QUANDO OS LEIGOS SUSTENTAM A IGREJA
Cardeal Newman
(Trecho de artigo publicado em The Rambler, julho de 1859, citado por Hugues Keraly, Présence d’Arius, Paris, D. M. M., 1981)
É
bastante notável que, embora falando historicamente o século IV seja a época
dos doutores, aquele que foi iluminado por santos como Atanásio, Hilário, os
dois Gregórios, Basílio, Crisóstomo, Ambrósio, Jerônimo e Agostinho (tendo
sido bispos todos esses santos, com uma única exceção), contudo, nessa mesma
época, tenham sido os leigos que mantiveram a tradição divina confiada à
Igreja.
Efetivamente,
isso exige alguma explicação: dizendo isso, não nego evidentemente que, em
sua expressiva maioria, os bispos tenham sido ortodoxos, no mais íntimo de sua
fé; tampouco nego que tenha havido membros do clero para assistir os leigos e
servir-lhes de guia e fonte de inspiração; nem desconheço que os leigos
tenham recebido certamente a fé, em primeira mão, dos bispos e do clero; não
nego que haja entre os leigos alguns ignorantes e que outros se tenham
corrompido por pregadores arianos, os quais conseguiram apoderar-se das sedes
episcopais e ordenar sacerdotes heréticos. No entanto, persisto em dizer que,
nessa época de imensa confusão, o dogma divinamente revelado da divindade de
Nosso Senhor foi proclamado, afirmado e mantido e, falando humanamente,
preservado muito mais pela Ecclesia docta do que pela Ecclesia docens;
que o corpo dos bispos foi infiel à sua missão, ao passo que os leigos
permaneceram fiéis ao seu batismo; que ora o Papa, ora uma sede patriarcal,
metropolitana ou outras sedes importantes, ora concílios gerais disseram o que
jamais deveriam ter dito, ou realizaram atos que obscureceram ou puseram em
perigo a verdade revelada. Entrementes, foi o povo cristão que, sob a orientação
da Providência, constituiu a força cristã de Atanásio, de Eusébio, de
Verceil e de outros confessores solitários da fé, que sem esse povo não
teriam resistido [...]. Digo que houve suspensão temporária das funções da Ecclesia
docens. O conjunto dos bispos foi infiel ao dever de confessar sua fé.
Vejo,
pois, na história do arianismo, um rematado exemplo de situação da Igreja
durante a qual, se quisermos discernir onde está a Tradição apostólica, é
aos fiéis que devemos recorrer.
(PERMANÊNCIA, 1982, março/abril, números 160/161)