PSICANÁLISE
E ESPIRITUALIDADE·
André Combes
Desde que há homens — que pensam — nunca se considerou como prova de inteligência superior, ou de simples bom senso, o fato de se levar água ao rio. Os Gregos só tinham senão ironia para aqueles que pretendiam introduzir corujas em Atenas; os Ingleses perguntavam se se importa carvão para Newcastle...
Confesso-vos
com toda simplicidade que dou-me perfeitamente conta do ridículo que há por eu
vir falar de psicanálise na pátria dos Nuttin e dos Ermel. Há pouco, o Sr.
Joseph Nuttin, professor na Universidade de Louvain, publicou, sob o titulo Psychanalyse
et conception spiritualiste de l´homme, um ensaio de integração da psicanálise
ao conjunto da ciência psicológica, ensaio que constituía uma contribuição
positiva, tão notável quanto original, do ponto de vista da psicologia geral,
ao estudo da personalidade normal.[1]
Eis que acaba de aparecer uma monografia pela qual, sob o titulo: “Où vá
la psychanalyse?”, o Sr. Ermel dedica-se, com informações muito confiáveis
e perfeita prudência, a elucidar os problemas morais que são suscitados pela
prática da psicanálise, e pergunta-se sagazmente por qual caminho ela vai
evoluir.[2]
Se
é ainda permitido hesitar sobre o sentido desta evolução, era-me impossível,
enquanto lia tal obra de objetivo tão enorme, o ter a menor dúvida quanto ao
sentido de minha evolução pessoal. Devia eu, necessariamente, achar-me, à
noite de 23 de novembro, nesta mesma Bruxelas, diante do mais simpático auditório,
e também o mais bem informado, esforçando-me para não decepcionar sua tão
benevolente atenção, não contentando-me em repetir o que mestres tão
excelentes já lhe apresentaram.
É
com tal desejo de não frustrar vossa esperança —
mesmo que, à vossa idade, a frustração seja menos intimidante, nos dirão os
psicanalistas, que à idade infantil —
que senti-me convencido de tentar ir um pouco além de vossos dois guias.
A
admirável obra do Sr. Joseph Nuttin tem por característica própria o
escudar-se da tirania freudiana pela elaboração da uma teoria dinâmica da
personalidade normal. Proponho-me ir além, partindo d´outro principio: ao invés
de contentar-me com uma critica psicológica e metafísica, desejaria-vos ajudar
a compreender com qual força a realidade existencial do cristão completo
recusa-se deixar-se reduzir à psicanálise clássica[3]
e requer um método de investigação penetrante e conforme aos seus elementos
integrantes. Desta feita, e porque é-me possível complementar a documentação
do Sr. Ermel —
que, para o essencial, detêm-se em 1950 —
mostrar-vos-ei em qual sentido evolui, de fato, a psicanálise, sob a tutela mui
poderosa do Dr. Wilfried Daim.
Mas,
antes de propor-vos estas reflexões, gostaria de limpar o terreno atraindo
vossa atenção sobre dois equívocos fundamentais que, duma parte, explicam em
larga medida o sucesso paradoxal da psicanálise clássica, e, d´outra parte,
impede-nos de aceitar voluntariamente o caminho que apontam-nos certos
psicanalistas freudianos, ávidos em obter o assentimento dos católicos sem
modificar em nada seu método naquilo que tem de essencial.
Não
posso, todavia, abordar estas considerações preliminares, sem pedir-vos uma
grande indulgência, pela dupla razão que apresento-lhes. Falar de psicanálise
e de espiritualidade é abordar dois imensos domínios onde não podemos
mover-nos cientificamente sem consultar montanhas de livros e brochuras. Uma
bibliografia da espiritualidade e de sua história demandaria muitos volumes. A
mais recente obra sintética sobre psicanálise, La théorie psychanalytique
de névroses, do Dr. Otto Fenichel (cuja tradução francesa apareceu no último
ano pela Presses Universitaures de France) contém uma bibliografia —
não exaustiva —
de 1646 números! D´outra parte, em tudo se mantendo mordicus aos
elementos essenciais de sua doutrina, os psicanalistas são freqüentemente
personagens ondulantes e variantes que escapam às garras dum pensamento mais
definido. Assim sendo, é evidente que não é em alguns instantes que poderíamos
propor uma critica cientifica duma disciplina tão largamente divulgada e tão
diversamente elaborada. Sob a proteção destas considerações, tentamos ao
menos guiar-nos com alguma segurança neste caos.
I
Jamais,
sem dúvida, a psicanálise teria conhecido o sucesso prodigioso do qual somos
as testemunhas felizes ou entristecidas —
se Freud se tivesse enganado completamente. Disso não há duvidas. Não é
estranho, porém, que tais vitórias sejam devidas a causas outras que não o
acordo do vencedor com a verdade. Aqui, não parece-me deletério revelar umas
das razões principais duma inflação que não tem proporções com os méritos
científicos da obra. É uma razão completamente alheia à ordem técnica. De
ordem puramente lingüística, ela decorre do próprio termo que tem servido
para designar menos a psicanálise propriamente dita, que uma psicologia cuja análise
supõe a própria existência e deve promover seus progressos. Tal termo é mais
engenhoso que sugestivo. Em alemão, Tiefenpsychologie, que em francês
resultou em “psicologia das profundezas”. Quaisquer que sejam nossas pretensões
à inteligência pura ou ao espírito crítico, não somos menos freqüentemente
vitimas que ao tempo de Platão, das palavras que empregamos. Tiefenpsychologie
tornou-se uma palavra mágica. Utilizar “psicologia das profundezas” é
inevitavelmente ter, e dar a impressão, depois, logo a certeza, que penetramos,
desta feita, no ser humano tão mais profundamente de que pudemos tê-lo feito
na psicologia clássica: é conferir, por tal fato, às suas pesquisas, ou ao
menos às suas afirmações, uma dignidade, um valor que desdenha comparação e
crítica: é rejeitar para trás como uma traquitana “démodé” e tudo o que
poderia ter sido adquirido por métodos diferentes e de menor penetração. É
finalmente impor a convicção de que podemos destrinçar e proferir a palavra
definitiva da ciência do homem, pois alcançamos as profundezas além das
quais, sem duvida e por hipótese, nada mais há.
Daí
vem —
não é preciso dissimulá-lo —
em grande medida, o prestigio da psicanálise e de tudo que é psicanalítico,
juntar a tanto psicólogos, sociólogos, literatos, gentes mundanas, e mesmo, horresco
referens, teólogos. A psicanálise trata, por definição, das profundezas
do homem, revelando-as ou curando-as —
quem, pois, gostaria, deliberadamente, de negar-se a tal aprofundamento? Seria o
mesmo que querer, parece, por apego a Hipócrates ou a Galeno, recusar
beneficiar-se dos raios X para o conhecimento profundo do corpo humano. Daí,
correlativamente, o insucesso prático das raras oposições feitas aqui e acolá
contra Freud. Rudolf Allers, outrora apresentado por Louis Jugnet como o Anti-Freud[4],
não conseguiu, de longe, uma audiência comparável àquela do mestre vienense.
Prevenidos, Adler e Jung souberam modificar, às vezes mui radicalmente, a
doutrina original, sem renegar a herança terminológica que asseguraria seu
constante prestígio. Psicólogos como Charles Baudoin[5],
médicos como os doutores Laforgue[6],
Hesnard[7],
Odier[8],
independentes, guardam-se bem de por em questão a aptidão congênita de
somente a Tiefenpsychologie perscrutar as profundezas do homem. Se, numa
tese memorável, Roland Dalbiez sentiu-se mui filosofo por ter criticado o
freudismo como doutrina, não hesitou em aceitar a psicanálise como método, o
método que permite adentrar no psiquismo profundo[9].
