FLORILÉGIO POÉTICO
Poemas de Durval de Moraes
DADOS BIOGRÁFICOS
Durval Borges de Moraes nasceu na Bahia, em 20 de novembro de 1882, e faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1948. Em sua obra, vasta e valiosa, verifica-se uma evolução marcante, correlata à sua evolução espiritual e à sua especial devoção ao pobre de Assis, com o progressivo despojamento de todo virtuosismo técnico em prol de uma pobreza intencional do verso. Pobreza que, posteriormente, veio a desabrochar em versos de grande resplendor e espiritualidade, versos "de um poeta livre, alto, nobre, e de um grande místico". (André Muricy, Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro).
Para apresentarmos a obra deste poeta, que também foi entre nós o tradutor do I Fioretti franciscano, escolhemos algumas das suas mais belas flores neste jardim de pobreza e religião.
ÍNDICE
1. Apresentação de Durval de Moraes, por Jackson de Figueiredo
2. JHS
6. "Teu dever é florir como a árvore"
7. "Encontraram-se ao por do sol, talvez"
DURVAL DE MORAES
Jackson de Figueiredo
Outra
é a atitude, ou melhor, outra é a forma em que se plasticizou a alma, o espírito
de Durval de Moraes. Tocado pela beleza do Cristianismo, dominado de logo pelo
sentimento de ordem imortal que a Igreja representa, surpreendido pela
imensidade da vida interior, que a santidade revela, houve em Durval de Moraes a
perfeita vitória dos fins novíssimos, e não só o nascimento do homem novo
como a morte real do homem velho, e, com isto, a integral adesão do lirismo à
grave harmonia do poema, do drama religioso. Ele se fez, repentinamente, o poeta
cristão, o poeta católico, e só, somente isto. Sente-se que toda a sua vida
está inteiramente dedicada à expressão rítmica de uma fé absolutamente
superior a todos os tormentos e agonias com que o mundo, de certo, o prova e
mimoseia...
Ora,
a meu ver, é esta fixidez, ou melhor, esta nitidez do seu tipo espiritual, o
que tem impedido até hoje a popularidade que Durval de Moraes devera gozar em
terra de tão largo catolicismo como é a nossa. É isto o que já fiz notar, no
estudo que dediquei à obra poética de Tasso da Silveira: Durval de Moraes, tal
como hoje se apresenta, só gozará da estima que nos merece, quando
completar-se a fase revolucionária que atravessa o Brasil. Enquanto durar a
nossa servidão à triste, à mísera indistinção da meia cultura revolucionária,
uma figura como a sua será sempre suspeitada de sequidão e frieza por aqueles,
e são eles legião, que se contentam de misturar, no próprio coração, às
negaças do ceticismo mais preguiçoso, as exaltações da mais fácil e, não
raro, da mais falsa ternura.
Neste
ponto, imensamente se diferencia a sorte do poeta da de seu pai espiritual. S.
Francisco conheceu a popularidade no que esta pode apresentar de mais
intensamente tentador.
Mas
foi em vão a tentação do orgulho naquela alma tão nitidamente condoída da
humilhação de Jesus Cristo.
Dentro,
porém, do relativo das coisas humanas, não tarda que novamente se encontrem
estes dois destinos, o do Santo vitorioso e o do poeta, nele inspirado, e quase
desapercebido dos seus contemporâneos e do meio em que vive.
Não
é menor a tentação da solidão. Sopra o orgulho dos monstros ou destila o
desencanto, o desfalecimento, o lívido suor da descrença.
Durval
de Moraes, no entanto, resistiu também àquela espécie de orgulho, como às
tristezas vis e corrosivas. A serenidade da sua poesia, a fluência, o equilíbrio
do seu lirismo, o candor da sua fé, revelam essa íntima firmeza, que não é
desnuda da complexidade, mas dela dominante. Durval de Moraes é um dominador da
sua arte; deixou de ser um dominado por ela. Mas não a dominou diminuindo-a,
apequenando-a, ressequindo-a. Não. Voltando-se para o Ser de todo o ser, pôde
ver que a Beleza corresponde à Verdade em toda a sua extensão e profundeza, e
naquilo que está além da extensão e da profundeza. Deu à sua arte o sentido
dessa ordem da caridade, que é aquela de que disse pascal que a infinita distância
dos corpos aos espíritos figura apenas a distância infinitamente mais infinita
que vai destes ao que ela é.
E
usando Pascal, como era forçoso usar, da pobre linguagem das criaturas, ainda
infinitamente a amesquinhou.
*
* *
A conversão de Durval de Moraes avulta de importância na história do franciscanismo no século XX, por isto mesmo que é um caso brasileiro, pois não exagero em dizer-se que, terra católica e devedora, como poucas, aos Padres Menores, não havia modernamente, entre nós, nem mesmo exemplos da nossa detestável literatura devocional em louvor do Cordeiro de Assis. Tradução de duas ou três obras notáveis sobre a sua vida, eis tudo quanto se havia feito, e não rompera o limite dos nossos meios propriamente devotos, ou de catolicismo mais acentuado. O que admira, pois, é que fosse longe desses meios desabrochar a nossa primeira flor de franciscanismo literário.
Foi,
como mostrei, no coração de um homem de incerto filosofismo que S. Francisco
quis derramar, pela primeira vez, na história do Brasil moderno, a sua singular
caridade de espírito. É este o primeiro valor psicológico, documental, da
Lira Franciscana.
