O PROCESSO DE GALILEU
Como se sabe, o Papa João Paulo II fez, por três vezes, deploráveis afirmações públicas: a primeira em 10 de novembro de 1979, diante da Academia Pontifícia de Ciências, quando o Papa declarou que o assunto “Galileu” deveria ser objeto de um “reconhecimento leal” das duas partes antagônicas (presumimos que se refira à Igreja, de um lado, e aos seus inimigos, do outro) quanto aos “erros” de ambas. Temos assim que a conduta de um Papa, Urbano VIII, e a de um santo, São Roberto Belarmino, eminente doutor da Igreja e de todo o ensinamento oficial da Igreja até 1960, ficaram submetidos ao descrédito por parte do próprio Papa atualmente reinante. Esta atitude, aliás, foi mais tarde reiterada, quando o Papa atual, mais duas vezes, pronunciou publicamente declarações semelhantes: a primeira, relativa a Lutero (em que se fala agora apenas dos “erros” da Igreja e praticamente se admite uma revisão da condenação de Lutero), feita por ocasião da visita papal à Alemanha, e a segunda, relativa à Inquisição, digamos melhor, à Santa Inquisição, também desmoralizada por João Paulo II quando visitou a Espanha. João Paulo II mostra-se assim digno discípulo de Paulo VI (a quem chamou um dos maiores Papas da Igreja de todos os tempos), o qual devolveu aos turcos (que turcos? perguntou, na época, Gustavo Corção) as bandeiras gloriosamente conquistadas pelos combatentes católicos em Lepanto sob a proteção de Nossa Senhora, invocada na oração do Rosário pelo grande Papa São Pio V. O presente artigo foi solicitado pela revista De Rome et d'Ailleurs, de Paris, ao professor George Salet, professor de Mecânica dos Sólidos Deformáveis de diversos institutos de ciência e de engenharia da França. O prof. Salet é autor de um livro* em que a falência do conceito de evolução biológica é demonstrada pelas descobertas dos biólogos entre 1953 e 1960, os quais definitivamente eliminaram essa noção como explicação do aparecimento da vida. Publicamos o trabalho que se segue em homenagem à Igreja de sempre.
SUMÁRIO I
— Generalidades II
— O papel dos homens da Igreja na edificação da ciência moderna III
— A posição da Igreja IV
— Quem era Galileu? V
— As pretensas provas de Galileu VI
— Belarmino, Urbano VIII, Galileu e o método científico I
— GENERALIDADES Não
se pode proferir um julgamento equilibrado sobre essa deplorável questão se não
se evocam os dois pontos seguintes: 1)
No início do séc. XVII, nem Galileu nem ninguém tinha condições de produzir
uma prova qualquer do movimento da Terra. Este movimento colidia até com uma
dificuldade científica que fez recuar o grande astrônomo Tyche-Brahe: a ausência
de qualquer paralaxe estelar[1]. A
atual concepção cosmológica só se tornou bastante provável quando NEWTON,
no início do século XVIII, estabeleceu as leis da Mecânica, de que resulta
que nem o Sol nem a Terra são imóveis, mas o centro de gravidade do sistema
solar é que é imóvel[2]. As
verdadeiras provas do movimento da Terra, isto é, as provas experimentais
diretas, só mais tarde foram apresentadas. BRADLEY descobriu, em 1721, um fenômeno
que ele não compreendeu muito bem, e que denominou, por isso, “aberração
das estrelas fixas” (o nome ficou). Ele percebeu em seguida que havia
apresentado a prova de que a Terra descrevia anualmente uma órbita, cujo diâmetro
é igual ao percurso da luz em cerca de 17 minutos. Em
1851, FOUCAULT pôs em evidência a rotação da Terra em torno de si mesma por
uma experiência célebre e pública, na qual o plano de oscilação de um pêndulo
dava uma volta completa em 24/sen L horas, sendo L a latitude do lugar (logo em
24 horas no Pólo, como era de esperar)[3]. 2)
A segunda coisa que não deve esquecer-se é que, nessa época, a filosofia de
Aristóteles, revista e corrigida por Santo Tomás de Aquino, a física de Aristóteles
e a teologia católica pareciam, a muitos, constituir um só bloco. Os
peripatéticos[4]
eram poderosos nas universidades, e, desde S. Tomás, Aristóteles tornara-se
uma espécie de Padre da Igreja, a ponto de o fato de pô-lo em dúvida parecer
a muitos questionar a doutrina católica. Infelizmente, a física e a astronomia
de Aristóteles não estavam à altura de sua filosofia[5].
Ele ensinara, entre outros, dois erros estreitamente ligados entre si: a)
Os corpos celestes possuem natureza diferente da das corpos terrestres e não
obedecem às mesmas leis. Eles são “incorruptíveis”, enquanto os corpos
“sublunares” são corruptíveis. b)
A Terra é imóvel, no centro do Mundo. Se
Galileu, como veremos mais pormenorizadamente, jamais trouxe em favor do
movimento da Terra senão argumentos especiosos, deve-se, em compensação, louvá-lo
por ter contribuído para a demolição do dogma da incorruptibilidade dos
corpos celestes, mostrando, com a ajuda da luneta astronômica inventada em sua
época, que as manchas do Sol são defeitos do astro e não pequenos planetas
vizinhos, e que a Lua, como a Terra, possui montanhas. E os peripatéticos não
se deixaram enganar, porque alguns deles, por despeito, se recusaram a olhar
através da luneta! Galileu contribuiu, portanto, para a ruína do geocentrismo,
mas somente de maneira indireta. A
ATITUDE DA IGREJA A
despeito dos peripatéticos, que se julgavam mais católicos que o Papa, a
Igreja, como veremos, jamais mostrara, até Galileu, nenhuma hostilidade às idéias
cosmológicas. Essas idéias tinham sido sustentadas, ademais, por padres e
bispos, antes do caso Galileu. É
fora de dúvida que as intrigas dos peripatéticos desempenharam papel
importante na condenação de Galileu, mas o primeiro e maior responsável por
sua condenação foi o próprio Galileu. Que o leitor reflita bem no seguinte: —
Em 1613, Galileu em sua “Carta referente às manchas solares” toma
publicamente posição em favor do movimento da Terra. Ele é felicitado
pelos Cardeais Borromeu e Barberini, o futuro Urbano VIII[6]. —
Em 5 de março de 1616, a Congregação do Índex, num decreto apresentado in
forma communi, suspende o livro de COPÉRNICO, que viera a lume 73 anos
antes, até que lhe façam algumas correções insignificantes, o que foi feito.
Em compensação, ela condena um livro do Pe. Foscarini que trata do movimento
da Terra misturando a Sagrada Escritura com a questão. Galileu não é citado. —
Em 28 de agosto de 1620, o cardeal BARBERINI, o futuro Urbano VIII, endereça a
Galileu o “Adulatio Perniciosa”, poema composto em sua honra[7]. —
Em 1624, o Cardeal BARBERINI é eleito Papa. Galileu vai a Roma, onde tem seis
encontros com Urbano VIII. Ele retorna com uma pensão para seu filho, um quadro
precioso, uma medalha de ouro e prata e uma carta de apresentação para o novo
Grão-Duque de Toscana, na qual Urbano VIII exalta as virtudes de Galileu,
“esse grande homem cuja reputação brilha nos céus e se estende por toda a
Terra”[8]. —
Em 1633, Urbano VIII acusa Galileu perante o Santo Ofício, que o condena à
prisão perpétua (pena que jamais foi executada). Assim,
Urbano VIII, que sabia muito bem que Galileu sustentava o movimento da Terra
desde 1613, felicita-o em 1624, após, portanto, o decreto de 1616, e depois
propõe sua condenação, em 1633. Que
ocorreu? Antes de explicar o fato, abriremos um parêntese importante. II
— O PAPEL DOS HOMENS DA IGREJA NA EDIFICAÇÃO DA CIÊNCIA MODERNA Ainda
que geralmente ligados à filosofia de Aristóteles, nem todos os homens da
Igreja aceitavam docilmente sua física e o geocentrismo. E, contrariamente a
uma lenda teimosa que lança à Igreja a pecha de obscurantismo, foram os homens
da Igreja que, muito antes de Galileu, desempenharam papel de primeira plana na
edificação da ciência moderna. Citarei
quatro nomes, todos anteriores a Galileu, cuja penetração foi, como veremos,
muito superior à de Galileu: —
Jean BURIDAN, Cônego de Arras em 1342; —
Nicolau de CUSA, Bispo de Brixen (Tirol) em 1450; —
Nicolau ORESME, Bispo de Lisieux em 1377; —
Nicolau COPÉRNICO, Cônego de Friburgo (1472-1543). Veremos
mais adiante a contribuição dos dois primeiros à questão do princípio de inércia,
que está estreitamente ligado ao movimento da Terra. Vejamos o trabalho dos
dois últimos. ORESME,
Bispo de Lisieux (1330-1382) Houve,
em todas as épocas, pensadores que afirmaram o movimento da Terra, notadamente
Pitágoras e Aristarco, muito antes de Jesus Cristo. O
Cônego COPÉRNICO, que morreu 21 anos antes do nascimento de Galileu, é freqüentemente
considerado o inventor da idéia do movimento da Terra, mas ele teve
predecessores dentro da própria Igreja, e notadamente, no século XIV, ORESME,
bispo de Lisieux. Em seu Tratado do Céu e do Mundo, obra escrita em
francês e não em latim, a pedido expresso do Rei Carlos V[9], discute e reduz a nada as
objeções de Aristóteles e, numa intuição estupenda, descreve muito
exatamente o que viram efetivamente os astronautas americanos quando, da Lua,
contemplaram o nosso planeta. Oresme
refuta sete argumentos em moda à sua época contra a rotação da Terra, e
escreve desassombradamente: 1º)
“É mais racional pensar que cada corpo e cada elemento do Mundo, excetuado o
