A
ÉTICA DO PAíS DAS FADAS*
Gilbert
Keith Chesterton
A
minha primeira e última filosofia, em que acredito com uma certeza inabalável,
foi aquela que aprendi no quarto de infância. E eu a aprendi em geral de
uma ama-seca, quer dizer, da grave e luminosa sacerdotisa tanto da democracia
quanto da tradição. As coisas em que eu mais acreditava então, as coisas em
que eu mais acredito agora, são as coisas denominadas contos de fadas. Eles me
parecem ser as mais racionais de todas as coisas. Não são fantasias: perto
deles, as outras coisas é que são fantásticas. Perto deles, a religião e o
racionalismo são ambos anormais, embora a religião seja anormalmente certa e o
racionalismo anormalmente errado. O país das fadas não é outra coisa senão o
ensolarado país do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu
que julga a terra; portanto, para mim pelo menos, não era a terra que criticava
o país das fadas, mas o país das fadas que criticava a terra. Conheci o mágico
pé de feijão antes de ter experimentado o grão de feijão; acreditei no Homem
da Lua antes de ter certeza sobre a existência da própria lua. E isto estava
de acordo com toda a tradição popular. Os modernos poetas menores são
naturalistas, e falam de bosques ou de riachos; mas os cantores dos velhos
poemas épicos e das fábulas eram supernaturalistas, e falavam dos deuses dos
bosques e dos riachos. Isto é o que os modernos querem dizer quando afirmam que
os antigos não “apreciavam a Natureza”, já que diziam que a Natureza era
divina. As velhas amas-secas não falavam às crianças sobre a grama, mas sobre
as fadas que dançam na grama; e os velhos gregos não conseguiam ver as árvores
porque as dríades as encobriam.
Mas
o que me interessa aqui é que tipo de ética e de filosofia pode brotar no solo
dos contos de fadas. Se fosse descrevê-las detalhadamente, poderia mostrar os
muitos e nobres princípios que delas resultam. Há a cavaleirosa lição de
“Jack, o Matador de Gigantes”: os gigantes devem ser mortos porque são
gigantescos. Uma enérgica revolta contra o orgulho em si mesmo. Pois os
rebeldes são mais velhos que todos os reinos, e o jacobino[1]
tem mais tradição que o jacobita.[2]
Temos a lição de “Cinderela”, que é a mesma do Magnificat — Exaltavit
humiles.[3] Há a grande lição de “A Bela e a Fera”: uma
coisa deve ser amada ANTES de ser amável. Há a terrível alegoria de “A Bela
Adormecida”, que mostra como a criatura humana foi abençoada com todas as dádivas
ao nascer, embora amaldiçoada com a morte, e como a morte também pode ser,
talvez, suavizada pelo sono. Mas eu não estou interessado em nenhum estatuto
específico do país das fadas, mas no espírito mesmo da sua lei, que aprendi
antes de saber falar, e que hei de manter quando já não puder escrever. Estou
interessado em certa maneira de olhar para a vida, maneira esta que me foi
insuflada pelos contos de fadas, e que desde então tem sido docilmente
ratificada pelos simples fatos.
Ela pode ser formulada assim: há certas seqüências ou desenvolvimentos
(casos em que uma coisa se segue a outra) que são, no verdadeiro sentido da
palavra, razoáveis. São, no verdadeiro sentido da palavra, necessários. Como
as seqüências matemáticas e meramente lógicas. Nós, no país das fadas (que
são as mais razoáveis de todas as criaturas), admitimos essa razão e essa
necessidade. Por exemplo, se as Irmãs Feias são mais velhas que Cinderela, é
NECESSÁRIO (num sentido férreo e tremendo) que Cinderela seja mais nova do que
as Irmãs Feias. Não se pode fugir disso. Haeckel[4]
pode falar quanto queira de fatalismo em relação a este fato: ele realmente
tem de ser assim. Se Jack é filho de um moleiro, o moleiro é o pai de Jack. A
fria razão assim o decreta do alto do seu tremendo trono: e nós no país das
fadas aceitamos. Se os três irmãos estão todos a cavalo, haverá seis animais
e dezoito pernas em questão: este é o verdadeiro racionalismo, e o país das
fadas está cheio dele. Mas, quando pus a cabeça para fora da região dos elfos
e comecei a entrar em contato com o mundo natural, observei uma coisa extraordinária.
Observei que os homens cultos com os seus óculos falavam das coisas reais que
aconteciam — o amanhecer, e a morte, e outras coisas — como se ELAS fossem
racionais e inevitáveis. Falavam como se o fato de as árvores frutificarem
fosse tão NECESSÁRIO quanto o fato de que duas árvores mais uma perfazem três.
Mas não o é. Há enorme diferença, segundo o teste do país das fadas, que é
o teste da imaginação. Você não pode IMAGINAR que dois mais um não são três.
Mas pode facilmente imaginar árvores que não produzem frutos; pode imaginá-las
produzindo castiçais dourados ou tigres pendurados pela cauda. Esses homens com
seus óculos falavam muito de um homem chamado Newton, que foi atingido por uma
maçã, e que descobriu uma lei. Mas não conseguiam ver a diferença entre uma
verdadeira lei, a lei da razão, e o simples fato de as maçãs caírem. Se a maçã
bateu no nariz de Newton, o nariz de Newton bateu na maçã. Esta é uma
verdadeira necessidade, pois não podemos conceber que uma coisa ocorra sem a
outra. Mas podemos tranqüilamente conceber que a maçã não caiu em seu nariz;
podemos imaginá-la voando apaixonadamente pelo ar para bater em algum outro
nariz, pelo qual tivesse maior antipatia. Nós sempre conservamos nos nossos
contos de fadas essa aguda distinção entre a ciência das relações mentais,
onde realmente existem leis, e a ciência dos fatos físicos, onde não há
leis, mas apenas misteriosas repetições. Acreditamos em milagres materiais,
mas não em impossibilidades mentais. Acreditamos que um pé de feijão pode
subir até ao céu; mas isto não confunde de maneira alguma as nossas convicções
sobre a filosófica questão de definir quantos grãos fazem cinco.
