“Trata-se
de dois casos de martírio coletivo ocorridos em localidades do interior do Rio
Grande do Norte, na primeira metade do século XVII. Vivia-se o conturbado período
do domínio holandês no Nordeste do Brasil (1630/1654), quando as autoridades
flamengas, influenciadas pela Igreja Cristã Reformada Calvinista, iniciaram
verdadeira perseguição religiosa às pequenas comunidades nascentes de católicos
da então Capitania do Rio Grande, que começavam a se organizar. A situação
agravou-se de tal maneira que culminou com o holocausto de numerosos cristãos
dessas comunidades...”
(Trecho da Introdução de Protomártires do Brasil, de Mons. Francisco de Assis Pereira, Aparecida-SP,Editora Santuário, 2000)
Os
relatos seguintes, que fazem parte de um capítulo do livro referido acima,
contribuíram para a Beatificação de 30 mártires brasileiros pelo Santo
Padre, no dia 21 de dezembro de 1998.
1. Os moradores do Rio Grande refugiam-se na Fortaleza dos Reis Magos e em Potengi
As
notícias dos graves e dolorosos acontecimentos de Cunhaú espalharam-se
rapidamente por toda a capitania do Rio Grande e capitanias vizinhas. A população
ficou assustada e temia novos ataques dos tapuias e potiguares, instigados pelos
holandeses. Urgia tomar medidas preventivas e defensivas. Mesmo suspeitando
conivência das autoridades flamengas nesses ataques, alguns moradores
influentes do Rio Grande, entre os quais o vigário Pe. Ambrósio Francisco
Ferro, Antônio Vilela, o Moço, Francisco de Bastos, Diogo Pereira e José do
Porto, não tiveram outra alternativa senão recorrer ao comandante da
Fortaleza dos Reis Magos, cujo nome tinha sido mudado para Forte Ceulen, para
ficarem lá sob proteção militar. Foram recebidos como hóspedes, não sabendo
estes que a hospitalidade terminaria em tragédia[1].
A
ameaça pairava, porém, sobre todos os outros moradores, em número bem
maior. Que fazer? O Forte não comportava tanta gente. Parecia necessário que
os moradores assumissem a sua defesa por conta própria. Assim pensando,
resolveram providenciar a construção de uma fortificação rude, na pequena
cidade de Potengi [2],
a 25 quilômetros da Fortaleza.
Pela
distância indicada se deduz não poder tratar se da própria cidade de Natal,
situada a apenas dois quilômetros da Fortaleza dos Reis Magos. Foi este o lugar
escolhido pelos moradores do Rio Grande para se defenderem contra os ataques dos
índios tapuias e dos holandeses.
Os
três cronistas portugueses, Lopo Curado Garro, Diogo Lopes Santiago e Frei
Rafael de Jesus, descrevem [...] o abrigo de Potengi e a maneira como os
moradores conseguiram sobreviver e responder aos ataques dos adversários.
Tomemos, como exemplo, a narração de Santiago:
“Determinaram,
como fizeram, de se recolher com suas mulheres e mais famílias a uma cerca ou
paliçada de pau-a-pique que fizeram com seus escravos, e forneceram de
mantimentos para muitos dias, em um sítio acomodado para sua defesa chamado
Potengi (...) e nesta cerca estiveram recolhidos três meses, padecendo muitas
misérias e trabalhos, sendo acometidos muitas vezes de seus inimigos, que, não
satisfeitos do sangue que tinham derramado, lhes queriam também esgotar o seu.
Eram os moradores que estavam dentro na cerca, setenta homens com suas mulheres,
filhos e escravos.”[3]
As
expressões “cerca de pau-a-pique” e “paliçada” usadas pelos
cronistas portugueses não nos devem levar a uma falsa conceituação do tipo de
abrigo levantado. Trata-se evidentemente de uma construção sólida, ampla e
com cobertura, capaz de resistir três meses ao assédio constante de armas de
fogo e máquinas de guerra e, ao mesmo tempo, abrigá-los contra as intempéries
e guardar seus pertences e mantimentos.
Do
lado holandês, várias fontes confirmam a existência do abrigo de Potengi e o
seu desmantelamento sob as ordens de Jacó Rabe[4].
