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entrevista
com dr. Julio Fleichman |
Alguns anos antes de falecer, após 35 anos de militância como presidente da Permanência, Júlio Fleichman narrou sua trajetória ao lado de Gustavo Corção — o mais firme de nossos polemistas católicos — os eventos decisivos na formação de seu posicionamento diante desta terrível crise de nosso tempo, e de seu combate aos inimigos da Igreja.
Hoje, os membros de Permanência e os novos católicos que vão se convertendo à defesa da Tradição, reúnem-se na Capela S. Miguel Arcanjo, às sextas e domingos, no Cosme Velho, para assistir a "Missa de sempre" — a Missa Tridentina, celebrada por D. Lourenço Fleichman, OSB — e prosseguir no combate.
Como foi o seu encontro com Gustavo Corção?
Como o senhor chegou a conhecê-lo?
Eu
era um judeu já adulto e tinha um amigo chamado Frederico de Carvalho. Éramos
um grupo de três ou quatro amigos, e nos encontrávamos à noite para andar
pelas ruas discutindo tudo. Discutíamos cultura, arte, filosofia, política —
tudo provavelmente na base da opinião. O Frederico de Carvalho, que era mais
velho e não participava muito das discussões, costumava sediar as conversas em
sua casa, pois era o único casado. Ele conhecia um lugar chamado "Resistência
Democrática", que havia sido fundado por escritores e políticos católicos,
e por um socialista de tipo raro, chamado Hílcar Leite, de um tipo que hoje em
dia não existe mais, por ser de uma idoneidade intelectual fora do comum. Essa
instituição tinha grandes personalidades, como Fernando Carneiro, Barreto
Filho e Gustavo Corção, e lá aconteciam debates freqüentemente muito engraçados.
O
fato é que o Frederico nos levou a esse ambiente e nos falava de Corção, que
então havia lançado seu primeiro livro, "A descoberta do outro",
saudado pela crítica como uma verdadeira revelação — chegou a ser comparado
a Machado de Assis. Comecei a freqüentar esse grupo e me encantei. Na época, não
era religioso, não era judeu praticante. Também nunca tinha me envolvido
diretamente com política; tivera simpatias pelo comunismo, mas só. No entanto,
eu estava então muito interessado no assunto. Nos debates, Gustavo Corção
ganhava sempre, porque era muito vivo, muito culto, muito engraçado, e logo
atraía a atenção de todos. Interessei-me muito por ele e ouvi dizer que ele
tinha um curso, que dava aulas de religião no Centro Dom Vital, que naquele
tempo era na Praça Quinze. Era um prédio que pertencia ou era emprestado à Cúria,
e tinha lá os cursos religiosos, entre os quais o do Corção. E eu fui para lá.
Embora
não fosse religioso, me interessava particularmente pela sua inteligência.
Havia nessas aulas umas dez ou doze pessoas. Eram todos moços, mas, em geral,
casados e mais velhos do que eu. Naturalmente, como católicos, olhavam-me como
uma presa a ser capturada, com interesse por minha conversão; discutíamos
muito fora das aulas, sobretudo política. Eu ficava furioso, porque ainda
nutria simpatias pelo comunismo e eles eram amigos de Carlos Lacerda, que, nessa
época — isso foi em fins de 1949 — estava fundando a "Tribuna da
Imprensa". Carlos Lacerda era cronista do "Correio da manhã", eu
não o lia e não gostava dele. Fiquei irritado com sua campanha contra o
candidato comunista nas eleições de 1950, que se chamava Fiúza, e ele
apelidara de “Rato Fiúza”.
Na
"Tribuna da imprensa" Corção escrevia uma pequena crônica, sempre
muito engraçada, e me encantei por sua personalidade e inteligência.
Naquela
época, eu era um leitor ávido, lia tudo que me caía nas mãos. Li um livro de
um escritor inglês chamado G. K. Chesterton, um católico polemista muito vivo,
amigo, mas oponente, de Bernard Shaw, e um livro de São Tomás. Fiquei furioso
com aqueles livros.
Um
dia, um amigo meu virou-se para mim e perguntou por que eu tinha toda aquela
gana. Por que essa raiva toda? Eu olhei para ele e não soube o que
responder.
Depois,
caiu-me nas mãos um livro de S. Kierkegaard, A angústia humana. Eu
gostava de andar na rua pensando nas coisas que lia, até que um dia, de
repente, me aconteceu uma espécie de ajuste. Foi como se dentro da minha alma
alguma coisa que estava distorcida, contorcida, se colocasse no lugar. E me deu
um vento interior de sanidade — não tive nenhuma revelação, mas senti uma
espécie de alívio, como se eu, enfim, entendesse certas coisas. Até então eu
tinha uma reputação de doutor-sabe-tudo junto a meus amigos. O fato é que
tudo que me aparecia, inclusive o catolicismo, que eu desprezava, eu enquadrava
numas certas colocações que, no fundo, significavam que eu julgava que sabia
tudo, que tinha o mundo todo mais ou menos equacionado.
Com
esse livro do Kierkegaard, e com esse ajuste, eu de repente me dei conta de um
universo que eu simplesmente não sabia que existia, que era o da minha alma, do
meu eu interior. A minha vida interior era angustiada, sem que eu o percebesse.
Era a angústia de uma distorção espiritual em que as pessoas vivem sem nem
perceber. Era o meu caso.
As
coisas que eu estava lendo começaram a fazer sentido. Comecei a ver que a tal
cultura, a tal mentalidade que eu tinha, dentro da qual pensava caber o mundo
inteiro, era uma caixinha de fósforos pequenina e errada; e o universo, uma
coisa muito mais ampla, complexa e rica do que a minha caixinha.
