|
¿ QUE PASA CON RAFAEL ?
Dom Lourenço Fleichman OSB
Não sei se nossos leitores sabem que os portugueses da Tradição desenvolveram muito o apostolado por Blogs diversos. Dentre esses, destaca-se já há bastante tempo o blog A Casa de Sarto. Muitos textos ali publicados são de grande importância para nosso combate, tanto religioso, em defesa da fé, como cultural, em defesa da Civilização Católica. Esta admiração nossa existe mesmo quando alguns detalhes do combate não são entendidos do mesmo modo. Apesar das pequenas diferenças que por vezes aparece, é sempre com profundidade e correção que nossos amigos José Sarto e Rafael Castela Santos(este, espanhol) defendem o que nós, aqui na Permanência, tentamos também defender. Acontece que recentemente, Rafael Castela Santos escreveu um editorial extremamente duro contra Dom Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, a propósito do último número da Carta aos Amigos e Benfeitores da Fraternidade S. Pio X. A tal ponto vai a dureza que, lendo seu artigo, vinha-me à mente, em diversas passagens, uma exclamação muito cara aos hispânicos: - ¿QUE PASA CON RAFAEL? Em outras palavras: porque tanta celeuma por causa de uma Carta onde Mons. Fellay não diz nada de novo, nada que já não tenha sido dito, nada que contrarie o pensamento de sempre da Fraternidade São Pio X? Não posso crer que nosso amigo Rafael desconheça assim, a esse ponto, o pensamento de Dom Fellay, visto que ele próprio se proclama amigo da Fraternidade a diversos títulos e sabendo com que profundidade pode ele analisar os eventos da guerra em que estamos. Fiquei, portanto, imaginando algo de exterior ao escrito, um momento ruim, alguma tensão em sua vida particular. Não quero, de modo algum, entrar em considerações de ordem privada, não tendo para isso nenhuma autoridade ou intimidade com o autor, sendo tão somente seu admirador, mas devo deixar aqui marcada esta primeira constatação: existe uma desproporção entre o que escreveu Mons. Fellay e a reação do articulista. Em seguida, parece-me necessário salientar alguns pontos do que foi escrito, para tentar mostrar que, mesmo tendo, em relação ao Papa Bento XVI, um sentimento diferente do Bispo da Fraternidade, Rafael Castela poderia ter feito um comentário mais ameno, ou simplesmente não ter feito comentário algum.
Dom Fellay escreve com o intuito de mostrar que a generosidade do papa ao publicar o Motu Proprio não é suficiente para obrigar a Fraternidade a aceitar um acordo com Roma. Que Rafael Castela Santos discorde disso, não há maiores inconvenientes; mas partir para o ataque com a força com que partiu não se justifica, pois o Superior de Ecône dá suas razões, e elas não são de pouco peso: o princípio fundamental da ação da Fraternidade é a fé, afirma Dom Fellay, sendo a questão litúrgica uma consequência da demolição da fé. Por isso, uma melhora na vida litúrgica não sigifica necessariamente uma melhora na defesa da fé, em Roma. O bispo vai explicar isso. E o faz apresentando um rol impressionante da demolição da fé, a partir de Vaticano II, pelo Ecumenismo, pelos acordos realizados com as outras religiões e pelas próprias considerações do que seja a Igreja Católica, pelo Concílio e pelo pós-Concílio. Cita, Dom Fellay, o documento recente da Congregação para a Doutrina da Fé que, de um lado, afirma que Igreja não pode ensinar novidades, e do outro lado, confirma a novidade introduzida no concílio, inadimissível para a doutrina católica, segundo a qual, a Igreja de Cristo não é a Igreja Católica, mas subsiste na Igreja Católica. E segue Dom Fellay dando exemplos de coisas séríssimas, ainda ensinadas pelo papa atual e pelos cardeais e bispos que só fazem confirmar que, apesar das mudanças litúrgicas trazidas pelo Motu Proprio, muitos erros graves ainda são ensinados e professados por Roma, o que mantém a Fraternidade no mesmo passo de espera em que sempre esteve. Ora, nada disso é novo no pensamento oficial da Fraternidade. No entanto, a reação de Rafael Castela vai passar por cima de todos esses pontos essenciais para ater-se a coisas secundárias, insistentemente secundárias, a ponto de