A REVOLUÇÃO EXPLICADA    

        

            

DE LOUIS-GASTON DE SÉGUR

   

   

                            

SÉTIMO Capítulo: QUAIS SÃO AS ARMAS ORDINÁRIAS DA REVOLUÇÃO.

 

Ela mesma o disse e o experimentou muitas vezes: “Para combater os príncipes e os carolas, todos os meios são bons; tudo é permitido para fazer com que desapareçam: a violência, as artimanhas, o ferro e o fogo, o veneno e o punhal: o fim santifica os meios”. (Carta de um revolucionário da Alemanha a um franco-maçom). Ela torna-se tudo para todos, para ganhar o mundo inteiro para sua causa. A fim de perverter os cristãos, a fim de embotar-nos o senso católico, ela serve-se da educação, que falseia; do ensino, que envenena; da historia, que falsifica; da imprensa, da qual faz o uso que conhecemos; da lei, da qual veste a toga; da política, que inspira; da própria Religião, da qual toma por vezes as aparências para seduzir as almas. Ela se serve das ciências, nas quais encontra um meio de se insurgir contra Aquele que é o Deus das ciências; serve-se das artes, que se tornam, sob sua influência mortal, a perdição da moral publica e a deificação da volúpia.

 

Desde que Satã atinja seu objetivo, pouco importa os meios. Ele não é tão minucioso quanto pensamos, nem seus aliados.

  

Podemos dizer, todavia, que a principal característica dos ataques da Revolução contra a Igreja, é a audácia na mentira. É pela mentira que ela abala o respeito pelo Papado, que vilipendia nossos Bispos e padres, que ataca violentamente as instituições católicas mais veneráveis e que prepara a ruína da sociedade. Pela mentira cínica e perseverante, a Revolução fascina e seduz as massas sempre pouco instruídas e pouco habituadas a suspeitar da boa fé daqueles que lhes falam. A cada mil homens que ela vem a seduzir, 999 são vitimas desta tática odiosa.

 

oitavo Capítulo: se a conspiração anticristã é uma quimera.

A Revolução, preparada pelo paganismo da Renascença, pelo protestantismo e pelo voltairianismo, nasceu na França, no final do último século [N. da P: o autor refere-se ao século XVIII]; as sociedades secretas, já poderosas naquela época, presidiram a seu nascimento. Mirabeau e quase todos os homens de 1789, Danton e Robespierre, e os demais celerados de 1793, pertenciam a tais sociedades. Em seguida, o centro revolucionário mudou de lugar; foi para a Itália, e é aí que a Venda, ou Conselho Supremo, dirige, com prudência de serpente, o grande movimento, a grande revolta em toda Europa. Destacamos apenas a Europa, pois é ela a cabeça do mundo.

 

A Providencia permitiu que, nestes últimos anos, vários documentos autênticos da conspiração revolucionaria caíssem nas mãos da policia romana. Eles foram publicados, e aqui damos deles alguns extratos.

 

A Revolução mesma nos dirá, pela voz de seus conhecidos chefes:

 

1.    que ela tem um plano de ataque geral e organizado;

2.    que, para reinar, está decidida a corromper, e corromper sistematicamente;

3.    que ela o aplica sobretudo aos moços e ao clero;

4.    que suas armas são reconhecidamente a calunia e a mentira;

5.    que a franco-maçonaria é seu noviciado preparatório;

6.    que busca filiar-se aos próprios príncipes ao mesmo tempo que lhes deseja destruir;

7.    enfim, que o protestantismo para eles é um poderoso auxiliar.[1]

 

O Plano Geral — Este plano é universal; a Revolução quer minar, em toda Europa, toda hierarquia religiosa e política. “Nós formamos uma associação de irmãos no globo inteiro; temos votos e interesses em comum; todos desejamos a emancipação da humanidade; queremos romper toda a espécie de julgo. A associação é secreta, mesmo para nós, os veteranos das associações secretas”.[2]

    

“O sucesso de nossa obra depende do mais profundo mistério, e, nas Vendas, devemos-nos encontrar os iniciados, como o cristão d´A Imitação, sempre prontos a desejar não serem conhecidos nem tidos em conta para nada.”[3]

    

"A fim de dar a nosso plano toda a extensão que deve tomar, devemos agir silenciosamente, na surdina, ganhar pouco a pouco o terreno e não perdê-lo jamais”.[4]