Daí,
enfim, a adesão ao freudismo de teólogos ou de técnicos da espiritualidade
como o padre Oraison[10], às equipes dos Etudes Carmélitaines, do
suplemento de La Vie spirituelle, e o ar de vencedor com o qual uma
psicanalista tão convicta, tão destacada e tão ouvida como Mme. Maryse Choisy,
estende a mão aos católicos, persuadida de que nenhuma resistência seria
legitima doravante.
II
Eu
resisto, entretanto, e digo o porquê[11].
Primeiramente,
porque há equivoco, e grave, sobre a noção de profundidade. Que são,
de fato, tais profundezas que a analise que tem por dever perscrutar em
beneficio da Tiefenpsychologie? Para conhece-las, não podemos esquecer a
origem real da psicanálise. Freud não é um filosofo, nem mesmo um psicólogo,
que se teria dedicado a definir o homem normal. O neurótico é um ser cuja vida
psíquica não é adaptada à realidade. É um médico que procura curar as doenças.
Suas doenças eram as neuroses. Diante das anomalias da consciência e do
comportamento, várias são as hipóteses possíveis, sobretudo duas: ou bem
explicamo-las somente através de perturbações “nervosas”, o que nada
explica; ou bem presumimos que tais inadaptações têm causas próprias e um
sentido que deve ser possível revelar. O Dr. Freud escolheu esta segunda
atitude. Esta escolha, cujas conseqüências tornar-se-iam incalculáveis,
apresenta originariamente três características principais cuja importância não
pode ser exagerada.
Em
primeiro lugar, Freud abandona, por escolha pessoal, a medicina somática para
engajar-se na psicologia. É digno de nota que uma tal revolução tenha sido
obra de um materialista ateu, enquanto o crente Pasteur inaugurava a medicina de
laboratório[12]. Em segundo lugar, decidido a buscar além dos fenômenos
a sua causa e o seu sentido, Freud empreende uma exploração da qual somos
naturalmente inclinados a dizer que ela constitui um aprofundamento, mas é
necessário dizer o quanto antes que trata-se somente de um aprofundamento em
relação às aparências imediatas —
assim como diz a expressão corriqueira: “mas, no fundo, o que
queres?” —
e em um plano superficial sobre o qual mantém-se a medicina puramente orgânica.
Em terceiro lugar, este “fundo” que a investigação freudiana vai
perseguir, não pode ser localizado senão em relação com o único meio de
conhecimento interno e de comunicação de que dispomos: a consciência.
Materialista, Freud não pode conceber uma profundidade espiritual. Constatando
que o comportamento de seus doentes não apresenta nenhum sentido no plano da
consciência, limita-se a duplicar esta consciência com um inconsciente
onde o inexplicável deve dissimular sua inteligibilidade. Contentemo-nos neste
ponto em observar que não há razão alguma de se representar o inconsciente
como mais profundo que a consciência. Seja mesmo mais legitimo situa-la à
periferia daquilo que constitui a normalidade da conduta humana. Não pode ser
senão em virtude de um pessimismo instintivo ou deliberado que, para localizar
as causas das condutas aberrantes, escolhamos a metáfora que, per si, sugerirá
que este inconsciente é de natureza mais fundamental, mais humana, que a consciência
normal.
Assim
sendo, não há nenhuma razão científica para prosseguir neste sentido temerário.
Há graves razões psicológicas, metafísicas e teológicas para rechaçar
energicamente esta fonte de confusão. Não há razão científica, pois a ciência
apóia-se no real, não sobre metáforas. E a partir do momento onde concebemos
o homem como um composto substancial de alma e corpo, devemos pensar que não
alcançamos, de modo algum, o fundo deste ser enquanto contentamo-nos em
desvendar as motivações inconscientes de condutas neuróticas. O que é
profundo, no homem, são suas faculdades espirituais, sua inteligência, sua
vontade. O que é ainda mais profundo é a vida própria da sua alma investida
pela divina graça e tornada o templo da Santíssima Trindade. Eis o que Freud e
seus discípulos ignoram, e eis porque a Tiefenpsychologie goza de um
prestigio usurpado pois ela não é, e nem pode ser, uma psicologia das
autenticas profundezas[13].
III
Seja,
nos responderiam, de boa vontade certos psicanalistas mais ansiosos por acordo
que apegados a um vocabulário presunçoso, queremos conceder que existe outra
coisa no homem e no universo além daquilo que Freud observou ou imaginou. Mas
porque uma tal constatação de insuficiência dever-se-ia transformar em
condenação? Se a psicanálise aceita a religião católica, por que o
catolicismo não aceitaria a psicanálise? A isto, Mme. Maryse Choisy dedicou-se
outrora a convencer-nos pelo seu livro intitulado “Psychanalyse et
Catholicisme”, livrinho que abalou muitas consciências ainda hesitantes e
atrapalhou mais de um leitor. Permiti-me citar-vos algumas passagens
significativas onde revela-se o segundo equívoco que quis, antes do mais,
dissipar:
Nunca
compreendi porque uma religião fundada sobre o amor tinha tanto medo da
sexualidade... O amor deve se situar em um encruzilhada biológico-somato-psico-espiritual,
essencial para que, ao final de tantos milênios conserve ainda seu mistério,
seus imperativos, seus interditos, sua energia, sua plasticidade —
para que em 1950 seja indispensável citar os textos exatos de Freud sobre a
libido, se não se quiser que sua teoria seja acusada de “pansexualismo” por
um público que, entretanto, associa
Deus e amor. Para ter tanto medo das palavras, estaríamos nós todos ainda na
fase mágica? [14]
Não
é das palavras que temos medo, mas do sentido em que se as empregam e do uso
que se faz delas. Mais exatamente, não temos medo de nada, mas não temos
nenhuma razão para consentir com o contraditório e o erro. Leiamos ainda
algumas linhas da mesma autora, e veremos qual preço ela quer fazer-nos pagar
pelo acordo que nos propõe:
Um
fato impressiona quem examina o aspecto puramente psicológico do amor é a
qualidade especial do prazer sexual... Parece que desde o inicio, mesmo no plano
somático, o orgasmo seja uma superação e aparenta-se já dum certo modo uma
busca do infinito, a uma tentativa de romper os limites do conhecido[15].
O
grande mérito de Freud é precisamente o de ter tentado uma aproximação
“dinâmica” do problema sexual. Pioneiro entre os modernos, ele destacou a
unidade profunda do amor. É a fonte comum da energia afetiva sob todas as suas
formas. Depois disto não lhe resta senão estudar suas modalidades de
transformação[16].
Se
tivesse contentado em reduzir a energia afetiva ao amor como sua fonte, não
teria tido outro mérito senão o de retornar à psicologia a mais tradicional,
pois tal é o pensamento de Santo Tomás de Aquino tanto quanto de Santo
Agostinho[17]. Mas ele
fez três coisas completamente diferentes, que caracterizam sua doutrina
enquanto tal, e que, separando-a violentamente de tudo quanto não é ela, não
permite a um católico concordar com ela sem renunciar ao que constitui sua própria
doutrina do homem e de seu estatuto existencial.
Primeiramente,
este amor, fonte de toda energia afetiva, Freud sexualizou-o radicalmente. Ao
fazê-lo, estabeleceu um monopólio e uma finalidade que, no próprio plano da
vida somática, são inconciliáveis com uma psicologia espiritualista pela qual
o homem é necessariamente ordenado segundo uma hierarquia das sensações e das
funções, todas subordinadas a uma finalidade que as transcende.
Em
segundo lugar, Freud conferiu a este amor sexual uma unicidade e uma
homogeneidade de natureza que não podem concordar de maneira alguma com as
necessidades mais elementares de uma psicologia que professe a espiritualidade
da alma. Para Freud e para todo discípulo fiel, toda a vida humana deriva com
uma tal continuidade desta fonte única que as formas mais elevadas da atividade
mental, da produção artística, do pensamento e da afetividade religiosas
originam-se por sublimação. Um só e mesmo amor sexual, contrariado em suas
plenas satisfações, transforma-se, mascara-se e libera-se por substituição.
