AS GRANDES HERESIAS
Hilaire Belloc

Nascido em França em 1870, Belloc foi um dos mais prolíferos escritores na Inglaterra de seu tempo, distinguindo-se como biógrafo, historiador e romancista. Católico fervoroso, escreveu, como seu amigo G.K. Chesterton, várias obras sobre a santa religião, entre as quais "The Great Heresies", de onde traduzimos o pungente capítulo que apresentaremos em seguida.
Antes, porém, devemos contextualizá-lo. Escrevendo em 1938 sobre o que chama "o Ataque Moderno", Belloc realmente não poderia aludir ao problema mais inquietante desta "Fase Moderna", e que mais tem motivado nosso combate: a infiltração e ascensão do modernismo na Igreja. Não obstante, a análise de Belloc, atual em muitos pontos, causa impressão pela firmeza de seu posicionamento.
Capítulo Sete: A Fase Moderna
Chegamos
ao grande momento.
A
Fé está agora na presença não de uma heresia particular como no passado –
o arianismo, o maniqueísmo, dos albigenses, dos maometanos – nem está na
presença de algum tipo de heresia generalizada, como ocorreu quando enfrentou a
revolução protestante trezentos a quatrocentos anos atrás. O inimigo que a Fé
tem de enfrentar agora, e que pode ser chamado de “O Ataque Moderno”, é um
assalto indiscriminado aos fundamentos da Fé, à própria existência da Fé. E
o inimigo que agora avança contra nós está cada vez mais consciente do fato
de que não pode haver qualquer neutralidade. As forças que agora se opõem à
Fé têm o propósito de destruí-la. A batalha é doravante travada em
uma linha definida de clivagem, envolvendo a sobrevivência ou a destruição da
Igreja Católica. E toda – não uma parte – de sua filosofia.
Sabemos,
evidentemente, que a Igreja Católica não pode ser destruída. Porém, o que não
sabemos é a extensão da área em que sobreviverá, seu poder de reviver ou o
poder do inimigo de fazê-la recuar cada vez mais para suas últimas defesas, até
que possa parecer que o anti-Cristo chegou, e a batalha final está para ser
decidida. Esse é o momento da luta diante do mundo.
Para
muitos que não nutrem simpatias pelo Catolicismo, que herdaram a velha
animosidade protestante contra a Igreja (embora o protestantismo doutrinário
esteja agora morto) e que pensam que qualquer ataque à Igreja tenha de ser de
uma forma ou de outra uma boa coisa, a luta já se mostra como um ataque
vindouro ou atual contra o que chamam “Cristianismo”.
Encontramos
pessoas dizendo a todo momento que o movimento bolchevista, por exemplo, é
“definitivamente anti-cristão” – “oposto a qualquer forma de cristianismo”
– e que tem de ser “resistido por todos os cristãos, independentemente da
Igreja particular a que se pertença”, e assim por diante.
Discursos
e escritos desse tipo são fúteis, porque não significam nada de definido. Não
há essa coisa de uma religião chamada de “Cristianismo” – nunca houve
essa religião.
Há,
e sempre houve, a Igreja e várias heresias resultantes de uma rejeição de
algumas das doutrinas da Igreja por homens que ainda desejam manter o restante
de seu ensinamento e moral. Mas nunca houve nem pode haver ou haverá uma religião
cristã genérica, professada por homens que aceitem todos algumas importantes
doutrinas centrais, embora concordando em diferir acerca de outras. Sempre
houve, desde o início, e sempre haverá a Igreja e heresias várias destinadas
a perecer ou, como a dos maometanos, crescer como uma religião separada. De um
Cristianismo comum nunca houve e nunca poderá haver uma definição, pois nunca
existiu.
Não
há nenhuma doutrina essencial, de modo que, se concordarmos com ela, possamos
diferir acerca do restante, por exemplo, aceitar a imortalidade, mas negar a
Trindade; um homem dizer-se cristão, embora negue a unidade da Igreja Cristã;
dizer-se cristão, embora negue a presença de Jesus Cristo no Santíssimo
Sacramento; dizer-se alegremente cristão, embora negue a Encarnação.
Não!
A disputa é entre a Igreja e a anti-Igreja, a Igreja de Deus e o anti-Deus, a
Igreja de Cristo e o anti-Cristo.
A
verdade fica tão óbvia a cada dia que, em alguns anos, será universalmente
aceita. Não classifico o ataque moderno de “anti-Cristo”, embora, no meu
coração, acredite que seja o termo verdadeiro para ele: não, não o nomeio
assim, porque pareceria exagerado no momento. Mas o nome não importa. Quer
chamemos de “O Ataque Moderno, quer de “anti-Cristo”, é tudo a mesma
coisa. Há uma questão clara agora entre a manutenção da moral, tradição e
autoridade católicas, de um lado, e o esforço ativo de destruí-las, de outro.
O ataque moderno não nos tolerará. E tentará nos destruir. Também não
podemos tolerá-lo. Temos de tentar destruí-lo como o inimigo totalmente
equipado e ardente da Verdade pela qual os homens vivem. O duelo é até a
morte.
