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O Reno se lança no Tibre – O Concílio desconhecido Do Pe. Ralph Wiltgen SVD Editora Permanência – http://loja.permanencia.org.br
Dom Lourenço Fleichman OSB
Quem fechará a Caixa de Pandora que os bispos do mundo inteiro, reunidos em Concílio, resolveram abrir? Conta a mitologia que, movida pela curiosidade, esta mulher cheia de qualidades, abriu a tampa de uma jarra (não era bem uma caixa), oferecida por Zeus para o casamento dela com Epimeteu. Imediatamente escaparam da jarra todos os males, espalhando-se pela humanidade. Fechando apressadamente a jarra, ficou presa, solitária e impotente, a Esperança. Bela e terrível figura do que aconteceu na Igreja, durante o Concílio Vaticano II. Verdadeiramente podemos dizer que a Igreja é a Arca da Aliança, fechada, protegida, casta e Virgem, é a Esposa de Cristo. Ao se reunirem em Roma entre 1962 e 1965, dois mil e seiscentos bispos do mundo inteiro declararam que tinham como intenção abrir a Igreja ao mundo moderno. E deixaram espalhar-se por toda a parte os males do mundo. Era ela, quem os retinha. Era ela, quem protegia seus filhos dos vícios, da idolatria, da apostasia generalizada. E ela foi flagelada e crucificada por aqueles seus representantes que falsificaram suas intenções. Movidos por um espírito muito pior do que a curiosidade de Pandora, esses bispos montaram uma verdadeira armadilha para os seus colegas no episcopado que mantinham as retas intenções que um católico deve ter em qualquer concílio de qualquer século: confirmar a fé dos fiéis, afastar os erros que os ameaçam, ensinar a tempo e contratempo a sã doutrina, pregar a prática das virtudes.
Parece incrível que algo desta dimensão possa ter acontecido dentro da Igreja Católica. Parece inverossímel. Mas os fatos, infelizmente, aconteceram. Mais do que isso: eles foram narrados por quem assistiu a tudo. Tal é o caso do padre americano Ralph Wiltgen, da Congregação do Verbo Divino, que participou do Concílio como jornalista da sua Congregação. Ele mesmo diz, no prefácio, que resolveu recolher em livro tudo o que viu e ouviu para levar ao conhecimento do público o drama que se desenrolou nos quatro anos do Concílio. A Editora Permanência está lançando, neste mês de novembro de 2007 a tradução de O Reno se lança no Tibre.
Gostaria de lhes contar, rapidamente, como se arma a cena deste drama. Após três anos de preparação, levada à cabo pelas Comissões preparatórias convocadas por João XXIII, ficaram prontos para o debate conciliar os documentos resultantes de todo o trabalho empreendido. Foi então marcada a data para a abertura do Concílio. Imaginem a cena: de todas as partes do mundo partem os bispos e superiores das Ordens religiosas, para o encontro marcado em Roma, na cidade do Vaticano. Os bispos mais conservadores viajam confiantes, certos de que o pensamento da Igreja prevalecerá, pois a Cúria Romana é, na época, composta por Cardeais seguros na fé. Partem com a alma em paz, talvez considerando que, na hora das polêmicas com os elementos progressistas, prevalecerá a voz da Igreja, da Mãe de todos os fiéis. Partem sem muita preparação, sem aprioris, sem grande organização. Nem imaginavam o quanto isso lhes faria falta! Do outro lado, os bispos progressistas sabem que, se quiserem obter vitória nos debates conciliares, terão que vencer, em primeiro lugar, as resistências desta mesma Cúria Romana. Ao contrário dos tradicionais, eles se preparam para uma verdadeira guerra. Encontros paralelos entre bispos de diversos países vão mostrando aos progressistas em que ponto devem eles trabalhar para alcançar a vitória. Não cabe aqui o relato detalhado das manobras que serão desencadeadas pelos progressistas, pois isso está escrito no livro. Mas devo adiantar que a ousadia e os ardis não faltaram a este clero mais avançado. Toda a primeira parte do livro vai marcar a arrumação do xadrez, das influências, das maiorias que vão se formando nas comissões, dentro do Concílio. Enquanto isso, o lado tradicional começa a perceber que existe uma força oculta que empurra o concílio contra a Cúria, contra a Tradição. Mas eles estão de mãos atadas, pois os progressistas gozam da simpatia do próprio Papa João XXIII. As vitórias dos progressistas vão se suceder, uma após outra: maioria de membros nas diversas comissões; afastamento dos quatro primeiros textos a serem debatidos, textos dogmáticos, de suma importância, pois