É o que Mde. Maryse Choisy chama “ a unidade profunda do amor”. Este
monismo psicológico ignora a alma espiritual e suas funções especificas. Ele
crê que uma fonte de água pura torna-se emissora de ondas hertzianas,
simplesmente se impedirmos a água de correr. Por esta eliminação sistemática
de diferenças constitutivas, ele vincula à identidade o que, na realidade psíquica,
é irredutível. Ele tem por aceito aquilo o que a toda psicologia
espiritualista é obrigada a negar. De fato, desde que se concebe o homem como
constituído de um corpo e uma alma espiritual, não se pode, sob pretexto
algum, aceitar representar suas atividades mais elevadas como procedentes, por
sublimação, de seu amor sensível. As faculdades próprias da alma, inteligência
e vontade, não possuem outra origem senão própria à alma. Elas se exercem no
nível da alma e são capazes de tender para o mais espiritual dos objetos.
Neste
nível, o amor é essencialmente distinto do amor sensível. Ele é o
comprazimento da vontade num bem proporcionado a sua natureza. Se se tratar de
outro ser humano, ele remete, naquele mesmo ser, para o que ele tem de
espiritual. E quando se eleva até Deus, ele alcança a ordem do transcendente
absoluto, absolutamente despojado de toda conotação sensível.
Em
terceiro lugar, Freud deliberadamente recusou aquilo que constitui o essencial
do amor cristão. Como não o faria? Para ele, a religião é um delírio, cuja
prática decorre da neurose obsessional. Constrangidos a separar-se dele sobre
neste ponto, que não se poderia, sem duvida, tratar como negligenciável, seus
discípulos católicos tentam conciliar as exigências de sua fé e as exigências
da Tiefenpsychologie estendendo a sublimação até à vida religiosa e
ao amor místico. “Tudo se passa, escreveu Mde. M. Choisy, como se o amor
fosse uma força cósmica, uma atração do centro do universo que se exerce
sobre todos os planos do ente, uma pulsão ascensional da matéria a Deus [18].
Seguramente encontraremos, na tradição originada nos Pseudo-Denis, à condição
de proceder aos ajustes mais delicados, com que se por em harmonia com esta noção
grandiosa de amor cósmico, mas do ponto de vista do que é essencial no
estatuto da vida cristã, nada seria mais equívoco e perigoso que uma tal visão
das coisas. Em realidade, o amor do qual vive a alma cristã não vem dela. Não
apenas ela não vem das profundezas do amor sexual, mas nem sequer procede da
alma espiritual nem das faculdades mais elevadas. Ele lhe é dado do alto. É um
magnífico acréscimo que responde, não às exigências de nossa natureza, mas
à infinita Bondade de Deus. É esta disposição intima, infusa pela graça,
que a teologia chama a Caridade. Tal caridade constitui o ser humano em estado
de amizade com Deus, amizade fundada sobre a comunicação da vida divina e da
Beatitude eterna. Pode acontecer que tais noções sejam ininteligíveis a Freud
e a seus discípulos. É uma grande lástima para eles. Mas sobre toda a superfície
terrestre, coberta pelos cristãos que administram validamente o batismo, tal é,
na ordem existencial, o estado real do homem. Ou bem renunciamos a fé cristã,
ou obrigamo-nos a crer que é assim mesmo.
Eis
porque nenhum acordo é possível com os psicanalistas que brincam com a ambigüidade
semântica da palavra “amor”. Certamente, a religião cristã é fundada
sobre o amor, mas o amor sobre o qual está fundado a religião cristã não tem
absolutamente nada em comum com as vibrações paroxísticas do orgasmo sexual.
É a essência pura e infinitamente espiritual de um Deus que compraz-se em sua
perfeição infinita e que por condescendência infinitamente misericordiosa,
comunica ao homem sua própria vida.
Três
conseqüências capitais decorrem desta iniciativa divina:
1º
—
Longe de ser dotado de uma unidade profunda, o amor, no homem, é afetado por
uma dupla descontinuidade. Descontinuidade, em primeiro lugar, nos limites da
natureza, entre o amor-paixão ou sentimento e o amor da vontade.
Descontinuidade, em seguida e sobretudo, entre o amor natural ao homem, e a
caridade sobrenatural que é de origem divina.
2º
—
Longe de oferecer-se à análise como uma potência que seria lícito apreciar
corretamente, para após corrigi-la, em virtude de uma adequação essencial com
os elementos observáveis do psiquismo humano, o amor, no homem real, padece
duma desproporção essencial do qual um texto capital de Santo Tomás põe a nu
a raiz sobrenatural. Perguntando se a caridade é infusa no homem
proporcionalmente à sua capacidade natural, Santo Tomás descobre no Novo
Testamento o principio de sua resposta: “O Espírito sopra onde quer”, disse
São João [19],
e São Paulo precisa que é somente um único e mesmo Espírito que,
distribuindo seus dons a cada um segundo Sua vontade, opera em nós todas as
nossas atividades sobrenaturais [20].
Conseqüentemente, não há dúvida possível: a caridade não depende nem da
condição do conjunto da natureza onde ela é recebida, nem da capacidade do
poder natural onde penetra, mas somente da vontade do Espírito Santo que
distribui seus dons segundo seu agrado [21].
Assim sendo, ou rejeitamos a revelação cristã e a teologia que a elabora, ou
estamos obrigados a pensar que, na ordem existencial, o regime afetivo de cada
um depende duma medida em que ninguém pode presumi-lo, da livre vontade de Deus
e da comunicação de seu amor.
3º
—
Longe, portanto, de alcançar as reais profundezas do ser humano de tal como a
natureza e a sobrenatureza conjugadas a ofereçam à sua análise, a
“psicologia das profundezas” contenta-se com explorações espantosamente
superficiais. O inconsciente que ela imagina para nele descobrir a raiz das
neuroses mantém-se inteiramente exterior ao núcleo central onde se situa a
vida verdadeiramente profunda de cada um de nós. Ela ignora os conflitos reais
que mostram em nós as lutas de nossa liberdade contra as nossas paixões ou
contra a graça. O verdadeiro inconsciente é aquele onde se cumprem as operações
da graça[22].
Não há, no ambiente cristão, análise psicológica adequada à realidade fora
destas perspectivas existenciais. Eis porquê não é possível nenhum acordo sério
entre catolicismo e psicanálise, enquanto a psicanálise pretender de atingir
as profundezas do homem quando ela ignora-as e quer ignorá-las.
IV
Estes
equívocos resolvidos, não é mais difícil compreender nossas hesitações,
nossas reservas, nossas recusas. Cada vez que aprovamos o viés da psicanálise
clássica, corremos o risco de perder não somente a nobreza natural do homem,
criado à imagem de Deus, mas aquilo que constitui a riqueza característica do
cristão, sua sobrenatural ligação de amizade com Deus. O que exige, portanto,
esclarecimento é a facilidade com a qual tanto psicólogos, filósofos ou teólogos
deram prestígio a Freud e subordinando à psicanálise os recursos de suas próprias
disciplinas, adotam-na como uma aquisição científica tornada panacéia necessária.
A
explicação, dirão, é evidente. A psicologia tradicional no Ocidente, tendo
ignorado o inconsciente, permanecia desarmada diante das neuroses. Freud,
descobrindo invariavelmente no inconsciente o meio de perscrutá-lo e uma terapêutica
eficaz das neuroses, não há mais espaço para reivindicar os direitos de uma
psicologia excessivamente restrita frente a uma inovação cujos benefícios são
imensuráveis. Reservemos os direitos da psicologia espiritualista para a vida
consciente, da teologia moral para a prática das virtudes sobrenaturais; dito
de outra forma, deixemos Freud com sua doutrina e aceitemos só o seu método,
mas não privemos nossos pacientes do único tratamento que os possa curar, e
sobretudo guardemo-nos de restringi-los a uma lei antes que a psicanálise
tenha-os liberado de sua enfermidade psíquica, e conseqüentemente moral.
