EVIDÊNCIA DE PLANEJAMENTO INTELIGENTE*
— Um resumo de “A Caixa Preta de Darwin” —
Como
nós vemos? No século XIX, a anatomia do olho era conhecida detalhadamente, e
suas características assombravam todos que estivessem familiarizados com ela.
Os cientistas da época observaram corretamente que, se uma pessoa fosse tão
infortunada a ponto de lhe faltar uma das numerosas partes do olho, tal como a
lente, a íris ou os músculos oculares, o resultado inevitável seria uma grave
perda da visão ou completa cegueira. Assim, concluía-se que o olho apenas
poderia funcionar se estivesse quase intacto.
Charles
Darwin também estava bem informado sobre o olho. Em A Origem das Espécies,
Darwin lidou com muitas objeções à sua teoria da evolução pela seleção
natural, e discutiu o problema do olho em uma seção do livro apropriadamente
intitulada “órgãos de extrema perfeição e complexidade”. De algum modo,
para que a evolução fosse crível, Darwin tinha de convencer o público que órgãos
complexos poderiam ser formados gradualmente, em um processo de tipo
passo-a-passo.
Ele
o conseguiu de forma brilhante. Inteligentemente, Darwin não tentou descobrir o
caminho real que a evolução pudesse ter tomado para formar o olho. Ao invés,
ele apontou animais modernos com diferentes tipos de olhos, abrangendo do
simples ao complexo, e sugeriu que a evolução do olho humano poderia ter
envolvido órgãos similares como intermediários.
Eis
aqui uma paráfrase do argumento de Darwin: embora os seres humanos tenham olhos
complexos do tipo-câmera, muitos animais sobrevivem com menos. Algumas
criaturas minúsculas possuem apenas um grupo simples de células pigmentadas,
ou pouco mais que um ponto sensível à luz. Mal se pode dizer, deste simples
arranjo, que confere a visão, mas ele serve para perceber luz e escuridão, e
assim atende as necessidades das criaturas. O órgão sensível à luz de
algumas estrelas-do-mar, por exemplo, é algo mais sofisticado. Seu olho se
situa em uma região rebaixada, o que permite ao animal perceber de que direção
lhe chega a luz, uma vez que a curvatura do rebaixamento bloqueia a luminosidade
em algumas direções. Se a curvatura se tornar mais pronunciada, o senso de
direção do olho melhora. Mas a maior curvatura reduz a quantidade de luz que
chega ao olho, reduzindo sua sensibilidade. A sensibilidade pode ser aumentada
pela colocação de material gelatinoso na cavidade para servir de lente. Alguns
animais modernos têm olhos com tais lentes grosseiras. Melhorias gradativas na
lente poderiam, então, prover uma imagem de crescente acuidade, conforme o
determinado pelas necessidades do ambiente do animal.
Utilizando
uma argumentação como esta, Darwin convenceu muitos de seus leitores de que
existia uma trilha evolucionária do mais simples órgão de sensibilidade à
luz ao sofisticado olho-câmera do homem. Mas a questão continua: Como começou
a visão? Darwin persuadiu boa parte do mundo de que o olho moderno evoluiu
gradualmente de uma estrutura mais simples, mas sequer tentou explicar de onde
surgiu esse ponto de partida — o simples ponto sensível à luz. Ao contrário,
Darwin dispensou a questão da origem última do olho.
Como
um nervo vem a ser sensível à luz é uma questão que pouco mais nos interessa
do que a de como se originou a própria vida. Darwin tinha uma excelente razão
para recusar a questão: ela ultrapassava completamente a ciência do século
dezenove. O funcionamento do olho; ou seja, o que acontece quando um fóton de
luz atinge a retina, simplesmente não se podia responder na época. Com efeito,
nenhuma questão sobre os mecanismos fundamentais da vida poderia ser
respondida. Como os músculos dos animais causam o movimento? Como funciona a
fotossíntese? Como se extrai energia dos alimentos? Como o corpo combate as
infecções? Ninguém sabia.