É
nisto que residem a perfeição do tom e a verdade dos contos de fadas. O homem
de ciência diz: “Corte-se o talo, e a maçã cairá”; mas ele o diz
calmamente, como se uma idéia realmente levasse à outra. A bruxa no conto de
fadas diz: “Toque-se o clarim, e o castelo do ogro cairá”; mas não o diz
como se houvesse nisso alguma coisa que unisse obviamente o efeito à causa. Não
há dúvida de que ela já dera o mesmo conselho a muitos campeões, e de que
vira muitos castelos cair, mas nem por isso perdera a admiração ou a razão. Não
confundira a própria cabeça a ponto de imaginar uma necessária conexão
mental entre um clarim e a queda de uma torre. Mas os homens científicos
confundem a própria cabeça a ponto de imaginar uma necessária conexão mental
entre uma maçã que cai da árvore e uma maçã que chega ao chão. Eles
realmente falam como se tivessem encontrado não só uma seqüência de fatos
maravilhosos, mas uma verdadeira conexão entre esses fatos. Falam como se a
conexão entre duas coisas fisicamente estranhas também as unisse
filosoficamente. Acham que, pelo fato de uma coisa incompreensível se seguir
constantemente a outra coisa incompreensível, de alguma forma as duas juntas
perfazem uma coisa compreensível. Duas charadas negras resultam numa resposta
branca.
No
país das fadas evitamos a palavra “lei”; mas, no país da ciência,
gosta-se muito dela. Assim, denominar-se-á alguma interessante conjectura sobre
a maneira como certos povos já esquecidos teriam pronunciado o alfabeto da Lei
de Grimm. Mas a Lei de Grimm é muito menos intelectual do que os Contos de
Fadas dos Grimm. Os contos, em todo o caso, são sempre contos; enquanto a lei não
é uma lei. Uma lei implica que conhecemos a natureza da generalização e do
estatuto, e não simplesmente que observamos alguns dos seus efeitos. Se há uma
lei segundo a qual os batedores de carteiras devem ir para a prisão, tal lei
implica que há uma concebível conexão mental entre a idéia de prisão e a idéia
de batedor de carteira. E nós sabemos o que é essa idéia. Podemos dizer que
tiramos a liberdade de um homem que toma certas liberdades. Mas não podemos
dizer por que um ovo se transforma num frango, assim como não podemos dizer por
que um urso se transforma num príncipe encantado. Como IDÉIAS, o ovo e o
frango estão mais longe um do outro do que o urso e o príncipe; nenhum ovo por
si mesmo nos faz pensar num frango, ao passo que alguns príncipes nos fazem
pensar em ursos. Dado, pois, que acontecem algumas transformações, é
essencial que as vejamos segundo a maneira filosófica dos contos de fadas, e não
segundo a maneira antifilosófica da ciência e das “Leis da Natureza”.
Quando nos perguntam por que os ovos se transformam em pássaros ou os frutos
caem no outono, devemos responder exatamente como a fada-madrinha responderia se
Cinderela perguntasse por que é que os ratos se transformaram em cavalos ou os
seus vestidos cairiam à meia-noite. Devemos responder que é MAGIA. Não é uma
“lei”, porque não compreendemos a sua fórmula geral. Não é uma
necessidade, porque, embora possamos esperar que isso aconteça de fato, não
temos o direito de afirmar que deve acontecer sempre. Não é argumento
suficiente para estabelecer uma lei inalterável (como fantasiou Huxley)[5]
o fato de contarmos com o curso ordinário das coisas. Não contamos com ele;
apostamos nele. Arriscamos que não ocorrerá a possibilidade remota de um
milagre, como arriscamos que não ocorrerá a possibilidade de um bolo
envenenado ou de um cometa que possa destruir o mundo. Colocamos isto fora de
nossas cogitações, não porque um milagre seja uma impossibilidade, mas porque
um milagre é uma exceção. Todos os termos usados nos livros de ciência,
“lei”, “necessidade”, “ordem”, “tendência” e outros
semelhantes, são de fato inintelectuais, porque pressupõem uma síntese
interior que não possuímos. As únicas palavras que ainda me satisfazem ao
descrever a Natureza são os termos usados nos livros de fadas, “mágica”,
“feitiço”, “encanto”. Elas expressam a arbitrariedade do fato e o seu
mistério. Uma árvore frutifica porque é uma árvore MÁGICA. A água corre
morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado.
