AS
RELAÇÕES INTERNACIONA
Régine
Pernoud
Tal
como existia, a Idade Média corria o risco de nunca conhecer o caos e a
decomposição. Nascida de um império arrasado e das vagas de invasões
sucessivas, formado por povos diversos, cada um com seus costumes, seu ambiente,
sua ordem social diferente, quando não eram opostas, e tendo também, quase
todos, um senso muito vivo de castas, de sua superioridade de vencedores, ela
deveria ter apresentado, e de fato, no seu início, apresentou, um inconcebível
esfacelamento.
No
entanto constata-se que essa Europa tão dividida, tão conturbada no seu
nascimento, apresenta nos séculos XII e XIII um entendimento e uma união que
jamais havia conhecido e que talvez não volte a conhecer ao longo dos séculos.
Vemos na primeira Cruzada príncipes sacrificarem seus bens e seus interesses,
esquecer suas disputas para tomarem juntos a Cruz – os mais diversos povos se
reunirem numa só armada, a Europa toda se emocionar ao chamado de Urbano II, de
Pedro Eremita e, mais tarde, de um São Bernardo ou de Foulques de Neuilly.
Vemos monarcas preferindo a arbitragem à guerra, se inclinarem ao julgamento do
Papa ou de um rei estrangeiro para acertar suas dissenções. Fato
impressionante, essa Europa organizada; não é um império, não é uma federação.
Ela é: a Cristandade.
É
preciso reconhecer aqui o papel que teve a Igreja e o Papado na ordem européia.
Ela foi, de fato, um fator essencial na unidade. Muitas vezes a diocese, a paróquia,
se confundia com o domínio familiar, sendo na Alta Idade Média, época de
decomposição, as células vivas a partir das quais se recompos a nação. As
grandes datas que deviam, para sempre, marcar a Europa, são as da conversão de
Clóvis e a coroação de Carlosmagno, a primeira assegurando ao ocidente a vitória
da hierarquia e da doutrina católica sobre a heresia ariana, a segunda,
realizada pelo Papa Estevão II, consagrando a doutrina dos dois gládios, o
espiritual e o temporal, cuja união formará a base da Cristandade medieval.
É
preciso levar em consideração, de modo mais geral, a influência do dogma católico
que ensina que todos os filhos da Igreja são membros de um mesmo corpo, como
lembram os versos de Rutebeuf:
| Tous
sont un corps en Jésus-Christ
Dont je vous montre par l'écrit Que li uns est membre de l'autre |
Todos
são um corpo em Jesus Cristo
E isso vos mostro por escrito Que uns são membros dos outros. |
A
unidade doutrinária, tão viva na época, ajudava na união dos povos.
Carlosmagno compreendeu tão bem isso que, para conquistar a Saxe enviou
primeiro os missionários, antes dos exércitos, e não por ambição, mas por
convicção. A história se repete no Império Germânico, na dinastia dos Othos.
Na
prática a Cristandade pode se definir a «universalidade» dos príncipes e dos
povos cristãos obedecendo a uma mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e
reconhecendo por isso um mesmo magistério espiritual.
Esta
comunidade de fé traduzia-se por uma ordem européia que deixa tonto um cérebro
moderno, tanto ela é complexa nas suas ramificações, grandiosa no seu
conjunto. A paz na Idade Média foi exatamente, segundo a bela definição de
santo Agostinho, a «tranqüilidade da ordem»[1],
desta ordem.
Um
ponto central permanece fixo, o Papado, centro da vida espiritual. Mas seu
relacionamento com os diferentes Estados é muito diversificado. Alguns estão
ligados à Santa Sé por títulos especiais de dependência: tal é o caso do
Império Romano-germânico, cujo chefe, apesar de não ser vassalo do Papa, como
se acreditou, deve ser escolhido ou ao menos
confirmado por ele. Isso se explica se nos lembrarmos das circunstâncias que
presidiram à sua fundação e a parte essencial que teve o Papado nisso. O
Papa, aliás, só faz lhe conceder o título e julgar os casos possíveis de
deposição.
Outros
reinos são feudos da Santa Sé, porque pediram, em dado momento de sua história,
a proteção dos Papas. Eles lhe entregaram solenemente suas coroas, como fez o
rei da Hungria, ou pediram que o Papa autentificasse seus direitos, como fizeram
os reis da Inglaterra, da Polônia ou de Aragão, para que o selo de São Pedro
ratificasse e preservasse suas liberdades.