justificar a existência de mudanças em Roma porque nas lojas da cidade já se pode comprar cálices e objetos religiosos bonitos. Sr. Rafael, o senhor costuma ser mais profundo do que isso! Em seguida atribui a Dom Fellay pensamentos e preocupações (ainda aqui secundárias) que não pertencem ao bispo da Fraternidae. "Negar que o Motuproprio muda o status quo já não é negar, é ser refratário à realidade". Ora, Dom Fellay não nega isso. Nem nos comentários e declarações que fez na época, nem na Carta analisada pelo articulista da Casa de Sarto. Apenas ele mostra que estas mudanças não são suficientes para um acordo prático atual. Diz Dom Fellay: "queremos assinalar alguns acontecimentos recentes que mostram que, no fundo, à parte a abertura litúrgica do Motu Proprio, nada realmente mudou". E mais adiante: "A Fraternidade se alegra sinceramente pela vontade papal de reintroduzir o rito antigo e venerável da Santa Missa". Mas sempre levando a argumentação aos pontos principais: "Seria muito imprudente e precipitado lançar-se de modo inconsiderado na busca de um acordo prático que não fosse fundamentado sobre os princípios fundamentais da Igreja, especialmente sobre a fé." Um outro "que pasa?" me ocorreu quando Rafael começou a julgar as intenções de Dom Fellay, sem nenhum fundamento: insinua que Dom Fellay queria um papa à sua medida, tomista etc. Rafael Castela parece não perceber a falta de respeito que demonstra ao julgar assim o bispo: "Crê honestamente Monsenhor Fellay que uma crise de 40 anos vai resolver-se em um piscar de olhos?". Ora, francamente, Rafael, acho que o senhor devia estar com dor de cabeça ou enjoado quando se permitiu escrever tal frase a um bispo com o currículo de Dom Fellay. Caberia, com todo o respeito, rebater: - quem é Rafael Castela para dar conselhos a Dom Fellay sobre o modo de lidar com a crise da Igreja? Haveria alguém no mundo mais ciente do que o Superior Geral da Fraternidade S. Pio X, para saber o quanto será longa a volta de Roma à Tradição? E nunca ouviu, o senhor Rafael, nenhuma conferência de Mons. Fellay, onde o bispo demonstra justamente esse tipo de paciência, que é particularmente rafinada neste bispo já há tanto tempo Superior Geral? E porque esta frase deveria ser aplicada a Mons. Fellay, quando a Carta de Dom Fellay demonstra justamente a compreensão profunda de que é preciso esperar? Ora, é o senhor Rafael que está se precipitando, achando que as mudanças litúrgicas já deveriam fazer a Fraternidade correr aos pés do Santo Padre. É o senhor Rafael que deixa de lado os graves erros contra a fé, recusa-se de levá-los em consideração, para adiantar tão somente razões liturgicas. E é aqui o mérito da questão. A solução apresentada pela Casa de Sarto só tem apoio na melhoria trazida pelo Motu Próprio. Os demais argumentos são falsos: Diz Rafael que o Ratzinger de 1965 já não existe. Mas não diz nada de tantas teses heretizantes dos livros de Ratzinger que nunca foram abandonadas publicamente pelo papa Bento XVI. Não seria uma questão de honestidade intelectual e de zelo pela fé e pela salvação das almas, alertar os fiéis contra os erros que difundiu por todo o mundo e que continua difundindo? Mas Rafael nada diz sobre isso. Fala apenas das passagens em que Ratzinger prega um retorno (relativo) a uma liturgia mais tradicional. Depois cita as encíclicas do papa, afirmando que elas "revelam uma fundamentação tradicional". Mais uma vez nosso autor analisa de modo superficial. Para ele, as encíclicas são mais tradicionais porque não citam apenas Vaticano II, como fazia João Paulo II. É verdade, o novo papa cita também os autores pagãos, como no caso da primeira encíclica, onde o papa faz uma comparação no mínimo exdrúxula, entre o Espirito Santo e o amor carnal dos pensadores gregos. Francamente. É isso que Rafael chama de "analisar com realismo, objetividade e um mínimo de frieza o que o Santo Padre tem feito"? Já em Spe Salvi, como mostrou o pe. La Rocque em www.laportelatine.org , a doutrina católica sobre a Esperança, que aplica a Redenção às almas dos fiéis, é substituida por uma vaga compaixão de solidariedade com o