O
POSITIVISMO DE AUGUSTO COMTE
Pe.
Leonel Franca S.J.
Na França a História do
agnosticismo é inseparável do nome de AUGUSTO
COMTE
(1789-1857). A sua atitude agnóstica radical ele a exprime um sem-número de
vezes. O caráter fundamental da filosofia positiva é considerar “como
absolutamente inacessível e sem sentido para nós a investigação das chamadas
causas primeiras ou finais”.
A afirmação é categórica
e dogmática, muito no estilo de COMTE.
E a prova? A prova prende-se necessariamente à exposição de uma grande teoria
sobre a evolução intelectual da humanidade, vulgarmente conhecida com o nome
de lei dos três estados. “Espinha dorsal” do positivismo, chamou-a
com razão STUART
MILL.
É de fato a estrutura interna que lhe percorre todo o sistema, a cadeia
principal do arcabouço a que incessantemente se vêm articular todas as outras
idéias, condicionando-lhe o método de investigação e, em grande parte, o
valor de suas conclusões.
A evolução intelectual da
humanidade atravessou na história três grandes fases ou estados sucessivos: o
teológico, o metafísico e o positivo. O primeiro é o ponto de partida
indispensável, o terceiro o seu estado definitivo; o segundo, intermediário,
marca apenas uma fase de transição.
O modo de pensar teológico,
que caracteriza a primeira fase, procura explicar “a natureza íntima dos
seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o impressionam, numa
palavra, tende para um conhecimento absoluto”[1].
Com a base racional e empírica é ainda muito insuficientemente a faculdade que
entra em jogo; é principalmente a imaginação a apelar para seres
preternaturais — mais ou menos numerosos deuses, espíritos ou demônios —
cujas vontades arbitrárias e caprichosas explicam “todas as anomalias
aparentes do Universo”. A necessidade de unificar leva progressivamente o
homem à simplificação deste mundo de agentes superiores. Num primeiro momento
aparece o fetichismo que atribui aos seres uma vida espiritual semelhante à
nossa. Sucede-lhe o politeísmo e finalmente com o monoteísmo a unificação
completa do mundo invisível. Nestas representações teológicas encontra a
vida moral e social um sólido apoio. É a época da autoridade; em política
corresponde-lhe a forma monárquica do governo. Cronologicamente estendeu-se dos
tempos mais remotos ao fim da Idade Média.
Com o monoteísmo já se vai
estabelecendo a transição para o estado metafísico, cuja função
principal é destruir o pensar teológico e preparar o advento do positivo.
Percebendo o homem que o recurso para um mundo invisível nada explicava,
criando apenas uma duplicata inútil que por sua vez precisava ser explicada,
procurou no próprio universo a razão dos fenômenos. Às múltiplas divindades
da fase anterior substituiu entidades abstratas, distintas dos corpos mas neles
inerentes. Nasceram assim as afinidades químicas, o princípio vital, as forças
e faculdades e também o éter dos modernos físicos. A mesma tendência à
unificação que no período anterior levou ao monoteísmo, reduziu, no período
metafísico, a multiplicidade de forças a um princípio único — a natureza.
Este período é essencialmente negativo e dissolvente. Abala, com a
argumentação, a confiança na influência autoritária dos deuses mas nada lhe
substitui de construtivo e duradouro. É o reino da dúvida e do egoísmo; o
indivíduo é arrancado do seu meio social; a inteligência é cultivada com
detrimento da vida afetiva. O povo substitui-se ao rei; a soberania popular e o
pacto social passam a constituir o fundamento da vida política e os juristas
entronizam-se no governo das nações. São os últimos séculos da Idade Média,
o protestantismo, o renascimento e o deísmo.
Instituindo um paralelo entre
este período e o anterior, observamos: 1o.) que o objeto
das investigações é idêntico: o absoluto, as causas primeiras e finais, a
natureza íntima das coisas; 2o.) que o método
é caracterizado por um predomínio da imaginação sobre a razão: na idade
teológica, mais fantasia; na metafísica, mais raciocínio e argumentação; 3o.)
que as soluções apresentam diferenças
mais profundas; de transcendentes passam a imanentes; já não é fora dos seres
visíveis mas na sua própria natureza que se procura a explicação dos fenômenos.
Enfim, MALHERBE
vint... Surgiu por fim o estado positivo. O homem convenceu-se da
inanidade absoluta de suas explicações metafísicas que não faziam senão
personificar os próprios fenômenos, substituindo um nome abstrato ao fato
concreto que se devia explicar: vis dormitiva. Renunciou, portanto, de vez à investigação das
causas — eficientes e finais dos seres para entrincheirar-se num domínio
positivo, concreto, útil e real — a investigação das leis dos fenômenos, isto é, das relações constantes de semelhança
ou de sucessão, que lhes condicionam o aparecimento no espaço e no tempo. Nada
de entidades sobrenaturais, nada de princípios abstratos; simples relações de
analogias ou de antecedente e conseqüente, entre os fatos. A observação
assume aqui, como método, a preponderância absoluta a que se devem subordinar,
nas suas respectivas atividades, a fantasia e a razão. Como nos estados
anteriores, por força da tendência unificadora se chegou à unidade do Princípio
Absoluto — Deus ou Natureza, por analogia a perfeição do estado positivo
seria reduzir a universalidade dos fenômenos à simplicidade de uma só lei
universal. A própria natureza do estado positivo, porém, exclui a
possibilidade desta conclusão objetiva. Os fenômenos apresentam-se em grupos
irredutíveis e as leis que os regem não podem fundir-se numa única lei. Na
falta insanável de uma unidade objetiva, resta a possibilidade da unificação
subjetiva do conhecimento, assegurada pela aplicação do mesmo método positivo
ao domínio inteiro do cognoscível. A homogeneidade e convergência das teorias
serão o seu fruto natural. Por esta via, a nova filosofia porá um termo
definitivo à anarquia mental do Ocidente, lançando na ordem científica os
fundamentos estáveis da harmonia e do convívio social. O que o catolicismo
“obra-prima da sabedoria humana” realizou de modo completo e imensamente estável
conseguirá o positivismo no porvir do seu apogeu final. A renúncia definitiva
a qualquer explicação, transcendente ou imanente, da natureza ou essência das
coisas, da sua origem ou dos seus destinos; a fidelidade inviolável em observar
os fatos, registrando-lhes as estações constantes, como caracterizam a essência
do espírito positivo, constituem outrossim a condição imperiosa da vida e do
progresso da humanidade.
Eis nas suas grandes linhas a
concepção positivista do desenvolvimento da inteligência humana através dos
séculos; a grande lei sociológica que constitui o fundamento de sua atitude
radicalmente agnóstica em face do problema religioso.
Qual o seu valor? Estamos em
face de uma síntese científica que se impôs ou se impõe pela solidez de seus
fundamentos ou de um poema de idéias que poderá quando muito fascinar, como
uma obra de arte, pela majestade e simetria de suas proporções?
Antes de julgar a famosa lei
importa conhecer os fundamentos em que a baseou COMTE.
Por duas vias — indutiva e dedutiva — pensa o fundador do positivismo haver
justificado esta que ele julgava a mais importante descoberta da sua vida. A lei
sociológica é uma visão histórica e é uma conseqüência da constituição
e natureza da inteligência.
A posteriori,
a lei resulta da análise do nosso desenvolvimento individual. “Cada um de
nós, diz COMTE,
contemplando a própria história, não se lembra de haver sido sucessivamente,
quanto às suas noções mais importantes, teólogo na sua infância,
metafísico na sua juventude, físico na sua virilidade?”[2] Que a humanidade tenha
percorrido na vasta trajetória de seu desenvolvimento as mesmas fases por que
passa, num pequeno ciclo de anos, cada indivíduo, vêem-no, diz COMTE,
“quantos possuem um conhecimento profundo da história geral das ciências.
