A REVOLUÇÃO EXPLICADA

      

DE LOUIS-GASTON DE SÉGUR

 

     

     

TERCEIRO Capítulo: A REVOLUÇÃO É FILHA DA INCREDULIDADE.

    

Para julgar a Revolução, é suficiente saber se cremos ou não em Jesus Cristo. Se o Cristo é Deus feito homem, se o Papa é seu Vigário, se a Igreja é sua enviada, é evidente que as sociedades tal como os indivíduos devem obedecer às direções da Igreja e do Papa, que são direções do próprio Deus. A Revolução, que erige em princípio a independência absoluta das sociedades com relação à Igreja, a separação da Igreja e do Estado, declara-se, por isso mesmo, “incrédula no Filho de Deus, e já foi julgada”, conforme o Evangelho.

    

A questão revolucionária é definitivamente uma questão de fé. Qualquer um que creia em Jesus Cristo e na missão de sua Igreja, não pode ser revolucionário se é lógico; e todo incrédulo, todo protestante, se é lógico, deve adotar o princípio apóstata da Revolução e, sob sua bandeira, combater a Igreja. A Igreja católica, de fato, se não é divina, usurpa tiranicamente os direitos do homem.

    

Jesus Cristo é Deus? Todo poder pertence-lhe na terra como no céu? Os pastores da Igreja, com o Soberano Pontífice à sua frente, têm ou não têm, de direito divino, pela ordem mesma do Cristo, a missão de ensinar a todas as nações e a todos os homens o que é preciso fazer e o que é preciso evitar para cumprir a vontade de Deus? Há algum homem, príncipe ou plebeu, há alguma sociedade, que tenha o direito de repulsar este ensinamento infalível, de se subtrair a esta insigne direção religiosa? Está tudo aqui! É uma questão de fé, de catolicismo.

     

O Estado deve obedecer a Deus vivo, tanto quanto o individuo e a família; para o Estado como para o indivíduo, está em jogo a vida. 

     

     

QUARTO Capítulo: QUEM É O VERDADEIRO PAI DA REVOLUÇÃO E QUANDO ELA NASCEU.

     

Há na Revolução um mistério, um mistério de iniqüidade que os revolucionários não podem compreender, pois somente a fé, que eles não possuem, pode dar a chave.

    

Para compreender a Revolução, é preciso remontar até ao pai de toda revolta, que primeiro ousou dizer e ousa repetir até o final dos séculos: Non serviam, não obedecerei.

     

Satã é o pai da Revolução. A Revolução é sua obra, começa no céu e se perpetua pela humanidade a cada era. O pecado original, pelo qual Adão, nosso primeiro pai, igualmente revoltou-se contra Deus, introduziu na terra não ainda a Revolução, mas o espírito de orgulho que é seu princípio; e desde então o mal cresceu sem parar, até a aparição do cristianismo, que o combateu e o fez recuar.

       

A Renascença pagã, depois Lutero e Calvino, Voltaire e Rousseau, despertou o poder maldito de Satã, seu pai; e, favorecido pelos excessos do cesarismo, este poder recebeu, no início da revolução francesa, uma espécie de consagração, uma constituição que ela não tinha tido até então e que faz dizer com justiça que a Revolução nasceu na França em 1789. “A revolução francesa, dizia em 1793 o feroz Babeuf, não é senão a precursora de uma revolução bem maior, bem mais solene, e que será a última”. Esta revolução suprema e universal que já cobre o mundo, é a Revolução. Pela primeira vez, desde seis mil anos, ela ousou designar-se perante o céu e a terra por seu nome verdadeiro e satânico: a Revolução, quer dizer: a grande revolta.

       

Ela tem por lema, como o demônio, a famosa frase: Non serviam. Ela é satânica em sua essência; e, ao derrubar todas as autoridades, tem por fim último a destruição total do reino do Cristo sobre a terra. A Revolução, não esqueçamos, é antes de tudo um mistério de ordem religiosa; é o anticristianismo. É isto que constatou, em sua encíclica de 8 de dezembro de 1849, o Soberano Pontífice Pio IX: “A Revolução é inspirada pelo próprio Satã. Sua meta é destruir de alto a baixo o edifício do Cristianismo e de reconstruir sobre suas ruínas a ordem social do paganismo.” Admoestação solene confirmada a risca pelos próprios fiéis da Revolução: “Nossa meta final, diz a instrução secreta da Vente Supreme, nossa meta final é aquela de Voltaire e da Revolução Francesa, a aniquilação definitiva do catolicismo e mesmo da idéia cristã.” 

   

   

QUINTO Capítulo: QUEM É O ANTI-REVOLUCIONÁRIO POR EXCELÊNCIA. 

     

É Nosso Senhor Jesus Cristo no céu, e, na terra, o Papa, Seu Vigário.

   

A historia do mundo é a historia da luta gigantesca de dois chefes de exército: de um lado, Cristo com sua santa Igreja; do outro, Satã com todos os homens que ele perverte e alista sob o maldito pavilhão da revolta. O combate é sempre terrível; vivemos no meio de uma de suas fases mais perigosas, aquela da sedução das inteligências e da organização social daquilo que, perante Deus, é desordem e mentira.

