A REVOLUÇÃO EXPLICADA
DE
LOUIS-GASTON DE SÉGUR
O
Protestantismo
“O
melhor meio de descristianizar a Europa”, escrevia Eugène Sue, “é
torná-la protestante”.
“As seitas protestantes, acrescenta Edgar Quinet, são as mil portas abertas para sair do Cristianismo”.
Depois de ter exposto a necessidade de
se terminar com toda
religião, acrescenta:
“Para
alcançar este fim, eis as duas vias que se abrem diante de vós. Podeis atacar,
juntamente com o catolicismo, todas as religiões da terra, e especialmente as
seitas cristãs; neste caso, tereis contra vós todo o universo. Ao contrário,
podeis armar-vos de tudo o que é oposto ao catolicismo, especialmente de todas
as seitas cristãs que lhe fazem guerra. Juntando a elas a força da revolução
francesa, poreis
o catolicismo no maior perigo que jamais correu.
"Eis
porque me dirijo a todas as crenças, a todas as religiões que combateram Roma:
elas estão todas, quer queiram, quer não, dentro das nossas tropas, posto que,
no fundo, sua existência é tão inconciliável quanto a nossa no que toca o domínio de Roma.
"Não
apenas Rousseau, Voltaire, Kant, estão conosco contra a eterna opressão; mas
também Lutero, Zwingle, Calvino etc., toda a legião de espíritos que combatem
com seu tempo, com sua gente, contra o mesmo
inimigo que nos bloqueia o caminho neste momento.
"Que
há de mais lógico no mundo senão fazer um só feixe das revoluções que há
três séculos surgiram no mundo, e de reunir-lhes em uma mesma luta, para
conseguir a vitória sobre a religião da Idade Média?
Se
o século dezesseis arrancou metade da Europa das cadeias do Papado, é exigir
demais do século dezenove que finalize a obra na metade restante?”.
Destruir
o cristianismo, “esta supertição caduca e maléfica”, tal é a
meta desejada pela liga infernal na qual os protestantes estão englobados, “quer
queiram quer não”
— e por isso
mesmo de serem protestantes. Destruir o cristianismo por meio do protestantismo,
eis a tática que adota a Revolução com plena esperança de sucesso.
O
que dizeis disso, leitores? A Revolução é coisa grande e nobre? merece nossas
simpatias? sua obra pode-se conciliar com a fé do cristão? Por ventura a
caluniamos se a anatematizamos como detestável e satânica?
Tertuliano
dizia outrora do cristianismo: “Ele não teme senão uma coisa: não ser
conhecido“. A Revolução diz o contrário: não teme senão a luz. A luz tira
dela, não digo tudo que há de religioso, mas de honesto entre os homens.
Nono
Capitulo
Se a Revolução
se mostrasse tal como é, espantaria todas pessoas honestas.
Ela se esconde sob nomes respeitáveis, como o lobo sob a pele do cordeiro.
Valendo-se do aspecto religioso que a Igreja
há dezoito séculos imprime aos ideais de liberdade, progresso, lei, autoridade, civilização, a
Revolução se adorna com todos estes veneráveis nomes e assim seduz muitos espíritos
sinceros. Ao escutá-la, ela não quer senão a felicidade dos povos, a
destruição dos abusos, a abolição da miséria; a todos promete o
bem-estar, a prosperidade, e não sei que era de ouro desconhecida até aqui.
Não
acreditai. Seu pai, a velha serpente do paraíso terrestre, dizia o mesmo à pobre Eva: “Não tema, escute-me, e sereis como deuses”. Bem
sabemos os deuses que nos tornamos. Os povos que escutam a Revolução são logo
punidos por onde pecam; se as cidades se tornam mais bonitas, se as estradas de ferro
se multiplicam, se a industria prospera (o que não é, repitamos bem alto, um
evento da Revolução, mas o simples resultado de um progresso natural), a miséria
pública aumenta por todo lado, a alegria esvai-se, tudo se materializa, os
impostos se decuplicam, todas as liberdades desaparecem; em nome da liberdade,
voltamos pouco a pouco à brutal escravidão pagã; em nome da civilização,
perdemos todos os frutos das conquistas do cristianismo sobre a barbárie; em nome da
lei, uma autoridade sem freios e sem controle nos impõe todos os seus
caprichos, eis o progresso!
Como, de resto, o bem poderá originar-se do mal? E como o princípio de
destruição poderá edificar alguma coisa?
“Nosso princípio, disse um audacioso revolucionário, é
a negação de todo
dogma; nossa contribuição, o nada. Negar, sempre negar, eis o nosso método:
ele levou-nos a estabelecer como princípio: em religião, o ateísmo; em política, a
anarquia; em economia política, a não-propriedade”.[1]
Desconfiemos,
pois, da Revolução; desconfiemos de Satã, sob qualquer nome que se
esconda!