Existe,
nesta explicação, não duvidamos, algo de especioso, pois muitos espíritos
satisfazem-se nela. Ela me parece entretanto uma mal dissimulada preguiça, uma
terrível cegueira e uma certa deslealdade.
É
preguiça, no plano cientifico, pois é uma atitude preguiçosa o persuadir-se
facilmente de que Freud tinha, de fato, razão. Cegueira, pois, desde que
abrimos os olhos sobre o arcabouço do real concreto, constatamos que esta
estrutura não permite pensar que Freud tenha tido de fato razão. Deslealdade,
pois é cientificamente impossível dissociar um método de uma doutrina que
comanda todos seus esforços e que determina sua finalidade.
A
técnica psicanalítica só tem sentido e razão de ser se tivermos por
adquiridos ao menos alguns dos pontos fundamentais da doutrina freudiana. Não
indicarei mais que três. Se não estimarmos a certa a existência do
inconsciente, e inconsciente freudiano, o que quer dizer o produto da repressão,
e repressão no sentido freudiano da palavra; se não admitirmos a noção
freudiana de neurose como conseqüência de um trauma infantil de ordem sexual e
como tradução dum conflito inconsciente; se não adotarmos a certeza freudiana
de que a neurose se dissipa pela própria passagem do inconsciente ao
consciente, é ilegítimo recorrer à psicanálise, pois então submeteríamos
um doente a um tratamento que não teria nem razão de ser, nem chance de
funcionar. Mas estas três convicções não são de ordem metodológica, mas de
ordem dogmática. Elas pertencem à doutrina de Freud e por isso comandam seu método.
É o motivo de não poderem impor-se senão àqueles que são incapazes
de pensar livremente.
Recapitulemos
começando pelo último. É seguro que uma neurose seja curada por pouco que se
estenda o campo da consciência, até o seu motivo inconsciente? Sim, se a
definição de neurose está correta —
mas como então registra-se tantos fracassos? Certamente, a leitura dos livros
de psicanálise seria divertida se não se tornasse rapidamente monótona.
Neles temos o reino de sucesso absoluto. Dotado, graças ao seu método,
dum poder infalível, a psicanálise sempre interpreta todos os sonhos, todas as
associações, lidas como um livro aberto no inconsciente e sempre cura o seu
cliente ao revelar-lhe que, se hoje ele é atormentado pelos escrúpulos, é
porque ele quis matar seu pai quando tinha três dias[23].
A realidade é muitas vezes bem diferente. Depois de submeter-se durante
semanas, meses, anos a este tratamento que consiste em diminuir o uso de suas
faculdades racionais para esforçar-se em liberar o conteúdo do inconsciente,
muitos pacientes perdem a sua unidade psicológica e o seu equilíbrio basilar,
experimentando a angustia de sentirem-se despedaçados e, descobrindo neles
horrores que os desesperam, podem chegar a uma espécie de melancolia ansiosa
que os inclina ao suicídio.
É
confiável, além disso, que toda psico-neurose seja de origem infantil e de
natureza sexual? Um pouco de pratica médica independente convence-nos
rapidamente do contrário. Nossas atuais condições de vida e os problemas às
vezes trágicos que elas trazem, engendram bastantes desordens neuróticas que não
tem nada de sexuais[24].
Devemos
ter por certas a existência e a natureza do inconsciente freudiano? Mais vale
responder não que sim. Pois nem o homem nem o que nele pode-se classificar de
inconsciente se reduzem ao que aprouve a Freud pensar deles. O homem não é
somente um ser de carne e sangue cujas pulsões biológicas seriam censuradas
por um superego de origem social e contraditório com as suas tendências espontâneas.
Criado à imagem de Deus, o homem tem em sua própria estrutura a lei de sua
grandeza e a exigência de uma ordem interna, capaz de satisfazer sua consciência
e de realizar seu destino. Bem mais, desde que é investido pela graça do
batismo torna-se o anfitrião do
Deus vivo que habita nas profundezas de sua alma e que deseja abranger de todo o
seu ser interior pelo continuo desdobramento de sua ação secreta. Tal é o
inconsciente do cristão. Se, por livre escolha, o homem recusa esta habitação
divina, uma luta enceta-se entre o pecado e a misericórdia: este é um dos
conflitos fundamentais que atormentam as almas em ambiente cristão. É
contraditório com os dados imediatos da ordem existencial conceber um
inconsciente que seria definido só como Freud creu ser possível definir.
Se
quisermos respeitar fielmente a estrutura das coisas e a natureza da psicanálise
clássica, será preciso dar um passo além, neste sentido. Em realidade, não
podemos apenas denunciar o arbitrário e o insuficiente deste método psicanalítico:
devemos assumir que entre esta técnica e a espiritualidade viva do cristão há
antinomia de dinamismo. Cada uma,
de fato, é um movimento orientado num determinado sentido. Ora, estes dois são
contrários. A técnica psicanalítica, solicitando do neurótico um relato
espontâneo e sem controle, através de puras associações, de suas imagens,
sonhos e lembranças as mais incoerentes, encaminha-o para um passado infantil
considerado, pelo psicanalista, como repleto de sentimentos conflitantes, para não
dizer dos mais absurdos ou obscenos. Conta-se assim alcançar uma tomada de
consciência donde se espera a cura, mas que nada assegura que ela mesma não
constitua um novo traumatismo, pior que aquele que desejara curar. Partindo, ao
contrário, da presença real de Deus na alma batizada, o dinamismo próprio da
vida espiritual tende ao fim beatificante da existência real, desenvolvendo ao
máximo as capacidades superiores, dilatando, sem outro limite que não a
vontade de Deus, as disposições cujo exercício pleno e cuja harmonia Ele
assegura; oposto a todo fartar-se de si mesmo, a toda regressão, ele procura não
somente um desenvolvimento o mais aperfeiçoado da pessoa humana, mas sua
fecundidade social e sua eficiência sobrenatural no corpo místico do Cristo.
Comparado a este método constantemente progressivo e divinamente humano,
o método psicanalítico parece como uma obsessão dissolvente dum espírito
frustrado das mais sublimes realidades da vida cristã —
no que ela é eficaz, de fato.
Mas,
dir-me-eis, esta comparação é falaciosa, pois a psicanálise e a
espiritualidade não se situam no mesmo plano nem no mesmo momento da vida
humana. Destinado a liberar o homem das obsedantes neuroses o seu
desenvolvimento, a psicanálise não é mais que uma serva da espiritualidade.
Deixai-a fazer sua obra própria: a graça será a beneficiária.
É
o que pensam os filósofos e os teólogos apaixonados pela psicanálise. E é em
reduzir a psicanálise a este papel subalterno que eles esperam pô-la em consonância
com as exigências da moral cristã e da espiritualidade. Mas reduzir a psicanálise
a este papel subalterno, é fazê-la outra coisa diferente daquela que Freud, e
mesmo Adler e mesmo Jung fizeram. Desde
que admitamos que o método psicanalítico deva inscrever-se numa psicologia
espiritualista e mesmo desaguar-se em dinamismo sobrenatural, não se deve
trapacear. Ele precisa evitar a
preguiça que se inclina a derramar vinho novo em odres velhos. É preciso
deixar de ser discípulo para tornar-se criador. É preciso conceber um método
de investigação psicológica que, renunciando ao mecanismo pessimista e
unilateral de Freud e adaptando-se aos dados essenciais do dogma e do dinamismo
espiritual do homem, verdadeiramente enfrente este abismo autentico do coração
humano, fustigado por mil paixões devorantes, mas aberto pela graça à
infinidade de Deus. Se se quer ter o direito de perscrutar a alma divinizada do
homem em sua situação existencial, não basta aplicar, valha o que valer, um método
que só é suficiente numa doutrina de materialismo ateu. É preciso inventar o
método adequado ao elemento que realmente importa estudar. Pois, se não se faz
este esforço criador, arriscamo-nos simplesmente, sob o pretexto de querer
curar, matar as células mais vivas no corpo místico do Cristo.
