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Category: Gustavo CorçãoConteúdo sindicalizado

D

 

DESCONCERTO DO MUNDO
"Na verdade, a causa principal do desconcerto do mundo que tanto aflige o poeta, está no fato de ser o homem maior do que o mundo por sua principal dimensão (...)
 
"O homem está nesse mundo sempre de algum modo desfalcado, e portanto, de algum modo obrigado a submeter o maior ao menor, o eterno ao transitório, o espiritual ao corpóreo. E por isso estará sempre em posição mais ou menos cômica, ou mais ou menos trágica."
(O Desconcerto do Mundo, in O Desconcerto do Mundo)
 
"Todas as almas afinadas, um Pascal, um Peguy, a seu turno, e cada um com seu modo, dirão que o homem é uma incôngrua criatura, "un monstre de contradictions, un puits d´inquietude". O próprio Camões, mais de uma vez volta à obsessiva idéia do "desconcerto do mundo" trazido pela mesma conturbada condição humana. Nós sabemos pela Fé que tais desconcertos e contradições são conseqüências do pecado de nossos primeiros pais, e Chesterton dizia que, de todos os dogmas e mistérios da fé, o mais claro, o mais evidente é sem dúvida o do pecado original. Basta efetivamente olhar em torno de si com alguma atenção para descobrir que o animal racional é o menos razoável dos seres, e para começar a crer que algum grave mal-entendido está na origem do homem, e perdura em sua condição ao longo dos séculos."
(Mísera sorte! Estranha condição, O Globo, 13/5/78)
 
"Será preciso dizer que muitos filósofos, e atrás deles muita gente, julgam que não existe o universo de seres imateriais; que a alma humana é apenas um princípio de vida física, como a alma dos animais; que o conhecimento sensível e o racional são de mesma natureza e que, por conseguinte, é pura ficção a diferença específica do homem? Um dos mais estridentes desconcertos do mundo, como atrás já disse, reside nessa tentativa de achatar o homem para acomodá-lo, para naturalizá-lo no planeta. Se são suas excrescências que impedem a boa instalação, reduzamo-la. Na base de todas as grandes tentativas para diminuir o homem, está aquela filosofia que risca a diferença específica, como se fosse possível solucionar nosso problema cortando-nos o que temos de principal! Em todo o caso não percamos de vista o fato. Há filósofos e seguidores que recomendam a prática da castração espiritual, e que dizem que a alma espiritual é sonho de alguns, como a borboleta amarela do chinês, ou como o chinês da borboleta amarela."
(O Desconcerto do Mundo, in O Desconcerto do Mundo)
 
DESIGUALDADE
"Quererão os reformadores do mundo inventar um sistema em que o aumento de produtividade e de riqueza geral não beneficiasse em primeiro lugar seus próprios criadores, e não criasse por conseguinte desníveis de riqueza? Então terão de inventar outro homem, outro coração, outra alma insensível aos proveitos pessoais e desinteressada do progresso. O que há de especialmente estúpido nas utopias socialistas é a contradição dos que ao mesmo tempo desejam o progresso, sem o qual não se pode proporcionar bem-estar material a uma multidão, e reivindicam um igualitarismo, com o qual não se vê como se dará partida ao motor do progresso."
(O Século do Nada, p. 102)
 
DESTINO
"Para os gregos antigos o trágico humano estava no confronto com um destino implacável, consistia numa escatologia fechada e opressiva que calcava a vida humana de cada dia, pesando em cada gesto, penetrando cada palavra, orientado nada passo. A encarnação e a ressurreição do Cristo vieram abrir as portas da Parusia e libertar o homem; e uma nova luz acesa no mundo revelou com nitidez o verdadeiro trágico humano, a treva que contrasta com o Cristo, o mistério da iniqüidade. O cristão acha hoje ridícula a ameaça antiga do destino, acha risível a própria palavra que ficou relegada para a literatura amorosa de subúrbios, porque tem consciência de uma liberdade terrível e de uma tremenda batalha com o mal."
("Vade Retro, Satana", in A Descoberta do Outro)
 
DIVERSIDADE
"O mundo moderno, por lamentável engano, pensa que o mal e o sofrimento humano vem da diversidade. Procura então destruí-la, arrastando limites e paredes, e fundindo numa grossa pasta, onde serão trituradas, todas as coisas que constituem o esplendor da civilização. Não é justo dizer que isto seja uma idéia de bárbaro: um bárbaro não teria nunca uma idéia tão prodigiosamente estúpida. Não podemos imaginar um selvagem a fundar doutrina para simplificar seu "boomerang" ou a composição do seu curare. Mas posso dizer que essa idéia conduz à barbárie: o primeiro que a formula é geralmente um indivíduo muito civilizado, que num certo ponto de sua história, toma nojo da sua condição; o segundo, que a repete, é geralmente um tolo; o terceiro, um idiota; o quarto ou o quinto será então um bárbaro, e esse já não se dará ao trabalho de formular idéias".
(Introdução a um livro, A Ordem, Janeiro de 1947)
 
DOM HELDER CÂMARA
"... Dias depois li a famosa entrevista concedida por Dom Helder a L'Express, onde, entre outras coisas contava que "felizmente tivera na sua adolescência de seminário um PADRE MESTRE QUE O LIBERTARA DO TEMOR DE DEUS; e mais adiante incitava os seqüestradores e assassinos de reféns com palavras de entusiasmo: "eu os amo, eu os amo..."
 
(...) Escrevi-lhe logo outra carta mais breve e simples: "Depois de ler a entrevista a L'Express esperei desmentido seu em vão. Não o tendo, quero dizer-lhe que doravante o Sr. está dispensado de me escrever qualquer carta, e até de me dizer bom-dia, porque, depois de sua entrevista, o senhor perdeu o direito à estima e ao respeito dos homens de bem".
(Dom Helder, O Globo 14/5/77)  
 
"Quando  D.  Helder  diz  que  há  no  Brasil  uma  injustiça  intrínseca  a  exigir  revolução,  já  não  fala  como  católico  e  muito  menos  como  arcebispo.  Despreza  o  ensinamento  da  Igreja.  E  quando  quer  corrigir  essa  injustiça  com  socialismo,  não  apenas  despreza  como  contraria,  desobedece  frontalmente  à  Igreja" (Jornal do Brasil, antologia de citações, 7/7/1978)
 
DOR HUMANA
"Eu li o comovente artigo de Carlos Drummond sobre o outro menino, apaixonado de um dia, que teve pressa de matar-se. Li, e creio ter compreendido a pungente aflição daquela enorme alma de poeta quando lhe passa pela mente que o menino poderia salvar-se se alguém, naquelas poucas horas de um prelúdio de dor, o tomasse pela mão, o levasse à praia, e risse com ele nas espumas do mar. Raramente senti tamanha afinidade, tamanha simpatia, como nesse artigo escrito ele todo com um nó na garganta; (...)
 
"Mas não basta, ó poeta, mostrar às almas aflitas a doçura das relvas, a frescura das ondas, e a ternura dos regaços de amor. Porque isto não é toda a verdade da vida. E é preciso ser verdadeiro. É preciso, sempre, ser verdadeiro. Em toda a extensão. Em toda a profundidade. Nos dois hemisférios de luz e sombras da verdade.
 
"O que é preciso dizer, a esses moços que por tão pouco desesperam, é que existe uma dignidade no centro mesmo da dor; que a dor não excomunga; que a dor já foi santificada para que possa santificar. O que é preciso, ó poeta de alma grande, é abrir velas ao mar, e descobrir a verdadeira extensão do mundo e da vida.
 
"Ah! essa história maravilhosa, que a mim me contaram, como eu gostaria de lhe contar, longamente! longamente!"
(Os Meninos se Matam, in Dez Anos)
 
DOR SOBRE-HUMANA 
"Sabei ao menos leitor impaciente, que é por vós mesmos que grito e choro. Dói-me só de pensar um segundo no mal imenso que fazem os destruidores da Santa Igreja — mal que não se traduz somente nos tenebrosos novíssimos, mas desde já produz esse inferno na terra, que está sendo triunfal desfecho de uma civilização que estrepitosamente professa a aversão de Deus e a conversão à carne.
 
"Não me gabo do monopólio da dor. Todos eles sofrem, mais ou menos obscuramente, mais ou menos vertiginosamente. Agradeço a Deus a graça de saber qual é a causa da dor pela qual o mundo chora e de, sabendo-a, sofrê-la dez vezes mais, porque então à dor do mundo, que partilhamos, se somam a dor do Céu, as lágrimas de Nossa Senhora e a flagelação de Nosso Senhor, que pelos séculos e séculos se perpetua. Peço-vos, pois — ó múltiplo e vago leitor — ver nestas páginas de tão variado tom sempre o mesmo agradecimento e a mesma compaixão."
(Agradecimentos, in Conversa em Sol Menor)
 
DOSTOIEVSKI
"A leitura de Crime e Castigo me trouxe a convicção melancólica de estarmos vivendo uma depressão histórica. O mundo inteiro está passando por um processo de laminação, de mediocrização, de perseguição de um conforto elementar e não creio ser possível em algum lugar deste mundo de hoje alguém escrever um livro como este e outros de Fedor Dostoievski. Quem sabe se não seria melhor, mais higiênico, mais decente, calarmo-nos todos durante um milênio?"
(Relendo Dostoievski, 4/3/71)
 

 

C

 

CARIDADE
"A Caridade é a luz que nos revela a coisa mais extraordinária do mundo: o outro. Nem sempre conseguimos essa prodigiosa banalidade, e no meio da multidão sentimo-nos isolados, únicos, como se todas as pessoas que vemos não passassem de meras sombras, de sinais saídos de nosso interior. Mesmo em família ainda cada um tem uma significação relativa ao nosso eu. Esta é minha mulher, aquele é meu cunhado (...)
 
