A GUERRA DOS CRISTEROS
2a. parte

Jean Meyer

 

Os Levantamentos de 1926

Em 31 de julho, houve em Oaxaca um começo de motim por ocasião da entrega da igreja Sete Príncipes, e entre os punhais recolhidos pela polícia havia um com a inscrição: “Ou acreditas, ou te leva o diabo” (27). Em 2 de agosto, foi Acámbaro palco de graves acontecimentos: a multidão amotinada assassinou dois engenheiros (Raimundo López e seu ajudante José Almeida), que se julgou fossem militares por causa de sua roupa cáqui. O caso aconteceu de noite, enquanto se montava guarda na igreja. O presidente Calles citou este incidente aos bispos na entrevista de 21 de agosto. Como represália, o governo fez fuzilar numerosas pessoas.

O combate do Santuário da Virgem de Guadalupe em Guadalajara (3 de agosto) merece que nos detenhamos, pelo fato de acontecer na segunda cidade da República, e de que numerosos participantes foram depois ativos cristeros, e sobretudo porque os acontecimentos se desenrolaram de modo característico. Já em 31 de julho havia corrido o rumor de que o governo iria ocupar o santuário, e uma multidão havia invadido o templo e seus arredores para impedir qualquer atentado. Depois não voltou a sair, e ninguém podia passar diante da igreja sem gritar “Viva Cristo Rei!” Os meninos serviam de mensageiros, e, em caso de alarme, os sinos avisavam aos vizinhos dos outros bairros, que acudiam armados de facas, pedras e paus. Às 3 horas da tarde se soube que o exército ia intervir. Às 9 horas da noite apareceu um carro, e seus ocupantes se negaram a responder à pergunta das sentinelas “Que vens fazer?” Como um menino atirou uma pedra, um dos ocupantes fez um disparo de revólver. A multidão se amotinou, e o general Muñoz, o comandante que ia no carro, fez o exército intervir. Dez minutos depois chegavam os soldados em um caminhão, e, depois de haver dado aos católicos a ordem de desocupar, abriram fogo. Após dez minutos de combate, os cinqüenta soldados tiveram de se retirar para voltar à carga em número de duzentos e cinqüenta. As mulheres, no interior do templo, cantavam; fora, no átrio, homens e mulheres combatiam corpo a corpo com os soldados, depois de se haverem arrojado sobre os fuzis. Às dez da noite o exército controlava o jardim em torno da igreja, mas não a igreja nem o átrio. Para impedir a chegada de novos manifestantes, que afluíam de toda a parte com armas improvisadas e enchiam a rua de Juan Álvarez, o exército fez ocupar as esquinas e evacuar os quatro quarteirões em torno do santuário, disparando sobre os escassos transeuntes. Às seis da manhã foi negociada a rendição com o general Ferreira: deixaram partir as mulheres e as crianças, e os homens (trezentos e noventa) foram levados para o quartel, sob a aclamação da população, que gritava: “Viva Cristo Rei!” (28). Este foi o primeiro incidente em Jalisco, quando o governo quis ocupar a primeira igreja de Guadalajara. 

O mês de agosto foi assinalado por seis levantamentos, alguns de pequena importância, como o dos irmãos Yáñes, perto de Ecatzingo; o do estado de Puebla; e o do estado de Oaxaca, perto de Sayula. Em cada um deles, uns dezesseis homens foram rapidamente dispersados pelo exército. Os motins não se contam como verdadeiros levantamentos, mesmo os mais sangrentos, como os de Acámbaro e Tlaxiaco. Em toda a parte o exército estava à espreita, e as execuções sumárias se multiplicavam. O inventário provocou um tumulto em Cocula no dia 2 de agosto, em Guadalajara no dia 3 e em Sahuayo no dia 4. A ameaça de detenção do vigário Francisco Aréchiga havia mobilizado a povoação de Cocula; na manhã seguinte, as autoridades foram fazer o inventário. As mulheres que estavam rezando na igreja pensaram que iam deter o pároco, amotinaram-se e pretenderam expulsar os funcionários. O juiz Cedano, sem pensar no perigo, quis explicar-lhes as vantagens legais do inventário e foi linchado, apesar dos esforços do pároco, que logrou salvar as autoridades municipais (católicas e membros da Unión Popular). Quando o exército chegou na noite do dia 5, os sinos de convocação haviam feito milhares de pessoas reunir-se, e os trinta e cinco soldados não puderam fazer outra coisa senão dar meia-volta e retornar. A povoação permaneceu árbitro de seu destino durante dois meses, em que se preparou o levantamento propriamente dito, que ocorreu em janeiro de 1927. (29) 