Outros,
em fim, e neste número está a França, não têm nenhum laço
de dependência temporal com a Santa Sé, mas aceitam naturalmente suas
decisões em matéria de consciência e se submetem também de boa vontade às
suas determinações quanto árbitro.
Estas
são as grandes linhas do edifício da Cristandade, como expôs Inocêncio III
numa época onde ela já estava realizada, na prática, há muitos séculos. Ela
baseia-se essencialmente num entendimento de ordem sobrenatural[2]
entre os povos. Quando admiramos esta base sólida da paz
medieval, não podemos deixar de achar pobre a nova base estabelecida pelos
tratados de Westphalia (1648), que substitui a antiga harmonia pela frágil
agulha de balança das nacionalidades.
Foi
muito desprezado este tipo de relacionamento entre a Igreja e os Estados.
Estamos habituados a ver na autoridade espiritual e na autoridade temporal dois
poderes nitidamente distintos, e essa «intrusão» do Papa nos negócios dos príncipes
foi vista como intolerável. Tudo se esclarece se nos colocarmos dentro da
mentalidade da época: não é a Santa Sé que impõe seu poder aos príncipes e
aos povos, mas estes príncipes e estes povos, católicos, recorrem naturalmente
ao magistério espiritual, seja para fortalecer suas autoridades ou fazer
respeitar seus direitos, seja para pedir o arbítrio imparcial para julgar suas
disputas. Assim escreve Gregório X: «Si
é dever daqueles que dirigem os Estados de proteger os direitos e a independência
da Igreja, é também do dever dos que possuem o governo eclesiástico de tudo
fazer para que os reis e os príncipes possuam a plenitude de sua autoridade».
Os dois poderes, em vez de se ignorar e combater, se reforçam mutuamente.
O
que pode trazer confusão é que, na Idade Média, era geral manifestar maior
respeito pela autoridade religiosa que pela autoridade civil, de julgar uma
superior à outra, segundo a célebre palavra de Inocêncio III, «como
a alma é para o corpo, como o sol é para a lua»: hierarquia de valores
que não acarretava necessariamente uma subordinação de fato.[3]
Além
disso, não devemos esquecer que a Igreja, guardiã da fé, é também juiz no
foro interno e depositária dos juramentos. Ninguém na Idade Média sonharia em
contestar isso. Quando um escândalo público era cometido, ela tinha o direito
e o dever de pronunciar uma sentença, de expulsar o culpado ou de absolver o
arrependido. Ela faz apenas usar um magistério que lhe é universalmente
reconhecido quando excomunga um Roberto o Piedoso ou um Raimundo de Tolosa.
Igualmente quando, após conduta repreensível ou exageros de Philippe-Augusto
ou do imperador Henrique IV, ela libera seus súditos do juramento de
fidelidade, ela exerce apenas uma de suas funções soberanas, pois, na Idade Média,
todo juramento toma Deus por testemunha, e em consequência a Igreja, que tem o
poder de ligar e desligar.
Que
tenha havido abusos da parte da Santa Sé como da
parte do poder temporal, é incontestável, a história das disputas
entre o Papado e o Império comprova. Mas no conjunto pode-se dizer que esta
tentativa audaciosa de unir os dois gládios, o espiritual e o temporal, pelo
bem comum, foi um sucesso. Era garantia de paz e de
justiça, este poder moral que não se podia contrariar sem correr
perigos bem determinados, entre os quais a perda de sua própria autoridade e da
estima de seus súditos: enquanto Henrique II, rei da Inglaterra, luta contra
Thomas Beckett, não se sabe qual dos dois vencerá; mas no dia que o rei decide
se desfazer do prelado pelo assassinato, é ele o derrotado. A reprovação
moral e as penas que lhe são aplicadas têm mais eficácia que a força
material. Para um príncipe marcado com a interdição
a vida não é mais tolerável: os sinos silenciosos quando o rei passa, seus súditos
fugindo quando se aproxima, tudo
compõe uma atmosfera à qual, mesmo os temperamentos mais fortes, não
resistem. Mesmo um Philippe-Augusto acaba se submetendo, quando nenhuma força
material teria conseguido impedi-lo de deixar a infeliz Ingeburge gemendo na
prisão.[4]
Durante
a maior parte da Idade Média o direito de guerra privada é visto como inviolável
pelo poder civil e pela mentalidade geral. Era portanto difícil manter a paz
entre os barões e os Estados, e se não fosse a concepção da Cristandade, a
Europa teria sido um enorme campo de batalha. Mas o sistema em vigor permitia
colocar uma série de obstáculos ao exercício da vingança privada.