Às
vezes, alguns chamam o ataque moderno de “um retorno ao paganismo”. Essa
definição é verdadeira se quisermos dizer por paganismo uma negação da
verdade católica. Se quisermos dizer por paganismo uma negação da Encarnação,
da imortalidade humana, da unidade e personalidade de Deus, da responsabilidade
direta do homem perante Deus e de todo o corpo de pensamento, sentimento,
doutrina e cultura que se resume na palavra “Católico”, então, e apenas
nesse sentido, o ataque moderno é um retorno ao paganismo.
Porém,
há mais de um paganismo. Houve um paganismo de onde todos viemos: o paganismo
nobre e civilizado da Grécia e de Roma. Houve o paganismo bárbaro das tribos
selvagens germânicas, eslavas e outras. Há o paganismo degenerado da África,
o paganismo alienado e desesperador da Ásia. Agora, como de todos esses foi
possível trazer homens para a Igreja universal, qualquer novo paganismo que
rejeite a Igreja conhecida seria certamente muito diferente dos paganismos para
os quais a Igreja era ou é desconhecida.
Um
homem subindo um monte pode estar no mesmo nível que outro descendo, mas estão
voltados para caminhos diferentes e têm diferentes destinos. Nosso mundo,
saindo do antigo paganismo da Grécia e de Roma para a consumação da
Cristandade e de uma civilização Católica da qual todos provimos, é a própria
negação do mesmo mundo que deixa a luz de sua religião ancestral e desliza
para o escuro.
Considerando
isso, vamos examinar o Ataque Moderno – o avanço anti-Cristão – e
distinguir sua natureza especial.
Verificamos,
para começar, que é ao mesmo tempo materialista e supersticioso.
Há
aqui uma contradição da razão, mas a fase moderna, o avanço anti-Cristão,
abandonou a razão. Preocupa-se com a destruição da Igreja Católica e da
civilização proveniente dela. Não está preocupada com contradições
aparentes em seu próprio corpo, contanto que a aliança geral seja para acabar
com tudo pelo que temos até agora vivido. O ataque moderno é materialista,
porque, em sua filosofia, considera apenas causas materiais. É supersticioso
apenas como um subproduto de seu estado mental. Alimenta em sua superfície os
caprichos tolos do espiritualismo, o disparate vulgar da “Ciência Cristã”,
e sabe Deus quantas outras fantasias. Mas essas tolices são produzidas não por
uma fome de religião, mas pela mesma raiz que tornou o mundo materialista: por
uma incapacidade de entender a verdade primeira de que a fé está na raiz do
conhecimento, por pensar que nenhuma verdade é apreensível, exceto através de
experiência direta.
Assim,
o espiritualista se gaba de suas manifestações demonstráveis, e seus vários
rivais, de suas claras provas diretas. Mas todos concordam que a Revelação
deva ser negada. Foi bem notado que nada é mais marcante do que a maneira pela
qual todas as práticas quase religiosas modernas concordam com isso: que
a Revelação deva ser negada.
Podemos
inferir, então, que o novo avanço contra a Igreja – que talvez se mostre o
avanço final contra a Igreja, que é, de qualquer maneira, o único inimigo
moderno de importância – é fundamentalmente materialista. É materialista em
sua leitura da história e, acima de tudo, em suas propostas de reforma social.
Por
ser ateísta, é característico da onda que avança que repudie a razão
humana. Essa atitude mais uma vez poderia parecer uma contradição em termos,
pois, se você nega o valor da razão humana, se você diz que não podemos, por
nossa razão, chegar a qualquer verdade, então, nem mesmo a afirmação acima
feita pode ser verdade. Nada pode ser verdade, e nada vale ser dito. Mas o
grande Ataque Moderno (que é mais do que uma heresia) é indiferente à
auto-contradição. Simplesmente afirma. Avança como um animal, dependendo
apenas da força. De fato, pode-se notar, de passagem, que isso bem pode ser a
causa de sua derrota final, pois, até agora, a razão sempre sobrepujou seus
oponentes, e o homem é o mestre da besta pela razão.
De
qualquer forma, temos o Ataque Moderno em seu caráter principal, materialista e
ateísta, e, por ser ateísta, é necessariamente indiferente à razão. Porque
Deus é a Verdade.
Mas
há (como os maiores dos gregos antigos descobriram) uma certa Trindade indissolúvel
de Verdade, Beleza e Bondade. Não se pode negar ou atacar uma dessas três sem,
ao mesmo tempo, negar ou atacar ambas as outras. Conseqüentemente, com o avanço
desse novo e terrível inimigo contra a Fé e toda a civilização que a Fé
produz, vem não apenas um desprezo pela beleza, mas um ódio a ela, e, colado
em seus calcanhares, aparece um desprezo e um ódio à virtude.
O
mais ingênuos, os menos corrompidos dos convertidos ao inimigo, falam vagamente
de um “reajuste, um novo mundo, uma nova ordem”, mas não nos dizem, como em
boa razão deveriam, sobre que princípios essa nova ordem deve ser erguida. Não
definem o fim que têm em vista.