Os graves acontecimentos de Guadalajara relatados acima foram seguidos de um levantamento em Sahuayo (Michoacán). Quando o governo quis fechar a igreja, encontrou uma multidão de civis armados de paus, pedras e cal viva. As milícias de Cerrito e de Huaracha, que receberam ordem de quebrar esta resistência, passaram-se para o partido dos católicos e desobedeceram às autoridades e à guarnição federal. Quando, dez dias depois, o general Tranquilino Mendoza foi reconquistar a praça com vários batalhões, fuzilou várias pessoas, entre elas José Sánchez Ramírez, ex-presidente municipal e irmão do futuro chefe cristero Ignacio Sánchez Ramírez. Os rebeldes de 4 de agosto já se haviam retirado para o campo. 

Em agosto, o inventário provocou na cidade Hidalgo o levantamento de José María Orozco, homem respeitado por todos, que havia sido chefe de milícia contra o bandido Inés Chávez García, do tempo do villismo. Morto no primeiro combate, foi substituído por seu filho Nabor. (30)        

O levantamento mais importante foi o de Zacatecas. Na noite de 14 de agosto, o exército havia detido o pacífico pároco de Chalchihuites, Luis Bátiz. 

Quando no dia seguinte, dia de feira, chegou Pedro Quintanar, comerciante de gado, personagem influente em toda a região e famoso homem de armas, o povo lhe suplicou que libertasse o pároco. Aceitou e ficou escondido na saída da povoação. Mas, antes que tivesse podido libertar os prisioneiros, estes foram mortos pelos soldados. Realmente não se tratava de um levantamento, apesar de “aqui haverem morrido uns soldados, mas defender um Padre não era nenhum delito” (31). Pedro Quintanar não teria desejado nada mais do que se reconciliar com o governo, mas este não o permitiu, e ele de fato se encontrou em estado de rebelião. Não lhe restava mais do que providenciar a chamada de sua gente e de seus amigos, que eram numerosos, pois havia sido chefe das “defesas” de toda a região contra os bandos villistas de 1914 a 1920, e posteriormente até 1923.  

Esta escaramuça precipitou o levantamento que Aurelio Acevedo e seus amigos preparavam desde 1º de agosto; porque o governo, que conhecia a autoridade de Quintanar, para se prevenir contra os acontecimentos, mobilizou os camponeses e requisitou as armas e os cavalos dos particulares. Deviam pois levantar-se agora ou nunca, “pois não convinha esperar que os camponeses tirassem as poucas armas de que dispúnhamos”. Sem comunicar a Acevedo, que procurava Quintanar para propor-lhe a direção do movimento, seus amigos se levantaram em 22 de agosto nos casarios de Peñitas e Peñas Blancas, provocando um “tremendo alvoroço, porque não se pensava que gente tão pacífica como aquela viesse a pegar em armas”. (32)    

Na mesma ocasião, Quintanar aceitava a direção do movimento, fazendo calar sua mulher, que queria dissuadi-lo, com estas palavras: “Tenho um compromisso com a Virgem de Guadalupe”. No domingo 29 de agosto, entrava Quintanar com uma centena de homens em Huejuquilla el Alto (Jalisco), entre clamores de entusiasmo, gritos de “Viva Cristo Rei!” e os sinos tocando alegremente. Às duas horas da tarde chegou um grupo de cinqüenta soldados, e foi iniciado o primeiro combate. Às onze horas da noite todos estes soldados estavam mortos ou prisioneiros. Quintanar confortou, deu de comer e visitou os prisioneiros, e logo os pôs em liberdade, incluindo os oficiais. A guerra em Zacatecas começou em agosto. (33)  

[...]

