O ANJO DA GUARDA

Alexandre Herculano

“Ímpio, silêncio! A tua voz blasfema

Da noite a paz perturba.

Verme, que te rebelas

Sob a mão do Senhor,

Vês os milhões d’estrelas

De nítido fulgor,

Que, em ordenada turba,

A Deus entoam incessantes hinos?

Quantas vezes apaga

Do livro da existência

Um orbe a mão do Eterno!

E o belo astro que expira

Maldiz a Providência,

Maldiz a mão que o esmaga?

Acaso para o cântico superno?

Ou apenas suspira

O moribundo,

Que se chamava mundo?

Quem vai por uma campa sobre os restos

D’esse inerte planeta,

Que o destructor cometa

Incinerou na rápida passagem?

E tu, átomo obscuro,

Que varre à tarde a aragem,

Soltas do seio impuro

Maldição insensata,

Porque o teu Deus te evoca à eternidade?

Que é o viver? O umbral, a que um momento

O espírito, surgindo

Das solidões do nada

À voz do Criador, se encosta, e atento

Contempla a luz e o céu; d’onde desata

Seu vôo à imensidade.

Geme acaso o passarinho

De saudade,

Quando as azas expande, e deixa o ninho

A vez primeira, a mergulhar nos ares?

Volve olhos lacrimosos

Aos mares tormentosos

O navegante, quando aproa às plagas

Da pátria suspirada?

Porque morres?! Pergunta à Providência

Porque te fez nascer.

Qual era o teu direito a ver o mundo;

Teu jus à existência?

Olha no outono o ulmeiro

Que o vendaval agita,

E cujas tênues folhas

Aos centos precipita.

São a folha do ulmeiro o nome e a fama,

E o amar dos humanos:

Ao nada do que foi assim se atiram

No vórtice dos anos.

Que é a glória na terra? Um eco frouxo,

Que somem mil ruídos.

E a voz da terra o que é, na voz imensa

Dos orbes reunidos?

Amor! Amor terreno!... Ai, se podesses

Compreender a amargura,

Com que te choro, ó alma transviada!

Eu, que te amei do berço, e qual doçura

Há no afeto que liga o anjo ao homem,

Rindo despiras esse corpo enfermo,

Para te unir a mim, para aspirares

O gozo celestial de amor sem termo!

Alma triste, que mesquinha

Te debruças sobre o inferno,

Ouve o anjo, pobrezinha;

Vem ao gozo sempiterno.

Resigna-te e espera, e os dias de prova

Serão para o crente quais breves instantes.

Tomar-te-ei nos braços no transe da morte,

Fendendo o infinito co’as asas radiantes.

Depois, das alturas teu térreo vestido

Sorrindo veremos na terra guardar,

E ao hino de Hosana nos coros celestes

A voz de um remido iremos juntar.

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