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Cristianismo e Comunismo o que faz a Igreja em Portugal?
Pe Abel Condesso Conferência realizada no Instituto de Estudos Portugueses em 22 de maio de 1950 É sobre as nossas cabeças que se estão julgando todos os erros acumulados, desde séculos: — sobre as nossas — e não sobre outras — de ontem ou de amanhã. É um julgamento singularmente trágico, em que apenas depõe o ódio mais fanático e satânico e em que se escreve somente com o próprio sangue. Este julgamento, apesar de não ter acabado, já levou vidas e fazendas, com outros valores igualmente irrecuperáveis. Já destruiu famílias e pátrias. Já fez perder a muitos o mais elementar sentido de dignidade e honra. A outros, violenta-os, até lhes roubar o seu próprio mundo afetivo, que se vai com a liberdade de dizer sim ou não. Estamos perante a massa inorgânica e metalizada, que depõe de armas na mão, que escreve com o nosso próprio sangue, desvitalizada e fundida pelo homem inimigo de que fala o Senhor, em cada dia mais poderoso e mais violento, para a conquista definitiva de uma vitória total. Este julgamento trágico não pode adiar-se nem arquivar-se, por maior que seja a vontade de paz do nosso mundo cansado de guerras. Por mais que se ceda, por mais que se ofereça, nada se consegue perante quem pretende julgar-nos, levando-nos à morte. O ódio nem se deixa pacificar, nem corromper. É sobre o aniquilamento total de tudo que dignifica e exalta o homem e as pátrias, que o inimigo quer assentar a sua vitória, que nem sequer admite seja apenas parcelar: — vitória total sobre o homem e vitória total sobre o mundo; nada menos Pois é sobre as nossas cabeças que este julgamento trágico está decorrendo. Os sem-pátria depõem contra as pátrias; e não há homem, novo ou velho, rico ou pobre, pacífico ou guerreiro, na frente ou na retaguarda, que não esteja envolvido e não tenha de comparecer, tarde ou cedo, mas durante a vida presente, neste tribunal, onde todos somos acusados e poderemos ser vencidos e atirados para a morte, só porque somos herdeiros de uma civilização bimilenária. Os erros que estão sendo julgados sobre as nossas cabeças, nas suas últimas conseqüências, não nos pertencem todos. Não foi a nossa geração que os criou e originariamente os difundiu. Mas, quer nos tenhamos submetido, quer tenhamos protestado, todos estamos a ser julgados, neste processo singularmente trágico da história. Por uma solidariedade profunda, que coexiste entre os homens, apesar das discórdias e das divergências de sistemas e de credos, todos nós somos chamados como réus, para de réus passarmos a vítimas cruentas. E ainda que a nossa geração quisesse e pudesse quebrar a solidariedade entre as gerações, despojando-se voluntariamente do patrimônio histórico, acumulado e sempre enriquecido pelo trabalho, pela inteligência e pela honra de todas elas, nem assim deixaríamos de ser julgados, enquanto permanecêssemos dentro do sentido de vida exigido pela nossa própria natureza humana. Só o homem que se degrada, que totalmente se despersonaliza e por isso se submete à existência dos ínferos, tornando-se massa que a técnica mecaniza e comanda nos seus movimentos e aspirações, pertence de direito ao mundo da morte que nos julga.Os erros não nos pertencem, mas, quer queiramos quer não, somos vítimas deles e por eles estamos sendo julgados... * Individualizar os erros religiosos, encabeçando-os em Lutero; os erros filosóficos em Descartes e os políticos em Rousseau, é fazer uma síntese que reconheço não só imperfeita, mas incompleta. Mas, originariamente, os erros que se julgam sobre as nossas cabeças vêm deles. Não é pelos crimes que a história registra, que se pretende afogar a nossa civilização em metralha e no sangue por nós próprios vertido. Os crimes esquecem. É, sim, pelos erros religiosos, filosóficos e políticos, que quebraram a grande Unidade e desviaram o homem de Cristo e logo depois de si mesmo, que nós, os homens de hoje, vivemos crucificados não só na carne, mas na própria alma. E apesar de, muitos de nós, deles não termos culpa, todos nos temos de bater contra a coligação dos que nos julgam em nome desses mesmos erros, levados às suas últimas conseqüências. * Julgo que a vida de hoje não é agradável para ninguém que queira ser homem, e por isso se sinta responsável do seu destino e do destino do mundo. Solidários com as gerações do passado, igualmente solidários temos de ser com as gerações de amanhã. E por mais que o queiramos, nem podemos eliminar o que é herança, nem deixar de transmitir o que possuímos. E não é somente a casa, nem a terra, nem o comércio. nem a indústria, nem a profissão, que se comunica a quem nos continua. Nós somos, antes, depositários responsáveis de um grande patrimônio moral e emocional, que temos o dever de comunicar intacto, se não puder ser acrescentado. * Os medíocres andam certamente queixosos. Sentem a melancólica saudade de tempos que não conheceram nem viveram. Querem parar, encostar-se, cruzar os braços, viver à sombra; e, no mundo em que estão, não podem fazê-lo. Mas o homem que vive a consciência da. sua integralidade e conhece os valores divinos de que é depositário e transmissor, só porque vive esta plenitude, é já o semeador das sementes vivas que hão de germinar para novo surto de vida humana e livre. É que são estes, como elementos