Todas as que já chegaram hoje ao estado positivo estiveram, no passado,
saturadas de abstrações metafísicas e, em eras mais remotas, dominadas pelas
concepções teológicas”[3].
A priori, a análise da constituição da inteligência
subministra-nos uma contraprova da experiência individual e específica, dando
à observação meramente histórica um caráter de lei, com a demonstração de
que o que foi devia ter sido.
a)
De fato, o homem sente uma tendência instintiva a explicar os fatos,
ligando-os por uma teoria. Só a lei científica poderá satisfazer plenamente a
esta aspiração da inteligência. Antes, porém, de atingir a perfeição do
estado positivo, a fim de tornar possível a própria observação dos fatos
era-lhe necessário um princípio qualquer, uma teoria provisória que lhe
permitisse sair do círculo vicioso inicial: só há teoria positiva baseada em
fatos observados, não se podem observar os fatos sem uma teoria qualquer. A
imaginação precedeu a observação e criou todo um mundo de seres
sobrenaturais, cujas vontades arbitrárias explicassem o aparecimento e a
orientação dos fenômenos. Passar logo daí para a idéia positiva de lei era
dar um passo muito largo, impunha-se uma ponte de transição, um estado
intermediário que atenuasse os contrastes muito violentos entre o pensar teológico
e o positivo. Foi a função do estado metafísico que “à ação sobrenatural
diretiva substituiu uma entidade correspondente inseparável”. Assim, a
necessidade inicial do estado teológico impôs-se à inteligência para sair do
círculo vicioso em que a envolvia a sua própria natureza, a do metafísico
como transição indispensável para o terceiro estado, definitivo.
b)
Outra razão em apoio de sua lei vai COMTE
pedi-la à tendência antropomórfica. A nossa atividade é a que primeiro e
melhor conhecemos. Explicar a dos outros seres à imagem e semelhança da nossa
é uma inclinação primitiva da inteligência. Os fenômenos, portanto, por
meio dos quais os corpos reagem à nossa ação ou agem entre si, explica-os o
homem, a princípio, por outras tantas vontades, naturais ou extranaturais, mas
sempre arbitrárias como a sua. Também aqui com o tempo a primeira e espontânea
explicação teológica foi revelando as suas insuficiências e uma metafísica
intermediária preparou, atenuou e facilitou as inevitáveis transições.
Observações
históricas, de caráter individual ou geral, e considerações teóricas sobre
a evolução progressiva da inteligência, sugeridas “pelo conhecimento da
nossa organização”, são os esteios em que descansa “a grande lei
fundamental”[4].
Não
é mister deter-nos muito tempo sobre a inconsistência destas últimas
considerações. Como análise da natureza profunda da nossa inteligência, como
demonstração necessária, interna e a priori, da sua evolução pelos
três estados, todas estas simples conjeturas, uns talvez plausíveis, outras de
todo inaceitáveis, são de uma pobreza lamentável.
Suponhamos,
com efeito, que diante dos fatos, a inteligência para explicá-los precise de
uma teoria e a imaginação entre em atividade formulando uma hipótese provisória
de trabalho. Por que há de ser ela necessariamente de ordem teológica? Por que
não seria imanente às coisas? E se o primeiro exercício de inteligência foi
universalmente teológico não teria sido este primeiro passo o maior obstáculo
aos seguintes? A hipótese da intervenção arbitrária e invisível dos deuses
sendo, por sua natureza, inverificável pela observação, o homem ficaria
dispensado de qualquer esforço interior e imobilizar-se-ia no pensamento teológico.
O
princípio da necessidade de um estado intermediário, aduzido em nome da exigência
de uma transição metafísica, levaria bem longe. Por que não também outro
estado intermediário entre o teológico e o metafísico, outro entre o metafísico
e o positivo? O pior, porém, é que COMTE
não nos apresenta nenhuma noção nítida e constante da metafísica. Aqui ela
nos aparece como a personificação ingênua de abstrações vazias, ali como
qualquer espécie de doutrina dissolvente de outra (no período teológico COMTE
interpõe um estado metafísico ou crítico entre o fetichismo e o politeísmo,
outro entre este e o monoteísmo); mais adiante como a fase aguda do duelo entre
o estado teológico quando toma consciência de sua decadência irremediável e
o estado positivo, forte no progresso de suas vitórias crescentes. Ora, estas
variadas acepções não são equivalentes nem se incluem necessariamente. Uma
doutrina pode dissolver outra sem, por isso, constar necessariamente de abstrações
vazias e hipostasiadas. Há, portanto, várias espécies de metafísica e
infelizmente nenhuma delas coincide com a verdadeira. COMTE
sentia uma aversão instintiva pela metafísica que lhe perturbava a visão
serena das coisas. “Tem-se freqüentemente a impressão, observa HÖFFDING,
de que COMTE
reconduza ao estado metafísico todos os resultados do pensamento e da vida,
contra os quais nutre alguma antipatia”[5]
“Combatendo a metafísica, adverte por sua vez o nosso FARIA
BRITO,
A. COMTE
criou um fantasma para ter em seguida o prazer de trucidá-lo”[6].
Latente
sob todas estas reflexões de COMTE
oculta-se ainda uma petição de princípio que lhe vicia
fundamentalmente o valor lógico. Por toda parte COMTE
supõe que os três estados se sucedem na evolução histórica da inteligência
e que o terceiro, o positivo, representa, isolado, a sua perfeição definitiva
e absoluta, e tenta, em seguida, explicar as causas desta sucessão. Supõe-se,
precisamente, a tese [que] importava demonstrar. O que deveria resultar como
conclusão das provas inspira-lhes de antemão o arranjo sistemático e
tendencioso.
E se
o pensar teológico, metafísico e positivo, em vez de três fases que se
sucedem e se excluem, constituíssem três exigências fundamentais da razão
humana que coexistiram sempre e tendem a harmonizar-se, distintas mas unidas,
numa síntese perfeita? Ora é esta precisamente a realidade. O saber positivo
é apenas uma das exigências da nossa vida intelectual; ao lado das leis
constantes de sucessão e coexistência dos fenômenos desejamos conhecer a
natureza e a finalidade das coisas que nos envolvem, do Universo de que somos
parte. A razão é por essência a faculdade dos porquês. E os porquês da ciência
positiva não exaurem a sua curiosidade total. Ao lado dos fenômenos cujas leis
a ciência investiga e formula, há o fundo da realidade que a ciência não
suprime nem explica, há o mistério das origens e dos destinos, inacessível
aos métodos experimentais, mas inevitável à razão filosófica e necessário
à atividade moral e religiosa. As próprias idéias de causa e de realidade que
constituem o ponto de partida da investigação científica, os princípios
racionais que lhe orientam os processos lógicos prendem-se necessariamente a
questões ontológicas que a ciência, tal qual COMTE
a concebeu, não resolve nem pode resolver. Notou-o profundamente um dos mais
notáveis epistemólogos contemporâneos, MEYERSON: “É o esboço de uma metafísica
[realista] por mais defeituosa que seja, que constitui a verdadeira mola motora
da investigação científica”[7].
A ciência “é e permanece (ou ao menos até aqui permaneceu) rigorosamente
realista, criadora de ontologias”[8].
“Assim ciência e filosofia não podem mutuamente desconhecer-se... são, uma
e outra, emanação da razão e de uma razão que permanece fundamentalmente a
mesma nestas duas manifestações”[9].