"A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão. Os maus poetas que só conhecem o amor erótico, não sabem que o verdadeiro amor separa, e que separa de um modo perfeito. A união da amizade não é um aniquilamento de um no outro, mas o esplendor de uma separação. Os amigos não se desmancham, os santos não se dissolvem, mesmo diante de Deus, mas reúnem-se de mãos dadas e cantam o mesmo louvor, cada um com sua voz, separados e reconciliados. O modelo perfeito do amor é a Santíssima Trindade, onde as três pessoas se amam numa perfeita separação."
("A Maior das Três", in A Descoberta do Outro)
 
"O reino de Deus vem. A mais ardente prece que Jesus ensinou diz "adveniat" e a oração inefável do Espírito Santo diz "veni". O céu vem. A esposa vem. Mas como seria possível imaginar o grito ardente que chama, que pede a vinda, o "veni", sem o impulso ainda mais ardente de correr ao encontro de quem chama? Que esposo apaixonado chamaria a esposa, gritaria: vem! sem se levantar de sua cadeira, sem esticar os braços, sem atirar corpo e alma ao encontro da bem-amada? Assim também só podemos entender a mensagem da esperança na caridade, e o reino de Deus está nesse encontro impetuoso em que Pai e filhos se atiram num imenso abraço de reconciliação.
 
"E quando ele ainda estava longe, seu Pai o viu; e, tocado de compaixão, correu, atirou-se em seus braços e cobriu-o de beijos."
("Ainda um pouco de tempo", in Descoberta do Outro) 
 
CARIDADE FRATERNA
"O cristianismo é todo ele uma soma de pequeníssimas histórias familiares. Basta ver nas epístolas. Depois do Dogma vêm os nomes de uns poucos amigos; depois da doutrina, os abraços da cordialidade paroquial. Lembranças a Prisca e Aquila. Lembranças e abraços a Andrônica, Amplius, Urbano, Persida e Rufus.
 
"Quem são esses santos ignorados cujos nomes vêm assim arrastados pelos séculos e séculos na cauda da doutrina?
 
"E Lucius, Jasão, Sosipater; e Erastos, o tesoureiro da cidade; e Quartus, nosso irmão?
 
"Quem são esses que ficaram gravados na Sagrada Escritura pela força dos abraços?"
(O Elogio da Pequenez, A Ordem, Dezembro de 1946)
 
"Não há mal em ser pequeno grupo dentro da Igreja Universal. Ao contrário, o mal está em supor que é possível a vida cristã na solidão das multidões, ou em imaginar que as grandes concentrações constituem resultado mais genuinamente cristão do que o pequeno grupo. O homem se perde, só ou nas multidões. Isolado ou dissolvido na massa o homem deixa de ser homem, e por mais forte razão, de ser católico. Uma paróquia com cinqüenta mil paroquianos é um absurdo, simplesmente porque não é possível abraçar e mandar lembranças a cinqüenta mil indivíduos.
 
"O mundo moderno padece de hipertrofia em tudo, e persegue implacavelmente todos os pequenos grupos, desde a oficina do artesão até a família, desde a paróquia até a granja. O pequeno grupo é a célula cristã por excelência, sendo medido com o côvado da amizade, esse metro humano que é aproximadamente igual aos braços de uma cruz."
(O Elogio da Pequenez, A Ordem, Dezembro de 1946)
 
"Mais de uma vez amigos escrupulosos externaram seus temores sobre os riscos do pequeno grupo. É fato que existe nele uma tendência ao fechamento e uma outra a um certo sentimento de superioridade. Mais de uma vez, como medida de precaução, nos foi proposto um alargamento de horizontes.
 
"Eu creio, porém, que há um engano nesses temores. É claro que nada existe sem riscos, mas convém notar antes de tudo que é a Igreja e não cada um de seus grupos que é propriamente universal. o corpo tem as propriedades gerais da soma, os membros, porém, têm as suas especificações. Alargar o âmbito das mãos e dos pés é qualquer coisa como meter os pés pelas mãos. O Papa é um só, e se cada um de nós se mete na cabeça ser um papa em miniatura, então o corpo será um monstro formado de miríades de cabeças.
 
"Quanto ao sentimento de superioridade que se torna a equação de um grupo, eu não vejo o inconveniente, nem vejo como seria possível funcionar, ou sequer existir, um grupo sem esse sentimento. Tudo depende do critério em que se firma esse sentimento. Se é no objeto que ele se prende, então não há nenhum inconveniente, pois é na firmeza e na dureza de um objeto que nós nos gloriamos."
(O Elogio da Pequenez, A Ordem, Dezembro de 1946)
 
"Quando durante a guerra atroz que pulverizou mosteiros seculares, eu subia a ladeira de São Bento, cada vez mais íngreme para o peso dos dias; e quando, em cima, eu via a clara fachada de sol, as torres, os sinos, o portão monumental com lavores em ferro, e o pequeno alpendre ao lado, onde dois ou três amigos já de longe me sorriam; muitas vezes eu pensei que aquilo — a casa, o portão, as torres, o alpendre acolhedor — tudo poderia um dia me faltar, reduzido a um montão de escombros, como a tantos no mundo aconteceu. Bem sabia que a Igreja de Deus é imperecível sendo frágil porém cada um de seus sinais. Frágil é o mosteiro apesar da ingênua grossura das paredes que, para os bons portugueses de trezentos anos atrás, seriam eternas como o céu; frágil o grupo de amigos; frágil o bronze, a pedra, a vida — tudo o que não seja a palavra de Deus.
 
"Poderia o Senhor consentir que o Demônio me cobrisse o corpo de chagas e, de uma só vez, me arrebatasse a família, o mosteiro, a clara fachada, os sinos e o alpendre, e de uma só vez cobrisse a face de meus amigos: mas então, eu pediria a Deus, num clamor de suplicações, que sem demora me descobrisse sua própria Face."
(O Elogio da Pequenez, A Ordem, Dezembro de 1946)
 
"Tenho para mim com firmíssima convicção: as almas dadas, dedicadas, debruçadas não se podem perder."
(Regina, in conversa em Sol Menor)
 
CASAMENTO
"A fragilidade do matrimônio decorre de uma desmedida exigência de felicidade, ou melhor, da aplicação dessa exigência a uma coisa que não suporta tal pressão. Há uma insolência nossa nessa impaciente cobrança de ventura, e há sobretudo um equívoco, porque pretendemos tirar da casa, do matrimônio, do amor humano, um infinito rendimento, quando é finita e sempre muito exígua a nossa própria contribuição. Depositamos com mesquinharia e queremos juros generosos, infinitamente generosos. E no desejo desse absurdo balanço nós somos injustos com o próximo, e injustos com Deus."
(Patriotismo e Nacionalismo, in As Fronteiras da Técnica
 
"No caso vertente, e para descobrir que as famílias estão funcionando mal, eu não preciso andar de porta em porta com um impertinente questionário. Basta-me observar a rua, os bondes, os cafés, para poder concluir que as casas já não retém as pessoas. A febre nas ruas prova a agonia das casas. E como a felicidade conjugal está vinculada à casa, ao equilíbrio, ao poder de retenção da casa, posso deduzir do aspecto publicado nas ruas as infelicidades escondidas nas casas."
(Amor, casamento, divórcio, A Ordem, fevereiro de 52)
 
"Quando se diz que o fim principal do casamento é a prole ou a fundação de uma célula social, não se pretende, de modo algum, que deva ser este o  mais veemente desejo dos noivos, nem que contrarie a essência do estado conjugal quem dele se aproxime sem sentir arroubos de ternura pelas criancinhas que vão nascer. Com o risco de parecer contraditório, declaro que não veria com bons olhos o futuro genro que tivesse mais ternos sentimentos pela prole futura, ou pelo bem comum social, do que pela noiva. Seria até capaz de vetar tal casamento, na medida em que hoje pode um pai vetar alguma coisa. E se o moço viesse dizer que seguia nisso as minhas lições, seria obrigado a dizer-lhe, com a máxima sinceridade, que então — tenha paciência! — não entendeu nada.
 
