O "OSSERVATORE ROMANO" CONDENADO

Pela primeira vez em sua vida o “Jornal do Papa”, título que comumente se dá a L’Osservatore Romano, é condenado na justiça por difamação, e sua vítima não foi um inimigo da Igreja, nem um herege, nem um membro da maçonaria ou comunista ateu, mas um padre fiel e corajoso, cuja culpa consiste em publicar a verdade, doa a quem doer. Chama-se Don Francesco Putti, que no dia de S. Pedro celebrou 25 anos de sacerdócio, passados entre o confessionário e o púlpito, seguindo o exemplo de um santo mestre duramente perseguido, com quem longamente privou: o Padre Pio. [Don Putti faleceu em 1984)

Diante do estado calamitoso em que se encontra a Igreja, Pe. Putti canalizou suas energias para dar vida a uma publicação mensal (hoje quinzenal) e cujo próprio nome, Sì Sì No No, revela já a disposição de seguir a lição evangélica registrada por S. Mateus. (É editado em português: Jornal SimSimNãoNão, C.P. 96582 Cep:28601-970 Nova Friburgo R.J.)

Mas os ambientes vaticanos, hoje tão infiltrados, aceitam que os sacerdotes digam a verdade, amparados que sejam pela Doutrina ou pelo Magistério?

Tudo indica que não, e cada publicação tradicional e fiel editada pelo mundo afora é prova disso, pois sofrem marginalização e mesmo perseguição, como se pode amplamente demonstrar em Roma ou no Brasil e no mundo inteiro.

Desta vez, porém, o osso era duro de roer. Mas vejamos o que sucedeu. No mês de abril de 1979, na primeira página de Sì Sì No No, apareceu um artigo intitulado “Nova et Vetera” (Coisas novas e velhas). Não sendo assinado, era, pelo seu relevo, equivalente ao editorial do diretor responsável. Ali se narra que um Monsenhor, identificado adiante como Mons. Caprio, da Secretaria de Estado do Vaticano, procurara oficialmente o diretor de Sì Sì No No para acusá-lo de fazer escândalo, a tal ponto, que, dizia ele, um Cardeal como Garrone, Prefeito da Sagrada Congregação para a Educação Católica, não poderia ser removido, apesar de demonstrada a nocividade de sua ação eclesial, porque isso seria reconhecer a eficácia dos ataques desferidos por Sì Sì No No contra aquele Cardeal.

Podemos imaginar, conhecendo o caráter de Don Putti, o que o pobre Monsenhor, apesar de sua importância, deve ter ouvido em resposta, da parte de quem não antepõe diplomacia e subserviência à verdade.

No dia 22 de abril, na segunda página de L’Osservatore Romano, veio a reação através do artigo assinado “V. V.”, que são as iniciais de Valerio Volpini, diretor escolhido no tempo de Paulo VI e cujo contrato tem cláusulas milionárias que tornam hoje ruinosa a sua eventual demissão. O título era: “O Semeador de Joio”, e nele se descarregava contra D. Putti toda a pestilência de que é capaz um escriba a serviço de fariseus. Acusa o autor de “Nova et Vetera” de anonimato e intriga, e lhe atribui um estado mental perturbado, à semelhança do conhecido personagem “clericus vagus” da peça O Asno, do anticlerical Podreca.

Naturalmente, o infeliz diretor, que parece, pelas indiscrições da imprensa, ter já sido convidado a demitir-se do jornal vaticano em razão de sua visível ineficiência, também neste caso não soube medir nem as palavras nem o adversário.

A resposta chegou no número seguinte de Sì Sì No No. Segura, precisa, gélida, exigindo, em termos e prazos legais, a retratação formal que era devida. Mas foi ignorada.

Nesse ponto o jornal, que, em 121 anos de vida, nunca fora alvo de questões ou processos judiciais nem poderia permitir-se tal vexame, sendo o jornal oficial a serviço do Sumo Pontífice, foi citado em juízo na pessoa de seu diretor.

Inútil dizer que o máximo cuidado e empenho foram despendidos para acobertar e sufocar a notícia. Nenhum grande jornal da cadeia “político-progressista-independente-democrata-liberal-socialista e religiosa” tomou conhecimento ou deu a conhecer o caso.

A causa durou cerca de dois anos, arrastando-se com truques e manobras em que até sobre uma corte judicial se lançou suspeição. Volpini não compareceu nem uma vez e trocou diversas vezes de advogado, multiplicando motivos protelatórios, na esperança de uma dessas anistias político-judiciais com que se perdoa tudo para a paz da nação e o alívio dos tribunais. Mas esta não veio, e chegou assim a inevitável condenação de junho último, a qual obriga L’Osservatore Romano a publicar a retratação formal, além de lhe infligir multa e o pagamento de todas as despesas.

O fato é clamoroso e único, mas somente dois jornais menores e uma revista da oposição o noticiaram.

Eis assim reveladas ao mesmo tempo: a omissão da imprensa perante a verdade e a conspiração tácita e as alianças entre os órgãos da grande imprensa, que não excluem o jornal oficial do Vaticano, para manter a verdade escondida.

É necessário, portanto, observar com cuidado L’Osservatore, para ver se é pelo menos observante da justiça dos homens, porque quanto ao aspecto moral que deveria transparecer na ética jornalística, na coerência com os tão decantados direitos humanos e no respeito pela dignidade dos homens L’Osservatore demonstrou ser falho e contraditório.

Tudo isto sem falar ainda em reverência para com um corajoso sacerdote católico que denuncia documentadamente abusos e deformações macroscópicas, que seria dever do próprio Vaticano e seus inúmeros órgãos apurar e coibir.

Que esta renovada vitória bíblica de Davi contra Golias possa dar ânimo ao povo católico abatido e desnorteado, despertando a vigilância contra a colossal demolição e geral infiltração em nome de uma nova igreja conciliar, aliada do mundo e complacente com suas ideologias.

NON PRAEVALEBUNT — LAUDETUR JESUS CHRISTUS

(Revista PERMANÊNCIA, números 154/155, 1981)

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