Era
necessária uma inteligência hipnotizada por um simples aspecto da realidade
para não enxergar a integralidade do real que nos domina. Enquanto houver razão
humana feita para a totalidade do ser, enquanto o universo da experiência se
apresentar insuficiente e implicável por si, enquanto a vida humana, ante a
caducidade do tempo, a luta do bem e do mal, o sofrimento e a morte alimentar idéias
de verdade e aspirações de salvação e de vida melhor, o homem será metafísico
e religioso. Como ciência, a filosofia e a religião correspondem a exigências
perenes da nossa natureza. É pena que não o visse COMTE,
e ao examinar a nossa “organização intelectual” se deixasse levar mais
pela influência latente de uma suposta lei preconcebida do que pela docilidade
completa às lições da realidade integral. Bem lhe poderíamos aplicar a frase
célebre de Hamlet:
There are more
things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
Com estas ligeiras observações não quisemos ainda indicar como se
passou a evolução do pensamento. Estamos ainda no plano teórico, não no
terreno da história. Nossa intuição foi apenas mostrar que as considerações
de COMTE
não demonstram de modo algum a necessidade do desenvolvimento humano
pelo itinerário dos três estados e a conseqüente impossibilidade de qualquer
outra forma de evolução. É o suficiente para tirar à célebre lei sociológica
o seu caráter de lei, para reduzi-la, quando muito, à contingência de um
fato, que não poderá, portanto, servir de princípio a nenhuma conclusão nem
de fundamento necessário a nenhuma superestrutura definitiva. toda lei é de
fato necessária; exprime um nexo de causalidade entre dois fatos. Ora, o estado
positivo não foi causado pelo metafísico, nem este pelo teológico. O conceito
de entidade abstrata não evolve necessariamente o de divindade mitológica; nem
uma abstração personificada evolve forçosamente numa simples relação
observada de seqüência ou de semelhança. Morfeu não se transforma, por evolução
dialética, numa vis dormitiva, nem esta numa lei constante de sucessão
entre a aplicação do ópio e sono. Entre os três estados teríamos, se
quiserem, uma seqüência cronológica, não uma conexão interna, uma contingência
de fato, não uma necessidade de direito; uma averiguação histórica, não uma
premissa lógica, princípio de qualquer conclusão necessária; uma visão
indicativa, não uma orientação normativa.
Com estas observações já
se lhes tira quase toda a importância intelectual, mas não recusemos descer ao
campo dos fatos a fim de verificar se, na realidade, nos achamos diante de uma
visão esquemática objetiva da história. Aqui a crítica pode ser material
e formal.
Quanto ao seu conteúdo material, na lei de COMTE pululam as inexatidões de toda ordem, e quanto mais descermos a particularidades, isto é, quanto mais nos encontramos com os fatos, tanto mais ressaltam os seus erros.
É inexato que o
estado primitivo do homem seja representado pelo fetichismo. Em matéria de
etnologia os conhecimentos de COMTE,
reduzidos quase ao livro do Presidente DE
BROSSES,
Du culte des dieux fétiches, eram muito rudimentares. Um dos seus discípulos
mais modernos, LÉVY-BRÜHL,
influenciado pelas idéias do mestre, pretendeu ver no homem primitivo uma
mentalidade essencialmente diversa, refratária à causalidade natural, e
irredutível às exigências da nossa lógica. Os primeiros homens eram pré-lógicos[10].
Mas nem a etnologia nem a psicologia lhe foram favoráveis. Idéias e fatos
condenaram o pré-logismo; depois de muitos outros BERGSON,
na sua última obra, deu-lhes o golpe de misericórdia[11].
É inexato que o
monoteísmo represente uma fase tardia na evolução religiosa da humanidade, A.
LANG
já de há muitos anos, estudando cuidadosamente as primeiras civilizações,
chamou a atenção sobre a existência de um Deus Supremo, o All-Father,
adorado pelas tribos mais primitivas. Não obstante a resistência tenaz oposta
pelos esquemas apriorísticos do evolucionismo, a tese de LANG,
confirmada pelas observações cada vez mais numerosas e convergentes, foi-se
impondo no mundo científico com o peso de uma evidência irrefragável.
Chamem-no Urheber com SÖDERBLOM, Essere supremo com PETAZZONI,
Hochsten Wesen com W. SCHMIDT,
Supreme Deity com RADIN,
a existência entre os povos primitivos de um Deus, criador do mundo, Legislador
e Juiz da ordem moral, é hoje um fato que já não é lícito ignorar. Citemos
apenas uma ou outra autoridade: RADIN:
“Há 25 anos que LANG
publicou o seu livro e sua penetrante intuição está hoje confirmada. Foram os
etnólogos que se enganaram. Fatos precisos, reunidos por especialistas autênticos,
vieram substituir os seus exemplos demasiado vagos. Já ninguém hoje contesta
seriamente que muitos dos povos primitivos crêem num Criados Supremo”[12].
PREUSS:
“A descoberta destes seres caía como uma bomba nos esquemas evolutivos
ascendentes tão bem dispostos pela Etnologia. Compreende-se que durante 10 anos
ela se tenha obstinado a ignorá-la e só recentemente se tenha resignado a tomá-la
em consideração... Todos os sábios que estudaram de perto esta divindade
suprema concordam hoje em reconhecer que ela não se apresenta como o termo de
uma evolução ou como a sua chave de abóbada ideal, mas bem pode ser uma criação
religiosa precoce. Com efeito, casos há em que não descobrimos coisa alguns
fora desta única divindade”[13]. O dr. J. SCHIESER,
utilizando os últimos trabalhos da etnologia, chega a estas duas conclusões:
“1o. ) Entre os nossos atuais primitivos encontra-se o monoteísmo;
e o seu monoteísmo é tanto mais puro quanto mais próximo eles se acham do
estado primitivo; 2o.) as amostras mais antigas da humanidade
primitiva, que, ao presente, representam o primeiro estádio da evolução
cultural e a infância da humanidade, professam o monoteísmo relativamente mais
puro, como também ocupam o lugar relativamente mais elevado no ponto de vista
religioso, moral e social entre as raças humanas primitivas mais jovens e os
outros pagãos não civilizados”. W. SCHMIDT
incontestavelmente a mais alta autoridade no assunto assim concluía um estudo
recente: “A longa lista dos sábios que acabamos de citar atesta que a questão
do Ser supremo dos primitivos venceu o desfiladeiro das contradições radicais
e das pretensões desdenhosas para penetrar na zona pacífica de uma consideração
séria e de um exame objetivo. A presença efetiva deste ser supremo e sua
originalidade já não são negadas por nenhum especialista qualificado. Seu
arcaísmo etnológico é muitas vezes reconhecido e já se não encontra quem se
atreva a rejeitá-lo absolutamente. Cresce, sem cessar, o número dos que
admitem a impossibilidade de o derivar do animismo, do magismo do Totemismo ou
do Naturismo e lhe conhecem uma origem independente. Muitos, se não chegam a
proclamar sua anterioridade, relativamente a estes diferentes fatores, confessam
que não há razões para o julgar mais recente”[14].
Se
dos povos primitivos passarmos às civilizações clássicas da antiguidade
oriental e ocidental encontramos também nos documentos antigos o monoteísmo a
preceder de muito o politeísmo dos panteões posteriores. Assim, para citarmos
o só exemplo da China, 15 ou 20 séculos antes da era cristã, aparece-nos
entre os chineses a crença num “Ser Superior que eles chama Céu sublime, Céu,
Soberano Sublime, Soberano, quatro nomes perfeitamente sinônimos. O Céu dá,
conserva ou tira a existência; é o autor de todas as relações e de todas as
leis; considera os homens e os julga; recompensa ou pune segundo os méritos ou
deméritos”[15].
