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Category: Gustavo CorçãoConteúdo sindicalizado

Karl Marx e Satã

Gustavo Corção

Numa excelente revista belga, Bulletin Indépendant d´Information Catholique, no. 150 – número especial com que se despede dos leitores, não podendo manter-se pela simples e clara razão de ser excelente – li um artigo cuja difusão me parece um imperativo dos tempos presentes. Trata-se da recensão do livro Karl Marx et Satan recentemente publicado nas Edições Paulinas – Apostolat des Editions – pelo judeu convertido ao cristianismo Richard Wurmbrandt, que sofreu na URSS muitos anos de trabalhos forçados em razão de sua fé cristã. Se último livro é revelador de relações estreitas entre o satanismo e o comunismo, que o autor considera como uma encarnação política do Demônio. Segundo A. d´Arian, diretor da revista e autor da recensão, a obra é digna de atenção com algumas reservas no plano da doutrina católica. As linhas que se seguem são de transcrição:

“Muito piedoso desde a sua mocidade, Karl Marx, da alta burguesia israelita, faz um pacto com Satã. Aos vinte anos surge no mundo das letras com um poema intitulado Oulamen, anagrama de Emanuel, no qual lêem-se esses versos: “Quero construir parar mim um trono nas alturas”, que repetem quase literalmente as palavras de Isaías (14, 13), “subirei aos céus, e colocarei meu trono acima dos astros de Deus”, que se referem a Lúcifer.

 

“Num outro poema, A Virgem Pálida, o miserável ousa escrever: – Já perdi o Céu; minh´alma, outrora fiel a Deus, está marcada para o inferno.

 

“Nessa época, Karl Marx combatia as idéias socialistas na revista alemã Rheinische Zeitung, escarnecendo ao máximo da classe operária. Mas, espantado, recebe a advertência de Moses Heff de que o socialismo pode ser uma boa isca para atrair os intelectuais e as massas para o seu ideal diabólico. O amigo convenceu-o. Fiéis a essa idéia, os soviéticos, desde a primeira hora, tomarão como lema: – Expulsemos os capitalistas da terra e Deus do Céu!

 

“Foi com Bakunine que Marx fundou a Ia. Internacional. Ora, Bakunine escrevia: – Satã é o primeiro livre-pensador, é o Salvador do Mundo que liberou Adão imprimindo em sua fonte o sinete da liberdade fazendo-o desobedecer. (Deus e o Estado).

 

“O mesmo Bakunine escrevia ainda: – É preciso incutir o Diabo na alma dos homens, e despertar neles as paixões mais torpes.

 

“E para que despertar as paixões do povo? Para permitir ao Diabo arruinar a obra do Criador. Marx diz isto sem a menor cerimônia: – Como um Deus criador, irei ao acaso entre as ruínas do mundo, sentindo-me igual ao criador.

 

“E assim, sem a menor preocupação pelo bem dos operários, Marx sonha incarnar-se no anjo rebelde para arruinar o mundo.

 

“Preguiçoso e dado a bebidas, Marx vivia na dependência de Engels, que, com benevolência, assume a paternidade do filho natural que Karl teve com sua empregada.

 

“Sempre apertado em dinheiro, Marx vive a esperar as heranças. Recebendo notícias da enfermidade grave de seu tio, escreve a Engels: “Se o cão morrer me tirará de embaraços”. E em 8 de março de 1855, sabendo da morte exclama: “Excelente notícia!”

 

“Diante do caixão de sua mãe, em 1863, demonstra a mesma alegria. Outro sinal diabólico pode-se constatar na sua correspondência com Engels sempre entremeada de obscenidades.

 

“Karl Marx morre desesperado no dia 25 de maio de 1883, depois de ter traçado estas palavras: -- Como a vida é vã e vazia”. A empregada que presenciou sua agonia observou que sua testa estava amarrada com uma fita longa, e que o moribundo se entretinha com um personagem invisível diante de uma fileira de velas acesas. Esse rito derradeiro teria alguma significação mágica para obter, daquele a quem se entregara, um suplemento de vida? Será o comunismo um enfeitiçamento coletivo?”

Antes de ter chegado à conclusão extrema de um pacto com Satã, como Richard Wurmbrandt, já publicamos em artigo de Itineraires, março de 1977, algumas reflexões que mostram o caráter violentamente negativo e destrutivo do anarquismo. Eis o texto:

Já observamos que, para a maioria das pessoas, os socialistas e anarquistas são vistos como homens apaixonados pela realização e atingimento de um ideal. Eles mesmos, para uso esterno (e talvez para internamente se enganarem a si mesmos antes de enganarem os outros), nos prometem um Novo Mundo, chegando até a nos proporem a mutação que nos trará o Homem Novo.

Ora, o Estudo mais atento, não somente da história, mas também das obras-primas de ficção que a história imita, nos revela a verdadeira figura desse fenômeno monstruoso. Percebe-se então que essas violentas correntes históricas, na verdade, não são movidas pela força de um ideal ardentemente desejado, mas pela força propulsora de uma rejeição em jato. Sim, pela força peristáltica de uma recusa. Acima de qualquer objetivo mais ou menos próximo, o anarquista põe sempre o desejo absoluto de um repúdio.

Para os descendentes de Bakunine e para os possessos de Dostoievski, a revolução é antes de tudo uma recusa absoluta e uma rejeição total. De que? Antes de mais nada recusa daquilo-que-aí-está, recusa da obra herdada, recusa da tradição, de todas as identidades impostas pelo real, recusa do ser, recusa de Deus. Donde tiram o soberano desprezo que eles manifestam pelos mornos, impuros ou utópicos sonhadores de conquista do poder para domínio dos acontecimentos e para a subsequente perfeição da obra herdada e continuada, como aquele pobre Jaurès que, em 1914, derramou o mais estéril dos sangues. Não resisto a tentação de colorir esse texto com a transcrição de uma página de Roger Martin du Gard, em Les Thibault, onde um de seus personagens revolucionários nos faz esta profissão de fé:

“—O domínio dos acontecimentos? Rosnou Mithoergh com gestos desordenados, dumkopf! A instauração de um novo regime só se pode imaginar sob a pressão de uma catástrofe num momento de Krampf espasmódico coletivo em que todas as paixões se tornam furiosas... Apenas marcado por um sotaque germânico, seu francês era correto, martelado, áspero. – Nada de novo pode ser feito sem esse élan que é dado pelo ódio. E para construir é preciso primeiro que um ciclone, um Wirbelsturm, tenha tudo destruído, tudo nivelado, até os últimos escombros! Mithoergh pronunciara essas palavras de cabeça baixa, numa espécie de desinteresse que ainda as tornava mais terríveis. Erguendo a cabeça arrematou: — Tabula rasa, tabula rasa”.