    

Não é uma conspiração ordinária, uma revolução como tantas outras; é a Revolução, quer dizer, a desorganização fundamental, que não pode ocorrer senão gradualmente e depois de esforços longos e constantes. “O trabalho que vamos empreender não é a obra nem de um dia, nem de um mês, nem de um ano: ele pode durar vários anos, um século talvez; mas, em nossas linhas, o soldado morre e o combate continua”.[5]

 

A Itália por causa de Roma; Roma por causa do papado, eis o alvo da conspiração sacrílega. “Desde que estabelecemo-nos como um grupo de ação e que a ordem começou a reinar, tanto no fundo da Venda mais afastada do centro, como no seio da mais próxima, há um pensamento que sempre preocupou profundamente os homens que aspiram à regeneração universal: a emancipação da Itália, donde deverá se originar, num dado dia, a emancipação de todo o mundo. Nossa meta final é a mesma de Voltaire e da Revolução francesa: destruir para sempre o catolicismo e mesmo a idéia do cristianismo, que, se permanecer de pé sobre as ruínas de Roma, o perpetuará mais tarde”.[6]

    

“É de fracasso em fracasso que se chega à vitória. Tenhamos, portanto, os olhos sempre abertos para o que se passa em Roma. Difamem os padrecos por toda sorte de meios; façam no centro da catolicidade o que todos nós, individualmente ou em grupo, fazemos nas beiras. Afrontem com ou sem motivos, pouco importa, contanto que afrontem. Nestas palavras estão todos os ingredientes do sucesso. A conspiração melhor urdida é aquela que mais agita e compromete as pessoas. Tenhamos mártires e vitimas; sempre arranjaremos pessoas que saberão dar a isto as cores necessárias”.[7]

   

"Não conspiramos senão contra Roma. Para tal, sirvamo-nos de todos incidentes, aproveitemos todas as eventualidades. Evitemos principalmente os excessos do zelo. Um belo ódio bem frio, bem calculado, bem profundo, vale mais que todos os fogos de artifício e todas as declamações da tribuna. Em Paris, eles não querem compreender isto; mas, em Londres, vi homens que compreendem melhor nosso plano e que se associam a ele com mais frutos”.[8]

       

Eis agora o segredo revolucionário dos atuais acontecimentos: “A unidade política da Itália é uma quimera; porém, embora seja antes quimera que realidade, gera um certo efeito sobre as massas e sobre a juventude efervescente. Sabemos que consideração devemos ter por este princípio: ele é vão e assim sempre o será; todavia, é um meio de agitação. Não devemos, assim, nos privarmos dele. Lançai a difamação em pequenos rumores, inquietai a opinião, ponde o comércio em xeque; sobretudo, jamais aparecei. Este é o mais eficaz dos meios para lançar a suspeita sobre o governo pontifical.”[9]

    

“Em Roma, os progressos da causa são sensíveis; existem sinais que não enganam olhos experientes, e sentimos de longe, de muito longe, o movimento que se inicia. Por sorte, não temos a petulância dos franceses. Queremos deixá-lo amadurecer antes de o explorar; esta certamente é a única maneira de agir. Tu sempre me disseste que nos ajudaria quando o vazio atingisse a bolsa comum. Sabes por experiência que o dinheiro está por toda parte, sobretudo aqui, que é o centro nervoso da guerra. Ponha à nossa disposição muito, muito dinheiro. É a melhor artilharia para destruir a Sé de Pedro”.[10]

      

“Ofertas consideráveis foram-me feitas em Londres: logo teremos em Malta uma gráfica à nossa disposição. Poderemos, então, impunemente, com certeza, sob o pavilhão britânico, espalhar de uma ponta à outra da Itália os livros, brochuras etc., que a Venda julgar interessante pôr em circulação. Nossas gráficas na Suíça estão em bom caminho; elas imprimem os livros tal como os desejamos”.[11]

       