É
inexato que o monoteísmo, na nossa civilização ocidental, possa considerar-se
como uma evolução espontânea do politeísmo greco-romano. A religião de Roma
imperial apresenta pelo contrário uma tendência a multiplicar os deuses do seu
Panteão. A origem do nosso monoteísmo não é o resultado de uma evolução
natural mosaica; como mais tarde nos livros sagrados judeu-cristãos vai prender
as suas raízes o monoteísmo muçulmano. A história não conhece um só povo
ou uma só civilização que espontaneamente, por “uma necessidade invariável”
da nossa “organização” se tenha elevado do culto politeísta à adoração
de um Deus único. A esta concepção só se elevaram por via do raciocínio
alguma inteligências do escol do paganismo[16].
Mas
ainda aqui é inexato que a história do pensamento estritamente filosófico se
possa reduzir aos três momentos do evolucionismo comtista. toda a história da
filosofia é um grande desmentido à famosa lei que deveria reger o
“desenvolvimento de todas as concepções teóricas”[17].
Tomai, por exemplo, a evolução do pensamento grego. O primeiro período é
caracterizado por investigações cosmológicas da realidade sensível; DEMÓCRITO
e LEUCIPO,
que o rematam, desterrando os deuses do cosmos e explicando todo o universo como
matéria e movimento (atomismo mecânico) bem podiam figurar, sem desdouro, ao
lado de muito positivista moderno. O período seguinte assinala o apogeu da
filosofia ática que elabora, com PLATÃO
e ARISTÓTELES,
as suas grandes sínteses metafísicas coroadas por uma magnífica demonstração
da existência de Deus. O terceiro período toma a princípio, com a escola estóica
e o epicurismo, um feito acentuadamente moral para orientar-se mais tarde, com a
escola neoplatônica, no sentido do misticismo e da teurgia. PORFÍRIO JÂMBLICO
e JULIANO
APÓSTATA,
seus últimos representantes, reaviventam o politeísmo com as suas práticas de
magia e necromancia. Se, com uma visão simplificadora da complexidade das
coisas no gênero da lei dos três estados, quiséramos resumir este ciclo magnífico
de 10 séculos do pensamento humano diríamos que a filosofia grega passou do
estado positivo através do metafísico para o teológico, monoteísta a princípio,
politeísta no seu termo final, evolvendo assim numa ordem precisamente inversa
à suposta lei de COMTE.
Passai
agora à filosofia moderna. O século XVII
e o XVIII,
assinalados pelo maravilhoso surto das ciências positivas, são ao mesmo tempo
a época das grandes construções filosóficas de DESCARTES,
ESPINOSA
e LEIBNIZ,
metafísicos e teólogos como os que mais o foram. A primeira metade do século XIX,
era de notáveis descobertas no domínio das ciências experimentais, é
contemporânea das sistematizações metafísicas de FICHTE,
SCHELLING,
HEGEL,
SCHOPENHAUER
e HARTMANN.
Os nossos dias assistem em todos os países a um renascimento metafísico que
costuma preludiar todas as épocas de pensamento robusto. “O mundo todo,
escreveu E. VON
HARTMANN,
está cansado do agnosticismo estéril, e todas as disciplinas filosóficas começam
a persuadir-se que se haviam emaranhado num labirinto sem saída donde só as
poderá libertar a metafísica”[18].
Não
há uma só época na história da filosofia em que se não encontrem em proporções
variadas as tendências empíricas e idealistas, racionalistas ou místicas. A
um contemporâneo de A. COMTE,
V. COUSIN
(1792-1867), pareceu-lhe ver a evolução do pensamento filosófico subordinado
em cada época aos ciclos periódicos: sensualismo, idealismo, ceticismo e
misticismo: quatro tendências ou quatro sistemas que encerram, cada qual, uma
parcela indestrutível de verdade. Não nos responsabilizamos pelo que pode
haver de artificial na síntese do fundador do ecletismo; não se poderá negar,
porém, que em todas as épocas se encontram representantes autênticos destas
diversas orientações do pensamento. Com que direito, portanto, mutila COMTE
a realidade total para afirmar, graças a uma seleção de todo em todo arbitrária,
a sua lei de evolução unilinear?
Nem
o forra à arbitrariedade a passagem da história da espécie para a dos indivíduos,
o reforçar uma suposta demonstração direta por uma prova indireta de
analogia. Quando ainda há pouco nos afirmava desabaladamente o fundador do
positivismo que o homem era teólogo na infância, metafísico na adolescência
e positivo na virilidade, ainda uma vez era infiel aos fatos, às lições da
psicologia como às da história. Em formas e proporções variadas, os três
tipos de conhecimentos existem em todas as idades; mas se quiséssemos
estabelecer alguma ordem na evolução psicológica verificaríamos que nos anos
da juventude a vida do conhecimento é mais orientada para a observação do
mundo exterior, na variedade impressionante dos seus fenômenos; com os anos
amadurece a reflexão, se curam as paixões efervescentes e os problemas metafísicos
e religiosos entram a preocupar a razão adulta. ARISTÓTELES
e LEIBNIZ,
DESCARTES
e PASCAL,
NEWTON
e COPÉRNICO,
AMPÈRE
e PASTEUR
não aliaram na mais robusta síntese o saber positivo à mais alta especulação
metafísica ou à mais intensa vida espiritual? KANT
e SCHOPENHAUER,
WUNDT
[e outros] não começaram a sua carreira pelo estudo das ciências positivas
para se elevarem, na plenitude de sua madureza intelectual, aos grandes
problemas de que se ocupa a metafísica? POINCARÉ,
MEYERSON,
REINKE,
KÜLPE
e WHITEHEAD
não percorreram, sob os nossos olhos, uma trajetória semelhante? Não
conciliaram quase todos os grandes sábios modernos a vastidão variada de sua
ciência positiva com a firmeza de suas convicções monoteístas e muitos
deles, com a mais profunda interioridade religiosa?[19]
Onde estão os grandes sábios que por uma “necessidade invariável”
desabotoaram “teólogos” infantes, evolveram a metafísicos adolescentes
para desfechar em varões positivistas e velhos ateus? “São só os pseudofilósofos,
observa com acerto O. WILLMANN,
que nada sabem de Deus quando chegam à metafísica e ignoram totalmente os
princípios, quando estudam a natureza”[20].
Evidentemente
não estamos em face de uma visão objetiva da história, mas diante de uma
construção subjetiva, artificial, apriorista e tendenciosa. Perfeitamente
justa a crítica insuspeita de RENOUVIER:
“Nunca hipótese alguma apresentou mais claros sinais da prevenção do que
esta pretendida lei que se queria deduzir da observação histórica. A petição
de princípio nela se manifesta claramente quando se confunde a marcha das ciências
positivas com a marcha do próprio espírito humano de que elas são apenas uma
obra parcial, realizada por meio da abstração científica, por um pequeno número
de homens. Em estilo baconiano, é um verdadeiro ídolo de caverna”[21].
Mais severo ainda o juízo de MEYERSON, uma das maiores autoridades contemporâneas em epistemologia e história
das ciências: “O menos que dela [a lei dos três estados] se pode dizer é
que constitui uma fórmula inteiramente apriórica. Nem uma só vez mostrou o
seu autor como a tenha tirado da história das ciências nem tentou confirmá-la
com os dados reais desta história; basta o relancear de olhos mais sumário
sobre esta evolução para infirmá-la a cada passo”[22].
Se
o conteúdo material da lei sociológica está em completo antagonismo com os
dados mais incontestáveis da história, das idéias, das instituições e da
civilização humana, a sua elaboração formal adoece ainda de enfermidades
mais graves. Passamos assim dos erros de fato aos vícios de lógica.