(O Globo, 6/5/78)

Divagações a respeito dos jovens

Modéstia à parte, tenho sido ultimamente entrevistado, mas permanece inevitavelmente a mesma indagação fundamental: o que penso eu da juventude. Ora, devo confessar que não penso absolutamente nada da juventude. Por mais que me esforce e que esmiúce a pergunta, por mais que analise os conceitos envolvidos no inquérito, só consigo pensar que a juventude é a juventude. Que outro juízo esperam os colegas de mim? Não consigo, sinceramente, descobrir nenhum predicado que convenha a todos os jovens, a não ser a própria juventude. O jovem é jovem, eis aí o pensamento profundo atual, avançado, audacioso, que ofereço a todos os jornais e revistas. E desde já lanço o repto: a quem me provar que o jovem não é jovem entregarei minha casa e meus livros.

Outro dia, entretanto, ouvi alguém dizer, aliás pela milésima vez, que o “jovem é autêntico”, e que o jovem, pelo fato de ser jovem, sofre a pressão ou a colisão das inautenticidades dos velhos. O que quererá dizer isto? Receio que o pressuposto de tal afirmação, se algum existe, é o de só existir, em toda a vida humana, uma estreita faixa etária, como diria o Dr. Alceu Amoroso Lima, em que o mísero bípede implume se encontra consigo mesmo. Eu poderia invocar a longa experiência de vida e contestar o fenômeno. Sim, posso assegurar que já encontrei muitos jovens com todas as características do canalhismo; e até poderia acrescentar, com robusta convicção, que essa peculiaridade da alma humana está equitativamente distribuída por todas as idades. Lembro-me por exemplo dos moços da extinta UNE, ou entidade máxima estudantil: quase todos os dirigentes que conheci eram canalhas e demonstraram uma virtuosidade capaz de causar inveja a um velho crápula aposentado. Por dois desses fui enrolado apesar de toda a experiência da vida de que me gabei pouco atrás. Mas talvez esteja enganado: os sagazes observadores da eclesialização do mundo ou da secularização da Igreja, e sobretudo os sociólogos dessa índole dirão que observei mal e que confundi canalhismo com atitudes de protesto. Os jovens que praticam atos de canalhice, segundo os padrões tradicionais, não são canalhas porque são jovens e não são canalhas porque estão apenas replicando à deixa da falida geração que só legou taras e misérias. Sim. Um dos postulados que parece presente na base de tudo o que se diz hoje dos jovens é o da total falência do mundo anterior. E aí temos um estranho conflito e até se duvidarem uma estranha revolta: a de um ente de razão contra outro ente de razão, a de um ser abstrato contra outro ser abstrato.

Outra coisa que ainda não logrei entender é a ideia de apresentar o jovem como um vanguardista. Como assim? Vanguardista sou eu. Nasci antes dele, provavelmente morrerei antes dele, e assim se vê que estou sempre na frente. Com meus setenta e um estou na ponta onde já são escassos os companheiros, e quanto mais viver e mais envelhecer, mais na frente e distanciado estarei. Quando esse moço desordeiro da França nasceu, eu já sabia trigonometria esférica, cálculo diferencial e outras coisas. Estava até começando a ficar grisalho, tal era a imensa dianteira que levava sobre esse retardatário. Já fazia a barba quando nasceu o pai do moço desordeiro. Fui autêntico algum dia? Ai de mim, no tempo em que atravessei a faixa etária da autenticidade não haviam nascido os sociólogos para fazerem a frase que me pusesse em estado de graça em relação a mim mesmo. Vivi sem essa absolvição, ou tive minha mísera e estreita autenticidade obscuramente vivida sem que dela se apercebessem a família, a cidade e o país. Minto. Um ou outro amigo certamente me estimou como se sentiu estimado, mas éramos modestos a respeito desses atributos fascinantes que cobrem hoje multidões. Fascinantes? Pensando bem creio perceber que não há nada mais melancólico do que esse efêmero esplendor que inventaram hoje para ainda mais estreitar a pobre vida humana. Já sabíamos, pela experiência e pela revelação, que o tempo é breve e que a vida é curta. Encurtaram-na ainda mais os que exaltam a supracitada faixa etária. Pobres moços! Têm missa especial no Largo do Machado, têm diversas outras regalias, mas estão condenados à inautenticidade dentro de três ou quatro anos. É só casarem-se e terem filhos e estarão definitivamente expulsos do paraíso etário, e desenganados em matéria de autenticidade. Ontem uma jovem jornalista que me entrevistava teve de repente um calafrio de terror.

− Estou ficando velha! Estou ficando velha!

Pensei que fosse mirrar à minha vista, como a velha das Minas de Salomão, mas vi que permanecia com os mesmos vinte e tantos. Ela então explicou-me:

− Estou ficando velha porque estou começando a concordar com o senhor. O que vai ser de mim lá na redação? Estou perdida!

Sim, a pobre moça estava perdida porque começava a pensar nos filhos que iam crescer, e que daqui a poucos dias estarão dizendo que são autênticos. Num momento de silêncio pesado estivemos a medir a imensa responsabilidade de sermos pessoas sem idade definida, sim, pessoas vivas e dadas em espetáculo do mundo...

(O GLOBO, 6/6/1968 )

O quarto mandamento

Gustavo Corção

 

I

Uma primeira vista d’olhos sobre o panorama da atualidade, em todo o mundo, nos dá a impressão de uma efervescência sem regras nem rumo. A História, segundo esta primeira impressão, seria uma agitação errática e desordenada de vidas que querem viver seu fugaz momento, movimento browniano de pó de vidas.

Uma análise mais atenta revela-nos, indubitavelmente, linhas-de-história de marcada ascensão humana, e, portanto de marcado propósito de procurar um mundo melhor. Em que sentido? O único que nos parece incontrovertido é o do progresso, pela ciência e pela técnica, do domínio do homem sobre o mundo exterior e interior. Há um indiscutível e admirável progresso nas ciências e técnicas. O homem já vê a distancia, e já pôs o pé na Lua. Nos países mais avançados naquela linha já se entrevê uma melhor divisão dos bens materiais a despeito da atoarda que ainda fazem os revolucionários que assim vêem escapar-lhes das mãos o triunfo da miséria com que exploram a miséria.

O que não se vê, por mais que se queira abrir créditos ilimitados aos fatores materiais da vida humana, é um sinal de verdadeira ascensão humana na efervescência do momento histórico. Ao contrário disso vêem-se tendências contestatórias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, CONTRA O PAI. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do pai.

Essa estranha tendência contrária à lei natural contraria o próprio interesse do homem, trabalha para seu rebaixamento e sua perdição. Não se poderia, pois, pensar que tal inclinação seja normal, e faça parte dos dinamismos da História.

Em nossos dias essa aberração anti-histórica, anti-humana, aparece claramente como obra de uma contracorrente atuante ao arrepio dos mais altos interesses humanos. Essa contracorrente, indecentemente atuante em nosso tempo, vem de movimentos históricos organizados, e reativados nos últimos quatro séculos, com os quais uma caravana de dementes oferece a miragem de um mundo melhor desde que lhes permitam reduzir a pó este mundo mal feito que recebemos de nossos pais.

Quando Largo Caballero tomou as rédeas da Revolução na Espanha em 1936, proclamou: “Nosotros no dejaremos pedra sobre pedra de esta España, que devemos destruir para rehacer la nuestra!”.