Ouçamos uma dos personagens, Francisco Campos, cuja extraordinária memória e preocupação com a exatidão histórica faz dele um irmão de Bernal Díaz: 

“No mês de julho de 1926 apareceu um manifesto na porta do templo deste lugar, que dizia: No dia 31 de julho, terão de ser fechados todos os templos da República Mexicana, e os sacerdotes têm de ser expulsos para outros países.
Artigo 1: Qualquer indivíduo encarregado de um templo, se repicar os sinos, será multado em cinqüenta pesos e um ano de prisão. 
Artigo 2: A toda pessoa que ensinar seus filhos a rezar, a mesma pena.
Artigo 3: A qualquer casa em que houver santos, também. 
Artigo 4: A qualquer pessoa que carregue insígnias em seu corpo, igualmente. E assim sucessivamente até o artigo 30. 

“Logo que vimos tal manifesto, dissemos: Certamente o governo espera que se respeite, mas em tais coisas isto não nos convém, e que antes saltem pedaços de pessoas do que se faça o que o governo diz. 

“Imediatamente nos reunimos para ver o que faríamos e como poderíamos fazer e saber a opinião de todos, se estavam em conformidade para defender a religião; dissemos que sim e que estávamos dispostos a lutar até a morte. Logo nomeamos um chefe, para que tomasse a direção e determinasse o que se deveria fazer. 

“O chefe nomeado se chamava Trinidad Mora, e logo se procurou saber quantas armas haveria; o resultado foi que se poderia contar com cento e cinqüenta, e Trinidad disse que era muito pouco; mas o povo disse que não havia problema, pois lutaríamos com pedras, paus e com tudo o mais. Outros diziam que era muito bom que já tivesse chegado o dia; bem... era uma festa, uma alegria que carregávamos, mas não sabíamos o que eram os horrores da guerra, não imaginávamos os grandes sofrimentos e trabalhos que iríamos ter. 

“Éramos quatrocentos homens nesta ocasião, e todos com a mesma intenção. A festa de Santiago foi feita, e esperávamos que o senhor padre, que na ocasião era o senhor Pablo Martínez, nos dissesse alguma coisa com referência ao que o governo ordenara; não nos disse nada, só nos disse que não nos deixássemos enganar pelos falsos profetas... A festa do dia 15 não se fez, fato que nos causou muita tristeza.

“No dia 12 de agosto, o governo mandou um ofício ao chefe do quartel deste lugar no qual ordenava que fossem feitos dois inventários dos santos que havia no templo, que remetesse um à presidência e o outro fosse deixado na povoação e que lhe fossem remetidos também os santos e os sinos; este fato nos causou muita irritação. O chefe do quartel nos mostrou o ofício recebido e nos perguntou o que faria com ele, e nós lhe dissemos para responder que a povoação não estava de acordo com que fosse realizado o ordenado, e assim foi feito.  

“No dia 18 de setembro, o governo mandou outro ofício com uma lista de dez nomes de pessoas indicadas pela presidência para realizar o serviço, e meu nome estava entre os dez indicados. O chefe do quartel nos mostrou esta lista, e então nós lhe dissemos que respondesse dizendo que os homens indicados não tinham querido fazer nada.  

“No dia 28 de setembro houve um baile na povoação, e como era de supor alguns dos que foram ao baile abusaram da bebida e amanheceram alegres; outros seguiram em passeata e se foram aproximando do templo. Seriam mais ou menos oito horas da manhã do dia 29, quando chega um carro onde iam três pessoas, chegaram perto do templo e saltaram. Dirigiram-se aos bêbados que estavam ali perguntando pelo encarregado do templo, e logo os bêbados lhes disseram: Para que o querem? E os homens do carro lhes responderam: Para que nos empreste as chaves do templo, viemos fazer o inventário que foi ordenado e que vocês não quiseram fazer. Então os bêbados lhes dizem: Aqui está a chave, aqui, acolá ou mais além e uma porção de coisas mais. Agarraram-nos, deram golpes e pedradas, desarmaram-nos, e despacharam-nos bem machucados.   