Começa-se
por uma generalização injustificada e contrária às exigências mais
elementares da metodologia científica. A base da observação sobre que se
pretende esticar a lei restringe-se aos povos ocidentais situados em torno da
bacia do Mediterrâneo nos últimos 4.000 anos de sua existência. O que se viu
ou se julgou ver nestes limites de espaço e de tempo é depois, contra todas as
regras da indução, ampliado a todos os tempos e a toda a humanidade em virtude
de uma suposta impossibilidade de retrogradação e de uma necessária evolução
retilínea — duas teorias cujo valor estava topo dependendo da verdade da
suposta lei para cuja generalização já eram empregadas como se foram verdades
demonstradas. É o primeiro círculo vicioso ou a primeira petição de princípio.
O
segundo equívoco fundamental esconde-se nos próprios termos em que se enuncia
a lei: chama-se teologia o que não é teologia, batiza-se de metafísica o que
metafísica não é, e depois conclui-se pela incompatibilidade dos três modos
de pensar, falsa e arbitrariamente conceituados[23].
Metafísica, diz COMTE, é a substituição do positivo pelo imaginado, a personificação de abstrações vazias, a pura dissolução da teologia. Não! Isto não foi metafísica; a transição de ideal para o real é apenas um velho sofisma denunciado por todos os lógicos e metafísicos e em que pode incorrer qualquer homem que não aprendeu a pensar: teólogo, metafísico ou experimentador.
Teologia
é a explicação dos fenômenos por vontades preternaturais, arbitrárias e
caprichosas, incompatíveis com a regularidade e constância dos fenômenos
observados. Ainda uma vez, não; semelhantes infantilidades ridículas não são
teologia[24].
Nenhum teólogo de valor, ARISTÓTELES ou S. TOMÁS
DE
AQUINO,
atribui à divindade esta função substitutiva da causalidade criada[25].
Metafísica
e teologia representam-se assim para o fundador do positivismo, produtor da
fantasia que indevidamente se substitui à razão. Ora, se há conhecimento
humano em que o papel da imaginação se acha reduzido ao mínimo e o da razão
ao máximo, é precisamente o domínio da filosofia. Os grandes metafísicos e
os grandes teólogos recrutam-se entre as inteligências mais elevadas que
melhor souberam discernir as exigências racionais do jogo das ilusões
imaginosas. É a lição da história!
Falseia-se
destarte a noção de teologia, falseia-se a noção de metafísica,
identificam-se uma e outra com um antropomorfismo ingênuo e, depois,
proclama-se a sua incompatibilidade irredutível!!
deste,
nasce outro equívoco ainda mais funesto. Os três modos de pensar, a ouvirmos COMTE,
versariam sobre a mesma realidade encarada sob o mesmo aspecto, e, por isto, não
se compadecem; necessariamente um deverá excluir os outros. Sobe o mercúrio
num tubo barométrico. Sentencia o sábio: é a pressão da atmosfera que se
relaciona necessariamente com a ascensão do líquido e a explica. Intervém um
metafísico: não! É o horror ao vácuo. Explica o teólogo: qual! É algum
diabinho ou algum gênio bom que preside à conservação dos barômetros. E
como as três explicações se excluem, só a do sábio é verdadeira; o filósofo
e o teólogo dêem as suas demissões e aposentem-se definitivamente.
Que
deplorável confusão! Quem não vê que a explicação científica, a filosófica
e a teológica da realidade atingem domínios diferentes e respondem a questões
de todo em todo distintas? Longe de se excluírem, completam-se. No domínio dos
fenômenos, o que se deseja saber é a solidariedade dos fatos, no espaço e no
tempo, e as leis que a regem; o método para conhecê-la, a observação e a
experimentação. O sábio está aqui no campo de sua exclusiva competência.
Quanto ele apurar, com o rigor dos seus processos, admitem-no sem hesitações
filósofos e teólogos, os primeiros a preconizar, também eles, a necessidade
da experiência na investigação das leis naturais. Mas a razão humana não pára
na primeira série dos porquês; aspira a conhecer a natureza das coisas e a
explicá-la inteligivelmente. Desejamos saber se uma pedra ou uma planta são a
mesma coisa; se o instinto e a inteligência são duas manifestações de um
mesmo psiquismo fundamental, se o homem e o bruto diferem apenas de grau ou de
natureza; se a ciência, averiguando apenas relações de coexistência ou de
sucessão, dá no Universo uma explicação suficiente e completa. Desejamos
ainda saber qual a origem e a finalidade do Cosmos e, de modo particular, qual a
origem e os destinos do homem? São ou não são estas questões inelutáveis,
postas a toda a razão que reflete? Que outra coisa é toda a história do
pensamento humano senão a afirmação maciça deste fato? Quem poderá
interditar à razão estes porquês, sem ao mesmo tempo a destruir radicalmente?
Ora, qualquer resposta que a estas perguntas se quiser dar não poderá
apresentar-se senão em nome de uma metafísica. Por sua natureza,
escapam aos métodos experimentais do saber positivo. Será uma metafísica
construtiva, que, baseada na experiência e nos princípios racionais, se
eleva com o raciocínio além do sensível, para explicá-lo adequadamente, ou
será uma metafísica crítica, que investigando a natureza dos nossos
meios de conhecimento lhes trace, no mundo dos fenômenos, limites intransponíveis.
Ora, desta crítica restritiva do conhecimento nenhum vestígio no
fundador do positivismo. “COMTE,
escreve HÖFFDING,
não sentiu “l’anillo” do verdadeiro problema gnoseológico. Tentou
sistematizar o conhecimento positivo, mas sem se propor a tarefa de examinar-lhe
o fundamento derradeiro”[26].
“Ele não tem consciência, observa por sua vez RENOUVIER,
da necessidade lógica de uma crítica geral do conhecimento. Não percebe como,
reduzindo a filosofia ao conjunto sistemático das ciências positivas, ou
afirma um princípio arbitrário ou precisa de uma investigação filosófica
superior para estabelecer a sua tese. Nada há com efeito, de quanto se tira de
uma destas ciências ou de sua reunião, que as possa dominar; sobre que base
repousará a sua sistematização? Há mister, portanto, outra filosofia, que, não
se identificando com uma das ciências admitidas pelo positivista, tem seu
fundamento ou na análise da consciência, ou nas verdades ditas da razão pura;
em outros termos, no que se chama psicologia e metafísica. Rejeitando sem exame
estas ciências, ou, se quiserem, estes estudos, qualquer que possa vir a ser o
seu resultado, o positivista comete uma petição de princípio”[27].
Por outra, a toda combinação positivista, falta-lhe a base natural. A eliminação
da metafísica e da teologia é feita em nome de um dogmatismo apriorista e
injustificado.
Daí
a marcha da civilização não obedecer ao itinerário traçado pela lei sociológica
dos três estados. O domínio do estado positivo com exclusão dos outros, se
fora possível, marcaria não um enriquecimento mas uma mutilação essencial do
homem. O progresso deve orientar-se para uma síntese harmoniosa dos três
estados. A causalidade científica, a causalidade metafísica e a causalidade
teológica não se excluem como incompatíveis, integram-se como complementares
e respondem a exigências distintas mas inextirpáveis da mesma razão ao
encarar a realidade em seus diferentes aspectos. Os métodos diversificam-se com
diversidade dos objetos mas é a mesma inteligência humana que se abre, em toda
a amplitude de suas mais legítimas aspirações às ciências positivas, à
metafísica e à teologia. O progresso realiza-se por uma distinção mais nítida
de domínios e por um aperfeiçoamento progressivo dos métodos respectivos. A
princípio o conhecimento apresenta-se indiferenciado e confuso. Em face de uma
explicação primitiva e ingênua da natureza não saberíamos muitas vezes
decidir se se trata de má teologia, de má metafísica ou de má ciência. Com
o volver dos séculos os campos se vão distinguindo e os métodos se vão
apurando. A ciência aperfeiçoa os seus processos de observação e experimentação
e em nome deles não afirma senão as relações constantes evidenciadas por uma
indução rigorosa. A metafísica e a teologia, alargando cada vez mais a base
experimental, não tentarão adivinhar a realidade, mas interpretá-la e explicá-la
com a crítica mais severa dos seus raciocínios. Cada forma de conhecimento
desenvolver-se-á na sua esfera, sem atritos nem conflitos com a vizinha[28].