Pobres cordeiros, quando escutareis a voz do bom pastor que quer defender-vos da mordida do lobo, e
arrancar da besta celerada a pele de ovelha, sob a qual penetra até o centro do
aprisco?
Décimo
Capítulo
A imprensa não é por sua natureza nem boa nem má. É uma poderosa
invenção que pode igualmente servir ao bem ou ao mal; tudo depende do uso que
dela se faz.
É preciso
reconhecer, todavia, que por conseqüência do pecado original, a imprensa muito
mais
serviu ao mal que ao bem, e que dela se abusa em formidáveis proporções.
Em nosso século, a imprensa é
a grande alavanca da Revolução. Para
falar somente do jornalismo, que é a imprensa no seu estado mais ativo e
influente, ninguém pode negar que o maior perigo, tanto para o trono como para o
altar, são os jornais. Sem sair de nossa querida França, de quinhentos e
quarenta jornais, não há talvez senão trinta que sejam verdadeiramente
católicos.
Para oitenta ou cem mil leitores de jornais que respeitam a fé, a Igreja, o
poder, os princípios, cinco ou seis milhões de homens engolem todos os dias o
veneno destruidor que lhes oferecem, gota a gota, os jornais ímpios.
Que me perdoem tal comparação: a imprensa é, nas mãos da Revolução,
um grande aparelho para adestrar os homens. Quando queremos ensinar uma
melodia a um pássaro, repetimos para ele dez ou vinte vezes por dia esta
melodia, como um recurso ad hoc. Os chefes do partido revolucionário, para formar,
como se diz, a opinião pública, para fazer penetrar nas cabeças suas idéias
nefastas, recorreram à imprensa; a cada dia, eles giram a manivela; a cada dia,
repetem em seus jornais a melodia que querem impingir ao publico, e logo os canários
cantam — eis a opinião pública.
Quanto à Igreja, que não quer aprender a
melodia, tenta-se outra coisa. A Revolução procura confundi-la. Ela pretende, como
sabemos, que a
Igreja católica não está mais à altura do século. Com uma benevolência
hipócrita, finge querer adaptá-la às idéias modernas — no fundo, quer
matá-la. Ela aproxima-se da Igreja, e apresenta-lhe seu pérfido aparelho: a
imprensa; diz belas e doces palavras; faz declarações piedosas; cuida de
entorpecer os guardiões da fé. A Igreja desconfia; o Papa e os bispos
recusam-lhes o consentimento. Então a Revolução tira a mascara, transforma seu
aparelho em maquina de guerra e ataca frontalmente este inimigo que não
conseguiu nem
doutrinar nem sufocar.
E o que digo do jornalismo
da França, é preciso dizer, com mais forte razão talvez, do jornalismo da Inglaterra,
da Bélgica, da Prússia, da Alemanha, da Suíça
e, sobretudo, do Piemonte e da pobre Itália. Mil e quatrocentos ou mil e
quinhentos jornais são publicados a cada dia na Europa; destes, quantos há que sejam
sinceramente devotos à Igreja?
Compreendemos, contudo, que não poderia ser diferente, quando
penetramos um pouco nos mistérios da redação dos jornais. Salvo honráveis e mui
raras exceções, os jornalistas de carreira exercem, às expensas do público,
uma verdadeira profissão. Não possuem convicções religiosas nem políticas; sua
consciência está dentro do tinteiro, e eles vendem sua pena a quem oferecer
mais. Conforme o interesse de suas carteiras, freqüentemente esvaziadas na
libertinagem, pleiteiam com nobre ardor os prós e os contras, e se riem de seus crédulos leitores. Atiçam o espírito de oposição a fim de multiplicar
a quantidade de subscritores —
os jornais mais malignos e superficiais são freqüentemente os de maior êxito. Eis os educadores da sociedade! Eis
em que mãos caiu a consciência pública!
Sob o impulso das sociedades secretas, o jornalismo revolucionário atiça
todas as penas contra a Igreja; ele fará com que a fé na Europa se perca, se Deus, em sua
misericórdia, não se apressar para impedir este vasto e infernal complô.
Décimo
Primeiro Capitulo
Todo mundo hoje fala dos “princípios de 89”, mas quase ninguém sabe
o que isto é. Não é surpreendente; as palavras com que foram formulados são
tão elásticas, tão mal definidas, que cada qual as entende como quer. O povo,
míope e honesto, não encontra nelas nada de propriamente mal; os demagogos, no
entanto, encontram seu prêmio. Há, por estes princípios, uma estranha
afetação de ternura; encontram-se eles inscritos em vinte bandeiras rivais. Todos os defendem contra todos;
e, segundo o que todo mundo diz, todos os falseiam, ou os comprometem ou os
traem. Ensaiemos aqui,
à luz infalível da fé católica, não de os falsear, nem de os comprometer, nem
de os trair, mas de compreendê-los bem, de sondar suas profundezas, e de descobrir, nos seus
recuos secretos, a velha serpente que é sua alma. Não exageraremos nada, mas
tentaremos nós tudo ver.