Este é o ideal central da Revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para então recrear ex-nihilo. Seus dirigentes são deuses.

Em nossos dias ganham destaque, na turbulência dos eventos, as linhas de contestação do Pai.

***

 

Ora, o Cristianismo é, essencialmente, a Religião em que Deus se revela como Pai. Desde o Antigo Testamento se vê, passo a passo, que a preparação do Advento do Senhor é uma tradição de pai para filho: “Escutai, filhos, a instrução de um pai (...) Eu também fui um filho para meu pai, um filho dócil junto de minha mãe...” (Prov. 4, 1-2). “Não despreza, filho, a correção de Javé, e não tenhas aversão por seus castigos, porque Javé castiga aquele que ama, como um pai castiga o filho predileto” (Prov. 3, 11). E em Isaías: “Vós, Javé, sois nosso Pai, nosso Redentor. Este é o vosso nome desde tempos imemoriais. Por que, Javé, permitis que andemos errantes longe de vossas vias, com o coração endurecido contra o vosso temor?” (Is.53, 16-17).

Mas é no Novo Testamento que ganha todo o esplendor a paternidade de Deus. Desde os abismos de sua vida íntima e trinitária, Deus é Pai, e toda a vida divina procede do Pai e volta ao Pai. Analogamente, para arremate perfeito da Criação, Deus quererá para si todas as criaturas, e muito especialmente quererá a volta daquela criatura feita à sua imagem e semelhança. E envia ao mundo seu Filho Unigênito para resgate dos homens que doravante tornados filhos adotivos no Sangue do Unigênito, possam dizer com pleno direito Abba Pai. E é o próprio Jesus, num dia memorável entre todos os dias, que ensina aos homens a língua com que devem falar a Deus: “Pai Nosso”. Nessas duas palavras estão concentrados todos os mandamentos, porque a primeira diz Pai, e dirige-se a Deus, enquanto a segunda diz nosso e derrama-se em torno de nossos irmãos.

O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionaria baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu. Não é por mero acaso que a Revolução Francesa escolheu a linguagem das decapitações. Não é por mero acaso, também, que os revolucionários, da nova Igreja, dita “progressista”, exaltam o ídolo do “jovem” liberado definitivamente do 4° Mandamento.

Nós sabemos que toda a grande tradição católica tirou do 4° Mandamento as lições relativas ao princípio de autoridade e de ordem social. E assim, a moderna contestação do 4° Mandamento, pregado abundantemente na era pós-conciliar, não apenas dissolve a família como também a pátria. Toda a noção de ordem, sem a qual não há sociedade politicamente organizada e orientada para o bem-comum, prende-se à fundamental relação Pai-Filho, que o revolucionismo quer destruir.

E é com infinita tristeza, com cansadíssima tristeza que vemos, mais uma vez, o espetáculo da degradação e da impotência dos novos Bispos, ou dos Bispos atualizados, que já não sabem mais nada do tema central de toda a Revelação. Agora mesmo, na nova reunião ou congresso dos Bispos americanos, falou-se no problema da família na América Latina, e logo surgiram frases estereotipadas: os pais precisam dialogar com os jovens, nós temos confiança no jovem, e outras do mesmo quilate. Terá a Igreja Católica perdido o seu diapasão e esquecido o 4° Mandamento, terão seus hierarcas perdido o gosto de dizer Pai, e o gosto de dizer “filho, inclina o ouvido e escuta as palavras de um Pai amoroso...?

Quem passou a vida inteira a ler e reler as palavras de Deus nas Sagradas Escrituras, ou as palavras dos santos na vida da Igreja, não reconhece a mesma Voz nesse linguajar das conferências e congressos episcopais. Mais depressa reconhece o sotaque do velho conhecido lobo.

 

II

Peço ao leitor a paciência de suportar a insistência com que bato na mesma tecla: o nervo de toda a subversão e de toda a agitação que se observa hoje no mundo católico, especialmente no clero, é o da contestação do Mandamento “honrarás pai e mãe”.

Acima mostramos que este é o eixo da Revolução anticristã que de século em século se avoluma. A frase conhecida de Lacroix: “la democratie est le meurtre du père”, aplica-se melhor à Revolução que, desde a Renascença e a Reforma, pretende trazer ao mundo um novo humanismo liberado do Cristianismo, e, portanto, voltado contra o Cristianismo. Como se não bastasse a contestação de Deus Pai, e o repúdio da tradição e do passado, em favor de um progresso sem entidade idêntica a si mesma e capaz de aperfeiçoar-se sem deixar de ser o que é, ainda inventaram os homens, nas instâncias psicológicas, uma idéia de paternidade opressiva que representasse a consciência moral. E assim, em todos os níveis, a idéia de paternidade é demolida para que o novo homem, filho sem pai, possa realizar sua liberação total.

Dentro do mundo católico, esse monstro produziu aberrações que nem sempre parecem diretamente ligadas ao grande ideal parricida. Uma dessas aberrações é a frenética promoção d’O JOVEM. À primeira vista parece simpática, otimista e esperançosa essa exaltação da juventude; melhor reflexão, todavia, revela sua falsidade, e então o que parecia auroreal e otimista torna-se lúgubre e até obsceno. Tomemos por exemplo a frase “eu tenho confiança no jovem” de que muitos Padres e Bispos não conseguiram escapar. Essa frase parece uma proposição inofensiva, um sorriso, uma amabilidade, uma generosidade; na verdade, porém, é uma frase destituída de sentido e carregada das mais dissolventes conotações. De início a proposição é tola porque o jovem, por definição, é algo que ainda não disse ao que veio e, portanto, é alguém de que só posso dizer que tenho esperanças ou inquietações, conforme os sinais que nele observo. Mas dizer que tenho arrematada confiança em quem ainda não deu provas, é dizer um nonsense. A rigor, dos jovens e aos jovens, só podemos dizer com propriedade e sinceridade que cresçam e apareçam.

Com verdadeiro amor só posso dizer aos moços que não tenham tanta jactância de suas imaturidades e que cuidem diligentemente de aprender duas coisas. Primeira – agradecer a Deus e aos homens o que encontraram feito: água nas bicas e no mar, frutos nas árvores e no prato. O primeiro sinal que me predisporá a ter confiança num moço será essa disposição de agradecer. O segundo será a visível disposição de continuar e prolongar o que encontrou.

Ora, a adulação, com que os padres progressistas cercam os moços, só pode produzir o resultado oposto a essas duas virtudes: sim, só pode produzir a fatuidade e a soberba.

Para agradar ao semideus moderno os padres progressistas não recuam diante das mais ousadas iniciativas. Uma delas é a de promoção de “encontros” em que se misturam, com forte densidade, os jovens dos dois sexos.

Pode à primeira vista parecer que esses “encontros” visam principalmente a destruir os tabus do 6° Mandamento. Também isto entra nas cogitações dos aduladores dos jovens, mas o principal objetivo visado é sempre o pai. O pai da Terra e o Pai do Céu.