Assim, na história dos indivíduos como na da humanidade progride a inteligência
pelo desenvolvimento harmônico de todas as suas virtualidades naturais.
Qualquer tentativa de mutilação na solidariedade deste dinamismo funcional está
condenada a um malogro irremediável. As questões de ordem filosófica ou
religiosa são tão consubstanciadas à estrutura da inteligência, tão
indissoluvelmente unidas à orientação da vida que não há esforço nem artifício
capaz de partir estes vínculos essenciais. A lei de COMTE
é a prova mais fulgurante. Enunciada com o propósito visível de excluir a
metafísica como uma vaidade de palavras vazias, descansa em peso num imenso
postulado de ordem metaempírica. toda ela visceralmente contaminada pelo vírus
metafísico. É o último círculo vicioso que a desvirtua.
Explicitemos
estes postulados latentes. A lei de COMTE
aspira a traçar o caminho do progresso. Vencidos os dois primeiros estados, de
sua natureza transitórios, a humanidade tende para o terceiro como para o seu
ideal definitivo; uma sociedade humana, emancipada de teologias e filosofias,
totalmente unida na concepção positiva do saber, na organização industrial e
na prática espontânea do altruísmo. Eis, portanto, o fim último que ao homem
aponta o positivismo: uma soma de bens terrenos harmoniosamente equilibrados.
Sua existência não se estende além das fronteiras do túmulo; os limites do
espaço e do tempo encerram definitivamente, nesta vida terrena, a totalidade
dos seus destinos. Ora, que são todas estas afirmações senão outras tantas
respostas às questões de natureza, de origem e de fins do homem, às questões
de causa eficientes e finais que se haviam declarado vãs e metafísicas e que
de fato não podem ser resolvidas pelos métodos experimentais das ciências
positivas? Suponde, por um instante, outra resposta dada ao problema da vida,
inspirada esta na filosofia espiritualista: o homem não é só um punhado de
argila organizada; no corpo de matéria vibra-lhe a chama de um espírito
imortal; criado por Deus, para ele tende como para a Suma Verdade e o Sumo Bem;
este termo necessário de sua perfeição e felicidade, atingi-lo-á pela
sinceridade e retidão de uma vida moral conscientemente orientada para o Princípio
e Fim de todo ser. Imediatamente, nesta suposição, a lei dos três estados,
longe de encerrar a fórmula do progresso seria, realizada, a maior catástrofe
que poderia sobrevir à humanidade: o desvio consciente e definitivo dos seus
destinos, a inabilitação radical para atingir a perfeição e a felicidade
para que foi feita e fora da qual só encontraria a desordem, a inquietude, o
desespero fatal.
A
lei sociológica não se desembaraçou, pois, da metafísica. Todo o progresso
é um movimento de aproximação para um ideal. E não há ideal, não há
determinação de valores, sem uma solução explícita ou implícita das questões
de ordem filosófica e religiosa. COMTE
não pôde subtrair-se a esta necessidade iniludível. Consciente ou
inconscientemente também ele optou por uma metafísica. Por desventura preferiu
a de pior cunho: o mais radical materialismo, que, no seu sistema, nem sequer
tem o merecimento de uma afirmação desassombrada ou de uma tentativa leal de
justificação. Insinua-se como fundamento disfarçado e mal seguro do inteiro
edifício vacilante. O agnosticismo de COMTE
é na realidade uma dissimulação superficial do materialismo ateu[29].
Deus,
por isso mesmo que de sua natureza é Absoluto e Necessário, é a única
realidade de que se não pode prescindir. Pelo fato indeclinável de pensarmos e
vivermos damos uma solução ao problema da vida e das suas finalidades. Todo o
movimento tem no próprio termo sua razão de ser e seu princípio específicos.
Na finalidade inevitável que propomos a este grande movimento da nossa existência
declaramos a Deus Necessário ou Contingente, isto é, afirmamo-lo ou negamo-lo.
Que estas atitudes sejam francas, racionais, sinceras e refletidas: é o maior
dever que se impõe à consciência do homem. Com ele jogam-se todos os seus
destinos[30].
[1] Cours de Phil. Positive, t. I, p. 9.
[2] Cours de Phil. Positive, t. I, p. 11.
[3]
Ibidem.
[4]
Aqui e ali acrescenta ainda COMTE
algumas considerações secundárias em favor da lei dos três estados. A
exposição da lei fá-la COMTE
em Cours de Philosophie Positive, t. I, Première leçon, pp.
8 e sgs.; Discours sur l’Esprit Positif, Paris, 1844, pp. 2 e sgs.;
Appendice Générale, pp. 137-146 (êste apêndice vem publicado no 4o.
vol. do Système de Politique Positive, Paris, 1854.
[5]
H. HÖFFDING,
Storia della Filosofia Moderna, Torino, t. II., p. 321.
[6]
FARIAS
BRITO,
A Base Physica do Espírito, Rio, 1912, p. 35.
[7] MEYERSON, Du Cheminement de la Pensée, Paris, 1931, p. 150. Da grande obra epistemológica de MEYERSON, escreveu PARODI: “son oeuvre marque une des directions essentielles de la pensée contemporaine”. La Philosophie Contemporaine en France, Paris, Alcan, p.498. Para um resumo de suas idéias cfr. GILLET, La Philosophie de M. MEYERSON, Paris, Beauchesne, 1931, em Archives de Philosophie, vol. VIII, 1931.
[8] Op. cit., p. 125
[9]
E. MEYERSON,
De l’Explication dans les Sciences, Paris, Payot, 1924, t. II, p.
361.
[10]
LÉVY-BRUHL
defende a sua tese nos livros Les Fonctions Mentales dans les Societés
Inférieures, Paris, 1910; La Mentalité Primitive, Paris, 1922; Le
Surnaturel et la Nature dans la Mentalité Primitive, Paris 1931. Neste
último trabalho o autor já atenua o radicalismo de algumas afirmações,
mas a orientação geral das idéias obedece ainda à sistematização
anterior.
[11] “Les deux mentalités [a do primitivo e a do civilizado] ne différent pas essentiellement l’une de l’autre”. “Ne parlons donc pas ici d’esprits différents du nôtre. Disons simplement qu’ils ignorant ce que nous avos appris” BERGSON, Les Deus Sources de la Religion et de la Morale, Paris, Alcan, 1932, pp. 154, 158. Para um estudo mais documentado além de BERGSON já citado, cfr. F. C. BARTLETT, Psychology and Primitive Culture, Cambridge Univ. Press, 1923; P. RADIN, Primitive Man as Philosopher, New York, 1927; LINDWORSKY, Vom Denken des Urmenschen, no Anthropos, 1919, pp. 419 e sgs; Die Primitiven und das Kausale Denken, em Semaine Internationale d’Ethnologie Religieuse, IV Sessão, 1925, Paris, 1926, pp. 60-75; Fr. BOAS, The mind of Primitive Man, New York, 1911, c. IV e IX; A. A. GOLDENWEISER, Early Civilization, London, 1926, pp. 327-416; O. LEROY, La Raison Primitive, Paris, Genthner, 1927; RAOUL ALLIER, Le Non-civilisé et Nous, Paris, Payot, 1927; P. CHARLES, La Mentalité des Primifs, em Rev. des quest. Janv. 1923, pp. 146-165; La Philosophie du Primif, em Nouv. Rev. Théol., Fev. 1930, pp. 110-126; P. EXBRAYAT, Le Non-civilisé et Nous, na Rev. Apologétique, t. L (1930), pp. 427-447; E. MEYERSON, Le Physicien et le Primitif, na Revue Philosophique, Mai-Juin, 1930, pp. 321-358.