Céu, está animado em seu lugar natural de um movimento de rotação.” 2°)
“O movimento de rotação da Terra é um movimento natural.” [...] 5º)
“Todas as visadas, todas as conjunções, todas as oposições, constelações
e influências do Céu permanecem imutadas, quando se supõe que o movimento do
Céu não é senão aparente e o da Terra o verdadeiro.”[10] Oresme
rejeita as objeções extraídas da Sagrada Escritura, dizendo o que Leão XIII
ensinará oficialmente cinco séculos mais tarde na encíclica Providentissimus: “Quanto
à Sagrada Escritura, que diz que o Sol gira etc., poderá dizer-se que ela se
conforma, nesta parte, com a maneira do comum falar humano, como ela o faz em vários
lugares, como onde está escrito que Deus se arrependeu e se irou e repousou e
outras coisas que não são como soa a palavra”[11]. Nossos
modernos anuários astronômicos dão as horas do “nascer”, do “pôr” e
da “passagem pelo meridiano” dos corpos celestes, e ninguém pretendeu que
eles ensinassem por isso a realidade do movimento aparente dos astros. Oresme
prossegue: “Na
hipótese da fixidez da Terra, as estrelas atingiriam velocidades inadmissíveis”[12]. E
ele conclui finalmente que tais considerações “são benéficas para a defesa
de nossa fé”. Longe
de incorrer nas condenações papais, Oresme, após os seus trabalhos, foi
nomeado bispo de Lisieux[13]. COPÉRNICO Talvez
seja bom lembrar que Copérnico era Cônego da Santa Igreja e que jamais teve
sombra de dificuldade com as autoridades religiosas. Ao contrário, foi
convidado em 1514, com outros astrônomos e matemáticos, a tomar parte no Concílio
de Latrão encarregado da reforma do Calendário, mas declinou do convite[14]. Em
1532, o secretário particular do Papa proferiu, diante de seleto auditório e
nos jardins do Vaticano, uma lição sobre o sistema de Copérnico, que foi
acolhido com entusiasmo[15]. Temendo
reações desfavoráveis, Copérnico contentou-se em fazer circular entre o
mundo sábio um manuscrito: Commentariolus, que despertou imenso
interesse. E é um alto prelado — o Cardeal Schoenberg — que ocupou um cargo
de confiança sob três Papas, que o levou a imprimir, por intermédio de uma
carta que Copérnico reproduziu em sua obra, seu De revolutionibus orbium
coelestium, que finalmente apareceu em 1543, ano de sua morte. A
Igreja não levantou objeções a esta obra, dedicada ao Papa Paulo III. Em
1614, 71 anos após a morte do Cônego, um religioso em um sermão atacou Copérnico
e Galileu. Tendo-se queixado este último ao Geral da Ordem dos Irmãos
Pregadores, dele recebeu uma carta de desculpas onde o Geral dizia
expressamente: “Infelizmente
preciso responder por todas as idiotices que fazem ou podem fazer trinta ou
quarenta mil Irmãos!”[16] Sustenta-se
freqüentemente que esta ausência de oposição à obra de Copérnico é devida
ao prefácio que o Editor, OSIANDER, redigiu (sem o consentimento de Copérnico,
ao que parece) e que declarava expressamente que o autor falava hipoteticamente.
Isso contradiz formalmente a dedicatória a Paulo III, onde Copérnico
declarava: “Perguntei
a mim mesmo se devia publicar essas reflexões escritas para provar o movimento
da Terra.” De
fato, Copérnico, do mesmo modo que Galileu, nada havia provado, mas isso
assegura que ele jamais ocultou que, em seu espírito, o movimento da Terra não
era somente uma hipótese, mas uma realidade. Veremos,
no entanto, por que, a despeito do prefácio de Osiander e do erro de Galileu, a
obra de Copérnico foi colocada no Índex 73 anos após a sua morte. Entretanto,
ela foi, logo após, dele retirada, depois que lhe fizeram, a pedido do Santo Ofício,
algumas modificações insignificantes. O
CÔNEGO BURIDAN E O BISPO DE CUSA Cito
dois homens da Igreja porque eles contradisseram a filosofia peripatética em um
ponto muito importante que está em relação com o movimento da Terra. Foram
eles, com efeito, e não Galileu, que formularam um princípio fundamental da
Mecânica moderna: o princípio de inércia, não em sua forma totalmente
correta, que devemos a Descartes, mas numa forma suficiente para constituir uma
verdadeira revolução. Se
o cavalo pára de puxar a carroça, esta pára. Donde este erro de Aristóteles,
que persistiu durante cerca de 20 séculos: todo móvel pára desde que desapareça
a força que o solicita. Certamente, é exato que é preciso uma força para pôr
um corpo em movimento, mas sabemos agora que, na ausência de qualquer força
motriz ou resistente, um corpo qualquer prossegue indefinidamente sua marcha em
linha reta e com velocidade constante.
É o que se chama princípio de inércia,
cuja descoberta se atribui erroneamente a Galileu. Se dele teve alguma intuição,
Galileu na realidade o desconheceu, como veremos mais tarde. No
rasto de FILOPON, do século VII, BURIDAN, reitor da Universidade de Paris,
depois Cônego de Arras, declarou que, quando o arqueiro lança a sua flecha,
ele imprime-lhe certo impetus proporcional ao seu volume, à sua
densidade e à velocidade imprimida (ou pelo menos função crescente dessas
quantidades). Buridan
acrescentava que se o impetus não fosse diminuído e destruído por
alguma coisa contrária, que a ele resistisse, ou então por algo que inclinasse
o móvel para um movimento diferente, o impetus
duraria indefinidamente. Substituamos impetus pela nossa moderna
“quantidade de movimento = mv” ou nossa “força viva = mv2”,
e teremos encontrado o essencial da teoria moderna. E
eis o que é capital: desdenhando a natureza incorruptível dos astros, afirmada
por Aristóteles, Buridan não hesita em aplicar-lhes a noção de impetus.
Deus, diz ele, imprimiu inicialmente aos corpos celestes certo impetus,
que desde então os move. Ele
acrescenta que, se o impetus comunicado aos corpos terrestres se vai
enfraquecendo pela ação das forças resistentes que eles encontram, o mesmo não
acontece aos astros, cujo movimento não é perturbado por coisa alguma, podendo
portanto seu impetus conservar-se indefinidamente. Um
século mais tarde, Nicolau de Cusa (1401-1464), Bispo de Brixen (Tirol),
retomou a doutrina de Buridan, ajuntando-lhe diversas considerações teológicas
que aqui não nos interessam[17]. Buridan
e De Cusa parecem ter acreditado que, na ausência de força, o movimento de um
móvel pode perpetuar-se, segundo um círculo,
o que é inexato. Mas é certo que Galileu
cometeu o mesmo erro. A despeito disso, Buridan e De Cusa fizeram com que a
ciência desse um passo decisivo, e a Universidade de Paris não deixou de
apoiar-se em sua doutrina[18]. Pierre
DUHEM, o grande sábio e historiador das ciências, não hesitou em concluir: “Ora,
Jean Buridan teve a incrível audácia de dizer: os movimentos dos céus estão
submetidos às mesmas leis dos movimentos das coisas cá de baixo, a causa que
mantém as revoluções das esferas celestes é a mesma que mantém a rotação
do rebolo do ferreiro; há uma Mecânica única pela qual se regem todas as
coisas criadas, a esfera do Sol e o pião que o menino põe em rotação. Jamais
houve, talvez, no domínio da ciência física, revolução tão profunda, tão
fecunda quanto esta”[19]. Acrescento
que Buridan e De Cusa discutiram longamente em suas obras a questão do
movimento da Terra e, por falta de provas, continuaram a defender as clássicas posições.
Esta questão, porém, era livremente debatida em sua época, nos meios eclesiásticos,
sem que a Igreja fizesse a menor objeção. BEDA,
O VENERÁVEL A
esses homens da Igreja que foram precursores em matéria científica, é preciso
ajuntar, se se crê em Philippe Decourt[20],
BEDA, O VENERÁVEL, que formulou uma teoria das marés bem mais justas que a
apresentada por Galileu 900 anos DEPOIS. CONCLUSÃO Como
se vê, os eclesiásticos não eram tão escravos da filosofia peripatética
quanto nos querem fazer crer. Houve até alguns que, na edificação da ciência,
desempenharam papel não negligenciável. Ademais, veremos que, na época, os
astrônomos jesuítas eram quase todos adeptos do movimento da Terra e que, por
causa das provocações de Galileu, dele se afastaram. III
— A POSIÇÃO DA IGREJA À
primeira vista, a condenação de Galileu parece, pois, em contradição com a
atitude anterior da Igreja. De fato, essa atitude não mudou, e os princípios
sobre os quais a Igreja assentara a sua ação foram reafirmados por Pio XII,
como a seu tempo veremos. Para
compreender o que se passou, convém lembrar que a Igreja tem cuidados
pastorais. Entre seus filhos, se há sábios, há também os
simples, que são
particularmente caros ao coração de Deus. Os
simples são tão aptos quanto os sábios a compreender a verdade religiosa
(muitas vezes mais do que eles). Mas o que eles não compreendem é a mudança
repentina, em qualquer plano. Vimos o que ocorreu com a reforma litúrgica
atual, que, em poucos anos, esvaziou os santuários! A
Igreja sempre professou que, tendo Deus por autor, a Bíblia não poderia
encerrar o menor erro. Ela continua a professar que as narrações históricas
da Sagrada Escritura devem ser, salvo caso de necessidade manifesta e evidente, interpretadas
literalmente[21].