Antes de tudo, a lei feudal impedia que um vassalo que tivesse jurado fidelidade
ao seu senhor o atacasse. Houve faltas neste sentido, é claro, mas o juramento
de fidelidade estava longe de ser pura teoria ou simulação. Já vimos como o
rei de França Luiz VII, que tinha ido ao socorro do conde Raimundo V, ameaçado
por Henrique II da Inglaterra, na cidade de Tolosa, este último, apesar de ter
forças muito superiores e certo da vitória, se retira, declarando que não
pode sitiar um lugar onde se acha seu suzerano. Nesta ocasião o laço feudal
tirou a França de um momento de grande perigo.
Por
outro lado, o sistema feudal realiza uma série de arbítrios naturais: um
vassalo pode fazer apelo, contra seu senhor, ao suzerano deste; o rei, à medida
que sua autoridade se extende, exerce cada vez mais o papel de mediador; o Papa,
enfim, é o árbitro supremo. Bastava a reputação de justiça ou de santidade
de um grande personagem para que se fizesse apelo a ele; são vários os
exemplos na história da França. Luiz VII é o
protetor de São Tomas Beckett e seu intermediário nos conflitos com
Henrique II. São Luiz se impõe diante da Cristandade quando publica o famoso Dit
d'Amiens, que apaziguava as
disputas entre Henrique III da Inglaterra e seus barões.
Mas
qualquer nobre podia, por vingança ou por ambição, invadir as terras de seu
vizinho, e o poder central não era bastante poderoso para impor sempre sua
justiça, sem falar das guerras possíveis entre os Estados. A Idade Média não
procurou resolver o problema da guerra em geral, mas por suas soluções práticas
e medidas aplicadas ao conjunto da Cristandade, ela restringiu o domínio da
guerra, suas crueldades, e mesmo seu tempo. Assim, por leis precisas,
edificou-se a Cristandade pacífica.
A
primeira dessas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim do século X [5]:
é a primeira distinção feita na história do mundo entre o fraco e o forte,
entre o guerreiro e a população civil. Desde a data de 1023, o bispo de
Beauvais faz jurar ao rei Roberto o Piedoso o juramento da Paz. Proibição de
maltratar as mulheres, as crianças, os camponeses e os clérigos; as casas dos
cultivadores são, como as igrejas, declaradas invioláveis. Reserva-se a guerra
aos que têm equipamentos para o combate. Esta é a origem da distinção
moderna entre objetivos militares e monumentos civis – noção totalmente
ignorada do mundo pagão. Essa proibição não foi sempre respeitada, mas quem
a transgredia sabia estar sujeito à penas seríssimas, tanto temporais como
espirituais.
Depois
vem a Trégua de Deus, inaugurada
desde o início do século XI, ela também pelo imperador Henrique II, o rei da
França Roberto o Piedoso, e o Papa Bento VIII. Os Concílios de Perpignan e de
Elne, datando de 1041 e 1059 já a tinham renovado quando o Papa Urbano II, de
passagem por Clermont, em 1095, a
define e proclama solenemente, durante o mesmo Concílio que esteve na origem
das Cruzadas. A Trégua de Deus reduz a guerra na sua duração, como a Paz
a reduzia no seu objeto: por ordem da Igreja, todo ato de guerra é proibido
desde o primeiro domingo do Advento até a oitava da Epifania (Tempo do Natal),
desde o primeiro domingo da Quaresma até a oitava da Ascensão, e no tempo que
sobrava, da quarta-feira à noite até a segunda-feira de manhã. Podemos
imaginar o que eram essas guerras fragmentadas, ciscadas, que não podiam durar
mais de três dias seguidos? Havia, ainda aqui, os infratores, mas era seu o
risco e o perigo, e também a vergonha. Quando Oto de Brunswick é posto em
fuga, na Batalha de Bouvines, apesar de sua superioridade, pelo exército muito
inferior de Philippe-Augusto, foi considerado como castigo àquele que ousara
romper a Trégua e atacar num domingo.
