é o mal.


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