O Amigo

 

Rachel de Queiroz

 

         

A maioria dos brasileiros conhecem duas faces de Gustavo Corção. Uma, a do escritor exímio, a usar como ninguém a língua portuguesa, o autor que, vivo ainda, graças a Deus, é um indiscutível clássico da literatura nacional.

 

A segunda face é a do anjo combatente, de gládio na mão, a castigar os impostores que vivem a gritar o nome de Deus e da Sua Igreja, não para os louvar, antes para apregoar na feira inocente-útil do “progressismo”.

 

Mas há uma terceira face de Gustavo Corção e essa só a conhecem aqueles que receberam a graça do seu convívio e da sua afeição: é a ternura do amigo, a extrema solicitude na amizade, aquela caridade do coração que é a coroa de todos os afetos. Engraçado, como esse aparentemente duro varão sabe ser um terno! Como sabe receber confidências e suavizar aflições, como entende, como tem paciência, como usa aquela sua alta inteligência para resolver problemas ínfimos dos outros; como costuma aparecer, discreto e afetuoso, nos momentos mais inesperados, nos momentos em que a presença de um amigo se tornara indispensável.

 

Nunca me esqueço do dia em que morreu minha mãe. Nós tínhamos até ali, com o Dr. Corção, apenas relações cerimoniosas; nunca nos visitáramos, - ele era para nós quase apenas o grande escritor muito admirado.

 

Pois naquela hora mais dura de todas, quando o dia vai amanhecendo os acompanhantes do velório escasseiam e a morta querida parece mais morta – tão distante e solitária -, foi então que entrou na capela um homem magro no seu terno de brim, e nos abraçou como um irmão, e se ajoelhou aos pés do caixão e se pôs a rezar; depois, junto com o sacerdote que com ele viera, acolitou os ritos fúnebres, tão discreto, eu diria até tão humilde, como o faria o mais obscuro sacristão da Igreja. E assim como entrou foi embora, sem dizer uma palavra em voz alta, quase sem se mostrar, depois de dar o seu testemunho de caridade fraterna. E tudo ainda nos pareceu mais significativo porque minha mãe admirava aquele escritor com o maior entusiasmo (foi a ela que, pela primeira vez, ouvi chamá-lo de clássico); mas Corção até hoje ainda não sabe disso.

 

Conto esse caso e sei que todos a quem Gustavo Corção chama de amigos terão exemplos ainda mais importantes a narrar. Meu Deus, quando fala com um amigo, até o tom de voz dele muda, se amacia.

 

Gustavo Corção é realmente uma criatura privilegiada de Deus. De longe a gente o admira, o aplaude, o respeita, o imita. Mas, de perto, sem que diminuam a admiração, a quase reverência, a gente descobre e sente que, acima de tudo, o ama – irmão surgido de repente, como um prêmio imerecido e caro.

 

 

Permanência Nov. 1971 – Edição Comemorativa do 75° aniversário de Gustavo Corção.

 

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