"[...] Está na natureza das coisas começar o casamento pela exaltação amorosa recíproca, como também está na natureza das coisas vir a flor antes do fruto. E não se diga, por favor, que essas flores são ardis da natureza astuta e traiçoeira que assim pega desprevenidos os corações e as abelhas. Nem se diga que são ilusórios os idílios e as paixões. As flores e os amores são realidades que jorram da profunda e intrínseca generosidade do ser. Não pecam, pois, por individualismo os noivos que se amam de um modo esquecido de tudo, os noivos que se isolam numa ilha, in a kingdom by the sea..., e que põe a máxima ênfase nesse recíproco afeto ao se acercarem do altar."
(Um caminhar lado a lado, in Claro Escuro)
 
"Um encontro não se transforma em núpcias gradativamente e inevitavelmente; entre uma coisa e outra é preciso inserir um elemento decisivo.
 
Há um provérbio de aparência imbecil que diz assim: “Quem pensa não casa.” É costume ver nesse provérbio um encorajamento para se ficar, durante a vida inteira, fechado numa prudência burguesa. Pensar, nesse caso, quer dizer: calcular despesas, prever doenças, avaliar a liberdade perdida em confronto com os novos encargos contraídos. Quem pensar assim não casará; resta-lhe a sabedoria negativa do provérbio para consolo. Não casa, mas pensa. É livre e pensa; é uma espécie de livre-pensador.
 
Atrás desse sentido comodista, o provérbio encerra uma advertência e sugere que é melhor casar do que ficar pensando. Quando um sujeito, nos caprichos da vida, encontra moça que acha de sua afeição e que lhe corresponde, tem essa alternativa: escolher ou pensar. O escolher é precedido, evidentemente, de um certo pensar; é de toda prudência que se conviva com a moça, que se converse, que se observem umas tantas coisas, antes de decidir a escolha. O homem é dotado de razão também para casar e deve aplicá-la na justa medida.
 
A tarefa não é fácil. A moça se esconde atrás de certas manobras que, no dizer de muitos autores, lhe moram nas glândulas. O pretendente pode estar certo que ela mudará enormemente; não é assim como agora se ri que ela vai rir; não é disso que hoje chora que vai chorar. Seus gestos serão diferentes, sua forma se alterará, e sua própria voz, que tanto agrada hoje, será mais cheia e mais dura no difícil cotidiano. O mais atento leitor de um Bourget ou de um Montherlant se enganará redondamente se quiser fazer previsões psicológicas sobre a esposa escondida na noiva. Assim sendo, é justo que se pense e razoável que se cogite. Mas num certo ponto do conhecer é preciso decidir. Ou escolhe, abrindo mão nesse único ato de todas as outras moças, entregando-se totalmente, correndo todos os riscos, agüentando todas as conseqüências, querendo desde já no seu coração agüentá-las, tendo confiança, pelo pouco que sabe, no muito que desconhece, trocando generosamente o pouco pelo muito, empenhando a vida inteira a vir em cima de alguns meses que já passaram; ou então continua pensando. E se pensa não casa. Não casa porque pode passar a vida inteira pensando. Sondando; sopesando; excogitando. Conheço diversos casos assim, de namoros tristes que duraram mais de vinte anos: o noivo pensava. Num caso desses, em vez de festa de núpcias houve luto, porque o noivo morreu pensando... "
(Quem Pensa não Casa, in Descoberta do Outro)
 
"Existirá sempre esse problema, essa tensão entre os dois sexos. Como diz Chesterton, o homem e a mulher são de fato incompatíveis. Viverão sempre em dificuldades. Serão sempre dois estrangeiros cada um a falar mal o idioma do outro. Prolongarão indefinidamente esse duelo que leva as maiores santas a nos tratarem, pobres de nós, ora com astúcia, ora com provocação. Santa Escolástica, para iludir o rigor monástico de seu santo irmão, rezou pedindo uma chuva torrencial. Santa Teresa d’Ávila, espanhola e atrevida, dizia, pensando num diretor espiritual que fora injusto com uma de suas filhas: «Olhe que nós outras não somos assim tão fáceis de compreender». E a história de Heloísa e Abelardo não foi outra coisa senão uma contínua e ininterrupta esgrima de provocações.
 
"Essa tensão entre os dois pólos da humanidade não é um mal. O homem e a mulher podem viver, em honroso convívio, uma civilização, discutindo e brigando – como no matrimônio – desde que mantenham a honra do combate. É claro que o bom entendimento recíproco é bom. No casamento o bom entendimento, o paralelismo de gostos e opiniões, é uma coisa maravilhosa, mas não creiam que seja, como se diz, o elemento mais importante. No casamento, o decisivo é compreender bem, em tempo e contratempo, a natureza mesma do ato matrimonial, e a honra do novo estado. Enquanto essa bandeira estiver no mastro da nau familiar, pode chover e ventar, podem as ondas avolumarem-se em montanhas e cavarem-se em abismos, que a arca portadora desse casal, que Deus prefere a todos os outros casais, chegará ao monte da salvação. Não serão muito felizes os viajantes dessa tormentosa travessia, sem dúvida, mas chegarão. E numa travessia é isso o que importa."
(A Vocação da Mulher, in As Fronteiras da Técnica)
 
CASTELO BRANCO
"Em outra ocasião em que também o Presidente me honrou com um convite que também não pude aceitar, a conversa prolongou-se e eu queria perguntar-lhe uma coisa e dizer-lhe outra:
 
"— Posso perguntar uma coisa ao meu Presidente?
 
"Ele olhou-me com aqueles olhos profundos de que não me esquecerei e, pousando a mão no meu braço, disse-me:
 
"— Ao Sr. eu abrirei meu coração.
 
"E eu que dantes nunca entrara em palácios, que sou por vocação muito mais povo que fidalgo, embora admire a fidalguia dos que a sabem trazer, vi de repente naquele varão as duas coisas sem as quais não pode haver estadista: a pequenez da condição comum que nos irmanava, e a majestade de um verdadeiro Chefe de Estado designado por Deus. Saí do Palácio Laranjeiras indeciso nas minhas convicções republicanas."
(Castelo Branco, O Globo 20/07/72)
 
CATARINA DE SENA
"Lembrei-me de escrever estas linhas de homenagem à dolce mamma Caterina, porque ultimamente tenho pensado muito na moleza e tolerância dos tempos modernos, que nos mais altos lugares são apregoadas como virtudes máximas. Apeguemo-nos à adamantina dureza da santidade. Santa Catarina de Sena jamais abriria a boca, jamais emprestaria o seu sorriso de virgem ardorosa e pura para pronunciar essas melosas declarações de incondicional tolerância e falsa bondade. Catarina de Sena tinha ódios. Santa Catarina de Sena não saberia, jamais, fazer um programa de promoção do Reino de Deus naquele tom de amaciamento da vontade e de derrame sentimental. O que nos ensinam os santos, com palavras e obras, é que não basta o sentimento enternecido, nem basta traçar na areia a tênue linha que separa o bem do mal. O que nos ensinam os santos é que é preciso, resolutamente, entre os céus e os infernos, erguer muralhas de ódio e cavar abismos de amor. E o que nos ensina com particular insistência essa moça de vinte e poucos anos, Catarina, filha do tintureiro Benincasa, de Sena, é que devemos andar como os paladinos do Santo Sepulcro, entre duas cruzes, no peito e nas costas: a cruz do santo ódio e a cruz do santo amor. E é por isso que a Igreja, no dia de sua festa, dizia no Intróito da Missa: Dilexisti justitiam et odisti iniquitatem, fórmula que bem exprime o claro-escuro, ou melhor, o preto-e-branco da vontade bem polarizada pelos mandamentos de Deus."
(Catarina de Sena, O Globo 4/5/78)
 
Desde os primeiros anos de sua peregrinação na terra, "entre as aflições dos homens e as consolações de Deus", a Igreja sempre marcou uma especial devoção pelo Sangue de nossa salvação. Já o Apóstolo em Hebreus IX, 22 diz: "É com sangue que quase todas as coisas se purificam e sem efusão de sangue não há salvação".
 
Mas foi no tormentoso século XIV que Catarina de Sena, nas cartas e nas lições ditadas aos seus discípulos, pôs uma singular ênfase na riqueza de significações do Sangue, sim, uma ênfase marcante no Sangue! Transcrevemos a seguir algumas amostras de sua pregação colhidas ao acaso no livro Sainte Catherine de Sienne vous parle do Pe. S. Bezin O.P., ed. L´Abeille, Lyon, 1941: "Corramos, então, corramos todos cristãos fiéis, atraídos pelo odor do Sangue" (pág. 251). "Inebriemo-nos do Sangue de Jesus crucificado já que o temos ao nosso alcance. Não nos deixemos morrer de sede. Não nos contentemos com pouco, mas tomemos muito para nos embriagarmos e nos afastarmos de nós mesmos". "Nós não fomos resgatados por preço de ouro, nem somente por amor mas pelo Sangue". "Não há outra maneira de saciar o homem: somente neste Sangue poderá alguém se desalterar". "Este Sangue é nosso, foi derramado para nós, ninguém nô-lo pode tirar a não ser nós mesmos" (pág. 252).
 