Com
isso, com a freqüência ao Centro Dom Vital, e depois ao mosteiro de São
Bento, eu acabei pedindo a dom Marcos Barbosa que me batizasse. Na primeira vez
que ele marcou, eu não fui, fugi, mas depois fui finalmente batizado. Frederico
de Carvalho foi o meu padrinho. Apareceram três freiras do Colégio Sion a quem
Corção tinha pedido que rezassem pela minha conversão. Afinal, me converti e
nunca mais deixei o Corção e segui firme no caminho que tinha que seguir.
Comecei
a ajudar Corção na medida do possível. O Centro Dom Vital fora fundado por
Jackson de Figueiredo no princípio do século. Era uma organização que reunia
escritores católicos, e cujo presidente, então, era o Alceu Amoroso Lima.
Quando comecei a freqüentar o Centro, procurei assistir às aulas dele, mas
logo me enchi. Vi que tudo aquilo era meio sumário, apesar de sua grande fama
de scholar. Um esquerdista da época, Joaquim Pimenta, dizia que a
cultura do Alceu era uma cultura de fichário — e devia ser mesmo. Ele dividia
todos os problemas em três e então tratava deles. Para um novato, no princípio,
era muito interessante, porque ele simplificava os problemas e os resolvia, mas
logo descobríamos que não era assim, que aquilo era muito simplório.
Em
1963, o Alceu começou a tomar posições esquerdistas e entrou em conflito com
Corção, que era o vice-presidente. Então, saímos do Centro Dom Vital e, mais
tarde, em 1968, fundamos a Permanência.
A
Permanência foi fundada com todo o apoio do episcopado da época, o
cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro celebrou a missa de fundação. Alugamos um
espaço na casa de umas polonesas, e lá tínhamos nossas conferências e
missas.
Com
a missa do cardeal, foi fundada religiosamente a Permanência. A fundação jurídica
foi feita por mim, a fundação política foi feita por uma conferência de Corção
no auditório do Ministério da Educação, que ficou completamente lotado.
A fundação da Permanência acontece
apenas por causa da divergência com o dr. Alceu, ou já tem em vista o Concílio?
Não,
nessa época ainda não nos dávamos conta do que acontecia na Igreja. Ainda não
tínhamos em vista o Concílio.
Uma
das finalidades do Centro Dom Vital era o apostolado católico no plano da
inteligência. Nós fundamos a Permanência para prosseguir com esse objetivo e
também para combater os comunistas, como já fazíamos no Centro Dom Vital.
Quando perdemos o Centro, fundamos a Permanência para prosseguir com as aulas
de Corção e publicar a “Revista Permanência”, que durou 22 anos.
A respeito das divergências entre o Corção e o doutor Alceu, uma visão
superficial leva muitos a acreditar que se tratava de um problema meramente político
— mas o
problema era mais profundo.
Justamente.
Escrevi um livro chamado A crise é de fé e é grave. Essas palavras do
título foram, para mim, bênçãos do céu e me socorreram diante desse debate
e diante do caráter que tentavam atribuir a ele. Naquele tempo nós ainda não
avaliávamos bem as coisas. Ninguém pensaria que um dia o Papa iria desonrar a
Igreja ou pôr a Igreja em risco de perder a fé. Ninguém imaginaria uma coisa
dessas e nos consideraríamos pecadores se fôssemos ter essa idéia e tentar
expô-la.
O
que víamos nesse tempo, aqui no Brasil, quando tínhamos muito pouca notícia
do que se passava no mundo, era que uma porção de personalidades católicas
começara de repente a tomar partido a favor da esquerda. Isso nos deixava
indignados. E víamos que, além disso, escreviam coisas estranhas.
O
Alceu, em 63, escreveu um artigo de página inteira no Jornal do Brasil
sobre o problema do Concílio, que, como Corção veio a dizer depois, era uma
espécie de “Encíclica do Alceu”; nela defendia que a Igreja das condenações
tinha morrido para ceder lugar à Igreja do diálogo, à Igreja da compreensão
fraterna. E o Alceu honrava Dom Hélder Câmara, que honrava os terroristas; e
veio o Leonardo Boff, com a teologia da libertação.
Nós
víamos que isto não era só um problema político. Diziam-nos que não podíamos
“agredir” o Alceu, pois éramos irmãos católicos, e não devíamos dar
essas demonstrações públicas de divergências entre irmãos, e que a nossa
divergência era meramente política. Nós sabíamos que não era. Mas não
tínhamos nem apoio, pois os bispos já estavam calados e não nos ajudavam, nem
uma compreensão mais profunda do problema, que, para nós, era muito difícil
de investigar a fundo. E nos perguntávamos: E Roma, por que é que não fala? E
os bispos?
O
cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara, gostava de nós, e nos
convidou para um encontro quando da discussão com Alceu a respeito do Centro
Dom Vital. Ele nos disse: vocês fiquem, quem vai sair é ele. Mas passou o
tempo e ele não saiu.
Dom
Jaime tinha mandado uma carta para o Alceu pedindo a ele que renunciasse, mas
ele respondeu: não renuncio; o senhor que me demita. O que é uma atitude de
insubordinação; mas eles podem fazer isso, nós é que não podemos...
Um
dia, Dom Jaime estava na Igreja do Cristo Redentor, que era nossa Igreja
paroquial nesse tempo. Logo depois entrou o Sobral Pinto com um papel na mão, e
brandiu o papel no nariz do cardeal. O cardeal ficou receoso de tomar uma
atitude pública e recuou.