A exaltação da autonomia dos jovens tende evidentemente a mostrar que qualquer ação normativa e educadora é contrária à liberação do jovem, e, portanto, é contrária ao espírito da nova Igreja, e do mundo novo. Num mundo em que os padres têm horror à paternidade e pervertem os moços tranqüilizando-os e estimulando-os na soberba e na jactância, é fácil prever o desamparo em que ficam os educadores. Em si nunca tal tarefa foi isenta de espinhos. Daí a insistência com que Deus revelou a necessidade de defender essa linha. Dificílima, porém, se tornará a tarefa quando a sociedade em torno da família conspira contra os pais e ainda mais árdua se torna quando, além de faltar o socorro da Igreja, os padres trabalham sofregamente na perversão da juventude. Os pais, transtornados, perdem o pé, e então o anti-pai triunfa e aponta-o como clara demonstração de impotência e de inutilidade. Acelerado o círculo vicioso chega-se ao ponto em que se torna impossível educar.

Numa sociedade assim pervertida os jovens serão “os únicos juízes de seus atos”, como diz com toda ênfase e garbo um dos catecismos aprovados neste País pelas autoridades eclesiásticas que querem corrigir as distorções socioeconômicas das regiões menos favorecidas, mas não mostram nenhum empenho em evitar que os jovens sejam pervertidos por padres revolucionários.

E aqui torno a dizer que não ponho o acento tônico dessa perversão no 6° e sim no 4° Mandamento. Os desvios do 6° Mandamento podem-se explicar por fraquezas sensíveis que estão na linha da natureza das coisas: mas os desvios do 4° Mandamento são obra de um espírito de orgulho que está na origem de todos os desconcertos do mundo.

É horrível o espetáculo que o mundo católico, na área dita progressista, nos proporciona hoje. E a conseqüência não se faz esperar. Sim, senhores Bispos, é preciso ter sempre em mente que as coisas têm conseqüências. Se os jovens são arrancados à autoridade dos pais, cedo ou tarde terão de esbarrar em outro tipo de autoridade mais áspero. Tornados viciados, indisciplinados, revoltados, e eventualmente arrastados pelos agentes da subversão até a ação direta do terrorismo, os mesmos jovens adulados e caramelados pelos ávidos padres terão de esbarrar na repressão policial que é mais dura do que os pitos e conselhos do pai.

Eu não chego a dizer que os padres progressistas promotores de jovens tenham desde o início o desejo de transformar seus amiguinhos em criminosos, mas não hesito em pensar que é isto, precisamente, que o Demônio espera desses padres.

E agora que leio nos jornais que os senhores Bispos da América Latina concluíram que, para a restauração da família, é necessário que os pais entrem em diálogo com os filhos. Sim, diálogo, conversa, tolerância, mas não palavra de pai amoroso que quer o bem de seu filho. Para esse tipo de relacionamento entre pai e filhos não podemos contar com as reuniões episcopais.

 

 

Revista Permanência, setembro de 1973, n° 59, Ano VI.

Natal

Mudei eu ou mudou o Natal?” — perguntou Machado a seus botões que deixaram a pergunta famosa mas sem resposta. Por eles, ao longo do tempo sugeriram respostas várias em torno do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico a si mesmo.

Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta coincidência de duas tão diversas permanências que reside toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta é a primeira e fundamental mensagem do Natal trazida pelo Percursor. João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel, e chamava para que os homens mudassem.

Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto coração do homem mude de ritmo, de direção, de desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a ser cambiante e instável, por si mesmo ele não pára de dançar e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência que o natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente conversão. Ou é a permanente e progressiva gestação do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu no seio da Virgem sempre Virgem.

A verdadeira participação do Natal é essa em que, de uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos todos os recursos da humana ternura, será de festa de solidariedade humana, será data planetária, será efeméride, mas não é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.

Tudo isto resolve as arrumações habituais do mundo, e é para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda do Senhor como outrora, João Batista anunciou.

É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer.

Quem és?” perguntaram a João, filho de Zacaria. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do Senhor”.

E aí está: o Natal não muda, para que nós mudemos o nosso vão mudar.

 

PERMANÊNCIA, N° 62, Dezembro de 1973.

Mundo, mundo...

Gustavo Corção

Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos.

Solum expertus potest scire

quid sit Jesum diligere

Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus”. Ou, “somente os que por experiência sabem...”.

Todos os mestres místicos ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase”? Este termo parece restritivo, e portanto impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. É por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos é inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível.

No caso em questão, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de maior linguagem especulativa, recuam diante do termo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do Caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus.

* * *

Mas agora, caído em mim de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: — A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências nacionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB?

* * *

Na verdade, leitor, tudo o que toca nossa Santa Religião tem aquela marca antitética da Cruz. O belo canto eucarístico de Santo Tomás nos veio por antítese da matéria ingrata que se impõe à nossa consciência como dever de testemunho. O fato é que daquele canto de amor (somente quem o provou sabe o sabor que tem o amor de Jesus) veio-nos, num contraste abismal, a idéia horrível da “experiência” que o mundo vem fazendo, e a cujas infinitas conseqüências o mundo dia a dia se entrega com uma apavorante submissão: a experiência do mal erigido em sistema ou se quiserem, a experiência do ódio de Satã. É verdade que somente no inferno terão as almas perdidas a ciência mais exata do que seja o ódio de Satã. Mas o fato é que aqui, na terra, neste belo planeta azul que talvez seja o único habitado por seres racionais, capazes de louvar a Deus, e capazes de recusar seus dons, a humanidade já teve várias amostras daquele ódio, e várias vezes já assistiu ao espetáculo da maldade erigida da glorificação. O mundo encheu-se de saber, de saborear os horrores de que recentemente foram capazes os nazistas em torno de uma idéia; o mesmo mundo encheu-se de saber, de experimentar os horrores praticados pelos anarquistas e comunistas em torno de uma idéia.

Houve tempo em que, com raríssimas exceções, o mundo inteiro julgou que Hitler e seus companheiros tinham atingido a máxima crueldade jamais praticada oficialmente e sistematicamente por um regime; atrás da aparatosa e triunfal crueldade do nazismo, seu cúmplice monstruoso esteve agachado, eclipsado, taciturno e ignorado.

Tenho para mim que tais maldades organizadas e coletivas ultrapassam as forças humanas e não são praticáveis sem a ajuda de Satã; não dispondo, porém de um meio de medir, em unidades satanométricas, o grau de satanismo em cada caso, não sei qual dos dois monstros foi em si mesmo o pior, mas hoje não hesito em declarar que, para o mundo, e para o desenrolar do século o comunismo foi e continua a ser a pior das experiências políticas feitas e ainda descaradamente proposta aos homens. Como se explica então que tal hedionda evidência não seja reconhecida universalmente? A razão de tal cegueira, que é cômica numa nação rica, forte e engenhosa, como os Estados Unidos, e que é trágica sem deixar de ser cômica nas hierarquias eclesiásticas, talvez esteja nos quatro ou cinco séculos de humanismo liberal, mais ou menos integral, que afastou de Deus uma humanidade voltada e fechada sobre si mesma. Ora, os homens que se afastam e se tornam insensíveis às “experiências” do amor de Deus, no mesmo passo se tornam insensíveis àquelas do Demônio: e por isso serão capazes de abrir os braços ao comunismo com o entusiasmo que se observa nas Conferências Episcopais, e são capazes de aplaudir o humanismo ateu com a ardorosa e declarada simpatia que, para nossa infinita tristeza, ficou registrada entre os pontos notáveis deste brilhante século em que os homens demonstraram tão extraordinária faculdade nas experiências dos átomos... E é em nome dessa Ciência que dia a dia se acelera a desintegração de um mundo que já foi cristão.