Vendo
o trabalho daqueles que com orgulho são chamados pais da liberdade, fundadores da sociedade moderna, veremos, segundo a expressão de Bossuet,
“se aqueles que são glorificados como reformadores do gênero humano diminuíram ou
aumentaram os males, e se devemos considerá-los como reformadores que corrigem
o gênero humano ou antes como pragas enviadas por Deus para puni-lo”.
Em 1789, enquanto a Assembléia Constituinte destruía,
pela lei do mais forte, a antiga constituição da Igreja na França; suprimia, em 4 de
agosto, as justas taxas que a fazia viver; em 27 de setembro, espoliava nossas igrejas de seus vasos sagrados; em 18 de outubro, extinguia
as Ordens Religiosas; em 2 de novembro, roubava as propriedades eclesiásticas,
preparando assim o ato herético e cismático chamado Constituição civil do
clero —
promulgada no ano seguinte —
esta mesma assembléia formulava em dezessete artigos isto que chamamos de declaração dos direitos do homem, e
que deveríamos ter nomeado a supressão dos direitos de Deus. Estes artigos
contêm princípios sociais, e são tais princípios que se tornaram célebres
sob o título de “princípios de 89”.
Os católicos, na louvável intenção de
conquistar para a Igreja as simpatias
da sociedade moderna, procuraram demonstrar, não sem dificuldade, que os princípios
desta celebre declaração não eram opostas nem à fé nem aos direitos da
Igreja. Esta tese poderia talvez se sustentar, se fosse possível, em uma questão
de natureza essencialmente prática, limitar-se ao rigor gramatical das palavras, fazendo abstração
do espírito que as anima, do espírito que as ditou, do espírito que as aplica
e que manifesta seu verdadeiro sentido. Infelizmente, os princípios de 89
não são letra morta; eles traduzem-se nos fatos, nas leis, nos
atentados que não permitem que se tenha nenhuma dúvida sobre o seu verdadeiro
caráter;
a Revolução, a Revolução anticristã, proclama como seus os princípios e lhes
confere a glória de suas pretensas luzes; os revolucionários não cessam de os
invocar contra a Igreja.
Como se explica que estes famosos princípios não
causem revolta a todas pessoas honestas? Ora, é que o verdadeiro se encontra
aqui habilmente misturado com o falso, e que o falso transcorre aqui, como sempre,
protegido contra a verdade.
Entre os princípios de 89,
com efeito, alguns são boas e velhas verdades
do direito francês ou do direito publico cristão, que os abusos do cesarismo galicano
tinham colocado no ostracismo, e que a ignorância ingênua de nossos Constituintes
fez com que fossem tomados por descobertas maravilhosas. Alguns outros são verdades
de senso comum, que não ousaríamos mais formular seriamente em nossos dias; mas todos estes princípios são dominados por
um outro princípio,
que dá a toda esta declaração seu verdadeiro espírito: o princípio
revolucionário da independência absoluta da sociedade, que declara rejeitar, a
partir de então, toda a direção cristã; não mais depender senão de si mesma;
não ter
por lei outra que sua vontade, sem se preocupar com o que Deus ensina e
prescreve por sua Igreja. A vontade do povo soberano é substituída à vontade de
Deus soberano, a lei humana desprezando a verdade revelada, o direito puramente
natural fazendo abstração do direito católico; em uma palavra: os supostos direitos do homem tomam
o lugar dos eternos direitos de Jesus Cristo: esta é, em verdade, a declaração de 1789.
Até
então, a Igreja era reconhecida como a voz de Deus perante as sociedades, assim
como perante os indivíduos; e se, há alguns séculos, este direito
de alta direção moral era ignorado na prática, nunca pelo menos se
ousara negá-lo formalmente.
Assim,
os princípios de 89, considerados um a um, estão bem longe de serem
revolucionários; mas seu conjunto, e sobretudo a idéia que os domina, constituem
uma audaciosa revolta do homem contra Deus, uma cisão sacrílega entre a
sociedade e Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei dos Povos e Rei dos Reis. O que
reclamamos dos princípios de 89 é deste elemento de revolta anticristã; não
repudiamos, mas reivindicamos como nossas as grandes máximas da
verdadeira liberdade, da verdadeira igualdade e da verdadeira
fraternidade universal, que a
revolução falsificou e que pretende ter dado ao mundo.
Conscientemente, um católico não pode admitir todos os princípios de
89. Menos ainda pode participar do espírito que os dita e que, desde sua aparição,
os interpreta e os aplica.
Sendo
este um assunto demasiado complexo, precisemo-lo em seguida um pouco mais.
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