Mas
tarde, ele nos renovou o convite para um encontro pessoal. E lá fomos, Corção,
Gladstone Chaves de Melo e eu. Ele começou dizendo que devíamos estar
desapontados com ele, e fez uma pausa. Corção disse: “Senhor Cardeal, eu não
creio que o senhor queira que comecemos esta entrevista mentindo. Devo dizer,
com toda franqueza, que nós estamos realmente decepcionados.”
O
encontro, enfim, ficou na conversa, e o cardeal não fez nada. Ele se sentia
tolhido, e mais tarde ficamos sabendo que Roma não deixava que os cardeais
tomassem certas atitudes. O fato é que, então, saímos nós do Centro Dom
Vital e fundamos a Permanência.
Foi
neste momento que corremos nós o mais grave risco de perder a fé, de entrar
nessa onda de lama e matéria fecal, que mistura os tons, os matizes e torna as
pessoas prontas a acreditar em tudo, aceitar todas as mudanças, e encontrar
fraternidade com os pulhas.
Tivemos
a ajuda preciosa de um autor que não era católico, mas a quem repugnava essa
miscigenação, essa falta de nitidez no combate, o Nelson Rodrigues. Ele
escreveu uma série de artigos ironizando o Alceu, o dom Hélder, e honrando o
Corção. Chegou a escrever um artigo chamado "Carta a um milionário
paulista", onde dizia que era preciso manter a Permanência. Foi numa época
em que estávamos praticamente sem dinheiro.
O
fato é que quase não tínhamos ajuda. O risco que corremos nesse tempo foi o
da tentação de pensar "Será que é mesmo só um debate político e
estamos faltando com um dever de caridade?" Mas caridade não é isso que
eles dizem. Caridade começa com a verdade. E às vezes começa com o bastão,
com o vergaste, com o chicote. No Antigo Testamento está escrito que o pai que
poupa seu filho da vara tem ódio à sua alma. Poupar aí se refere a não
castigar o filho que agiu mal.
Nessa
época andava muito aflito com essa situação. Eu sabia que era um
problema religioso. Nessa hora, por uma misericórdia do Céu, o
cardeal-arcebispo de Buenos Aires, dom Caggiano, diferentemente do cardeal do
Rio, disse publicamente as palavras: Não, a crise é de fé e é grave!
Bendito seja Deus! Se é assim, tudo mais eu entendo. Agora está tudo claro.
Agora eu sei o que eu tenho de fazer, quem é o inimigo, e como eu devo
conduzir-me na guerra que concerne a mim.
E
sei também qual é a pérola preciosa que precisa ser preservada acima de tudo.
Pérola a respeito da qual Nosso Senhor Jesus Cristo usou a mais violenta
linguagem que já se ouviu até hoje. E note que ele não fala assim por causa
de qualquer pecado: não é por causa do pecado da carne, não é pelo pecado de
roubo, não é por nada disso que ele usa esta linguagem. É por causa do que se
chama em teologia de "escândalo". E escândalo quer dizer "pôr
outrem ou você mesmo em risco de perder a fé". É por causa da fé. Se
a tua mão te escandaliza, corta-a; se o teu olho te escandaliza, mete o dedo no
globo ocular e arranca-o. Você já viu alguém usar uma linguagem tão violenta
assim? Arranca o olho com o dedo, porque é melhor entrar no reino dos céus com
um olho só do que ir com os dois para o inferno.
Isso
Nosso Senhor disse por causa da fé. E quem conhece um pouco a doutrina católica
sabe que essa é a pérola escondida, esse é o fermento que leveda a massa,
essa é a jóia pela qual é preciso dar a vida. Tudo o mais decorre dela.
Então,
se alguém mexeu com a fé, já sabemos o que fazer. Não é possível aceitar
nada que venha nesse sentido.
E o Corção, nisso tudo?
Esse
livro que eu escrevi é sobretudo a história do combate do Corção: a
história de como a crise da Igreja foi chegando ao Brasil. Porque, com essas
palavras de Dom Caggiano, eu compreendi que o problema não era só aqui; a
crise era mundial. Já tínhamos alguns indícios disso por alguns outros
problemas que ocorreram. Íamos tomando conhecimento das coisas que aconteciam
aqui e lá fora, e íamos resistindo.
Houve
uma famosa séance no Centro Dom Vital, ainda quando estávamos lá, com
o Alceu presidindo, em que dois franceses, um homem e uma mulher, da equipe do
cardeal Bea, iam nos falar. O cardeal Bea tinha sido confessor do Papa e o homem
mais influente da corte de Roma no tempo de Pio XII. É a figura mais sinistra
da transição; provavelmente foi o grande responsável por ela — porque Pio
XII é o fim da Igreja, tal como ela foi durante vinte séculos. A partir de João
XXIII — e nós ainda não sabíamos disso — estava começando uma nova era,
o que, em 63, o Alceu compreendeu, pois tinha informações que nós não tínhamos.
Foi quando escreveu a sua famosa "encíclica", que, de fato, era
verdadeira num certo ponto: Roma tinha mudado. Nessa sessão, com os dois
franceses do cardeal Bea, estavam presentes muitos religiosos, inclusive Dom
Lucas Moreira Neves, além de Corção, Alceu, etc. Em resumo, os franceses
disseram o seguinte: nós estivemos numa favela, e vimos os comunistas lá em
ação. Eles são muito mais caridosos que vocês, são muito melhores que vocês!
Quer dizer, nós, para eles, éramos apenas uns burgueses. Ficamos todos ali
estupefatos; eu apenas pensava: Como é que eles podem dizer isso, se não nos
conhecem? Claro que eram cretinos. Mas como eles tinham vindo do cardeal Bea e
falavam em francês, nós ficamos paralisados.