O
comunismo (que é apenas uma manifestação, e provavelmente passageira, desse
Ataque Moderno) professa estar voltado para um certo bem, a saber, a abolição
da pobreza. Mas não lhes diz por que isso deve ser bom. Não admite que seu
esquema é também destruir outras coisas que também são boas pelo
consentimento comum da humanidade: a família, propriedade (que é a garantia da
liberdade individual e da dignidade individual), bom humor, piedade e todas as
formas do que consideramos uma vida reta.
Bem,
chame do que quiser, chame-a, como faço aqui, de “O Ataque Moderno”, ou,
como penso que os homens em breve terão de chamá-la, “Anti-Cristo”, ou
chame-a pelo termo temporariamente emprestado de “bolchevismo” (que é
apenas a palavra russa para “quem vai até as últimas conseqüências”),
conhecemos a coisa muito bem. Não é a revolta dos oprimidos. Não
é o soerguimento do proletariado contra a injustiça e a crueldade
capitalistas. É algo de fora, algum espírito maligno tirando vantagem da
inquietação dos homens e de sua raiva contra condições injustas.
Agora,
essa coisa está em nossos portões. No fim das contas, é claro, é o fruto da
ruptura original da Cristandade na Reforma. Começou com a negação de uma
autoridade central, terminou dizendo ao homem que ele é auto-suficiente, e
erigiu em todos os lugares grandes ídolos para serem adorados como deuses.
Não
é só no lado comunista que isso aparece. Aparece também nas organizações
opostas ao comunismo: nas raças e nações em que a mera força é posta no
lugar de Deus. Essas também erigem ídolos aos quais se paga um horrendo sacrifício
humano. Por esses também se negam a justiça e a ordem correta das coisas.
Essa
é a natureza da batalha agora travada, e contra esses inimigos a posição da
Igreja Católica parece agora realmente fraca.
Mas
há algumas forças em seu favor, que podem levar, por fim, a uma reação, pela
qual o poder da Igreja sobre a humanidade possa ressurgir.
Nas
próximas páginas, considerarei quais podem ser os resultados imediatos dessa
nova grande idolatria, e, nas páginas seguintes, discutirei a questão mais
importante de todas, a saber, se os acontecimentos apontam para a Igreja se
tornando uma fortaleza isolada a se defender contra todas as arremetidas, uma
arca no meio da maré montante que, embora não afunde o barco, cobre e destrói
tudo o mais; ou se a Igreja será talvez restaurada a algo de seu antigo poder.
O
Ataque Moderno contra a Igreja Católica, o mais universal que ela já sofreu
desde sua fundação, até agora progrediu a ponto de já ter produzido formas
sociais, intelectuais e morais que combinadas lhe dão um aspecto de religião.
Embora
esse Ataque Moderno, como disse, não seja uma heresia no antigo sentido da
palavra nem um tipo de síntese de heresias que tenham em comum ódio à Fé
(como foi o movimento protestante), é ainda mais profundo, e suas conseqüências,
mais devastadoras do que qualquer uma dessas. É essencialmente ateísta, mesmo
quando o ateísmo não é abertamente declarado. Trata o homem como
auto-suficiente, a oração como simples auto-sugestão, e – o ponto
fundamental – Deus como nada mais que uma criação da imaginação, uma
imagem do próprio homem lançada pelo homem ao universo, um fantasma e sem
realidade.
Entre
seus muitos sábios pronunciamentos, o Papa reinante proferiu uma sentença,
cujo julgamento profundo foi mais marcante no momento, e que tem sido
poderosamente confirmada pelos eventos desde então. O que ele disse foi que,
enquanto a negação de Deus tenha se confinado no passado a um número
comparativamente pequeno de intelectuais, essa negação ganhou agora as
multidões e estava agindo em todos os lugares como uma força social.
Esse
é o inimigo moderno; é a maré montante; o maior e o que pode se mostrar a
luta final entre a Igreja e o mundo. Devemos julgá-lo principalmente por seus
frutos, e esses frutos, embora ainda não amadurecidos, já são aparentes.
Quais são esses frutos?
Em
primeiro lugar, testemunhamos o renascimento da escravidão, o resultado necessário
da negação do livre arbítrio, quando essa negação avança um passo além de
Calvino e nega a responsabilidade a Deus, assim como a falta de poder no homem.
As duas formas de escravidão que estão gradualmente aparecendo e que
amadurecerão cada vez mais com o passar do tempo, sob efeito do ataque moderno
à Fé, são a escravidão ao Estado e a escravidão a corporações privadas e
indivíduos.
Há,
atualmente, uma frouxidão no uso dos termos. Há uma tal paralisia na
capacidade de definição, que quase todas as sentenças usando frases atuais
podem ser mal interpretadas. Se eu dissesse: “escravidão sob o
capitalismo”, a palavra “capitalismo” significaria diferentes coisas para
diferentes homens. Significa, para um grupo de escritores (confesso que é o que
significa para mim quando a uso), “a exploração das massas de homens ainda
livres por alguns poucos proprietários dos meios de produção, transporte e
trocas”. Quando a massa de homens é despossuída – nada possui – torna-se
totalmente dependente dos proprietários; e, quando esses proprietários estão
ativamente competindo para reduzir os custos de produção, a massa de homens
que eles exploram não apenas perde o poder de ordenar suas vidas, mas também
sofre necessidades e insegurança.