Folheando o epistolário de Santa Catarina de Sena em seis volumes (Le Lettere di S. Catarina de Siena, Casa Editrice Marzocco, Firenze 1947) não resistimos ao desejo de transcrever mais este grito da Dolce Mama: "Caminho sobre o sangue dos mártires, o sangue dos mártires ferve e convida os vivos a serem fortes".
 
Tenho a firme convicção de que Santa Catarina de Sena falava com esta obsessiva insistência por uma razão muito simples e muito extraordinária: a vigésima terceira filha do tintureiro Benincasas via o Sangue do nosso Salvador em todos os sinais sagrados da Igreja. Quando por exemplo ela procurava seu confessor Frei Raimundo de Capua costumava dizer: "Vou-me ao Sangue".
(No Sangue, O Globo, 13/7/78)
 
CENTRO DOM VITAL
O Centro Dom Vital foi fundado para o apostolado da inteligência, e, portanto, para a atuação no plano em que muita gente imagina que a religião exige de nós uma piedosa abdicação das faculdades mentais. Ao contrário do "abêtissons nous", o Centro Dom Vital prega o afinamento da inteligência e a sua vivificação pela Fé.
(O Centro Dom Vital, DN 28/4/60)
 
CETICISMO
"O que mais entristece e irrita na atitude do cético em relação ao milagre não é a incredulidade, por teimosa que seja em face das evidências. De certo modo, eu diria que o homem católico mais depressa simpatiza com o incrédulo, com o homem que defende o reduto intelectual de qualquer rápido assentimento, do que com a credulidade fácil que traduz negligência intelectual. Se me permitem o paradoxo, direi que nós somos terrivelmente incrédulos, porque temos cristalizado e bem definido o nosso sistema de crenças. A rigor, o católico é o homem que não acredita numa imensidade de coisas em que todos acreditam. Não é pois a incredulidade que mais nos afasta do homem que não crê em milagres; é antes uma posição puramente intelectual e puramente metafísica, antes de ser uma atitude de Fé teologal. O homem que não acredita em milagres se apresenta geralmente como indivíduo mais racional, mais raciocinante e até mais razoável do que o homem que acredita. No íntimo, está convencido de ser mais inteligente ou pelo menos de ser mais fiel aos dados da pura inteligência contra as armadilhas dos dados emocionais. Ora, o que acontece é exatamente o contrário. O homem infenso ao mistério e ao milagre é justamente aquele que não tem olhos lavados para a profundidade do ser, para as riquezas da realidade, para o que há de extraordinário na simples existência do mais ordinário dos seres (...) Dizia Santo Agostinho que o hábito de ver embota a inteligência e torna vis as coisas. Essas almas rotineiras usam a parte cartesiana da razão, a parte quadriculada do espírito, e estão convencidas de que todo o espírito, toda a alma humana e toda a realidade do universo cabe no magro diagrama que não é senão o esqueleto do real. Não vêem o que o poeta chamou a lágrima das coisas, e que poderia ter chamado também o riso das coisas. Não vêem a novidade permanente de todos os seres contingentes pendurados na fonte viva que lhes garante a existência. Para o olhar do poeta, do metafísico e do místico não há senectude, não há repetição essencial e mecânica dum universo montado como imensa relojoaria: eles vêem a origem absoluta escondida, e vêem no frêmito da contingência uma perpétua ressonância do ato criador."
(O Centenário de Lourdes, A Ordem, Julho de 1958)
 
CHARLES MAURRAS
"Tomada como "movimento histórico", que realizava o mais vigoroso engajamento numa realidade nacional em movimento jamais visto, A. F. surgiu como adversário implacável da corrente revolucionária, que evoluiria rapidamente em direção ao marxismo. Concretamente, Charles Maurras opunha-se, atravessava-se no caminho de Marc Sangnier e dos sillonistas com a disposição marcial de Pétain em Verdum: "ON NE PASSE PAS". 
("Estamos no século XX" in O Século do Nada)
 
"O fato é que Charles Maurras, dizendo-se um homem sem fé, e depois de uma literatura ostensivamente pagã e às vezes quase blasfematória, põe-se à frente de um movimento que defende a Igreja de todos os sucessivos ultrajes sofridos dos governos da república e congrega em torno de si os católicos mais sérios da França. O mundo católico inteiro sentiu a irradiação dessa alma poderosa, e aqui no Brasil Jackson de Figueiredo, fundador do Centro D. Vital, foi um maurrasiano fervoroso."
("Estamos no século XX" in O Século do Nada)
 
CHARLES PÉGUY
"Péguy, de fato, não freqüentou os sacramentos; e não os freqüentou por uma razão extremamente simples: porque morreu durante o processo de conversão. O que amamos nele é esse itinerário, longo, difícil, penoso, que ele percorreu com os olhos postos na Virgem Santíssima. Começou, esse singular convertido, por onde geralmente termina o filho pródigo: pelo culto de Nossa Senhora e pelo gosto da oração. Se nós víssemos um amigo querido, um irmão, seguir esse itinerário em direção à Igreja, rezando e honrando a mãe de Deus; se nós soubéssemos que esse amigo, ou esse irmão, tinha morrido com uma bala na testa, em defesa de sua honra, de sua pátria, e da verdadeira Rainha de França; e se nos contassem que na véspera da morte, esse amigo, ou esse irmão, tinha passado a noite a enfeitar de rosas um altar para a festa de Nossa Senhora; nós teríamos uma imensa esperança em sua salvação (...)
 
"O espetáculo que guardamos no coração e que não parece ter impressionado o sr. Mesquita Pimentel é este: um homem passa correndo numa pista difícil; um homem passa, cantando e rezando; um homem passa, levando a vida de seus filhos numa longa peregrinação; para entregar a quem de direito, a vida de seus filhos; e vai, e passa, e anda, e corre pelas terras da Normândia, vendo ao longe, afinal desenhar-se contra o céu a agulha fina e escura de uma catedral, onde os reis de França dormem, à espera da ressurreição. Vemo-lo passar, vemo-lo correr; rezando e cantando. De repente, em meio do caminho, quando o horizonte se cobre de nuvens escuras e estremecem as catedrais, vemos um vulto de pé, reto, varonil, estender os braços em cruz e cair, molhando com seu bom sangue, beijando em sua agonia, a antiga terra de mártires e de heróis...
 
Heureux ceux qui sont morts pour la terre charnelle
Mais pourvu que ce fût dans une juste guerre.
Heureux ceux qui sont morts pour quatre coins de terre.
Heureux ceux qui sont morts d'une morts solennelle.
Heureux ceux qui sont morts dans les grandes batailles,
Couchés dessus le sol à la face de Dieu.

Heureux ceux qui sont morts sur un dernier haut lieu,
Parmi tout l'appareil des grandes funérailles.
Heureux ceux qui sont morts pour des cités charnelles.
Car elles sont le corps de la cité de Dieu.
Heureux ceux qui sont morts pour leur âtre et leur feu,
Et les pauvres honneurs des maisons paternelles.
 
"Ora, depois disto, chega-nos o sr. Mesquita Pimentel, de roupa marrom e colarinho duro, para nos dizer secamente, com argumentos de corretor de seguros, que lamenta muito, mas que o nosso cliente morreu sem pagar sua última apólice."
(Respondendo a uma Provocação, A Ordem, Dezembro de 1947)
 
CHESTERTON
"Chesterton trouxe-me uma libertação, uma recuperação da infância, encheu-me da confiança que mais tarde, pela misericórdia de Deus, seria vestida de Esperança". 
(A Descoberta do Outro, pág. 112)
 
"... posso dizer que há um pequeno equívoco a respeito da obra de Chesterton. Realmente, ela foi escrita sobre o homem da rua, mas não para ele. O autor inglês trata sempre do homem ordinário, mas dirige-se indiscutivelmente aos intelectuais, tentando convencê-los da vantagem imensa de tornarem a ser homens ordinários."
(A Descoberta do Outro, pág. 115)
 
CIÚME
"O ciúme puro, o ciúme congênito, não consiste numa falta de confiança; é antes uma avareza, que não pode tolerar que alguma coisa da mulher, sua figura, seu calor, seu perfume, possa ser atingida por um outro. Um contato causal numa cadeira de teatro basta para produzir nele uma angústia insuportável, ainda que tenha a certeza da sua casualidade e da sua inconseqüência. O ciúme puro não se alimenta de dramas; não tem história; não depende de um enredo. É uma tragédia seca, toda instalada no presente, na idéia de uma posse absoluta, como a do avarento. Pelo seu gosto, o ciumento desse puro ciúme esconderia a mulher, como o avaro esconde na terra o seu tesouro."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 101).
 
"Não. Otelo não foi avaro nem suspeitoso de Desdêmona. Otelo foi um crédulo, um grande e generoso confiante, que só representou, do drama do ciúme, as cenas de ira e da violência. Sua cólera teve a medida de sua confiança traída. Esse foi o seu drama. Qual é o ciumento que precisa da astúcia e da perfídia de um Iago? (...)
 