O
documento mais importante, e ainda inédito, é o Diário de Viagem à Paraíba
e ao Rio Grande, do Alto e Secreto Conselheiro Adriaen van Bullestrate (4 de
outubro—29 de outubro de 1645), cujo original consultei em Haia, na coleção
“Lirieven en Papieren uit Lirazilie”, maço 60, do Arquivo Geral do Reino. O
prof. José Antônio Gonçalves de Mello, a meu pedido, traduziu a parte do
texto referente ao Rio Grande, onde Bullestrate chegou a 11 de outubro, que aqui
transcrevo em primeira mão:
“Por
ordem dos Nobres e Secretos Conselheiros transportei-me à Paraíba e dali ao
Rio Grande e segue-se o que ocorreu:
11
de outubro:
Antônio
Paraopaba,
regedor dos Brasilianos, havia partido com alguns de sua gente para o Cunhaú.
Foi convocado para um entendimento. Jacob Rabbi havia ido para Potengi,
situado a cerca de cinco milhas do Castelo (Ceulen).
Soube
que os portugueses haviam sido mortos pelos Brasilianos por toda a Capitania,
inclusive alguns que eles haviam assediado e se haviam entregado por acordo
(...). Soube mais que os portugueses que se haviam assentado no Castelo (Ceulen)
haviam sido também todos mortos (...).
12
de outubro:
Parti
para Potengi, situado a cerca de 5 milhas do Castelo, tendo ali encontrado uma
casa bem fortificada e cercada de estaca, na qual os portugueses se tinham feito
fortes; nela encontravam-se 232 pessoas, compreendendo mulheres e crianças
portuguesas e mais 100 negros dos portugueses que permaneceram. Algumas dessas
pessoas pediram para poder ir de barco para lgaraçu, outras para ir para o
cercado ao pé do forte e todas que as suas vidas e das crianças lhes fossem
poupadas. Permiti que aqueles que quisessem viajar para o forte pudessem fazê-lo
e às outras foi concedida a segurança.
13
de outubro:
Acordou-se
com o Comandante Blaeubeeck, seu tenente e porta-bandeira, o escolteto Schout, Antônio
Paraopaba e Jacob Rabbi o que será mais conveniente para a segurança desta
capitania, a saber:
Resolveu-se em primeiro lugar que as cercas que os portugueses haviam feito nestas terras, tanto em Potengi quanto em outros lugares, principalmente as próximas das casas de Francisco Mendes, de Estevão Machado e de Jan Jacobsen, inclusive as feitas de madeiras de carnaúbas, seriam todas demolidas, para impedir a existência de fortificações nesta terra e o Regedor Antônio Paraopaba encarregou-se de fazer executar o trabalho com a sua gente.”[5]
Observe-se que o número de pessoas refugiadas na cerca, indicado por Bullestrate, é bem superior ao referido pelas fontes portuguesas (70). Mas este é apenas o número de homens, ao passo que a informação de Bullestrate inclui mulheres, crianças e escravos.
A
presença em Potengi de alguns abrigos ou cercas onde os portugueses se
refugiaram é assim confirmada por esta importante fonte holandesa, assim como
os nomes dos dois Servos de Deus, Francisco Mendes e Estevão Machado
que estão na lista dos propostos pela Postulação ao reconhecimento do martírio.
2.
A cerca de Potengi é assediada
Deixando
Cunhaú após a horrível matança, Jacó Rabe e seus ferozes
aliados tapuias continuaram o seu itinerário de sangue por várias localidades
da Paraíba e do Rio Grande, chegando em setembro à Casa Forte de João
Lostau Navarro, um francês de Navarra, que possuía terras naquelas
redondezas. De acordo com as pesquisas de Olavo Medeiros, a Casa Forte ficava
situada perto da praia de Tabatinga, a poucos quilômetros de Natal[6].
Nessa
incursão, vários moradores foram mortos. O proprietário "por ser
estrangeiro" foi levado preso para o Forte dos Reis Magos[7]. No Forte,
Lostau Navarro encontrou-se com outro prisioneiro português, Antônio
Vilela Cid, acusado de cumplicidade na morte de um holandês no Ceará e de
fazer parte de uma conspiração que visava a expulsão dos holandeses[8],
além
do Pe. Ambrósio Francisco Ferro e de outros quatro moradores do Rio Grande, ali
recebidos como hóspedes.