positivos e construtores, que não só defendem as colunas fundamentais da nossa civilização, como levam, ainda que com pena e com dor, a sua pedra para a renovada catedral do espírito. Todos nós trazemos conosco valores que não nos pertencem totalmente. São os valores eternos. Mas com estes andam também valores sagrados, na voz do sangue como nos ritmos do nosso próprio coração. Não é, pois, o homem, sem ontem e sem amanhã, que está a ser julgado. Nele se julga a sua marcha histórica e transcendente, como até a própria história que ainda não viveu e há de fazer-se. * Tem-se semeado ventos loucamente. E os ventos semeados pelos homens crescem, avolumam, aceleram, galopam, até desencadearem as tempestades que tudo derrubam e subvertem. Em novo surto, os ventos renânicos desdivinizaram Cristo. Os de Nietzsche, Hegel e Sorel deificaram o homem, coordenaram e legitimaram todas as violências, sem limitações do direito e da moral. E tudo foi dar à alma eslava, receptiva, visionária, mística, que, deixando de ver estrelas e o próprio céu - naturalizado por uns e negado por outros - criou um deus contra Deus, a revolução contra as pátrias e o instinto soberano contra o amor. Da discussão e da dúvida, chegou a aceitação integral de tudo que era não, contra o sim que fez a Europa cabeça e irradiação de todos os princípios humanos e universais. Os ventos foram semeados loucamente. Pois é sobre nós que as tempestades se desencadeiam, não desalinhando apenas os cabelos, nem agitando apenas as marés, nem levantando apenas as poeiras do caminho da vida. Nós sentimos que as próprias pedras dos fundamentos da civilização que defendemos estão sob a ameaça de serem deslocadas, para, em queda fragorosa e total, o homem ser destruído e, com ele, a família, a pátria, o seu próprio direito de amar. * Entretanto, parece que Jesus vai dormindo como outrora na barca do mar de Tiberíades. — Quem O acorda, para que Ele retome o comando do seu Império? — Ou dEle apenas restam os perfumes requintados, mas envelhecidos, de uma ânfora partida? — Muitos da nossa geração ainda pensam que Jesus morreu para sempre. Todavia, todos os que nos combatem pensam e lutam como se Ele ainda vivesse e fosse o grande e eterno vivo, que dá vida a tudo que se lhes opõe. E são estes que têm razão. Portugal, como não podia deixar de ser, foi também atingido pelos erros dos séculos e nele se semearam ventos que produziram tempestades arrasantes e incendiárias, ainda não totalmente extintas. Pertenceu a uma geração, singularmente brilhante dourar os erros até os tornar aceitáveis e semear os ventos, tão elegantemente, que todos, ao ver sorrir os semeadores, honestamente pensaram que as antigas velas enfunavam com eles, para novas largadas civilizadoras e universais. Foi essa geração que concluiu o que a revolução de trinta e quatro tinha iniciado pela guerra de portugueses contra portugueses. Dessa geração brilhante, Oliveira Martins escreve em estilo febril e aliciante uma História de Portugal, que parece encomendada pelo estrangeiro. Não viu novos documentos e nem sequer interpretou, em sentido nacional, as fontes que outros tinham revelado. O gênio português, com as suas aspirações de universal e de absoluto, escapou-lhe totalmente. A sua história é profundamente desnacionalizante. Eça de Queiroz não só riu e ironizou com volúpia a mediocridade, como naturalizou a hipocrisia e corrupção de costumes. Ramalho Ortigão, de parceria com Eça, fustiga masculamente, “no seu estilo sem ossos e com a sua ramalhal figura”, tradições, costumes e belezas, que não só os ridículos de uma geração. Guerra Junqueiro atira insultos e sarcasmos contra a Igreja e contra a Pátria, como profeta delirante, em versos que hoje soam como trovoada de lata e baixo ódio de semita. E Antero, perdida totalmente a fé, não agüentando a vida, com as estrelas apagadas para os seus olhos cansados, atormentado pelas insônias, vencido pelas desilusões, foge como um náufrago, dando um tiro na cabeça. É certo que Oliveira Martins, repeso dos malefícios da sua história, escreve Portugal Contemporâneo e, seduzido por algumas grandes figuras nacionais, deixa-nos biografias que são autênticas ressurreições. E veio a morrer, como se sabe, a rezar, com a ilustre senhora que foi sua esposa, a AveMaria. Também Eça de Queiroz escreve A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras e acaba a escrever vidas de Santos, no seu estilo ondeante e luminoso, embora com minguada penetração espiritual. E sua esposa, na agonia, reza-lhe também a Ave-Maria, que ele, exangue, vai balbuciando. Ramalho, que assistiu à revolução de novecentos e dez e à tempestade por ela desencadeada contra tudo que era sagrado e da essência da tradição portuguesa, tenta a peito descoberto remar contra a maré, agitada até trazer à tona todos os lodos. O antigo semeador dos ventos conhece o exílio na hora das tempestades. Escreve as Últimas Farpas e, em novecentos e catorze redige a célebre carta de um velho a um novo, em que se confessa nas suas culpas e nas culpas dos da sua geração. E em plena consciência, logicamente, pede os Sacramentos da Igreja e parte para o seu túmulo de glória, vestido com o hábito de benemérita ordem religiosa. Guerra Junqueiro, há muito indignado e já único sobrevivente de naufrágios sangrentos, clama no deserto contra as leis de garras e