[12] P. RADIN, Monotheism Among Primitive Peoples, London, 1924, p. 21.
[13]
K. TH.
PREUSS,
Die höchste Gotheit bei den kulturarmen Völkern, Psychologische
Forschung, Berlin, II, 1922, pp. 161, 164. O
ilustre professor da Universidade de Berlim e diretor do Staatsmuseum
já em 1914 acentuava a importância do novo rumo tomado pelos estudos etnológicos,
no opúsculo Die geistigejultur der Naturvölker, Leipzig, 1914.
[14]
W. SCHMIDT,
Origine et Evolution de la Religion, Paris, Grasset, 1931, p. 275. Entre
os etnólogos e psicólogos citados pelo autor encontram-se os nomes de P. EHRENREICH,
A. C. KROEBER,
NIENWENHUIS.
Para a documentação etnológica, relativa ao monoteísmo primitivo podem
consultar-se A. LANG,
The Making of Religion, London, 1898; P. RADIN,
Monotheism Among Primitive Peoples, London, 1924; CATHREIN,
Einheit des sittlichen Bewerstseins der Menschheit, 3 vols., Freib.
I. B. 1914; M. GUSINDE,
Die Feuerland Indianer, Wien, 3. vols., 1931; LE
ROY,
La Religion des Primitifs, Paris, 1909; R. PETTAZONI,
Dio, Formazione e Sviluppo del Monoteismo, nela Storia delle Religioni,
Roma, 1922 (Crítica da teoria uranista de PETTAZONI,
em Revista di Filosofia Neo-Scolastica, 1925, pp. 257 e sgs.);
numerosas monografias na Encyclopaedia of Religion and Ethics de J. HASTINGS; o conteúdo dos 8 primeiros volumes resumidos por J. HUBY
em Recherches de Science Religieuse, 1917, t. XIII, pp. 327-352; W. SCHMIDT e W. KOPPERS,
Völker und Kulturen, Regensburg, 1924; W. SCHMIDT,
Die Stellung der Pymaenvölker in der Euthwicklungsgerchichte des
Menschen, Stuttgart, 1910; W. SCHMIDT,
Der Ursprung der Gottesidee, 5 vols., Munster in W., é a obra
fundamental, onde se encontrará a mais completa documentação etnológica
e bibliográfica no assunto.
[15] WIEGER em Christen, Paris, 1912, pp. 96-97.
[16] Como se vê em tudo o que se refere à etnologia as concepções de COMTE nasceram mais das preocupações sistemátivas do autor e da época do que da observação serena e positiva dos fatos. Por isso, como bem observa W. SCHMIDT, “foram elas recebidas com entusiasmo pelo público em geral e pelos sociólogos. Nos meios científicos o acolhimento foi mais frio. O esquecimento evolutivo em três tempos era excessivamente simplificador, e no que se refere aos povos selvagens faltavam-lhe as bases positivas.” Origine et Evolution de la Religion, Paris, Grasset, p. 84.
[17] “Elle [la marche générale des opinions humaines] consiste dans le passage nécessaire de toute conception théorique par trios état succesifs.” Catéchisme Positive, Paris, 1890, p. 155.
[18]
“Alle Welt ist des unfruchtbaren Agnostizismus müde und alle
Einzeldisziplinen der philosophie beginnen einzuschen dass sie sich in
Sackgassen verant haben, dus denen nur die Metaphysik ihnen den Ausweg
zeigen kann”. E. V. HARTMANN,
em Deutschland, Ano I (1903), p. 71. Além da neo-escolástica, que de ano
para ano avoluma e intensifica a sua atividade, impondo-se com vigor
crescente à adesão das inteligências, este movimento de reação é
representado na Alemanha principalmente por TRENDELENBURG, BOLZANO,
BRENTANO,
ULRICI,
LOTZE,
BRANDIS,
GLOGAN,
THIELE,
BUSSE,
REIMKE,
KÜLPE,
SCHELER,
HUSSERL,
HEIDEGGER,
N. HARTMANN
etc. etc. Sobre a revivescência contemporânea da metafísica veja-se PETER WUST,
Die Auferstehung der Metaphysik, 1920.
[19]
Os estudos mais recentes e acurados sobre o assunto demonstram que mais de
90% dos grandes sábios crêem em Deus. A prova desta afirmação pode
ver-se amplamente desenvolvida e documentada em: E. NAVILLE,
La Physique Moderne, Paris, 1890; VALSON,
Les Savants Illustres du XVIe. Et du XVIIe. Siècle, 2 vols., Paris
1880; KNELLER,
Das Christentum und die Vertreter der neueren Naturwissenschaft,
Freiburg i. B. 1904; E. DENNERT,
Die Religion der Naturforscher, Berlim, 1908; A. EYMIEU,
La part des Croyants dans les Progrès de la science au XIX siècle, 2 vols.,
Paris, 1920; Id., Science et Religion no D.A.F.C. de d’Alès, c.
1242-1253; DUPLESSY,
La Foi et la Science, na Documentation catholique, 1924, pp. 119-129;
171-191 (complemento às investigações de Eymieu); R. DE
FLERS,
Le Sentiment Religieux et la Science, Paris, 1928 (Enquête du “Figaro”);
D. AUBRY,
La Foi sous la Coupole, Paris, 1930; BIBERTHIEN,
La Science Mène-t-elle à Dieu? Paris, 1933.
[20] O. WILLMANN, Geschichte des Idealismus t. III, p. 838.
[21] RENOUVIER, Philosophie Analytique de l’Histoire, t. IV, Paris, 1897, p. 229.
[22] E. MEYERSON, Du Cheminement de la Pensée, Paris, 1931, p. 638.
[23]
No definir a própria noção do saber positivo COMTE
não feriu o alvo. Seu conceito de ciência é inteiramente utilitário e
pragmatista. “Ciência donde previdência; previdência donde ação”, Cours
de Phil. Positive, I, 51, II, 57. O fim do conhecimento é unicamente prático:
orienta a ação. Daí, mesmo no domínio das ciências experimentais,
colunas de Hércules, por toda a parte, a limitar as mais legítimas aspirações
da inteligência. Todo conhecimento que não serve para a “melhoria contínua
de nossa condição” afigura-se “curiosidade estéril”. LE
VERRIER
é ridicularizado porque a “sua pretendida descoberta... se fosse real, só
poderia interessar os habitantes de Urânus”. Interdito lançado às
pesquisas sobre a constituição química dos astros. Telescópicos, microscópicos,
instrumentos de precisão são condenados como oriundos “de uma
curiosidade sempre vã e gravemente perturbadora”, de uma “curiosidade
pueril estimulada pela ambição”. COMTE
parecia recear que um conhecimento mais exato dos fenômenos fosse incompatível
com o determinismo das leis e introduzisse nas relações entre os fatos um
elemento de indeterminação perturbadora. “As leis naturais, em caso
algum, poderiam ficar rigorosamente compatíveis com uma investigação
muito minuciosa”. Por isto considere-se como definitiva a lei de MARIOTTE;
os trabalhos de RÈGNAULT
sobre as suas anomalias são denunciados como uma obra “ativa de
desorganização”; para salvar o sistema de conhecimentos positivos,
importa armar, contra semelhantes tentativas, o braço secular do
“verdadeiro regime especulativo do futuro”. Daí ainda a condenação
das teorias físicas: hipóteses de leis, sim; hipóteses de causas, não (Phil.