Mas
não ficamos indiferentes por dentro. Aquilo criou um certo constrangimento. De
repente, duas senhoras francesas, lá atrás, se levantaram e berraram: salauds!
Vous êtes des communistes, nous vous connaisons déjà! E aí fechou o
tempo, o Alceu ficou irritadíssimo, nós começamos a rir e a respirar
aliviados.
Por
esse incidente, começamos a saber que as coisas estavam ficando estranhas. Mas
o parto foi longo e doloroso. Foi só em 1970, provavelmente em 72, já perto da
morte de Corção, que ele escreveu um artigo contra o Vaticano. Foi a primeira
vez que nós, realmente, dissemos que não era possível mais acompanhar o Papa.
Até
então, com João XXIII, não conhecíamos as palavras mais significativas do
pensamento do Papa. As que conhecíamos, procurávamos interpretar de modo benéfico,
fazíamos alguns malabarismos intelectuais, como era próprio de um católico
fiel e dócil à autoridade, que não tem nem quer ter espírito revolucionário.
Não é que procurássemos tapar o sol com a peneira, mas procurávamos
interpretar as coisas, inclusive as coisas do Concílio, de modo benéfico.
Gustavo Corção escreveu vários artigos benéficos sobre o Concílio, sobre
Paulo VI, que é o grande responsável pela ruptura da Igreja. Quando o Papa
veio a usar a palavra transignificação ao invés de transubstanciação, que
é de São Tomás, nós procuramos achar que havia algum problema de tradução,
etc. Procurávamos aceitar tudo. Mas chegou uma hora em que ficou claro que
aquilo que o Papa estava dizendo não podia ser católico, embora Corção não
tivesse ousado sequer pensar nisto tão claramente.
A
primeira atitude do Papa contra o Brasil foi após a Revolução militar de 64.
O Papa disse que o Brasil era contra os pobres, e Corção disse que não podia
aceitar aquilo. Então, ele começou a gemer, a rezar, a chorar, e se
perguntava: O que é que vou fazer? Eu não posso me calar. Ele não podia
deixar de escrever, estava claro que havia uma espécie de conspiração
palaciana, com os Hélder Câmara, daqui e de lá, querendo colocar o Papado
contra o governo militar, que tinha salvo o Brasil de uma ameaça comunista
iminente. João Goulart tivera os comissários do povo organizados e incitara os
marinheiros e soldados contra os oficiais — a revolução, enfim, chegara a
estar em marcha.
Corção
continuou a escrever gemendo, cheio de cuidados. Ele se pegou com Santa Catarina
de Sena, que, no século XIV, não só tinha clamado contra os bispos ruins, que
chamou de demônios encarnados, mas também, como naquele tempo o Papado estava
dividido, ela, que era uma mulher de fogo, foi ao Papa que ela sabia ser o
verdadeiro dos três, e disse: Sê homem! Levanta-te daí, volta para Roma,
Roma é a sede da Igreja. Levanta-te! Eu vejo aqui demônios encarnados na tua
corte! Corção, então, se pegou com ela, e começou a usar palavras dela
para dizer o que ele tinha de dizer ao Papa e pedia a mamma Caterina,
como ele a chamava, que o ajudasse. Ele usou palavras dela e fórmulas dela para
dizer ao Papa que não era possível admitir um pronunciamento como aquele.
E
foi um escândalo. Corção estava atacando o Papa! E depois, tudo foi ficando
cada vez pior e ele cada vez mais rígido porque, com o tempo, nós começamos a
ver que uma série de coisas não era aceitável. Houve um momento em que, na
URSS fuzilaram cinco pessoas que queriam fugir da Rússia, e o Papa não disse
nada. Um mês depois, na Espanha de Franco, cinco terroristas foram condenados
à morte por terem jogado bombas em algum lugar, e o Papa foi suplicar que não
os fuzilasse. Corção perdeu a cerimônia e escreveu “eu não posso crer
que isto que vem de Roma seja coisa de um Papa”.
Depois
começou a estudar os textos do Concílio, sobretudo o número 55 da constituição
Gaudium et Spes, um documento do Concílio, que dizia "o homem hoje
é responsável perante os seus irmãos..." e o quê, Deus? Não. E a
"História".
Nessa
ocasião, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, então D. Eugênio Sales,
mandou distribuir em todas as Igrejas do Rio um documento dizendo que Corção não
falava pela Igreja, que ele não podia ser seguido nem lido; ou seja, colocou
Corção praticamente no ostracismo. O combate foi ficando cada vez mais claro,
cada vez mais nítido, até que, em 76, ele descobriu monsenhor Lefèbvre.
No
começo da "Permanência", nós tínhamos como redator e colaborador
Alfredo Lage, que era um dos mais inteligentes, mais cultos e mais finos de
nossos companheiros. E, no primeiro número de "Permanência", ele
incluiu um artigo de um certo monsenhor Lefèbvre, que então não conhecíamos.
Parecia apenas um bispo europeu, muito interessante, muito animado com o
encontro de jovens que se interessavam pelos assuntos católicos e queriam ser
padres. Era um artigo nesse sentido. Mas somente cerca de quinze anos depois
viemos realmente a conhecer Mons. Lefèbvre. Corção morreu um pouco depois e a
nossa relação passou a ser com Mons. Lefèbvre e com uns franceses
combatentes, sobretudo um muito inteligente, chamado Jean Madiran, que dirigia
uma revista chamada Itinéraires.
No
início não sabíamos quase nada do Concílio. Só vinte anos depois do Concílio
é que li o principal depoimento a respeito, um livro escrito por um jesuíta
americano, também jornalista, que tinha participado do Concílio e que se
chamava Ralph Wiltgen, "Le Rhin se jette dans le Tibre". Nesse
livro, ele conta como é que o Concílio foi manipulado.