 

O GLOBO — 23/04/1977

As virtudes militares

A expressão é de Charles Péguy, que o mundo inteiro, por um monumental equívoco tomava por socialista, e que, para dar desmentido, morreu como herói na defesa da Pátria. Trago-a à tona da atualidade por causa do Chile, e da necessidade urgente que o mundo moderno tem desse precioso antibiótico.

Na semana passada assisti à missa celebrada pelo Cardeal D. Eugênio Salles na Igreja da Santa Cruz dos Militares, cuja irmandade festejava seu 350° aniversário. Quem fez a belíssima homília foi D. Antônio de Almeida Moraes, Arcebispo de Niterói, que, depois de uma preliminar alusão à efeméride festejada, ressaltou o papel de especial destaque representado nos evangelhos por um soldado romano. Todos conhecem a passagem (Mt. VIII,8 e Lc. VII,1) em que se aproxima de Jesus um centurião pedindo-lhe a cura de seu servo que estava paralítico, e quando Jesus promete ir, responde-lhe então o centurião:

— “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e meu servo se curará. Porque eu sou um subordinado, mas abaixo de mim tenho soldados e quando digo a um destes “—Vá”, ele vai, e quando digo a outro: “—Vem”, ele vem ; a outro: “—Faça isto”, ele faz. Ouvindo Jesus estas palavras, admirou-se e disse aos que o seguiam: — Em verdade vos digo que em todos os israelitas não encontrei quem falasse com tanta fé”.

Note-se antes de mais nada estas simples palavras: “E Jesus admirou-se”. No subseqüente elogio vê-se esta coisa que a muitos modernos parecerá assombrosa: o personagem que em todos os evangelhos recebeu o mais alto elogio de Jesus foi um militar romano, isto é, um militar da potência estrangeira imperialista que ocupava a Palestina. Além disso, cumpre ainda lembrar que a profissão de Fé do centurião se incorporará à Sagrada Liturgia, e será repetida em todas as missas do mundo até o fim dos tempos. Quem jamais terá merecido tamanha honra?

Para bem frisar o agrado com que Deus vê os soldados que encarnam na profissão a santa virtude da obediência, Dom Antônio lembrou ainda outro testemunho de um soldado romano. Estamos no momento em que culmina a obra de Jesus, mas para o mundo parece, ao contrário, consumar-se o seu fracasso:

“Era a hora sexta (12 horas) e as trevas cobriram toda a Terra até a hora nona. Escureceu-se o Sol, rasgou-se ao meio o véu do templo, e Jesus clamou: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito. E dizendo isto morreu.” (Lc. XXIII, 44).

Ora, neste instante em que talvez algum dos discípulos duvidassem da vitória de Cristo, nesse momento que convidava à descrença e à idéia de um malogro total, ergue-se a voz de um soldado romano que, glorificando a Deus, disse:

“Verdadeiramente este homem era justo. (...) Todos os seus conhecidos, e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, estavam à distância e contemplavam tudo isto.”

Imaginemos a cena: no centro da escuridão a Cruz entre as cruzes do bom e do mau ladrão; ao longe as mulheres fiéis, perto da Cruz,  Nossa Senhora, e do outro lado com os olhos volvidos ao céu o centurião da potência estrangeira é incumbido por Deus para nos representar com seu testemunho, e para os encorajar quando na vida nos parecer que o Sol escureceu, que a cortina do Templo se rasgou, e que, perdidos na escuridão, nós somos as mais desgraçadas das criaturas. Valha-nos nesta hora o santo soldado desconhecido que creu precisamente na escuridão da Fé.

É conhecida a história da conversão do santo Charles Foucauld, e sabida a influência instrumental regeneradora das virtudes militares na sua salvação e na sua santificação. É narrada por Jacques Maritain, numa de suas mais belas páginas, a conversão de Psichari, o neto de Renan, inimigo declarado do Cristianismo. Também esse transviado nas trevas do mundo, como Charles Foucauld, compreendeu, por uma fulgurante graça de Deus, que devia enquadrar-se numa casa de obediência, onde o centurião diz vai! e o soldado vai; diz vem! e o soldado vem! Com a cabeça raspada, nos serviços da cantina, no exercício da obediência, Ernest Psichari compreendeu que salvava o depósito da Fé de seu batismo.

Agora é numa revista ilustrada francesa (Paris Match, junho, 23,73) que vemos três belos moços na capa a nos sorrirem como os heróis das Cruzadas e os anjos das catedrais, e a nos dizerem para dar o sangue e a vida pela pátria”.

...Um desses moços, na entrevista dada à revista, disse que a decisão firme de escolher Saint-Cyr, e de tornar-se soldado da França, foi a desordem de 1968. Quando maior era a escuridão, quando todos sentiam desânimo, viera-lhe aquela inspiração: ele escolhia uma vida, um testemunho que enfrentasse aquela onda.

Vive-se uma vez só. Vivamos dignamente, vivamos com pureza, e assim ofereçamos todos os bens particulares, saborosos e legítimos, pelo serviço as Pátria, que é um símbolo do serviço de Deus.

Compreende-se assim o horror, o ódio que a torrente revolucionária e inimiga de Deus e do homem tem do soldado. Compreende-se o empenho com que sempre procuraram destruir e desmoralizar as virtudes militares. E também se compreende que, nesta hora de trevas em que vivemos, só se salvará a civilização, a decência e a grandeza da vida humana se se multiplicarem os moços capazes do testemunho da verdade dado pelo centurião diante da Cruz. Precisamos de moços que militem com votos monásticos ou com virtudes militares. Precisamos de opções vigorosas e verdadeiras. E é por isso que senti um calor de animação nova quando li as notícias do Chile, quando ouvi o sermão na Igreja da Santa Cruz dos Militares, e quando vi o sorriso dos moços de Saint-Cyr.

 

Revista Permanência, Novembro de 1973, N° 61.