PRIMEIRO COMBATE

“Trinidad Mora mandou logo juntar o pessoal, dizendo: ‘Ainda não há luta, mas não demora a vir a Federação; juntem-se todos os que têm armas’. Reunimo-nos todos os que tinham armas, mas as armas que havia não serviam para nada: umas eram carabinas 30-30, outras eram 44, outras máuseres, eu tinha um pequeno rifle 25-35, mas tudo com pouca munição. Havia uns com vinte cartuchos, outros com cinco, outros com dez, outros com quarenta ou cinqüenta. Eu tinha uns dez pequenos cartuchos. Reunimo-nos cerca de cento e quarenta armados e outros que não tinham armas, mas disseram que nos combates conseguiriam armas e munições e nos poderiam ajudar. O mais certo é que juntamos uns duzentos e oitenta e cinco homens dispostos para a batalha.    

“Disse então Trinidad: ‘Vamos esperá-los no outeiro verde’; este outeiro está perto de Pilar, para o lado do poente, e logo empreendemos a marcha. Partimos muito contentes, como se fôssemos receber dinheiro, chegamos ao ponto indicado, pusemo-nos em posição, prontos para a batalha. 

“Por volta de uma hora da tarde do dia 29 de setembro, eles estão vindo. Preparados, rapazes! Não tenham medo. Os soldados nos tinham visto e quando chegaram no lugar onde estávamos: “Viva Cristo Rei”, e depois vão caindo soldados e mais soldados, que saem correndo, e vamos atrás deles gritando: Parem... até que os afugentamos para muito longe. Ficamos recolhendo as armas e munições que nos deixaram. Hoje estamos muito satisfeitos porque ganhamos deles, e damos graças a Deus, que nos ajudou a ganhar. Voltamos muito contentes, porque nos haviam deixado muitas armas e munições pela primeira vez.   

“No dia 30 de setembro, voltou o exército com grande número de soldados, mas não pôde vencer. A 1º de outubro chegaram os reforços, agora em tal quantidade que todos os habitantes da povoado tiveram de fugir para a montanha com mulheres e crianças, abandonando tudo. A grande guerra de Durango, que ia custar ao exército cinco regimentos e vários generais, havia começado”. (36)  

Outubro. Oito povoações se levantaram em Jalisco: Tlajomulco, Etzatlán, Belén del Refugio (onde o ex-deputado Emeterio Chávez foi linchado por uma multidão que o considerou suspeito de más intenções), Zapotlanejo (onde Félix Barajas se encontrou no dia 20 com cem rebeldes), Atenguillo, Tepatitlán (onde Victoriano Ramírez, “o 14”, e o “Güero” Monico deram trabalho ao comandante Quirino Navarro), e houve insurreições em Ameca, Cocula, Ciudad Gusmán, Chapala, Atengo, Ayutla e Tecolotlán. (37)  

[...]

Naquele mesmo mês de outubro, o exército pôde ver que as coisas não iam ser tão fáceis como pensavam o general Amaro e o presidente Calles. Os cristeros de Santiago de Bayacora, que andavam com suas famílias errantes pelas serras, alimentando-se de mel silvestre e milho verde, derrotaram o general Enrique León e as tropas do 26º batalhão e do 76º regimento. Depois deste combate, os cristeros pela primeira vez tinham cavalos, pão, açúcar, café, carne, farinha e cigarros, coisas sem preço no terrível deserto da serra (43). E, quando o governo sofreu novamente grandes perdas em uma emboscada, decidiu liquidar o inimigo de uma vez. Um general chegou de Chihuahua para dirigir a campanha, “disse que nos ia trazer amarrados, e partiu”. Com excesso de confiança, o general Ismael Lares, apesar dos conselhos do coronel que o acompanhava, caiu numa emboscada em que morreu em companhia de duzentos e cinqüenta soldados.   