Na
primeira sessão, os bispos alemães e franceses se uniram, se levantaram,
fizeram uma espécie de sublevação e disseram que não queriam os esquemas
para discutir os assuntos tais como preparados pela Cúria, mas queriam discutir
os assuntos democraticamente, com voto, etc. O Papa aceitou. E aí quebraram a
ingerência da Cúria, cujo dirigente principal era o Cardeal Otaviani, um homem
muito preparado, muito fiel, mas que foi derrubado, sobretudo pela cumplicidade
secreta do Papa João XXIII contra ele.
Só
depois nós fomos conhecer o discurso de abertura do Concílio, já muito
significativo, e as palavras com que o Papa disse, ele mesmo, como teve a idéia
de convocar o Concílio — uma coisa muito estranha, muito esquisita, que não
se enquadrava na tradição da Igreja; enfim, tudo isso nós fomos aprender
depois.
Este
livro, que só fui ler vinte anos depois, relata incidentes muito interessantes.
Por exemplo, o papel de monsenhor Lefèbvre e de dois bispos brasileiros, mais
trezentos e tantos bispos que os ajudaram numa organização para resistir aos
progressistas e tentar obter uma condenação do comunismo, o que o Concílio
recusou. Mais tarde, viemos a saber que tinha havido um acordo de um delegado do
Papa com dirigentes da União Soviética.
Sabe-se de alguma informação a respeito
da influência da maçonaria sobre o Concílio?
Da
maçonaria não sei. Na década de 70, houve uma denúncia, na França, de que
inúmeros cardeais e bispos franceses eram membros da maçonaria. Aqui no Brasil
houve um escândalo com o cardeal-arcebispo da Bahia, na época, Dom Avellar
Brandão, que celebrou missa num templo maçônico e usou os paramentos maçons.
Quando
essa denúncia surgiu na Europa, e a denúncia incluía o cardeal secretário de
estado da cúria romana na época, os acusados negaram indignados. Mas as
publicações davam até o número de inscrição deles.
Em
1980, houve o escândalo do banco Ambrosiano com o banco do Vaticano, e por aí
se viu que o banco do Vaticano era cúmplice e sócio do banco que sustentava a
principal loja maçônica do mundo, chamada P2, dirigida por Lucio Gelli, preso
pela polícia por causa do escândalo. Lucio Gelli tinha manobras e relações
com deputados, generais e políticos do mundo inteiro, comandava uma rede de
grandes empresas e levou o banco Ambrosiano à falência com um rombo de 1 bilhão
e 200 milhões de dólares. Isso mostrou que as relações do Vaticano com a maçonaria
italiana não eram nenhuma brincadeira.
Sobre
a influência da maçonaria no Concílio Vaticano II não tenho dados, mas dos
protestantes sim. Existe uma famosa fotografia do Papa Paulo VI com seis
representantes protestantes. Corção chamou a atenção para o fato de que, atrás
do Papa e dos protestantes, pode-se ver uma porção muito grande de bispos
participantes do Concílio, todos rindo às gargalhadas; o Papa e seus
convidados, não, mas os participantes estavam. E Corção escreveu um artigo
perguntando: Mas de que é que eles se riem? Por que estão rindo?, e aí
fazia uma série de considerações a respeito.
Mais
tarde, foi confirmada a influência desses representantes protestantes. Eles não
tinham voto, mas participavam das discussões, prestavam esclarecimentos,
distribuíam material, entravam nos assuntos todos, enfim, como se fossem
membros do Concílio para expor suas idéias. E assim foi sendo feita a subversão
da Igreja...
O
ecumenismo e a revolução litúrgica já estavam sendo preparados, mesmo antes
do Concílio. Um monge beneditino belga, dom Lambert Beaudouin, dera sinais
inquietantes de querer mudar a liturgia e fora censurado por Roma. Ele gostava
muito da liturgia oriental, ortodoxa, e quase virou ortodoxo. Ele fundou um
movimento litúrgico que, no início, nós recebemos de braços abertos. Até
hoje, nossa missa é dialogada em voz alta. O catolicismo, no início do século,
era mais praticado pelas mulheres, as beatas. Os homens, quando iam à Igreja,
ficavam atrás conversando. Sobral Pinto, em seu tempo, causava comoção porque
freqüentava a missa, comungava, ajoelhava-se, e isso não era costume
masculino. Mas mesmo as pessoas que iam à Igreja não sabiam bem o que estava
acontecendo. Algumas rezavam o terço, que é algo que realmente se pode fazer,
desde que se reze com a devida intenção, caso contrário não se está
assistindo a missa nenhuma. Nas missas, as pessoas têm de saber o que está
acontecendo, o que é aquilo, e participar pelo menos no sentido de oferecer a
Deus o Cristo imolado, porque a missa é a reiteração, a apresentação hoje
da mesma realidade que aconteceu dois mil anos atrás, a saber, a morte do
Cristo na cruz, em que Se oferece ao Pai em remissão dos pecados dos homens. É
o mesmo Cristo que está ali presente, o mesmo Cristo que consagra a hóstia e
que Se oferece ao Pai. Os fiéis estão presentes para oferecer o sacrifício de
Cristo a Deus junto com o sacerdote, e é por isso que, na hora do oferecimento,
o acólito segura a casula do sacerdote, significando que estamos ali para isso,
para oferecer a Deus um sacrifício pelos nossos pecados e pelos pecados
dos outros.