V
O
humor da Providência é algumas vezes cruel com as nossas infidelidades [25].
Enquanto que, finalmente seduzidos pelo prestígio da psicanálise, católicos,
teólogos não hesitam mais em aderir ao freudismo, a evolução interna da
psicanálise acaba de conduzi-la quase ao ponto aonde declarei que seria preciso
que ela fosse levada pelo esforço criador dos teólogos. E por um significativo
acréscimo de elegância, é em Viena mesmo, na pátria do freudismo, que tal
evolução vem a acontecer. A bem dizer, é antes uma revolução ou, como diz o
seu autor em um termo intraduzível, uma transvaloração, uma Umwertung.
O autor desta revolução é um psicólogo vienense com quem já tive a
honra de conversar na capital da Áustria, o Dr. Wilfred Daim. Influenciado em
parte por Frankl [26],
e sobretudo por Igor Caruso [27],
a obra do Sr. Daim, que promete ser considerável e decisiva, começou se fazer
conhecer por um volume memorável intitulado Die Umwertung der Psychoanalysis,
publicada pela Herold em 1951, e cuja tradução francesa aparecerá pela Páscoa
nas Editions Albin Michel. Eu vos convido a dedicar-vos a este livro se vós
quereis saber aonde vai a psicanálise e aonde ela deve ir.
O
essencial desta Umwertung consiste nisto. Fundamentalmente dinâmica, a
psicanálise de M. Daim está inteiramente dirigida pelo seguinte principio. A
vida da alma tem uma estrutura normal, quer dizer, uma orientação natural.
Naturalmente, a vida da alma é orientada para o Absoluto ontológico, isto é,
para Deus. A raiz da neurose acha-se na substituição do Absoluto autêntico
por um falso absoluto[28].
Para
esclarecer sua doutrina, o Dr. Daim propõe uma imagem mui sugestiva. Podemos
comparar, diz ele, a estrutura natural da alma à curva chamada parábola.
Esta curva é caracterizada pelo fato de possuir dois centros, um deles
situado no infinito··.
Eis o porque da curva ser aberta. Esta parábola simboliza o mundo e seus
diversos objetos. O primeiro centro, situado sob nossa vista, representa a
pessoa humana; o outro, situado no infinito, representa Deus. Cada objeto do
mundo, situado sobre a parábola, tem duas relações: uma com o centro-pessoa;
outra com o centro-Deus. Deste modo ninguém pode alcançar nenhum destes
objetos sem ser orientado por eles para Deus, de modo que, de toda maneira, seja
direta ou indiretamente, a pessoa está em relação com o Absoluto autentico e
único. Sua vida esta aberta sobre ele. Tudo está ordenado. Não há lugar para
um conflito, logo para uma neurose.
Suponhamos
agora que em lugar de respeitar esta ordem natural, a pessoa atribua um valor
absoluto a qualquer um dos objetos situados sobre a parábola. O que ocorre?
Acontece que este objeto finito, limitado, substitui o centro da parábola
situado no infinito. Em lugar de conservar sua relação natural com o
verdadeiro Absoluto que é Deus, o homem, absolutizando por seu próprio arbítrio
um ser relativo, criou para um deus subjetivo.
Substituiu o verdadeiro Deus por um ídolo. Por isso mesmo, tudo se passa
para ele como se tivesse trazido para o finito o centro situado no infinito. A
parábola fecha-se sobre este segundo centro e transforma-se em uma elipse.
Desde que um conteúdo da realidade criada é elevado ao nível de Deus, toda
atitude frente à realidade é modificada. O ídolo não corresponde à
realidade objetiva. O servidor do ídolo vê-se então obrigado a mentir à
realidade, ou antes mudar nele mesmo a realidade em mentira. A realidade está
ordenada parabolicamente, em universal abertura para Deus. Obrigado a viver no
mundo elíptico e fechado de seu ídolo, o homem não mais pode ver as coisas
tais como são. Ele as reprime. Ele não pode confessar para si mesmo esta
repressão sem ser logo obrigado a abandonar seu ídolo. Posto assim em contradição
com toda a realidade, o servidor do ídolo sofre um conflito interior. Ele não
pode, efetivamente, falsear a realidade exterior em proveito de um sistema idolátrico
sem falsear, conseqüentemente, sua realidade interior onde instalam-se os
complexos. Ordenada para Deus, a alma humana permanece insatisfeita e
descontente tanto quanto tempo ela estiver ligada a seu ídolo e não a Deus.
É
neste conflito fundamental que o Dr. Daim enxerga a base da neurose.
Ele
concorda com Freud que o ídolo é comumente um objeto de pulsão infantil. A
criança confere um valor absoluto aos seus pais,seus mestres. A arte da educação
consiste em dar a cada ser seu valor relativo. Se tal relativização , freqüentemente
dramática, fracassa, resulta aquilo que Freud chamou de “fixação”. Esta
fixação consiste precisamente em conservar a esfera do absoluto infantil. Para
aquele que é assim “fixado”, a realidade permanece, pois, dirigida para um
ídolo infantil. Daim concede ainda a Freud a conveniência de atribuir uma
importância primordial aos elementos sexuais. Mas ele retoma logo sua independência
e sua originalidade ao lembrar que, na própria medida em que este objeto de
pulsão é absolutizado, encontramo-nos em plena problemática espiritual,
problemática que Freud não abriu. O homem, declara veemente o Dr. Daim, é
sempre um ser biológico E espiritual. Nunca é somente anjo ou animal. Não se
deve, portanto, escrutar apenas os dinamismos do desenvolvimento dos instintos.
É preciso apresentar a problemática espiritual. Pois a capacidade essencial de
todos os homens, aquela que, em última análise, caracteriza o homem como
diferente do animal, é o poder de ter um absoluto; mais exatamente, de achar-se
na necessidade de tê-lo. É o que dizia Max Scheler: o homem possui ou um Deus
ou um ídolo.
Isto
posto, o Dr. Daim definiu a terapêutica psicanalítica como a acomodação da
vida da alma à realidade plena. Tal acomodação inclui necessariamente a redução
do falso absoluto ao relativo. É só
por esta relativização que o núcleo da pessoa está liberado. Segue-se daí
que o processo psicoterapeutico não visa unicamente, nem mesmo principalmente,
evocar os complexos na consciência, mas a faze tomar consciência do ídolo e
destitui-lo de seu caráter absoluto. Sobre o que, observa Dr. Daim, está operação
é temível. Atingindo a posição mais central do homem, da sua existência em
si, e a ninguém agradando separar-se de seu ídolo, esta relativização beira
sempre ao suicídio. Mas é somente
a este preço que se torna livre a via para Deus e para o desdobramento
ilimitado do Eu. Assim está assegurada a adaptação da vida da alma à
realidade plena, que inclui Deus.
Umwertang,
conclui Dr.
Daim empunhando o vocabulário religioso, pois assim a psicanálise passa do 6º
mandamento para o primeiro. Enquanto Freud limitava sua psicanálise à pesquisa
da própria pulsão, tanto Daim a aprofundava até a problemática espiritual
qualificando como falso absoluto os objetos de tais pulsões, e assinalando como
dever essencial da psicanálise a redução de todos os ídolos ao seu ser
relativo, e como finalidade própria dela a pacificação da alma, restabelecida
em sua orientação natural para o verdadeiro Deus.
O
que se passou? Um duplo acontecimento, cuja significação histórica e
doutrinaria é considerável. Antes de mais nada, por querer-se ser igualmente
fiel às luzes conjugadas de sua razão e de sua fé e às lições de sua
experiência psicanalítica, o Dr. Daim enfim transformou a psicanálise naquilo
que ela devia ser para merecer o nome que foi-lhe conferido indevidamente por
seu inventor. Entre suas mãos, pela primeira vez, esta técnica torna-se a
analise da alma real, tomada em sua vida concreta e tratada em sua relação
existencial com o mundo e com Deus.