Vou cantar estes versos
Para que os ouçam todas as gentes:
Já morreu o general Lares
Por maçom e inconseqüente.

Pelo porto de la Arena
Passava o general Lares
Muito cotado para a pena
De morrer nestes lugares.

O coronel lhe dizia: 
Não iremos à batalha,
Lá iremos outro dia
Com a força da metralha.

Respondeu-lhe o general:
Eu venho cumprir meu dever,
E se não queres vir
Não nos voltaremos a ver. 

O coronel Agapito Campos, perguntou ao general:
O senhor vem para nos levar amarrados?
Ah! que esperança que nos leve,
Nós somos muito malmandados.

Já se vão os santiagueros
Porque fizeram a diabrura
De matar o general
Está ali jogado como um animal.

Trinidad Mora e Pancho Campos
São os que o mataram
Tão logo caiu do cavalo
Eles o desarmaram. 

O general Lares era um homem 
Louro e gorducho,
Ali está jogado como um animal, 
Que parece um tolo.

E com isto me despeço
Do porto de la Arena,
Vamos eu e meu irmão
Vamos fazer a ceia.

Volta pomba, volta a voar,
Vai, diz a Calles
Que não se vá enganar 
E que nos venha visitar.

Voa pomba, volta a voar
Vai dizer a Calles 
Que já mataram Lares.

Voa pomba e não caias
Vai dizer a Calles
Que aqui estão seus paizinhos 
Que o querem conhecer.

E com isto me despeço
Com humildade e com fé
Vamos eu e meu irmão
Para servir o café. 
Porque não comemos todo o dia
Por andar lutando com Lares, 
Mas já o pegaram
E ali está estirado
Como se fosse um animal, 
O indigno velho,
Com barbas de caranguejo. (44)

[...]     

Novembro. No dia 2 de novembro, a Secretaria de Guerra declarava: “Nenhum problema militar afeta hoje a República... Há bandos... formados uma parte por fanáticos que se lançaram a aventuras rebeldes instigados por determinados elementos... outra parte por profissionais”. (48) 

Entretanto, no dia 2 se lutava perto de Tepatitlán (Jalisco), nas cercanias de Zapotlanejo e Tlajomulco, e no dia 7 San Juan de los Lagos era palco de uma revolta. Era domingo e o segundo dia de um tríduo solene, quando o tenente Marcos Coello deu ordem a seu pelotão de cavalaria para tirar dos chapéus dos peregrinos as insígnias e as fitas com os dizeres “Viva Cristo Rei”. Durante o tumulto que se originou, encontraram a morte o tenente e quatro civis. Ao entardecer, o 74º regimento declarava a povoação em estado de sitio, fuzilava três civis e saqueava as lojas. Naquela noite, quarenta homens partiram para o campo. (49) 

[...]

Anacleto González Flores tinha três motivos para rechaçar a guerra: sua experiência pessoal, que lhe inspirava a mais profunda desconfiança para a solução violenta; sua conduta política, que havia ditado seu comportamento havia cerca de dez anos, que consistia em educar as massas enquanto as preparava para a luta política pacífica; e a ordem imperativa de Monsenhor Orozco.

Resignou-se, sem entusiasmo, a transmitir a ordem da Liga de um levantamento geral para 1º de janeiro, porque a pressão popular era irresistível, e a multiplicação dos levantamentos espontâneos e desordenados tornava inútil o debate, uma vez que as massas se haviam decidido pela guerra, e era perigoso e trágico deixar que o governo sufocasse um após outro aqueles focos de insurreição. As promessas que a Liga jamais cumpriu (cem mil pesos imediatamente, uns milhões dentro da quinzena, tomada da cidade de Juárez etc.) permitiram-lhe resignar-se um pouco mais facilmente; mas não foram elas que decidiram.

