O MÉTODO DE ESCOLHA DOS CHEFES
Gustavo Corção
Alguém
do Jornal do Brasil telefonou-me perguntando se eu poderia responder a duas
perguntas simples: 1° — Quem seria no novo presidente? 2° — Que pensa o senhor do regime e sobretudo
desse método de escolha dos chefes?
Esquivei-me
da primeira pergunta por falta de informações exatas. Mas não hesitei em
responder à segunda: depois do movimento de 64, que considero providencial, o
Brasil achou-se com um regime de governo que, a meu ver, é o melhor, mas ainda
não tem denominação feliz. Usando a clássica qualificação dos regimes, deixada
por Aristóteles, o governo atual do Brasil e do Chile não é monárquico nem
democrático: é o governo que Aristóteles chamou aristocrático, deixando o termo
oligárquico para designar sua depravação.
É
hoje evidentíssimo que nenhum desses dois nomes pode ser convenientemente
proposto. Mas também torna-se cada vez mais evidente que é esse o melhor
regime. Ouçamos algumas palavras de Santo Agostinho que, como sempre, bem
responde aos problemas de hoje: “Se um povo é sério e prudente, zeloso pelo
interesse público, é justo que se faça uma lei que permita a esse povo dar a si
mesmo os magistrados. Entretanto, se tornado pouco a pouco depravado, esse povo
tornar venal seu sufrágio entregando o governo a celerados e infames, é justo
que se lhe retire a faculdade de conferir os cargos públicos, e se volte ao
sistema de sufrágio limitado a algumas pessoas idôneas” (Santo Agostinho,
Tratado do livre arbítrio, Vol. I cap. VI, citado por Santo Tomás).
Eis
aí uma citação que convém como uma luva a recente história do Brasil. Depois
das graves contribuições trazidas pelos últimos governos ditos democráticos,
que já entregavam o Brasil ao comunismo, achamo-nos diante de uma situação
singular: todos os brasileiros, nas
famosas marchas com Deus e pela Família, demonstraram a aceitação do presidente
Humberto de Alencar Castelo Branco, escolhido por indicação de seus
companheiros das Forças Armadas.
Lembro
aqui também o grande Papa Leão XIII na sua encíclica Immortale Dei, mais de uma vez citada nestas colunas. No tópico n°
10, essa encíclica formula o mais enérgico repúdio dos novos direitos trazidos
pela Revolução do século passado, e não dissimula sua condenação à filosofia
política que se funda na soberania nacional e no princípio de igualdade para
fazer finalmente do sufrágio universal um dos famosos direitos do homem.
Que
nome daremos nós a esse novo regime em que providencialmente se achou o Brasil?
Eu não costumo me prender demais aos nomes desde que li os versos de
Shakespeare onde o poeta atribui a Julieta essas palavras relativas ao nome da
família de Romeu: “What is a name?” Teria a rosa menos perfume se tivesse outro
nome? Há porém um abismo entre o diálogo amoroso de dois namorados e as
exigências do bem comum. No plano das atividades políticas os nomes inculcados
às multidões têm funcionado com força mágica. Nossos adversários, os comunistas
— que militam dentro da mais dura e desumana de todas as oligarquias, apelidada
democracia popular por escárnio — tornaram-se exímios no uso e abuso das
palavras mágicas. Reação, fascismo, democracia, marcadas umas com o labéu da
execração pública e outras com o halo dos idealismos puros, tornaram-se hoje
impraticáveis, se quisermos escrever algumas linhas que sejam entendidas por
mais de 10 pessoas. Sabemos de episódios em que jovens se entregaram aos
comunistas só para fugir ao terrível anátema do termo “fascista”.
Como
já me dispus a tudo nessa matéria não hesitei em denunciar a impostura que tinha
a democracia como único regime condizente com os direitos do homem. Dou hoje
mais um passo, depois de lembrar que Aristóteles considerava impraticável (e eu
diria: sobretudo em regime democrático) a Polis que tivesse mais de 100.000
habitantes. Repito o jogo de palavras que já empreguei nestas colunas: nos
tempos modernos aumentou a tal ponto a densidade demográfica que se tornou
temerário, mais do que nunca, o uso da forma democrática. O governo e a
designação dos chefes não podem ser, por sufrágio universal, entregues ao povo,
cada vez mais desumanizado. Sim! Não podem e não devem jamais ser entregues a
esse monstruoso soberano que é onipotente (já que todo o poder dele emana) e
nihilciente (já que tal coletivo se torna irresistivelmente diminuído e subumanizado).
Um modesto homem do povo pode ter a sabedoria de um Sócrates; mas cem milhões
de pessoas tornam-se irresistivelmente um ídolo que tem olhos e não vê, orelhas
e não ouve etc. De uma só cajadada abato dois nomes mágicos: democracia e povo.
Agora, já que estamos com a mão na massa, aproveito para desaprovar, tarde
demais, o nome dado ao movimento de 64: “Revolução”, que é o mot d’ordre de toda a esquerda
revolucionária e anarquista. Nossos bravos e bons soldados, chamados por Deus à
salvação da pátria, assumiram o poder cerimoniosamente, encabulados, e até com
certo sentimento de culpa. Por isso até hoje se prendem às idéias políticas de
1789, quando vivemos o ano novo de 1978. O nome de nosso movimento deveria ser
este: Reação Nacional. Corajosamente. E que nome daremos ao regime recomendado
por Santo Agostinho? Fica aqui o desafio a quem tiver talento de títulos melhor
do que o meu. Mas enquanto não acharem o nome, olhemos a “coisa” de face e sem
nenhum constrangimento. O movimento de Reação Nacional de 64 veio acabar com o
prestígio e a superstição do sufrágio universal. E deve manter-se firme nesta
obra de purificação prestada ao país. Não! Nem prestígio nem superstição. O
termo que convém melhor é o de “mentira vital”. Porque aqui entre nós dois, meu
caro Fulano, desabafemo-nos. Na verdade, na verdade, não creio que ninguém, em
são juízo, fora do torpor causado pelo ópio, possa acreditar na pureza e num
mínimo de racionalidade do sufrágio universal. Eu votei em Jânio Quadros, e
quem teve razão foi o cronista David Nasser, de “O Cruzeiro”, quando estampou
com enorme destaque esta frase: “Seis milhões de loucos votaram em Jânio
Quadros”.
E
aqui, como derradeiro argumento, trago os dados da história do Brasil
republicano. Os melhores governos que o país teve foram os dos três presidentes
paulistas, Prudente de Morais, Campos Sales e principalmente Rodrigues Alves.
Ora, como estamos cansados de saber, as eleições nesse tempo eram feitas a bico
de pena, eram dirigidas por uma minoria.
Quando
Getúlio Vargas trouxe o sufrágio universal em 34 (para logo liquidá-lo em 37),
passamos a ter os governos catastróficos que culminaram em Juscelino
Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, que fizeram no Brasil obra semelhante
à de Allende no Chile. Vocês se lembram de março de 1964? Lembro-me eu.
E
mais não digo por hoje.
(O Globo, 14/01/1978)
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