Depois de 25 ou 30 anos, a conspiração confere seus progressos. Ela conta com a França para a ação, reservando a Itália à alta direção; ela menospreza os outros povos: os franceses são “prepotentes demais”, os ingleses, "tristes demais", os alemães, "nebulosos demais". Aos seus olhos, somente os italianos reúnem as capacidades para o ódio, o cálculo, a astúcia, a discrição, a paciência, o sangue frio e a crueldade necessárias para o triunfo. “No espaço de alguns anos, adiantamos consideravelmente as coisas. A desorganização social reina em todo lugar, tanto ao norte como no sul. Todos estão no patamar aonde queríamos rebaixar a espécie humana. Foi muito fácil de perverter. Na Suíça como na Áustria, na Prússia como na Itália, nossos sequazes só esperam um sinal para rachar os velhos moldes. A Suíça propôs-se dar o sinal; mas os radicais suíços não são capazes de conduzir as Sociedades secretas no assalto à Europa. É preciso que a França imprima seu selo nesta orgia universal. Estejam convencidos de que Paris não faltará à sua missão”.[12]

          

“Encontro por toda Europa os espíritos muito inclinados à exaltação: todo o mundo reconhece que o velho mundo acaba e que os reis estão ultrapassados. A colheita que ceifei foi abundante; a queda dos tronos não é mais dúvida para mim, que acabo de estudar o trabalho de nossas Sociedades na França, na Suíça, na Alemanha e até na Rússia. O assalto que, daqui a alguns anos, atingirá os príncipes da terra, os enterrará sob as ruínas seus exércitos impotentes e suas monarquias caducas; mas esta vitória não é aquela que motivou tantos sacrifícios. O que nós ambicionamos não é uma revolução num ou noutro país; esta sempre se obtém quando a aceitamos. Para matar com certeza o velho mundo, cremos ser necessário sufocar o gérmen católico e cristão”.[13]

    

“O sonho das sociedades secretas cumprir-se-á pela mais simples das razões: ele é calcado nas paixões dos homens. Não desistiremos por causa de uma falha, de um revés, de uma derrota; preparamos nossas armas no silêncio das lojas; apontamos todas as nossas baterias, instigamos todas as nossas paixões, tanto as piores como as mais generosas, e tudo nos leva a crer que o plano vencerá um dia, a despeito de nossos cálculos mais improváveis”.[14]

    

Este é o plano; vejamos agora os meios.

 

A Corrupção — Escutemos aqui confissões ainda mais terríveis: “Somos muito adiantados para nos contentar com assassinatos. Para que serve um homem morto? Não individualizemos o crime; a fim de crescer até as proporções do patriotismo e do ódio contra Igreja, nós devemos generalizá-lo. O catolicismo não tem mais medo de um estilete bem afiado que as monarquias; mas estes dois pilares da ordem social podem cair sob a corrupção: não deixemos portanto jamais de corromper. Foi decidido em nossos conselhos que não queremos mais cristãos; assim, popularizemos o vício nas multidões. Que elas o respirem pelos cinco sentidos, que o bebam, que se enfastiem dele. Faça os corações viciosos e não teremos mais católicos”.[15]

 

Que elogio para a Igreja! “Poupemos os corpos, mas matemos o espírito. É a moral que nos importa atingir; é o coração que devemos ferir. É pelo princípio da humanidade política que creio dever propor tal meio”.[16]

 

Por ocasião da morte publicamente impenitente de dois de seus agentes, executados em Roma, o chefe da Alta Venda comenta: “Suas mortes de réprobos produziu um efeito mágico nas massas. É uma primeira proclamação das Sociedades Secretas, e uma primeira tomada de posse das almas. Morrer na praça do Povo, em Roma, na cidade mãe do catolicismo, morrer franco-maçom e impenitente, é admirável! — Infiltrai o veneno nos corações escolhidos, escreveu outro destes demônios encarnados, infiltrai-o em pequenas doses e como que por acaso; vós vos surpreendereis do vosso sucesso. O essencial é isolar o homem de sua família, de fazer com que ele perca a moral. Ele já é bem disposto, pela inclinação de seu caráter, a fugir das obrigações do casamento, a correr atrás dos prazeres fáceis e das alegrias proibidas. Ele ama os longos bate-papos do café, a ociosidade dos espetáculos. Conduzi-o, iludi-o; dê-lhe uma importância qualquer. Ensine-o discretamente a irritar-se com seus trabalhos diários. Com esta astúcia, após ter-lhe separado de sua família e de seus filhos, após ter-lhe mostrado quão penosos são todos os deveres, inculcai nele o desejo de uma outra existência. O homem nasceu rebelde; atiçai o desejo da rebelião até o incêndio; mas que o incêndio não venha a se explodir. É esta uma preparação para a grande obra que deveis começar.”[17]