Que o chefe da Unión Popular tivesse de se submeter à vontade de seus militantes explica o exemplo de Santa María del Valle. Em dezembro, o povo decidiu preparar o levantamento, e todos juraram “antes morrer do que renegar a Cristo Rei, sem temer o martírio nem a morte de qualquer modo que viesse. Tanto os homens como as mulheres que estavam reunidos acompanhavam em prantos e exclamações. Uns choravam porque iam perder-se muitas vidas de esposos, irmãos e filhos, mas ao mesmo tempo se sentiam honrados com seus familiares e comprometidos com a revolução. Filhos, não sejam covardes, levantai-vos para defender a causa justa! — isto diziam as mães aos filhos. Ao mesmo tempo que em coro todos gritavam ‘Viva Cristo Rei e a Virgem de Guadalupe’.” (58) 

[...]

As medidas tomadas pelo governo só tinham servido para precipitar os acontecimentos. Enquanto os católicos utilizavam os últimos recursos pacíficos do boicote e da petição, achando-se portanto mobilizados, o governo a partir de 31 de julho punha o exército em pé de guerra, requisitava os camponeses, desarmava os particulares e as defesas sociais, confiscava os cavalos e instalava guarnições. Depois dos primeiros levantamentos, não poucas vezes precipitados por estas medidas, e depois do erro dos inventários, o governo cometia o erro de fazer deter os sacerdotes por simples suspeita, o que provocava novos levantamentos. Ao ver em pé forças compostas por agraristas (67), a chegada de guarnições a lugares onde jamais tinha havido soldados (68), o desarmamento geral (69) e as primeiras execuções acabaram por convencer os relutantes. (70)

Para o povo as coisas estavam claras: a paciência, a penitência e as orações de cinco meses não haviam servido para nada, porque “o coração de Calles estava endurecido”. Não houve remédio, a revolução estourou no mês de janeiro de 1927, grupos de católicos realmente valentes se levantaram em armas contra o governo de Calles ao grito de “Viva Cristo Rei e a Virgem de Guadalupe”; houve mães que lamentavam não ter filhos para mandá-los à luta, e outras, que contavam só com um filho, com gosto o despediam.

Dada a lentidão pouco convincente da luta civil, a população, com os nervos arrebentados pela suspensão do culto, finalmente se decidiu pela guerra, sem saber o que isto significava em termos de aumento de horrores. Anacleto González Flores não podia esperar da população sensatez e moderação, quando os chefes da Unión Popular eram os primeiros a desobedecer. Teve de abandonar seu sonho “da revolução do eterno” (72) e de uma povoação de mártires que morrem de joelhos, para seguir os que, com delírio, exasperação e heroísmo, corriam ao combate.


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1a. parte

 