E
eu nego firmemente que isto seja fantástico ou místico. A linguagem dos contos
de fadas acerca das coisas é simplesmente racional e agnóstica. Esta é a única
maneira pela qual posso expressar em palavras a minha clara e definitiva percepção
de que uma coisa é bastante distinta de outra; de que não há nenhuma conexão
lógica entre voar e botar ovos. O homem que fala a respeito de uma “lei”
que nunca viu é que é o místico. E mais: o homem científico vulgar é
estritamente um sentimental; é um sentimental no sentido essencial de que está
encharcado de meras associações, e de que é arrastado por elas. Tem visto
tantas vezes as aves voar e botar ovos, que acaba achando que deve haver alguma
vaga, tênue conexão entre as duas idéias; mas não há nenhuma. Um amante
abandonado poderá ser incapaz de dissociar a lua do seu amor perdido; também o
materialista é incapaz de dissociar a lua das marés. Em ambos os casos não há
conexão alguma senão o fato de que as duas coisas foram vistas juntas. Um
sentimental poderá derramar lágrimas ao sentir o perfume de um botão de
macieira, porque, por uma secreta associação interior, o perfume lhe traz à
memória a sua mocidade. E o professor materialista (embora esconda as lágrimas)
é também um sentimental, porque, por uma secreta associação interior, o botão
de macieira lhe traz à memória as maçãs. Mas o frio racionalista do país
das fadas não vê por que, teoricamente, a macieira não possa produzir tulipas
vermelhas; isto às vezes acontece no seu país.
Esse
elementar espanto, porém, não é uma mera fantasia derivada dos contos de
fadas; pelo contrário, todo o fascínio dos contos de fadas é que provém
dele. Assim como todos gostamos dos contos de amor porque há um instinto do
sexo, todos gostamos dos contos admiráveis porque nos tocam o nervo do velho
instinto da admiração. E isto se prova pelo fato de que, quando somos bem
pequeninos, não precisamos de contos de fadas: precisamos somente de contos. A
simples vida é mais do que suficiente. Uma criança de sete anos ficará
excitada se lhe disserem que Tom abriu a porta e viu um dragão. Mas uma criança
de três anos ficará excitada se lhe disserem que Tom abriu a porta. Os jovens
gostam de contos românticos; mas as criancinhas gostam de contos realistas —
porque os acham românticos. De fato, uma criancinha é quase a única pessoa,
penso eu, a quem se poderá ler uma das modernas novelas realistas sem entediá-la.
Isto prova que somente os contos de fadas são ainda capazes de despertar em nós
o quase inato sobressalto de interesse e espanto. Esses contos nos dizem que as
maçãs são douradas somente para reavivar o esquecido momento em que
descobrimos que eram verdes. E põem vinho a correr pelos rios somente para nos
fazer lembrar, por um fulgurante momento, que é água o que corre por eles. Eu
disse que isto é completamente razoável e até agnóstico. E sou realmente,
neste ponto, pelo mais alto agnosticismo; o seu melhor nome é Ignorância.
Todos já lemos nos livros científicos e, com certeza, em todos os romances a
história do homem que esqueceu o seu nome. Esse homem passeia pelas ruas e pode
ver e apreciar todas as coisas; somente não consegue recordar quem ele é. Pois
bem: qualquer homem é o homem dessa história. Qualquer homem esqueceu quem é.
Pode-se compreender o cosmo, mas nunca o ego; este está mais distante do que
qualquer estrela. Amarás o Senhor teu Deus; mas não conhecerás a ti mesmo.
Vivemos todos sob a mesma calamidade mental; todos esquecemos o nosso próprio
nome. Todos esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos senso comum, e
racionalidade, e praticabilidade, e positivismo significa apenas que em algumas
zonas adormecidas de nossa vida já esquecemos que nos esquecemos. Tudo o que
chamamos espírito, e arte, e êxtase significa apenas que por um formidável
instante lembramos que nos esquecemos.
Mas,
embora (como o homem sem memória da novela) passeemos pelas ruas com uma espécie
de semiviva admiração, ela ainda é admiração. É admiração também em
inglês, e não apenas em latim. A admiração tem um elemento positivo de
louvor... [...] Eu estou aqui tentando descrever certas grandiosas emoções que
não podem ser descritas. E a mais forte emoção era que a vida era tão
preciosa quão enigmática. Era um êxtase, porque era uma aventura; era uma
aventura, porque era uma oportunidade. A bondade dos contos de fadas não era
afetada pelo fato de que pudesse haver mais dragões do que princesas; o que era
bom era estar num conto de fadas. O teste de toda a felicidade é a gratidão; e
eu me sinto grato, embora tenha certa dificuldade em saber a quem. As crianças
sentem-se gratas quando Papai Noel lhes enche as meias de brinquedos ou doces. E
eu posso deixar de sentir-me grato ao Papai Noel quando ele me põe nas meias o
presente de duas pernas miraculosas? Agradecemos às pessoas que nos dão
presentes de aniversário; charutos ou chinelos. Não posso agradecer a alguém
o presente de ter nascido?
Havia
então esses dois sentimentos primeiros, ambos indefensáveis e indiscutíveis.
O mundo era um espanto, mas não era meramente espantoso; a existência era uma
surpresa, mas uma agradável surpresa. De fato, todas as minhas opiniões
primeiras eram expressas na forma de um enigma que me martelava o cérebro desde
a meninice. A pergunta era: “Que disse a primeira rã?” E a resposta:
“Senhor, como me fizeste saltar!” Isto sucintamente diz tudo o que venho
dizendo. Deus fez a rã saltar; e a rã prefere saltar. Mas, uma vez que essas
coisas estão postas, entra em cena o segundo grande princípio da filosofia das
fadas.
Qualquer
pessoa pode conhecer esse princípio; basta abrir e ler os Contos de Fadas de
Grimm, ou as belas coleções de Andrew Lang.[6]
Pelo prazer do pedantismo, eu o chamarei Doutrina da Alegria Condicional.