Para
Darwin, a visão era uma caixa preta, mas hoje, após o árduo trabalho
cumulativo de muitos bioquímicos, nós estamos nos aproximando das respostas à
questão da visão. Eis aqui um breve panorama da bioquímica da visão:
[N.
da P. a explicação seguinte, profusa em termos técnicos, é aqui oferecida
como ilustração. O leitor que assim preferir poderá saltar os três parágrafos
seguintes sem prejuízo para a compreensão do argumento do autor. O mesmo vale
para o exemplo do cílio, dado mais adiante]
Quando
a luz atinge a retina, um fóton interage com uma molécula chamada 11-cis-retinal,
que se rearranja em picosegundos e se transforma em transretinal. A mudança
na forma da molécula retinal força uma mudança na forma da proteína
rodopsina, à qual a retinal está fortemente ligada. A metamorfose da proteína
altera seu comportamento, fazendo-a aderir a uma outra proteína chamada
transducina. Antes de se deparar com a metarrodopsina II, a transducina liga-se
fortemente com uma pequena molécula chamada GDP. Mas, quando a transducina
interage com a metarrodopsina II, o GDP se despreende e uma molécula chamada
GTP cola-se à transducina. (A GTP mantém uma estreita ligação com a GDP, mas
é criticamente diferente dela).
A
GTP-transducina-metarrodopsina II liga-se agora a uma proteína chamada
fosfodiesterase, localizada na membrana interna da célula. Quando ligada à
metarrodopsina II e a seu grupo, a fosfodiesterase adquire a capacidade química
de “cortar” uma molécula chamada cGMP (um elemento químico aparentado a
ambas GDP e GTP). Inicialmente, há grande número de moléculas cGMP na célula,
mas a fosfodiesterase reduz sua concentração, como a tampa puxada de um ralo
diminui o nível de água em uma banheira.
Outra
membrana da proteína que se liga à cGMP é denominada de canal iônico. Ela
funciona como um portão que regula o número de íons de sódio na célula.
Normalmente, o canal permite que íons de sódio entrem na célula, enquanto uma
proteína separada os bombeia ativamente para fora. A ação dupla do canal iônico
e da bomba mantém o nível de íons de sódio
na célula dentro de uma faixa estreita. Quando o volume de cGMP é
reduzido devido à divisão efetuada pela fosfodiesterase, o canal iônico se
fecha, fazendo com que seja reduzida a concentração celular de íons de sódio
positivamente carregados. Esse fato ocasiona um desequilíbrio de carga de um
lado a outro da membrana da célula que, enfim, faz com que uma corrente seja
transmitida pelo nervo óptico até o cérebro. O resultado, quando interpretado
pelo cérebro, é a visão.
A
explicação acima é apenas uma visão muito superficial da bioquímica da visão.
Em última análise, no entanto, é isto o que significa “explicar” a visão.
Este é o nível de explicação que a ciência biológica tem de ambicionar.
Para compreender verdadeiramente uma função, deve-se entender em detalhe cada
passo relevante no processo. Os passos relevantes no processo biológico
ocorrem, em última análise, no nível molecular. Assim, uma explicação
satisfatória de um fenômeno biológico, tal como a visão, a digestão ou a
imunidade, tem de incluir sua explicação molecular.
Agora
que a caixa preta da visão foi aberta, não é mais suficiente para uma
“explicação evolucionista” de tal magnitude considerar apenas as
estruturas anatômicas de olhos inteiros, como o fez Darwin no século
XIX, e como os divulgadores da evolução continuam a fazer hoje em dia [1].
Cada um dos passos e estruturas anatômicas que Darwin julgava tão simples,
envolvem, na verdade, processos bioquímicos de espantosa complexidade, que não
podem ser ocultados com retórica. Os simples passos de Darwin se revelaram
saltos enormes entre máquinas cuidadosamente construídas. A bioquímica,
assim, lança um desafio liliputiano a Darwin. A caixa preta das células se
abriu, e o mundo liliputiano que se revela com assombrosa complexidade, precisa
ser explicado.
A
Complexidade Irredutível
Como
poderemos decidir se a teoria de Darwin pode explicar a complexidade da vida
molecular? O próprio Darwin estabeleceu o critério. Segundo ele:
“Se
pudesse ser demonstrada a existência de qualquer órgão complexo que não
pudesse em absoluto ter sido formado por modificações numerosas, sucessivas e
ligeiras, minha teoria cairia por completo. Mas que tipo de sistema biológico
poderia não ter sido formado por modificações numerosas, sucessivas e
ligeiras?“ [Darwin, C. (1872),
Origin of Species, 6a. ed. (1988), New York University Press, Nova
York, pag. 154.]