colmilhos e pede à Igreja que o receba, reze por ele e lhe vista o hábito de burel dos franciscanos. Mas, infelizmente, não são os últimos livros, nem os últimos passos da vida dos que a si mesmos se chamaram Vencidos, que impressionaram a geração que nos precedeu. Só a geração que veio depois viveu a sua lição dolorosa e tirou as exatas conclusões. Mas já era tarde para que os ventos semeados, a sorrir, com monóculo e mão aristocratizada, deixassem de produzir as conseqüentes tempestades. Era moda, então, ser irreverente, racionalista, zombeteiro, gracejador, impiedoso, demagogo?... Triste moda e tristes tempos foram esses. Por mim, não tenho conhecimento de outro, na nossa terra, menos humano e de mais “apagada e vil tristeza”. Os próprios olhos deixaram de apiedar-se. O coração deixou de compadecer-se. E perante as ruínas causadas pelas tempestades, vociferava-se, excitando novas paixões contra os que, pacientes e humildes, queriam levar um sopro de esperança aos que caíam sob os .escombros. Nestes tempos de furacão, os homens não falavam: praguejavam. Não faziam gestos: desenhavam ameaças. Não caminhavam sobre os doces e floridos caminhos da nossa terra: batiam o pé, violenta e odiosamente, sobre esses mesmos caminhos da civilização, que serviram para cruzados e missionários. A nossa terra é um duplo ossuário. Nela estão os corpos dos mártires e dos cruzados, uns e outros batalhando à sua maneira, pela vitória de Cristo e dilatação da terra portuguesa. É preciso andá-la como se fosse recinto sagrado, pois em toda ela há sangue cristão de portugueses, vertido pela Pátria e pela fé. O mar só veio depois. Nele se abriram caminhos de glória e de tragédia. Por onde a raça passou, ou se ergueram padrões imortais, ou se fecharam túmulos gloriosos. O sal do mar, o próprio sal são lágrimas de Portugal como escreveu Fernando Pessoa. E quem olhar verá emergir, dos fundos de todos eles, mastros que ficaram, como tantas cruzes, a assinalar os naufrágios que não deixaram quem os contasse. São as presenças gloriosas e místicas dos que não chegaram a porto de salvamento. Mas foi a terra continental, reconquistada palmo a palmo, que temperou corpos e almas, para a dilatação da fé e do Império. Em certo sentido, podemos dizer que Portugal é um santuário e que a sua assinatura é o próprio sinal da Cruz. Quem não souber escrever o seu nome e puser apenas o sinal do cristão, todo o mundo civilizado fica a saber que está ali a assinatura de um português. * Por mim, aqui me confesso um rural, - psicológica e sentimentalmente rural - Trago a terra no sangue, na fala, nos ritmos mais ternos do meu coração. A minha própria linguagem me trai e revela como um camponês, que leva a enxada para a surriba[1] da vinha, ou guia o arado para alqueives[2] outonais, ou semeia em gesto largo de esperança a boa semente, que, cercada de cuidados, há de florir e frutificar com a bênção de Deus, no seio da terra maternal e criadora. Por estas raízes é que eu procuro entender e fazer-me entender pelos que, já sem terra, vestem fato de trabalho e se despersonalizam pela mecanização da sua ocupação diária, submetida ao movimento isócrono e sem alma da máquina negra. * Ora o grande problema de hoje, o maior — e tão grande como nunca houve outro —, consiste exatamente na demissão da alma por parte de muitos milhões que vão submeter-se, cortadas as raízes e totalmente dissociados dá sua personalidade concreta e real, a um todo uniforme, desvitalizado, fundindo-se na massa, que o estado onipotente degrada, tritura, esmaga, mecaniza, refunde, arbitrária e absolutamente, não para que o homem se realize, mas para que o homem se degrade e esvazie de todo o seu conteúdo humano. O comunismo tem esta importância universal e satânica. É um outro mundo, não somente diverso, mas fundamentalmente oposto ao nosso. Não é ao homem que a doutrina comunista faz o seu apelo, nem é ao homem que ela envia a sua mensagem. Os homens não lhe servem. Se algum comunista regressa à sua personalidade, onde o comunismo impera, é levado à morte. As sucessivas depurações na Rússia e países satélites não têm outro significado. Lenine sintetizava a doutrina em ação, mandando atirar ao pé calçado. Nós sabemos como são executadas todas as elites onde o comunismo impera. É que toda a massa tem de fermentar e ser dirigida para a ação, sob o mesmo comando despótico e totalitário. As quintas colunas só existem nos países ocidentais. São um presente perturbador e ativo, oferecido por Moscou aos povos que querem morrer em nome da liberdade. Assim, por sortilégio de um mito, a civilização ocidental se vai deixando encaminhar para as catástrofes irremediáveis. E não é a força, ainda que grandiosa, do capitalismo materialista, por mais eficaz que nos pareça, que pode evitar o alastramento do mal que nos está corroendo as próprias entranhas. A força, somente a força, nunca esmagou ou fuzilou idéias. Repousar sobre ela é sentar a defesa na contingência de uma sentinela adormecida ou que voluntariamente traia o corpo social que lhe deu armas para poder dormir descansada. Não é todavia o desespero que me leva à não aceitar as taras do mundo moderno. Eu recuso-me aceitá-lo porque tenho uma esperança inabalável e fiel de que ele amanhã há de ser melhor. * Não há revolução contra o homem que não ataque primária e essencialmente a Igreja de Cristo. É que, vencida ela, vencido fica o homem. Quando o sobrenatural é expulso, também desaparece o que é humano. A Igreja não é somente o par de asas de que fala Taine. É defensora de uma ordem determinada pelas exigências inalienáveis da pessoa humana, com todos os direitos e deveres sublimados pelo seu complemento divino.