A
etapa seguinte da fatídica viagem de Jacó Rabe foi Potengi, onde
os 70 moradores estavam refugiados na cerca de pau-a-pique. Acreditava
ele tratar-se de uma tarefa fácil pois os moradores não tinham como resistir
por longo tempo e logo se entregariam. Eles, porém, resistiram heroicamente com
as poucas armas à sua disposição: 17 armas de fogo, algumas espingardas,
dardos, mosquetes, espadas, zagunchos e paus tostados[9].
O
“aleivoso Jacó” ainda tentou persuadi-los a entregar suas armas em
troca de defesa e proteção, mas os moradores não se deixaram enganar:
“Os
cercados lhe responderam que bem certificados estavam que ele era o mesmo que
mandara matar os moradores de Cunhaú, estando inocentes (...), no tocante às
armas, que as não haviam de entregar, porque as tinham para se defenderem de
quem os quisesse matar, porque era a defensão natural, permitida pelas leis
divina e humana.”[10]
Foi
quando o irritado Rabe mandou vir do Forte Ceulen o reforço de duas peças de
artilharia. Não havia mais como resistir; os bravos moradores se renderam:
“Os
miseráveis, vendo a artilharia preparada e tanta resolução e eles sem nenhum
remédio e sem pólvora, cercados naqueles campos de tantos holandeses, trataram
da entrega, sendo os concertos que lhes prometeram de os guardar, e conservar
com as vidas e fazendas, e para isso fizeram suas capitulações.”[11]
Depuseram
as armas e entregaram cinco companheiros como reféns a serem conduzidos à
Fortaleza dos Reis Magos: Estêvão Machado de Miranda, Francisco
Mendes Pereira, Vicente de Souza Pereira, João da Silveira
e Simão Correia[12].
Em
troca, se lhes davam garantias de vida e passaportes em nome do príncipe de
Orange. Os moradores, porém, não acreditavam nessas promessas: resignados,
aguardavam a sorte, entregues nas mãos de Deus.
3.
O primeiro grupo de moradores é sacrificado
Com
a rendição da cerca e o envio dos reféns à Fortaleza dos Reis Magos, os
moradores do Rio Grande ficaram em dois grupos: 12 pessoas na própria
Fortaleza, incluindo os 5 hóspedes, 5 reféns e 2 prisioneiros,
e o restante dos moradores na cerca de Potengi, sob custódia.
Os
holandeses planejaram logo a eliminação do primeiro grupo, certamente por se
tratar de pessoas de influência e de prestígio na cidade: o vigário,
um escabino, um rico proprietário. O fato serviria de exemplo para os outros
moradores.
Tudo
começou com as ordens do Alto e Secreto Conselho do RecIfe para executar os
rebeldes, e a vIsita do Conselheiro Adriaen van Bullestrate, um dos três que
dirigiam os destinos do Brasil Holandês[13]. [...] Segundo os cronistas
portugueses, Bullestrate teria chegado à Fortaleza dos Reis Magos, procedente
do Recife, no dia 2 de outubro, véspera da execução dos mártires de Uruaçu[14].
Na
realidade, a fonte portuguesa mais antiga, a Relação de Lopo Curado Garro,
[...] (fala) tão-somente da chegada nesta data de uma lancha trazendo as ordens
do Supremo Conselho:
“Em
dois do presente mês de outubro chegou uma lancha do Recife ao Rio Grande e
conforme a execução que se fez, trouxe ordem para matar a todos os moradores
de dez anos para cima como ao diante se verá.”[15]
A
reconstituição da seqüência dos fatos é a seguinte: as autoridades
holandesas do Recife, temendo que se estivesse formando no Rio Grande uma
verdadeira insurreição contra o domínio holandês e visando eliminar de uma
vez os supostos chefes da rebelião, mandaram ordens para executar sumariamente
todos os moradores. Os emissários chegaram ao Rio Grande em 2 de outubro numa
lancha vinda do Recife: as ordens foram cumpridas logo no dia seguinte, 3
de outubro, com a horrível matança de Uruaçu.