Ora,
para começar, um sistema que seja irredutivelmente complexo. Complexidade
irredutível é apenas uma frase pomposa que uso para me referir a um
determinado sistema composto de diversas partes que interagem entre si, e no
qual a retirada de qualquer uma das partes faria com que o sistema deixasse de
funcionar.
Vejamos
um exemplo de complexidade irredutível tirado de nossa experiência do
dia-a-dia: a simples ratoeira. As ratoeiras que minha família utiliza consiste
de algumas partes: 1.) uma tabula lisa de madeira para servir de base; 2.) um
martelo (precursor) de metal, que serve para esmagar o pequeno rato; 3.) uma
mola com as extremidades tencionadas para fazer pressão contra a tábua e o
martelo quando a armadilha está armada; 4.) uma trava sensível, que dispara
quando nela é aplicada leve pressão; e 5.) uma barra de metal ligada à trava
e que prende o martelo quando a ratoeira é armada. Contudo, não é possível
capturar uns poucos ratos com apenas uma tábua; e ir capturando mais ao lhe
acrescentar uma mola; e mais ainda ao lhe acrescentar, enfim, uma trava. Todas
as peças da ratoeira têm de estar em seu devido lugar antes de você capturar
qualquer rato. A ratoeira, portanto, é irredutivelmente complexa.

Um sistema de complexidade irredutível não pode ser produzido diretamente por numerosas, sucessivas e ligeiras modificações de um sistema precursor, pois qualquer precursor de um sistema de complexidade irredutível em que falte uma parte, por definição, não funciona. Um sistema biológico de complexidade irredutível, se há tal coisa, será um poderoso desafio à evolução darwiniana. Uma vez que a seleção natural somente pode escolher sistemas que já estejam em funcionamento, então, se um sistema biológico não pode ser produzido gradualmente, ele terá de surgir como uma unidade integrada, de uma só vez, para que a seleção natural tenha algo para afetar.
A
demonstração de que um sistema seja irredutivelmente complexo não é prova
absoluta da impossibilidade de existir alguma rota gradual para sua produção.
Embora um sistema de complexidade irredutível não possa ser produzido
diretamente, não se pode excluir totalmente a possibilidade de uma rota
indireta e tortuosa. Porém, na medida em que cresce a complexidade de um
sistema interativo, a probabilidade de uma tal rota indireta despenca
enormemente. E, na medida em que cresce o número de sistemas biológicos com
complexidade irredutível não-explicados, nossa confiança de que o critério
de fracasso de Darwin foi preenchido cresce ao máximo permitido pela ciência.
[2]
O Cílio
Existem,
contudo, sistemas bioquímicos de complexidade irredutível? Sim, ocorre de
muitos existirem. Um bom exemplo é o cílio. Os cílios são estruturas que
parecem cabelos na superfície de muitas células de animais e de plantas
rasteiras, que são capazes de mover fluido sobre a superfície da célula ou
“remar” células isoladas através de um fluido. Em seres humanos, por
exemplo, as células revestindo a região respiratória têm, cada qual, cerca
de 200 cílios que batem em sincronia para empurrar muco para a garganta a fim
de ser eliminado. Qual é a estrutura de um cílio? Um cílio se compõe de um
feixe de fibras denominado axonema. Um axonema contém um anel de nove microtúbulos
duplos ao redor de um par central de microtúbulos. Cada dupla externa consiste,
por sua vez, de um anel de 13 filamentos (subfibra A) fundidos a um conjunto de
10 filamentos (subfibra A). Os filamentos dos microtúbulos se compõe de duas
proteínas chamadas de tubulina alfa e beta. Os 11 microtúbulos que formam um
axonema se mantém unidos por três tipos de conectores: as subfibras A se unem
aos microtúbulos centrais por meio de raios radiais; as duplas externas de
microtúbulos adjacentes se unem por meio dos enlaces de uma proteína sumamente
elástica chamada nexina; e os microtúbulos centrais estão unidos por uma
ponte de enlace. Finalmente, cada subfibra A leva dois braços, um interior,
outro exterior, ambos contendo uma proteína chamada dineína.