[3] Se este baluarte for vencido — e sempre que ele é vencido, como pode ver-se nos países satélites da Rússia — o homem naufraga, fica sem apoio e sem rumo; e, se quiser ouvir as vozes da sua consciência, tem de recolher-se à caverna. Mas socialmente e profissionalmente, é um forçado, preso à massa por cadeias invisíveis, mas não menos reais do que as de ferro. Não chegamos ao domínio de Satã sobre o homem, num só movimento ciclar da história das idéias. A revolução, que nega até à destruição total, vem de longe. Foi todavia no século vinte que ela conquistou um potencial que faz temer e tremer toda a criatura consciente, e por isso responsável pelo seu destino e pelos destinos dos seus irmãos. Em Portugal, a evolução desagregadora e despersonalizante fez-se também gradualmente. Dos direitos do homem, passou-se para os direitos dos demagogos e destes nasceram aqueles que à pátria portuguesa querem estender a revolução subversiva e totalitária. Em novecentos e dez, a Igreja teve os seus mártires. Ficou despojada dos seus bens. Negou-se-lhe o direito de ensinar e de prestar culto público ao seu divino Fundador. Exilaram-se bispos. Perseguiram-se e prenderam-se padres, só porque o eram. Ferida nos seus membros e na sua própria missão, a Igreja acordou da sua dourada e almofadada sonolência. Curou as suas feridas, regressou a uma vida de pobreza que, sendo da sua essência, a nobilita e distingue. Fez apelos consonantes com a própria voz de Cristo a todos os seus fiéis e, entrando na barca e remando para o mar alto, começou de deitar a rede, observando o mandamento do seu divino Mestre. Na sua missão de misericórdia e de caridade viva, tem recolhido as vítimas das tempestades que ajudaram a desencadear, que a ela aportaram doridas no seu corpo, chagadas na sua alma que às vezes dói mais que o próprio corpo. — “Ai, meu Deus, como me doi a alma”, soluçava Huysmans à porta da Cartucha, onde foi bater e se recolheu. Restaurou ou construiu seminários. Elevou o ensino teológico. Os bispos crismaram Portugal, visitando paróquias que havia dezenas de anos não viam o seu pastor. Confirmaram pela palavra e pelo sacramento. Escreveram pastorais notabilíssimas, deixando de ser os cães mudos de que falava Pio Nono. Os padres, por sua vez, demonstraram que não eram o padre Salgueiro do Fradique. Perseguidos, vexados, pobres, ficaram fiéis à Igreja e ao seu Cristo, repudiando solene e universalmente o dinheiro de Judas, com que o estado de barrete frígio os queria levar à traição. E hoje, podem ver-se padres e bispos em peregrinação, a pé, no meio de seus filhos espirituais, andando léguas e léguas, a caminho de Fátima, tal qualmente andaram os reis, altas damas e cavaleiros medievais, de sandálias, corda à cinta e de cajado na mão, a caminho da Santiago, quando Compostela era o santuário de todas as Espanhas. A Igreja purificou-se do seu lastro humano. Restaurou e reforçou a sua vida interior. Lavou a sua fronte da poeira de um século e, ainda com as chagas de mártir, lançou-se à reconquista de Portugal, sem dinheiro, porque é pobre; sem armas, porque é a paz; mas com toda a força que lhe vem da verdade e com todo o amor que lhe vem de Cristo. E sendo pobre — sendo realmente a grande pobre — desentranha-se em atos de caridade socialmente vivificantes. Ela sabe “que não se pode pregar Cristo a estômagos vazios”. Tendo ficado apenas com o direito de pedir, fez com que a sua riqueza fossem os pobres do nosso país, que ela socorre, que ela ampara, que ela reergue, que ela cura, que ela humaniza, para os reintegrar no corpo social da pátria terrestre. E sendo, como é, um exercito desarmado, em que a bandeira é uma cruz com Cristo pendente, e as armas não são mais que o Rosário, que cabe todo na mão fechada, a Igreja, remoçada, estuante de vida sobrenatural, é no meu país a grande conquistadora das almas. Portugal vive hoje uma hora de plenitude. A sua economia é sã. O seu progresso material é visível. Por virtudes do povo português e do seu gênio político, em vinte anos, reparamos estragos e incúrias, restauramos ruínas e entramos na estrada real da vida, ao ritmo acelerado dos povos mais jovens e ricos. Nada invejamos aos outros, mas também nada queremos impor. Que cada povo se governe e administre como entender, mas que nenhum pretenda intrometer-se com a nossa vida nacional. Estamos bem. Somos felizes. Temos liberdade e temos pão. Temos todas as garantias para a profissão livre que, quando exercida, é suficientemente remunerada. Em vez da luta de classes, que é a guerra civil dos egoísmos e da inveja, temos a mais perfeita e compreensiva colaboração entre o capital e o trabalho. Temos o direito de amar e casa para a nossa família. Os filhos têm a escola ao pé da porta, em cada aldeia portuguesa. Temos estradas, que são as melhores da Europa; e, pelas estradas, cômoros tratados e roseiras floridas. Nos próprios bairros operários, formosos e ajeitados como não há outros, há lugar para os craveiros e para os malmequeres. Os próprios nomes das ruas têm a graça