Touchstone[7]
falou da muita virtude que há num “se”; de acordo com a ética dos elfos,
toda a virtude está num “se”. A característica da linguagem das fadas é
sempre esta: “Tu poderás viver num palácio de ouro e safiras, se não
pronunciares a palavra ‘vaca’.” Ou: “Poderás viver feliz com a filha do
Rei, se não lhe mostrares uma cebola.” A promessa subordina-se sempre a um
veto. Todas as vertiginosas e colossais coisas concedidas dependem de uma
pequena coisa recusada. Todas as fantásticas e assombrosas coisas que nos são
ofertadas dependem de uma coisa que nos é proibida. O Sr. W. B. Yeats,[8]
na sua estranha e penetrante poesia dos elfos, descreve os elfos como criaturas
sem lei; eles mergulham numa inocente anarquia nos seus desenfreados cavalos
alados:
“Ride
on the crest of the dishevelled tide,
And
dance upon the mountains like a flame.”[9]
É
desagradável ter de dizer que o Sr. W. B. Yeats não compreende o país das
fadas. Mas eu o digo. Ele é um irônico irlandês, cheio de reações
intelectuais. Não é suficientemente estúpido para compreender o país das
fadas. As fadas preferem os de tipo rústico como eu; os que ficam embasbacados,
gargalham e fazem o que lhes é dito. O Sr. Yeats lê no país das fadas toda a
justa insurreição de sua própria raça. Mas a desordem da Irlanda é uma
desordem cristã, fundada na razão e na justiça. O feniano[10]
levanta-se contra alguma coisa que compreende muitíssimo bem; mas o verdadeiro
cidadão do país das fadas obedece a alguma coisa que não compreende de
maneira alguma. Num conto de fadas há uma incompreensível felicidade que
depende de uma incompreensível condição. Uma caixa é aberta, e todos os
males saem voando. Uma palavra é esquecida, e cidades desaparecem. Uma lâmpada
é acesa, e o amor voa para longe. Uma flor é arrancada, e vidas humanas
perecem. Uma maçã é comida, e esvai-se a esperança em Deus.
Este
é o tom dos contos de fadas, e certamente não há nisto nenhuma anarquia nem
permissividade, embora os homens acorrentados à vil tirania moderna possam
pensar que o há por comparação. Quem sai do Presídio de Portland pode julgar
que a Fleet Street[11]
é livre; mas um estudo mais acurado provará que tanto as fadas quanto os
jornalistas são escravos do dever. As fadas-madrinhas parecem pelo menos tão
severas quanto as outras madrinhas. Cinderela recebeu uma carruagem vinda do País
das Maravilhas, recebeu um cocheiro vindo de lugar nenhum, mas recebeu a ordem
— que poderia ter vindo de Brixton[12]
— de que deveria voltar à meia-noite. Ela também tinha um sapato de vidro; e
não pode ser uma coincidência o fato de que o vidro é uma substância tão
comum no folclore. Certa princesa vive num castelo de vidro, outra princesa numa
montanha de vidro; aquela vê todas as coisas num espelho; todas as princesas
podem viver em casas de vidro, desde que não atirem pedras. Esse leve
resplendor de vidro por toda a parte é a expressão do fato de que a felicidade
é radiante mas frágil, como essa substância tão facilmente estraçalhada por
uma criada ou por um gato. E esse sentimento característico dos contos de fadas
calou fundo em mim e tornou-se o meu sentimento em relação ao mundo. Eu sentia
e sinto que a própria vida é brilhante como o diamante, e quebradiça como uma
vidraça; e, quando o céu era comparado a um terrível cristal, posso
lembrar-me de um sobressalto. Eu tinha medo de que Deus derrubasse o cosmo com
um estrondo.
Lembremo-nos
porém de que ser quebrável não é o mesmo que ser perecível. Golpeie um
vidro, e ele não durará um instante; não o toques simplesmente, e durará mil
anos. Assim era, parecia-me, a alegria humana, tanto no país das fadas quanto
na terra; a felicidade dependia de NÃO FAZER ALGUMA COISA que em qualquer
momento poderia ser feita, e muitas vezes não era óbvio por que ela não
deveria ser feita. Ora, o ponto aqui é que para MIM isto não soava injusto. Se
o terceiro filho do moleiro dissesse à fada: “Explica-me por que eu não
posso ficar de cabeça para baixo no palácio encantado”, ela poderia muito
bem responder: “Bem, se vamos a isso, explica-me tu o palácio encantado.”
Se Cinderela diz: “Como se justifica que eu tenha de sair do baile à
meia-noite?”, a sua madrinha poderá responder: “Como se justifica que
possas estar lá até à meia-noite?” Se eu deixo a um homem em testamento dez
elefantes falantes e cem cavalos alados, ele não poderá queixar-se caso as
condições participem da delicada excentricidade do presente. A um cavalo alado
não se olham os dentes. E parecia-me que a existência era em si mesma um
legado demasiado excêntrico para que eu me queixasse de não compreender os
limites da visão, quando afinal de contas não compreendia a visão que eles
limitavam. A moldura não era menos estranha que o quadro. O veto podia ser tão
fantástico quanto a visão; podia ser tão surpreendente quanto o sol, tão
esquivo quanto as águas, tão fantástico e terrível quanto as mais altas árvores.
Por
isto (podemos chamá-lo a filosofia da fada-madrinha) nunca pude compartilhar
com os jovens do meu tempo aquilo que denominavam sentimento geral de REVOLTA.
Eu poderia ter resistido, imagino, a toda a norma que fosse má. [...] Mas nunca
me senti inclinado a resistir a uma norma simplesmente por ela ser misteriosa.