Mas
como trabalha um cílio? Os experimentos têm indicado que o movimento ciliar é
resultado da andadura quimicamente induzida dos braços de dineína sobre um
microtúbulo da subfibra B de um segundo microtúbulo, de modo que os dois
microtúbulos se deslizem respectivamente. Os enlaces cruzados de proteína
entre os microtúbulos em um cílio intacto impedem que os microtúbulos
colidantes se deslizem um sobre o outro, mas com uma certa distância. Assim,
estes enlaces cruzados convertem o movimento de deslizamento induzido pela dineína
em um movimento de todo axonema.
.
Consideremos
agora as implicações disso. Que componentes são necessários para que um Cílio
funcione? O movimento ciliar certamente precisa de microtúbulos; caso contrário,
não haveria filamentos para deslizar. Além disso, precisa haver um motor, senão
os microtúbulos de um cílio permaneceriam rijos e inertes.
Além disso, é necessário que haja enlaces para puxar filamentos
adjacentes, convertendo o movimento de deslizamento em movimento de curvatura e
impedindo que a estrutura desmorone. Todas estas partes são necessárias para
executar uma função: o movimento ciliar. Assim como a ratoeira não funciona a
não ser que todas as suas partes constituintes estejam presentes, o movimento
ciliar simplesmente não existe na ausência de microtúbulos, conectores e
motores. Portanto, podemos concluir que o cílio é um sistema de complexidade
irredutível; uma enorme chave-inglesa jogada na presumida máquina da evolução
gradual darwiniana.
A Literatura Profissional
Outros
exemplos de complexidade irredutível abundam nas células, incluindo aspectos
do transporte de proteína, flagelo bacteriano, transporte de elétron, telômeros,
fotossíntese, regulação de transcrição e muito mais. Exemplos de
complexidade irredutível podem ser encontrados em praticamente qualquer página
de um livro de bioquímica. Mas se estas coisas não podem ser explicadas pela
evolução darwiniana, como tem a comunidade científica considerado estes fenômenos
dos últimos quarenta anos? Um bom lugar para procurar uma resposta a esta questão
é o Journal of Molecular Evolution (JME), revista com alto padrão científico,
editada por figuras exponenciais no campo, criada especificamente para lidar com
o tópico de como ocorre a evolução em nível molecular. Em um número recente
da JME, foram publicados onze artigos; destes, todos onze tratavam apenas da
comparação de proteínas ou seqüências de ADN. Uma comparação de seqüências
é uma comparação de aminoácido por aminoácido de duas proteínas
diferentes, ou uma comparação de nucleóide por nucleóide de duas partes
distintas de ADN, anotando as posições nas quais elas são idênticas ou
similares, e as posições onde não o são.
Embora
seja útil para determinar possíveis linhas de descendência, o que é uma
questão interessante por si só, a comparação de seqüências não pode
demonstrar como um complexo sistema bioquímico veio a funcionar, o que é a
questão que aqui mais nos interessa. Por modo de analogia, os manuais de instrução
para dois modelos diferentes de computadores produzidos pela mesma firma, podem
conter palavras, frases e até parágrafos idênticos, sugerindo um ancestral
comum (tal um mesmo autor escreveu ambos manuais), mas a comparação das seqüências
de letras nos manuais de instrução jamais nos dirão se um computador pode ser
produzido passo-a-passo desde de uma máquina de escrever.
Nenhum
dos artigos discutia modelos detalhados de intermediários no desenvolvimento de
complexas estruturas biomoleculares. Nos últimos dez anos, a JME publicou mais
de mil artigos. Destes, cerca de cem discutiam a síntese química das moléculas,
julgada necessária para a origem da vida; cerca de cinqüenta propunham modelos
matemáticos para melhorar a análise das seqüências; e cerca de 800 eram análises
de seqüências. Não havia um único artigo discutindo modelos detalhados para
intermediários no desenvolvimento de complexas estruturas biomoleculares. Isto
não é uma peculiaridade da JME. Não se pode encontrar nenhum artigo que
discuta modelos detalhados para intermediários no desenvolvimento de complexas
estruturas biomoleculares em publicações tais como Proceedings of the
National Academy of Science, Nature, Science,
Journal of Molecular Biology e, até onde sei, em nenhuma outra
revista.