Ela condenou a cômoda teoria que declarava que a inerrância bíblica dizia
respeito apenas ao elemento religioso[22].
É certo que, se encontrássemos na Bíblia um ensinamento perfeitamente claro e
explícito sobre questões de astronomia, deveríamos aceitá-lo. No entanto, não
tendo a Bíblia, como objeto, a finalidade de ensinar-nos como Deus ordenou o
Cosmo, tal ensinamento nela não se encontra. Como
já assinalava, no século XIV, Oresme, Bispo de Lisieux, os autores sagrados,
quando falam de movimento do Sol, conformam-se com a maneira do “comum
falar humano”. Deus narrou o que qualquer pessoa poderia ver, e o fez
exatamente. Acaso acusaremos de erro científico os cientistas que, como todo o
mundo, falam do “pôr do Sol?” Tal como os sábios e os anuários astronômicos[23],
Deus descreve as aparências, o que
é a única maneira de ser compreendido
em todas as épocas, sem trair a verdade em nada. Não é pois trair o
sentido literal pensar que, segundo a expressão de Oresme, as coisas não são
“como soa a letra”. Não é trair o sentido literal bem compreendido dizer
que as passagens da Bíblia onde se trata do movimento do Sol são compatíveis
tanto com o movimento real quanto com o movimento aparente, que qualquer pessoa
pode verificar[24]. Infelizmente,
os Padres da Igreja não haviam feito essas distinções, inúteis em sua época,
e (até onde podemos estar seguros do seu pensamento profundo) eles sempre
compreenderam as passagens da Sagrada Escritura onde se trata do movimento do
Sol em seu sentido literal mais estrito. Nada de estranho, portanto, que clérigos
e leigos de mentalidade primária opusessem a Bíblia à teoria do movimento da
Terra. Já vimos como eles foram censurados pela autoridade[25]. Mas,
pelo erro comum dos peripatéticos e de Galileu, essa questão de interpretação
da Escritura, que até então só interessara aos especialistas, começou a
fazer muito barulho. A Igreja, pois, foi
obrigada a precisar sua posição. Ela o fez pela boca do Cardeal BELARMINO,
Geral da Companhia de Jesus e Consultor do Santo Ofício. Este deu as seguintes
diretrizes, cuja sabedoria é digna de admiração, diante das quais, porém,
Galileu jamais se inclinou. 1.°)
A Igreja solicitava, antes de tudo, que os sábios permanecessem no terreno
científico e não misturassem Sagrada Escritura com o problema. Essa
solicitação, contra a qual se insurgiu Galileu[26],
era motivada por razões pastorais evidentes. De fato, as pessoas da
Igreja tinham ensinado, geralmente, o geocentrismo e deixaram crer,
imprudentemente, que a imobilidade da Terra era afirmada pela Escritura. A
Igreja não podia então, sem escandalizar os simples, proclamar inopinadamente
— urbi et orbi — que muitos de seus representantes se tinham
enganados durante séculos. Ela pedia, pois, muito sabiamente, que se evitasse
“passionalizar” o debate, misturando um problema científico com questões
de exegese com que os católicos, em sua imensa maioria, pouco se ocupavam. Diríamos
hoje que a Igreja desconfiava dos “mass media”. Ela
reservava para si, no caso de que a teoria do movimento da Terra fosse correta,
o direito de ensinar, ela mesma, lenta e prudentemente, que as passagens
litigiosas da Bíblia não implicavam, por si mesmas, a imobilidade nem o
movimento da Terra. Não que a inerrância bíblica se refira exclusivamente às
questões religiosas, tese cuja condenação foi firmemente lembrada por Leão
XIII, mas simplesmente porque se havia atribuído a essas passagens mais do que
elas diziam na realidade. 2.°)
A segunda razão de interditar aos sábios invocar a Escritura Sagrada era a
expansão do protestantismo. A Igreja sempre reivindicou (e continua a fazê-lo)
o direito exclusivo de interpretar
infalivelmente as Escrituras. Permitir naquela época que qualquer pessoa
discutisse o seu sentido pareceria favorecer o princípio do livre exame dos protestantes. O Cardeal Dini resumia
essa posição da Igreja por intermédio de uma fórmula figurada: “Pode-se
escrever livremente, desde que se permaneça fora da sacristia”. Os Cardeais
Belarmino e Del Monte, ademais, asseguraram que Galileu nada tinha que temer
desde que se ativesse ao âmbito da física e da matemática e evitasse tocar
nas interpretações da Bíblia[27].
Mas Galileu recusou-se, obstinadamente, a compreender isso. 3º)
Envenenando-se a querela entre Galileu e os peripatéticos, a Igreja, pela boca
de Belarmino, foi levada a dar aos sábios o seguinte conselho: “Enquanto não
tiverdes encontrado verdadeiras provas de vossas teorias, apresentai-as como
simples hipóteses de trabalho.” Indignaram-se contra semelhante pedido, que
é, no entanto, conforme com o verdadeiro espírito científico. Voltarei ao
assunto no § VI. Notar-se-á,
por outro lado, que, para grande escândalo de tudo o que a Igreja comporta como
elementos avançados, Pio XII, na encíclica Humani Generis, de 12 de
agosto de 1950, tomou a mesma posição a propósito da teoria da evolução[28]. Belarmino,
Urbano VIII, Pio XII e todos os sábios dignos desse nome concordam com este
princípio de honestidade e bom senso: só se pode apresentar como hipótese
aquilo que não está provado. Galileu,
porém, como veremos no § V, insistiu em apresentar provas que nada provavam e
que contradiziam o que ele mesmo ensinava! Ele
supunha, além disso, que uma hipótese é demonstrada quando está de acordo
com os fatos, esquecendo completamente que ocorre amiúde — e era o caso —
hipóteses diferentes poderem explicar os fatos conhecidos. Neste caso, somente
a descoberta de novos fatos é que pode, por vezes, eliminar certas hipóteses[29]. Veremos
no § VII que foi URBANO VIII quem, demonstrando espírito verdadeiramente científico,
lembrou a Galileu esses princípios incontestáveis. Mas este, dominado pela
paixão, nada quis ouvir. CONCLUSÃO Estabelece,
portanto, a história que, até 1616, a Igreja não somente não criticara a
teoria do movimento da Terra, mas que seus membros mais eminentes, incluindo
Papas, se apaixonaram por essas questões
e encorajaram vivamente os sábios a prosseguir em suas pesquisas. Parece,
pois, que KOESTLER tinha razão ao afirmar que o conflito entre a Igreja e os
partidários do movimento da Terra não era inevitável[30]. Nada de desagradável se
teria produzido, se não fosse a intromissão de um pretensioso agitado,
impulsionado não sei por que demônio, chamado Galileu. IV
— QUEM ERA GALILEU Galileu
faz parte, incontestavelmente, daqueles sábios que, pela contribuição de
novas idéias, fazem com que a ciência avance de maneira decisiva. Numa época
em que a Dinâmica era inexistente, ele teve o mérito de descobrir alguns princípios
justos que serviram de ponto de partida para que outros construíssem esta
“Mecânica racional” sem a qual os engenheiros seriam incapazes de construir
motores, aviões e foguetes interplanetários. Se bem que não tenha descoberto
a luneta, Galileu construiu uma e soube com ela fazer descobertas astronômicas
importantes. Prestada
essa justa homenagem à sua memória, o historiador não pode deixar de
verificar que muito se exagerou sua contribuição à ciência, e tem-se o
direito de pensar que foi por causa do “caso” que se ampliaram,
singularmente, os seus méritos! Em primeiro lugar, é certo que se lhe têm
atribuído certas descobertas que ele jamais fez[31]. Não
se pode negar, por outro lado, que, a despeito das descobertas astronômicas
feitas com a ajuda da luneta, sua contribuição à Astronomia teórica foi não
somente nula, mas negativa. Empenhou-se, com efeito, quer em ignorar, quer em
desacreditar a obra imortal de seu contemporâneo KEPLER, que, na seqüência
das excelentes observações do astrônomo dinamarquês TYCHO-BRAHE, descobrira
que as órbitas planetárias são, aproximadamente, elipses cujos focos são
ocupados pelo Sol e que são percorridas com velocidades variáveis, cuja lei
foi descoberta por Kepler. Ora,
Galileu ensinou sempre que os planetas descrevem círculos
com velocidade uniforme. Isso o levou a afirmar que os cometas são simples
fenômenos meteorológicos e a qualificá-los de “falsos
planetas à Tycho”! Ele atacou, também, a reputação de Tycho-Brahe,
falando de suas “pretensas observações!”[32] Os
panegiristas de Galileu sempre calam essa desonestidade intelectual. Pois,
enfim, não era precisa esperar Kepler nos dizer que os planetas não descrevem
círculos em torno do Sol. Copérnico sabia muito bem que os planetas se movem
segundo “ovais”, e foi isso o que o obrigou a imaginar um sistema de
“deferentes”, “epiciclos” e “excêntricos”, que acabaram sendo mais
complicados que o de Ptolomeu, uma vez que comportava 48 epiciclos em lugar
de 40![33] Copérnico
não ignorava, com efeito, que o sistema de Ptolomeu permitia prever as posições
dos planetas com aproximação de um
quarto de grau, e é por isso que ele quis propor um sistema que explicasse
tão bem as observações quanto o antigo. Mas
Galileu, que fizera do heliocentrismo propriedade sua, preferiu uma vulgarização
desonesta ao rigor científico. Desprezando Kepler e Copérnico, insistiu nas
trajetórias circulares, sem sequer dizer que se tratava de uma aproximação, já que
recomendar os sistemas propostos por esses dois sábios teria mostrado a
fraqueza de seu único argumento: a teoria heliocêntrica era mais
simples que a teoria geocêntrica[34]. ERA
GALILEU UM SÁBIO ÍNTEGRO? Este
silêncio sobre Kepler e sobre as complicações do sistema de Copérnico
permite indagar acerca da honestidade intelectual de Galileu. Veremos mais
adiante que ele cometeu um grande número de erros científicos que dificilmente
se explicam pela ignorância. Tudo mostra que Galileu tinha grande preocupação
com a sua própria glória e que, para preservá-la, não hesitou em usar de
argumentos especiosos, chegando até, como veremos, a contradizer-se
abertamente. O fato é tão patente que Maurice CLAVELIN, apesar de grande
panegirista de Galileu, consagrou, em sua obra[35],
cinco páginas para evidenciar que os princípios que Galileu invocou na 4a.