A imortalidade

Gustavo Corção

 

A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não da pessoa, mas das obras e dos passos. Essa imortalidade comporta graus, conforme seja maior ou menor o rumor que o finado tenha feito em torno de si. Há nomes sonoros que ficam na lembrança dos povos por séculos e séculos, enquanto outras vidas mais leves, mais silenciosas e cinzentas logo se apagam, às vezes no próprio mundo familiar. Lembra-me aqui um amigo que morreu deixando um magro legado de ressonâncias. Tão obscuro, tão pouco conseqüente fora que até um dia aconteceu-me, encontrando a viúva, abrir a boca para perguntar notícias do Belmiro, já morto, mais morto do que um prego de caixão de defunto como dizia Dickens. Calei-me a tempo quando recapitulei rapidamente a história póstuma do amigo. Deixara filhos e viúva, mas por uma ironia da sorte a viúva recebeu uma herança, empregou-se num desses cargos em que se ganha muito e pouco se faz, como tantos há nesta República, e assim a família conheceu melhor padrão nos dias de luto. Um ano depois a viúva namorava um guapo peruano que acabou de apagar na memória de todos a lembrança fugaz do pobre Belmiro. Lembro-me de um pormenor curioso da história do apagamento do Belmiro: um dia, trazendo os filhos para o colégio, de automóvel, entrou de mau jeito, como aliás freqüentemente o fazia, e tirou um pedaço, um pequeno pedaço do pilar do portão. Ficou aquela marca discreta, de que, ao cabo de algum tempo, suponho, só eu conhecia a causa. E sempre que passava por ali, e que via o arranhão na alvenaria, evocava a figura de Belmiro. Um dia, veio um pedreiro, recompôs o pilar, e com essa pá de cal desapareceu o último vestígio interessante de uma vida vivida meio século.

Creio que a ninguém escapa o ridículo que sempre acompanha esta tal imortalidade subjetiva, mesmo quando a figura imortalizada é imponente e o traço deixado na casca do planeta é um pouco maior do que um risco na cal. Ainda outro dia estive a ruminar meditações deste tipo diante de uma estátua que o escultor concebera e realizara em atitude oratória e que, exposta ao aguaceiro, tinha um aspecto lamentável.

Entretanto, apesar dessa carga de ridículo, a humanidade se obstina em guardar as lembranças dos mortos, e nós mesmos, se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente?

O fato é que apesar dessa pobreza de significação pessoal, desse caráter acidental, a sobrevivência pelas obras corresponde a um profundo desejo de nosso ser. Ninguém quer passar a vida em branca nuvem. Ninguém quer morrer como o poeta disse que morrem os pássaros. Mas a verdade é que é esse instinto de sobrevivência, digamos horizontal, que nos impede a visão da outra imortalidade, a vertical, a que tem dimensões de eternidade e não dimensões de história, à qual também corresponde um grande anseio de nossa alma, que tem horror à morte, à idéia do aniquilamento da pessoa, e que se insurge em cada caso, diante de cada defunto, como se estivesse vendo um espetáculo de espantosa raridade. O caso é que a alma humana tem profundidades de inconsciência em dois sentidos. Diria até dois hemisférios, um voltado para a terra e outro voltado para o céu. Num desses hemisférios a idéia de imortalidade da alma brilha como uma estrela; no outro, entretanto, levantam-se obstáculos erguidos pelas exigências da sensibilidade. É por isso que nos parece fria e distante a consideração filosófica em torno do asssunto. Disse Edgar Poe que não custou muito a ver que jamais se convenceria de sua própria imortalidade se tivesse de acei­tar as demonstrações filosóficas. Pagando o seu tributo ao empirismo triunfante na atmosfera cultural de seu tempo, Edgar Poe diz brutalmente: «... he (the man) will never be so convinced by the mere abstractions which have been so long the fashion of the moralists of England, of France, and of Germany».

Que quer isto dizer? Será assim tão inoperante, tão pouco convincente a demonstração filosófica? Será a razão tão pobre ou tão fria diante da vida? Na verdade, estamos diante de um problema típico, ou melhor de um tratamento típico dado a um problema espiritual pelo empirismo, podendo ser este da espiritualidade e decorrente imortalidade da alma, ou o da existência de Deus. Quando alguém diz categoricamente que as demonstrações filosóficas não convencem intelectualmente, ele quer dizer que tais demonstrações não satisfazem à sensibilidade. Quer dizer que não sacia a fome, não apazigua o sexo, não tranqüiliza os nervos, não atende em suma a exigências que vêm de todo o dinamismo da sensibilidade. Seria pueril zombar de tais exigências e fazer parada de espiritualidade alambicada e inteiramente despreendida daqueles laços. Mas também é pueril pedir à inteligência um tipo de alimento que não lhe compete preparar. É claro, claríssimo, que ninguém se lembrará de ler uma página filosófica para o pai que chora diante do cadáver do filho. Mas também é claro que nesta mesma hora o pobre pai não entenderia uma demonstração de geometria. Será defeito da geometria? Ou será mais fácil pensar que a situação emocional, sensibilizada, responde pela mo­mentânea incapacidade?

A filosofia é mais difícil do que todas as geometrias juntas, e para se tornar operante e convincente numa alma é preciso que essa alma trabalhe longamente para se desobstruir do empirismo. Assim, a idéia de imortalidade da alma, que vale a pena ser desempatada, tem de ser apresentada ao espírito muito antes da emoção, da perturbação, para que na hora oportuna ela tenha algum valor vital.

Vale à pena desempatar esse problema, e procurar entrever, através de nossos obstáculos, as novas dimensões da eternidade. A imortalidade verdadeira, pessoal, essencial, não se distribui pelas pessoas em graus proporcionados ao sucesso da vida. É ao contrário um atributo da alma espiritual, e portanto um denominador comum de toda a humanidade. E se assim é, segue-se que a sorte do homem, referida aos eixos da eternidade, deveria dominar todas as cogitações da vida terrena, e não estar relegada à categoria de assunto que serve para consolo nas câmaras ardentes e logo em seguida é esquecido. Vale à pena desempatar este pro­blema que nada tem de relativo. Ou somos dotados de alma espiritual ou não somos. Ou somos criaturas com vocação de eternidade, ou não somos. Uma das mais inacreditáveis contradições da condição humana é justamente a do pouco caso com que tratamos as coisas mais relevantes; mas ainda mais espantosa atitude é a daquele que se alegra com a divisão de opiniões em todos os assuntos, inclusive nesses de máxima relevância. E ainda mais incompreensível, nessa progressão geométrica de disparates, é o fato de passar por muito inteligente quem relativiza todas as categorias intelectuais e alegremente desiste de pensar.

Vale à pena tirar a limpo o x da sorte do homem; mas para isto temos de seguir um caminho inteiramente diverso do experimentalismo procurado por Edgar Poe, no conto de onde tiramos a passagem acima transcrita. O caminho da descoberta dos valores de eternidade é o da purificação e o da ascensão da inteligência e da vontade espiritual, e até o da renúncia de qualquer perpetuidade na memória do mundo. Na mente do santo, o mais vertical dos homens, tudo se refere à vida eterna que por sua vez se refere a Deus. Nós outros, por nossos pecados, por nossa gulodice de instantes de vida, pela impureza de nossos critérios, temos apenas lampejos, e às vezes nem a isso damos uma pequena parte de nossa atenção.