Ora,
desde que, ultrapassando os limites arbitrários onde a haviam encerrado o ateísmo
materialista do Dr. Sigmund Freud e a excessiva docilidade de seus discípulos,
a psicanálise alcança as autenticas profundidades do ser humano e a realidade
onde ela move-se; ela reencontra um dos temas mais primordiais, mais profundos,
mais constantes da tradição cristã: Fecisti nos ad te, Deus, et inquietum
est cor nostrum donec requiscat in te, exclamava Santo Agostinho
condensando, no começo das suas Confissões, todas as lições de sua
dolorosa experiência: “Tu nos fizestes para Ti, ó Deus, e nosso coração
está sem repouso enquanto não repousa em Ti!” [29].
Arrebatador,
o encontro não pode deixar de ser decisivo. É necessário explicitar toda sua
importância? Enquanto que, seduzidos pelos prestígios usurpados duma mui
superficial “psicologia das profundezas”, muitos dos defensores naturais da
espiritualidade cristã bandearam-se para o inimigo, intimando-nos a ter como
legitimas e definitivas as conquistas de um método psicoterapeutico
originariamente ateu, eis que, metamorfoseado pelo audacioso labor dum técnico
de gênio, é a psicanálise que consente em adaptar-se às exigências
fundamentais da metafísica, da teologia e da espiritualidade. Sem duvida, a
metamorfose ainda está incompleta. O Dr. Daim, não tendo explicitado as
fronteiras entre a natureza e o sobrenatural, não parece preocupar-se com as
livres iniciativas da graça. Mas não perderemos nada por esperar. Sua próxima
obra, no prelo, tratará sobre as relações entre a psicanálise e a Redenção
[30].
É então a ele que convém, doravante, observar. Seu esforço merece nossos encorajamentos mais calorosos. É dele que é permitido esperar a colaboração mais legitima e fecunda. Liberta de todos os equívocos, a psicanálise vai poder trabalhar eficazmente em promover a integridade do homem em franca cooperação e na mesma direção com a moral cristã e espiritualidade.
Nada
seria mais desejável que um tal acordo, nada nos regozijaria mais fortemente
que a certeza de que ele pode ser enfim fechado. Mas seria indiscrição extrair
desta historia uma lição que periga, é lamentável! ficar muito tempo
oportuna, e sobre todos os demais campos? Não
é jamais pondo a verdade na obscuridade ou agindo como se eles fossem
detentores de riquezas infinitas que os católicos poderão conquistar a estima
dos homens e o direito de cumprir neste mundo o dever que têm por missão
cumprir. É sempre sustentando com força o rigor de suas exigências
doutrinarias e utilizando ao máximo os recursos que lhes prodigaliza a munificência
do Senhor, que eles imporão a seus irmãos o salutar constrangimento de todos
os excessos e contribuirão para o progresso em todas os campos, digamos, ao
menos, que eles não se exporão mais, então, a arrastar-se na retaguarda
quando todos já terão chegado.
(Traduzido do de “La Pense Catholique” nº35, 1955)
Notas:
·
Conferência dada no Círculo Acadêmico de São João Capistrano de
Bruxelas, em 23 de novembro de 1954.
[1]
Joseph
NUTTIN, Psychanalyse et conception spiritualiste. Une
théorie dynamique de la personnalité normale
(edicion d´Institute supérieur de philosophie) Um vol. In-4º de 434 páginas,
Louvain-Paris, 1950: cf. p. 7. Notável em todos os sentidos, este livro
contém, p. 11-51, uma exposição particularmente lúcida da psicanálise
freudiana. O autor aponta que o primeiro emprego do termo psicanálise
data de 1898. Ele protesta com bom senso contra o primado do patológico:
cf. p.157: “A psiquiatria e o psicoterapeuta conferem talvez pouca importância
ao estudo psicológico aprofundado do homem normal. Pensamos que o
estudo dos desvios da vida psíquica deve-se fazer partindo da psicologia
normal tanto como não aprofunda os problemas da psicologia patológica sem
antes ter um conhecimento da psicologia geral” (cf. p. 218, 230...). Ele
firmemente destaca o caráter negativo da posição freudiana (p. 242).
Aplica-se em substituir a noção psicanalítica de inconsciente por
uma concepção mais sutil, de intimidade psíquica (p. 264-278), e a
teoria dos instintos por “uma concepção de necessidades
humanas que permeiam toda a complexidade da vida em seus diferentes níveis”
(p. 283-352).
[2]
J. ERMEL. Où
vá la psychanalyse?
(coleção
“Etudes Religieuses”, nº 703, outubro 1954). La pensée catholique,
Bruxelles, in-8º de 94 páginas. O autor estuda primeiro le subconcient
et l´inconscient dans la vie psychologyque (p. 12-33): em seguida les
névroses et la psychanalyse (p. 34-66). Ele depois propõe um
julgamento moral sobre la psychanalyse e les méthodes psychothérapeutiques
(p. 67-83). Considera
enfim les développements et l´avenir de la psychanalyse (p. 84-90).
[3]
Chamo de psicanálise clássica toda a psicanalise que autenticamente
precede aquela do Dr. Daim, mui especialmente e exclusivamente a freudiana.
[4]
Cf. Louis JUGNET, Um psychiatre philosophe: Rudolf Allers ou l´Anti-Freud;
um vol. In-8º cour. De 174 páginas, Paris, éditions
du Cèdre, 1950.
[5]
Considerável e digno do mais atento interesse, a obra de Charles BAUDOIN
recomenda-se de maneira mais direta ao leitor francês pelo seu “Précis
de Psychologie analytique” intitulado De l´instinct à l´espirit,
publicado em 1950 pelos Etudes Carmélitaines, um vol. In-8º
de 308 páginas.
[6]
Um dos primeiros introdutores da psicanálise na clinica médica francesa, o
Dr. René LAFORGUE, é sobretudo conhecido por duas obras fundamentais: La
psychanalyse et les névroses (em colaboração com o Dr. R. ALLENDY),
nov. ed. Paris, Payot 1951, in-8º de 208 páginas, e la Psychopathologue
de l´échec, 1944, in-8º de 252 páginas. Na nova edição de sua
primeira obra, este pioneiro não hesitou em dar a seus pares, “depois de
vinte e cinco anos”, uma advertência que não será inútil recolher aqui
da la Psychanalyse et les névroses, p. 205-206: “Na reunião plena
na Sorbonne, consagrada à discussão dos relatórios da secção psicanalítica,
alertei os psicanalistas contra um sectarismo baseado em um fanatismo
religioso que divide as diferentes sociedades de psicanálise, pondo-os uns
contra os outros de maneira lamentável. Este sectarismo tem por conseqüência
impelir alguns a utilizarem-se da psicanálise como um fim em si mesmo e não
como um meio para edificar a obra cientifica e combater a miséria criada
pelas neuroses. A tendência de fazer da psicanálise um instrumento ao
serviço de um espírito propagandístico interesseiro e de dominação dogmática
não deve ser subestimado. Não se deve substituir uma obsessão neurótica
pela obsessão da psicanálise, sob o pretexto de curar um mal. É preciso,
para a edificação da ciência, não privar-se do beneficio da dúvida e
saber enfrentar as incertezas que uma situação comporta, para chegar a
cumprir verdadeiramente o dever do psicanalista”
[7]
Autor, juntamente com RÉGIS, da primeira obra em francês sobre a psicanálise
(La psichoanalyse des névroses et des psychoses, Paris, Alcan,
1913), o Dr. HESNARD publicou um Manuel de sexologie normale et
pathologique, 2ª ed., Paris, Payot, 1951, in-8º de 395 páginas, que
tornou-se autoridade, e tende cada vez mais a explorar, não sem
preconceitos, l´Univers morbide de la faute (P. U. F.).
