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A PROCURA DA SANTIDADE
A nossa circular aos assinantes de PERMANÊNCIA valeu-nos uma
porção de cartas e listas de assinaturas, pedindo ao Papa
a recuperação da missa que a Igreja sempre celebrou.
Estas cartas foram enviadas a Roma apesar de sua insignificância
e do pouco que podem pesar, para influir no curso dos acontecimentos.
Mas, impressionaram-nos. São cartas comoventes, inclusive de
muitos padres, quase todas acompanhadas de palavras de encorajamento
para nós da PERMANÊNCIA. Porém, o que mais nos
impressionou foram as palavras de horror que nos chegam de todos os
pontos do país, horror e angústia diante do estado a que
chegou a Cristandade: os abusos que se multiplicam, de padres e bispos
a fomentar ressentimentos e a hospitalizar o Governo o tempo todo;
agentes da pastoral a influir sem cessar pela
esquerdização da mentalidade comum nos meios
católicos; missas sacrílegas; profunda estupidez em
matéria de doutrina, pregada dos púlpitos, além do
mais com evidente satisfação dos pregadores consigo
mesmos; descristianização cada vez maior dos ambientes,
das palavras, da atitude, das preocupações de sacerdotes
e bispos em todo o Brasil!
Estas almas aflitas dos que nos lêem e nos estimam, precisam de
nossas orações. Uma das cartas que recebemos diz:
“rezem por mim também pois não é
fácil resistir e permanecer quando nem à igreja se vai
mais. Quem diria, Deus meu! Eu que assistia duas missas
diariamente...”
Suplicamos ao Senhor do Céu, que nos contempla e vê e
sabe, o seu socorro. Nossa alma transborda. Que sua Mãe
Santíssima proteja os seus outros filhos, cujo sofrimento
decorre do anseio de defender sua fé.
Mas a verdade — dizemo-lo pensando no bem das almas —
é que esse sofrimento que nos angustia cada vez mais, foi
também ocasião de graças espantosas que vimos
recebendo nos últimos anos, mediante as quais redescobrimos a
antiga sabedoria da Igreja, tocados ao mesmo tempo por Deus com um
espírito de penitência e ardente desejo de progredir na
caridade.
Só castigados é que aprendemos. Tivemos à nossa
disposição durante séculos, tanto quanto hoje,
toda a imensa e riquíssima doutrina dos santos que trilharam o
caminho da santidade, mas limitávamo-nos a admirar enternecidos
esta ou aquela história de santos, este ou aquele
episódio. A verdadeira face da Casa construída sobre a
pedra de Pedro ficara escondida sob o limo da mediocridade que ora
atingia o comportamento de autoridades eclesiásticas e de
fiéis, em meio a escândalos como o de Papas renascentistas
ou a simonia generalizada, ora a mentalidade comum, deformada de tal
sorte, bem nos lembramos todos, que dizíamos, por exemplo:
“isso não é conosco, não somos
santos”, uma espécie de atitude que implicava
também em não termos nada que ver com a santidade.
É pois de espantar que na Santa Visibilidade da Igreja, hoje
difícil de perceber onde está, se tenha concentrado a
Grande Crise em que tombou a Cristandade? Crise sem igual em toda a
história e cuja essência é de tal ordem que, temos
consciência disso, não pode haver tragédia pior
senão em termos de grau, de intensidade, de extensão. Em
termos de natureza, não.
* * *
Se o Senhor permitiu que sofrêssemos todo o horror do que hoje
nos assola — e é sobretudo horrível ver agora uma
atoarda enorme de vozes eclesiásticas, cuja linguagem
está em evidente discordância com a autêntica,
antiga e perene doutrina da Igreja sem que tal discordância
pareça abalar o universo como seria de esperar — Ele
não poderia deixar de socorrer-nos, aos simples fiéis,
com as graças adequadas. Tão extraordinários como
são os tempos, tão grave como é essa
profundíssima e terrível crise, pediriam, evidentemente,
graças especiais, igualmente grandiosa para que nós, os
pobres e infelizes membros do corpo discente e dirigida da Igreja
pudéssemos enfrentar, cumprindo o nosso papel, as
insídias do Inimigo que invadiu os nossos átrios, segundo
a expressão do próprio Paulo VI que tem sobre sua
memória, indiscutivelmente, a responsabilidade maior por todo
esse descalabro, do qual restam ruínas fumegantes em torno, para
quem ainda tem olhos de ver.