"O ciúme do curioso, do desconfiado (...) é dramático, inventivo, inquieto, urdidor, e dispensa qualquer intriga, porque ninguém melhor do que ele as fabrica. Dispensa os ardis, porque ninguém melhor do que ele os executa. E tem febre de esmiuçar, febre de saber, chegando a experimentar uma lívida satisfação ao ver confirmadas as suas suspeitas. E raramente castiga. Diante da evidência da traição, ele desfruta a mesma esquisita alegria intelectual que leva as pessoas mais compassivas a dizer "eu bem sabia..." quando vêem os seus presságios confirmados"
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 102-103).
 
COLETIVISMO
"O coletivismo de que morre o mundo e de vivem os novos aventureiros é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um: é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar-geométrico dos equívocos."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 87).
 
COMUNISMO
" [...] deve ou não deve ser extirpado o comunismo do corpo da democracia, no qual figura como um fibroma?
 
"Deve. Deve ser extirpado, sem a menor dúvida (...) É portanto errado dizer que a democracia, como a entendemos, confere direitos a qualquer idéia se discutir e a qualquer doutrina arrolar adeptos. — Este indiferentismo moral é o grave erro do liberalismo, fulminado pela Igreja."
(Combate ao Comunismo, Editorial de "A Ordem", Janeiro de 1947)
 
"Há uma fórmula bondosa que parece muito cristã e que diz assim: combater o comunismo amando os comunistas. Esta fórmula é parcialmente verdadeira, mas carece de uma distinção justamente quando parece estar fazendo uma fina distinção. Na verdade podemos e devemos combater o comunismo combatendo os comunistas. O que se pretende dizer, com aquela disposição de amar os comunistas refere-se a pessoas como pessoas, e não às pessoas como comunistas. Rigorosamente falando não estamos obrigados em relação ao comunista como tal, mesmo porque é impossível combater praticamente o comunismo sem combater os comunistas e sem os detestar na medida em que são comunistas. Levando aquela fórmula a rigor, cairíamos no erro de reduzir nosso combate ao campo puramente doutrinário, de que já nos ocupamos. A luta tem de ser prática, e por conseguinte tem de se realizar num corpo a corpo onde aquela distinção se manifesta imperfeita. É claro que em qualquer fase da luta, em cada caso particular, nossa indignação estará pronta a se transformar em amizade cristã. Mas isso não pode constituir uma condição vaga, preliminar à luta.
 
Não devemos ter medo da justa indignação; da justa detestação. Devemos, ao contrário, ter medo dessa dulçurosa falta de combatividade que nos obriga a recuar para dentro das capelas. Nos evangelhos, a divina indignação não se dirige ao farisaismo, mas aos fariseus. É claro que cada homem mereceu o sangue do redentor e pode amanhã se tornar santo. O sr. Prestes poderá ser um santo. Isto é ponto de doutrina. Mas o que é claro também, de modo ofuscante, é que hoje o sr. Prestes é nosso adversário político e deve ser considerado como tal.
(...)
Passaram os tempos de doçuras; saibamos ser duros com justiça. E entreguemos a Deus nosso amor, para que dele disponha, e para que escolha quem virá amanhã ao nosso encontro."
("Combate ao Comunismo", A Ordem, Editorial, Janeiro de 1947)
 
CONFIDÊNCIAS
"Todos nós temos nossos santos prediletos, mais próximos segundo não sei que espécie de afinidade, ou talvez mais favoráveis por algum decreto de Deus para a comunhão dos santos. O fato é que os temos. Depois de Deus — tu solus altissimus... — depois da Virgem Santíssima e dos santos apóstolos, começa então a lista caprichosa dos afetos sobrenaturais de cada um. Não escondo a minha, onde o leitor em vão procurará a razão que também não encontrei de tal predileção. Ei-la: Santo Tomás, São Bento, Santa Perpétua, Santa Catarina de Sena, São João Cancio, Santa Bernardete, Santo Cura d'Ars, Santa Teresa d'Avila, São Francisco e São Pio X, o mais próximo na data de canonização e o mais importunado para que interceda no céu, como trabalhou na Terra, em defesa da Fé e da Igreja peregrina. Vou mais longe na confidência: trago sempre comigo, no bolso da camisa, em cima do coração, uma medalha do grande e Santo Papa, e tenho no missal uma imagem e uma oração."
(São Pio X, in O GLOBO, 21/8/69)
 
"Nos dias que se seguiram, lembro-me bem, eu não podia passar quinze minutos sem pensar no santo nome de Deus. Era um assédio, um atropelo, era uma verdadeira perseguição que me acuava contra o altar. Uma onda de mérito de todos os santos, um vento de todas as orações, puxava-me o chão em baixo dos pés. E eu não sabia que o silencioso mover de lábios de toda a cristandade cuidava de mim, dizia um segredo que me interessava, como os cochilos de gente grande nas vésperas de Natal, quando eu era pequenino..."
(Nas portas de um Reino, in A Descoberta do Outro)
 
CONTRADIÇÕES DO HOMEM
"Aí está nessa esplêndida imagem a figura do homem: um ser capaz de galopar em todas as direções. Em outras palavras, o homem, como o vemos, na situação em que está, é o mais evasivo dos seres. Sua explosiva natureza, composta de espírito e matéria, isto é, de fogo e pólvora, já deixaria entrever, em abstrato, que sua história não seria cômoda. Sua natureza é tão aventurosa, que parece melhor realizar-se quando rompe seus próprios limites e se ofende a si mesma.
 
"Não admira muito que, na origem de nossa história, a integridade de tão explosiva natureza e a observância de tão dinâmicos limites precisassem apoio num pacto de sagrada obediência. Ora, essa obediência foi uma vez quebrada, os diques do pacto rompidos, e a humanidade precipitou-se pelos vales da história como uma avalanche. E nós vemos passar em tumulto esses estranhos seres crivados de contradições, capazes de desejar com ardor aquilo mesmo que fere a sua própria natureza, capazes de assaltar e pilhar o próprio domicílio, capazes de morder o próprio coração."
("O valor da vida", in As Fronteiras da Técnica)
 
COTIDIANO
"A vida só é cristã quando tudo pesa na balança da eternidade, e por isso a mesa do trabalho, ainda do mais obscuro trabalho, que não é nada, menos do que nada, se pretende ser uma atividade salvadora do mundo, é muito e pesa, se significa a aceitação da tarefa diária, a entrega do cotidiano, a preparação de um ofertório. Evidentemente, fazem-se nessa mesa coisas sem brilho e sem festa e ninguém cairá em êxtase diante dum memorando. Mas a vida não é só festa, nem mesmo para os filhos de Deus e aos pés de Deus, porque ainda temos que caminhar um pouco de tempo carregando a cruz de Nosso Senhor.
 
"Não adianta nada evitar o realismo cotidiano e banal com a espera de situações ideais, dum emprego apostólico, duma ocupação heróica, duma noiva total e perfeita, porque é bem possível que essas coisas não existam. Aliás, essa idéia de aguardar coisas que pesem, que valham realmente a pena de nosso esforço, é uma impertinência e uma presunção. Caíram nisso homens muito piedosos como aqueles que São Cipriano exortava: atacados duma prosaica peste, achavam ruim porque já haviam decido, cada um no seu foro íntimo, que queriam ser mártires... Esse escrúpulo de levar a sério um orçamento ou um horário, essa preocupação de ser despreocupado, também traduz um desejo de ser cada um o próprio autor dos acontecimentos ou então uma displicência boêmia em relação ao fluxo de fatos reais que nos vêm ao encontro cada dia."
("Ainda um pouco de Tempo", in A Descoberta do Outro)
 
CRISE DA IGREJA
"Sim, é cruel demais ter de explicar, ou tentar explicar o que acontece em nossa Igreja. Na verdade ainda não medimos bem a extensão de nossa desgraça. Mais do que nunca, a Igreja, que conheci jovem e bela como a mais bela das filhas de Jerusalém, nos aparece como uma pessoa viva, preciosa em sua carne e em sua alma, preciosa para o mundo, carregada de promessas, de dons, de beleza, de doçura e agora ferida, caída no chão, indizivelmente humilhada, a esmolar de seus filhos uma gota de piedade...
 
"A impressão que todos nós sentimos, todos nós que a amamos e há tantos séculos a vemos sempre virgem e sempre bela, e sempre moça, é a de que Ela foi traída por todos os lados. Essa idéia corresponde sem dúvida à realidade, desde que se dê à palavra traição um sentido muito mais extenso, mais complexo, e ao mesmo tempo muito mais doloroso e menos carregado de intenções criminais do que se costuma dar. É um sentido mais profundo e mais antigo... E também desde que de todas as traições de que falo só de uma tenha uma certeza íntima e indiscutível, uma certeza experimentada que, com a graça de Deus por Ela mesma servida, ao filho ingrato lhe dá forças para cair de joelhos e chorar..."
("Encruzilhada de Traições" in O Século do Nada")
 
"A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo. Teve sua infância obscura, teve o massacre dos inocentes, teve um período de construção e consolidação da doutrina da Salvação. Teve durante mil anos o domingo de Ramos. Entrou depois em quatro séculos de Gethsemani. E agora terá não sei quantos milênios de flagelação.
 
