JULIO FLEICHMAN
1928 - 2005

Nascido no Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1928, de pais judeus fugidos da fome provocada pelas loucuras de Stálin, converteu-se ao catolicismo pelas aulas de Gustavo Corção, no Centro Dom Vital, onde se encontrava a nata da inteligência católica do Rio de Janeiro da época, sendo batizado no Mosteiro de São Bento na festa de São Basílio, em 14 de junho de 1952. Já estava formado em Direito. Com o passar dos anos, tornou-se o principal colaborador do fundador do nosso movimento.
Ainda no Centro Dom Vital, conheceu Anna Luiza de Siqueira Menezes, com quem se casou em 28 de julho de 1956, também no Mosteiro de São Bento, presidindo a cerimônia o amigo Dom Marcos Barbosa OSB. Deste casamento nasceram quatro filhos: Maria, Pedro (Dom Lourenço, OSB), Gustavo e Ana.
Em 1963 foi contratado pela Coca-Cola para chefiar o Jurídico, cargo que exerceu até 1988, quando se aposentou. Marcou este tempo de 25 anos de fidelidade ao trabalho com eficácia, honestidade e inúmeros feitos relevantes para a empresa. Deixou ali muitos amigos aos quais continuou ajudando depois de aposentado dando consultoria aos funcionários em seus problemas particulares. A Providência Divina quis que, em 1994/95 fosse chamado para um cargo de confiança, em Buenos Aires, Argentina, onde ajudou a reestruturar a diretoria jurídica. Graças a esta nova etapa de seu trabalho pode colaborar como grande benfeitor da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, na época em que se construiu o a casa paroquial.
Na Presidência do movimento Permanência, entre 1969 e 2003, Julio Fleichman foi incansável. Manteve a edição da Revista Permanência durante longos 22 anos. Era praticamente a única fonte de formação e informação católica em defesa da Tradição no Brasil, principalmente depois da morte de Gustavo Corção, em 1978, quando os católicos perderam as duas colunas semanais de O Globo, (que apareciam também em outras capitais do país). Um dia publicaremos cartas dos leitores da Revista Permanência, comoventes e belas, dando testemunho do papel relevante deste pequena revista. Pequena só no tamanho, pois o acervo que nela se encontra é de alto nível, pelo labor e pela exigência de qualidade intelectual que sempre marcaram a gestão de Julio Fleichman.
Ainda no âmbito do apostolado escrito, deixou-nos dois livros: O Itinerário Espiritual da Igreja Católica, onde busca, numa análise original e profunda, nas principais etapas da História da Igreja, sinais precursores da atual crise sem precedentes que atravessamos há mais de quarenta anos. Este livro foi lindamente reeditado, no ano de 2004 pela Editora Permanência. Escreveu também um livro de memórias: A Crise é de Fé, e é Grave (esgotado), escrito para contar a seus netos tudo o que viveu e conheceu ao lado de Gustavo Corção, de Mons. Lefebvre, de Dom Antônio de Castro Mayer, neste combate sem tréguas que foi sua vida católica. Colaborou também, durante alguns anos, na Revista Itinéraires, de Paris, falando sobre a política da América Latina.
Depois da morte de Gustavo Corção, a Divina Providência não o abandonou. Aproximou-se de nós ninguém menos do que Mons. Marcel Lefebvre. Em 1979 recebeu em sua casa, ainda em Laranjeiras, o bispo de Ecône. A partir desta data, por seis vezes, hospedou Mons. Lefebvre, o qual lhe demonstrava grande amizade. Como conseqüência, os padres da Fraternidade S. Pio X passaram a visitar nosso pequeno grupo no Rio, celebrando para nós a Missa tridentina, numa época em que não tínhamos padres fiéis à Tradição. E esses padres encontravam ali, na residência do Dr. Julio, um grupo fiel, bem formado por tantos anos junto à Gustavo Corção, e se encantavam com as vibrantes conversas do anfitrião. Política, filosofia, teologia, Julio Fleichman era um grande estudioso e gostava muito de conversar sobre suas leituras. Dom Antônio de Castro Mayer, igualmente, não deixava de tomar um cafezinho em sua casa quando vinha ao Rio de Janeiro. Em 1991, na época da Sagração de Dom Licínio Rangel, hospedou ainda Dom Fellay, Dom Tissier de Mallerais e Dom Galarretta, juntamente com alguns padres da Fraternidade, a tal ponto que sua casa passou a ser conhecida no bairro como “a casa dos padres”.
Dava também aulas de catecismo para os jovens, seus filhos e os amigos de seus filhos. Muitos foram formados nas primeiras armas por ele e se mantém até hoje fiéis à Tradição graças a esta formação. Dessas aulas, muitas vocações sacerdotais saíram. Do total de seis padres saídos da Permanência, cinco foram formados por ele. Sua casa era o lugar onde tudo isso acontecia e onde, até hoje, se reúnem os amigos para a Missa, na Capela São Miguel.
Porque Julio Fleichman foi também um construtor de “catedrais”. Construiu em 1980, na sede do movimento, no Jardim Botânico, uma primeira Capela São Miguel, que mais tarde foi transferida para sua residência, no Cosme Velho. Esta primeira capela foi montada quando Dom Tomás de Aquino, então monge do mosteiro Sainte Madeleine, do Barroux, veio ao Rio visitar sua família. Era a primeira vocação saída da Permanência, o Miguel Ferreira da Costa. A transferência da Capela para a sua residência deu-se após uma visita dos dois bispos fiéis: Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer reuniram-se juntamente com outros padres, na residência de Julio Fleichman, em 1983, onde redigiram o Manifesto Episcopal, enviado ao Papa João Paulo II. Nesta reunião mostraram-se os bispos interessados em ajudar mais o grupo de fiéis do Rio. Julio Fleichman conseguiu comprar uma casa em ruínas no Cosme Velho e montou ali sua residência e a Capela São Miguel. No meio da obra, quando só as paredes externas estavam de pé, Mons. Lefebvre a visitou e disse ao Dr. Julio: “C´est votre petite cathédrale - é sua pequena catedral”. Em seguida ajudou na instalação do Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo dando apoio material de diversos modos inclusive jurídico. A terceira “catedral” foi a Capela de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Nasceu pelas mãos de um leitor da Revista Permanência, senhor Otero, um benfeitor da Revista. Este recebeu de Julio Fleichman as indicações para procurar os padres de Campos para que lhes dessem assistência espiritual. Hoje, graças ao sr. Otero, há um Priorato da Fraternidade São Pio X, em Santa Maria, com uma linda igreja. E por fim, como já assinalamos, Julio Fleichman foi fundador e grande benfeitor da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, onde seu próprio filho, Dom Lourenço Fleichman, com a ajuda de seu pai, construiu outra linda igreja para a Tradição. Poucos leigos, ao longo desses quarenta anos, tiveram a chance de trabalhar tanto pela defesa da Santa Missa.
Foi uma alma de oração e soube aproveitar a guarda do Santíssimo Sacramento que lhe foi confiada em sua própria casa, na Capela São Miguel. Ali passava muito tempo rezando, todos os dias. Era um amoroso dos salmos, que aprendeu a rezar no diurnal monástico, já que era oblato beneditino, com o nome de Irmão José, e grande difusor do Terço de Nossa Senhora.
Que a Virgem Maria, nosso padroeiro São Miguel, e São Bento, o recebam no Paraíso, e que nós, aqui na terra, estejamos à altura do seu exemplo.
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