Certos domínios são conquistados pelas formas mais insensatas — a quebra de
um bastão ou o pagamento de um grão de pimenta... E eu me dispunha a
conquistar esse imenso domínio da terra e do céu por meio de qualquer uma
dessas fantasias feudais. Essa fantasia não poderia ser mais fantástica do que
o próprio fato de chegar a semelhante conquista. Darei aqui apenas um exemplo
de natureza ética para ilustrar o que quero dizer. Nunca pude juntar-me ao murmúrio
geral dessa revoltada geração contra a monogamia, porque nenhuma restrição
quanto ao sexo me parecia tão estranha nem tão inesperada quanto o próprio
sexo. Ter a permissão, como Endimião,[13]
de acariciar a própria lua e depois queixar-se de que Júpiter possui as suas
próprias luas num harém parecia-me (a mim, educado nos contos de fadas como o
de Endimião) um vulgar anticlímax. Conformar-se com uma só mulher é um preço
baixíssimo perto do extraordinário fato de ver uma mulher. Reclamar de que só
podia casar-me uma vez era como reclamar de ter nascido uma só vez. Isto não
tinha nenhuma proporção com a tremenda excitação de que se estava falando.
Parecia não uma exagerada sensibilidade para com o sexo, mas uma curiosa
insensibilidade para com ele. O homem que reclamar de que não pode entrar no
Paraíso por cinco portas ao mesmo tempo é um tolo. A poligamia é uma falta de
compreensão do sexo; ela é como um homem que apanha cinco pêras por mera
distração. Os estetas atingiram os mais insensatos limites da linguagem nos
seus elogios das coisas encantadoras. A lanugem do cardo encheu-lhes os olhos de
lágrimas; um besouro lustroso os pôs de joelhos. Mas a sua emoção nunca me
impressionou um único instante, pela simples razão de que nunca lhes ocorreu a
idéia de pagar o prazer que sentiam mediante uma espécie qualquer de sacrifício
simbólico. Os homens (achava eu) poderiam jejuar durante quarenta dias a fim de
ouvir um melro cantar. Os homens poderiam passar através do fogo para encontrar
uma prímula. Mas esses amantes da beleza seriam incapazes de manter-se sóbrios
em atenção ao melro. Não passariam através de um vulgar casamento cristão
para mostrar gratidão à prímula. Por certo podemos pagar uma alegria
extraordinária com um ato ordinário de moral. Oscar Wilde dizia que um
entardecer não tinha valor porque não se podem pagar os entardeceres. Mas
Oscar Wilde estava enganado; podemos pagar os entardeceres. Podemos pagá-los não
sendo um Oscar Wilde.
Muito
bem, deixei os contos de fadas repousando no chão do quarto de infância, e não
encontrei nenhum livro tão sensível de lá para cá. Deixei a ama-seca guardiã
da tradição e da democracia, e não encontrei nenhum tipo moderno tão
saudavelmente radical nem tão saudavelmente conservador. Mas o que é
fundamental é o seguinte: quando entrei pela primeira vez na atmosfera mental
do mundo moderno, descobri que o mundo moderno se opunha positivamente em dois
pontos à minha ama-seca e aos seus contos de fadas. Levei muito tempo para
concluir que o mundo moderno está errado e que minha ama-seca estava certa. E o
mais curioso era o seguinte: o pensamento moderno contradizia o credo básico da
minha mocidade nas suas duas doutrinas mais essenciais. Já expliquei que os
contos de fadas enraizaram em mim duas convicções. Primeira, que este mundo é
um extraordinário e admirável lugar, que poderia ter sido muito diferente, mas
que ainda assim é deslumbrante; segunda, que diante de tal maravilha e de tal
encanto podemos muito bem ser modestos e submissos às mais extravagantes limitações
de tão extravagante benevolência. Mas encontrei todo o mundo moderno como uma
imensa torrente a opor-se a esses meus dois pareceres; e o choque dessa colisão
criou dois súbitos e espontâneos sentimentos, que tenho conservado desde então
e que, de germes que eram, se sedimentaram em convicções.
Primeiro,
encontrei todo o mundo moderno falando de fatalismo científico; dizendo que
todas as coisas são como sempre foram, desdobrando-se infalivelmente desde o
princípio. A folha da árvore é verde porque não poderia ser de outra
maneira. Ora, o filósofo do país das fadas alegra-se pelo verde da folha
precisamente porque ela poderia ter sido escarlate. Para ele, é como se a folha
tivesse ficado verde um instante antes de ele a ter visto. Ele sente-se feliz
porque a neve é branca exatamente pelo razoável motivo de que ela poderia ter
sido preta. Qualquer cor tem em si mesma uma nítida qualidade, como se fosse
escolhida; o vermelho de um jardim de rosas não é só decidido, mas dramático,
como um súbito derramamento de sangue. O filósofo sente que alguma coisa foi
FEITA. Mas os grandes deterministas do século XIX opunham-se fortemente a esse
natural sentimento de que alguma coisa tinha acontecido há apenas um instante.
De fato, segundo eles, nada tinha realmente acontecido desde o começo do mundo.
Não tinha acontecido nada desde que a existência acontecera; e até quanto à
data em que isto se dera eles não tinham certeza.