Estamos no começo do segundo mistério doloroso. O Corpo Místico de Cristo é insultado, chicoteado, cuspido. E a mais bela das casas expõe aos viandantes um deplorável aspecto de desolação e ruína. Virão depois os milênios da coroa de espinhos, os milênios do caminho da cruz e os milênios da crucificação. O que não é admissível – mas foi longamente admitido por equívoco – é a confortável e rotineira instalação da Igreja no Mundo. E o que também não é admissível é que a promessa de que não prevalecerão as portas do Inferno se aplique aos Suíços do Vaticano, aos paramentos e à cor das meias dos prelados. Entre as notas essenciais da Igreja sabemos que sua santa visibilidade foi desde o início concebida por Deus, mas também sabemos que a Igreja não é visível em todas as suas partes, nem é sempre visível em todos os momentos naquelas partes em que se concentra o fulgor de sua visibilidade.
 
Preparemo-nos, sem ilusões, sem apegos, e sem medo, ao dia do grande eclipse."
("Um Otimismo Descabido", O Globo, 02/12/1972)
 
"Miséria, dolência, fraqueza, tudo isto se entende, ou se admite sem se entender, ou se entende sem se admitir — tudo isto constitui o imenso pátio dos milagres que é o campo do Cristo neste mundo; mas inimigos? inimigos militantes? inimigos atuantes, de consciente hostilidade, dentro da Igreja?... Eis o que nos parece um exponencial e hiperbólico abismo dos abismos do mal.
 
[...] Um eclesiólogo rigoroso poderá, das próprios palavras do Evangelho, deduzir a falta de homogeneidade entre o joio e o trigo, e concluir que esses inimigos realmente só para efeito visível de sua odiosa tática estão dentro do recinto da Igreja, mas não estão dentro de sua substância santa. o contato que têm com a Igreja não é o dos pecadores que pensam no regaço materno e chegam a manchar o seu manto; é um contato mais íntimo: o que tiveram os flageladores com a Carne santíssima de Jesus Nosso Senhor."
(Editorial, Permanência no. 27, Dez de 1970)
 
"O que é particularmente penoso, ou particularmente repugnante, é o tom de superioridade, o ar inteligente e adiantado com que esses relapsos criticam os tempos em que a cristandade detestava e castigava heresias, e a Igreja pronunciava anátemas. Esses senhores progressistas não chegam e não chegarão jamais a compreender que, em favor de uma cordial permissiveness para seqüestradores, comunistas, autores de burríssimas fichas catequéticas etc. etc, eles deixaram de apreciar o valor das coisas de Fé."
(A Casa de Tolerância, O Globo, 13/2/1971)
 
"Peço ao leitor a paciência de suportar a insistência com que bato na mesma tecla: o nervo de toda a subversão e de toda a agitação que se observa hoje no mundo católico, especialmente no clero, é o da contestação do Mandamento honrarás pai e mãe".
("O 4o. Mandamento", Permanência no. 59)
 
"Não posso hesitar em meu testemunho, já que a isto se reduz tudo o que me cabe neste resto de vida. Deus o quer. Já tenho dito mais de uma vez que professo a Religião Católica e que, em muita algaravia que vem de Roma ou das Conferências Episcopais, e agora do Sínodo, eu mais ouço os relinchos do Cavalo de Tróia do que a voz de minha Mãe e Mestra; continuo tranqüilamente, e peço a Deus que me renove todos os dias a mesmíssima Fé, continuo a crer na Igreja de Cristo, depositária e distribuidora da doutrina da Salvação; continuo a pensar que é essa mesma doutrina que deve ser ensinada a jovens e velhos, para que se salvem; continuo a pensar, em termos de Fé e de senso comum, que os pais, padres e arcebispos devem diligentemente dizer aos moços que com Deus não se brinca e que a salvação da alma deve ser o principal cuidado de sua vida. Conseqüentemente, não é de admirar que eu continue a seguir o conselho de S. Paulo aos Gálatas: a quem fizer profissão pública de outra doutrina, direi: anathema sit. Ou então, em vernáculo: não seja idiota!"
("A Salvação das Almas", Permanência, no. 74)
 
CRISE DE ESCOLHAS
"Ora, é fácil mostrar que a sociedade moderna, na grave crise que atravessa, parece ter esquecido essa pequena regra elementar das escolhas nítidas. Quem casa, continua muitas vezes a viver como se não se tivesse casado; quem estuda medicina não afasta de si muitas vezes a idéia de fazer disto um negócio; quem cinge a espada não deixa de espreitar, muitas vezes, as menores oportunidades de ocupar cargos civis. Não discuto aqui as causas. Vejo somente o fato bruto: a todos nós, homens deste século e desta cultura mórbida, repugna a escolha."
("O valor da vida", in As Fronteiras da Técnica)
 
"O mundo é um anárquico depósito, uma loja monumental onde a gente compra estrelas e flores para a festa silenciosa e recatada no recesso da alma. Não é assim que fazem os escultores, quando arrancam o barro do chão e o trazem para o encontro do amor? Não é assim, por exclusão, por ablação, que o poeta destaca o que quer do anônimo e bulhento reservatório comum? O importante, na poesia e na vida, é a escolha; e por conseguinte a recusa. A poesia é uma greve, um protesto, como o que fazem os límpidos cristais, com suas intolerantes arestas, no seio opressivo da montanha. Ninguém rejeita tanto como o poeta, e como o apaixonado."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 35).

 

B

BOM SENSO 
"O bom-senso não é apenas um prêmio da moderação e do bom comportamento: é um troféu violentamente arrebatado".
("Uma restrição", in Três Alqueires e uma Vaca)
 
BURRICE
"Os católicos, em todas as épocas foram sujeitos aos pecados de todos os matizes, mas nunca pecaram, como hoje, de um modo tão humilhantemente burro. Tudo isto porque abriram portas e janelas quando deviam fechá-las: isto é, quando era evidente que o melhor serviço que a Igreja podia prestar a um mundo enlouquecido era a defesa de sua virgindade. Apregoaram admiração e até agradecimentos, SINCEROS AGRADECIMENTOS, quando deviam clamar sem cessar que o homem é homem, e Deus é Deus. Todas as baixezas e tolices foram praticadas em nome de ecumenismos, diálogos e outros apelidos da prostituição. Levaram a fúria de AGRADAR AO MUNDO até a infinita soberba de DESPREZAR A DEUS.
 
Até quando Deus manteria o sombrio mistério de sua permissão? E nós? Que devemos fazer para opor àquela onde de AGRADO DO MUNDO uma onda de AGRADO DE DEUS que Ele espera de nós para suspender a terrível permissão"
("Cosmolatria"-- editorial de Abril/Maio de 74 da Revista Permanência)

A

AMAR A IGREJA

"Se queres ser amigo da Igreja é preciso estender a tua amizade em toda a altura, largura e profundidade da Igreja. Serás amigo dos primeiros cristãos, companheiro de peregrinação dos peregrinos de Emaús. Acharás bela a palavra de Pedro, belos os pés do apóstolo que anunciam Jesus, bela a autoridade de Inácio de Antioquia e ainda mais bela a sua humildade, mas ainda muito mais belo o seu testemunho. Conhecerás histórias dos que creram e cada um a seu modo trouxe um testemunho. Como é possível amar a Igreja sem gostar da convivência antiga dos irmãos na Fé? Como é possível amar a Igreja sem considerar com sobrenatural ternura, com estremecimentos de gratidão, a galeria dos Padres, e sem admirar toda uma civilização povoada de santos e marcada de Evangelho? Como é possível amar a Igreja sem admiração agradecida por todos os que deixaram a passagem marcada no chão do mundo ou no mundo das almas?"
(Amizades, 10/05/69)
 
AMIZADES
"Todo amigo é amigo de infância. Não importa se você o conheceu no mês passado ou se soltou papagaio com ele na Rua do Matoso. Se a amizade é verdadeira, ela tem esta força que vence as distâncias e os anos, e tem necessidade de uma profunda comunhão de vida. O amigo não quer o amigo apenas no momento que passa, não se contenta com encontros e trocas fortuitas; o amigo quer o amigo em todas as suas dimensões, quer conhecer suas raízes e apreciar seus frutos. O amigo quer o amigo como companheiro de caminhar neste mundo. E por isso, a primeira idéia que nos acode quando pensamos na perfeição da amizade é a da fidelidade.
 
"Observai quantas e quantas vezes a Sagrada Escritura nos fala da amizade, insistindo sempre na idéia de longa fidelidade: "O amigo é amigo todos os dias, mas na hora da desgraça é irmão" (Prov. XVII, 17). "Um amigo fiel é uma proteção poderosa, e quem o achou possui um tesouro. Nada vale mais do que um amigo fiel, nenhum peso de ouro marca seu preço. Um amigo fiel é remédio da vida, e aqueles que temem o Senhor o encontram. Quem teme o Senhor é capaz de verdadeira amizade, pois vê no amigo o seu semelhante". (Ecc. VI, 14-17).
 