Ora,
o movimento litúrgico fora instituído justamente para fazer com que as pessoas
tomassem consciência do que estava acontecendo na missa e participassem
verdadeiramente dela, mas depois ele extrapolou. Começou-se a estudar a
liturgia e os sacramentos, e, em seguida, a fazer elucubrações sobre o
sacramento da Eucaristia e sobre o papel do sacerdote, e a sustentar que o povo
também é sacerdote, e começaram alguns bispos e cardeais a dizer besteiras.
Essas
besteiras se prolongaram e acabaram gerando, nos meios intelectualíssimos da Cúria
Romana, compostos de muitos progressistas, um desejo de simplificar a missa,
mudar a missa, corrigir a missa — coisa que os católicos jansenistas tinham
feito na França no século XVIII. De fato, foi exatamente isso o que fizeram:
colocaram as mãos na missa para usar as palavras das Escrituras para ensinar
isso e aquilo. Não tem nada que usar a missa para ensinar. A missa é o
resultado místico de uma obra mística, de grandes místicos. Primeiro do próprio
Jesus e depois os ritos surgiram de grandes místicos da Igreja, que foram,
primeiro, os apóstolos, todos santos, depois grandes Papas santos e grandes
doutores santos — com isso foi se formando a missa que tem, se não na sua
integridade, pelo menos na sua essência, dois mil anos. E quando começaram a
aparecer variações que punham em risco a pureza daquele ato litúrgico, o Concílio
de Trento, no século XVI, estabeleceu as
normas que a missa devia seguir e o Papa, São Pio V, publicou uma encíclica
famosa, chamada Quo Primum, proibindo que se tocasse na missa, e
estabelecendo as únicas exceções, que eram certos ritos, variantes do rito
romano, com mais de 200 anos, mas admissíveis. O Papa proibia que se
fizessem modificações na missa dali para a frente, coisa que os progressistas
de Roma de nosso tempo não admitiram, e disseram que, se um Papa proibiu, o
outro Papa, que tem poder igual, pode "desproibir", e então
fabricaram a missa de Paulo VI, que é essa que está aí.
Quando
surgiu essa missa, nós, inicialmente, íamos a ela. Claro que procurávamos
sempre padres sérios, comedidos, não esses que ficam distribuindo as hóstias
na mão como se as tirassem de uma caixa de biscoitos, mas, mesmo com um padre sério,
eu me sentia mal. Eu descobri, sem querer, que se esquecesse o padre e fixasse
os olhos no Sacrário, eu me sentiria melhor. Passei a fazer isso e voltei a
usar o missal antigo. Eu rezava minha missa ali sozinho, fixando os olhos no
sacrário, sem tomar conhecimento do que o padre fazia no altar.
Depois
que Corção morreu, que monsenhor Lefèbvre morreu e que acabou a revista
"Permanência", eu quis deixar uma lembrança disso tudo para meus
filhos e netos. Tinha um instrumento precioso, os artigos que Corção escrevia
duas vezes por semana nos jornais, em que ele foi cada vez mais deixando a política
de lado e se concentrando no debate espiritual e religioso. Eu tinha então um
registro, duas vezes por semana, do que acontecia no mundo católico: o que o
Papa disse, o que disseram os bispos, fatos que aconteciam e que Corção
comentava. Peguei a coleção e o fui seguindo, contando esta história no meu
livro, muitas vezes usando trechos do que Corção escrevia, muitas vezes
mesclando o tema da crise da Igreja com assuntos políticos. E contei também a
divisão que ocorreu no grupo da "Permanência" depois que Corção
morreu.
Quando
compreendemos que a missa nova era insuportável, começamos a procurar padres
que nos dissessem a missa tradicional. Primeiro, encontramos um franciscano, que
depois ficou doido, foi para a Europa e se ligou a outro doido que acreditava
ser o Papa Gregório XVII. Depois surgiu um padre jesuíta, que nos disse a
missa tradicional por algum tempo, mas acabou sendo proibido pelo superior dele,
quando soube do que se tratava. Enfim, andávamos atrás de padres que nos
dissessem a missa de sempre, inequivocamente católica.
Até
que descobrimos um padre holandês com quem fui conversar. Sentei-me ao seu lado
no banco da Igreja e perguntei: Padre, me diga uma coisa, o senhor acha que
está proibido dizer a missa tradicional da Igreja? E ele me respondeu que não,
que não podiam proibir essa missa. Eu disse: O senhor concorda que não pode
ser proibida a missa que a Igreja santificou durante vinte séculos? Ele
concordou. Nesse tempo, não era proibida. Isso não interessava ao diabo,
porque exoneraria as pessoas de sua responsabilidade pessoal. O diabo quer levar
as pessoas para o inferno o mais que puder; ele quer que as pessoas sejam cada
vez mais enredadas, até que elas também prefiram ficar com a missa nova. Então,
eu pedi ao padre que dissesse a missa para nós e ele aceitou. Tínhamos a missa
na capela de umas freiras carmelitas, ao meio dia. Depois apareceu um rapaz que
conhecia música e tocava gregoriano. A missa ficou uma beleza, as freiras
ficaram deslumbradas conosco, com a nossa missa, com a música e com o padre
holandês, que fazia sermões muito ingênuos, mas muito bons — sermões de
padre de verdade. E nós passamos cerca de quatro anos de felicidade tranqüila,
porque para nós isso era o principal da nossa vida.
Depois,
perdemos a missa, porque a família de uma das freiras nos denunciou e o cardeal
mandou proibir. O padre holandês recebeu a proibição e ficou apavorado, com
medo de o cardeal manda-lo de volta para a Holanda, e se recusou a continuar com
aquela missa.