[8]
Cf. Dr. Charles ODIER, Les deux sources consciente et inconsciente de la
vie morale (Etre et penser, cahiers de philosophie), Neuchâtel, La
Baconnière, novembro 1943, 260 páginas.
[9]
Cf. Roland DALBIEZ, La methode psychanalytique et la doctrine freudienne:,
t. I Exposé, um vol. In-8º de 656 páginas; t. II, Discusión, um vol. De
528 páginas (Bibliothèque de philosophie médicale), Paris, Desclée de
Brouwer, 1936.
[10]
Falo do autor de Vie chrétienne et problèmes de la sexualité,
Paris, 1951, in-8º de XIV-300 páginas. Quaisquer que sejam os méritos
desta obra e as precauções tomadas por seu autor, não concordaremos como
Charles Boudoin que “o diálogo” seja ai “bem feito” (Préface,
p. VIII). Para que um dialogo seja bem feito e metodologicamente válido, é
ao menos necessário que os dois interlocutores sejam apresentados em sua
realidade autêntica e integral, e que ambos gozem da mesma liberdade. Ora,
é mui claro que, neste livro, o Sr. padre Oraison entende julgar, pelo
ponto de vista da psicologia freudiana considerada como cientificamente válida,
uma teologia moral tida como responsável por graves equívocos. Falando
francamente, nele o dialogo não encontra-se nem mesmo engajado. Dai porque
este livro não constitui o “enfrentamento”que Charles Baudoin declarou
com razão “necessário” (p. V). Ao invés de instituir uma critica
objetiva e equânime das duas disciplinas, ele chama a moral clássica ao
tribunal da psicologia das profundezas. Não é uma confrontação
cientifica: é um veredicto prolatado do ponto de vista freudiano. A ciência
possui outras exigências, e a teologia teria tido bem outras coisas a
dizer. Deste modo, voltando a um dos temas essenciais de sua exposição, o
Sr. padre ORAISON vem propor-nos, no Supplément de la Vie Spirituelle
(nº 31, 15 de novembro de 1954, p. 412-430), novos esclarecimentos A
propôs de l´action therapeutique du sacrement de pénitence. Nestas páginas
atentamente elaboradas, ele pede a uma sadia teologia sacramental um
principio de discernimento entre a eficácia sobrenatural, própria ao
sacramento da penitência, e a ação curativa que se mantém inteira no
plano natural, que ele reivindica exclusivamente para a psicoterapia. A
preocupação é, em si, mui louvável, e, no conjunto, este estudo marca um
progresso que não pode senão ser aplaudido. Entretanto, alguns pontos nele
permanecem discutíveis, talvez mesmo a tese fundamental. Para definir de
maneira correta a eficácia psicológica do sacramento da penitência, ele não
pode limitar-se às noções estáticas tomadas da teologia dogmática ou
moral: é necessário instruir-se junto à teologia espiritual, que é a ciência
da vida sobrenatural em sua própria dinâmica: não poderia tampouco
reduzir o organismo sobrenatural às virtudes teologais, mas ter em maior
conta os “dons do Espírito Santo”. Além disso, a dissociação radical
das eficácias natural e sobrenatural ultrapassa, sem dúvida, o que o
realismo da Redenção pode tolerar, pois então seria preciso sustentar
que, quando o Cristo disse: Venite ad me omnes qui laboratis et onerati
estis, ele subtendia que a evolução eclesiástica chegaria a um estágio
onde o A MIM não englobaria os ministros de seus sacramentos senão na
medida em que os fardos a carregar não fossem de ordem neurótica, para que
então o EGO reficiam vos excluiria seus padres e bispos para incluir
apenas os psicoterapeutas. Para assegurar a estes honoráveis especialistas
uma clientela, é necessário de tal modo deslocar os sacramentos da ordem
dos mistérios —
que ficam esvaziados —
juntamente com eles o realismo da Encarnação, a cooperação pessoal e
eletiva do Cristo com seus ministros na restauração integral do homem? Tal
exemplo mostra claramente a audácia das pretensões psicanalíticas no domínio
especificamente religioso tanto quanto a perturbação característica que
vitima mesmo os técnicos que se pretendem liberados de toda fixação,
perfeitamente independentes.
[11]
Ninguém ignora que a “resistência” é a inimiga nº 1 na psicologia
freudiana. Por bem dizer, Freud mesmo, freqüentemente, para não dizer
sempre, confundia-se sobre a sua natureza exata. Quando decidirmos fazer a
análise crítica das noções fundamentais em psicanálise, não teremos
grande dificuldade em constatar que, tomada em seu sentido
freudiano, a resistência é a reação
mais normal e, muitas vezes, a mais salutar. Ela traduz o sobressalto da
consciência no momento da perpetração deste verdadeiro atentado que
constitui a violação de sua intimidade psíquica, e também, sem dúvida,
o mal-estar instintivo de todo animal racional diante da espantosa aplicação
de um método que pretende – segundo a sincera confissão de Otto Fenichel
— apreender o inconsciente do doente com, como único instrumento, o
inconsciente do médico. (cf. Dra. Jeanne
LATIL. Thérapeutique analytique et personne
chrétienne, no Supplément de la vie
spirituelle, nº27 — novembro, 1953 — p. 439). Esta conjunção de dois
inconscientes — cuja existência permanece ainda hipotética — é,
teoricamente, a única fonte da luz psicanalítica. Concebemos que tal luz
possa parecer obscura a qualquer um que não experimente esta mesma conjunção.
Mas não podemos escusar-nos de observar que, devidamente modelado, o
inconsciente do médico não recusa-se a enriquecer sua consciência de uma
luxuriante proliferação. A coisa mais curiosa, em toda esta gigantesca
aventura psicanalítica, é que ninguém parece perceber, que ninguém sonha
confessar que nada podendo se passar entre dois inconscientes, mas que todo
o jogo se jogando, em realidade, entre duas consciências, as cartas estão
marcadas os primeiros esforços, de tal modo que tudo arrisca-se não ser
mais que uma imensa trapaça.
[12]
Esta observação foi feita por Mde. Maryse Choisy na obra que citarei.
[13]
Mais ela esquece sua origem, mais a Tiefenpsychologie é incapaz de
reprimir suas ambições congênitas. O inconsciente torna-se para ela a
realidade suprema onde enraíza-se o normal tanto quanto o neurótico. É
necessário estudar este progressivo crescimento, ou antes este
“crescendo” de extrapolações irreprenssíveis. Mui freqüentemente
destituídos de espírito critico, ou simplesmente de humor, os
psicanalistas não contentam-se mais de interpretar os sonhos, mas exigem
deles devorar a realidade.
[14]
Maryse
CHOISY, Psychanalyse et catholicisme, um vol. In-16
de 178 páginas, Paris, l´Arche, 1950; cap. 3, la Libido, p. 36.
[15]
Maryse
CHOISY. o c., p. 38
[16]
Maryse CHOISY. o
c., p. 39. Uma posição mui análoga foi descrita pela Dra. Jeanne
LATIL, no artigo citado acima, nota 11; ver em particular sua conclusão p.
444-445.
[17]
Outrora apresentei aos leitores dos Archives d´histoire doctrinale et
littéraire du moyen age, t. VIII (1933), p. 93-260, Robert Ciboule,
un témoin du Socratisme chrétien au XVº siècle. Em sua obra de
vulgarização espiritual, le Livre de sainte méditation en connaissance
de soy, este reitor de Notre-Dame, este precursor de São Francisco de
Sales, intitulou o capítulo XXVI de sua primeira parte: Comme toutes les
passion sourdent d´amour; e sustenta sua exposição com textos de
Santo AGOSTINHO, Contra Julianum pelagianum, II, 7, 20 (P. L., t. 44,
col. 687); de São JERONIMO, Adversus Jovinianum, I, 99 (P. L., t.