jornada do Diálogo (1632) para fundamentar uma teoria das marés
destinada a provar o movimento da Terra estavam em contradição com os expostos
na 2a. jornada da mesma obra. Galileu
foi acusado por seus contemporâneos de apropriar-se de descobertas alheias,
notadamente a das manchas solares. E o acusado respondeu-lhes com estas linhas,
que soam mal na boca de um sábio: “O
senhor nada pode quanto a isso, Sr. Sarsi; foi-me dado, a mim somente, descobrir
todos os novos fenômenos do céu, e nada ficou para os outros. Tal é a
verdade, que nem a malícia nem a inveja poderão abafar.”[36] Sabemos
por uma carta endereçada a Kepler, em 4 de agosto de 1597, que Galileu, nessa
época, defendia o movimento da terra, e isso, dizia ele, havia anos. Ele próprio
acrescentava que fora a doutrina de Copérnico que lhe permitira explicar vários
fenômenos naturais inexplicáveis, dizia, pelas teorias correntes. Ora, é
demonstrado por um tratado, que ele compôs para os seus alunos e do qual
subsiste uma cópia manuscrita, datada de 1606, que nesta época, nove anos após
a carta a Kepler, Galileu mobilizava todos os argumentos tradicionais contra
a rotação da terra: a rotação desintegraria a Terra, as nuvens
permaneceriam imóveis etc., todos os argumentos que ele próprio refutara (se
acreditarmos em sua carta a Kepler), muito tempo antes[37]. Somente
após 16 anos da carta a Kepler é que Galileu se declarou publicamente favorável
ao movimento da Terra. Ele mesmo nos deu as razões de suas hesitações: o
geocentrismo era tão universalmente aceito, que ele temia simplesmente parecer
ridículo! Em 1613, porém, ele compreendeu que as descobertas feitas com a
luneta astronômica, as manchas solares e as montanhas lunares, notadamente,
contrariavam o dogma peripatético duma diferença de natureza entre os corpos
celestes e os corpos terrestres; ele compreendeu que, derrogado esse dogma, nada
mais se opunha a fazer da Terra um planeta como os demais, e que, conseqüentemente,
o principal argumento do geocentrismo desapareceria. Tornou-se,
então, campeão incondicional do movimento da Terra e identificou-se de tal
modo com esta causa, que, instado pela Igreja a apresentar provas que ele não
possuía, não hesitou em usar argumentos os mais especiosos ou manifestamente
falsos. Percebe-se que Galileu nada tinha desse mártir da verdade com o qual se
tenta identificá-lo. GALILEU
POLEMISTA Galileu,
que escrevia admiravelmente, era um polemista temível, e que não hesitava em
utilizar processos que hoje desconsiderariam qualquer cientista. Seu método
consistia em ridicularizar o adversário, o que ele sempre fazia, com ou sem razão.
Eis um exemplo. Tendo Grassi sustentado que as balas de canhão se aqueciam pelo
atrito, o que era perfeitamente correto, Galileu contestou-o, ladeando a questão.
Grassi de fato cometera a imprudência de citar em apoio de sua tese uma
estranha narração segundo a qual os babilônios coziam os ovos fazendo-os
girar rapidamente na extremidade de uma funda. Eis a resposta, que é um modelo
do gênero: “Se
Grassi quer fazer-me crer, com Suidas, que os babilônios coziam seus ovos
fazendo-os girar em suas fundas, acerto, mas devo dizer que a causa desse efeito
não é de modo algum aquela que ele sugere. A fim de descobrir a verdadeira
causa, raciocino da seguinte maneira: se não obtemos o resultado que outros
obtiveram antes, é porque em nossas operações falta algo que os fazia ter êxito.
E, se esse algo nos falta, talvez seja a verdadeira causa. Ora, não carecemos
nem de ovos, nem de fundas, nem de robustos finórios para fazê-las girar;
entretanto, nossos ovos não cozinham, eles até esfriam mais rapidamente se
antes foram aquecidos. E como nada nos falta, exceto sermos babilônios, é pois
o fato de ser babilônio e não o atrito que é a causa do cozimento dos
ovos.” Compreende-se,
facilmente, que com tais métodos Galileu tenha feito inimigos por toda a parte.
Ele voltou as costas à ordem inteira dos jesuítas, cujos astrônomos eram
quase todos adeptos do movimento da Terra. Eis
um exemplo do estilo de Galileu. No Diálogo, aparecido em 1632 (Galileu
tinha 68 anos e já tinha tido tempo para corrigir-se!), ele trata aqueles que não
admitem o movimento da Terra como “pigmeus mentais”, “idiotas estúpidos”,
“indignos do nome de seres humanos”![38] Mas
o cúmulo é isto: A
HISTÓRIA DO IMPRIMATUR Já
disse que o Papa Urbano VIII tinha a maior admiração por Galileu, pois que
quatro anos após a condenação de 1616 ele não hesitou, quando era ainda
Cardeal, em compor uma ode em sua honra. Ora,
Galileu conseguiu a façanha de indispor-se com o Papa! Julgando fazer com que
seus adversários acreditassem que a Igreja adotara todas as suas opiniões,
Galileu solicitara, por volta de 1630, o Imprimatur para a grande obra
que ele meditava. Como
notou Philippe DECOURT[39],
esse Imprimatur não era necessário, uma vez que se tratava, pelo menos
em princípio, de obra puramente científica. Embora Cônego, Copérnico não o
solicitara, assim como o Pe. dominicano Campanella, ao publicar, em 1622, sua
apologia de Galileu. O próprio Galileu dispensou o Imprimatur quando
publicou um novo livro, cinco anos após sua condenação. Urbano
VIII cometeu o erro de prometer ao amigo o Imprimatur pedido, mas ele
estabeleceu condições, o que era normal. Estas nada mais eram do que as já
formuladas 15 anos antes por BELARMINO: 1º)
Ater-se unicamente ao ponto de vista científico e, já que não existiam provas
válidas na época, apresentar a teoria do movimento da Terra como simples hipótese
de trabalho. 2º)
Não misturar com a questão a Teologia e a Sagrada Escritura. Ora,
Galileu publicou sua obra em que era mencionado o Imprimatur, mas, por
causa das quarentenas provocadas pela peste e também de certos mal-entendidos,
os censores só lhe tinham podido ler o prefácio e a conclusão. Logo
se percebeu que Galileu não respeitara as condições apresentadas para a
concessão do Imprimatur, uma vez que todos puderam verificar, lendo o Diálogo,
que ele considerava os partidários do geocentrismo “idiotas estúpidos”,
“pigmeus mentais” etc. Cego
pelo orgulho, Galileu não titubeou em escarnecer do Papa, pondo na boca de “Simplício”,
que, no diálogo, fazia o papel de idiota da aldeia, os excelentes argumentos
que Urbano VIII usara para tentar convencer o amigo de que as provas aduzidas em
apoio do movimento da Terra nada valiam. Desenvolverei esse aspecto da questão
mais adiante. Ainda
que Urbano VIII fosse um santo, ele não podia deixar passar esses insultos públicos
dirigidos ao Trono Pontifício, isso sem levar em conta que os inimigos de
Galileu —havia tantos! — tinham aproveitado a ocasião para cair sobre ele.