perfumada das tradicionais e coloridas flores de Portugal, como tenho tido ocasião de observar, não uma vez, mas mil vezes. Somos um povo livre, que não tem inveja à liberdade dos outros. Essa liberdade já um dia nos entrou pela porta dentro. Foi quando Portugal viveu as suas maiores agonias e vergonhas. Mas graças ao Senhor, expulsamos de vez essa liberdade que matou todas as tradicionais liberdades portuguesas. Foi uma prova dura, que fez sangrar a própria alma da Pátria. Infelizmente, nem todos os problemas se reduzem ao problema do pão, da casa, da escola, ou do hospital. O homem é um ser muito complexo, e mesmo quando perde a alma, por ter expulsado Cristo da sua vida, continua a procurar apaixonadamente alguma coisa dentro de si, que lhe sirva de apoio. O comunismo não é essencialmente um movimento de reivindicação econômica, ou de qualquer regalia para o mundo operário. O seu bem estar é o que menos lhe importa. Direi mais: — O comunismo opõe-se e impossibilita todo o progresso neste sentido. Ele fermenta e conduz a massa, que serve anonimamente em condições pré-determinadas, movendo-se como dente de roda, ao serviço da produção, único fim a atingir. Sem liberdade de escolha, sem direito a. libertar-se, o trabalhador soviético não pode rescindir um contrato, que aliás e em boa verdade não pode existir. É o trabalhador escravo, que produz riqueza de que pessoalmente não comparticipará nunca. Sendo o comunismo essencialmente bárbaro, despótico, draconiano em relação às soluções econômicas, os seus chefes conduzem a massa para a aceitação de um antiteísmo militante, agressivo e totalitário. É o iluminismo satânico, que vive em todo o militante. O comunista não nega Deus. Combate-O, consciente da sua existência. Julgar-se ainda que o comunismo é ateu, é ficar-se não só aquém da verdade, mas cair em erro perigoso. Ele combate Deus, com a mesma força e perseverança com que satã tentou Cristo e tenta seduzir os membros do seu Corpo Místico. E combate-O onde O encontra, que é em nós. Ele não põe perante a consciência dos homens o problema por vezes angustiante e crucial da vida de milhões de seres humanos, a quem por ventura falta a suficiência de pão. Ele põe perante nós o seu mundo e o seu homem que nele milita. E esse homem — o homem integralmente comunista — é o homem iluminado e místico, a quem tudo se exigiu e que tudo sacrificou, para que se realize a revolução criadora do mundo de Satã, que só pode existir pela total destruição do nosso. Não ateu, mas antiteísta, ninguém poderá dizer que o homem da revolução não é fiel até o fanatismo à sua nova fé. Só assim se compreende que homens pessoalmente ricos e cultos do professorado ou de outras profissões liberais se tornem militantes do partido comunista. E são em verdade estes que formam normalmente os seus quadros de recrutamento e de comando. O mundo operário no partido comunista é apenas a agitação e a greve, como tropa de choque, que é e de que não passa. E se um ou outro trabalhador entra por filtragem, depois de provas duras, para os quadros secretos do partido, verifica-se que é trabalhador de alta classe, que ganha bem ou é pago pelo partido. O comunismo não é a revolta dos famintos. A fome dá apenas motins. Na sua essência e finalidade, é fundamentalmente a revolta da inteligência separada do espírito e da vida concreta e humana. A Igreja em Portugal tem de encarar este fato temeroso. Não fecha os olhos procurando não ver, nem cerra o coração procurando não sentir, Fiel à sua missão e certificada pela história da vocação do povo português, a Igreja organiza os seus quadros específicos de reconquista cristã. E, sem hipérbole, podemos dizer que ela se encontra já em toda a parte, comparticipando das inquietações e ansiedades de todos os setores da vida portuguesa, desde os campos e escritórios, às universidades. A Igreja está dentro de todas as manifestações da vida nacional. Leigos especializados têm servido admiravelmente este apostolado de renúncia e sacrifício, prolongando até ao mundo vermelho a Igreja, que por eles se torna presente e ativa. Mas isto não é tudo e nem sequer basta. A Igreja em Portugal, apesar da sua pobreza, das suas benemerências, da cultura e virtudes de seus padres, reconhece que ainda é um escândalo para esse mesmo mundo vermelho, que, por amor, ela quer reconquistar para a vida, reinserindo-o em Cristo, Salvador de todos os homens. E ao verificar, mais uma vez, que a caridade não pode substituir a justiça e que o conhecimento intelectual de todas as teorias sociais a ninguém converte, a Igreja avança para esse mundo, amando-o e encarando-o tal como ele é. Abandonou já tudo que aparenta riqueza (o meu amado Arcebispo foi até vender a sua melhor cruz peitoral) e não tarda que dispa a batina para envergar o fato de trabalho e, de mãos calosas e suor na fronte, se misturar a todas as penas, a todas as misérias, a todas as injustiças e a todas as cóleras, para, sobre o mundo desesperado em que só se ouvem palavras de negação e de revolta, lançar alicerces de paz, erguendo as almas com asas de esperança. Perante os que negam, a Igreja será urna presença afirmativa. Perante os que se revoltam, será uma presença de Paz. Perante os que desesperam, será muna presença de confiança. Perante o mundo das trevas, reascenderá as estrelas de que o homem precisa, para reencontrar