O
Conselheiro Bullestrate veio logo depois para inspecionar os trabalhos e
verificar se as ordens tinham sido fielmente cumpridas [...]. Os 12
portugueses da Fortaleza foram embarcados em batéis e levados “rio acima”
para o porto de Uruaçu[16],
lugar
escolhido para a execução. Segundo as tradições locais, o lugar do martírio,
conhecido hoje como porto do Flamengo, fica às margens do Jundiaí, vizinho à
gamboa do Catolé (...).
Chegando
ao lugar “que para a navegação era porto, e para o martírio teatro”,
na bela expressão de Frei Rafael de Jesus, tudo já tinha sido precedentemente
preparado para aí se executar o massacre. Os índios já tinham sido avisados e
lá estava o chefe potiguar Antônio Paraopaba com os seus comandados.
Este chefe indígena, [...] educado na Holanda e, mais tarde, constituído pelos
holandeses regedor dos índios da capitania do Rio Grande, tinha-se convertido
à religião reformada e era um seu fanático defensor.
Numa
atitude ameaçadora e arrogante, Paraopaba “escaramuçando num
cavalo”, estava à frente de um pelotão de mais de duzentos índios, bem
armados, pertencentes aos dois grupos principais de índios da região:
potiguares e tapuias.
Logo
que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos doze moradores vindos da
Fortaleza que se despissem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios,
que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos:
“Saíram
dos matos com gestos e gritos tão medonhos que causariam espanto ao insensível,
quanto mais aos humanos, destinados para serem a presa d'aqueles tigres.”[17]
Teve
início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo e
fortes tintas pelos cronistas portugueses. Nas descrições nota-se claramente o
contraste entre a crueldade e a violência dos algozes, e a paciência, a
resignação e o perdão das vítimas:
“Começaram...
a dar tão atrozes tormentos aos homens, e tão desumanos, que já muitos dos
que o padeciam, tomavam por mercê a morte; mas usaram os holandeses da última
crueldade, dilatando a pena, e depois de cansados de darem tão aspérrimos
tormentos aos homens, os entregaram aos Tapuias e Potiguares, que ainda vivos os
foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram tais anatomias que são incríveis;
arrancando a uns os olhos e tirando a outros as línguas e cortando as partes
vergonhosas e metendo-lhas nas bocas.”[18]
A
Relação de Lopo Curado Garro acrescenta outros detalhes sangrentos:
“Logo
chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos
corpos destes mártires tais anatomias, que são incríveis; e não contentes
com elas, os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a
uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e
metendo-lhas nas bocas.”[19]
Ainda
não saciados com tamanha crueldade, entregaram aqueles corpos exangues aos índios
para o rito final:
“Retiraram-se
os holandeses, e entraram de refresco os Alarves, e não achando naqueles corpos
parte que de novo pudessem atormentar, os foram cortando e dividindo, por todas
as juntas, até que neste martírio deram as almas a seu Criador, envoltas nas
confissões da fé e nas galas da esperança. Horríveis à sua vista deixou a
crueldade aqueles corpos, tanto que nem ainda tinham formas de troncos: a muitos
abriram, para Lhes tirarem as entranhas, depois de lhes cortarem as cabeças,
as pernas e os braços, porque o não parecessem; às cabeças tiraram as partes
que lhes dão a forma, como olhos, línguas, narizes e orelhas; aos braços, as
mãos; às mãos, os dedos; e porque tivesse a crueldade de todos parte no todo,
não ficou gentio que não cortasse a sua parte.”[20]
A
este espetáculo barbárico contrapõe-se a atitude serena e profundamente cristã
dos moradores na hora suprema:
“No
dia e na forma relatada, se embarcaram todos os moradores que alojava a
Fortaleza. Navegaram até o porto de Hiomavaçu, onde os deitaram em terra,
rodeados da Companhia holandesa, cujo capitão os mandou despir a todos, e que
se pusessem de joelhos. Parece que com este mandato queria a tirania tirar à
paciência o ser da virtude, e fez com que a obediência a duplicasse. Sem
repugnância obedeceram todos, postos os olhos no céu, ao qual se ofereciam em
sacrifício, certos de ser chegada sua última hora.”[21]
“Pedindo
todos a Deus que tivesse deles misericórdia, e Lhes perdoasse suas culpas e
pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria
a santa madre Igreja de Roma.”[22]
Um
elemento de fundamental importância para a caracterização deste massacre como
verdadeiro martírio é a presença de um predicante da Igreja Reformada,
chamado na ocasião para tentar demover os piedosos moradores de suas convicções
religiosas, exortando-os a abjurar a sua fé. Os servos de Deus se mantiveram
firmes:
“Os
soldados de Cristo, com novo espírito, venceram a nova batalha, e com palavras
e ações abominaram a cegueira herética e os condenados erros de suas
seitas, confessando a gritos que morriam na pureza da fé católica, que crê e
ensina a santa Igreja de Roma: e que de todo o coração detestavam todos os artículos
que se desviavam de seus sagrados decretos, pela observância e confissão das
quais estavam prestes a dar, uma e mil vidas, se as tiveram.”