Por outro lado, o que marca o falso amigo é justamente a sua inconstância: "Este é amigo em tal hora, mas não o será no dia da aflição; este outro é hoje amigo e amanhã inimigo; aquele é amigo quando está sentado à mesa, mas não o é na hora da dor." (Ecc. VI, 8-10)
 
Há entretanto uma amizade maior do que as outras: a de quem dá a vida por seus amigos. "Sois meus amigos se fizerdes o que mando", disse-nos o Senhor, e logo acrescentou: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o senhor, chamo-os amigos porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer".
 
E é por isso que Santo Tomás nos ensina que a caridade é uma amizade porque inclui um paralelismo de vontades e uma comunhão de beatitude."
(Amizades, 10/05/69)
 
" Na volta para casa eu ia pensando que as ruas, os lampiões elétricos, os trilhos dos bondes, a polícia, os motores de explosão, o asfalto, tudo, enfim, existe para facilitar os encontros da amizade e as festas do afeto e da inteligência. E se não é para isto que existem, então não vejo que diacho de serventia terá a máquina das cidades e das civilizações"
(Como é bom viver entre irmãos! DN, 23/4/1960)
 
 
AMOR
"A conversação amorosa tem esse caráter especial: todos os assuntos são pretextos. Dentro da infinita variedade que a vida e o mundo proporcionam, o coração enamorado vê no assunto um lugar de encontro, um modo de contato."
(Wolfgang Amadeus Mozart, in Dez Anos)
 
"Antigamente, quando se acreditava demais nos valores extrínsecos e no funcionamento das instituições, que seriam capazes até de arredondar as arestas vivas das almas, era costume aconselhar casamento em função das qualidades e dos títulos. Havia por exemplo o casamento do "bom partido". E ainda hoje muita mãe calejada, ou de si mesma esquecida, espanta-se e assusta-se quando vê a filha recusar um desses bons partidos. Diz que amor é poesia que passa. Ensina que a vida é diferente. Alega sua experiência. Mas no caso quem tem razão é a filha, porque ninguém se casa com adjetivos. Por melhores que sejam de ambas as partes, a convivência será um doloroso desencontro se faltar a misteriosa afinidade que só pode ser revelada e descoberta na experiência do amor. Ninguém se casa com títulos. É com a pessoa, essa coisa espessa e compacta, integrante de todas as qualidade numa substância concretíssima e singularíssima, é com a pessoa, com o ser total do outro, que a gente se casa. E isto só se manifesta quando funcionam as finas intuições do coração, e o amor é a virtude de multiplicar por mil as secretas sensibilidades desse instinto. A intuição amorosa não despreza as qualidades, não faz tábula rasa dos títulos e recomendações, mas integra-os no todo da pessoa amada. O amor é essencialmente totalizador, ao contrário do desamor que é essencialmente analista. Quando a gente gosta de uma pessoa, pessoalmente, até o fundo, é da pessoa total que se gosta; quando porém a pessoa aborrece é sempre pelas partes e pelas superfícies que aborrece."
(A Boa Escolha, in Claro Escuro)
 
"Muita gente diz que amor é cego, e portanto mau conselheiro. Mas não é verdade. Cego é o amor próprio, que muita vez se finge de amor. Ao contrário, amor é compreensão, é penetração, é conhecimento."
(A Boa Escolha, in Claro Escuro)
 
"Dizer que o amor é cego equivale a afirmar a radical incompatibilidade entre o amor e a razão. O caloroso amor será cego; a lúcida razão será gélida. Divide-se então o homem em si mesmo, de um modo irremediável, e o jogo do amor será uma loteria com poucos prêmios e muitos bilhetes brancos. A razão virá mais tarde, quando esfriar o amor, para passar um pito no apaixonado; ou para se rir amarelo da ilusão dos que ainda vivem nos amorosos torpores.
 
"[...] Ao contrário, o amor é lúcido. O amor, o verdadeiro amor é ardentemente compreensivo. Só quem ama verdadeiramente, conhece verdadeiramente. Se é verdade que o conhecimento precede o amor, é verdade também que o amor precede a dilatação do conhecimento.
 
"O amor, o verdadeiro amor tem um conhecimento penetrante, candente, fino, lúcido; tem um conhecimento de ressonância profunda, de identificação, de conaturalidade.
 
"O amor, o verdadeiro amor advinha, penetra, descobre, simpatiza, faz suas as aflições do outro, dá ao outro suas próprias alegrias. É compreensivo. Mas não é compreensivo no sentido que se dá a esse vocábulo, quando quer significar uma tolerância que fecha os olhos. Não. O amor verdadeiro é compreensivo num sentido maior, que não fecha os olhos, mas que também não fecha o coração. Vê as falhas do outro, vê as misérias do outro, com uma generosa inquietação, com uma piedosa solicitude. Mas vê. Vê com amor. Mas vê. E é nessa visão que ele encontra as forças de paciência para os dias difíceis, e que se defende das amargas decepções. A miséria, o defeito, a falha, apresentados pelo amor, conservam sempre a dignidade do contexto em que foram apreendidos, sem sacrifício da veracidade. Porque o amor é veraz, é verídico, é essencialmente amigo da verdade. E como compete à razão guiar a alma nos caminhos da verdade, segue-se com lógica irresistível que a razão é o piloto do amor."
(Amor, casamento, divórcio, A Ordem fev/52)
 
AMOR AO PRÓXIMO
"Um de nós, que nunca viu o sr. João Amazonas, e que só o conhece de nome, não o pode amar. Como é possível amar o interventor do Pará ou o marajá de Kapurtala, a alguém que nunca tenha encontrado esses ilustres personagens? Amanhã ou depois um dos nossos talvez venha a encontrar o marajá ou o deputado comunista, numa dessas interseções da vida, como aconteceu com o bom samaritano que permitiu ao Senhor a lição sobre o próximo, mas antes disso acontecer é ridículo dizer que já os amamos.
 
Ridículo e um pouco hipócrita. Amamos o próximo; e antes de tudo amamos a Deus. Quanto ao marajá e ao interventor, está na mão de Deus, pelo ministério dos anjos, a distribuição do afeto dentro da comunhão dos santos. Este é o único modo de que dispomos, neste mundo, de honrar a humanidade dos desconhecidos, pela santa humanidade de Cristo. Nosso amor a Deus descerá como uma chuva nas casas dos japoneses e nas choças dos índios, mas não nos fica bem enunciar esse mistério dizendo desde já que sentimos palpitações de amor quando pensamos no sr. João Amazonas. Será preferível, mais sincero, mais varonil, talvez mais cristão dizer claramente que sentimos uma veemente indignação pelo que dele sabemos como homem público, que nas câmaras procura nos arrastar para uma iniquidade." 
("Combate ao Comunismo", A Ordem, Editorial, Janeiro de 1947)
 
AMOR MATERNO
"Também o amor materno, que fez a violência de rachar o corpo ao meio, em grandes dores, para dar à luz, isto é, para se separar, muitas vezes se arrepende freneticamente e volta-se contra o filho com um vampirismo monstruoso que se prolonga para a vida inteira. O primeiro gesto maternal de agarrar o filho ao colo já é uma mistura de amor e de avareza. Mais tarde serão agasalhos, conselhos, solicitudes que tentarão se interpor para tirar a luz depois de ter dado a luz. E quando o filho se aproxima da idade das núpcias, podendo em cada instante descobrir pelo amor a prodigiosa objetividade da noiva, a mãe devorante se multiplica silenciosamente, cerca, abafa, agasalha, transforma-se ela toda num enorme útero, tépido, escuro, palpitante".
(A Descoberta do Outro, pág. 184)
 
ARTE
"Não é por mero floreio literário que disse estarem os homens preparando uma exposição para o juízo final. Na verdade, o fazer artístico, saiba ou não saiba o artífice, é uma espécie de ofertório".
("Quadros em uma exposição", in O Desconcerto do Mundo)
 
ARTE MODERNA
"A mais humilhada das artes tirou uma desforra completa. Fugiu do internato. Ou do orfanato. Rasgou o uniforme, e andou pelas ruas da cidade descabelada e impudica. Fauvismo, cubismo, dadaísmo, futurismo, orfismo, sincronismo, construtivismo, suprematismo, purismo, surrealismo, pós-cubismo, pós-surrealismo, abstracionismo, concretismo... A história continua a descrever a curva perigosa. E foi nos solavancos e na vertigem da mudança geral de valores e critérios que se realizaram as ofegantes experiências estéticas. É difícil discriminar o falso e o genuíno, o estéril e o fecundo, nessa Babel de tentativas. É difícil saber qual é a parte de todo esse conjunto que terá ingresso, não nos salões oficiais dos juízes carregados dos preconceitos da época, mas naquele salão universal e apoteótico que os anjos contemplam."
("Quadros em uma exposição", in O Desconcerto do Mundo)
 