Positive, II, 312). Assim a teoria das ondulações de FRESNEL
é censurada severamente; não pode apresentar nenhuma “utilidade real
para guiar nosso espírito no estudo efetivo da ótica”; as “pretendidas
interferências óticas ou cruzamentos análogos em acústica” não passam
de “fenômenos subjetivos”; qualquer esforço de assimilação entre o
movimento, o som e a luz, nascem “do antigo espírito filosófico”.
Qualquer hipótese sobre a gravitação universal “seria por necessidade
total profundamente ilusória e perfeitamente ociosa”. FRESNEL,
MAXWELL,
LORD
KELVIN,
EINSTEIN
— todos os grandes físicos modernos condenados de antemão pelo fundador
do positivismo em nome da sua sistematização arbitrária! Bem escreveu ROUSTAN que “o homem recolhe os maiores benefícios de sua atividade científica
quando esquece mais completamente os conselhos” de COMTE.
Revue de Métaphysique, Sept. 1914, p. 627. COMTE
não viu como a verdadeira ciência é explicativa e causal e por isso
impregnada de idéias metafísicas. Veja-se a crítica profunda de MEYERSON
nas suas diferentes obras: Identité et Realité, 1908; De l’Explication
dans les Sciences, 1921; La Déduction Rélativiste, 1925; Du
Cheminement de la Pensée, 1931. A ciência real não obedece aos
esquemas de COMTE.
[24]
Muitas vezes — não sempre (cfr. BERGSON,
Les Deus Sources, p. 151), o selvagem ou o primitivo, para explicar
certos fenômenos anormais e insólitos, apela para vontades superiores. Há
mais lógica nessa atitude do que à primeira vista parece. Por deficiência
de observação, não vendo a causa do fenômeno, atribui-lhe a existência
à intervenção de ser ou seres que têm por existentes, para livrar o dado
experimental de uma contradição interna, qual seria um começo absoluto.
[25]
STUART
MILL,
não obstante a sua admiração a COMTE,
salienta que as suas observações não atingem senão uma teologia
infantil, e deixam intacta toda a teologia que formou de Deus uma noção
exata e racional. “A asserção de que a explicação teológica dos fenômenos
só pertence ao período em que se achava ainda na infância o conhecimento
destes fenômenos, não deve ser interpretada como equivalente da asserção
de que a humanidade, com o progresso da ciência, deixará necessariamente
de crer em qualquer espécie de teologia. Era esta a opinião de COMTE,
mas que se não acha de modo algum implicada no seu teorema fundamental. O
que nele se envolve é que, num estado de adiantamento da ciência humana, não
se reconhecerá um governador do mundo que só o governe por meio de leis
universais e que, a não ser em casos muito excepcionais, produza os
acontecimentos por intervenções especiais”. STUART
MILL,
Système de Logique Déductive et Inductive, t. II, Paris, 1866, p.
531. Não é necessário
esperar por um estado futuro de adiantamento da ciência, para conceber o
governo de Deus, não como uma série incoerente e caprichosa de intervenções
especiais no domínio dos fatos, mas como uma Providência que se exerce
através da constância e regularidade das leis naturais. Foi sempre esta a
noção católica de Divindade e da sua ação no mundo. COMTE
imaginou de antemão uma teologia pueril, inconciliável com a ciência
positiva e depois proclamou que a teologia e a ciência não podem
coexistir!
[26] H. HÖFFDING, Storia della Filosofia Moderna, Torino, 1913, t. II, p. 339. BOUTROUX toma outro caminho. As próprias noções de real e de útil que constituem, segundo COMTE, a essência do positivo aprofundadas levam necessariamente aos problemas metafísicos da natureza deste real e da determinação do ideal que permita hierarquizar o útil. “Le principe de COMTE, la notion du positif, union du réel et de l’utile, conduit, de lui-même, dès que l’homme le met en oeuvre, à ces objets supérieurs à la réalité donnée que COMTE s’était proposé d’éliminer. Le réel et l’utile nous sont une incitation à chercher le Vrai, le Beau et le Bien”. E. BOUTROUX, Science et Religion dans la Philosophie Contemporaine, Paris, 1908, pp. 78-79.
[27]
RENOUVIER,
Philosophie Analytique de l’Histoire, Paris, 1897, t. IV, p. 227.
“COMTE
et LITTRÉ
reconnaissent eux-mêmes que la science positive tout entière laisse un
“résidu” inexpliqué; ne faut-il pas dès lors determiner en quoi ce résidu
consiste, son rapport avec les faits et notions de la science, son role dans
l’esprit humain, la valeur speculative ou pratique qu’il peut acquérir,
sa relation avec nos sentiments et nos croyances? En un mot, le résidu de la science objective n’est-il pas précisement
ce que les métaphysiciens prennent pour objet de leur étude propre? En
ramenant les phénomènes sous la domination des lois, qui sont des
coexistences et successives constantes, la science nous fournit-elle une
explication ultime et suffisente de l’univers? Avons-nous obtenu tout au
moins la seule explication possible pour nous? Que l’on reponde
negativement ou positivement à ces questions, encore faut-il donner les
raisons de sa réponse; or ces raisons sont l’objet de la philosophie
première, de la métaphysique légitimement comprise, soit comme critique
de la connaissance, soit comme speculation sur l’existence”. A. FOUILLÉE,
Le Mouvement Positiviste et la Conception Sociologique du Monde,
Paris, Alcan, 1896, p. 271. “Si la métaphysique n’est pas la science,
est-il vrai pour cela que la science positive soit tout le savoir? Pour le démontrer
il faudrait une critique de l’entendement, c’est-à-dire, en fin de
compte, une métaphysique. Aussi, par son principe constitutive le
positivisme est-il condamné à ne jamais établir la proposition qui lui
sert de base; partant, son jugement sur la vanité des recherches
metaphysiques est mal informé et revisable”, L. LIARD,
La Science Positive et la Métaphysique, p. 56. Mas
por que multiplicar citações onde se trata de uma evidência irrefragável?
Há aqui uma tara de origem que vicia fundamentalmente todo o positivismo de
COMTE.
[28]
Sobre a distinção e harmonia destas diferentes formas de conhecimento, ver
a obra fundamental de J. MARITAIN,
Distinguer pour Unir ou les Degrès du Savoir, Paris, Desclée, 1932.
[29]
Agora poderá ver melhor o leitor as diferenças entre o agnosticismo inglês
e o francês. HUME,
ST.
MILL
e SPENCER
baseiam-se mais numa crítica do conhecimento para limitar o domínio dos
fenômenos; COMTE
funda-se numa suposta lei histórica de evolução da humanidade. O
agnosticismo inglês, com a impossibilidade de uma demonstração racional,
encerra uma afirmação positiva da existência de Deus, e assim julga poder
salvar a existência da religião. O positivismo francês é radical:
exclui, para sempre, a Deus das preocupações do homem e, em seu lugar,
oferece-lhe ao culto a trindade de ídolos: O Grande Ser (a Humanidade), o
Grande Fetiche (a Terra) e o Grande Meio (o Espaço)!
[30]
sobre o positivismo de COMTE
podem consultar-se: H. GRUEBER,
A. Comte, der Begrunder des Positivismus, sein Leben und seine Lehre,
Freib. I. B., 1889, tr. Fr. De Mazoyer, Paris, 1892; DE
BROGLIE,
Le Positivisme et la Science Experimentale, 2 vols., Paris, 1880; M.
DEFOURNY, La Sociologie Positiviste, Auguste Comte, Paris-Louvain, 1902;
J. DELVOLVÉ,
Reflexions sur la Pensée Comtienne, Paris, 1932.