serviriam para relembrar e confirmar a doutrina católica de sempre, como base de todas as decisões do Concílio; colocação do texto sobre a Liturgia no lugar dos quatro abandonados; decisão de afastar o esquema sobre a Virgem Maria, pois, segundo os progressistas, ele era inconveniente para os protestantes. Assim foram as coisas acontecendo. A doutrina católica sendo ridicularizada, enquanto surgia com força a Nova Teologia tomando conta de todos os presentes. Um novo espírito sopra e vai conduzindo a todos por caminhos tortuosos que confirmarão a abertura da Igreja para o mundo moderno. Documentos como Gaudium et Spes (a Igreja no mundo moderno) são votados e aprovados; Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, depois de longo debate, será aprovado e difundido por todo o mundo, no abandono dos direitos de Deus sobre as nações. Foi assim que, entre outros, como já lembramos acima, o documento sobre a Virgem Maria virou apenas um capítulo do documento sobre a Igreja. O teólogo particular de Mons. Marcel Lefebvre, padre Berto, dirá em uma de suas cartas escritas de Roma: “O funesto voto da véspera, apostasiando o Evangelho das Bodas de Caná, longe de convidar a Virgem Maria, lhe havia dito de se retirar. Ela atrapalhava! A Virgem Maria atrapalhava o Concílio que a convidava a se retirar. Oh! ela não esperou que repetissem o convite! A terra não tremeu, os raios não cairam sobre São Pedro. Nossa Senhora saiu discretamente num profundo silêncio; somente, era tão discreta no seu silêncio profundo que ela não disse: Vinum non habent - eles não têm mais vinho, e os destinos da segunda Sessão foram selados.” (www.capela.org.br/VaticanoII/berto2.htm) E mais adiante a mesma carta do Pe. Berto acrescenta: “Ainda quando se é um Concílio ecumênico, deve-se saber que expulsar a Virgem Maria é uma operação que pode ter consequências, e pode não ser ratificada por ALGUÉM que lhe abriu as portas do céu; deve-se ver além da ponta do seu nariz e não achar que se tem direito ao Espírito Santo assim, como por encomenda, bastando para isso ser um concílio.”(idem)
Quanto tempo levou para que os bispos tradicionais reagissem? Vocês poderão constatar isso na leitura do livro: só no meio da terceira sessão é que alguma reação se esboça. Mas a reação não era una, ao contrário, partia de grupos dispersos, cada um movido por algum interesse particular. O maior e mais próximo de nós foi o Coetus Internationalis Patrum, que agrupou Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina (MG), Dom Marcel Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer, entre outros, somando um pouco mais de duzentos bispos. Dom Sigaud foi, certamente, o grande empreendedor deste trabalho. Não tendo a organização da poderosa Aliança Européia (o unificado grupo progressista), ele entendeu que podia conter os avanços dos progressistas emitindo bilhetes com críticas pontuais aos textos apresentados. Estes bilhetes, na verdade, eram os Modi, ou seja, os pedidos de correção que cada bispo podia apresentar por escrito aos textos em discussão. O Coetus reproduzia, então, estes Modi, e os destribuía ao maior número possível de bispos, de modo que algumas modificações foram no sentido da Tradição. Foi assim, basicamente, que se fez a oposição. Não é difícil entender quão pequena era a reação, perto de tudo o que a Aliança Européia produzia. O fato é que, no Concílio, formou-se uma verdadeira conjuração, uma espécie de Revolução partidária, que está descrita com detalhes emocionantes pelo autor do livro.
As pessoas que têm dificuldades de acreditar, quando dizemos que o Concílio Vaticano II não foi uma obra católica, encontram neste livro a confirmação documentada de tudo o que se escreveu contra ele. Infelizmente esta é a realidade. Cabe aos católicos tomarem conhecimento de tudo isso e continuarem estudando os meandros desta crise.
Mas não podemos desfalecer. Assim como na Caixa de Pandora, as portas abertas da Igreja deixaram vazar todo o espírito católico que reinava em Roma. Mas lá dentro, no seio da Igreja, na escuridão e na solidão em que ficou confinada, reside a Esperança teologal. Um dia um papa fechará a Caixa de Pandora do Vaticano II, reabrindo de par em par as portas da Igreja para a Tradição. E nossos corações serão em júbilo porque Jesus Cristo vencerá, com o sopro da sua bôca, os males que se espalharam, do Concílio sobre o mundo.
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