A REVOLUÇÃO EXPLICADA
DE
LOUIS-GASTON DE SÉGUR
Dedico
estas páginas aos moços, pois seu espírito ainda não foi corrompido pelas
doutrinas perversas, e porque neles reside a esperança do futuro para a Igreja
e para a França. A adolescência é a idade decisiva da vida; assim como a
fisionomia, o espírito e o coração adquirem aí, das orientações, um
aspecto que não mais abandonarão. Deus mesmo o disse: adolescens
(adolescente, não criança) juxta
viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea.
Eles
ingressam em um mundo que marcha à deriva, pois não há mais princípios e,
desde mais de um século, a doutrina incoerente de mil falsos doutores
distancia-se cada vez mais da fé e do bom senso. Eles lerão nos jornais,
escutarão em toda parte tantas besteiras e mentiras que logo serão
persuadidos, se não possuírem uma forte defesa; e esta defesa é a verdade, são
os princípios sólidos e verdadeiros.
Não
tenho a pretensão de dizer tudo em um trabalho tão curto; meu objetivo é
unicamente fazer com que os jovens leitores compreendam: 1º o que é a Revolução;
como e porquê a Revolução é a grande questão religiosa de nosso tempo; 2º
o que são realmente os princípios de 89, e quais ilusões podem nos fazer cair
no erro revolucionário; 3º finalmente, quais deveres incumbem a todos os
verdadeiros cristãos neste século de perturbações e ruínas que
atravessamos.
Estranho
a toda filiação política, limito-me aqui a uma exposição racional dos princípios
à luz do mais importante de todos os pontos de vista, que é o da fé; será fácil
para cada um tirar conclusões práticas aplicando estes princípios na medida
do possível.
Nada
mais prático para vocês, meus amigos, do que estas noções aparentemente
abstratas; nada mais necessário; é para vocês, saibam bem, é para vocês,
moços bons e honestos, a quem especialmente as dirijo; são vocês que a Revolução
quer comprometer contra Deus: “É à juventude que é preciso se dirigir —
ousaram dizer numa ata oficial; é a juventude que ainda resta seduzir, é ela
que nós devemos conduzir, sem que ela o perceba, sob nossa bandeira.” [1]
Querem seduzi-los; eu quero esclarecê-los. A verdade é o único antídoto para o veneno que nos preparam. A derrocada dos princípios, eis o que torna tão vulnerável nossa sociedade moderna; eis o que falta a todos os homens de boa fé, que são em grande numero; e vocês, que serão logo a força viva dessa sociedade decadente, têm por missão fazer melhor que seus pais e pôr mãos à obra para salvá-la.
Meditem,
eu exorto, as verdades que aqui eu resumi para vocês; entrego-as confiante à
sua fé e à sua boa fé. Lamentarei a mocidade católica que não lhe
compreender a importância.
Este
trabalho foi abençoado pelo Soberano Pontífice no momento em que eu o
empreendia. Esta benção sagrada estender-se-á, espero, a cada leitor, e
suprirá a imperfeição de minhas palavras.
Primeiro
Capítulo: A Revolução —
O que ela não é.
A
palavra revolução é um termo elástico do qual se abusa de toda
maneira para seduzir as almas.
Uma
revolução, geralmente, é uma mudança fundamental que se opera nos costumes,
nas ciências, nas artes, nas letras, e sobretudo nas leis e no governo das
sociedades. Em religião ou em política, é o total desdobramento, o triunfo
completo de um princípio subversivo de
toda a antiga ordem social. Ordinariamente, a palavra “revolução”
possui um sentido ruim; contudo, esta regra não é sem exceção. Assim
dizemos: “O cristianismo realizou uma grande revolução no mundo”, e tal
revolução foi muito feliz. É igualmente verdadeiro dizer: “Num tal ou tal
país insurgiu uma revolução que a tudo pôs sangue e fogo”; trata-se ainda de
revolução, mas de uma revolução má.
Não
há diferença essencial entre uma revolução e o que desde um século chamamos
A Revolução. Em todas as épocas houve revoluções nas sociedades humanas;
enquanto que a Revolução é um fenômeno moderno e recente.
Muitos
imaginam, baseando-se na crença de seu jornal, que é à revolução que, há
sessenta anos, a humanidade deve todo seu bem-estar; que a ela devemos
todos os nossos progressos na indústria, todo desenvolvimento de nosso comércio,
todas as invenções modernas das artes e das ciências; que sem ela nós não
teríamos nem estradas de ferro, nem telégrafos elétricos, nem barcos à vapor,
nem máquinas, nem forças armadas, nem instrução, nem glória; numa palavra: sem a
revolução, tudo estaria perdido e o mundo retornaria às trevas.