Mas,
para outro homem, o termo “capitalismo” pode significar simplesmente o
direito à propriedade privada, ao passo que, para outro, significa o
capitalismo industrial trabalhando com máquinas, em contraste com a produção
agrícola. Repito: para dar qualquer sentido à discussão, nossos termos têm
de ser claramente definidos.
Quando
o Papa reinante, em sua Encíclica, falou de homens reduzidos “a uma condição
não muito distante da escravidão”, quis dizer exatamente o que foi dito
acima. Quando a massa de famílias em um Estado está sem propriedade, então,
aqueles que uma vez foram cidadãos, tornam-se virtualmente escravos. Quanto
mais o Estado se intromete para assegurar condições de segurança e suficiência,
quanto mais regula os salários, fornece seguros compulsórios, cuidados médicos,
educação e, em geral, se apodera das vidas dos assalariados, para o benefício
das companhias e dos homens que empregam os assalariados, mais se acentua essa
condição de semi-escravidão. E, se isso continuar durante, digamos, três
gerações, ficará tão completamente estabelecido como um hábito social e
quadro mental, que pode não haver escapatória dele nos países em que o
socialismo de Estado desse tipo tenha sido forjado e gravado no corpo político.
Na
Europa, a Inglaterra em particular (mas muitos outros países em menor grau) se
apegou a esse sistema. Abaixo de um certo nível de renda, garante-se a um homem
a subsistência mínima, caso fique desempregado. É-lhe outorgada pelos funcionários
públicos, às custas da perda de dignidade humana. Todas as circunstâncias de
sua família são examinadas, ele está ainda mais nas mãos desses funcionários,
quando desempregado, do que nas mãos de seu empregador, quando empregado. A
coisa ainda está em transição, a massa de homens ainda não vê para onde está
indo, mas a negação da dignidade humana, a negação em potencial, se não
real, da doutrina do livre arbítrio, levou, como conseqüência natural, ao que
já são instituições semi-servis. Elas se tornarão instituições totalmente
servis com o tempo.
Agora,
contra o mal da escravidão dos salários, foi proposto há muito, e já está
operando, em funcionamento, um certo remédio. O nome mais curto para ele é
comunismo: escravidão ao Estado - muito mais avançada e completa que a
primeira forma, a escravidão ao capitalista.
Da
moderna “escravidão dos salários” só se pode falar metaforicamente. O
homem que trabalha por um salário não está completamente livre, como o homem
de posse da propriedade. Ele tem de fazer o que seu mestre lhe diz, e, quando
sua condição não é a de uma minoria nem mesmo de uma maioria limitada, mas
de virtualmente toda a população, exceto uma classe capitalista
comparativamente pequena, a proporção de liberdade real em sua vida de fato
quase some – embora legalmente ainda esteja lá. O empregado ainda não chegou
ao status do escravo, mesmo nas comunidades mais altamente industrializadas. Seu
status legal ainda é o de um cidadão. Em teoria, ele ainda é um homem livre,
que contratou com outro homem para exercer uma certa quantidade de trabalho por
uma certa quantidade de pagamento. O homem que contrata para pagar pode ou não
lucrar com isso; o homem que contrata para trabalhar pode ou não receber em salário
mais do que o valor do que produz. Mas ambos são tecnicamente livres.
Essa
primeira forma de mal social produzido pelo espírito moderno é mais uma tendência
à escravidão do que escravidão real. Pode ser chamada de meia-escravidão, se
quiser, quando relacionada a vastos empreendimentos – fábricas gigantescas,
corporações monopolistas e outros. Mas ainda não é escravidão completa.
Agora,
o comunismo é escravidão completa. É o inimigo moderno trabalhando
abertamente, sem disfarces e a todo vapor. O comunismo nega Deus, nega a
dignidade e, portanto, a liberdade da alma humana e escraviza abertamente os
homens ao que chama de “o Estado” – mas que, na prática, é um corpo de
funcionários favorecidos.
Sob
o comunismo completo, não haveria desemprego, assim como não é desemprego em
uma prisão. Sob o comunismo completo, não haveria preocupações ou pobreza,
exceto quando os mestres da nação escolhessem matá-los de fome ou lhes dar
roupas insuficientes, ou de qualquer outra maneira oprimi-los. O comunismo
honestamente operado por funcionários livres das fraquezas humanas e devotados
a nada mais que o bem de seus escravos teria certas vantagens materiais
manifestas em comparação com o sistema salarial proletário, em que milhões
vivem em semi-fome, e muitos milhões mais em permanente medo dela. Mas, mesmo
que fosse assim administrado, o comunismo só produziria seus benefícios
mediante a imposição da escravidão.