estado de pecador. E mais uma vez Rafael faz uma acusação grave contra Dom Fellay: "a peregrina idéia de Mons. Fellay de insinuar que as portas de Roma estão fechadas resulta numa afronta à razão e uma temeridade culpável", seguindo com outras acusações e juizos temerários de quem não conhece, decididamente, o pensamento de Dom Fellay. Imagina, Rafael, ser um jogo tático, não percebendo, em nenhum momento que o motor do pensamento do bispo é uma questão de fé, afirmada mais de uma vez na Carta. O delírio de Rafael o conduz por considerações impressionantes, afirmando que a atitude de Dom Fellay seria um desafio ao papa. E fico eu cá a pensar....Que pasa, Rafael? O senhor já disse duas vezes que a crise da Igreja dura já há quarenta anos, e agora vem dizer que Dom Fellay quer desafiar o papa? Está esquecendo que não foi a Fraternidade quem começou tudo isso? Está esquecendo que a legitimidade de defender sua fé vem de Deus? E enquanto não houver sinais verdadeiros (mais profundos do que sua vã teologia) é legítimo, sim, não sair da sua catacumba, para onde fomos empurrados, escurraçados, por este mundo de Vaticano II. A continuação da leitura deste "desafortunadíssimo" texto da Casa de Sarto mostra, talvez, a chave da questão. Quando Rafael fala de Mons. Marcel Lefebvre revela um coração sentimental que falsifica a grande figura que foi o bispo de Ecône. Chama-o, para começar, de Santo Marcel Lefebvre, coisa que o papa atual reprovaria veementemente, o que mostra certa incoerência do autor. Insinua que este santo bispo reagiu na época de um modo e hoje agiria de modo diferente, pois que tinha sido formado em Roma e prezava a Romanidade. Tenta persuadir o leitor de que Mons. Lefebvre teria feito um acordo, visto que Roma, hoje, oferece a Tradição e tudo o que pedia então, o bispo de Ecône. Ora, isso tudo é uma conversa fiada e demonstra total desconhecimento do pensamento de Mons. Lefebvre. Este, certamente, estaria em primeiro lugar preocupado com os pontos principais da crise que continuam sendo alimentados por Roma: ecumenismo, liberdade religiosa, colegialidade, missa nova etc. Qualquer um dos padres e leigos que tiveram a honra de aproximar-se, de ouvir, de conviver, com Mons. Lefebvre, sabe que jamais iria ele entregar-se a um acordo mediante as atuais aberturas de Roma. O bispo de Ecône, certamente, aprovaria completamente o atual Superior Geral. Meu caro Rafael, ao contrário do que o senhor diz, esta posição de Mons. Bernard Fellay, conciliando a grande mansidão do suiço com a constante meta das coisas que realmente importam tem deixado as autoridades romanas cheias de admiração. Ao longo desses longos anos de fidelidade, de equilíbrio, de firmeza na doutrina, foi a Fraternidade, (e não S. Pedro, o Barroux ou os padres de Campos) quem causou respeito e admiração. No final do seu texto o senhor lança um grande desabafo que indica cansaço, desespero e despreparo para a constância da guerra. Ataca os bispos da Fraternidade, voltando contra eles seus canhões, como se deles fosse a culpa por estarmos marginalizados e à mingua. No mínimo, é injusto. O general mantém suas posições. Cabe aos soldados que se reconhecem como soldados, obedecer, cientes de que, em quarenta anos de lutas terríveis, jamais o general nos conduziu por traições, apegos pessoais ou superficialidades. Suas palavras foram injustas e duras e caberia um pedido de desculpas aos seus leitores e, sobretudo, ao Superior Geral da Fraternidade São Pio X. De minha parte, eu entendo que um fiel fique cansado no meio de tantas provações; entendo que se sinta inclinado a arriar a guarda e fazer um acordo; mas ensino aos meus que nessa hora, é preciso descansar nos braços da Virgem Maria, aquela que enche nosso coração de forças novas, de alegria no combate e de certezas de fé. Não nos entreguemos jamais às ciladas do demônio. Remember Campos! Em pouco tempo estão eles lá, celebrando a missa nova e defendendo todos os erros de Vaticano II. Não podemos arriar a guarda, mas levanta-la bem alto na luta contra os poderes das trevas. Vinde Espirito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.
|