     

“Para uma grande obra, é preciso uma consciência larga que não se atemorize por ocasião de uma aliança adúltera, da fé publicamente violada, das leis da humanidade arrojadas aos seus pés.”[18]  

    

A Alta Venda resume ela mesma este infernal complô: “É a corrupção a larga que devemos empreender, a corrupção do povo pelo clero e do clero por nós, a corrupção que deve nos levar a pôr um dia a Igreja no sepulcro. Para exterminar o catolicismo, dizemos, é preciso primeiramente suprimir a mulher. Seja; mas, se não se pode suprimir a mulher, corrompamo-la, bem com à Igreja. Corruptio optimi pessima. O objetivo é excelente para instigar a homens como nós. O melhor punhal para ferir a Igreja no coração é a corrupção. Ao trabalho então, até o fim!”.

 

A corrupção dos moços e do clero

      

Os “corações escolhidos” que a revolução procura preferencialmente são os moços e os padres; ela ousa até aspirar a formar um papa.

     

“Precisamos ir à juventude; é ela que temos de seduzir, que devemos conduzir, sem que ela o pressinta, sob nossas bandeiras. Que todo o mundo ignore vossos desígnios! Deixe de lado a velhice e a idade madura; vamos à juventude, e, se possível, à infância. Jamais tenha para ela palavras de impiedade ou impureza; resguardai-vos disso pelo interesse da causa. Conservai todas as aparências de homem grave e moral. Uma vez estabelecida vossa reputação nos colégios, nos liceus e universidades, nos seminários, uma vez conquistada a confiança de professores e estudantes, juntem-se àqueles que se comprometem na milícia clerical.

 

Excitai, incendiai estas naturezas tão plenas de incandescência e orgulho patriótico. Oferecei-lhes, em seguida, mas sempre secretamente, livros inofensivos; assim, elevareis aos poucos vossos discípulos até que deliberadamente se deixem inflamar. Quando, sob todos os aspectos, este trabalho diário tiver difundido nossos ideais tal qual a luz, podereis apreciar a sabedoria de tal discrição”.

   

“Construí uma reputação de bom católico e de puro patriota. Tal reputação dará facilmente acesso às nossas doutrinas ao jovem clero como, em realidade, aos conventos. Dentro de alguns anos, este jovem clero terá, pela força dos acontecimentos, se apoderado de todas as funções; ele governará, administrará, julgará, formará o conselho do soberano: ele será chamado à escolher o Pontífice que deverá reinar, e este Pontífice, como a maioria de seus contemporâneos, será necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios italianos e humanitários que vamos pôr em circulação. Para atingir esta meta, utilizemos todos nossos disfarces”.[19] — “Devemos empreender a educação imoral da Igreja, e alcançar, por pequenos passos bem graduados, mesmo que sejam minúsculos, o triunfo da idéia revolucionária por um papa. Este projeto sempre me pareceu um trabalho sobre-humano”.[20] Sobre-humano de fato; pois ele está em linha direta com Satã. O personagem que se esconde sob o nome de Nubius descreve em seguida este papa revolucionário que ele ousa esperar: um papa fraco e crédulo, sem sagacidade, honesto e respeitado, imbuído de princípios democráticos. “São mais ou menos nestas condições que devemos encontrar um, se isto é possível. Com isto marcharemos mais seguramente para o assalto da Igreja, que com os panfletos dos nossos irmãos da França ou mesmo com o ouro da Inglaterra. Para fender a pedra sobre a qual Deus construiu sua Igreja, nós teríamos o dedo mindinho do sucessor de Pedro metido neste complô, e este dedo valeria, para esta cruzada, o que valeram todos os Urbanos II e São Bernados da cristandade”.[21]

     

“Se quiserdes revolucionar a Itália”, acrescentam estes prosélitos do inferno “procurai um papa cujo perfil possamos moldar. Que o clero marche sob vosso estandarte sempre crendo marchar sob a bandeira das Chaves apostólicas. Desejai fazer desaparecer a ultima sede dos tiranos e opressores, preparai vossas redes, lançai-as no cerne das sacristias, dos seminários e dos conventos; e se não vos precipitardes, vos prometemos uma pesca miraculosa: pregareis uma revolução em tiara e casula, caminhando com a cruz e a bandeira; uma revolução que não precisará senão de um pouquinho de estímulo para para atear fogo nos quatro cantos do mundo”.[22] É admirável como eles mesmos sentem que tudo depende do papa!