[23]
Após
o massacre, os corpos dos servos de Deus completamente mutilados ficaram
espalhados por todo o campo, às margens do Uruaçu.
4.
O segundo grupo de moradores é sacrificado
Enquanto
o Pe. Ambrósio Francisco Ferro era sacrificado na companhia dos reféns
e prisioneiros trazidos da Fortaleza dos Reis Magos, os outros moradores em número
bem maior, aproximadamente 65 homens com suas mulheres e filhos,
permaneciam trancafiados na cerca de Potengi, sob custódia de soldados
holandeses. Quando tiveram de se render ao bando fortemente armado de Jacó
Rabe após uma heróica resistência, como foi narrado anteriormente, os
moradores já não nutriam ilusões sobre a sua libertação e com espírito de
resignação cristã, aguardavam o momento do martírio, que sentiam iminente.
O
clima que reinava, então, na cerca era de intensa religiosidade. Segundo as
narrações dos cronistas, faziam-se aí orações, procissões com o Santo
Crucifixo, jejuns e penitências extraordinárias com ásperos e bem apertados
cilícios, cordas e outros instrumentos de penitência. No momento em que seus
corpos foram despojados de suas vestes para serem entregues aos algozes e também
ao serem preparados para a sepultura, visíveis eram os sinais desta austera
penitência sobre os seus corpos[24].
Lopo
Curado Garro descreve a cena com estas palavras:
“Houve
também entre estes mártires grandes penitências, sem saberem uns dos outros,
e ao dia que padeceram, jejuavam todos a pão, e água, assim os da fortaleza,
como os da cerca, não sabendo uns dos outros, ao dia por a manhã pediram licença
as mulheres para irem a enterrar os corpos mortos, e não lho consentiram; o que
os escravos fizeram às escondidas, e não se achou um palmo de pano para os
amortalharem a nenhum, por deixarem as ditas mulheres em estado que ficaram
despidas de todo, achou-se que todos estes corpos estavam com cilícios, e os
que os não tinham com cordas cingidas, e algumas tão metidas por a carne que
mal apareciam. E sabe-se que durante o tempo em que estavam cercados houve
extraordinárias penitências, e até os meninos as faziam, sendo todos nus, e
com cordas cingidas, e todos os dias se faziam procissões com um Santo
Crucifixo, esperanças claras destas almas estarem gozando da bem-aventurança.”[25]
Concluído
o massacre do primeiro grupo, os chefes holandeses enviaram seus soldados à
cerca, distante meia légua do porto de Uruaçu, para trazer os outros
moradores. Estes, já sabendo que iriam ser levados para o suplício, não
acreditaram nas promessas de salvo-conduto e liberdade que os emissários lhes
traziam e, entre lágrimas, se despediam de suas mulheres e filhos. Na verdade,
só os homens deveriam ser levados para o lugar do martírio, mas sabemos
pelas próprias crônicas que algumas mulheres, com os seus filhos, acompanharam
os chefes de família e foram também sacrificadas.