“Publique
ou pereça” é um provérbio que os membros da comunidade científica levam a
sério. Se você não publicar seu trabalho para que o restante da comunidade o
avalie, então você não tem nada a fazer nessa comunidade, e, se já não
tiver o tempo de serviço que garante a estabilidade, dela será banido. Ora, o
provérbio também pode ser aplicado a teorias. Se uma teoria é dita como
explicação de algum fenômeno, mas não proporciona nem mesmo uma tentativa de
demonstração, ela deve ser banida. A despeito das comparações de seqüências
e da construção de modelos matemáticos, a evolução molecular nunca tratou
da questão de como estruturas complexas surgiram. Na verdade, a teoria da evolução
molecular darwiniana não foi publicada, e portanto deve perecer.
O Reconhecimento do Planejamento
O
que está ocorrendo? Imagine uma sala em que um corpo jaz esmagado, plano como
uma panqueca. Uma dúzia de detetives engatinham-se ao redor, procurando com
lupas alguma pista que leva a identidade do criminoso. No meio da sala, próximo
ao corpo, está um imenso elefante cinza. Enquanto engatinham, os detetives
cuidadosamente evitam esbarrar nas perdas no paquiderme, e jamais erguem o olhar
para ele. Após algum tempo, os detetives se frustram com sua falta de
progresso, mas insistem, e ainda mais atentamente examinam o chão. Ora, os
livros dizem que os detetives têm de “encontrar o seu homem”, e por isso
eles nunca pensam em elefantes.
Há
um elefante numa sala cheia de cientistas que procuram explicar o surgimento da
vida. O elefante se chama “Planejamento Inteligente”. Para alguém que não
se sente obrigado a restringir sua pesquisa a causas não-inteligentes, a
conclusão óbvia é a de que muitos sistemas bioquímicos foram planejados.
Eles não foram formados pelas leis da natureza, pelo acaso ou pela necessidade.
Ao contrário, eles foram planejados. O planejador sabia como os sistemas seriam
quando tivessem sido concluídos, e tomou medidas para torna-los realidade logo
em seguida. A vida na terra, em seu nível mais fundamental, em seus componentes
mais importantes, é o resultado de uma atividade inteligente.
A
conclusão da existência de um planejamento inteligente segue-se de modo
natural dos próprios dados, não de livros sagrados ou crenças sectárias.
A dedução de que os sistemas foram planejados por um agente inteligente
é um processo trivial que não requer novos princípios de lógica ou ciência.
Ao contrário, decorre simplesmente do trabalho árduo realizado pela bioquímica
nos últimos quarenta anos, combinado com o exame da maneira na qual chegamos
todos os dias a conclusões sobre a existência de planejamento.
O
que é um “planejamento”? O planejamento é tão somente o arranjo
intencional das partes. A questão científica é: Como podemos verificar a
existência de planejamento? Isto se pode fazer de várias maneiras, mas o
planejamento pode mais facilmente ser deduzido em objetos mecânicos. Enquanto
se caminha em um depósito de sucata, se pode observar porcas e parafusos, pedaços
de plástico e vidro, em sua maioria espalhados, alguns empilhados, os demais
apoiados uns sobre os outros. Suponhamos que se observe uma pilha que parecia
especialmente compacta e, ao se levantar uma barra que se projetava dela, toda a
pilha avançou com ela. Ao ser puxada, a barra deslizou suavemente para um lado
da pilha e puxou uma corrente presa a ela. A corrente, por sua vez, acionou uma
engrenagem que acionou três outras engrenagens que viraram uma barra, girando-a
suavemente. Conclui-se de imediato que a pilha não era um acúmulo aleatório
de sucata, mas que foi planejada (isto é, foi reunida naquela ordem por um
agente inteligente), pois observa que os componentes do sistema interagem com
grande especificidade para fazer alguma coisa.