Graças especiais extraordinárias, nos foram dadas. Temos
diversos sinais disso na vida de todos nós; de uns, para que,
gemendo, constatem que ainda resistem, embora a angústia e a
aflição pareçam, às vezes, esmagar-lhes o
peito; de outros para, infelizmente, terem que responder um dia pelo
mau uso que fizeram delas, às vezes por rejeição
imediata do socorro que lhes fora dado, com o que, ainda por cima,
cometem injúria contra Deus. Todos se lembram, certamente, o
quanto era comum pensar-se e como todos nós pensamos que assim
devíamos pensar, que certas obrigações não
nos dizem respeito porque “não somos santos”, como
acima mencionamos. Essa idéia estabelecia uma divisão
entre alguns homens, chamados à santidade e os demais para os
quais apenas uma espécie de lista de regras de comportamento se
tinha por obrigatória. A santidade eminente dos altares, esta,
realmente, é dom de Deus apenas para algumas almas grandes,
lâmpadas ardentes, que o próprio Senhor Deus acende como
farol e guia para os outros homens. Mas estes, para os quais tais guias
são propostos, que espera o Senhor deles? Como não ver o
imperativo “sede perfeito como vosso Pai celeste é
perfeito” se dirige a todos e como não compreender que
para isso são acesas as lâmpadas? A santidade
não-eminente, escondida no dia-a-dia e na pequenez de nossa
condição atual, é dever de todos. É para
busca-la que estamos aqui. É por ela que Deus nos fez. É
ela a longa aprendizagem do amor divino que Deus quis para nós
antes de admitir-nos no céu. Por quê? Porque o Senhor,
criador do céu e da terra, não quis tirar do nada uma
multidão inumerável de pequenos robôs, os quais,
dando-se corda, repetissem com voz de lata: “Santo, santo,
santo...” O senhor não quis tirar do nada e até
tomou como sua a nossa natureza e a assumiu para vencer o pecado e o
mal pela entrega de seu próprio Filho à morte de Cruz,
para que pudéssemos aprender a receber docilmente a Sua
graça e recebendo-a, e cada vez melhor,
alcançássemos a santidade que nos faz dizer, “Abba,
pai”, como um filho amoroso cujo coração
experimenta dor só com a lembrança de poder de algum modo
ofender ou contristar a vontade daquele que o gerou.
Redescobrimos a antiga e permanente sabedoria da Igreja. Reencontramos
o fio que aproxima, sobre os séculos, o ensinamento dos mestres
verdadeiros da Santa Igreja Católica, o Magistério
infalível, a experiência dos santos que este
Magistério canonizou para nosso exemplo, do júbilo
interior das almas que progridem de claridade em claridade, recebendo
graças sobre graças como nos diz São Paulo.
No nosso caso particular, dos homens de nosso tempo, o Senhor nos
deixou as obras do grande doutor da Igreja, o Padre dominicano Reginald
Garrigou-Lagrange que tomou para si a doutrina comum de São
Tomás de Aquino e de São João da Cruz, de Santa
Teresa d’Ávila, de São Francisco de Sales, de Santa
Terezinha e inúmeros outros grandes doutores dessa antiga
ciência mística que o Magistério da Igreja aprovou
especificamente em inúmeros atos e pronunciamentos.
O Padre Garrigou bateu-se sobretudo pela afirmação, que
hoje nos é mais fácil compreender (e esta é outra
graça extraordinária que recebemos) de que a
santificação pessoal tem uma dimensão normal, isto
é, à medida do homem comum; que é
obrigação de todos procura-la e para todos há um
modelo pessoal de santificação que pode e deve ser
buscado com a ajuda da graça de Deus.
Em grandes livros: “Perfection Chrétienne et
Contemplation”, “L’Amour de Dieu et la croix de
Jesus”; “Les trois ages de la vie interieure” e
muitos outros, o prof. Garrigou-Lagrange, que durante muitos anos foi
professor de Teologia Mística no Angelicum de Roma, é
mais do que um mestre; é um diretor de almas, que devemos ler
já caminhando no caminho que nos cabe seguir; já
renunciando de modo absoluto e decisivo — primeiro passo desse
caminho — a qualquer apego, a qualquer coisa que seja pecado,
quer o pecado mortal, quer o pecado venial deliberado; já
procurando discernir em nossa vida particular quais os traços
específicos da nossa cruz, não a que possamos inventar,
mas a que Deus, Ele mesmo, mestre carpinteiro, talhou para nós
segundo a nossa capacidade, que só Ele conhece bem.
Dedicamos pois este número de PERMANÊNCIA aos nossos
queridos leitores afligidos em sua fé, chamando-lhes a
atenção para a suavidade do amor de Deus, bálsamo
que apaziguará nossa alma. Voltemo-nos para os antigos e perenes
caminhos da Santa Igreja Católica e, deixando de lado os
eclesiásticos exaltados, supliquemos a Deus a vida de
perfeição, o refrigério da Cruz, a alegria da Sua
presença. Ele não quer que queiramos outra coisa.
Chamou-a, Ele mesmo, “o único necessário”
(Lucas, 10, 24). Como imaginar que nos dará pedras, se
suplicamos pão? Se nós, que somos maus, sabemos dar bons
presentes a nossos filhos, quanto mais nos dará seu
Espírito Santo aquele Senhor que é a própria
Bondade subsistente (Lucas 11, 11-13).
* * *
A redescoberta desse patrimônio e a compreensão dos
grandes princípios e do caráter fundamental da verdadeira
sabedoria católica da Igreja, postas ao alcance de pessoas
comuns com nós, eis a prova maior das graças
extraordinárias com que fomos socorridos para podermos suportar
a crise extraordinária que a Igreja sofre em nossos dias.
É por isso que compreendemos também que nossa bandeira
não pode ser apenas o combate pela fé, mas também
levar aos nossos leitores aquela descoberta, o mesmo senso da
obrigação que temos e ainda mais, digamos sem receio e
para o bem de quem nos lê, a imensa responsabilidade que temos
todos nós quanto a seguir este caminho, pôr em
prática esta doutrina, procurar o Senhor Jesus, desejar a Sua
vinda. São estas últimas as palavras com que termina a
Revelação Escrita que nos foi deixada: “Maranatha,
Vem Senhor Jesus” (Apoc. 22, 20).
PERMANÊNCIA, N° 144-145, Novembro-Dezembro de 1980.
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