Após uma tentativa de abafar o assunto, Urbano VIII conduziu seu amigo à
Inquisição, que o condenou em 1633 a penas que, graças à intervenção do
Papa, não passaram de penas de princípios[40]. V
— OS ERROS, A MÁ FÉ E AS PRETENSAS PROVAS DE GALILEU FORÇA
CENTRÍFUGA CONTRA DOGMA DO CÍRCULO Hoje,
qualquer ginasiano sabe que, com igual velocidade angular, a força centrífuga
cresce com a maior distância do centro de rotação. Parece pois totalmente
impossível que o Sol, a Lua e as estrelas, que se encontram a enormes distâncias
da Terra, possam realizar uma revolução em 24 horas. Força alguma no mundo
poderia retê-los. Se o firmamento girasse, em 24 horas, em torno da Terra,
todos os astros escapariam como a pedra escapa de uma funda, e o céu perderia
todos os seus astros em algumas horas. Mas, na época, reinava o “dogma do
circulo”, que Galileu sempre aceitou sem discussão. Pensava-se então, e
Galileu antes de todos, que não era necessária força alguma para obrigar os
corpos celestes a girar em torno da Terra em 24 horas. A
despeito de trabalhos em que ele quase chegou a uma concepção correta da força
centrífuga, Galileu sempre professou na obra em que se encontram as piores
contradições que o movimento natural dos corpos é o círculo. Limitar-me-ei a
citar Maurice CLAVELIN, grande enaltecedor de Galileu (sou eu que destaco em
todas as citações): “Fazendo
dele (o movimento circular) o único movimento capaz de conservar um mundo
ordenado, Galileu não tornava somente muito difícil uma interpretação mecânica
dos movimentos planetários: ele enunciava algo
que perturbava gravemente a própria ciência astronômica. A polêmica em
que se meteu, a propósito dos cometas, e onde se vê o movimento circular
transformar-se, em favor de sua função ordenadora, numa
verdadeira condição de possibilidade para a existência dos corpos celestes,
fornecerá disso uma ilustração tão clara quanto desconcertante.”[41] De
fato, por julgar que, na ausência de forças, os corpos celestes se movem em círculos,
achou Galileu que os cometas não eram astros, mas simples fenômenos meteorológicos. “[...]
do ponto de vista estritamente geométrico, era possível atribuir aos cometas
trajetórias elípticas muito alongadas e reconhecer-lhes assim a existência. Que
Galileu não tenha sequer examinado essa eventualidade confirma que, se os
cometas não têm lugar no céu, é em razão de sua incompatibilidade com o
movimento circular, e de seu desacordo com a ordem do Mundo, ou até com sua
simplicidade.”[42] [...] “Não
esqueçamos, com efeito, que, pelo seu poder de conservar a ordem, o
movimento circular tende a representar para Galileu um movimento natural,
incapaz, portanto, por definição, de produzir perturbações; por outro lado,
essa identificação do movimento circular como um movimento natural, desviando
a atenção da força centrípeta, única a poder impedir o aparecimento de um
efeito centrífugo, não favorecia pensar nesse efeito em si mesmo, como uma força
sui generis que cresce necessariamente com a velocidade e a massa do
corpo movido.”[43] É
evidente, portanto, que Galileu e seus contemporâneos não viam impossibilidade
alguma numa rotação de todo o céu em 24 horas, impossibilidade decorrente
de uma força centrífuga, que eles ignoravam e que teria dispersado todos os
corpos celestes. Maurice
Clevelin observa, mui sagazmente, que, se essa falsa concepção da inércia
permitiu a Galileu mostrar a possibilidade da rotação da Terra em torno de si mesma, ela
o levou, ao mesmo tempo, a negar a possibilidade de qualquer prova experimental
desta rotação: “[...]
sua concepção dos sistemas de inércia permite-lhe certamente estabelecer a
possibilidade do movimento diurno, levando-o, porém, a negar a existência de
fenômenos onde uma mecânica mais bem concebida teria percebido a prova de tal
movimento. Ironia da história: essas perturbações que os peripatéticos
julgavam necessárias, mas cuja ausência excluía, na opinião deles, o
movimento da Terra, Galileu as proclamou
impossíveis, ao passo que não somente elas existem mas demonstram que a
Terra não é imóvel! Assim, no mesmo instante em que ele tornava concebível o
movimento diurno, Galileu proibia-se a si próprio de trazer-lhe a prova.”[44] Ironia
da história, de fato! No entanto, bastava um monumento elevado, uma longa corda
e uma pedra, coisas que, na época, não faltavam, para construir o pêndulo
imaginado por Foucault dois séculos mais tarde e apresentar a prova irrecusável
da rotação da Terra! Mas Galileu e seus contemporâneos, mergulhados, em sua
maioria, no dogma do círculo, não imaginaram isso. A
MÁ-FÉ CIENTIFICA DE GALILEU Um
sábio tem o direito de enganar-se, e, de fato, raros são aqueles que jamais
cometeram erros. Mas é necessário que seja cometido de boa-fé para que o erro
seja perdoável. Ora, os fatos mostram que Galileu não sugeriu senão argumentos
especiosos, que não resistiam a um exame atento, ou então argumentos que
se contradiziam visivelmente. Citarei cinco deles, particularmente gritantes: 1º
— Os argumentos fundados na não equivalência das hipóteses cosmológicas. 2°
— A prova pela fixidez do eixo de rotação do Sol. 3°
— A prova pelas marés. 4°
— As contradições na explicação dos ventos alísios. 5°
— As contradições no comentário do milagre de Josué. Já
disse que Galileu teve o mérito de descobrir, graças à luneta que acabava de
ser inventada pelos holandeses, certo número de fenômenos antes desconhecidos. —
Ele mostrou claramente que a Lua não é lisa e luminosa por si mesma, como
acreditavam certos peripatéticos, mas que era cortada de montanhas, cujas
sombras podiam ser observadas. —
Observando atentamente as manchas solares, mostrou que esse astro gira em torno
de si mesmo em 25 dias, em torno de um eixo de direção fixa. —
Descobriu as fases de Vênus, que provam não ser esse planeta luminoso por si
mesmo, mas refletir a luz do Sol. —
Mostrou que o diâmetro aparente dos planetas varia, podendo essa variação, no
caso de Vênus, ir de 1 a 6. Daí resulta que os planetas não se encontram a
uma distância constante da Terra (mas ninguém duvidava disso). —
Galileu encontrou a verdadeira explicação da “cor cinzenta” da Lua, quando
Lua Nova. Tudo
isso foi demonstrado por raciocínios corretos baseados em observações
minuciosas e bem feitas, e constitui, sem dúvida alguma, um belo trabalho científico. Galileu
sublinhou que essas descobertas, ou pelo menos as relativas às montanhas da Lua
e às manchas solares, eram dificilmente compatíveis com a doutrina peripatética
da perfeição dos corpos celestes e de uma diferença de natureza com os corpos
“sublunares”. A hipótese de que todo o Cosmo era regido pelas mesmas leis
reforçava-se com isso; já disse, porém, que ela não era nova e fora
sustentada muito antes de Galileu, notadamente pelo Cônego Buridan e pelo Bispo
Nicolau de Cusa. Se
ele se houvesse circunscrito a essas conclusões, não se poderia deixar de
admirar o talento e espírito científico de Galileu. Mas a má-fé começa
quando ele insiste em dizer que essas
descobertas só eram explicáveis no sistema de Copérnico. Ora, isso não
passava de uma mentira, e Galileu bem o sabia. É
simplificar as coisas dizer que, na época de Galileu, só havia dois sistemas
para explicar o Mundo. Havia quatro, em verdade. —
O sistema de Ptolomeu, que reinou
durante catorze séculos por razões que examinaremos. —
O sistema de Copérnico (séc. XVI). —
O sistema geocêntrico de Tycho-Brahe (séc. XVI). —
O sistema heliocêntrico de Galileu (séc. XVII). Todos
esses sistemas eram falsos, pois todos supunham um centro imóvel: Sol ou Terra.
Mas os três primeiros tinham o mérito de explicar com exatidão todos os
movimentos celestes. Não era o caso do sistema de Galileu, porque,
contrariamente aos três outros, ele assinalava aos planetas órbitas
circulares. Ptolomeu
foi um astrônomo e geógrafo que viveu no século II. Hoje se escarnece dele,
mas era um autêntico sábio, cuja imensa obra científica abrangeu a Óptica, a
Música e a Matemática. Ele é o autor do primeiro tratado de trigonometria esférica.[45] Indagam
os modernos como um sistema cosmológico tão absurdo quanto o de Ptolomeu
(dizem eles) pôde reinar durante catorze séculos sem contestação. A resposta
é muito simples: é porque ele permitia prever
comodamente as posições dos planetas com uma precisão
de um quarto de grau. Ptolomeu sabia, evidentemente, que os planetas avançam
na abóbada celeste, recuam em seguida para avançar de novo um pouco mais
longe, e assim sucessivamente. Ele imaginou explicar esses movimentos complexos
por meio de uma combinação de
movimentos circulares uniformes. Diz-se
que Ptolomeu agira assim porque, tal como Copérnico e o próprio Galileu, ele
possuía a mística do círculo. É possível, mas há explicações mais em
relação com a mentalidade científica de que toda a obra de Ptolomeu dá
testemunho. Não deve esquecer-se, com efeito, que a finalidade a que ele visava
era fornecer um método que permitisse
prever antecipadamente as posições dos planetas na abóbada celeste. Se ele
escolheu combinações de movimentos circulares, é talvez, muito simplesmente,
porque esse meio de previsão lhe pareceu mais simples de aplicar. Negligenciando
alguns pormenores (equantes), pode dizer-se, em linguagem moderna, que no
sistema de Ptolomeu um planeta, em dado momento, está na extremidade de um
vetor que tem sua origem no centro da Terra e que é a soma
geométrica de vários vetores que giram, cada um deles, num plano, com a
velocidade angular constante. O círculo descrito pela extremidade do primeiro
vetor é deferente (por vezes chamado
excêntrico por razões que é inútil
mencionar aqui). As extremidades dos outros vetores percorrem curvas complicadas
denominadas epiciclos. Como
a soma geométrica de todos esses vetores é independente da ordem em que são
considerados, não há finalmente nenhuma diferença entre “deferentes”,
“epiciclos” e “excêntricos”, e utilizarei em seguida o termo único de
epiciclos. Tudo
seria muito simples, se os planetas descrevessem, com velocidade constante, círculos
centrados no Sol. Ptolomeu então poderia explicar o movimento do Sol e da Lua
com um só movimento circular, e o movimento de cada um dos cinco planetas com
dois (tendo um dos vetores por comprimento, a distância da Terra ao Sol, e
girando em um ano no plano da eclíptica). Ao todo, portanto, doze epiciclos.[46] No
entanto, Ptolomeu e Copérnico (contrariamente a Galileu, que sempre fingiu
ignorá-lo) sabiam muito bem que os planetas descrevem “ovais”, em que o Sol
não ocupa o centro. Ptolomeu precisou então, para explicar convenientemente o
movimento dos planetas, aumentar para 40 o número de epiciclos. Era,
evidentemente, muito complicado. A representação de uma curva por uma soma
geométrica de movimentos ficou sendo um verdadeiro quebra-cabeça geométrico.
