O drama religioso de nosso tempo
consistindo essencialmente numa infiltração vinda das
correntes de anarquismo revolucionário, apresenta diversos
aspectos de desordem entre os quais destacaria dois de
incalculáveis conseqüências: 1°)
negação do princípio de autoridade por aqueles que
deveriam exerce-la para a proteção dos fiéis e
salvação das almas: essa negação é
feita em nome de uma falsa bondade como se viu no caso da Espanha, e em
tantos outros; 2°) negação de obediência
à santa doutrina e à tradição: essa recusa
é praticada em nome de uma evolução e de reformas
que pretendem transformar a Igreja Católica em
“outra”. Nesta atmosfera poluída de erros, as mais
extravagantes idéias surgem ou ressurgem nas mais variadas
circunstâncias. Assim é que a contestação do
preceito é feita em torno da missa dominical por um bispo, ou
é retomada como “contrária” ao “puro
amor de Deus” ou em nome da dignidade do homem.
Digo retomada, porque constitui a
mais grave e cruel heresia da Idade Média que reaparece sob as
mais surpreendentes formas e chega a cativar as pessoas que
julgávamos mais preparadas para repelir tão funesto erro.
O velho mestre que há quase trinta anos ensina que a
perfeição cristã consiste no preceito e não
no conselho, e que esse preceito é a mais verdadeira e pura
forma de amor, tentará nestas páginas retomar textos
antigos e esquecidos que merecem recordação atenta. Num
primeiro contexto, o do verdadeiro progresso sobrenatural, apresentamos
páginas escritas no volume “Progresso e
Progressismo”, AGIR, que escrevi ao lado de Chesterton,
Christopher Dawson, Marcel de Corte, Jacques Maritain e Alfredo Lage.
Ei-las:
Não há idéia
mais cristã do que a de progresso, nem há menos
cristã do que a de fixismo e estagnação. A vida
cristã, efetivamente consiste na obediência do preceito
máximo que nos deixou o Senhor: “Amarás o Senhor
teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o
entendimento, e ao próximo como a ti mesmo”. E, com a
mesma inspiração, diz assim o Apóstolo:
“Como escolhidos de Deus, santos e bem amados, revesti-vos de
entranhas de misericórdia, de bondade, de humildade, de
doçura, de paciência... Mas acima de tudo revesti-vos de
caridade, que é o vínculo da
perfeição”. (Col. III, 14). Esta
proposição: “A caridade é o vínculo
da perfeição” nos indica o que, por muitas outras
vias, a palavra de Deus nos confirma a saber: o preceito da caridade
não tem limite, e a vida da caridade é essencialmente
dinâmica em busca sempre da caridade maior. Todo o amor tem esse
dinamismo que o leva sempre a querer mais amor. Na vida sobrenatural da
caridade divina o impulso do amor está expresso em outro
preceito de Deus que nos parece excessivo e hiperbólico:
“Sede perfeito como vosso Pai celestial é perfeito”
(Mt. V, 48). Que quererá dizer este mandamento? A primeira
idéia que se depreende é a de conexão entre
noções que não pareciam vinculadas: a de amor, a
de perfeição e a de obediência ao preceito. A vida
de caridade só responde bem ao mandamento de Deus se é
desejo de perfeição, e se é progressivo, isto
é, desejo cada vez maior. Nos caminhos de Deus quem não
progride, regride, disseram todos os Santos Padres, e repetiram todos
os doutores e santos. Pode-se até dizer que toda a vida
mística, que não é privilégio de alguns nem
consiste no cumprimento mais rigoroso dos conselhos evangélicos,
e sim na apaixonada observância do preceito, poderia condensar-se
nesta fórmula que pôs em marcha todas as almas sequiosas
de vida eterna: quem não progride, regride.
