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DOM GÉRARD CALVET
Dom Lourenço Fleichman OSB
"Il m´a fait trop de mal pour en dire du bien; il m´a fait trop de bien pour en dire du mal."
Creio que são estas as palavras que o padre Berto escreveu sobre Jacques Maritain, e que hoje eu assumo para mim em relação a Dom Gerard Calvet OSB, que acaba de falecer. É isso mesmo, o abade do Mosteiro Sainte Madeleine do Barroux apresentou-se neste dia diante do Supremo Juiz e viu, certamente viu o mal terrível, a avalanche que provocou por causa de sua vaidade, ao abandonar o combate junto à Mons. Lefebvre e aderir com todas as forças ao Vaticano II e sua obra nefasta. Nossos leitores brasileiros podem ter uma vaga idéia disso lendo o livrinho que escrevi para contar as negociações entre Mons. Lefebvre e o Vaticano (Tradição versus Vaticano, Ed. Permanência). O mosteiro do Barroux era um alto lugar da Tradição, sua influência ultrapassava os limites da vida monástica, da própria França e dava a volta ao mundo, atraindo jovens de toda parte para viver a vida monástica autêntica, tal como se viveu até os tempos de Pio XII. Os fiéis do mundo todo sabiam que, mesmo tendo um estilo diferente da Fraternidade S. Pio X, os monges beneditinos da Tradição eram a marca da fecundidade de toda esta obra de restauração. Dom Gerard tinha para com o Brasil um carinho especial, pois viera numa fundação do mosteiro de Tournay, entre 1962 e 1968. Neste ano de grandes mudanças e agitações, voltou para a França, desesperançado diante das passeatas de padres e da Revolução operada pelo Concílio. Antes de voltar para seu país natal, esteve na casa de Gustavo Corção, no Cosme Velho e chorou com o velho combatente sobre a Paixão da Igreja. Corção contou esta história no artigo "Malhas que os anjos tecem" que publicaremos em breve.
Fez-se eremita nas montanhas do sul até
que lhe avisaram que uma propriedade próxima estava disponivel para
aluguel, com uma linda capela do sec. XI. Corria o ano de 1970. Logo
apareceu um jovem querendo acompanhá-lo, depois outro, e outro mais. Uma
comunidade monástica se iniciou, mas para manter a Tradição, a missa
tridentina, só mesmo enfrentando a guerra, como já vinha fazendo Mons.
Lefebvre, que fundara o seminário de Ecône no mesmo ano. E assim
aproximaram-se os destinos do mosteirinho de Bédoin e Ecône.
Mas Dom Gérard tinha certos defeitos graves e se deixava levar com facilidade por pessoas de má índole que o bajulavam com certos tipos de elogios. Nessa hora, ficava confuso e foi assim que começou a escorregar no orgulho de se saber influente, procurado por tanta gente, conseguindo construir um mosteiro que deixava a França de boca aberta. O primeiro sinal que tive desse fenômeno foi em 1983, quando foi lançado o novo Código de Direito Canônico. O padre que nos dava aula dessa matéria, da diocese de Avignon, que celebrava também a missa tradicional, nos fez uma conferência mostrando vários erros graves do novo código. Mas, como são esses "conservadores", no final, dizia que era a Igreja que no-lo dava, que devíamos pegá-lo. Perguntei a ele como podia ser algo dado pela Igreja e tão corrompido. Mas Dom Gerard não o deixou responder, afirmando diante de todos que era da Igreja e que íamos usá-lo sempre à luz da Tradição. Na sequência dos fatos, dom Gérard me pediu para telefonar para Dom Antõnio de Castro Mayer para saber a opinião do bispo emérito de Campos, doutor em direito canônico. Ouvi pessoalmente a resposta de Dom Antônio: "-O novo código de direito canônico faz parte das heresias de Vaticano II". E a coisa ficou neste pé. Minhas preocupações, na verdade, foram diminuindo na medida em que Dom Gérard continuava, depois disso, a criticar fortemente e em público aos erros do papa e do concílio. Basta reler um dos exemplares da Lettre aux amis du Monastère, onde ele falava da "heresia ecumenista". Em 1984, Dom Gerard foi chamado a um encontro com o presidente da Confederação Beneditina, em Florença, na Itália. Ali lhe foi proposto receber as aprovações de Roma para a vida monástica e para a missa tradicional, caso ele aceitasse não ir mais a Ecône. Dom Gérard contou à comunidade, na volta, que respondeu que aquela proposta era uma traição, e que ele não era um traidor. Por essas e outras eu me sentia seguro, apesar dos deslizes que já sentia. Quatro anos mais tarde, influenciado novamente por pessoas infiltradas no mosteiro, o Prior se deixou seduzir por uma Tradição oficializada por Roma, dizendo acreditar na sinceridade das autoridades que, dizia ele, não nos pede nada em troca. Mas Dom Gerard ouvira do Card. Meyer que viera ao Barroux propor o acordo logo após a recusa de Mons. Lefebvre de continuar as negociações, que para fazer um acordo com Roma, o Barroux precisaria se afastar de Mons. Lefebvre. A mesma proposta de 1984, porém com resposta diferente de Dom Gérard. Desta vez estava em jogo a mitra e o báculo do Abade, pois Roma sabia seduzir para vencer. E a traição veio. Traiu a tudo que Mons. Lefebvre havia feito pelo Barroux, traiu a Santa Igreja arriando a guarda, cessando o combate, concelebrando com o papa, em Roma, aceitando a missa nova. Depois, foi só deixar a dinâmica de Vaticano II agir (como dirá anos mais tarde o padre Cottier, hoje Cardeal, sobre o acordo de Campos). Se me é permido citar a mim mesmo, devo dizer que antes de sair do Barroux eu disse a Dom Gérard: "Milhares de famílias na França e no mundo aguardam uma palavra do senhor confirmando-os na fé, recusando a trama e a malícia dos nossos inimigos. Este acordo será ocasião de grandes divisões nas famílias". Tudo foi em vão. O resto foi um drama de proporções incalculáveis, para os monges, divididos, para uma bela comunidade monástica mudando o rumo de sua vida para terminar destruída, engolida pelo progressismo de Vaticano II. Dos vinte padres que nós éramos no Barroux em 1988, creio que sobraram cinco. Alguns largaram tudo, vida monástica e sacerdócio, outros sairam para continuar unidos à Fraternidade S. Pio X no combate da fé, outros viraram padres diocesanos celebrando a missa nova, tão mundanos e laicizados quanto qualquer padre progressista. Um cataclisma que agora, diante de Nosso Senhor, Dom Gérard está vendo em toda a sua dimensão. Parece que nos últimos meses teria se dado conta do mal que permitiu e causou. Teria dito que errou na escolha de 1988. Não sei ao certo. Rezo por sua alma neste terrível momento, agradecido por tudo que com ele aprendi, triste por tudo o que dele sofri, deixando na virtude da Esperança o desejo de que tenha uma porta de purgatório para que possa expiar as suas faltas. De sua alma, de sua vida moral, nunca presenciei nem soube de nada que o desabonasse. Mas a queda do seu mosteiro, causada por sua vaidade, atingiu a muitos, feriu a Igreja e precisa ser expiada. Façamos a nossa parte.
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