Não se pode deixar de admirar Ptolomeu, pois, de certo modo, teve êxito. Mas
repito que a utilização do sistema era muito simples e até infinitamente mais
simples que a de todos os outros sistemas inventados ulteriormente.[47] O
sistema de Copérnico[48] Baseava-se
no mesmo princípio dos epiciclos, como o de Ptolomeu. Por diversas razões
e, em especial, em vista do fato de o Sol não ocupar o centro das “ovais
planetárias”, ele tomou para origem de seu sistema de epiciclos um ponto exterior
ao Sol. O resultado é que ele não pode dar conta do movimento de Vênus,
cuja órbita é, excepcionalmente, um círculo quase perfeito, senão utilizando
nove epiciclos. Quanto a Mercúrio, cuja órbita é muito elíptica, ele teve de
recorrer a 11 epiciclos para representar seu movimento. Em suma, Copérnico, que
se gabara, em seu Commentariolus, de reduzir de 40 para 34 o número de
epiciclos de Ptolomeu, teve de aumentá-lo para 48. Vê-se,
portanto, que o sistema de Copérnico era mais complicado que o de Ptolomeu.
Ademais, não sendo ele geocêntrico, não era utilizável, pelo menos sem cálculos
complicados, para a previsão das posições dos planetas na abóbada celeste.[49] Trata-se
de um astrônomo dinamarquês (1546-1601) que passou toda a vida fazendo observações
astronômicas minuciosas que permitiram a Kepler descobrir suas célebres leis. Tycho-Brahe
sabia muito bem que nada permitia estabelecer se era a Terra ou o Sol que era imóvel,
e até se havia realmente um objeto imóvel no sistema solar. Ele adotou, no
entanto, o geocentrismo, porque não conseguiu, a despeito das observações
minuciosas, encontrar a menor paralaxe em nenhuma estrela. Ele não ignorava que
esta ausência de paralaxe não provava a imobilidade da Terra, pois que ela
podia interpretar-se, também, supondo as estrelas a enorme distância do
sistema solar. Mas não imaginou que pudessem estar a distâncias tão fantásticas
como de fato estão.[50] Tycho-Brahe
forneceu catálogos de observações que só puderam ser utilizados por meio das
leis de Kepler. Ele
era viciado na base pela afirmação de que os planetas são animados
de movimentos circulares uniformes centrados no Sol. Tratava-se, pois, de
uma aproximação muito grosseira, que possuía o mérito da simplicidade, mas
que Galileu jamais distinguiu do sistema muito mais exato, embora terrivelmente
complexo, de Copérnico. É por isso que ele pôde alegar, como argumento para o
heliocentrismo, a simplicidade do sistema de Copérnico. Mas,
além de não ser a simplicidade critério de verdade, era induzir seus leitores
a erro, uma vez que todos os astrônomos sabiam que a realidade estava longe de
ser tão simples e que, para explicá-la convenientemente, Copérnico imaginara
um sistema ainda mais complicado que o de Ptolomeu. Mas, como diz Koestler,
ninguém lera a obra de Copérnico, escrita em latim, e Galileu podia muito bem
dizer o que bem entendesse. Se
nos colocamos unicamente no ponto de vista da Cinemática, as expressões
“movimento” e “velocidade” só têm sentido quando referidas a alguma
coisa considerada como fixa, convencionalmente[51].
O mesmo não ocorre no campo da Dinâmica. Sabemos hoje que a “aceleração”
tem caráter absoluto[52]. No
século XVII, porém, ignorava-se que, em virtude das leis de Newton, todos os
objetos do sistema solar são “acelerados”. Nenhum deles, pois, é imóvel,
o que condena tanto o geocentrismo quanto o heliocentrismo, ou, mais exatamente,
condena este último a ser apenas uma aproximação[53]. Não
se podia, portanto, naquela época, falar legitimamente senão de movimentos
relativos dos objetos do sistema solar, movimentos que poderiam ser descritos
considerando-se como fixo qualquer um desses objetos ou qualquer sistema de
eixos. É certo, portanto, que no início do século XVII, em que se ignoravam
as leis de Newton, tanto quanto o fenômeno da “aberração das estrelas
fixas”, geocentrismo, heliocentrismo, “jupiterocentrismo” ou
“lunocentrismo” constituíam sistemas
equivalentes, entre os quais era impossível escolher mediante a observação[54]. Entretanto,
Galileu recusou, durante toda a vida, admitir a equivalência cinemática dos
sistemas geocêntrico e heliocêntrico e, portanto, a impossibilidade de
escolher entre eles mediante observações astronômicas. Por exemplo, ele
afirmou que as fases de Vênus e as variações
do diâmetro aparente dos planetas eram explicáveis unicamente pelo
heliocentrismo, e esse erro continua a imprimir-se hoje. É assim que, numa obra
coletiva em honra de Galileu, publicada com o concurso da Academia de Ciências,
pode-se ler, sob a assinatura de E. NAMER, estas linhas desconcertantes (sou eu
quem destaca): “Ocorre
o mesmo com as fases e as dimensões de Vênus:
com efeito, com o telescópio não somente são visíveis as fases de Vênus,
mas se vêem ainda grandes diferenças entre uma Vênus pequena, quando está
‘cheia’, e uma Vênus imensa, quando é um delgado crescente. Essas variações
consideráveis de forma e dimensão, Galileu ilustrou-as e comentou-as numa
carta a Paolo Sarpi. Essas deduções astronômicas e todas as outras são possíveis
no quadro do sistema de Copérnico; não o são no sistema de Aristóteles e de Ptolomeu, a menos que se
construíssem, de propósito, os epiciclos, os excêntricos, os deferentes, ou
outros círculos, para obrigar Vênus, pelo duplo esforço do metafísico e do
geômetra, a girar em torno da Terra; é, pois, inexato dizer que todos os
sistemas podem explicar as mesmas aparências.”[55] Mais
inspirado, Maurice CLAVELIN nos diz, na mesma obra (p. 133), que Galileu sabia
muito bem que, do ponto de vista estritamente geométrico, ela (a equivalência
das hipóteses) era irrecusável. (Ele mentia, pois, quando fazia crer o contrário). Mas,
sem se dar conta de que se contradiz, Maurice CLAVELIN vai cair na mesma
esparrela, escrevendo um pouco mais adiante (p. 150) (sou eu quem destaca): “Comparemos,
por exemplo, a maneira como um partidário de Ptolomeu e um partidário de Copérnico
poderiam reagir, em 1610, à descoberta das fases de Vênus. Para
os primeiros nada permitiria prever tal fenômeno, impossível aliás se a Terra
é o centro único em tomo do qual giram os corpos celestes. Uma modificação
importante do esquema geocêntrico torna-se indispensável,
e convir-se-á que Vênus, constituindo exceção, descreve uma trajetória
circular em torno do Sol, o qual continua a deslocar-se em volta da Terra.” Ignoraria
Maurice CLAVELIN, verdadeiramente, que essa “modificação importante do
esquema geocêntrico” tinha sido feita catorze séculos antes pelo próprio
Ptolomeu, cujos epiciclos, tomados em ordem conveniente, faziam precisamente
girar Vênus em torno do Sol, que, por seu turno, girava em torno da Terra?