Às
vezes os príncipes cristãos tomam iniciativas que completam e ajudam as da
Igreja. Philippe-Augusto, por exemplo, instituiu a Quarentena
do rei, um intervalo de quarenta dias deve obrigatoriamente passar entre a
ofensa feita, e devidamente reconhecida pelo ofendido, e a abertura de
hostilidades. Sábia medida, que ajuda a refletir e a encontrar um acordo amigável.
Este mesmo intervalo de quarenta dias é dado aos habitantes de uma cidade
inimiga, para que voltem para suas casas e coloquem em segurança suas coisas
quando estoura uma guerra. Não havia como se criar, na Idade Média, campos de
concentração ou seqüestros.
Mas
a grande glória da Idade Média foi de ter feito a educação do soldado, de
ter transformado um brutamontes em cavaleiro. Aquele que lutava por amor das
grandes proezas, da violência ou da pilhagem, virou o defensor dos fracos. Ela
transformou sua brutalidade numa força útil, seu gosto pelo perigo em coragem
consciente, sua turbulência em atividade fecunda; seu ardor ganhou vida e
disciplina ao mesmo tempo. O soldado tem doravante um papel a cumprir, e os
inimigos que ele é convidado a combater são, justamente, aqueles em quem
subsiste o desejo pagão do massacre, de orgia e de pilhagem. A Ordem da
Cavalaria foi a instituição medieval que mais se incrustou na lembrança, e é
justo, pois nunca se teve concepção mais nobre do título de guerreiro.
Tal como a encontramos instituída desde o início do século XII, ela é
realmente uma Ordem religiosa, e quase um sacramento. Ao contrário do que se
costuma pensar, ela não é dada apenas para nobres: «Ninguém
nasce cavaleiro», diz o provérbio. Camponeses, mesmo servos, a recebem,
enquanto que muitos nobres não a recebem. Mas ser armado Cavaleiro é tornar-se
nobre, e entre as máximas do tempo uma diz que «para
se fazer nobre sem declarações deve-se ser cavaleiro».
Do
futuro cavaleiro são exigidas qualidades especiais, traduzidas no simbolismo
das cerimônias que lhe conferem o título. Deve ser piedoso, devoto à Igreja,
respeitar suas leis: sua iniciação começa com uma noite de vigília, em oração,
diante do altar sobre o qual descansa a espada que cingirá: é a vigília de
armas, depois da qual, em sinal de pureza, toma um banho para assistir à Missa
e comungar. Recebe então, solenemente, a espada e as esporas, e lhe lembram os
deveres do seu ofício: ajudar o pobre e o fraco, respeitar a mulher, ser
corajoso e generoso; sua divisa será «Vaillance
et largesse», coragem e generosidade. Ele veste a armadura leve e recebe a
espada sobre seu ombro: em nome de São Miguel e de São Jorge ele é feito
cavaleiro.
Para
bem cumprir seu dever ele deve ser ágil e bravo: a cerimônia prossegue então
com uma série de provas físicas, verdadeiros testes para provar seu valor. Ele
vai para a arena courir une quintaine,
ou seja, derrubar um boneco atacando-o com o cavalo a galope, ou derrubar do
cavalo os adversários que virão desafia-lo. O dia em que são feitos novos
cavaleiros são dias de festa, onde cada um rivaliza em proezas, sob os olhos
dos castelãs, da mesnie senhorial e
da população concentrada em volta do terreno dos torneios. Agilidade e
vigor físico, bondade e generosidade, o cavaleiro representa um tipo de
homem completo, onde a perfeição do corpo é acompanhada das mais atrativas
virtudes:
| Tant
est prud'homme si comme semble
Qui a ces deux choses ensemble: Valeur du corps et bonté d'âme. |
O
homem valente é o que aparece
Que duas coisas traz em conjunto Do corpo o valor, da alma a bondade. |
O
que se espera dele não é, como no ideal da antigüidade, um equilíbrio, uma
justa medida, mens sana in corpore sano, mas um máximo, onde ele é chamado a
vencer a si mesmo, ser ao mesmo tempo o mais belo e o melhor pondo sua pessoa à
serviço de outra. Esses romances onde os heróis da Távola Redonda partem
incessantemente à procura de um feito maravilhoso traduz o ideal exaltante
oferecido a quem possui a vocação das armas. Nada mais dinâmico, para usar
uma expressão moderna, que o tipo do bom cavaleiro.