O
mundo moderno que encontrei era consistente para o moderno calvinismo, pela
necessidade de que as coisas sejam como são. Mas, quando comecei a interrogá-los,
descobri que eles efetivamente não tinham nenhuma prova dessa inevitável
repetição nas coisas exceto o fato de que as coisas se repetiam. Ora, para mim
a mera repetição tornava as coisas antes misteriosas do que racionais. Era
como se, tendo visto na rua um nariz com uma forma esquisita e tendo-o perdido
de vista por qualquer motivo, voltasse depois a ver outros seis narizes com a
mesma espantosa forma. Em um primeiro momento eu imaginaria tratar-se de alguma
sociedade secreta local. Assim, um elefante de tromba era extravagante; mas
todos os elefantes com trombas pareciam uma conspiração. Falo aqui apenas de
uma impressão, e de uma impressão ao mesmo tempo obstinada e sutil. Mas a
repetição na Natureza parecia-me às vezes ser uma repetição exaltada, como
a de um professor enfurecido dizendo a mesma coisa muitas e muitas vezes. A
grama parecia acenar para mim com todos os seus dedos; as inumeráveis estrelas
pareciam querer ser compreendidas. O sol acabaria fazendo com que eu o visse,
caso se erguesse milhares de vezes. As recorrências do universo surgiam ao
ritmo estonteante de um encantamento, e eu comecei a vislumbrar uma idéia.
Todo
o altaneiro materialismo que domina o pensamento moderno se apóia em última análise
numa suposição; numa falsa suposição. Supõe-se que se uma coisa se repete
constantemente ela provavelmente está morta; é uma peça de relojoaria. As
pessoas acham que se o Universo fosse pessoal ele deveria variar; que se o Sol
fosse vivo ele deveria dançar. Isto é uma falácia até em relação a fatos
conhecidos. A variação no mundo dos homens é geralmente produzida não pela
vida, mas pela morte; pelo enfraquecimento ou pela interrupção da sua força
ou do seu desejo. Um homem varia os seus movimentos por causa de algum tênue
princípio de deficiência ou de fadiga. Entra num ônibus porque está cansado
de andar; ou passeia porque está cansado de ficar parado. Mas, se a sua vida e
a sua alegria fossem tão imensas que ele nunca cansasse de ir até Islington,
podia ir até Islington com a mesma regularidade com que o Tâmisa vai para o
Sheerness. A própria velocidade e o êxtase de sua vida teriam a quietude da
morte. O sol levanta-se todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; a
variação porém não se deve à minha atividade, mas à minha inação. Ora,
para usar uma frase popular, pode ser que o Sol se levante regularmente porque
nunca se cansa de levantar-se. A sua rotina pode provir não de uma falta de
vitalidade, mas de uma torrente de vida. O que eu quero dizer pode ser
observado, por exemplo, nas crianças, quando descobrem algum jogo ou
brincadeira de que gostam muito. Uma criança balança ritmicamente as pernas
devido a um excesso, e não a uma ausência de vida. As crianças têm uma
vitalidade abundante, são impetuosas e livres de espírito, e portanto querem
as coisas repetidas e inalteradas. Elas sempre dizem “De novo”; e o adulto
faz de novo até ficar quase morto. Os adultos não são suficientemente fortes
para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja suficientemente forte para
exultar na monotonia. É possível que Deus diga ao sol todas as manhãs: “De
novo”, e diga à lua todas as noites: “De novo”. Pode ser que não seja
uma necessidade automática que faz todas as margaridas iguais; pode ser que
Deus faça cada margarida separadamente, e que nunca tenha cansado de fazê-las.
Pode ser que Ele tenha um eterno apetite de infância; pois nós pecamos e
envelhecemos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na Natureza
pode não ser uma simples recorrência; ela pode ser um BIS de teatro. O céu
pode ter pedido BIS ao pássaro que botou um ovo. Se o ser humano concebe e dá
à luz um bebê humano em vez de dar à luz um peixe, ou um morcego, ou um
grifo, pode ser que não seja pelo fato de estarmos fixados num destino animal
sem vida ou finalidade. Pode ser que a nossa pequena tragédia tenha
impressionado os deuses, que eles a admirem lá do alto das suas cintilantes
galerias, e que ao final de cada drama humano o homem seja chamado uma e outra
vez à boca de cena. E a repetição poderá continuar por milhares de anos, por
pura escolha, e em qualquer instante poderá acabar. Os homens podem permanecer
na terra por gerações e gerações, e entretanto cada nascimento poderá muito
bem ser a sua última apresentação.
Esta
foi minha primeira convicção, gerada pelo encontro entre minhas impressões
infantis e o credo moderno. Tive sempre o vago sentimento de que os fatos são
milagres no sentido de que são maravilhosos; agora comecei a considerá-los
milagres no estrito sentido de que eram INTENCIONAIS. Isto quer dizer que eles
eram, ou poderiam ser, repetidos atos de alguma vontade. Em suma, sempre
acreditei que o mundo tinha algo de mágico; e agora penso que ele talvez tenha
alguma coisa que ver com um mágico. E isto originou uma profunda impressão
sempre presente e subconsciente: a de que este nosso mundo tem alguma
finalidade; e, se há uma finalidade, há alguém. Sempre considerei a vida
antes de tudo como uma história; e se há uma história há um contador de histórias.
Mas
o pensamento moderno também feria minha segunda tradição humana. Ele
contrariava a visão das fadas sobre limites e condições. A única coisa de
que ele gostava de falar era de expansão e de amplitude. Herbert Spencer[14]
teria ficado muito aborrecido se alguém o chamasse imperialista, e entretanto
é uma grande pena que ninguém o tenha feito. Mas ele era um imperialista do
pior tipo. Foi ele quem popularizou a desprezível noção de que o tamanho do
sistema solar deveria intimidar o dogma espiritual do homem. Por que deveria um
homem renunciar à sua dignidade diante do sistema solar e não diante de uma
baleia? Se o mero tamanho prova que o homem não é a imagem de Deus, então uma
baleia pode ser a imagem de Deus; uma imagem um tanto disforme, o que poderíamos
chamar retrato impressionista. É quase inútil argumentar que o homem é
pequeno comparado com o cosmo; o homem sempre foi pequeno comparado com a árvore
mais próxima. Mas Herbert Spencer, no seu arrojado imperialismo, insistiria em
que de alguma forma nós fomos conquistados e anexados pelo universo astronômico.