Mas,
era fatal, que o pequenino livro de Durval de Moraes, surgindo em meio de tão
escassa cultura literária, católica e, principalmente franciscana, encontrasse
ainda mais indiferença que hostilidade. Não lhe viram o brilho casto da puríssima
beleza de alma que traduz. Dos fazedores de crítica da Capital do país, nem um
fez a mais leve análise dessa poesia que revelava uma cultura de sentimentos e
de idéias, que não se compreende fosse tão estranha numa terra em que, ou bem
ou mal, desordenada ou ordenadamente, o certo é que muito se lê. A maior
deles, esquecida dos aplausos com que oito anos antes fora recebido o Sombra
Fecunda, supôs que o poeta era um estreante e, sobretudo, um carola, o que
bastava para que, pelo menos, ficasse de quarentena.
Uma
coisa, porém, releva, desde já acentuar: de tal forma o poema de Durval de
Moraes está impregnado de espírito franciscano, que, assim, absolutamente
desajudado de todos os porta-vozes do nosso meio literário – sofrendo, como já
fiz notar, da hostilidade natural do meio brasileiro em geral, mesmo o católico,
contra tudo quanto se deixa ver completamente definido – o caso é que, de
todos os seus livros, é este o que vai despertando mais simpatias nas camadas
mais solidamente cristãs da nossa sociedade, aquelas a que se dirige a pequena
imprensa católica do país.
Durval
de Moral, realmente, nada mais fez que, usando poucas vezes de liberdade poética,
contar a inimitável peregrinação do Irmão Franciscano por este mundo de lágrimas,
que só ele sabia transformar em beleza.
(Excerto do livro Durval de Moraes e os poetas de Nossa Senhora).
Cruz
de carne a sangrar sobre o Calvário.
Fim
de vida no céu de um fim de dia...
Silêncio,
solidão, treva, agonia,
Vindo
os olhos fechar ao Solitário!
Hóstia
de expiação da grei sombria?!
Oh!
Que loucura, Excelso Visionário!
É
quanto restará do teu fadário,
Fria
carne a morrer na noite fria?
Dá-me
que eu beba, Pecador sem crime,
Nas
cinco fontes dessas cinco chagas,
O
sangue que alimenta e que redime...
E
dando leve pela vida escura,
Entre
as bênçãos dos homens e entre as pragas,
Tua
Cruz, teu Amor, tua Loucura.
— "Mãos e pés a sangrar; o flanco, aberto; o gosto
Do fel no coração, e na alma a solitude...
À bruta bofetada, impassível o rosto!
O espírito sereno, ante o insulto mais rude!
O escarro, a negação, o abandono, o desgosto:
Dá-me tudo, Senhor, para que se transmude,
Na minha alma de vil, a amarugem do mosto
Fervente do Pecado, em vinho da Virtude!..."
São Francisco, chorando, em êxtase exclama.
Desce, para colher-lhe as pérolas do pranto,
Vibrante Serafim de seis asas de chama!
Jardineiro do Amor, que abre em flores as fragas,
Jesus vinha plantar pelo corpo do Santo
O celeste rosal das Suas Cinco Chagas!
Nossa
Senhora da Renúncia...
Sob
a noite estrelada, à meia-noite,
Uma
cabeça resplende de ouro.
Olhos
semicerrados...
Lábios
semicerrados...
Os
cabelos como raios
Iluminando
o espaço constelado.
A
fronte curva,
Onda
luminosa
Pairando
no ar
E
o resplendor
Do
Amor
Cercando
esta cabeça indescritível!
No
fundo da Alma. No profundo abismo
Deserto
sem oásis.
Cânticos
sem bases.
Silêncio.
Escuridão. Solidão. Misticismo.
Um
sol que não projeta sombras. Leme
Que
não acende cores nas imagens
Paisagem
que não tem, como as paisagens
Matizes
e perfume.
E
no entanto esse abismo
É
um Éden sempre aberto.
A
flor imaterial do misticismo
Nasce
nesse deserto.
Na
solitude Alguém enchendo tudo.
Deus
somente. Mais nada.
O
deserto diz tudo sendo mudo.
A
solidão ensina assim calada.
"TEU
DEVER É FLORIR COMO A ÁRVORE"
Teu
dever é florir como a árvore,
Placidamente,
No
píncaro ou no vale,
Na
vasa ou no deserto,
Risonha
e indiferente,
Aos
homens todos ofertando-se.
Alma,
Abre-te
em flores,
Transfigura-te
em frutos.
Sejam
de santo ou de bandido
As
mãos que te recolham,
Bendize-as.
Vítima
sagrada da Arte,
Oferta-te
sorrindo.
Perfuma
a solidão das almas infelizes,
Entrega
as flores ao redemoinho
Das
almas violentas.
Deixa
cair teus frutos sazonados
Sobre
a alma dos mendigos, dos loucos, dos sozinhos,
Aos
que te abençoarem
E
aos que te maldisserem
Ama
Com
o mesmo amor sem interesse...
Imita
a árvore florida,
Imita
a árvore em fruto,
Imita
a Árvore Eterna:
Cristo
Na
Hóstia.
ENCONTRARAM-SE UM DIA, AO POR DO SOL, TALVEZ
Encontraram-se
um dia, ao por do sol, talvez,
Um
poeta cristão e um poeta chinês.
..
.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. ..
No
caminho poeirento, esmagada, uma flor.
E
um disse e o outro disse estes versos de amor:
Entre
as mãos de Jesus, uma orquídea de neve,
Entre
os pés de Jesus, uma rosa de sangue...
Ósculo
de Maria,
Beijo
de Madalena...
Não
esmagues a flor que em teu caminho
Vires
às tuas mãos, e, aos teus pés estiver,
De
uma criança osculara os leves pés de arminho,
E
beijara, talvez, as mãos de uma mulher.
x x x
Uma
alma e um coração sonhando numa flor!