Admitindo, como única condição, que Vênus não é luminoso por si mesmo e
apenas reflete a luz do Sol, o sistema de Ptolomeu permite prever-lhe as fases tão bem quanto o de
Copérnico. Por que Galileu recusou admitir a equivalência das hipóteses? Maurice
CLAVELIN apresentou a si mesmo esta pergunta e tentou a ela responder num capítulo
de 25 páginas da obra citada, onde se contam 10 páginas do próprio Galileu[56]. Como
era de esperar, Clavelin, nessas páginas difíceis, não conseguiu resgatar
Galileu, de maneira convincente, de sua desonestidade intelectual, coisa indigna
de um sábio. Dessas 25 páginas, retemos a confissão de que Galileu adotou o
sistema de Copérnico por razões
unicamente filosóficas. “Desse
modo pressentimos que, por trás da adesão apaixonada ao copernicismo, existe
uma concepção da ciência, de sua unidade, e, certamente, de sua autonomia,
que está em questão. Se Galileu escolheu a doutrina heliocêntrica, é pois,
segundo toda a probabilidade, porque ela corresponde a um ideal
de inteligibilidade superior, em sua opinião, ao ideal proclamado pela
doutrina geométrica de então” (p. 135). Evidentemente,
uma teoria científica não deve ser contraditória (o geocentrismo não o era
de modo algum). Mas, se fôssemos julgar as teorias pelo critério da
inteligibilidade, a ciência não teria conhecido a atração
universal, considerada ininteligível pelo próprio Newton[57],
nem a mecânica ondulatória, na qual o dualismo onda-corpúsculo, solidamente
provado, desafia o entendimento de todos os sábios. Maurice Clavelin termina
seu capítulo por essa espantosa conclusão: “Censurar
Galileu por não ter escolhido a solução hipotética de Osiander ou de
Belarmino seria censurá-lo, substancialmente, por não ter permanecido paripatético.” Conclusão
espantosa, disse, mas que nos confirma ter sido por razões filosóficas
que Galileu rejeitou a equivalência das hipóteses cientificamente demonstrada. Tem-se,
contudo, o direito de questionar o valor de uma filosofia que levou Galileu a
afirmar que os planetas se movem em círculos, quando Kepler, Copérnico e o próprio
Ptolomeu tinham reconhecido que isso era incompatível com a observação. A ciência
só progride quando confia mais na observação do que na filosofia*,
e sempre me disseram que Galileu era o pai dessa idéia. Ora, todo o seu
comportamento na questão do movimento da Terra mostra que ele atribuiu à
observação o que ela jamais disse naquela época. A
PROVA PELA FIXIDEZ DO EIXO DE ROTAÇÃO DO SOL Sabe-se
que Galileu mostrou, em conseqüência de observações minuciosas das manchas
solares descobertas por Fabricius, que esse astro gira em torno de si mesmo em
25 dias, em torno de um eixo de direção fixa. Ora, isso prova, declara Galileu
na terceira Jornada do Diálogo, que o Sol é imóvel, pois, se ele
girasse em torno da Terra, seu eixo não
poderia conservar uma direção fixa. Ignorava
Galileu que a Terra, cujo movimento ele afirmava, gira também em torno de si
mesma e que, em sua rotação em volta do Sol, seu eixo de rotação mantém uma
direção fixa, o que explica as estações?[58]
Koestler, que é dos poucos autores que destacaram essa desonestidade
intelectual, é nesse ponto severíssimo, e é difícil não dar-lhe razão: “Não
há dúvida nenhuma tampouco de que, com esse argumento (das manchas solares),
ele tentava embrulhar e enganar o leitor. Apresentar a inclinação constante do
eixo de um corpo em rotação como uma hipótese nova e inconcebível, enquanto
todos os sábios, desde Pitágoras, reconheciam nisso a razão pela qual o verão
sucede ao inverno; complicar esse problema simples por meio da novidade das
manchas solares e de suas curvas, recobrindo com uma falsa simplicidade as
complicações de Copérnico — tudo isso fazia parte de uma estratégia
fundada no desprezo que sentia Galileu pela inteligência de seus contemporâneos”[59] A
PROVA PELAS MARÉS Desde
que abertamente tomou o partido do heliocentrismo, Galileu insinuou que possuía,
mas guardava segredo no momento, uma “prova conclusiva” do duplo movimento
da Terra: era a prova pelas marés. Revelou-a por volta de 1615. Em
vista dos conhecimentos da época, não se poderia censurar Galileu por ter sido
incapaz de estabelecer uma teoria correta das marés. Isto, porém, não lhe
dava o direito de desdenhar a observação e o bom senso. Qualquer pescador bretão
sabe, de fato, que a hora e a altura da maré dependem
da fase da Lua. Para concluir daí que o astro noturno tem algo que ver com
o fenômeno, há um passo apenas que dar, e que foi dado por sábios ou
ignorantes. No século VII, por exemplo, BEDA, O VENERÁVEL[60] atribuíra as marés à ação
da Lua e forneceu métodos para prevê-Ias em um porto. Sem grande mérito, tão
evidente era a coisa, KEPLER, contemporâneo de Galileu, explicou as marés pela
ação conjunta do Sol e da Lua, e esteve a um passo de formular, antes de
Newton, a lei da gravitação universal. Todas as pessoas de bom senso,
portanto, explicavam as marés pela ação da Lua, todas exceto Galileu, que
escarnecia de Kepler nestes termos: “Malgrado
seu espírito aberto e penetrante, ele (Kepler) deu ouvidos e seu assentimento ao
poder da Lua sobre as águas, às propriedades ocultas (a gravitação) e outras
patranhas.”[61] Galileu
atribuía as marés à combinação dos movimentos de rotação da Terra em
torno de si mesma e em torno do Sol. Resulta desse duplo movimento que a
velocidade de um ponto da Terra passa por um máximo ao meio-dia e por um mínimo
à meia-noite. A essa variação de velocidade e à inércia do mar atribuiu
Galileu as marés. Tal
idéia não é absurda a priori, e, respeitados os conhecimentos da época,
não se poderia culpar Galileu por não ter sabido, como hoje, por que as variações
de velocidade que ele invocava não poderiam produzir nenhum efeito mecânico.
Mas Galileu não tinha o direito de sustentar semelhante teoria por duas razões: 1º)
Objetou-se-lhe imediatamente que, se a teoria fosse verdadeira, só haveria, em
determinado lugar, uma maré por dia, sempre, e até certo ponto, da
mesma altura[62]
e sempre à mesma hora. Ora, todo o
mundo sabe que há duas marés por dia,
que sua altura varia
consideravelmente durante uma lunação e que, finalmente, a hora da maré cheia
muda todos os dias. Ora,
é um princípio admitido por todos os cientistas que uma teoria que não
explica os fenômenos deve ser rejeitada ou corrigida. Com mais fortes razões não
pode servir de prova para coisa alguma. É surpreendente que um cientista tido
como criador do método experimental tenha podido desprezar desse modo a experiência. 2º)
Galileu, ademais, contradizia-se. Os peripatéticos haviam-lhe objetado que a
rotação da Terra se traduziria por diversos efeitos mecânicos: a Terra
estouraria, a atmosfera, as nuvens, os pássaros, os corpos não cairiam
verticalmente etc. A resposta da Mecânica moderna é que, se a força centrífuga
não estoura a Terra, ela, no entanto, diminui ligeiramente a gravidade; ela
prevê que os corpos não caem totalmente na vertical, o que foi verificado etc. Por
seu turno, Galileu responde que, movendo-se os corpos naturalmente em círculo, a
rotação da Terra não poderia provocar nenhum fenômeno mecânico. Sabe-se
que a resposta era falsa, mas o erro era perdoável. O que não o é, é ter ele
pretendido ao mesmo tempo que a rotação
da Terra provoca o gigantesco fenômeno
das marés! Em outros termos, Galileu declara possível o movimento da Terra
em virtude de um princípio que ele nega para provar esse movimento! Maurice
Clavelin, apesar de grande panegirista de Galileu, notou essa contradição (sou
eu quem destaca): “Sem
avançar mais nessa explicação das marés, é fácil compreender que ela
introduz no interior do Diálogo uma verdadeira ruptura. Toda a segunda
Jornada tende a provar, com o auxílio do princípio de conservação do
movimento, que a rotação diurna não pode provocar perturbação alguma e que,
numa Terra em movimento, tudo ocorreria
da mesma maneira que numa Terra em repouso. Ao explicar as marés pelo duplo
movimento da Terra, Galileu abandona, portanto, a idéia de que a Terra, animada
de movimento diurno, seja um sistema inercial. Mas, sobretudo, em nome de que
considerações reservar unicamente aos oceanos a capacidade de traduzir, por um
movimento de fluxo e refluxo, as variações de velocidade sofridas por cada
parte da Terra, uma vez por dia? Se a explicação de Galileu fosse exata, na
realidade todos os corpos não
rigidamente ligados à Terra deveriam, cada 24 horas, ser alternativamente
projetados para frente e para trás... Galileu não percebe que a quarta Jornada
do Diálogo é incompatível com a segunda, e que não é possível
invocar simultaneamente o princípio de conservação para anular os argumentos
tradicionais e explicar as marés.”[63] Apresentando
semelhantes “provas”, Galileu desservia a causa que queria defender. De
fato, Belarmino, Urbano VIII, os membros do Santo Ofício e os mesmos peripatéticos
não eram imbecis. Verificando que o campeão do copernicismo defendia seu ponto
de vista com tais argumentos, eles só podiam agarrar-se à idéia de que a
teoria do movimento da Terra decididamente não tinha apoio em nada! CONTRADIÇÃO
NA EXPLICAÇÃO DOS VENTOS ALÍSIOS Galileu
apresentou os ventos alísios como prova do movimento da Terra, e não estava
errado. Mas, de novo, esta prova se opõe à sua afirmação de que o movimenta
da Terra não pode produzir nenhum efeito mecânico. Deixo a palavra a Maurice
Clavelin (é meu os destaques): “Todavia,
não somente são incorretas as razões invocadas por Galileu, mas também são
inconciliáveis com as conclusões da segunda Jornada. Para ver nos ventos
alísios uma conseqüência do movimento diurno, Galileu obriga-se a modificar
inteiramente suas idéias sobre o comportamento do ar. Na segunda Jornada, o ar,
como todos os corpos terrestres, tem o
poder de conservar indefinidamente o movimento circular uniforme,
correspondente ao movimento diurno, desde que o tenha adquirido; o ar
caracteriza-se, pois, por uma inércia total, assim como os corpos sólidos ou
os líquidos, qual a água. Na quarta Jornada, em compensação, e sem que essa
mudança de atitude seja motivada explicitamente, o ar torna-se, em virtude de
sua tenuidade, um corpo que uma força infinitesimal basta para pôr em
movimento, mas que também “é
totalmente incapaz de conservar o movimento desde que cesse de agir o motor”;
ele exige, portanto, para acompanhar a rotação diurna, o impulso direto das
asperidades que existem na superfície da Terra.”[64] Em
outros termos, Galileu utiliza ou abandona o princípio
de inércia segundo as necessidades de suas demonstrações! CONTRADIÇÕES
NO COMENTÁRIO DO MILAGRE DE JOSUÉ[65] Galileu
não se propõe aqui provar o movimento da Terra, mas somente mostrar que a
narração bíblica da parada do Sol por Josué se compreende muito melhor no
sistema de Copérnico que no de Ptolomeu. O que Galileu escreveu a respeito do
assunto é de pasmar, e tem-se o direito de perguntar se se está na presença
de um sábio, com todo o domínio de sua razão, ou diante de uma personagem que
zomba de seu leitor. O
objeto da ciência é a determinação e o estudo das leis da natureza. Sendo o milagre uma
derrogação, imprevisível e diretamente desejada por Deus, dessas leis, o
cientista nada tem que dizer sobre isto; tem somente o dever, quando possível,
de constatá-lo. No
entanto, ter-se-ia admitido muito bem que Galileu, analisando de mais perto o
milagre de Josué, declarasse que Deus teria miraculosamente detido, por várias
horas, a rotação da Terra e impedido, por milagre também, a destruição,
pela inércia, de todos os seus habitantes. Mas
não foi isso o que imaginou Galileu. Ele declarou friamente que Deus deteve
miraculosamente a rotação do Sol em
torno de si mesmo! Eu repito: a rotação do Sol em torno de si mesmo (que se realiza em 25 dias).