Encontramos
um outro jesuíta. Meu filho foi pedir a ele que rezasse a missa para nós, ele
aceitou, rezou uma vez. Nós entramos pelos fundos, escondidos, para ter a
missa. E esse padre, daí em diante, quando eu aparecia na sacristia, ficava
apavorado, com medo de ser punido pelo superior. Por isso, quando me via, começava
a ficar nervoso.
Outra
vez ficamos nós sem missa, e voltamos a correr atrás de padres. Surgiu então
um franciscano, depois, um padre de Campos, que vinha de avião dizer a missa
para nós na sede da "Permanência".
Até
que Corção morreu e foi quando nós perdemos a missa definitivamente e eu
resolvi não ir mais à missa de Paulo VI. Metade de nosso pessoal ficou contra
nós, porque há uma obrigação de ir à missa aos domingos. Mas eu tomei a
decisão de não ir. Muita gente hesitou, mas acabaram tomando a decisão de
também não ir.
No
domingo, me fechava no meu quarto e rezava meu missal sozinho. Na hora da
consagração, eu fazia uma espécie de comunhão espiritual e rezava a missa
todinha, de cabo a rabo. Passamos assim algum tempo.
Quando Corção fez 70 anos, houve grandes comemorações, isso saiu em
todos os jornais, etc.; quando ele fez 80, ninguém falou mais nada. E hoje também
ninguém fala mais nada. A que o senhor atribuiria isso? E como o senhor
responderia às críticas que fazem ao Corção, principalmente depois de "O
século do nada" e ao senhor de serem desobedientes?
Há
uma conhecida tática de esquerda, que consiste em "não fazer
marola". Eles não querem barulho, não querem debate. Eles não gostam de
discutir, fazem uma conspiração de silêncio, e fizeram isso contra o Corção.
Por
outro lado, muita gente deixou de ler o Corção porque ele, cada vez mais, foi
tomando uma posição marcadamente católica. Ele foi cada vez mais se voltando
para assuntos católicos. Mesmo quando discutia alguma coisa que tinha implicações
políticas, ele punha naquilo a marca da fé, da defesa de valores católicos, e
foi ficando, então, com uma posição muito marcada. Daquelas pessoas que
saudaram a fundação da "Permanência", que lotaram o auditório no
Ministério da Educação, a maioria, ou pelo menos uma grande parte, se
entusiasmava com o debate político ou com o debate intelectual, filosófico,
mas o debate religioso não interessava muito. Muitas das pessoas não estavam
interessadas no assunto, que era o principal, como Corção compreendeu, e como
procurou apresentar na sua coluna. De forma que à medida que ele ia marcando
uma posição cada vez mais nitidamente católica, menos pessoas se
interessavam.
Muitos
diziam, então, que ele era católico demais. Ora, ninguém é católico demais,
essas pessoas é que não estavam interessadas na fé, nem na religião, e nós
estávamos.
Se
o mundo está transviado, como a gente tem razões para temer, o que vai
acontecer é que as pessoas vão cada vez mais se desinteressar dos assuntos
religiosos e querer novidades. Agora mesmo há um número de movimentos que estão
pululando por aí, como Foccolari, Comunhão e Libertação, movimentos
novidadeiros que, após analisados, revelam-se não-católicos. Considere a
Renovação Carismática, por exemplo, em que querem chamar o Espírito Santo
outra vez, e a que até instituições muito sérias, como o Mosteiro de São
Bento, deu abrigo. O cardeal do Rio chegou a publicar um documento oficial,
dizendo que aquilo é uma coisa respeitável, que pode ser seguida; ora, aquilo
não é respeitável e não é para ser seguido de maneira alguma.
Nosso
Senhor diz em passagem relativa ao fim do mundo que, nesta hora, aparecerão
muitos que dirão: eis, aqui está o Cristo! E recomenda: não saiais
para ver. Ei-lo acolá. Não ide ver. Aqui está o Cristo, vem ver. Não ide atrás.
É isso que esses movimentos me lembram. O Cristo está aqui, o Cristo está
ali, e vêm versões novas do cristianismo, como
se não fosse a Igreja que tem o ensino da Verdade, como se não fosse
ela que sabe o que está dizendo, que tem o segredo do Cristo. Não, são eles.
Essas novidades. "O Cristo está aqui, o Cristo está lá" — Nosso
Senhor nos alertou: não dêem atenção.
Ora,
quem disse que nós estamos em tempos apocalípticos não fui eu. Grandes
pensadores, grandes filósofos já o disseram, principalmente por causa dessas
crises, por causa de coisas como o abalo que a Igreja está sofrendo.
Evidentemente, nós estamos em tempos apocalípticos, resta saber quanto tempo
vai durar. Nosso Senhor disse que seria breve. Porque se não, diz Ele, nem
os santos agüentariam. E disse que Deus ia abreviar esses dias.
Por
um lado, nos espantamos de como os tempos passam depressa. Por outro, de como a
crise está durando. Já são trinta anos — e olha que não é brincadeira.
Um
amigo meu, de São Paulo, chamou a atenção para uma coisa muito interessante.
Uma das sete cartas do Apocalipse, a sexta, é a da Igreja de Filadélfia. A
impressão que eu tenho é que é para nós. Porque Ele diz assim: Eu sei que
vocês não têm força, por isso eu vos ajudo, mas guardai a coroa da vossa fé.
Não deixeis que outros tomem essa coroa ou a estraguem. Guardai a vossa posição,
eis que Eu venho depressa. Esperai. E Ele ainda diz que os "falsos
judeus" serão postos a vossos pés. Ora, os falsos judeus, hoje, têm
outro sentido: trata-se dos falsos fiéis.
E
na carta seguinte, destinada a outra Igreja, Ele diz as famosas palavras a
respeito daqueles não são nem quentes nem frios: já estou a vomitá-los da
minha boca. Isso é para a sétima Igreja, é a sétima carta, para este
mundo, creio eu, que está engolindo tudo e pensa que é católico.
