SETENÁRIO DAS DORES DE NOSSA-SENHORA
Alphonsus de Guimaraens
Heu! sputa, alapae, verbera, vulnera,
Clavi, fel, aloe, spongia, lancea,
Spitis, spina, cruor, quam varia pium
Cor pressere tyrannide!
(Hino de Matinas do Ofício das
Sete Dores de Nossa Senhora)
ANTÍFONA
Volvo o rosto para o teu afago,
Vendo o consolo dos teus olhares...
Sê propícia para mim que trago
Os olhos mortos de chorar pesares.A minha Alma, pobre ave que se assusta,
Veio Encontrar o derradeiro asilo
No teu olhar de Imperatriz augusta,
Cheio de mar e de céu tranqüilo.Olhos piedosos, palmas de exílios,
Vasos de goivos, macerados vasos!
Venho pousar à sombra dos teus cílios,
Que se fecham sobre dois ocasos.Volvo o peito para as tuas Dores
E o coração para as Sete Espadas...
Dá-me, Senhora, para os teus louvores,
A paz das Almas bem-aventuradas.Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre
Nos pobres lábios de quem espera:
Sê propícia para mim, socorre
Quem te adorara, se adorar pudera!Mas eu, a poeira que o vento espalha,
O homem de carne vil, cheio de assombros,
O esqueleto que busca uma mortalha,
Pedir o manto que te envolve os ombros!Adorar-te, Senhora, se eu pudesse
Subir tão alto na hora da agonia!
Sê propícia para a minha prece.
Mãe dos aflitos...Ave, Maria.
PRIMEIRA DOR
Et
tuam ipsius animam pertransibit glaudius...
S. LUC. II, 35.
- I -
Nossa
Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.
O teu
olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.
Entram no
Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.
Diz-lhe o
velho Simeão: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada...
- ÏI -
Sofrer
por Ele! E pálida, ofegante,
Nossa-Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranqüilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.
Sofrer
por Quem! Ventura semelhante,
Só a um peito como o seu de estrelas cheio...
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio...
Que lhe
importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu próprio Filho...
Sofrer
pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!
- III -
Que lhe
importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.
Junto ao
seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.
Por Ele
toda a mágoa sofreria...
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.
Sofrer
por Ele... Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!
- IV -
E as
palavras do Velho em tom celeste
Murmuraram-lhe assim: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."
Chorou.
"Guardião do Templo, que disseste?"
E a ansiedade passou-lhe contristada
Pela Alma, como a sombra de um cipreste
Plantado à beira de uma encruzilhada.
Talvez
que toda aquela noite espessa
Profetizada pelo Velho, triste
Viesse envolver de luto outra Cabeça...
Sim! Pois
vê-Lo sofrer era por certo
Ter em meio do peito a lança em riste,
E em chaga viva o coração aberto.
- V -
Pudesse
ela poupar-lhe o sofrimento,
Adivinhar-lhe as dores e os pesares,
Ter poeiras de astros para o mal sedento,
Ter bons olhares para os maus olhares...
De
repente, num rútilo momento,
Na Alma surgiu-lhe uma visão de altares:
Era a grandeza do seu Nascimento
No Lar eleito em meio de outros lares...
Mas que
fizera para tanta glória,
Sentir a Deus chamá-la Mãe querida,
Ela, mulher, como as demais corpórea?
E a
aparição daquele Arcanjo etéreo,
Que lhe anunciara a nova prometida,
Engrinaldou-lhe a fronte de mistério...
- VI -
De luar
vestido, o fúlgido semblante
Entre bastos cabelos irisados,
E sobre o flanco a túnica irradiante
Que eram nesgas de céus nunca sonhados:
Os seus
olhos de poente e de levante
Em silêncios de luz ilimitados;
Era o celeste Cavaleiro andante,
Anunciador de místicos Noivados...
E que
Noivado o seu! Nuvens radiosas
Cercando o Mensageiro altivo e doce,
Debaixo de amplo céu de seda e rosas...
E dentro
das olheiras cor-de-goivo,
O olhar da Virgem santa eternizou-se:
O Espírito de Deus era o seu Noivo...
- VII -
Em teu
louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-lhe o vulto em toda a parte.
Tu que
habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.
Que é
necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.
Que me
chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!
Setembro de 1896
| Volta ao índice | Segunda dor |