o seu caminho na verdade e na vida. E à medida que a noite avança, mais a Igreja espera e confia. Foi em plena noite que a música celeste anunciou o nascimento do Cordeiro de Deus, Salvador dos homens. E esses homens de hoje, como os magos de sempre, que procuram a verdade contra a Verdade, virão a formar a enorme procissão de regresso, em penitência e amor, em Cristo Jesus, irmão mais velho de todos nós, que com o suor do seu rosto ganhou o pão quotidiano e, mais pobre que todos eles — mais pobre do que as aves do céu e do que as feras do monte — não teve onde reclinar a cabeça. E a Igreja estará presente, não simplesmente de palavra ou de cruz alçada, deixando cair bênçãos sobre corpos mecanizados e almas esterilizadas pelo sopro do vento de Satã. A Igreja estará presente pelos seus presbíteros, integrados no mundo do trabalho pelo exercício quotidiano de uma profissão manual ou mecânica. E estes homens ungidos não cederão. No meio do mundo sem alma, eles serão uma força espiritual positiva, humana e concêntrica. De mãos igualmente calosas e de corpos igualmente cansados, estes padres, no meio das labaredas e desesperos, bendirão ao Senhor pelo pão de cada dia e, de mãos erguidas, agradecerão a Deus a graça de os ter criado, para louvar e sofrer junto dos seus irmãos, como a pobre Santa Clara de Assis. Vai começar, uma nova surriba no mundo, para que as almas recebam as eternas sementes do Evangelho. Chegou a hora de tudo exigir, para tudo se poder dar. E se o comunismo, tudo exigindo, encontra cada vez mais quem tudo dê à revolução da morte, como se não há de crer que o Cristianismo, que é vida, tudo encontre para vencer essa revolução? Temos de deixar tudo e a tudo renunciar. Mas, os que atrás de nós tudo deixaram, desde os apóstolos que largaram a rede e a barca, contam-se aos milhões. Andam nos espaços olhares inesquecíveis e acenos de mãos brancas, doces e poderosas. É Cristo Jesus, que espera descer por nós ao coração de todos os que O expulsaram. Ele revive a sua agonia e paixão. Pois a Igreja em Portugal prepara-se para. por Ele e com Ele, procurar os que estavam perdidos e curar os que estão doentes, revelando-O nas suas requintadas piedades de misericórdia e amor. Pelos novos presbíteros, seus embaixadores, todos os foragidos do seu jugo suave reconhecerão que Ele é o grande e único solidário de todos os homens. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”, proclamou Ele. Há em Portugal clamores e ansiedades de ascensão, que só podem satisfazer-se e aquietar-se na plenitude. E se a nossa vida deve ser a realização do ideal da nossa mocidade, como escreve Vigny, todos os Portugueses, de aquém e de além, podem crer que a nossa amada Pátria, remoçada nas suas próprias raízes, se está preparando para “novos cristãos atrevimentos”. É um novo sonho de Promontório. A visão universal e os caminhos são os mesmos, na terra e no mar. Somente se não descobrem nem conquistam terras, que as não há. Mas descobrem-se e conquistam-se almas, que, ao olhar paternal de Deus, têm mais valor e lhe custaram mais caro, pois por elas deu em sacrifício o seu próprio Filho Unigênito. Este sonho empolgante começou a ter realização. Aqui e ali, aparecem sacerdotes totalmente devotados à nova surriba espiritual. Estas vocações são um sinal, uma presença, um testemunho de amor, das novas coordenadas de misericórdia de Jesus Redentor, sobre uma sociedade que em passos loucos caminha para a morte e que Ele quer que viva. Mas não formam ainda o exército ordenado e forte, vivendo em estado heróico, necessário à hora amarga e quase desolada que vivemos. Sem orgulho infundado, podemos dizer que foram os nossos missionários que a todo o mundo levaram a mensagem cristã. E a nossa própria língua foi tanto a língua mercantil de uma época singularmente gloriosa, como a língua evangélica de todos os povos, pois foi na língua portuguesa que eles aprenderam a rezar. E, por mim, parece-me que é ao surto de catolicidade realizado pelos portugueses na idade moderna, especificamente mariano, que nós devemos as aparições de Maria em Fátima, na charneca agreste, a três crianças rudes, que, sem o saberem, eram as herdeiras privilegiadas de todos os méritos dos portugueses, que andaram pelo mundo dilatando a Fé e o Império. Vivemos em Portugal sob um céu carregado de divino e cheio de estrelas - Em Portugal, a presença de Deus respira-se, sente-se, apalpa-se - Tudo nos fala, no sangue e pela própria história a nós, portugueses de hoje, no dever urgente de não deixar nenhum dos nossos fora da órbita misericordiosa do Senhor Jesus. E a Igreja sente-o melhor que ninguém. A minha moça e querida Igreja de Aveiro deu o passo definitivo, lançando-se na construção de um seminário de novo estilo, para novos métodos de ação. O edifício, em si, é gritante e de capacidade superior às necessidades da diocese, em si pequena. Mas só assim se poderia dar a formação moral e a cultura necessárias a tantos rapazes pobres, que sem ele não a poderiam ter. Seriam valores perdidos ou hostis. Por ele, serão valores positivos da Pátria e da Igreja, no meio social em que vierem a viver como leigos, se não sentirem em si vocação sacerdotal. E com os vinte por cento que normalmente vão até ao fim, com caráter bem definido, vontade inquebrantável, cultos e de coração modelado pelas próprias mãos de Jesus