O
título de cavaleiro pode ser perdido, assim como deve ser merecido: quem falta
a seu dever é degradado publicamente, corta-se suas esporas de ouro junto ao
tornozelo, em sinal de infâmia. «Honni
soit hardement où il n'a gentillesse — Seja bem desprezado quem não tem
honestidade», dizia-se significando que o puro valor guerreiro de nada valia
sem a nobreza da alma.
Por
isso a cavalaria foi a grande vibração da Idade Média, deixando na língua
francesa a palavra chevaleresque, que traduz fielmente o conjunto de qualidades que
arrancavam admiração. Basta percorrer a literatura, contemplar as obras de
arte que nos deixaram, para vê-lo em toda parte, nos romances, nas poesias, nos
quadros, nas esculturas, nas iluminuras dos manuscritos, este cavaleiro cuja
bela estátua da catedral de Bamberg representa um perfeito modelo. Por outro
lado, basta ler nossos cronistas para perceber que este tipo de homem não
existiu apenas nos romances, e que a encarnação do perfeito cavaleiro,
realizada sobre o trono de França na pessoa de São Luiz, teve nesta época uma
multidão de outros exemplos.
Nessas
condições, podemos representar como podia ser uma guerra medieval:
estritamente localizada, ela se reduz muitas vezes a um simples passeio militar,
a tomada de uma cidade ou de um castelo. Os meios de defesa são, nesta época,
muito maiores que os meios de ataque: os muros, as fossas de uma fortaleza
garantem a segurança dos sitiados; uma corrente esticada na entrada de um porto
constitui uma segurança ao menos provisória. Para o ataque, usa-se quase que
exclusivamente as armas de mão: a espada e a
lança. Se um belo corpo à corpo arranca exclamações admiradas dos
cronistas, eles só manifestam desprezo pelas armas dos fracos que são o arco
ou a besta, que diminuem o risco mas também os grandes feitos. Para sitiar um
lugar usa-se catapultas de diversos tipos, trincheiras camufladas, ou ainda a
demolição das muralhas pela base, mas conta-se principalmente com a fome e a
duração do sítio para acabar com os resistentes. As fortalezas devem contar
por isso com enormes provisões de cereais em suas vastas criptas, cuja lenda
dos românticos transformou em jaulas para prisioneiros[6],
e procura-se sempre ter um poço ou cisterna no interior da praça. Quando uma máquina
de guerra é por demais mortífera, a Igreja proíbe seu uso. A pólvora para
canhões, conhecida desde o século XIII, só
começa a se espalhar quando a autoridade da Igreja não tem mais a mesma força
e os princípios da Cristandade começam a se esfacelar. Enfim, como escreve
Orderic Vital, «pelo temor de
Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar mais do que matar. Os guerreiros
cristãos não tinham sede de derramar sangue».
É comum ver, no campo de batalha, o vencedor fazer graça ao derrotado que lhe
grita um obrigado. Cita-se como exemplo a batalha de Andelys, empreendida por
Luiz VI em 1119, na qual houve três mortos sobre novecentos combatentes.
Criticaram
os princípios da Cristandade como prejudiciais ao patriotismo. Durante muito
tempo acreditou-se que a idéia de pátria começou com Joana d'Arc (sec.XV).