 

Prestes a morrer, um de nossos mais ilustres bispos recentemente revelou o ódio e os projetos da Revolução contra o Soberano Pontífice. “O Papa, escrevia ele com sua mão enfraquecida, tem um inimigo: a Revolução. Um inimigo implacável, que nenhum sacrifício saberá apaziguar, com o qual não há acordo possível. No inicio, não se pedia senão reformas. Hoje, as reformas não bastam. Desmembrai a soberania temporal da Santa Sé; lançai nas mãos da Revolução, pedaço por pedaço, todo o patrimônio de São Pedro não tereis satisfeito a Revolução, nem a tereis desarmado. A ruína da existência temporal da Santa Sé é menos uma meta que um meio, é um encaminhamento à uma ruína maior. A existência divina da Igreja eis o que é preciso aniquilar, até que não reste um vestígio sequer. Que importa, depois disso, que o fraco poder cuja sede está em Roma e no Vaticano seja circunscrito em limites mais ou menos estreitos? Que importa a própria Roma e o Vaticano? Basta que exista sobre a terra ou sob a terra, num palácio ou numa choupana, um homem diante de quem duzentos milhões de homens se prosternarão como diante do representante de Deus, para que a Revolução persiga Deus neste homem. E se, nesta guerra ímpia, vós não tomardes resolutamente o partido de Deus contra a Revolução, se vós capitulardes, então, os comportamentos que vós adotardes para conter ou moderar a Revolução servirão apenas para encorajar sua ambição sacrílega e exaltar suas esperanças selvagens. Fortalecida por vossa fraqueza, contando convosco como cúmplices, mais ainda, contando convosco como escravos, ela vos intimará a segui-la até o termo de suas abomináveis empreitadas. Depois de vos arrancar concessões que consternarão o mundo, ela fará exigências que lhes escandalizarão as consciências.

   

"Não exageramos em nada. A Revolução, considerada, não em seu aspecto acidental, mas naquilo que constitui sua essência, é algo a que nada se pode comparar na longa seqüência de revoluções que a humanidade passou desde a origem dos tempos, e que vemos desenrolar-se na historia do mundo.

   

"A Revolução é a insurreição mais sacrílega que armou a terra contra o céu, o maior esforço que o homem jamais fez, não apenas para separar-se de Deus, mas para substituir-Lhe.

   

“É necessário descatolicizar o mundo, escreveu um dos chefes da Vente de la Haute-Italie; não conspiramos senão contra Roma: a revolução na Igreja é a revolução permanente, é a inversão forçada dos tronos e das dinastias. A conspiração contra a Sé Romana não deveria se confundir com outros projetos”.  

     

     

SEXTO Capítulo: ENTRE A IGREJA E A REVOLUÇÃO, A CONCILIAÇÃO É POSSÍVEL? 

 

Não mais que entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas, entre o céu e o inferno. Antes, leiam:

   

“A Revolução, dizia recentemente uma loja italiana carbonara[1] num documento oculto, a Revolução não é possível a não ser com uma condição: a queda do Papado. As conspirações no estrangeiro, as revoluções na França não alcançarão jamais senão resultados secundários enquanto Roma esteja em pé. Ainda que fracos como poder temporal, os papas têm ainda uma imensa força moral. É portanto sobre Roma que devem convergir os esforços dos amigos da humanidade. Para destruí-la, todos os meios são bons. Uma vez que o papa caia, todos os tronos cairão naturalmente”.

    

“É preciso, disse por sua vez Edgard Quinet, é preciso que o catolicismo sucumba. Sem tréguas contra o Injusto! Não se trata apenas de refutar o papismo, mas de extirpá-lo; não apenas extirpá-lo, mas desonrá-lo; não somente desonrá-lo, mas afogá-lo na lama.” “Foi decidido em nossos conselhos que não queremos mais cristãos”, escreveu a Haute Vente. Voltaire disse outrora: “Destruamos a Infame!” e Lutero: “Lavemos nossas mãos no seu sangue!”

  

A Igreja proclama os direitos de Deus como princípio tutelar da moralidade humana e da salvação das sociedades; a Revolução não fala senão dos direitos do homem e constrói uma sociedade sem Deus. A Igreja toma por base a fé, o dever cristão; a Revolução nada se lhe dá com o cristianismo; ela não crê em Jesus Cristo, descarta a Igreja e impõe-se a si não sei quais deveres filantrópicos que não têm outra sanção que o orgulho do homem decente e o medo dos militares. A Igreja ensina e sustenta todos os princípios de ordem, autoridade e justiça na sociedade; a Revolução os ataca vivamente e, com a desordem e o arbitrário, constitui aquilo que ousa chamar de novo direito das nações, de civilização moderna.

      

O antagonismo é completo: é a submissão ou a revolta, a fé ou a incredulidade. Nenhuma conciliação é possível, nenhum comércio, nenhuma aliança. Guardem isso bem: tudo o que não foi feito pela Revolução, ela odeia; tudo o que ela odeia, destrói. Dê agora a ela o poder absoluto; e, apesar de seus protestos, ela será amanhã o que foi ontem e o que será sempre: a guerra total contra a Religião, a sociedade e a família. Que ela não diga que a caluniamos: suas palavras são conhecidas, assim como seus atos. Lembrem-se do que ela fez em 1791 e 1793, quando foi a autoridade!

      

Nesta luta, um dos dois lados cedo ou tarde será vencido, e este será a Revolução.  Ela parecerá triunfar por algum tempo; poderá obter vitórias parciais, primeiramente porque a sociedade tem cometido, há quatro séculos, em toda Europa, grandes atentados que clamam por castigos; em segundo lugar porque o homem é sempre livre, e a liberdade, mesmo quando dela se abusa, constitui um grande poder; mas, depois da Sexta-feira Santa sempre vem o Domingo de Páscoa, e é o próprio Deus quem, de seus lábios infalíveis, disse ao chefe visível de sua Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei minha Igreja, e os poderes do inferno não prevalecerão contra ela”.

    

      

 

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[1] Carbonaria: sociedade secreta Italiana, de cunho liberal. (N. do T.)