Esses
são os primeiros frutos do Ataque Moderno no lado social, os primeiros frutos
que aparecem na região da estrutura social. Viemos, antes de a Igreja ser
fundada, de um sistema social pagão, em que a escravidão estava em todos os
lugares, em que toda a estrutura da sociedade repousava sobre a instituição da
escravidão. Com a perda da Fé, retornamos a essa instituição.
Depois
do fruto social do Ataque Moderno à Igreja Católica, está o fruto moral, que
se estende, evidentemente, por toda a natureza moral do homem. E, por todo esse
campo, seu negócio até agora foi o de minar todas as formas de restrições
impostas pela experiência humana agindo através da tradição.
Digo
“até agora” porque, em muitas partes da moral, essa rápida dissolução
dos laços tem de gerar uma reação. A sociedade humana não pode coexistir com
a anarquia: novas restrições e novos costumes surgirão. Portanto, aqueles que
apontam para a degradação moderna da moral sexual como o principal efeito do
Ataque Moderno à Igreja Católica provavelmente estão errados, pois não terá
os resultados mais permanentes. Algum código, algum conjunto de regras morais
tem de surgir, dada a natureza das coisas, mesmo que o velho código seja destruído
nesse ponto. Mas há outros efeitos maus, que podem se mostrar mais permanentes.
Para
descobrir que efeitos esses podem ser, temos um guia. Podemos considerar como os
homens de nosso sangue viviam antes de a Igreja criar a Cristandade. A principal
descoberta é essa: que no âmbito da moral, uma coise se destaca – a prevalência
inquestionável da crueldade no mundo não batizado. A crueldade será o
principal fruto no campo moral do Ataque Moderno, assim como o renascimento da
escravidão será o principal fruto no campo social.
Aqui,
um crítico poderia perguntar se a crueldade não era mais característica dos
homens cristãos do passado do que hoje. Não é toda a história de nossos dois
mil anos uma história de conflito armado, massacre, torturas judiciais e execuções
horríveis, o saque de cidades e todo seu cortejo?
A
resposta a essa objeção é que há uma distinção capital entre a crueldade
excepcional e a crueldade como regra. Quando os homens aplicam punições cruéis,
dependem da força física para obter efeitos, entregam-se à violência na paixão
da guerra, se tudo isso é feito violando sua moral aceita, é uma coisa; se
isso é feito como parte de toda uma atitude mental aceita como tal, é outra.
Aí
está a distinção radical entre essa crueldade nova, moderna, e a crueldade
esporádica dos primeiros tempos cristãos. Não vingança cruel, nem crueldade
na excitação, nem crueldade na punição contra o mal reconhecido, nem
crueldade na repressão do que admitidamente tem de ser reprimido é fruto de
uma filosifia má. Embora essas coisas sejam excessos ou pecados, não vêm de
uma falsa doutrina. Mas a crueldade que acompanha o abandono moderno de nossa
religião ancestral é uma crueldade nativa ao Ataque Moderno, uma crueldade que
é parte de sua filosofia.
A
prova se encontra aqui: que os homens não se chocam com a crueldade, mas estão
indiferentes a ela. As abominações da revolução na Rússia, estendidas àquelas
na Espanha, são um exemplo em questão. Não apenas as pessoas presentes
receberam o horror com indiferença, mas também os observadores distantes. Não
há clamor universal de indignação, não há protesto suficiente, porque não
mais vige o conceito de que o homem como homem é algo sagrado. Essa mesma força
que ignora a dignidade humana também ignora o sofrimento humano.
Digo
mais uma vez: o Ataque Moderno à Fé terá, no campo moral, mil frutos maus, e
desses muitos estão aparentes hoje, mas o característico, presumivelmente o
mais permanente, é a instituição em todos os lugares da crueldade acompanhada
do desprezo pela justiça.
A
última categoria de frutos pelos quais se pode julgar o caráter do Ataque
Moderno consiste no fruto que surge no campo da inteligência – o que ele faz
com a razão humana.
Quando
o Ataque Moderno estava se organizando, algumas gerações atrás, enquanto
ainda estava confinado a um pequeno número de acadêmicos, começou o primeiro
assalto contra a razão. Parecia fazer apenas pequeno progresso fora de um círculo
restrito. O homem simples e seu senso comum (que são os baluartes da razão) não
foram afetados. Hoje são.
Mas
a razão hoje é desprezada em todos os lugares. O antigo processo de
convencimento por argumentação e prova é substituído pela afirmação
reiterada, e quase todos os termos que foram a glória da razão trazem agora
uma atmosfera de desprezo.
Veja
o que aconteceu, por exemplo, com a palavra “lógica”, com a palavra
“controvérsia”. Note essas expressões populares como “nunca ninguém foi
convencido por argumentos”, ou ainda “qualquer coisa pode ser provada”, ou
“pode estar certo na lógica, mas na prática é muito diferente”. A fala do
homem está ficando saturada de expressões que em todos os lugares denotam
desprezo pelo uso da inteligência.