Notas


28) Relato de vários testemunhos e folheto "La ocupación del templo del santuario de Nuestra Señora de Guadalupe por las tropas federales, la noche de 3 de agosto de 1926".
29) "Datos históricos", obra citada. Testemunho do general Luis Ibarra/Ma
yer, 1968.
30) Testemunhos dos antigos cristeros de Sahuayo, especialmente de Jerónimo
González e Ciudad Hidalgo.
31) Meyer/Rosa Andrade, Chalchihuites, 1968.
32) Meyer/Aurelio Acevedo.
33) Idem.
34) Arquivo do governo de Jalisco, 1926.  
35) Diário... deputados, vol.116, 29 de setembro e 25 de novembro de 1926. Testemunho de José Sandoval, 1969. 
36) Andrés Lira/Francisco Campos, 1969; cartas de F.Campos a Jean Meyer; manuscrito de F.Campos.
37) Arquivo do governo de Jalisco, outubro 1926. Telegramas e cartas procedentes dos lugares citados.
38) Meyer/Pedro Martinez, 1968; e manuscrito de Manuel Félix Ramos em poder do P.H.Navarrete S.J. Copilação de dados para a história particular do povoado Etzatlán e sua compreensão. 
39) Meyer/testemunho de Vitoria, e particularmente Guadalupe Chaire e Vicente Osornio, 1968-69. 
40) Meyer/Carlos Díez de Sollano, 1969. 
41) Meyer/Claudio Garcia, Fortunato López, Angel Moctezuma, Francisco Ace vedo, Armando Castro, P.Tomás Herrera, em Chilapa, 1960.  
42) Testemunhos de Pablo Herrera Reyes e de Rafael Cruz Vidal López, de Huajuápam, 1969. 
43) Francisco Campos.
44) Composição de Francisco Campos.
45) Lagarde, pp. 92-3. 
46) Ver Camberos Viscaino, Francisco el Grande, 1966, t.II, pg.190. Convocado a 24 de outubro de 1926. 
47) Lagarde, pg.96. 
48) Excélsior, 2 de novembro de 1926.
49) O major Crespo Cantú, chefe do 74º regimento, foi julgado em Guadalajara pelas execuções executadas naquele dia.
50) Imprensa da época e testemunhos no local. 
51) Meyer/Aurelio Acevedo. 
52) Acevedo e "Historia de la brigada Anacleto González Flores en la contienda por el conflito religioso de Colotlán", m. de F.Sánchez, AAA. 
53) AAG, 1, 4, 11, 12 e 13 de dezembro. Em Tepatitlán as autoridades provocan os católicos com cartazes que diziam: "Viva Cristo Calles! Mueran los católicos cobardes!" 
54) José López Martinez, "Breve ensayo sobre la historia del pueblo de Tequilla, Tequilla 1937, cinqüenta e uma páginas, pg.41. 
55) Excélsior, 23 de dezembro de 1926. 
56) "Los cristeros", anônimo 1930, pgs.49-50 
57) Meyer/Carlos Díez de Sollano, 1969. 
58) "Tierra de cristeros..." pgs.52-53.
59) Testemunhos de Maria Ayala viúva do general Bárcenas, 1969; da senhora Trinidad Uribe, Gabriel Velasco e Miguel Román, Buenavista del Cuéllar, 1969. 
60) Manuscrito de Moisés Pacheco, "Apuntes para la historia de Tlapa", cento e quinze páginas, pg.43. 
61) Idem. Alusão ao assédio que Zapata dirigiu em maio de 1912, com Eufemio e o Tuerto Morales. Apesar de seus cinco mil e quinhentos homens, não pôde tomar o povoado defendido por toda a população. Com o cobre dos cartuchos zapatistas foram fundidos os sinos de ação de  graças. 
62) Teresa de Garcia, em Xalpatlahuac, 1969. 
63) Moisés Pacheco, "Apuntes para na historia de Tlapa", manuscrito com cento e quinze páginas, pg.43. 
64) Excélsior, 12 de maio de 1926: Parece mentira, mas neste estado há gente...que ainda grita: Viva a Virgem de Guadalupe! Morram os gachupines! 
65) Testemunho de Dom Anselmo Alvarez, Tlapa 1969 e Pacheco, obra citada pgs.101-102. 
66) Arquivo do governo de Jalisco, 1926. 
67) A sublevação de Quintanar, pessoa muito influente, "provocou uma reação consistente em milhares de agrários que se reuniram em Jerez" (Meyer/Acevedo). "Os líderes governistas rapidamente armavam os agraristas". 
Manuscrito de Juan Carlos, "Historia de Jerez".
68) "Entraram em San Miguel del Alto duzentos soldados do 74º regimento para guarnecer esta povoação, porque o governo teve conhecimento de que as povoações de Los Altos iam se levantar em armas. Diario anônimo, 28 de outubro de 1926.
69) Composição anônima:
De San Martin a Cocula
Houve três telegramas
Ordenando o governo
Que recorressem às armas.
70) A morte de uma criança em novembro, fez com que os de San Francisco decidissem ir à guerra (testemunhos de San Francisco), a de Epigmento Cerros, homem pacífico fuzilado sem julgamento em Colotlán, pois os Cristeros tomaram o local, fez aumentarem as tropas de Herminio Sánchez  
(testemunho de Luis Maria Castañeda). O exército começou a recrutar novamente, fato que precipitou os levantamentos (testemunho de Vicente Benavides de Bolaños).
71) Manuscrito de P.Hernández com sessenta e cinco páginas. Observa-se uma alusão implícita ao Faraó: "E o coração do Faraó se endureceu...", Ezodo 7,13. 
72) Formula de Anacleto González.