ALGUNS POEMAS RELIGIOSOS ESCRITOS E TRADUZIDOS POR

MANUEL BANDEIRA

 

 

1. Oração para aviadores - Manuel Bandeira

2. Alegrias de Nossa Senhora - Manuel Bandeira

3. A Anunciação - Manuel Bandeira

4. O Crucifixo - Manuel Bandeira

5. A Cristo Crucificado - autor desconhecido  (tradução Manuel Bandeira)

6. Nossa Senhora da Ternura - K. H. De Josselin de Jong  (tradução Manuel Bandeira)

7. Poemas de Natal I - Rafael de la Fuente  (tradução Manuel Bandeira)

8. Poemas de Natal II - González Carballo  (tradução Manuel Bandeira)

 

 


Oração para aviadores
Manuel Bandeira

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, vosso pai,
Santa clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.



Alegrias de Nossa Senhora
Manuel Bandeira


[Esta composição está inspirada
no texto de oratório do poema
de uma monja carmelita.]

 

I

RECITANTE

O anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:


ANJO

O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.


RECITANTE

A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:


MARIA

Sou a escrava do Senhor;
Faça-se em mim segundo a sua palavra.


CORO

Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!


II

RECITANTE

Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espirito Santo.


ISABEL

Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto do teu ventre!


RECITANTE

O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:


MARIA

Minh´alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grande coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.


CORO

Aleluia! Aleluia! Aleluia!


III

RECITANTE

Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:


CORO DE PASTORES

Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nas alturas!


IV

RECITANTE

Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no tempo, sentado entre os doutores,
Disse-lhe então Maria:


MARIA

Filho, por que fizeste assim para conosco!
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.


RECITANTE

Ao que Jesus responde:


JESUS (menino de doze anos)

Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?


RECITANTE

E Maria:


MARIA

Achei aquele a quem minh´alma adora.
Recobreio-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador


CORO

Santo! Santo! Santo!


V

RECITANTE

A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de veses resplandecentes falaram:


OS DOIS VARÕES

Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aquí, já ressucitou.
Lembrai-vos de que vos disse em Galiléia:
“Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
“E seja crucificado,
“E ao terceiro dia ressucite.”


CORO

Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!


A Anunciação
Manuel Bandeira

Seis meses passados sobre
A angélica anunciação
Do nascimento de João,
Santo filho de Isabel,
Baixou o arcanjo Gabriel
À Galiléia e na casa
Do carpinteiro José
Entrou e diante da Virgem
Desposada com o varão
– Maria ela se chamava –
Curvou-se em genuflexão.
Dizendo com voz suave
Mais que a aura da manhã: “Ave
Maria cheia de graça!
Nosso senhor é contigo,
Tu bendita entre as mulheres.”
E ela, vendo-o assim, turbou-se
Muito de suas palavras.
Mas o anjo, tranqüilizando-a,
Falou: “Maria, não temas:
Deus escolheu-te, a mais pura
Entre todas as mulheres,
Para um filho conceberes
No teu ventre e, dado à luz,
O chamarás de Jesus,
O santo Deus fá-lo-á grande,
Dar-lhe-á o trono de Davi,
Seu reino não terá fim.”
E disse Maria ao anjo:
“Como pode ser assim,
Se não conheço varão?”
E, respondendo, o anjo disse-lhe:
“Descerá sobre ti o Espírito
Santo e a virtude do Altíssimo
Te cobrirá com sua sombra;
Pelo que também o Santo
Que de ti há de nascer,
Filho de Deus terá nome,
Com ser filho de mulher,
Pois tua prima Isabel
Não concebeu na velhice,
Sendo estéril? A Deus nada
É impossível.” O anjo disse
E afastou-se de Maria.
Como no extremo horizonte
A primeira, a desmaiada
Celagem da madrugada,
Duas rosas transluziram
Nas faces da Virgem pura:
Já era Jesus no seu sangue,
Antes de, infinito Espírito
Mudado em corpo finito,
Se fixar em forma humana
Na matriz santificada.


O Cruxifixo
Manuel Bandeira

É um crucifixo de marfim
Ligeiramente amarelado,
Pátina do tempo escoado.
Sempre o vi patinado assim.

Mãe, irmã, pai meus estreitando
Tiveram-no ao chegar o fim.
Hoje, em meu quarto colocado,
Ei-lo velando sobre mim.

E quando se cumprir aquele
Instante, que tardando vai,
De eu deixar esta vida, quero

Morrer agarrado com ele.
Talvez me salve. Como – espero –
Minha mãe, minha irmã, meu pai.

Teresópolis, março de 1966


Poemas traduzidos por MANUEL BANDEIRA


A Cristo crucificado
De autor espanhol não identificado

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara
E a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.


Nossa Senhora da Ternura
K. H. De Josselin de Jong

Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.

Dissipa a sua noite, e ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.

Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.

Guarda-o da dor, dá-lhe alegria,
Para que, junto a ti, sorria.

Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para a visão de teu semblante.

Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.

E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.

Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, virgem pura.


Poemas de Natal - I
Rafael de la Fuente

Teus olhos
Juntam as mãos
Com as madonas
De Leonardo

Os bosques do ocaso,
As frondes amoradas
De um Renascimento sombrio.

O rebanho do mar
Bale para a gruta
Do céu cheio de anjos.

Deus encarna-se
Num menino que busca os brinquedos
De tuas mãos.

Teus lábios
Dão o calor que negam
A vaca e o burro.

E na penumbra
Tua cabeleira afofa as suas palhas
Para o Deus Menino.



Poemas de Natal - II
González Carballo
 

Cristo, o Cristo menino,
Pisa, com o pé desnudo,
A rosa proibida.
Pisa o áspero cravo.
Para Jesus menino
Nardo é o espinho agudo.

Alvas vermelhas, céus
De algum entardecer
Teu destino anunciaram
Sangrento, Emanuel.

Em lágrimas o advertiam
A Virgem e José.

Tu nada mais olhavas:
O pássaro caindo,
A nuvem fatigada,
A estrela de Israel.