Santiago
descreve a emocionante despedida e a chegada ao local do martírio com essas
palavras:
“Despediram-se
os miseráveis de suas mulheres e filhos com muitas lágrimas, pedindo-lhes com
muita eficácia que, pois iam morrer por seu Deus e inocentes, que lhes
encomendassem as almas a seu Criador, e a quem pelo caminho foram pedindo perdão
de seus pecados, dando-lhes muitas graças e, mui conformes por morrerem daquela
sorte, e, antes de serem chegados ao sítio, teatro de crueldade e tirania
jamais vista, foram cercados dos índios, e em chegando viam os cadáveres de
seus companheiros e vizinhos que ainda palpitavam com as feridas, com cuja vista
não desmaiaram, antes deram a Deus muitas graças consolando-se uns aos outros,
e protestando que morriam firmes na fé católica romana.”
No
local da execução, ainda marcado pelo sangue dos companheiros recentemente
sacrificados, estando os seus corpos e membros espalhados por toda a parte,
repetiram-se as cenas de tortura e de extrema barbárie com “as mais
estranhas e horrendas crueldades e tiranias que jamais se usaram”. Cabeças
cortadas, pernas e braços dilacerados; a muitos arrancaram os olhos e a língua;
a alguns abriram o tronco, tirando-lhes o coração e as entranhas, cenas horríveis
que até os cronistas sentem pejo ao narrá-las: “Os opróbrios que nestas
mortes houve não são críveis, nem para contar-se sem faltar às leis da pudicícia,
vergonha e modéstia.”[26]
5.
Particularidades de algumas execuções
Os
cronistas não apresentam somente uma descrição genérica dos suplícios
infligidos ao grupo de moradores, mas se detêm particularmente em alguns nomes,
cujo martírio chamava a atenção pelo seu significado. Padre Ambrósio
Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de
sacerdote. Um dos cronistas diz:
“Ao
Padre Vigário Ambrósio Francisco Ferro fizeram tais anatomias e coisas,
estando ainda vivo, que tenho pejo de escrevê-las, e bem se pode coligir que
fariam hereges a um sacerdote tão honrado e virtuoso, em ódio e opróbrio da
religião católica romana.”[27]
[28]
Mateus
Moreira é
citado pelos três cronistas, embora com uma divergência de nome, Mateus ou
Matias[29]. A
descrição de sua morte ê o ponto mais expressivo de toda a narrativa de Uruaçu
e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na
hora do martírio[30].
Os
algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas, e ele morreu exclamando: “Louvado
seja o Santíssimo Sacramento.”[31]
Frei
Rafael de Jesus sublinha o significado profundamente religioso da profissão de
fé, de Mateus, com este comentário:
“E seria permissão divina para que a um mesmo tempo visse o herege, para sua confusão, este divino mistério (o maior de nossa fé) no coração que tirava e na boca por onde saía.”
Antônio
Baracho foi
amarrado a uma árvore e os holandeses, estando ainda ele vivo, arrancaram-lhe a
língua “pondo-lhe na boca em lugar dela as partes pudendas que lhe
cortavam”[32]. E
não ficou só nisto: depois de açoitado, queimaram-no com ferro em brasa e,
finalmente, tiraram pelas costas o coração, “desejosos sem dúvida de
verem o tamanho de um coração em que coube o sofrimento de tantos martírios”[33].
Estêvão
Machado de Miranda
foi executado diante de uma filha de sete anos que suplicava, abraçada ao pai
com grandes lamentações, que fosse poupada a vida de seu genitor. Depois do
pai morto, cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo aos algozes que
também a matassem[34].
Duas
filhas de Estêvão Machado foram mortas junto com o pai. A uma terceira “que
era uma galharda donzela” venderam-na aos índios por um cão de caça.
Uma
filha de Antônio Vilela, o Moço, ainda criança pequena, teve morte
desapiedada, “dando-lhe com a cabeça em um pau, a fizeram em dois pedaços”[35].
Uma
filha de Francisco Dias, o Moço, foi morta e aberta em duas partes com
um alfanje. [36]
Manuel
Rodrigues Moura:
seu martírio é citado por Lopo Curado Garro e Santiago[37].
A
esposa de Manuel Rodrigues Moura: depois do marido morto, cortaram-lhe as
mãos e os pés; a mulher conseguiu sobreviver ainda três dias e “acabou
dando alma ao Criador”[38].