Sistemas
constituídos inteiramente por componentes naturais também podem manifestar
planejamento. Suponhamos, por exemplo, que você está passeando em um bosque em
companhia de um amigo. De repente, seu amigo é puxado alto no ar e fica
pendurado pelo pé de uma gavinha, que desde de um ramo de árvore. Depois de
liberta-lo, você reconstrói a armadilha. Nota que a gavinha estava enrolada em
torno do galho, sendo que a extremidade era esticada e presa firmemente ao chão
por uma forquilha. A forquilha estava ligada a outra gavinha — escondida pelas
folhas — de modo que, quando alguma coisa atingisse a gavinha-gatilho, ela
puxasse a forquilha, libertando a gavinha-mola. A extremidade da gavinha formava
um laço com um nó corrediço para agarrar alguma coisa e ergue-la bem alto no
ar. Embora a armadilha fosse feita apenas de materiais naturais, você
concluiria imediatamente quer era produto de planejamento inteligente.
Um
mundo complicado
Uma
palavra de precaução. A teoria do planejamento inteligente tem de ser vista em
seu contexto: ela não tenta explicar tudo. Vivemos em um mundo complexo onde
muitas coisas diferentes podem ocorrer. Ao tentar explicar como várias rochas
vieram a ser modeladas da forma em que foram, um geólogo poderá considerar uma
diversidade de fatores: chuvas, ventos, movimento
de geleiras, atividades de musgos e liquens, ação vulcânica, explosões
nucleares, impacto de asteróides, ou a mão de um escultor. A forma de uma
rocha pode ser primariamente determinada por um mecanismo, a forma de outra
rocha, por outro mecanismo. A possibilidade de um impacto de meteoro não
significa que os vulcões devam ser ignorados , e a existência de escultores
tampouco quer dizer que muitas rochas não sejam modeladas pelo intemperismo. Da
mesma forma, biólogos evolucionistas reconheceram que certo número de fatores
pode ter afetado o desenvolvimento da vida: ascendência comum, seleção
natural, migrações, tamanho de populações, efeitos de fundador (efeitos que
talvez se devam ao número limitado de organismos que iniciam uma nova espécie),
deriva gênica (a disseminação de mutações “neutras”, não-seletivas),
fluxo gênico (a incorporação em uma população de genes de uma população
separada), ligação (ocorrência de dois genes no mesmo cromossomo), impulso
meiótico (seleção preferencial durante a produção de células sexuais de
uma das duas cópias de um gene herdado de um mecanismo parental), transposição
(transferência de um gene entre espécies separadas por meios não-sexuais) e
muito mais. O fato de que alguns sistemas bioquímicos possam ter sido
planejados por um agente inteligente não implica que qualquer um dos outros
fatores não seja atuante, comum ou importante.
De
forma cada vez mais curiosa
Assim,
ao final desta palestra, chegamos ao que parece a muita gente ser uma estranha
conclusão: a vida foi projetada por um agente inteligente. De certa maneira,
porém, todo o progresso da ciência nos últimos séculos tem sido uma marcha
contínua rumo ao estranho. As pessoas, até a Idade Média, viviam em um mundo
natural. A estável terra era o centro de tudo; o sol, a lua, as estrelas
giravam interminavelmente para dar luz de dia e de noite; os mesmos animais e
plantas eram conhecidos desde a antiguidade. Eram poucas as surpresas.
Então,
foi proposto, absurdamente, que a terra ela própria movia, girando, enquanto
descrevia círculos em torno do sol. Ninguém podia sentir a terra girar; ninguém
o podia ver; mas ela girava. Desde nosso moderno ponto de observação, é difícil
fazer idéia do assalto desferido contra os sentidos por Copérnico e Galileu.
Eles disseram, com efeito, que o homem não mais podia confiar nem mesmo nas
evidências que seus olhos percebiam.
As
coisas pioraram cada vez mais com o passar dos anos. Com a descoberta dos fósseis,
tornou-se patente que os animais familiares do campo e da floresta nem sempre
estiveram na terra; o mundo fora alguma vez habitado por imensas e estranhas
criaturas, que agora se foram. Um pouco depois, Darwin chocou o mundo ao
argumentar que a familiar biota descendia de bizarras formas de vida
desaparecidas nos confins de um tempo incompreensível para mentes humanas.