Ele falava dos homens e de seus ideais exatamente como o mais insolente
unionista[15]
fala sobre o irlandês e seus ideais. Spencer transformou a humanidade numa
pequena nacionalidade. E a sua má influência pode ser observada nos mais
fogosos e honoráveis dos recentes autores científicos; principalmente nos
primeiros romances de H. G. Wells.[16]
Muitos moralistas exageram numa representação da terra como perversa. Mas
Wells e a sua escola tornaram perverso o próprio céu. Deveríamos levantar os
olhos para as estrelas, de onde nos viria a ruína.
Mas
a expansão de que falo era muito mais perniciosa que tudo isto. Já observei
que o materialista, como o louco, está na prisão; na prisão de um pensamento.
Essa gente parecia pensar que era singularmente animador manter a afirmação de
que a prisão era muito grande. Mas o tamanho desse universo científico não
nos trouxe nenhuma novidade, nenhum alívio. O cosmo continuaria sempre
existindo, mas não havia nada nessa extraordinária constelação que fosse
realmente interessante; nada, por exemplo, como o perdão ou o livre arbítrio.
A grandeza ou a infinitude do segredo desse cosmo nada lhe acrescentava. Era
como dizer a um condenado da penitenciária de Reading que ele deveria
alegrar-se em saber que agora o presídio se estendia por todo o país. O
diretor do presídio não teria nada para mostrar a esse homem senão intermináveis
e longos corredores de pedra, iluminados por luzes fantasmagóricas e vazios de
tudo o que é humano. Assim, também esses ampliadores do universo nada têm
para nos mostrar senão infinitos corredores de espaço iluminados por sóis
fantasmagóricos e vazios de tudo o que é divino.
No
país das fadas havia uma lei positiva; uma lei que podia ser desrespeitada,
pois por definição uma lei é algo que pode ser desrespeitado. Mas o
maquinismo dessa prisão cósmica era algo que não podia ser desrespeitado;
porque nós mesmos éramos apenas uma parte desse maquinismo. Ou éramos
incapazes de fazer as coisas, ou estávamos condenados a fazê-las. A idéia da
condição mística desaparecia totalmente; não se podia ter a força para
respeitar as leis nem o gosto de infringi-las. A imensidão desse universo nada
tinha desse frescor e dessa arejada insurreição que admiramos no universo do
poeta. Esse universo moderno é literalmente um império; quer dizer, ele é
vasto, mas não é livre. Caminha-se através de amplas e cada vez mais amplas
salas sem janelas, salas grandes com uma perspectiva babilônica; mas jamais se
encontra nele a menor janela ou postigo que se abra para fora.
As
suas infernais paralelas pareciam expandir-se com a distância; mas para mim
todas as boas coisas vão até certo ponto; as espadas, por exemplo. Assim,
achando a ostentação do grande cosmo muito insatisfatória para o meu gosto,
comecei a refletir um pouco sobre tudo isso; e logo descobri que essa atitude
como um todo era bem mais superficial do que era de esperar. De acordo com essas
pessoas o cosmo era uma coisa, uma vez que ele tinha uma regra inviolável.
Sucede porém que (deveriam elas dizer), uma vez que ele é uma coisa, é também
a única coisa que existe. Por que então deveríamos ter a preocupação de
chamá-lo grande? Não existe nada para ser comparado com ele. Seria igualmente
razoável chamá-lo pequeno. Um homem pode dizer: “Eu gosto desse vasto cosmo,
com a sua multidão de estrelas e com as suas mais diversas criaturas.” Mas,
se vamos a isto, por que não pode um homem dizer: “Eu gosto deste
aconchegante pequeno cosmo, com o seu exato número de estrelas e com a justa
provisão de criaturas que eu gostaria de ver”? Um teria tanta razão quanto o
outro; em ambos os casos se trata de meros sentimentos. É um mero sentimento
regozijar-se porque o sol é maior que a terra; e é um sentimento mais saudável
regozijar-se porque o sol tem o tamanho que tem. Um homem prefere emocionar-se
com a grandeza do mundo; por que não poderia escolher emocionar-se com a sua
pequenez?
Acontece
que eu senti essa emoção. Quando alguém gosta de alguma coisa, dirige-se a
ela por meio de diminutivos,ainda que ela seja um elefante ou um salva-vidas. A
razão é que, por maior que ela seja, se pode ser concebida como uma coisa
inteira, pode ser concebida como uma coisa pequena. Se os bigodes de um militar
não sugerissem uma espada, ou se as presas de um animal não sugerissem uma
cauda, então o objeto seria vasto, porque seria incomensurável. Mas, a partir
do momento em que se pode imaginar um salva-vidas, pode-se imaginar um
salva-vidas pequeno. A partir do momento em que vemos de fato um elefante,
podemos chamá-lo “Tiny”.[17]
Se se pode fazer uma estátua de algo, poder-se-á fazer uma estatueta dela.