     

É consolador ver-lhes constatar com desgosto que não puderam começar a corromper nem o Colégio dos Cardeais nem a Companhia de Jesus. “Os cardeais escaparam todos das nossas redes. As bajulações melhor esquematizadas não serviram de nada; nem um membro do Colégio dos Cardeais sequer prestou atenção.”

     

“Falhamos completamente com os Jesuítas. Desde que conspiramos, tem se mostrado impossível lançar as mãos sobre um Inaciano; é preciso saber o porquê desta obstinação tão unânime; porque nunca pudemos, nenhum de nós, conhecer o ponto fraco da couraça?” Acrescentamos ainda: “Não temos Jesuítas entre nós; mas podemos sempre dizer e fazer dizer que os há, e isso dá absolutamente no mesmo”.[23]

 

A mentira e a calunia

    

Satã é o pai da mentira, pater mendacii. A primeira revolução foi perpetrada pela mentira: eritis sicut dii. Filhas daquela, todas as outras são feitas pelo mesmo procedimento. Mais elas são graves, mais mentirosas são. Ora, hoje as mentiras, as hipocrisias, os sofismas tramados contra a Igreja com arte infernal, circulam entre nós mais numerosos que os átomos do ar. De onde vêm? Ouvi a Revolução:

    

“Os padres são confiáveis; mostremo-los suspeitos e pérfidos. A multidão sempre teve uma extraordinária propensão às contra-verdades; enganemo-la. Ela ama ser enganada”.[24] — “Há pouco a fazer com os velhos cardeais e prelados cujo caráter é firme. É necessário escolher, em nossos arsenais de popularidade ou impopularidade, as armas que tornarão seu poder inútil ou ridículo. Uma palavra que habilmente inventemos e que disseminemos com arte em certas famílias honestas escolhidas, para que daí ela desça até os cafés da rua — uma palavra pode, algumas vezes, matar um homem. Se surgir um destes prelados para  exercer função pública, conhecei o quanto antes seu caráter, seus antecedentes, suas qualidades e, sobretudo, seus defeitos. Cercai-o com todas as armadilhas que puder colocar sob seus pés; criai para ele uma daquelas reputações que amedrontem as criancinhas e as velhas senhoras; mostrai-o cruel e sanguinário; contai alguns traços de crueldade que possam facilmente gravar-se na memória do povo. Quando os jornais estrangeiros receberem de nós tais escritos, que por sua vez adornarão, indubitavelmente, por respeito à verdade, exibi-os, ou antes, fazei exibir através de qualquer respeitável imbecil (aviso aos apregoadores de escândalos religiosos!) estas folhas onde estarão relatados os nomes e os excessos conferidos aos personagens. Como a França e a Inglaterra, a Itália não carecerá jamais destas penas que se costuram nas mentiras que são úteis a uma boa causa (aviso aos jornalistas!). Com um jornal, o povo não precisa de outras provas. Ele está na infância do liberalismo e crê nos liberais[25]“. O velho Voltaire está ultrapassado!

       

A franco-maçonaria

     

Não se é traído senão pelos seus. A franco-maçonaria faz o que pode para nos fazer crer que ela é a mais inocente, a mais banal das sociedades filantrópicas. Eis que a Revolução mostra, talvez imprudentemente, sua verdadeira identidade.

      

“Quando insinuardes em algumas almas o desgosto pela família e pela religião — uma vem quase sempre seguida da outra — deixe sair algumas palavras que provoquem o desejo de ser afiliado da Loja maçônica mais próxima. Esta vaidade do cidadão ou do burguês de se afiliar à franco-maçonaria tem qualquer coisa de tão banal e de tão universal, que estou sempre admirado com a estupidez humana. Tornar-se membro de uma Loja, sentir-se, longe de sua mulher e filhos, chamado a guardar um segredo que nós jamais vos confiamos, é, para algumas naturezas, uma volúpia e uma ambição. As lojas são um lugar de depósito, uma espécie de haras, um centro pelo qual é preciso passar antes de chegar até nós. Sua falsa filantropia é pastoral e gastronômica; mas ela tem um objetivo que é preciso encorajar sem cessar. Ensinado a portar uma arma e erguer seu copo, roubamos a vontade, a inteligência e a liberdade de um homem; dispomo-lo, inclinamo-lo, estudamo-lo; adivinhamos seus pendores e tendências; quando estiver maduro para nós, dirigimo-lo à sociedade secreta, com relação a qual a franco-maçonaria não é senão a antecâmara mal iluminada”.