Mas
a Fé e o uso da inteligência estão inextricavelmente ligados. O uso da razão
é a principal parte – ou mesmo o fundamento – de toda a busca das coisas
mais elevadas. Foi precisamente porque a razão recebeu sua autoridade divina
que a Igreja proclamou o mistério – isto é, admitiu que a razão tem seus
limites. Teve de fazê-lo, caso contrário, os poderes absolutos atribuídos à
razão levariam à exclusão de verdades que a razão poderia aceitar, mas não
poderia demonstrar. A razão só foi limitada pelo mistério para acentuar ainda
mais a soberania da razão em sua própria esfera.
Quando
a razão é destronada, não apenas é a Fé destronada (as duas subversões
andam juntas), mas toda a atividade moral e legítima da alma humana é
destronada ao mesmo tempo. Não há nenhum Deus. Assim, as palavras “Deus é
Verdade”, que a mente da Europa cristã usava como um postulado em tudo que
fazia, cessam de ter significado. Ninguém pode analisar a legítima autoridade
do governo nem impor limites a ele. Na ausência da razão, a autoridade política
que repousa na mera força é ilimitada. E a razão é assim tornada uma vítima,
porque a própria humanidade é o que o Ataque Moderna está destruindo em sua
falsa religião da humanidade. A razão é a coroa do homem e, ao mesmo tempo,
sua marca distintiva, e os Anarcas marcham contra a razão como seu principal
inimigo.
O
Ataque Moderno se desenvolve e trabalha assim. Quais os presságios para o
futuro? Essa é a pergunta prática, imediata, que todos temos de confrontar. O
ataque está agora suficientemente desenvolvido para que façamos algum cálculo
do que a próxima fase pode ser. Que tragédia nos abaterá? Ou, mais uma vez,
que boa reação nos trará benefícios? Com essa dúvida, concluo.
O
Ataque Moderno está muito mais avançado do que em geral se percebe. É sempre
assim com os grandes movimentos na história humana. É mais um caso de
“defasagem no tempo”. Um poder, às vésperas de sua vitória, parece estar
apenas a meio caminho de seu alvo – até mesmo detido. Um poder, em todo
desabrochar de suas energias iniciais, parece aos contemporâneos um experimento
pequeno e precário.
O
ataque moderno à Fé (o último e mais formidável de todos) avançou tanto que
já podemos afirmar um ponto importantíssimo claramente: de duas coisas, uma
tem de acontecer, um dos dois resultados tem de ficar definido por todo o mundo
moderno. Ou a Igreja Católica (agora rapidamente se tornando o único lugar
onde as tradições da civilização são compreendidas e defendidas) será
reduzida por seus inimigos modernos à impotência política, à insignificância
numérica e, com relação à apreciação pública, ao silêncio; ou a Igreja
Católica reagirá, nesse caso como em todo o passado, mais fortemente contra
seus inimigos do que seus inimigos foram capazes de reagir contra ela; ela se
recuperará e estenderá sua autoridade e se erguerá mais uma vez à liderança
da civilização que criou e, portanto, recuperará e restaurará o mundo.
Em
uma palavra: ou nós da Fé nos tornaremos uma pequena ilha perseguida e
negligenciada no meio da humanidade, ou seremos capazes de soar ao fim da luta o
velho grito de guerra “Christus Imperat!”.
A
conclusão humana normal nesses conflitos – que um ou outro combatente será
sobrepujado e desaparecerá – não pode ser aceita. A Igreja não desaparecerá,
pois a Igreja não é de matéria mortal; é a única instituição entre os
homens não sujeita à lei universal da mortalidade. Conseqüentemente, não
dizemos que a Igreja será varrida, mas que pode ser reduzida a um pequeno bando
quase esquecido no meio dos vastos números de seus oponentes e de seu desprezo
pela coisa derrotada.
Nem
a alternativa é aceitável. Pois, embora esse grande movimento moderno (que tão
singularmente se assemelha ao avanço do Anti-Cristo) possa ser de fato
repelido, ainda pode perder suas características e morrer como o protestantismo
morrou diante de nossos próprios olhos, mas isso não será o fim do conflito.
Esse pode ser o conflito final. Pode haver uma dúzia ainda por
vir, ou uma centena. Mas ataques à Igreja Católica sempre existirão, e nunca
as disputas dos homens conhecerão completa unidade, paz e elevada
nobreza pela vitória completa da Fé. Porque, se assim o fosse, o Mundo
não seria o Mundo nem Jesus Cristo em luta com o Mundo.
Mesmo
não inteiramente, embora no principal, um desses dois destinos será cumprido:
a vitória Católica ou do Anti-Cristo. O Ataque Moderno é tão universal e se
move tão rápido, que homens agora muito jovens certamente viverão para ver
algo como uma decisão nessa grande batalha.
Alguns
dos observadores modernos mais agudos na última geração e nesta usaram suas
inteligências para descobrir que destino se cumpriria. Um dos católicos
franceses mais inteligentes, um judeu convertido, escreveu um trabalho para
provar (ou sugerir) que nosso destino será o primeiro desses dois desenlaces.
Ele vê os últimos anos da Igreja nesta Terra como dispersa. Ele vê uma Igreja
do futuro reduzida a muito poucos em número e deixados ao largo da corrente
geral do novo paganismo. Ele vê uma Igreja do futuro em que haverá intensidade
de devoção, de fato, mas uma devoção praticada por um pequeno corpo, isolado
e esquecido no meio de seus companheiros.