operário, se irão tomando os pontos estratégicos, que depois terão de manter, como fronteiros da Pátria e da Igreja. Só assim, por uma preparação que nada esqueça e que por isso tem de realizar-se em meio e condições apropriadas, o exército de reconquista pode, em cada ano, ser reforçado por novas levas de jovens sacerdotes. E estes não faltarão, que o espírito que sopra onde quer, por amor de dileção, está soprando em todo o Portugal restaurado. Queremos padres fortes e de moral inatingível, totalmente dados à sua missão de surribadores espirituais, e que ao fim do dia, cansados como um operário, se sentem à mesa tosca, para comer o pão duro, exclamando como S. Francisco Xavier: — “Senhor, não me deis tanta alegria, que eu morro de alegria!” Mas, para tanto, também é necessário que a alma religiosa de todos os portugueses do mundo se concentre até à unidade, como nos tempos em que Portugal andou embarcado e penetrou terras e gentes desconhecidas. O próprio S. Francisco Xavier, numa carta ao padre Simão Rodrigues, perante as maravilhas realizadas pelos seus trabalhos e pela sua palavra, pedia-lhe que por ele agradecesse a Portugal inteiro e especialmente às mulheres de Lisboa e de Coimbra as suas esmolas e orações. E eu, propriamente, ainda nasci no seio de uma família em que, à noite, quando em comum se davam graças a Deus pelos benefícios do dia, nunca eram esquecidos os que andavam sobre as ondas do mar. Era o eco religioso da epopéia portuguesa, vivo em todos os corações, ainda os mais longínquos e humildes. Enquanto uns batalhavam e outros pregavam, mas todos correndo perigos desconhecidos, Portugal inteiro erguia as suas mãos confiantes; e, sempre que podia, mandava os meios materiais necessários à consolidação das vitórias do Espírito. E quem sabe se eu mesmo não sou hoje padre da Igreja Católica, legando-lhe inteiramente a minha vida e, para tanto, fechando uma carreira livre que prometia ser afortunada, em virtude daquela fidelidade de uma família rural à continuada epopéia do mar? Em certo sentido, também embarquei, se não nas naus do Infante, na barca de Pedro, desde a minha mocidade, sempre batida por tempestades humanamente mais poderosas do que ela. E foi certamente por ver Cristo novamente apedrejado, cuspido, insultado, já sem a sua túnica, desnudado no alto do calvário, vítima de todos os escárnios e acusado por todos os ódios, de todos os malefícios, que eu me dei totalmente a Ele, por meio da sua Igreja. E ainda é por Ele — somente por Ele — que eu vim a esta cidade maravilhosa de encantos perenes e inesquecíveis. Qualquer outra razão legitimava a vinda e a demora de quem quer que fosse, tão emocionante e rara é a beleza que se nos revela logo ao primeiro olhar! Creio até que não há conjunto mais majestoso, mais variado, mais aliciante, nos seus relevos, como no seu desenrolamento fílmico e colorido, do que este que da Baía de Guanabara pode apreciar-se e recolher-se, na medida da nossa capacidade receptiva. Foi ainda de noite, que vi esta cidade ondeante no seu encadeamento de luzes, ao longo das praias sem fim, como na dispersão, própria da desigualdade populacional — aqui mais, acolá menos — mas erguendo-se como estrelas em cortejo magnífico e como presenças adorantes e vivas, à roda do sol iluminante, que é Cristo Redentor no Corcovado. Na antemanhã, ficou um mar de nuvens emergindo dos seus pés, dando nítida impressão de que Jesus caminhava para nós, pleno de doçura e misericórdia, como outrora sobre o mar de Tiberíades, ao dirigir-se às barcas dos seus discípulos. Esta visão recolhida e íntima não se esquece mais. E logo que o sol deu em cheio na Baía, logo senti que Deus, só por ela, quis definir o sentido imperial deste povo, que na época contemporânea pode e deve ter a missão correspondente à de Portugal na era de quinhentos. Missão espiritual, sem dúvida nenhuma. Mas missão universalista, tanto pela riqueza econômica em que pode basear-se, como pelo sangue lusíada que informa e determina a sua ascensão na história. Por mim, não sei onde possa ver-se natureza mais magnificente, nem vinco mais profundo do homem, numa tal integração e interdependência, que fazem desta cidade uma das maravilhas do mundo. Qualquer razão legitimava a presença de quem quer que fosse, só para olhar e ver! Os olhos têm aqui o seu natural encantamento, na absorção desta beleza sem fim. Mas foi por Jesus, só por Jesus, que eu vim de Portugal a esta cidade maravilhosa, a quem Deus, pela sua palavra criadora, deu magnânima e diletantemente superabundância de encantada beleza. O salmista escreve que o céu e a terra cantam a glória de Deus. Eu creio que é aqui, como em nenhuma outra parte do mundo, que o homem pode reforçar o próprio canto de louvor de toda a natureza terrestre e estelar, cantando em cada dia sempre mais alto. Tudo isto nos maravilha e pretende aliciar para sempre. Mas se esta beleza fala dEle e se Ele propriamente a domina do alto do Corcovado, para exaltá-la e dar-lhe sentido, — eu todavia não posso deixar de ouvir a sua voz dolorida e queixosa, que da Europa e por isso de Portugal chama por mim, chama por todos nós, pois é lá que Ele mais sofre, pois é lá que Ele, em cada dia, vai perdendo a sua herança. Dir-se-ia que Ele está fazendo a política da barca de Noé, na expressão pessimista do padre Doncoer. Mas não, que Ele é sempre o mesmo