É
bastante natural que os homens prósperos de nosso tempo desconheçam mesmo história.
Se a conhecessem, conheceriam a muito pouco edificante história de como se
tornaram prósperos. É bastante natural, digo, que eles não saibam história:
Mas por que eles pensam que sabem? Eis aqui uma opinião tirada a esmo de um
livro escrito por um dos mais cultos dentre nossos jovens críticos, uma opinião
muito bem escrita e de todo confiável em seu próprio tema, que é um tema
moderno. Diz o escritor: “Existiu pouco avanço social ou político na Idade Média”
até a Reforma e a Renascença. Ora, eu poderia tão propriamente quanto dizer
que houve pouco avanço nas ciências e invenções no século dezenove até a
vinda de William Morris: e então me desculpar dizendo que não estou
pessoalmente interessado em máquinas de fiar ou águas-vivas — o que
certamente é o caso. Pois isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer:
ele quis dizer que não está pessoalmente interessado em Arautos ou Abades com
mitras. Tudo isto está bem; Mas por que, ao escrever sobre algo que não teria
existido na Idade Média, deveria ele dogmatizar sobre uma história que ele
evidentemente não conhece? No entanto, esta pode tornar-se uma história muito
interessante.
Pouco
antes da Conquista Normanda, países como o nosso eram o pó de um ainda débil
feudalismo, continuamente jogado nas voragens por bárbaros — bárbaros que
jamais montaram um cavalo. Dificilmente existia uma casa de tijolos ou pedras na
Inglaterra. Raramente se encontrava estradas, exceto sendas batidas;
praticamente não existia nenhuma lei exceto os costumes locais. Esta era a
Idade das Trevas da qual surgiu a Idade Média. Tome a Idade Média duzentos
anos depois da Conquista Normanda e quase outro tanto antes do início da
Reforma. As grandes cidades surgiram; os burgueses são privilegiados e
importantes; o trabalho foi organizado em livres e responsáveis uniões de
trabalho; os Parlamentos são poderosos e disputam com os príncipes; a escravidão
quase inteiramente desapareceu; as grandes Universidades estão abertas e
ensinam com o programa de educação que Huxley tanto admirou; Repúblicas tão
orgulhosas e cívicas como as dos pagãos erguem-se como estátuas de mármore
ao longo do Mediterrâneo; e por todo o Norte homens construíram Igrejas tais,
que os homens talvez nunca mais igualem. E isso, cuja porção essencial foi
feita em apenas um século, é o que o crítico chama “pouco avanço social ou
político”. Dificilmente há alguma importante instituição sob a qual ele
vive, da Universidade que o treinou ao Parlamento que o governa, que não fez
seus principais avanços naquele tempo.
Se
alguém pensa que escrevo isso de pedantice, espero mostrar-lhe em um momento
que tenho um objetivo mais humilde e prático. Eu quero considerar a natureza da
ignorância, e começo dizendo que, em todo sentido erudito e acadêmico, eu próprio
sou muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham que seu
conhecimento geral é grande, eu diria que minha ignorância geral é grande.
Mas este é exatamente o ponto. É um conhecimento geral e uma ignorância
geral. Eu sei pouca história: mas eu conheço um pouco de quase toda história.
Eu não sei muito sobre Martinho Lutero e sua Reforma, por exemplo; mas sei que
ela fez uma tremenda diferença. Ora, não saber que o rápido progresso dos séculos
doze e treze fez uma grande diferença é tão extraordinário como nunca ter
ouvido falar de Martinho Lutero. Eu não sou muito bem informado sobre Budistas;
mas sei que Budistas se interessam por filosofia. Acredite, não saber que os
Budistas se interessam por filosofia não é mais impressionante que não saber
que os medievais se interessavam por progresso político ou experimentos. Não
sei muito sobre Frederico, o Grande. Assustava-me em minha infância a coleção
de volumes de Carlyle sobre o assunto: parecia existir lá um monte de coisas
para conhecer. Mas, apesar dos meus receios, eu seria capaz de adivinhar com
alguma probabilidade o tipo de substância
que tais volumes conteriam. Eu arriscaria (e não incorretamente, acredito) que
os volumes conteriam a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que se
falaria sobre guerra de tempos em tempos; que alguma menção poderia ser feita
a tratados e fronteiras; que a palavra “Silesia” poderia ser encontrada numa
procura diligente, assim como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum
lugar em todos aqueles volumes, seu grande autor iria dizer se Frederico o
Grande tinha um pai, se chegou a casar-se, se possuía grandes amigos, se tinha
algum hobby ou qualquer tipo de gosto literário, se morreu no campo de batalha
ou em sua cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem para abrir um
destes volumes, provavelmente teria encontrado algo ao menos nestas linhas
gerais.
Agora
troque a imagem; e conceba um jovem comum, jornalista bem educado ou homem de
letras de uma escola pública ou faculdade quando pára em frente de uma coleção
ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média — digamos,
todos os volumes de Sto. Tomás de Aquino. Eu digo que, de nove chances em dez,
aquele jovem bem-educado não sabe o que irá encontrar naqueles volumes em capa
de couro. Ele pensa que iria encontrar discussões sobre a capacidade dos anjos
de se equilibrarem em agulhas; e assim ele iria. Mas eu digo que ele não sabe
que iria encontrar um Escolástico discutindo quase todas as coisas que Herbert
Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia,
liberdade, anarquia, propriedade, comunismo, e todas as noções várias que estão
em nosso tempo brigando pelo tempo do “Socialismo”. Ou, por outra, eu não
sei muito sobre Maomé ou Maometismo. Eu não levo o Alcorão para a cama comigo
toda noite. Mas, se eu o fizesse em alguma noite em especial, em pelo menos um
sentido posso alegar saber o que não deve se encontrar lá. Eu entendo que não
devo encontrar uma obra repleta de fortes encorajamentos ao culto de ídolos;
que os louvores do politeísmo não serão sonoramente cantados; que o caráter
de Maomé não será submetido a nada similar a ódio e derrisão; e que a
grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será
desnecessariamente enfatizada. Mas troque novamente a imagem; e imagine o homem
modero (o infeliz homem moderno) que levou um volume de teologia medieval para a
cama. Ele esperaria encontrar um pessimismo que não está ali, um fatalismo que
não está ali, um amor ao barbaresco que não está ali, um desprezo da razão
que não está ali. Deixemo-lo tentar. Faria a ele uma de duas boas coisas: ou o
faria dormir — ou o faria acordar.
(Illustrated London News, 15 de Novembro de 1913)