Como se explica a universalidade do
preceito da perfeição, e como se conciliar tão
formidável enunciado com as nossas fraquezas e com a
misericórdia de Deus? O impossível Deus não
exigirá de nós e para o difícil ele tomou a
iniciativa primeira de montar, no Monte Calvário, uma usina de
energias espirituais que nos capacitam para a vida de caridade,
começo de vida eterna. Ouçamos o que nos diz Santo
Tomás a este respeito.
Santo Tomás —
“Pode alguém ser perfeito nesta vida? A
perfeição da vida cristã consiste, com efeito, na
caridade, e implica uma certa universalidade ou totalidade, já
que perfeito se diz daquilo a que nada falta. Deste ponto de vista
pode-se considerar uma tripla perfeição: a
perfeição absoluta consiste em amar a Deus tanto quanto
ele é digno de ser amado; essa perfeição
não é possível à criatura, pois só
Deus pode se amar assim, isto é, infinitamente. A segunda
perfeição é a que consiste em amar a Deus de todo
o nosso poder, de tal modo que nosso amor tenda sempre atualmente para
ele. Esta perfeição só é possível no
céu”.
Há enfim uma terceira
perfeição que consiste em amar a Deus, não de modo
infinito e tanto quanto ele merece, nem também sempre tendendo
para ele atualmente, mas em excluir tudo o que se opõe ao amor
de Deus. “O veneno que mata a caridade, diz Santo Agostinho,
é a cupidez; quando ela é destruída tem-se a
perfeição”. Na terra esta perfeição
pode existir, e de duas maneiras:
“Ou exclui o homem de seus
afetos tudo o que é contrário à caridade e a
destruiria, como o pecado mortal, e isto é necessário
para a salvação;
“Ou então exclui de
seus afetos, não somente o que é contrário
à caridade, mas tudo o que impede o seu amor de se dirigir
totalmente para Deus. Sem esta perfeição, a caridade pode
entretanto existir nos principiantes e nos que começam a
progredir” (S. T. IIa, IIae, qu. 184, a. 2).
Todos os cristãos, diz
Garrigou-Lagrange, cada um segundo sua condição, devem
tender à perfeição da caridade. Deus não
preceitua um atingimento, mas uma tendência, um esforço de
busca, um desejo de perfeição, ou ao menos, como dizia
São Francisco de Sales, um desejo de um desejo de
perfeição. Sem esse fundamental dinamismo não
há vida cristã.
Em outra obra, “Dois amores e
duas cidades” (pág. 101 — Vol. II) encontramos
considerações que julgamos merecer atenção:
“NO PROGRESSO DA VIDA RELIGIOS
No progresso da vida religiosa
é mais nítida e mais exaltada a idéia de
docilidade crescente. Enquanto o homem natural cresce fazendo progresso
de autonomia, o homem sobrenatural cresce no sentido de maior
heteronomia. A pedagogia do Espírito Santo usa um
método que é contrário ao da pedagogia natural.
Nesta, o mestre tende a se tornar ausente, e a deixar o
discípulo entregue à própria iniciativa. Naquela,
ao contrário, quando a alma evolui e se deixa cada vez mais
guiar pelo Espírito, passando do “modo das virtudes”
ou da fase purgativa, para o “modo dos dons” ou fase
iluminativa, cada vez mais presente e atuante se torna o Mestre. A
perfeição do homem se medirá assim por um
misterioso produto de autonomia e de obediência.
Quando se desequilibra o
binômio, quando se eclipsa o critério da obediência,
a alma se precipita e cai, não querendo obedecer senão a
si mesma, ou querendo obedecer a qualquer ídolo.
Tocamos agora aqui um ponto que nos
põe novamente em contato com os textos de Santo Tomás do
parágrafo anterior: por que será que nesse
desequilíbrio o homem é levado àquela
situação em que passa a valorizar, como principal de si
mesmo, o “homem exterior” ou a “natureza
sensível”?
Faça o leitor a seguinte
experiência: saia pelas ruas e vá entrevistando as
pessoas, a fim de saber o que é que elas consideram realmente e
verdadeiramente seu próprio. Ou não saia de casa e se
examine a si mesmo. Na ânsia de procurar em si mesmo o gosto
próprio dos frutos da árvore da Ciência do bem e do
mal, começará por ver que tudo isto lhe veio de fora.