Jesus, que por nós chama, para que a nossa vida se realize sob o seu olhar e comando. Mas, segundo se lê na sua conhecidíssima parábola, Ele só chama até a undécima hora. A duodécima já não existe para Ele e por isso também já não existe para nós. Esta é a hora dos que chegam depois, para chorar sobre as ruínas e dizerem ao Senhor, perante a total catástrofe, que tudo teriam feito, se tivessem pensado nisso! A duodécima hora da parábola corresponde à vigésima-quinta, que é aquela hora que já não nos pertence, pois já não faz parte do dia que nos foi concedido viver. É a hora que cai sobre a impossibilidade de realizar, porque soa, não sobre a vida, mas sobre a morte. Para nós, a hora de deixarmos de ser surdos chegou e é precisamente esta em que vivemos e que nos foi dada para ouvir e seguir a Cristo Jesus, como ao irmão mais velho, que conhece todas as delícias do reino e totalmente se deu por nós, para que nele tivéssemos a vida, Mas, neste sentido, temos até hoje praticado um pecado coletivo. E é só por isso que os homens desertam e se voltam irados contra nós. Mas confrange ainda mais pensar-se que sabemos que assim é e que alguma coisa deveríamos ter feito por Ele, que também é a única maneira certa de o fazer por nós. E, todavia, vão passando as horas do dia, sem que demos ao Senhor ao menos alguma coisa do que Deus nos concedeu por misericórdia. Vai-se adiando sempre o cumprimento deste dever premente, que todavia tantas vezes grita dentro do nosso próprio coração. Espera-se a última hora do dia, sem que possamos saber qual é e quando chega. Às vezes, porém, ainda nos é possível olhar para dentro de nós e verificarmos que, tendo sido abastados, somos naquela hora os grandes pobres do reino de Deus. E no último momento, porque já nada nos serve, porque nada podemos levar, apavorados perante uma eternidade que temos de enfrentar, legamos à pressa, entre dores físicas e morais, que tolhem a respiração e entoldam o entendimento, migalhas do muito que Deus nos deu. Essa é já a duodécima ou a vigésima-quinta hora, como quiserdes. É a hora que soa e cai sobre a morte. Todavia, durante o dia que nos foi dado viver, Jesus passou mil vezes, na fome, no frio, na quase nudez dos nossos irmãos sem teto e sem pão, solicitando de nós uma esmola de socorro e um olhar que aliviasse coração e alma. E mais intimamente, solicitou ainda, no dia que nos concedeu, generosidades para que seja possível reconquistar o mundo pela missão livre e apostólica da sua Igreja. Não temos, porém, querido vê-lO, nem ouvi-lO. E se por dobrada misericórdia, o encontramos de frente, chamamos-lhe simplesmente importuno e passamos adiante. E Ele lá foi e Ele lá vai, eterno peregrino mendicante, sempre incansável no seu amor, bater à porta de outro que também é seu irmão. É por este pecado coletivo, que Jesus vai perdendo a sua herança, pois a Ele, que é o grande e eterno vivo, só deixamos as coisas e nos damos a nós próprios, quando já tocados pela morte. Quem não ama; escreve S. João, já vive morto. E que é amar? Amar é dar, responde S. Tomás. E amar perfeitamente é dar-se totalmente, acrescenta o mesmo santo. Entretanto, pelo medo que temos de viver amando, os outros continuam a armar-se iradamente contra nós. E não são certamente os operários que vêm, depois da hora e já consumada a catástrofe, que nos podem ajudar a vencê-los. * Conta-se que um operário, que trabalhava na catedral de Nurenberg, ao terminar a sua tarefa, ficava no local de ‘trabalho, enquanto os seus camaradas, terminado o dia, recolhiam à casa. Logo que eles se afastavam, ia ele para junto de uma pedra, nela trabalhando paciente e devotamente, até chegar a noite. Isto repetiu-se até que, da pedra tosca, trabalhada pela arte daquelas mãos, saiu uma obra prima. Então, um dos seus camaradas perguntou-lhe onde poria ele aquela maravilha em pedra. - Lá em cima, respondeu ele. - Mas, lá em cima, ninguém a vê - Mas vê-a Deus. E esta pedra ainda hoje se mostra a todos os que visitam a maravilhosa catedral gótica, para que os homens vejam, admirem e louvem. Quem não quererá, nesta hora em que tem de reedificar-se desde os fundamentos a catedral do espírito, dar uma pedra para ela, lavrada pelo seu esforço e pelo seu amor a Deus e à vida? O dia, que é preciso viver-se em plenitude, já chegou. É o nosso dia, que nos foi dado, para vivermos a honra e a glória de reedificarmos em Cristo o mundo, que em grande parte já caiu em ruínas. E quem pensará que pode cumprir o seu dever, para além do dia que lhe for concedido? Os que vierem depois dele são os mortos da vida presente e os grandes náufragos da vida futura. Somente os vivos comunicam a vida. É de nós que o mundo precisa e é por nós que Cristo chama, pela voz da sua Igreja. Sente-se nas almas um ruflar de asas, que toma vulto força. É o sopro de esperança que atravessa a própria terra. E Jesus, como no lago de Tiberíades, pacificará as tempestades e tomará o comando do seu Império. E sobre os casais e o coração do homem, só então, descerá a paz. [1] Surriba: ato de afofar a terra para dar força às raízes da plantação ou das árvores. O termo tem sua importância devido ao contexto do parágrafo. [2] Alqueives: terra deixada em descanso, sem plantações, para recuperar sua força. [3] Não somente direitos, mas deveres e exigências.
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