Aquelas pessoas professavam que o universo é uma coisa coerente; mas elas não
gostavam do universo. Eu porém gostava tremendamente do universo e queria tratá-lo
por um diminutivo. Fi-lo muitas vezes, e não me parece que ele se tenha
incomodado. De fato, e de verdade, acho que esses confusos dogmas sobre a
vitalidade seriam melhor expressos dizendo-se que o mundo é pequeno do que
dizendo-se que é grande. Pois acerca da infinitude houve uma espécie de
descuido que era o reverso do ardente e piedoso cuidado que eu sentia em relação
ao inestimável valor e ao risco da vida. Eles ostentavam somente um triste
desperdício; mas eu sentia uma espécie de sagrada economia. Pois a economia é
muito mais romântica do que a extravagância. Para eles, as estrelas eram uma
infindável renda de meio pêni; mas eu sentia-me em relação ao sol dourado ou
à prateada lua como se sente o estudante que possui apenas um soberano ou um
xelim.
Essas
convicções subconscientes são mais bem descritas pela cor e pelo tom de
certos contos. Assim, eu disse que somente as histórias de mágica são capazes
de expressar o meu sentimento de que a vida é não somente um prazer mas uma
espécie de excêntrico privilégio. Posso expressar esse outro sentimento de
aconchego cósmico pela alusão a outro livro sempre lido na mocidade, Robinson
Crusoé, que li nesse período, e que deve a sua eterna vitalidade ao fato
de celebrar a poesia dos limites, ou melhor, o extraordinário romance da prudência.
Crusoé é um homem que se encontra numa pequena rocha com os poucos confortos
que trouxe do mar, e a melhor coisa do livro é justamente a lista das coisas
que foram salvas do naufrágio. O maior dos poemas é um inventário. O mais
simples utensílio de cozinha torna-se ideal porque Crusoé poderia tê-lo
perdido no mar. É um bom exercício, nas horas vagas ou tristes do dia, olhar
para alguma coisa, o balde de carvão ou a estante de livros, e pensar como
seria feliz uma pessoa que conseguisse levar tais objetos de um navio prestes a
afundar para uma ilha solitária. Mas é um exercício ainda melhor lembrar-se
de como todas as coisas escaparam por um fio de cabelo: todas as coisas foram
salvas de um naufrágio. Todo o homem passou por uma terrível aventura: se
acontecesse um secreto parto prematuro, ele não teria existido, como as crianças
que nunca viram a luz. Na minha mocidade os homens falavam freqüentemente de
decaídos ou arruinados homens de gênio, e era comum dizerem de muitos que eram
um Grande Poderia-Ter-Sido. Para mim é um fato mais denso e mais impressionante
que qualquer homem que encontro seja um Grande Poderia-Não-Ter-Sido.
Mas
eu realmente sentia (a fantasia pode parecer tola) como se a ordem e o número
das coisas fossem os românticos despojos do navio de Crusoé. O fato de haver
dois sexos e um sol era semelhante ao fato de haver duas armas e um machado. Era
imperiosamente necessário que nenhuma dessas coisas se perdesse; mas também
era engraçado que nenhuma outra poderia ser-lhes acrescentada. As árvores e os
planetas pareciam-me coisas salvas de um naufrágio, e quando vi o Matterhorn
fiquei feliz por ele não ter sido esquecido na confusão. Sentia-me econômico
quanto às estrelas como se fossem safiras (elas são chamadas assim no Paraíso
de Milton); eu entesourava as montanhas. Pois o universo é uma jóia única, e,
embora seja natural falar que uma jóia é incomparável e inestimável, em relação
a essa jóia isto é literalmente verdadeiro. Este cosmo efetivamente não tem
comparação nem preço, pois não pode haver outro igual.
(
G.K. Chesterton, Orthodoxy, cap. IV., Trad. Eduardo Pinheiro, Revisão:
Carlos Nougué)
Notas:
*
Este texto foi extraído do cap. 4 do livro Ortodoxia. O início e o
final do capítulo foram suprimidos, por estarem relacionados diretamente
com o restante do livro. Pelo mesmo motivo se suprimiram outros trechos,
usando-se o sinal [...] quando tal se deu.
[1]
Membro de um clube político revolucionário fundado em Paris em 1789.
[2]
Designação
dada na Inglaterra, após a revolução de 1688, aos partidários de Jaime
II e da casa dos Stuarts.
[3]
“Exaltou os humildes” (Luc, I, 52).
[4]
Haeckel, Ernst H. (1834-1919). Biólogo evolucionista alemão, defendeu a
tese de que a ontogenia recapitula a filogenia.
[5]
Huxley, Thomas H. (1825-1895). Naturalista inglês,
e incentivador de Charles Darwin, presidiu à Royal Society de 1883 a 1885,
e era avô de Aldous Huxley.
[6]
Lang, Andrew (1844-1912), escritor escocês.
[7]
Nome de um bobo da peça As You Like, de Shakespeare.
[8]
Yeats, William B. (1865-1939), poeta e dramaturgo irlandês.
[9]
“Cavalgam a crista das ondas desgrenhadas / E dançam sobre as montanhas
como uma chama.”
[10]
Membro de uma organização clandestina irlandesa que vigorou no século XIX
e que tinha por objetivo abolir o domínio britânico sobre a Irlanda.
[11]
Rua notável por nela se encontrarem os grandes jornais londrinos.
[12]
Certo distrito de Londres.
[13]
Pastor mitológico que foi amado por Selene ou Diana, deusa da Lua, a qual
obteve de Júpiter ou Zeus que o seu amante conservasse a beleza em um sono
eterno, durante o qual ela o vinha contemplar e beijar.
[14]
Spencer, Herbert (1820-1903). Filósofo e sociólogo inglês, fundou o
Darwinismo Social.
[15]
Na Inglaterra, membro do Partido Unionista.
[16]
Wells, Herbert G. (1866-1946). Romancista inglês,
foi um dos iniciadores da ficção científica.
[17]
“Pequenino”.