Veio de fora a notícia das ciências, das artes, das
religiões. Quem sabe se a moral, como dizem, não vem da
sombra do pai, ou da superestrutura social? Numa dessas horas de
procura do autêntico, Giovani Papini descobriu que devia ao
café a página que escrevera. Onde está o meu eu
próprio, incontestável, puro autêntico, centro de
todos os meridianos, de minha perfeita sinceridade? Eu mesmo,
diferenciado, próprio, único, incontaminado, isento,
soberanamente imparcial e livre, onde estou?
Para afastar-se das categorias que
lhe parecem superimpostas (e que muitas vezes realmente o são) o
homem que busca o eu absoluto e não violado, o eu secreto,
põe-se a descer a escada em caracol, e a afundar no
subterrâneo da irracionalidade, a se agarrar nas notas
individuantes de costas para a luz. Por quê? Porque a luz lhe
traz uma notícia de fora, e o convida a alguma
alienação. Para evitar qualquer sugestão, qualquer
postiço que de fora o vento traz, e se cola em nosso
coração para descobrir a raiz última da
individualidade, a alma se inclina a valorizar o lado escuro, como se
aí, longe de qualquer heteronomia, estivesse escondido o
núcleo da incontestável e inimitável
individualidade. O surrealismo tentou levar a arte para esse mundo das
espontaneidades subterrâneas que, na opinião de seus
líderes, seria a verdadeira atmosfera de Arte.
É nessa
direção, nessa procura do centro de gravidade de si
mesmo, de costas para a luz, no termo dessa extraviada e orgulhosa
autonomia que está “a tentação eterna do
homem”. Curiosa soberba! O homem prefere nesse momento, nesse
ato, ser ele mesmo na argila, no limo escuro, a ser ele mesmo, por
favor de outro, ainda que esse outro seja seu próprio Criador; e
ainda que esse outro, depois de tudo o que aconteceu, seja o seu
Salvador!
E o outro que saiu a obedecer ao
primeiro ídolo que passou? Os dois itinerários, o da
desobediência e o da subserviência são parecidos.
Aqui também o homem mergulha no irracional da força
coletiva, do movimento fisicamente contagioso. Aqui também o que
funciona é a valorização do sensível, do
exterior, do lado escuro. É o “amor sui usque ad
contemptum Dei”.
A moderna psicologia profunda,
principalmente na doutrina freudiana do super-ego, trouxe ao mundo um
reforço de desconfiança em relação ao que
recebemos de nosso pai, que passou a ser o mais suspeito dos
personagens. Tudo o que vem do pai, do mestre, da
tradição, de Deus, é visto como
coação, como pressão, como imperialismo
psicológico. Para cortar esse vínculo, atiramo-nos para o
lado da mãe escura que devora os seus filhos.
Terá acontecido alguma coisa
assim na origem de nossa história. Não temos a
pretensão de esboçar aqui uma psicanálise de
nossos primeiros pais; mas temos a convicção de que
é impossível tratar do problema e do mistério do
amor próprio sem socorro da teologia. No caso, sem lembrar o
pecado original. Marca, estigma, ferida deixada pelo pecado original,
mesmo depois de sua total extinção pelo batismo, o
amor-próprio será o que os teólogos chamam fomes
pecati.
E àquele que vai procurando
algo que seja seu, absolutamente seu, sem sombra de
alienação, sem sociedade dos homens e de Deus, podemos
responder com toda a tradição católica que
só temos de nosso, puramente nosso, a miséria de nossos
pecados e de nosso amor-próprio”.
— Ora, tornamos a dizer pela
centésima vez: os mestres da vida espiritual nos ensinam que a
perfeição consiste no preceito, em obediência
à mais bela forma de amor que podemos oferecer a nosso Pai.
30/10/1975.