Nada
disso. A Revolução foi ocasião de alguns destes progressos, mas não
sua causa. O violento abalo que ela causou no mundo inteiro sem dúvida
precipitou certos desenvolvimentos da civilização material; esta mesma violência
abortou vários outros. É certo que a Revolução, considerada em si mesma, não
foi, propriamente falando, o princípio de qualquer progresso real.
Ela
não é mais, como desejariam fazer-nos acreditar, a emancipação legitima dos
oprimidos, a supressão dos abusos do passado, a melhoria e o progresso da
humanidade, a difusão das luzes, a realização de todas as aspirações
generosas dos povos etc. Nós nos convenceremos disso aprendendo a conhecê-la a
fundo.
A
Revolução não é mais o grande fato histórico e sangrento que abalou
a França e mesmo a Europa no final do último século. Tal fato, em sua
fase moderada bem como em seus terríveis excessos, não foi senão um fruto,
uma manifestação da Revolução, a qual é antes uma idéia, um princípio,
que um fato. É importante não confundir tais coisas.
O que, então, é a Revolução?
Segundo
Capítulo: O que é a Revolução e de como ela é uma questão religiosa, não
menos que política e social.
A
Revolução não é uma questão puramente política; é também uma questão
religiosa, e é unicamente sob este ponto de vista que tratarei dela aqui. A
Revolução não é somente uma questão religiosa, mas ela é a grande questão
religiosa de nosso século. Para convencer-se disso, basta defini-la e refletir.
Vista
em seu sentido mais geral, a Revolução é a revolta erigida em princípio e
direito. Não é somente o fato da revolta em si; em todas as épocas houve
revoltas: é o direito, é o princípio da revolta que se torna a regra prática
e o fundamento das sociedades; é a negação sistemática da autoridade
legitima; é a teoria da revolta, é a apologia e o orgulho da revolta, a
consagração legal do princípio mesmo de toda revolta. Não é apenas a
revolta do individuo contra o seu superior legitimo — esta revolta
simplesmente se chama desobediência; é a revolta da sociedade enquanto
sociedade; o caráter da Revolução é essencialmente social e não individual.
Existem
três etapas na Revolução:
1.
A destruição da Igreja como autoridade e sociedade religiosa, protetora das
outras autoridades e sociedades; nesta primeira etapa, que nos interessa
diretamente, a Revolução é a negação da Igreja erigida em princípio e
formulada em direito; é a separação da Igreja e do Estado com o objetivo de
descobrir o Estado e de remover-lhe o apoio fundamental;
2.
A destruição dos tronos e da autoridade política legítima, inevitável
conseqüência da destruição da autoridade católica. Esta destruição é a
última palavra do princípio revolucionário da democracia moderna e do que
hoje chamamos de soberania do povo;
3.
A destruição da sociedade, isto é, da organização que ela recebeu de Deus;
em outras palavras, a destruição dos direitos da família e da propriedade, em
prol de uma abstração que os doutores revolucionários chamam de Estado. É o
socialismo, a última palavra da Revolução perfeita, a última revolta, a
destruição do derradeiro direito. Nesta fase, a Revolução é, ou logo será
a destruição total da ordem divina sobre a terra, o reinado perfeito de Satã
no mundo.
Claramente
formulada pela primeira vez por Jean-Jacques Rousseau, depois em 1789 e 1793
pela revolução francesa, a Revolução mostrou-se desde suas origens inimiga
encarniçada do cristianismo; ela atacou a Igreja com um furor que recordava as
perseguições do paganismo; fechou ou destruiu igrejas, dispersou as Ordens
religiosas, atirou na lama as cruzes e as relíquias dos Santos; seu ódio
espalhou-se por toda Europa; ela abalou todas as tradições, e, por um momento,
acreditou destruído o cristianismo, que chamava com desprezo de uma velha e fanática
superstição.
Sobre
todas as ruínas, ela inaugurou um novo regime de leis atéias, de sociedades
sem religião, de povos e reis absolutamente independentes; há sessenta anos,
ela cresce e se espalha por todo o mundo, destruindo em toda parte a influência
social da Igreja, pervertendo as inteligências, caluniando o clero, minando
pela base todo o edifício da fé.
Do
ponto de vista religioso, podemos defini-la: a negação legal do reino de Jesus
Cristo sobre a terra, a destruição social da Igreja.
Combater a Revolução é, portanto, um ato de fé, um dever religioso do mais alto grau. Ademais, é um ato de bom cidadão e de um homem virtuoso, pois é a defesa da pátria e da família. Se os partidos políticos honestos combatem-na em seus pontos de vista, devemos, nós, católicos, combatê-la desde um ponto de vista superior, para defender aquilo que para nós é mais caro que a vida.
[1]
Instrução secreta vinda da Vente suprême révolutionaire, centro
europeu de todas as sociedades secretas.