         

“Contamos com as Lojas para duplicar nossas linhas; elas formam sob seus cuidados nosso noviciado preparatório. Discorrem sem parar sobre os perigos do fanatismo, sobre a alegria da igualdade social, e sobre os grandes princípios da liberdade religiosa. Ela distribui, como dois banquetes, anátemas impressionantes contra a intolerância e a perseguição. É quase o necessário para formarmos adeptos. Um homem imbuído destes belos princípios não está mui distanciado de nós; não é preciso mais que coopta-lo. A lei do progresso social está aqui, todo aqui; não vale a pena procurar além. Mas não retireis a máscara jamais; circulem pelo covil católico; como um bom lobo, peguem de passagem o primeiro carneiro que se oferecer nas condições requeridas”. [26]

         

As Lojas encarregam-se de confirmar esta apreciação, e fazem-nos vislumbrar a perversidade desta poderosa instituição tão-dita inofensiva: “Se a maçonaria, dizia recentemente um dos Veneráveis, devia confinar-se no círculo estreito que lhe querem traçar, de que serviria uma vasta organização e o imenso desenvolvimento que lhe são conferidos?... A hora de arriscar-se soou; o perigo tornou-se imenso; é necessário agir... Em toda parte o inimigo mobiliza-se... A hidra monacal” (é como entendem aqui a hierarquia católica) “tão freqüentemente esmagada, ameaça-nos novamente com suas cabeças horrendas. Em vão, no século dezoito, ufanamo-nos de ter esmagado a infâmia, infâmia que renasce mais vigorosamente, mais intolerante, mais rapace e faminta que nunca. É preciso confrontar altar com altar, ensinamento com ensinamento”. Enfim, os cavaleiros maçons prestam seu juramento “de reconhecer, como desgraça dos infelizes e do mundo, os reis e os fanáticos religiosos, e de ter-lhes sempre como repugnantes”. Tudo isto foi extraído de discursos oficiais, pronunciados nos últimos anos, pelos grandes mestres e outros Veneráveis, em numerosas assembléias “onde as consciências se resguardam, onde se diz alto o que todos sabem baixo”.

        

Compreendem agora porque a Santa Sé condenou a franco-maçonaria, e porque é proibido afiliar-se a ela sob pena de excomunhão?

       

        

        

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[1] Estas citações são literais e autenticas. Elas foram, com diversas repetições, publicadas na Itália, Bélgica e na França, sem que a Revolução ousasse desmenti-las. Veja-as in extenso na interessante obra de Monsenhor Crétineau-Joly, L´Eglise romaine em face de la Revolution.

[2] Carta de um correspondente em Londres .

 

[3] Carta escrita de Roma, por um líder da Haute-Vente ao correspondente alemão, Nubius a Volpe. Estes são nomes de guerra. Um destes chefes era ligado ao gabinete do príncipe de Metternich.

 

[4] Carta do correspondente de Ancona a Haute-Vente.

[5] Instrução secreta e geral da Vente Suprême.

 

[6] Instrução secreta.

 

[7] Instrução da Vente Suprême.

 

[8] Carta de um chefe a agentes superiores da Vente piemontesa.

 

[9] Carta de um correspondente de Ancona.

 

[10] Nubius ao correspondente da Alemanha.

 

[11] Carta a Vente piemontesa.

 

[12] Carta do correspondente de Viena a Nubius.

 

[13] Carta do correspondente de Livorne a Nubius.

 

[14] Instrução da Vente Suprême.

 

[15] Teoria da Haute Vente; carta de Vindice a Nubius.

 

[16] O chefe da Haute Vente a Vindice.

 

[17] Correspondência da Vente piemontesa.

 

[18] Proudhon.

 

[19] Instrução secreta.

 

[20] Nubius a Volpe.

 

[21] Instrução secreta.

 

[22] Instrução secreta da Vente Suprême.

 

[23] O correspondente de Livorne; Beppo a Nubius.

 

[24] O correspondente de Ancona a Haute Vente.

 

[25] Instrução secreta da Haute Vente.

 

[26] Correspondência da Vente piemontesa.