Einstein nos disse que o espaço é curvo, e o tempo relativo. Físicos modernos
dizem que os objetos sólidos são, na maior parte, espaço vazio, que as partículas
subatômicas não têm posição definida, que o universo teve um começo.
Agora chegou a vez de a ciência fundamental da vida, a bioquímica, bagunçar um pouco as coisas. A simplicidade que antes se considerava ser o alicerce da vida se revelou uma ilusão; em vez disso, sistemas de complexidade irredutível, espantosa, residem na célula. A compreensão resultante de que a vida foi planejada por uma inteligência é um choque para nós no século XX, que nos acostumamos a pensar nela como resultado de leis naturais simples. Outros séculos, porém, também tiveram seus choques, e não há razão para pensar que deveríamos escapar deles. A humanidade continuou, enquanto o centro dos céus passava da Terra para além do Sol, à medida que a vida se expandia para abranger répteis a longo tempo extintos, na proporção em que o universo eterno mostrou que era mortal. Nós sobreviveremos à abertura da Caixa Preta de Darwin.
["Evidence
for Intelligent Design from Biochemistry", Michael Behe]
Notas:
[*]
O título original deste texto é “Evidence for Intelligent Design from
Biochemistry”, e se trata da transcrição de uma palestra dada pelo autor
no Discovery Institute, em 1996. O subtítulo é de
nossa autoria. Em muitas passagens — mas não em todas — onde o autor
reproduzia textualmente passagens de “A Caixa Preta de Darwin”, reproduzimos
nós os trechos correspondentes da tradução brasileira, de Ruy Jungmann (A
Caixa Preta de Darwin, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997).
[1]
N. da P.: Noutro texto, ao comentar este exato ponto, o autor foi ainda mais
claro: “A anatomia [nesta questão] é simplesmente irrelevante, como também
o é o registro de fósseis. Não importa se o registro dos fósseis coincide
com a teoria evolucionista, assim como não importava se, na física, a teoria
de Newton coincidia com a experiência quotidiana. O registro dos fósseis não
tem nada a dizer sobre, por exemplo, se as interações da 11-cis-retinal
com a rodopsina, transducina, e fosfodiesterase
poderiam ter se desenvolvido passo-a-passo.” [cf.
Molecular Machines: Experimental Support for the Design Inference,
Michael Behe]
[2]
N. da P.: “Um pesquisador igualmente eminente, L. von Berthalanffy, dizia que
o jogo de forças naturais inorgânicas não poderia ter realizado a formação
de uma célula, e que o nascimento fortuito de um carro em uma mina de ferro
seria coisa pequena se comparado com a formação espontânea de uma célula.”
(Oscar Kuhn, Biologie Allemande Contemporaine, La Pensée Catholique no.
31, os grifos são nossos). O leitor aqui certamente tirará grande proveito da
leitura das lúcidas páginas de Gustavo Corção sobre “Probabilidades
Excessivamente Pequenas”, in As Descontinuidades da Criação,
publicado pela Editora Permanência, “Antes de abordarmos, com o material
científico até aqui apresentado, a interpretação filosófica e teológica,
que é o objeto principal deste trabalho, demoremo-nos a remover um obstáculo
que freqüentemente se atravessa em nosso caminho: a idéia de que o improvável,
por mais improvável que seja, acontecerá desde que dêem tempo ao tempo. Em
regra geral, as pessoas que se inclinam entusiasticamente sobre as formas mais cômicas
do evolucionismo contam com o tempo, um pouco como os reformadores apressados
contam com o tesouro nacional, ambas as coisas parecem-lhes infinitas. Ora,
tanto no espaço como no tempo o universo é muito menor do que parece aos que
contam com a amplidão para a espera de probabilidades da ordem de P=10-500
ou 10-1000”. Mais adiante, citando E. Borel: “Um matemático
furiosamente abstrato poderia pretender que bastasse recomeçar a experiência
um número suficiente de vezes, um número representado por vinte milhões de
algarismos, por exemplo, para ter, ao contrário, a certeza de que o milagre se
produziria muitas vezes no decurso dessas inumeráveis experiências (...). Mas
é humanamente impossível imaginar que a experiência seja renovada tantas
vezes”. ![]()