O
falecido Robert Hugh Benson escreveu dois livros, ambos notáveis e cada um
considerando uma das possibilidades opostas. No primeiro, “The Lord of the
World” (O Senhor do Mundo), ele apresenta o quadro de uma Igreja reduzida a um
pequeno bando vagante, retornando às suas origens, o Papa na cabeça dos Doze
– e uma conclusão no Dia do Juízo. No segundo, ele considera a completa
restauração de tudo Católico – nossa civilização restabelecida,
revigorada, novamente assentada e revestida em sua mente correta, porque, nessa
nova cultura, embora cheia da imperfeição humana, a Igreja terá recuperado
sua liderança dos homens e informará mais uma vez o espírito da sociedade com
proporção e beleza.
Quais
são os argumentos apresentados por cada lado? Sobre que fundamentos devemos
concluir quanto a uma tendência para um caminho ou outro?
No
primeiro caso (o apagar da influência católica, a restrição de nossos números
e valor político às margens da extinção), deve-se notar a crescente ignorância
do mundo acerca de nós, somado à perda daquelas faculdades pelas quais os
homens poderiam apreciar o que o Catolicismo significa e tirar vantagem de sua
salvação. O nível de cultura, incluindo um sentido do passado, afunda
visivelmente. A cada década, o nível é menor que na passada. Nesse declínio,
a tradição está se partindo e derretendo como o degelo ao fim do inverno.
Grandes pedaços dela despencam a todo momento, derretem e desaparecem.
Em
nossa geração, foi-se a supremacia dos clássicos. Encontram-se homens
poderosos por todo lado que esqueceram de onde viemos; homens para os quais
grego e latim, as línguas fundamentais de nossa civilização, são incompreensíveis
ou, na melhor das hipóteses, curiosidades. Os velhos ainda podem se lembrar da
rebelião desconfortável contra a tradição, mas os jovens só percebem por si
mesmos quão pouco foi deixado para se rebelarem, e muitos temem que, antes de
morrerem, o corpo da tradição terá desaparecido.
Que
o estado de ânimo da fé foi grandemente arruinado, certamente arruinado para a
maior parte dos homens, todos admitirão. Isso é tão verdadeiro que já uma
maioria (devo afirmar que é uma maioria muito grande) realmente não sabe o que
a palavra fé significa. Para a maioria dos homens que a escutam (com relação
a religião), significa aceitação cega de declarações irracionais e de
lendas que a experiência comum condena, ou um mero hábito herdado de quadros
mentais que nunca foram testados e que, ao primeiro toque da realidade, se
dissolvem como os sonhos que são. Todo o vasto corpo da apologética, toda a ciência
da teologia (a Rainha exaltada acima de todas as outras ciências) cessaram de
existir para a massa de homens modernos. Basta mencionar seus títulos para
criar um efeito de irrealidade e insignificância.
Já
chegamos nessa estranha passagem – que, embora o corpo Católico (que já é
agora na prática uma minoria, mesmo na civilização branca) compreenda
seus oponentes, seus oponentes não compreendem a Igreja Católica.
O
historiador poderia traçar um paralelo entre o corpo pagão minguante dos séculos
IV e V e o corpo Católico de hoje. Os pagãos, particularmente os pagãos
educados e cultivados, que então viviam em números cada vez menores, conheciam
bem as elevadas tradições às quais estavam ligados e compreendiam (embora
odiassem) essa coisa nova, a Igreja, que cresceu entre eles e estava prestes a
despojá-los. Mas os católicos que iriam suplantar os pagãos compreendiam cada
vez menos o estado de ânimo pagão, neglicenciaram seus trabalhos de arte e
tomaram seus deuses por demônios. Assim, hoje, a antiga religião é
respeitada, mas ignorada.
Aquelas
nações que são, por tradição, anti-católicas, que foram uma vez
protestantes e agora não têm tradições fixas, estão há tanto tempo
prosperando que consideram seus oponentes católicos batidos. Aquelas nações
que mantiveram a cultura católica estão agora na terceira geração de educação
social anti-católica. Suas instituições podem tolerar a Igreja, mas nunca estão
em aliança ativa com ela e freqüentemente estão em aguda hostilidade.
Julgando
por todos os paralelos da história e pelas leis gerais que governam o
crescimento e a decadência dos organismos, poder-se-ia concluir que o papel
ativo do Catolicismo nas coisas do mundo passou, que, no futuro, talvez no
futuro próximo, o Catolicismo perecerá.
O
observador católico negaria a possibilidade da extinção completa da Igreja.
Mas ele também tem de seguir paralelos históricos, ele também tem de aceitar
as leis gerais que governam o crescimento e a decadência dos organismos, e ele
tende, em vista de toda a alteração que passou na mente do homem, a extrair a
trágica conclusão de que nossa civilização, que já cessou em grande parte
de ser cristã, perderá completamente seu tom cristão geral. O futuro a ser
considerado é um futuro pagão, e um futuro pagão com uma forma nova e
repulsiva de paganismo, mas não menos poderosa e onipresente apesar de toda sua
repulsividade.