(Diário de Notícias 16/7/1961)

Regina sine labe originali concepta

[Nota da Permanência] Dentro das comemorações dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), reproduzimos aqui um editorial da Revista Permanência (que eram escritos por Gustavo Corção). A espiritualidade mariana é sempre a mesma, católica, eterna. Já os desmandos e invenções dos modernistas estavam, naquela época, em sua fase de "destruições". Tudo o que era católico, tudo o que "cheirava a incenso", tudo o que era da Tradição, era simplesmente dilapidado, destruído, chutado, desprezado. Tábula rasa, era o lema dos progressistas. Depois virão outras fases que nos conduzirão à construção do monstro que hoje tenta nos devorar. Porque os modernistas instalados no Vaticano, quando toda a Tradição já estava destruída, construíram uma nova religião que tem uma carapaça pintada com "catolicismos", mas cujo conteúdo, tirado de Vaticano II, já não é mais católico. Este editorial pode parecer defasado na sua crítica aos progressistas, mas não é. O monstro cresceu mas é o mesmo daquela época. "Eis que o diabo, como um leão rugidor, vos cerca querendo vos devorar. Resisti-lhe fortes na Fé" (Ep. de S. Pedro)

V

VATICANO II
"SANTO DEUS! Esses mesmos autores de tal otimismo que tanto lisonjeiam o mundo e tantas vezes disseram quere acomodar as coisas da Igreja às exigências da mentalidade contemporânea, ao que parece, não se detiveram a bem observar o testemunho que ele — este bravo novo mundo — dá de si mesmo. Sim, depois de todas as conquistas da ciência e as mais inebriantes experiências de todas as liberdades, e de todas as perversidades, o espetáculo que vemos é o do planisfério de um imenso desespero.
 
"Está nas caras, nos braços caídos. Nas pernas moles. Nos cabelos sujos e emaranhados. Nos olhos alucinantes. E está nos fatos, nos atos, nos costumes. Nos divórcios fáceis. No aborto legal. Na procura das evasões pelos psicotrópicos que são uma espécie de suicídio à prestação. As famílias se decompõem, a intemperança cresce dia a dia, prendendo os homens às coisas de barro e à coisinhas que inventaram. E por cima deste mundo de liberdade em decomposição, uma atmosfera de impostura feita pela primeira vez na história por uma "civilização" que, como principal exigência, quer a negação de Deus. Ora, Santo Deus! Diante de tal quadro vemos três mil bispos a aplaudir, a sorrir, a encorajar: estejam à vontade, cada um é senhor de sua sorte, estejam a gosto..."
(Um texto singular, O Globo, 3/9/77, sobre a GAUDIUM ET SPES)
 
VIDA CATÓLICA
Há no mundo uma coisa que poderíamos chamar de tom ou timbre católico: é uma voz que todos conhecemos, e cujo timbre se estende da súplica do mendigo à homilia do bispo. É um acento; um timbre; uma colocação; um sotaque que poucos anos de prática gravam de um modo inconfundível. É um modo de falar que sai naturalmente de um modo de pensar, e que se aprende em pouco tempo porque é o modo próprio e normal para essa raça de homens tocados pelo batismo."
("À Margem de um Discurso", A Ordem, Janeiro de 1947)
 
"O cristão é um espinho fincado à força no mundo. É um soldado do Cristo, do Senhor, do Imperador, portador da Sua cultura, autêntico representante onde quer que esteja, vivendo humilde e vitorioso, entre as formidáveis pressões do mundo e de Deus, na exinanição e na exaltação, defrontando todas as ondas com um ato positivo.
 
"É um mendigo (ele apregoa isso), um decepcionado em cada hora (ele bem o sabe); mas é um mendigo, um decepcionado que recebe cada dia o corpo de Deus."
(Decepções, editorial, A Ordem, Maio de 1942)
 
VIAGENS
"Disse atrás que Pascal explica a maior parte das viagens pelo desejo de buscar assunto e alimento para a vaidade. Viaja-se para obter um diploma, como o de bacharel; ou para aumentar o reservatório de temas. Viaja-se para voltar com carimbos na mala, e com vulcões na memória. Posso imaginar o aventureiro retilíneo que faça exceção, mas não duvido que o caso geral seja este de quem parte para voltar, para trazer a personalidade engrossada.
 
"Mas essa mesma idéia, como tudo que é do homem, tem duas faces. Acho belíssima essa voracidade do homem, e essa capacidade de trazer para casa, para a sala-de-estar, sob as espécies do assunto, as guerras, os terremotos e os ciclones. Por outro lado, porém, acho lúgubre essa avidez de engrossar por fora a ganga do eu, numa capitulação da maior das aventuras, que é a conquista de si mesmo, a descoberta de sua própria alma. Há duas iluminações na face de um Marco Polo: de um lado o brilho ensolarado da boa aventura; de outro a verde lividez do homem que foge de si mesmo."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 190) 
 
VISIBILIDADE DA IGREJA
"Ao contrário do que diziam os autores super-espirituais que chegaram a perturbar a grande Teresa d'Ávila, e que pretendiam ver na Ascensão de Cristo, e na descida do Espírito, uma manobra de Deus para nos livrar da visibilidade do seu Corpo, nós podemos dizer sem receio que Nosso Senhor se tornou ainda mais visível no seu Corpo Místico espalhado pelo mundo. A Igreja é de fato o alastramento universal do Salvador. O sangue derramado é agora estendido, e tinge o mundo inteiro numa prodigiosa iluminura. E a Igreja cresce, como cresce o dia, de "claridade em claridade".
("A Visibilidade da Igreja", A Ordem, Maio de 1951)
 
VOTO OBRIGATÓRIO
"Já que resolvemos abordar este desagradável assunto, é melhor que fique dito tudo que nos pesa. Voltemos pois à expressão "votar disciplinadamente". Em nossa opinião, essa fórmula é obscena [...]
 
"O voto é um ato (um ato moral) com que o cidadão exprime sua livre escolha para o governo da cidade. Faz parte da essência do voto, portanto, a sua liberdade, não sendo possível, disciplinadamente, namorar, casar, passear, entrar para um convento, amar os filhos, venerar os santos e adorar a Deus.
 
"Em compensação, é possível prevaricar disciplinadamente. Prevaricar aos sábados. Prevaricar com método. Porque nesses atos, em que a matéria submete o espírito, a férrea disciplina pode entrar tão bem como numa férrea ajustagem mecânica.
 
"Há evidentemente, uma louvabilíssima disciplina, se por tal entendermos o cumprimento de certas regras da vida comum, como encolher as pernas no bonde, não soltar urros no cinema e não cuspir dos sobrados. Neste caso é possível votar disciplinadamente: trata-se então de chegar cedo ao posto, com seus papéis em ordem, de não ficar meia hora dentro da cabine indevassável e de não entreter com algum mesário conhecido uma inoportuna conversação sobre o calor ou o preço dos gêneros. A esse conjunto de pequenas e preciosas virtudes, filhas da justiça, chamaremos de boa educação e respeito; mas não temos grande relutância em aceitar a denominação de disciplina, se quiserem.
 
"O que relutamos em aceitar é que, disfarçada com o mesmo nome, a disciplina tente penetrar no íntimo dos atos que só valem quando são livres. Um destes é o voto. Voto é voto. É opção; é escolha; é, enfim, um desses atos em que o homem mais fortemente, e com todo agrado de Deus, imprime a marca de seu espírito.
 