João
Martins e sete jovens,
seus companheiros, foram os últimos a serem trucidados. Os próprios índios,
lamentando executar oito jovens tão cheios de vida, mostraram sentimentos de
compaixão e intercederam por eles junto aos holandeses. Estes não se comoveram
e, na presença de João Martins, mataram a todos os seus companheiros,
tentando desta maneira, demovê-lo de sua atitude. Ele respondeu com alegre
rosto:
“Não
me desampara Deus desta maneira, essas tomei sempre contra o tirano, e não
contra minha Fé, Pátria e Rei. E suplicou que o matassem logo porque estava
invejando as mortes de seus companheiros, e a glória que tinham recebido, e
quando não o quisessem matar, ele mesmo os persuadiria a que o fizessem.”[39]
Tais palavras provocaram ainda mais a ira dos fanáticos “que lhe fizeram em miúdas partes o corpo”
[1]
LUCIDENO, p. 151; SANTIAGO, p. 345.![]()
[2]
SANTIAGO, p. 339; CASTRIOTO, p. 407.![]()
[3]
SANTIAGO, p. 339: cf. LUCIDENO, pp. 149-150; CASTRlOTO, p. 406. ![]()
[4]
As fontes holandesas serão analisadas no cap. IV.![]()
[5]
O texto foi antecipadamente reproduzido, sem minha autorização, no livro Os
Holandeses na Capitania do Rio Grande, de O. MEDEIROS FILHO, Natal 1998,
pp.117-118.![]()
[6]
OLAVO DE MEDEIROS FILHO, “A enseada de Tabatinga e o porto de pescaria de João
Lostau Navarro”, in O Poti, 19/10/86 e 26/10/86, Natal.
[7]
LUCIDENO, p. 150; SANTIAGO, p. 339.![]()
[8]
HÉLIO GALVÃO, História da Fortaleza da Barra do Rio Grande, Rio de
Janeiro, 1979, p. 88.![]()
[9]
SANTIAGO, p. 339.![]()
[10]
LUCIDENO, p.150.![]()
[11]
SANTIAGO, p. 344.![]()
[12]
LUCIDENO, p. 151: SANTIAGO, p. 344-345.![]()
[13]
Diário de Viagem à Paraíba e ao Rio Grande, BPB, maço 60.![]()
[14]
SANTIAGO, p. 345: CASTRIOTO, p. 411.![]()
[15]
LUCIDENO, p. 151.![]()
[16]
A grafia do nome Uruaçu aparece com as seguintes variantes: Uruauassu (Lucideno),
Hioruvassu (Santiago), Hiomavaçu (Castrioto), Uruguagaçu (Mapa de Macgrave).![]()
[17]
CASTRIOTO, p. 414.
[18]
SANTIAGO, p. 346.
[19]
LUCIDENO, p. 151.
[20]
CASTRIOTO, p. 413.
[21]
CASTRIOTO, p. 412.
[22]
SANTIAGO, p. 346.
[23]
CASTRIOTO, p. 413.![]()
[24]
Cf. SANTIAGO, p. 353; CASTRIOTO, p. 414. ![]()
[25]
LUCIDENO, p. 154.
[26]
Loc. cit., p. 347. ![]()
[27]
Loc. cit., p. 347.
[28]
CASTRIOTO, p. 416. ![]()
[29]
Segundo Lopo Curado Garro e Frei Rafael de Jesus, o nome é Mateus Moreira.
Somente Diogo Lopes Santiago o chama de Matias Moreira. Cf. LUCIDENO, p. 152;
CASTRIOTO, p. 415 e SANTIAGO, p. 347. ![]()
[30]
João Paulo II evocou o belo testemunho de fé na Eucaristia de Mateus
Moreira, comparando-o com o dos mártires da Igreja. Homilia de encerramento
do XII Congresso Eucarístico Nacional - Natal, 13 de outubro de 1991. ![]()
[31]
LUCIDENO, pp. 152-153; SANTIAGO, p. 347; CASTRIOTO, p. 415. ![]()
[32]
SANTIAGO, p. 347.
[33]
Loc. cit., p. 347.
![]()
[34]
LUCIDENO, p. 153.
[35]
SANTIAGO,
p. 347.
[36]
Loc. cit. ![]()
[37]
LUCIDENO, p. 153; SANTIAGO, p. 348. ![]()
[38]
SANTIAGO, p. 348.
[39]
LUCIDENO, p. 153.