SEGUNDA DOR
Alphonsus de Guimaraens
...Angelus
Domini apparuit in somnis Joseph...
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.
S. MATTH. II, 13, 14.
- I -
Eram
pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:
Eram
bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a benção do Senhor floresce:
Era a
sublime adoração do povo,
À luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:
Diante do
leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhã de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...
- ÏI -
Fora uma
estrela de fulgor imenso
Que os guiara, em noite deserta, ao Lugar-Santo...
Mirra trouxera Belthesar: incenso,
Gaspar: Melchior, o ouro que fulge tanto.
Eram
vales e montes, e era o denso
Bosque, e o campo espraiado em verde manto:
E ao luar, todo de jaspe, e ao sol intenso,
Seguiam na asa de celeste encanto.
Quando se
viram sob o mesmo teto
Que abrigara a Família imaculada,
Brotou-lhes na Alma a flor do etéreo Afeto.
E os Reis
Magos, olhar humilde e terno,
Os Diademas tiraram, poeira e nada,
Diante dAquele que era o Verbo eterno...
- III -
Sagrada
adoração dos três Reis Magos,
Genuflexão piedosa aos pés de Cristo,
Que nuvens augurais e que pressagos,
Ventos te guiaram para o Lar benquisto!
O
insólito clamor dos teus afagos,
E a mesma prece em que hoje me contristo,
Despertam do Tetrarca os ódios vagos...
E as Angústias chegaram depois disto.
Hás de
ir, Senhora, para a terra adusta
Onde a grande Pirâmide singela
De veloz tempo os passos tolhe e susta.
Volve
para Ele os olhos tristemente:
Deixa a Judéia como te revela
A estranha adoração dos Reis do Oriente.
- IV -
José,
filho de Reis, o Carpinteiro
Descendente da Casa do Salmista,
Acorda em plena noite, e o corpo inteiro
Treme-lhe, e um raio lhe perturba a vista.
Alvo
Kerub ideal, de olhar guerreiro,
Com uns heráldicos sables de conquista,
Surge por entre nimbos, e o nevoeiro
Que faz a grande luz à treva mista.
Num
pantaclo estelar estava escrito:
"Ele é o Filho de Deus. Acolhe-o, Esposo,
Ao solo ardente do abrasado Egito."
"Meu
Deus!" exclama o Santo, e mudo espia
A áurea face do Arcanjo luminoso:
Uma fonte de lágrimas corria.
- V -
O jumento
abre os olhos compassivos,
E montanhas e rios atravessa.
E a Mãe aflita, e o Esposo, apenas vivos,
Fazem gestos de angústias e de pressa.
As horas
de pavor e os aflitivos
Dias, ei-los: a Dor cedo começa.
Surgem na treva espectros redivivos:
E o pesadelo trágico não cessa...
Seguem-se
dias claros, noites quentes,
E o céu, que é uma turquesa de luar cheia,
Enubla-se de lágrimas dolentes.
E parece
que se ouve o leve passo
Da lua, pobre morta que passeia
Nos castelos hieráticos do espaço...
- VI -
Mãos que
os lírios invejam, mãos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos:
Mãos de
sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos:
Mãos a
bordar o santo Escapulário,
Que revelaste para quem padece
O inefável consolo do Rosário:
Mãos
ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A benção que redime e que perdoa!
- VII -
Doce
consolação dos infelizes,
Primeiro e último amparo de quem chora,
Oh! dá-me alívio, dá-me cicatrizes
Para estas chagas que te mostro agora.
Dá-me
dias de luz, horas felizes,
Toda a inocência das manhãs de outrora:
As colunas de nuvens em que pises
Transformam-se em clarões de fim de aurora.
Tu que
és Rosa branca entre os espinhos,
Estrela no alto mar e torre forte,
Vem mostrar-me, Senhora, os bons caminhos.
Que ao
meditar as tuas Sete Dores,
Eu sinto na minha alma a dor de morte
Dos meus pecados e dos meus terrores...
Dezembro de 1896
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