"A muitos parecerá que a escolha de um senador seja mesquinha ou ridícula, comparada à escolha de uma esposa, de uma ordem monástica, ou de um Papa. Atrevemo-nos a fazer um paralelo entre todas as eleições, afirmando uma grande piedade por esse desdenhado campo dos atos humanos que estão pedindo santificação. Não achamos a política ridícula e mesquinha senão na medida dos seus erros; como não achamos ridícula a fidelidade e respeito de um esposo por uma pobre mulher que tenha perdido seus encantos; como não achamos ridícula a vigília à cabeceira de um doente; como não achamos indigno do Evangelho e da solicitude cristã nenhum ato humano que seja tentado na linha da justiça.
 
"O voto, por definição, não pode ser disciplinado. Quem receia tão nervosamente o clima da liberdade, ou não observou que todas as modernas formas da tirania apregoam a disciplina; ou então deseja a disciplina precisamente porque deseja a tirania. Deseja uma tirania que lhe seja favorável, e que neutralize e destrua a tirania que lhe é desvantajosa.
 
"Por isso, deveria ser lançado à execração pública quem jamais se atrevesse a pronunciar essa enormidade: votar disciplinadamente. Quem agita essa bandeira não crê no voto; não crê na política de fundamento moral; não crê em senado, deputado e vereador; não crê em democracia; não crê no direito natural, no direito das gentes, nas raízes do direito positivo; não crê na justiça; não crê, simplesmente, na justiça."
(Editorial de A Ordem, março de 1947)

T

TOLERÂNCIA
"A grande doença de nossa época, e principalmente de nosso país, é a da insensibilidade moral travestida em bondade. Todos toleram tudo, e depois se espantam com o antinômico resultado dos vagões de gases."
(Pode-se transigir em religião?, A Ordem, Fevereiro de 1954)
 
"Ah! essa caridade assim definida, eu a vomito! A que aprendi, e tão mal sirvo, soa como bronze e queima como fogo. É paciente, sem dúvida, conforme diz o apóstolo, mas é paciente quando está em jogo o seu próprio interesse, e impetuosa, terrível, colérica, quando vê a injustiça triunfar, quando vê nos postos de mando os que deviam estar na cadeia, quando vê o bem comum mal servido, quando vê o pobre humilhado, o inocente ferido, e sobretudo, sobretudo! quando vê o culpado engrandecido."
(Caridade e caridade, in Dez Anos)
 
"Há inúmeras situações humanas em que a solução acertada é um meio termo. Assim acontece quando, por exemplo, queremos regular o uso dos bens materiais; e assim também acontece quando devemos navegar entre escolhos. Seria, entretanto um erro gravíssimo supor que a boa solução está sempre no meio termo ou na bissetriz. Costuma-se hoje criticar, apostrofar as pessoas que em certas situações de dilema tomam posições extremadas ou radicais. Há também inúmeros casos em que o acerto está num extremo e não no meio. A integridade e a totalidade da Fé estão nesse caso.
 
"A Fé divina constituirá para nós a mais bela e adamantina intolerância; ou a maior das exigências feitas aos homens. Seria insustentável se Deus mesmo, para tanto, não nos desse a força interna, a virtude teologal, visão obscura, mas certa, semente de vida eterna, mas já eternidade diante de Deus. E para nós é especialmente grato lembrarmo-nos de que aparelho, de que obra, nos vêm essa energia espiritual — a Cruz de nosso Salvador."
(Curso de Religião, Cadernos Permanência, 1979)
 
"A propósito de maus e bons mosteiros, escreveu assim o abade de Solesmes: "Um mau mosteiro não é aquele em que os monges cometem muitas faltas; é aquele em que as faltas não são punidas". E eu creio firmemente que o próprio São Bento não diria melhor. Realmente, onde alguns monges cometem muitas faltas pode-se dizer que existem diversos maus monges; mas onde essas faltas não tem conseqüências, são todos que se tornaram maus, sim, maus por indiferença à linha divisória entre o bem e o mal, maus por negação da ordem moral, e sobretudo maus por indiferença ao mal que causa o mal praticado impunemente.
 
"Ora, esse princípio elementar, essa decorrência imediata da Caridade, ou essa exigência primeira da lei moral, não somente está em desuso como também em descrédito. Ninguém corrige, ninguém pune. Nas famílias, nas dioceses, nas universidades, na sociedade civil (...) E quando se esboça um pequeno movimento de reação e de virilidade, surgem logo os bons moços a gritar contra o "terrorismo cultural", ainda que reconheçam, como Tristão de Ataíde, que se trata de um "terrorismo suave".
 
"Depois, o bom moço recebe abraços dos patifes, é elogiadíssimo pelos corruptos, recebe telegrama dos apóstatas, e cartas efusivas dos blasfemos. E o bom moço fica contente consigo mesmo e com o mundo, porque a forma mais alta da caridade é a tolerância, como me escreve um imbecil, ou algum interessado em pensão de moças."
(Impunidades, O Globo, 16/09/65)
 
“É impossível, no convívio dos homens, sempre dizer sim e nunca dizer não. Há situações em que o sim é a expressão triste de um grande egoísmo e o não, a forte manifestação de ardente amor. A caridade nem sempre agrada e a prudência só é autêntica se aliada à força. Se em casa os pais não sabem dizer não ao filho e à filha desde a terna infância, mais tarde certamente irão dizer a eles vítimas do tóxico e do amor-livre um sim entristecido.”
(Editorial Permanência)
 
"Reconheço que usei expressões que a muitos parecerão excessivas e que corri os inevitáveis riscos de quem escreve com amor. Mas ainda não consegui encontrar um tom avaselinado quando vejo o incêndio lavrar na Cidade de Deus, e quando está em jogo o Sangue de nosso Salvador."
(Cavalos, Avestruzes e Cães Cegos, O Globo, 5 de Março de 1970)
 
TRABALHO
"Uma errônea filosofia, em reação a outra não menos errônea, afirma em nossos dias o "primado do trabalho", não apenas no contrato de trabalho entre os operários e empregadores, mas em todas as situações da vida, como se o homem tivesse nascido para trabalhar, e viva para trabalhar em vez de trabalhar para viver como diz o bom-senso e a reta filosofia [...] É fácil compreender que estaremos irremediavelmente perdidos, como pessoas, se concedermos esse primado do trabalho pelo qual seríamos essencialmente, antes de mais nada, um animal produtor. Não [...] o homem trabalhar "para"... descansar "para"... para o quê? Para ser dono de si mesmo, fazer o que lhe agrada, amar, meditar, rezar e tudo o mais que não é "trabalho" nem "lazer", que não é divertimento nem descanso, mas plenitude de vida, ainda que a manifestação seja a mais humilde.
 
"[...] E é para isto que existem as refinarias de petróleo, as usinas siderúrgicas, os computadores eletrônicos, mesmo porque, se não tiverem esta serventia, não terão nenhuma."
(A Volta para Casa, 23/08/64)

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