Mas tudo contradiz essa idéia. A expressão «France
la douce – a doce França» encontra-se na Canção de Roland, e nunca se
concebeu mais amorosa para qualificar nosso país. Os
poetas nunca deixaram de usa-la deste modo, como lemos em Andrieu contredit:
| Des pays est douce France la fleur | Doce França é a flor dos países |
E
no Roman de
Fauvel:
| Le
beau jardin de grâces plein
Où Dieu, par spéciauté, Planta les lys de royauté... Et d'autres fleurs à grand plenté: Fleur de paix et fleur de justice, Fleur de foi e fleur de franchise, Fleur d'amour et fleur épanie De sens et de chevalerie... C'est le jardin de douce France... |
Belo
jardim de muita graça
Onde Deus especialmente Plantou os lírios de realeza... E outras flores também plantou: Flor de paz e de justiça Flor de fé, de sinceridade Flor de amor, flor desabrochada De sentimentos, de cavalaria... É o jardim da doce França... |
É impossível pensar em sua pátria com mais carinho. E se passamos a examinar os fatos, achamos, desde a longínqua data de 1124, a prova mais convincente da existência do sentimento nacional: trata-se dessa tentativa de invasão da França pelos exércitos do Imperador Henrique V, dirigidas contra nosso país pelas estradas seculares dos invasores, a nordeste da França, em direção de Reims. Assiste-se então a uma tomada de armas geral de todo o reino. Os barões mais turbulentos, como um Thibaut de Chartres, então em plena revolta, esquecem suas querelas para se agruparem sob o estandarte real, famosa flâmula rubra de franjas verdes que Luiz VI havia tomado sobre o altar de Saint-Denis. A tal ponto foi a mobilização que, diante desse exército de guerreiros surgido espontaneamente de todo o país, o imperador não ousou continuar e deu meia volta. A noção de pátria era bastante viva, já nesta época, para provocar uma coalizão geral, e através da diversidade e multiplicidade dos feudos, havia a consciência de fazer parte de um todo. Esta noção devia se afirmar novamente com brilho, um século mais tarde, na batalha des Bouvines, e a explosão de alegria em Paris e em todo o reino, quando se anunciou a vitória real, é prova suficiente. O patriotismo, nesta época, apoia-se numa base sólida, o amor da terra, o apego ao solo, mas não deixa de se manifestar pela França inteira, pelo «jardin de douce France».
[Lumière du Moyen Age, cap. 6. Tradução PERMANÊNCIA]
Notas:
[1]
[N. da P.] A definição não é de santo Agostinho, apesar deste santo
doutor tê-la usado. Ela é de Aristóteles, 300 anos antes de Cristo. ![]()
[2]
[N. da P.] O autor usa o termo místico, mas hoje ele tem várias interpretações.
Entenda-se por entendimento sobrenatural um relacionamento baseado na
Caridade, estabelecido pelo amor de Deus, comum entre os povos católicos. ![]()
[3]
[N. da P.] Resumindo rapidamente a doutrina católica do dois gládios: A
sociedade civil tem como finalidade o fim natural do homem que é a
felicidade temporal, ou seja, bem estar, paz, prosperidade, etc. A sociedade
religiosa tem como finalidade o fim sobrenatural do homem, seu fim último,
a salvação eterna. As duas sociedades são independentes no seu campo próprio,
mas como o fim último é superior ao fim natural, o poder civil não pode
contrariar o fim eterno, havendo assim, naturalmente, subordinação do
civil ao espiritual. O materialismo crescente, a partir da Renascença até
nossos dias, levou a humanidade a separar as duas sociedades, (separação
da Igreja e do Estado), recusando essa subordinação, subvertendo a ordem
natural da vida social e criando o caos em que vivemos hoje. Mas essa
doutrina não é particular à Idade Média. ![]()
[4]
[N. da P.] Depois de se casar com Ingeburge, irmã do rei da Dinamarca, em
1193, Philippe-Augusto a repudiou e a prendeu num mosteiro. A rainha apelou
a Roma. Os legados papais enviados por Celestino III foram presos em
Clairvaux. O rei casou-se com outra. Assim que foi eleito papa, Inocêncio
III escreveu protestando: «A Santa Sé não pode deixar sem defesa as
mulheres perseguidas. A dignidade real não o coloca acima dos deveres de um
cristão». Não dando resultado, o Papa lançou a interdição sobre a França
(14/1/1200). Depois de tentar anulá-la, o rei acaba capitulando e se
submetendo no Concílio de Soissons. ![]()
[5]
O Concílio de Charroux, em 989, lança o anátema contra quem entrar por
força numa igreja para roubar, contra quem roubar os bens de um camponês
ou dos pobres, suas ovelhas, bois ou burros. (nota do autor) ![]()
[6]
O engano é ainda mais surpreendente pelo fato de que, ainda hoje, em alguns
países como a Algéria, usa-se esse tipo
de reserva de grãos, porões com um buraco circular no alto pelo qual se
descia um cesto para recolher
os grãos. (nota do autor) ![]()