O
"OSSERVATORE
ROMANO"
CONDENADO
Pela
primeira vez em sua vida o “Jornal do Papa”, título que comumente se dá a L’Osservatore
Romano, é condenado na justiça por difamação, e sua vítima não foi um
inimigo da Igreja, nem um herege, nem um membro da maçonaria ou comunista ateu,
mas um padre fiel e corajoso, cuja culpa consiste em publicar a verdade, doa a
quem doer. Chama-se Don Francesco Putti, que no dia de S. Pedro celebrou 25 anos
de sacerdócio, passados entre o confessionário e o púlpito, seguindo o
exemplo de um santo mestre duramente perseguido, com quem longamente privou: o
Padre Pio.
Diante
do estado calamitoso em que se encontra a Igreja, Pe. Putti canalizou suas
energias para dar vida a uma publicação mensal (hoje quinzenal) e cujo próprio
nome, Sì Sì No No, revela já a disposição de seguir a lição evangélica
registrada por S. Mateus.
Mas
os ambientes vaticanos, hoje tão infiltrados, aceitam que os sacerdotes digam a
verdade, amparados que sejam pela Doutrina ou pelo Magistério?
Tudo
indica que não, e cada publicação tradicional e fiel editada pelo mundo afora
é prova disso, pois sofrem marginalização e mesmo perseguição, como se pode
amplamente demonstrar em Roma ou no Brasil e no mundo inteiro.
Desta
vez, porém, o osso era duro de roer. Mas vejamos o que sucedeu. No mês de
abril de 1979, na primeira página de Sì Sì No No, apareceu um artigo
intitulado “Nova et Vetera” (Coisas novas e velhas). Não sendo
assinado, era, pelo seu relevo, equivalente ao editorial do diretor responsável.
Ali se narra que um Monsenhor, identificado adiante como Mons. Caprio, da
Secretaria de Estado do Vaticano, procurara oficialmente o diretor de Sì Sì
No No para acusá-lo de fazer escândalo, a tal ponto, que, dizia ele, um
Cardeal como Garrone, Prefeito da Sagrada Congregação para a Educação Católica,
não poderia ser removido, apesar de demonstrada a nocividade de sua ação
eclesial, porque isso seria reconhecer a eficácia dos ataques desferidos por Sì
Sì No No contra aquele Cardeal.
Podemos
imaginar, conhecendo o caráter de Don Putti, o que o pobre Monsenhor, apesar de
sua importância, deve ter ouvido em resposta, da parte de quem não antepõe
diplomacia e subserviência à verdade.
No
dia 22 de abril, na segunda página de L’Osservatore Romano, veio a reação
através do artigo assinado “V. V.”, que são as iniciais de Valerio Volpini,
diretor escolhido no tempo de Paulo VI e cujo contrato tem cláusulas milionárias
que tornam hoje ruinosa a sua eventual demissão. O título era: “O Semeador
de Joio”, e nele se descarregava contra D. Putti toda a pestilência de que é
capaz um escriba a serviço de fariseus. Acusa o autor de “Nova et Vetera”
de anonimato e intriga, e lhe atribui um estado mental perturbado, à semelhança
do conhecido personagem “clericus vagus” da peça O Asno, do
anticlerical Podreca.
Naturalmente,
o infeliz diretor, que parece, pelas indiscrições da imprensa, ter já sido
convidado a demitir-se do jornal vaticano em razão de sua visível ineficiência,
também neste caso não soube medir nem as palavras nem o adversário.
A
resposta chegou no número seguinte de Sì Sì No No. Segura, precisa, gélida,
exigindo, em termos e prazos legais, a retratação formal que era devida. Mas
foi ignorada.
Nesse
ponto o jornal, que, em 121 anos de vida, nunca fora alvo de questões ou
processos judiciais nem poderia permitir-se tal vexame, sendo o jornal oficial a
serviço do Sumo Pontífice, foi citado em juízo na pessoa de seu diretor.
Inútil
dizer que o máximo cuidado e empenho foram despendidos para acobertar e sufocar
a notícia. Nenhum grande jornal da cadeia “político-progressista-independente-democrata-liberal-socialista
e religiosa” tomou conhecimento ou deu a conhecer o caso.
A
causa durou cerca de dois anos, arrastando-se com truques e manobras em que até
sobre uma corte judicial se lançou suspeição. Volpini não compareceu nem uma
vez e trocou diversas vezes de advogado, multiplicando motivos protelatórios,
na esperança de uma dessas anistias político-judiciais com que se perdoa tudo
para a paz da nação e o alívio dos tribunais. Mas esta não veio, e chegou
assim a inevitável condenação de junho último, a qual obriga L’Osservatore
Romano a publicar a retratação formal, além de lhe infligir multa e o
pagamento de todas as despesas.
O
fato é clamoroso e único, mas somente dois jornais menores e uma revista da
oposição o noticiaram.
Eis
assim reveladas ao mesmo tempo: a omissão da imprensa perante a verdade e a
conspiração tácita e as alianças entre os órgãos da grande imprensa, que não
excluem o jornal oficial do Vaticano, para manter a verdade escondida.
É
necessário, portanto, observar com cuidado L’Osservatore, para ver se
é pelo menos observante da justiça dos homens, porque quanto ao aspecto moral
que deveria transparecer na ética jornalística, na coerência com os tão
decantados direitos humanos e no respeito pela dignidade dos homens L’Osservatore
demonstrou ser falho e contraditório.
Tudo
isto sem falar ainda em reverência para com um corajoso sacerdote católico que
denuncia documentadamente abusos e deformações macroscópicas, que seria dever
do próprio Vaticano e seus inúmeros órgãos apurar e coibir.
Que
esta renovada vitória bíblica de Davi contra Golias possa dar ânimo ao povo
católico abatido e desnorteado, despertando a vigilância contra a colossal
demolição e geral infiltração em nome de uma nova igreja conciliar, aliada
do mundo e complacente com suas ideologias.
NON
PRAEVALEBUNT — LAUDETUR JESUS CHRISTUS
(Revista PERMANÊNCIA, números 154/155, 1981)