Ouçamo-lo falar das conseqüências: “Se
o movimento do coração num animal se detém, todos os outros movimentos dos
membros param também. Da mesma maneira, se
a rotação do Sol parasse, a de todos os planetas cessaria.” Assim,
Galileu nos diz imperturbavelmente que, quando Josué ordenou que o Sol e a Lua
detivessem o seu curso (Josué X, 12-13), foi a rotação do Sol que ele
paralisou, o que, por uma conseqüência natural, acarretou a imobilização de
todos os objetos do sistema solar! “Sendo
o Sol, ao mesmo tempo, fonte de luz e princípio dos movimentos, quando Deus
quis que, ao comando de Josué, todo o sistema do Mundo permanecesse imóvel,
durante inúmeras horas, no mesmo estado, bastou-Lhe deter o Sol. De
fato, tornando-se este imóvel, todos os outros movimentos pararam. A Terra,
a Lua e o Sol ficaram na mesma posição, com todos os outros planetas.”[66] Insisto:
segundo Galileu, o milagre não é a parada da Terra, é o da rotação do Sol,
e é esta parada que implicou, por uma
conseqüência da modo algum miraculosa, a imobilidade da Terra. Haveria,
portanto, segundo Galileu, um liame entre o movimento dos planetas e a rotação
do Sol, o que suporia uma ação à distância.
Notemos que essa teoria não é absurda a
priori, pois que é por uma ação à distância que o Sol obriga os
planetas a descrever órbitas quase elípticas. Mas, além de gratuita a teoria,
é surpreendente, para dizer o mínimo, encontrá-la sob a pena de Galileu,
pelas razões seguintes: 1º)
Galileu anatematizara Kepler por ter acreditado em tolices, como a ação à
distância da Lua, pela qual se explicavam as marés. E agora ele introduz uma ação
à distância do Sol, tão impensável quanto a outra! 2°)
Uma parada da Terra não miraculosa está em oposição total não somente com o princípio
da inércia corretamente formulado mas também com o princípio de inércia, tal
como Galileu o compreendia, uma vez que, opondo-se nisso aos peripatéticos,
ele sustentara, nas pegadas de Buridan e De Cusa, que não é necessária força
alguma, ação alguma para entreter o movimento da Terra. E agora ele sustenta a
teoria peripatética da necessidade de um
motor — o Sol em rotação — para manter o movimento da Terra e dos
planetas! Acrescento
que Galileu sabia muito bem que, em virtude da inércia, uma parada da Terra não
miraculosa destruiria tudo em sua superfície.[67] Lendo
tais coisas sob a pena de Galileu, a gente esfrega os olhos e pergunta se não
se está sonhando! RESUMO
— CONCLUSÃO Maurice
Clavelin classificou os argumentos apresentados por Galileu em favor do
movimento da Terra em três categorias[68]: 1º)
Galileu mostrou, primeiramente, “a vaidade daquela parte da filosofia natural
tradicional em que o geocentrismo encontrara até então um suporte físico
incontestado”. É
bastante exato, e expliquei mais acima por que Galileu, com suas descobertas
astronômicas, contribuíra bastante para a derrocada de uma doutrina que
afirmava não serem os astros e os corpos sublunares da mesma natureza e não
obedecerem às mesmas leis. Mas não resultava disso que o geocentrismo fosse
falso. 2º)
Galileu respondeu (de maneira nem sempre justa) às objeções científicas
feitas pelos peripatéticos contra o movimento da Terra. Mas possibilidade
não quer dizer realidade. É bom
lembrar, ademais, como já mostrei mais acima, que Galileu refutou as objeções
ao movimento da Terra admitindo princípios que ele se apressou a renegar para
provar esse movimento! 3º)
Enfim, vimos que Galileu pretendeu provar cientificamente o movimento da Terra
por argumentos tão especiosos, que eles levantaram dúvidas quanto à sua boa-fé. Concluirei,
pois, com Maurice Clavelin: “Esses
argumentos estão longe de ser negligenciáveis. No entanto, por mais
impressionantes que tenham sido aos olhos de Galileu, não é menos verdade que
nenhum deles é conclusivo. Que a filosofia natural peripatética seja falsa,
que nenhuma das objeções levantadas contra o movimento da Terra seja válida,
que a observação concorde no conjunto com o copernicismo, nada
disso, contudo, impede que um sistema geocêntrico permaneça perfeitamente
capaz de salvar todos os fenômenos aparentes. Somente a mecânica celeste
de Newton, mostrando a impossibilidade física de uma cosmologia geocêntrica,
inclinará definitivamente a balança em favor da representação heliocêntrica,
mas esta na sua versão kepleriana, isto é, sob uma forma que Galileu jamais
defendeu expressamente[69].
Portanto, é fora de dúvida que, afirmando a verdade de facto do copernicismo, Galileu claramente ultrapassou o que
autorizavam suas descobertas ou seus próprios progressos na ciência do
movimento.”[70] Por
fim, acrescento: a ausência de qualquer paralaxe das estrelas obrigava os astrônomos
a admitir quer o geocentrismo, quer distâncias julgadas inverossímeis para as
estrelas. Por outro lado, o movimento da Terra recebe o testemunho imediato de
nossos sentidos. Compreende-se que, ainda aos olhos dos sábios, a imobilidade
da Terra, nesse século XVII, tenha parecido mais provável que o seu movimento. VI
— BELARMINO, URBANO VIII, GALILEU E O MÉTODO CIENTÍFICO Mostrarei,
neste capítulo, que foram Belarmino e Urbano VIII, e não Galileu, que, nessa
questão do movimento da Terra, encarnaram o espírito científico, tal como
hoje se concebe. Isso
foi afirmado, no início do século, por um sábio e historiador das ciências,
antigo aluno da Escola Normal Superior e membro do Instituto, Pierre DUREM[71].
Mas, como Maurice Clavelin recusa esse julgamento, creio necessário retomar a
questão e mostrar que a evolução da ciência, a partir de 1908, nada tem
feito senão confirmar a posição de Pierre Duhem. SÃO
ROBERTO BELARMINO Entre
outras funções, o Cardeal Belarmino era, na época, Geral dos Jesuítas,
Consultor do Santo Ofício e Mestre de questões controvertidas no Colégio
Romano. Sabe-se que o assunto Galileu foi apresentado durante todo o século XIX
como prova do espírito “obscurantista” e “retrógrado” da Igreja, a
ponto de os católicos baixarem a cabeça quando o assunto era evocado diante
deles. Não podemos, portanto, duvidar de que, quando se falou, no século XX,
de pôr nos altares o principal adversário de Galileu, numerosos cardeais
tenham objetado que essa canonização era singularmente inoportuna, pois
pareceria mostrar ao Mundo que a Igreja ainda perseverava no “obscurantismo”
e no desprezo da ciência. Ora,
Pio XI, que era muito entendido em matéria de ciência e que fundara a Academia
Pontifícia de Ciências, pensava de maneira diferente. Belarmino foi canonizado
em 1931, isto é, numa época em que ninguém duvidava do movimento da Terra.
Esse único fato leva a refletir e a indagar seriamente se a atitude de
Belarmino para com Galileu não era inteiramente justificada. Esta
carta, endereçada ao Pe. Foscarini e agradecendo o envio de sua obra acerca do
sistema de Copérnico, era de fato destinada a Galileu. Correndo o risco de ser
acusado de tê-las isolado de seu contexto, reproduzirei e comentarei duas
passagens da carta que nos interessam do ponto de vista científico[72].O princípio de inércia
A
recusa da equivalência das hipóteses cosmológicas
Os
quatro sistemas de concepção do Mundo
O
sistema de Ptolomeu
Deferentes,
epiciclos, excêntricos
O
sistema de Tycho-Brahe
O
sistema de Galileu
A
equivalência das hipóteses
A
recusa da equivalência das hipóteses
A
carta de Belarmino de 12 de abril de 1615