23, col. 281): de Santo TOMÁS DE AQUINO, Summa theol., Iª-IIª,
q.25, a, 2: q. 26, a 1; q. 27, a 2; IIª-IIª, q. 23, a 3; IIIª Suppl., q.
49, ª 6 (l. c., p. 215). Ganhariamos muito em pensar que o conhecimento,
mesmo científico, do homem não começou em 1894.
[18]
Maryse CHOISY, o c., p. 170
[19]
Ou mais exatamente o próprio Cristo, em São João, III, 8.
[20]
I Corintios, XII, 11.
[21]
Santo TOMÁS DE AQUINO, Summa theol., IIª-IIª, q. 24, a 3. Sobre
este assunto, o pensamento tomista evoluiu de maneira marcante. O Comentário
das Sentenças, I, d. XVII, q. 1, a 3, professava que “mensura
secundum quam datur charitas, est capacitas ipsius animae: quae est ex
natura simul, et dispositione quae est per conatum operum.”. Com a Suma,
todo condicionamento natural está excluído da maneira a
mais normal, e a vontade do Espírito Santo permanece como a única
regra desta infusão da caridade. Não é portanto no sentido nem de um
naturalismo crescente, nem em função de preocupações psicológicas cada
vez mais penetrantes que evoluiu a doutrina de Santo Tomás de Aquino. É no
sentido de um aprofundamento radical do sobrenatural e da liberação
absoluta da moção sobrenatural no homem em relação a sua própria
natureza e a seus limites.
[22]
O Sr. padre ORAISON, art. cit., p. 415, recusa à vida da graça esta
característica: “Longe de ser um tipo de inconsciente depositado em nós
pelo batismo, a vida da graça é ao contrario uma realidade ontológica
transcendente.”. A recusa só se explica se quisermos entender o termo inconsciente
apenas em seu sentido freudiano. Mas, mesmo assim, é ela de fato legítima?
Se “a vida da graça” não pode ser assimilada a um tal inconsciente, não
se poderia negar que o batismo introduz no ser humano um inconsciente
sobrenatural, que é a presença real das Três Pessoas divinas, fonte
profunda, constante e sempre secreta — salvo os casos de percepção mística
– da “vida da graça” em seu progressivo desdobramento. Diria antes
que, enquanto o inconsciente freudiano nada mais é que uma hipótese de
trabalho, a graça sobrenatural é a única realidade inconsciente da qual
somos assegurados que trabalha em toda alma cristã.
[23]
Digamos três anos, para não cedermos demais à ironia. Mas é necessária
muita passividade e boa vontade para aceitar sem rir todos os protocolos de
observações psicanalíticas.
[24]
Seria extremamente importante insistir sobre este ponto, bem mais do que
fazem os discípulos independentes de Freud. A ultima parte de minha exposição
compensará um pouco seu excessivo esquematismo. Gostaria de ao menos citar
aqui uma declaração capital de um mestre com o qual sinto-me em profundo
acordo, o Prof. Henri BARUK, Précis de psychiatrie (in-8º de 642 páginas,
Paris, Masson, 1950), p. 381: “É perigoso para a saúde ignorar e recalcar
a consciência moral, e este perigo parece-nos mesmo maior que o de repelir
seus instintos.”
[25]
A noção de um tal humor não é clássica entre os teólogos. Regozijo-me
grandemente por tê-la encontrado, em lugar de destaque, sob a pena do Sr.
FULTON J. SHEEN, em sua obra rica em todos sentidos, Lift Up Your Heart,
traduzida sob o título de Dépasson-nous! (2º
ed. Malhouse, Salvator, 1954, in-8º de 320 páginas),
p. 67: “Quando crescia em idade, em graça e sabedoria, o Menino foi-se
pelos caminhos e lugares públicos, e pôs-se a ensinar aos homens uma nova
doutrina: a doutrina do Senso Divino de Humor...”. Se Freud tivesse
escutado esta voz, adotado esta doutrina e feito seu este Senso Divino de
Humor, eu seria freudiano. Mas não teria havido freudismo...
[26]
Citado por J. ERMEL, o c., p. 60, e sobre quem Walter SCHULTE escreveu, não
sem exagero, em seu artigo Foi et incroyance dans les états dépressifs
(dans le Supplément de la vie spirituelle, nº 31 — nov. 1954 —
p. 435, nota 2): “Atualmente o mais ilustre representante da Escola
Vienense desde Freud”; Viktor E. FRANKL publicou Artzliche Scelsorge
(4ª ed. Wien,
1947) e Der Unbewuste Gott Wien (1948).
[27]
A quem o Dr. DAIM dedicou seu Umwertung. O Dr. Igor A. CARUSO
escreveu, entre outros, Religion und Psychotherapie (Innsbruck,
1946); Tiefenpsychologie und Daseinswerte (Wien, 1948); La notion
de responsabilité et de justice immanente chez l´enfant (Neuchâtel,
1943); Psychoanalyse und synthese der Existenz (Wien, 1958).
Ele, neste último, notadamente declara, p. 79: “Se estamos de
acordo (como estão, graças a Deus, muitos psicoterapeutas contemporâneos)
sobre este ponto de que a neurose nos propõe a resolução de um problema
espiritual; se reconhecermos que este problema espiritual é suscitado pelo
fato de o homem se desviar do absoluto em favor do relativo, devemos
igualmente, para sermos conseqüentes, proclamar que as metas
educacionais da psicoterapia, tanto quanto o de toda educação, não podem
ser atingidas integralmente senão ao plano religioso. Não foi, portanto,
em decorrência de um simples acaso que durante milênios o tratamento das
almas foi reservado ao padre...”
[28]
Resumo a obra do Dr. Daim utilizando a apresentação que o próprio autor
deu dela na revista austríaca der Grosse Entschluss (novembro 1950,
p. 46-49), sob o título: Umwertung der Psychoanalyse. Não
esquecemos também do artigo que lhe consagra a pouco ao Dra. STOCKER, sob o
título Névrose et realité objective (em Pensée catholique, nº 27
– 1953, p. 20-44). Não é preciso dizer que, se eu pudesse extender-me, o
próprio Dr. Stocker mereceria um lugar de honra em razão de sua posição
notadamente equilibrada que confrontamos em numerosas obras: Psychologue
du sens moral, Personne et societé; Amour et sensual; L´homme, son vrai
visage et ses masques; Traitement moral des nerveux...
··
[N. da P.] Seria mais exato falar em indeterminado que infinito,
pois uma curva é uma natureza determinada, sendo por isso limitada pela sua
própria natureza de ser; no entanto não podemos determinar onde ela
termina. Assim sendo, diríamos: a curva é indeterminada ou a
curva é infinita secundum quid, isto é, infinita segundo a sua própria
natureza. A inadequação é a conseqüência natural das metáforas; tal
inadequação revela quão distante estamos de compreender verdadeiramente
Deus sem a participação das luzes da Graça e da Visão Beatífica. Porém
é preciso reconhecer que a metáfora serve corretamente, como imagem, para
exprimir a abertura atual da alma humana para o verdadeiro infinito, agora
real, que é Deus. Pois em ambos os casos a idéia da curva, em parábola,
mantém-se aberta: para o indeterminado, em um caso, ou para o verdadeiro
infinito, no outro. E é isso o que importa. O secundum quid da
palavra “infinita” é comum em matemática
[29]
Santo AGOSTINHO, Confissões, I, 1, 1; ed. P.
de Labriolle, p. 1, 1. 10-12. A tradução de
Labriolle —
vous nous avez fait pour vous —
está ambígua. O texto exprime, da maneira mais concisa e enérgica possível,
a idéia de uma criação orientada.
[30]
Depois que esta conferencia foi pronunciada, o livro apareceu: Tiefenpsychologie
und Erlösung, Herold Veralg, Wien, 1954, in-8º de 360 páginas e 34
gravuras. A maestria do autor afirma-se nele com um novo brilho. Uma tal
obra não pode ser apresentada senão por uma análise digna de sua importância.