Agora,
do outro lado, há considerações menos óbvias, mas que apelam fortemente aos
esclarecidos e letrados nas coisas passadas e na experiência da natureza
humana.
Em
primeiro lugar, há o fato de que através dos séculos a Igreja reagiu
fortemente para sua própria ressurreição em momentos do maior perigo.
Na
batalha contra os maometanos estivemos por um triz, quase nos varreu; apenas a
reação armada na Espanha, seguida pelas Crusadas, evitou o triunfo total do
Islã. O massacre dos bárbaros, dos piratas do norte, das hordas mongóis,
trouxeram a Cristandade a um passo da destruição. Todavia, os piratas do norte
foram domados, derrotados e batizados a força. O barbarismo dos nômades
orientais foi finalmente derrotado; muito tardiamente, mas não tarde demais
para salvar o que podia ser salvo. O movimento chamado de Contra-Reforma
enfrentou o até então avanço triunfante dos heréticos do século XVI. Mesmo
o Racionalismo do século XVIII foi, em sua própria terra e tempo, detido e
repelido. É verdade que engendrou algo pior do que ele mesmo; algo de que
sofremos agora. Mas houve uma reação contra ele; e essa reação foi
suficiente para manter a Igreja viva e ainda recuperar-lhe elementos de poder
que se pensou perdidos para sempre.
Sempre
haverá reação, e há na reação Católica uma certa vitalidade, uma certa
maneira de aparecer com força inesperada através de novos homens e novas
organizações. A história e a lei geral do crescimento e decadência orgânicos
levam, em suas grandes linhas, à primeira conclusão, ao rápido apagamento do
Catolicismo no mundo; mas a observação aplicada ao caso particular da Igreja
Católica não leva a essa conclusão. A Igreja parece ter uma vida orgânica,
nativa, bem incomum: um modo de ser único, e poderes de recrudescência
peculiares a ela.
Agora,
prestem atenção a esse ponto muito interessante: as mentes mais poderosas,
mais agudas e mais sensíveis de nosso tempo estão claramente se inclinando
para o lado Católico.
São
certamente, por sua natureza, uma pequena minoria, mas são uma minoria de um
tipo muito poderoso nos assuntos humanos. O futuro não é decidido para os
homens pelo voto público; é decidido pelo crescimento das idéias. Quando os
poucos homens que podem pensar melhor e sentir mais fortemente e que dominam a
expressão começam a mostrar uma nova tendência nessa ou naquela direção,
então, essa ou aquela se destina a dominar o futuro.
Dessa
nova tendência a simpatizar com o Catolicismo – e, no caso dos caracteres
fortes, de correr o risco, de aceitar a Fé e se proclamarem seus defensores –
não pode haver dúvida. Mesmo na Inglaterra, onde o sentimento tradicional
contra o Catolicismo é tão universal e forte, e onde toda a vida da nação
está ligada à hostilidade à Fé, as conversões que atingem os olhos do público
são continuamente conversões de homens que lideram no pensamento; e note que,
para cada um que abertamente admita a conversão, há pelo menos dez que voltam
suas faces para a via Católica, que preferem a filosofia Católica e seus
frutos a quaisquer outros, mas que hesitam em aceitar os pesados sacrifícios
envolvidos em uma aclamação pública.
Finalmente,
há essa consideração muito importante e talvez decisiva: embora a força
social do Catolicismo, em números certamente, e na maioria dos outros fatores
também, esteja declinando por todo o mundo, a disputa entre o Catolicismo e a
coisa pagã completamente nova (a destruição de toda tradição, a ruptura com
nossa herança) está agora claramente marcada.
Não
há, como havia há bem pouco tempo, uma margem confusa e heterogênea ou
penumbra que podia falar de si mesma com confiança sob o título vago de
“Cristã”, e falar confiantemente de alguma religião imaginária chamada
“Cristianismo”. Não! Já há hoje, quase completamente distintas e
dividindo o campo entre elas, em breve tão acentuadamente expostas como preto e
branco, a Igreja Católica de um lado, e os outros oponentes do que foi até
aqui nossa civilização.
As
fileiras se alinharam para a batalha, e, embora essa divisão clara não
signifique que um ou outro antagonista conquistará a vitória, significa que
finalmente se definiu uma disputa clara; e, em disputas claras, uma boa causa,
como uma ruim, tem melhores chances que na confusão.
Mesmo
os mais desorientados ou mais ignorantes dos homens, falando vagamente de
“Igrejas”, estão usando agora uma linguagem que soa oca. A última geração
podia falar, pelo menos em países protestantes, “das Igrejas”. A atual geração
não pode mais. Não há muitas igrejas, há apenas uma. É a Igreja Católica
de um lado, e seu inimigo mortal do outro. O jogo está feito.
Assim, estamos agora na presença da questão mais momentosa que já foi apresentada à mente do homem. Assim, estamos em um divisor de águas, do qual dependerá todo o futuro de nossa raça.
(Traduzido
por Joel Tang Jr.)