Eles
reclamam de nós, que somos desobedientes ao Papa. E nós respondemos que a
obediência é uma grande virtude, mas não é a principal. A principal é a fé,
junto da esperança e da caridade. Por estas é que nós temos que meter o dedo
no olho e arrancá-lo fora, e cortar a mão e o pé se for o caso. Não importa.
E cortar com pai, mãe, filho, seja com quem for, que Ele também o exigiu.
Cortar com todo mundo, com tudo. A obediência é uma virtude que nós queríamos
aceitar, mas se a fé está em jogo, não venham cobrar obediência.
Ao
passo que a eles, seria o caso de lhes perguntar: Quando vêem as declarações
do Papa João Paulo II, quando vêem as mudanças no Credo, isso não os
comovem?
Muitos vêem o pontificado de João Paulo
II como conservador. O que é que o senhor acha?
Conservador
coisa nenhuma. O Papa João Paulo II, usando uma astúcia muito conhecida, dá
uma no cravo e outra na ferradura. Paulo VI fazia a mesma coisa: tomava posições
aparentemente boas para depois adotar outras contrárias à Igreja de sempre.
João
Paulo II, por exemplo, disse que devia voltar a haver a confissão no confessionário
e não confissão coletiva. Todo mundo então acha formidável. Mas logo em
seguida ele vai pedir desculpas a Galileu, vai pedir desculpa aos judeus, para não
sei mais quem, até para os cantores de rock — e isso é o de menos. Ele vai
receber bênção de sacerdotisa hindu. Sua pior obra é Assis, que se renova
todos os anos. Assis é uma coisa muito séria. A reunião foi feita na
cidade-berço da obra de São Francisco, cidade cheia de evocações católicas.
Um
grande bispo católico francês, depois cardeal Pio, um dos grandes nomes do
Concílio Vaticano I, tem um sermão impressionante sobre a santa intolerância
católica, que me lembra uma declaração de Chesterton. Ele conta que os
romanos eram muito ecumênicos, muito acolhedores dos deuses dos povos que eles
venciam e costumavam honrar os deuses dos outros. No Pantheon, em Roma, eles
tinham estátuas dos deuses do mundo inteiro. E, uma vez, propuseram botar lá
uma estátua de Jesus, mas os cristãos recusaram.
Essa
atitude dos cristãos, de não admitir paridade entre sua religião e a dos pagãos
irritou grandes espíritos romanos que defendiam os cristãos, que tinham pena
dos cristãos, como Plínio, que ficou indignado com essa atitude. Então,
Chesterton diz algo assim: as pessoas não se dão conta de que o mais grave
risco que já correu a fé de Jesus Cristo sobre a face da Terra, o mais grave
risco de desaparecimento da fé cristã sobre a face da Terra, foi corrido num
mar de boa acolhida, de boa vontade, de boa disposição, quando, às margens do
Adriático, foi oferecido aos cristãos colocar lá sua estátua de Jesus no
meio das outras, para ser mais uma entre as outras. Esse foi o mais grave risco
que a religião cristã correu de desaparecer, porque foi para não admitir isso
que os mártires morreram, que os mártires deram o sangue.
Foi
para não admitir isso que eles fazem hoje, com esse ecumenismo da alta
hierarquia oficial da Igreja. Isso é que é inaceitável, isso é que é
insuportável. E não venham dizer que não é sincretismo; pouco importa. Isto
que fizeram em Assis foi uma amorfa e repugnante coabitação de coisas díspares
como a do Catolicismo com o Dalai Lama, que nem sequer pretende ser um Papa, e
sim um deus. Ele estava sentado na frente de um altar, onde a lâmpada acesa
(diz o jornal Avvenire, jornal oficial da Conferência dos Bispos
Italianos) indicava a presença do Santíssimo no sacrário e ele, de costas
para o sacrário, recebia a adoração dos seus seguidores, numa das igrejas
mais veneráveis de Assis. Fora os peles vermelhas, protestantes, etc., todos
eles com uma igreja à sua disposição para fazer essa coabitação repugnante,
pela qual o sangue dos mártires fica sem sentido.
Santa
Perpétua era filha de um senador e o juiz que a julgava pelo crime de ser católica
era amigo do pai dela. Ele lhe dizia: olha, você não tem que fazer nada,
você pode continuar como cristã. Faz só um gesto de incensação da estátua
do imperador e eu te libero. Dê atenção às lágrimas de seu pai, lembre-se
do seu filhinho, que você teve na prisão. E ela dizia não posso. E
morreu. Foi entregue às feras, foi posta no Coliseu.
"Não
posso". O que é que custava incensar a estátua do imperador? Ela não o
fez.
Os
jesuítas que foram à China no século XVIII queriam aceitar a veneração
popular à estátua de Confúcio. O Papa disse que isso era inaceitável. Os jesuítas
eram muito inteligentes, fizeram um apostolado muito grande na China, mas não
podiam dizer aos fiéis que cortassem todos os laços com a religião de Confúcio,
ou seriam condenados à morte. Então, foram a Roma pedir ao Papa permissão
para aceitar essa "devoção cívica" a Confúcio. E o Papa negou, porque
a devoção não era cívica, mas religiosa. E uma religião falsa não pode
conviver com outra verdadeira. O Papa negou a permissão ainda que isso
significasse arruinar a obra dos jesuítas. É por essas e outras que também nós,
que queremos ficar fiéis à nossa Fé, não podemos aceitar o Vaticano II.
(Versão Revisada pelo Autor. Originalmente publicado em "O Indivíduo")