"Passaram-se os tempos. A curva continua, mas agora nós nos habituamos à vertigem. Pode-se até dizer que de tal modo nos habituamos à curvatura da história que até passamos a considerar os solavancos como rotinas. Temos ou apregoamos uma facilidade enorme de aceitar todas as inovações. Temos até vergonha, respeito humano, de demonstrar um sincero ahurissement diante de alguma tela exposta na bienal. Não fica bem manifestar estranheza diante do que é estranho. Escancarada e complacente, a opinião pública aceita tudo. O espírito burguês, vivendo a antítese do fixismo derrubado, tornou-se revolucionário. E a audácia de recusar foi substituída pela audácia de aceitar e de fingir que compreende tudo. E assim, ao farisaísmo de 1870 responde o mundo moderno com um publicanismo de infinita tolerância, que muitos pensam ser uma infinita sabedoria, e alguns ousam pensar que é uma infinita caridade. Quando a forma da música ou da poesia parecer esdrúxula demais, o público tem um moeda desvalorizada para comprá-la, ou uma fórmula para conjurá-la: arte moderna. Nós nos rimos hoje dos críticos que riam de Manet, do pacato Manet, do tranqüilo Manet. Quem se rirá de nós?"
("Quadros em uma exposição", in O Desconcerto do Mundo)
 
ARTISTAS
"O pobre do artista, por mais que falem de suas vaidades e jactâncias, é sempre um inseguro. Um mísero, que às vezes sabe o que faz, mas quase sempre ignora o que fez. Um mendigo que precisa, mais do que ninguém, de pancadinhas no ombro. Um sequioso de confirmação. Um faminto de elogio. Só não precisa de elogios o homem muito santo ou o homem muito orgulhoso. O primeiro, porque tem a alma repleta do elogio da Graça; o segundo porque carrega em si mesmo a sua claque, a sua bancada, a sua maioria.
 
"Mas o artista do vulgar meio termo, que anda na montanha russa da vida, ora mais alto, ora mais baixo, sem atingir a santidade e sem se endurecer de suficiências, esse precisa de palmas, de sinais que o confirmem, de mãos que o salvem do oceano de perplexidades."
(Agradecimento, in Dez Anos)
 
"Com já tive a ocasião de salientar mais de uma vez, tenho a convicção de que a arte, se lhe tiram o sentido, a dimensão escatológica, deixa de ser o que é, perde-se, desmancha-se. Os artistas estão aqui, neste mundo obscuro e bastante desconcertado para mostrar aos homens os preparativos de uma festa a que todos estão convidados. O trabalho deles, dentro de tal concepção, é como as estrelas que brilham sem vencer a escuridão da noite. Estamos aqui no mundo, não apenas vendo sombras, como disse Platão, mas vendo lampejos, como disse o Apóstolo Paulo. E é nesse sentido mais alto que agora coloco o esforço de tornar visível o que está escondido no âmago das coisas: os poetas, os escritores como Eça, são semeadores de estrelas em nosso caminho escuro; e nisto, queiram ou não queiram, sejam liberais ou anti-clericais de um modo mais ou menos pueril, como nosso excelente português, estarão sempre a serviço de Deus. Canta a Igreja, na Quinta-Feira Santa, durante o Lava-pés, a antífona tirada do Evangelho de São João: Ubi caritas, et amor, Deus ib est. Ora, o que o Evangelista disse do amor, creio que se possa analogamente dizer da beleza. Onde estiver algumas cintilações da beleza, aí Deus está."
("Na mesma língua em que chorou Camões", in O Desconcerto do Mundo)
 
AVENTURA
"(...) nós naqueles verdes anos estávamos simplesmente realizando o que é próprio do homem: a aventura. Na verdade toda a humanidade não tem feito outra coisa senão cometer extraordinárias imprudências que depois se transformam em impérios, em fama e glória, em história, em lenda, em canto.
 
"Vejam se o velho do Restelo não tinha razão em apostrofar os bravos lusitanos que sob o comando de Vasco da Gama iam ao outro lado do mundo fundar novos reinos e comprar especiarias. Vejam os fenícios que certamente andaram aqui por perto; vejam os vikings, vejam todos os grandes navegantes e grandes aventureiros e assim também vejam o sagaz e astuto Ulisses, que não fazia outra coisa senão aventurosamente voltar para casa, que é a maior das aventuras.
 
"Os economistas que costumam explicar os atos humanos pelas causas materiais, na verdade são uma raça de gente que vê o mundo pelo en dessous das coisas. Eles pensam que assim explicam melhor os atos humanos, os grandes feitos, aventuras e guerras. Na verdade em todo o mundo físico, as leis que governam os movimentos dos astros e das coisas são aquelas do caminho mais curto. Eu não sei qual a versão que dariam, esses explicadores de tudo pelo lado do nada, à expedição do sábio dinamarquês Amundsen ao Pólo Sul. A mim, hoje, parece-me que esses intérpretes da história, nas explicações que dão, explicam tudo menos daquilo que é o principal no homem, a saber, o espírito. Eles não sabem que há duas leis regendo os movimentos humanos. Às vezes o homem se sujeita à técnica e procura a lei do menor caminho, mas antes disso já aceitara a lei da aventura e do caminho mais longo."
("Sete Quedas", in Conversa em Sol Menor)

 

Dicionário de Citações de Gustavo Corção

Coletânea de citações e trechos da obra de Gustavo Corção.

Edição: Permanência

A Crise da Democracia

Gustavo Corção

Num interessante inquérito promovido pelas revistas norte-americanas U.S. News and World Report, e publicado com grande destaque pelo O GLOBO, desde os dias 18 e 19 do corrente, vem sendo abordado problema da crise, do malogro ou do futuro da “democracia”. Numerosos intelectuais norte-americanos e ingleses, de alto prestígio, como: Professor Samuel P. Huntington — Cientista Político, Professor Charles Frankel — Filósofo, Professor Robert L. Heilbroner — Economista, Professor Max Beloff — Cientista Político, Professor William H. McNeill — Historiador, Professor Michael J. Crozier — Sociólogo, Professor Friedrich A. Hayek — Economista e Professor René Dubos. Cientistas, trouxeram sua contribuição ao debate que, para esses intelectuais, parece assentado em claros postulados aceitos por todos e motivado por mais uma inquietação do mundo moderno, ou pelo menos, do ocidente moderno.

Em primeiro lugar observo que o termo “democracia” sempre demarcado com o artigo “a” que reforça sua determinação designa um conceito quase tão claro e tão unívoco como o de “quadrado”. Ora, desde aqui me parece que esse inquérito aceita, sem sinais de relutância, todos os movediços equívocos que formam a atmosfera cultural de nosso tempo. Leia mais.
 

O Método de Escolha dos Chefes




Nas vésperas das eleições, mergulhados na poluição fedorenta de todo esse sistema espúrio e corrupto capaz de levar o Brasil a estabelecer no poder pessoas que deveriam estar na cadeia, respiremos algum ar fresco do pensamento reto, luminoso e profundo de  Gustavo Corção


Alguém do Jornal do Brasil telefonou-me perguntando se eu poderia responder a duas perguntas simples: 1° — Quem seria no novo presidente?  2° — Que pensa o senhor do regime e sobretudo desse método de escolha dos chefes?

Esquivei-me da primeira pergunta por falta de informações exatas. Mas não hesitei em responder à segunda: depois do movimento de 64, que considero providencial, o Brasil achou-se com um regime de governo que, a meu ver, é o melhor, mas ainda não tem denominação feliz. Usando a clássica qualificação dos regimes, deixada por Aristóteles, o governo atual do Brasil e do Chile não é monárquico nem democrático: é o governo que Aristóteles chamou aristocrático, deixando o termo oligárquico para designar sua depravação.

É hoje evidentíssimo que nenhum desses dois nomes pode ser convenientemente proposto. Mas também torna-se cada vez mais evidente que é esse o melhor regime. Ouçamos algumas palavras de Santo Agostinho que, como sempre, bem responde aos problemas de hoje: “Se um povo é sério e prudente, zeloso pelo interesse público, é justo que se faça uma lei que permita a esse povo dar a si mesmo os magistrados. Entretanto, se tornado pouco a pouco depravado, esse povo tornar venal seu sufrágio entregando o governo a celerados e infames, é justo que se lhe retire a faculdade de conferir os cargos públicos, e se volte ao sistema de sufrágio limitado a algumas pessoas idôneas” (Santo Agostinho, Tratado do livre arbítrio, Vol. I cap. VI, citado por Santo Tomás).

Eis aí uma citação que convém como uma luva a recente história do Brasil. Depois das graves contribuições trazidas pelos últimos governos ditos democráticos, que já entregavam o Brasil ao comunismo, achamo-nos diante de uma situação singular:  todos os brasileiros, nas famosas Marchas com Deus e pela Família, demonstraram a aceitação do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, escolhido por indicação de seus companheiros das Forças Armadas.

Lembro aqui também o grande Papa Leão XIII na sua encíclica Immortale Dei, mais de uma vez citada nestas colunas. No tópico n° 10, essa encíclica formula o mais enérgico repúdio dos novos direitos trazidos pela Revolução do século passado, e não dissimula sua condenação à filosofia política que se funda na soberania nacional e no princípio de igualdade para fazer finalmente do sufrágio universal um dos famosos direitos do homem.

Que nome daremos nós a esse novo regime em que providencialmente se achou o Brasil? Eu não costumo me prender demais aos nomes desde que li os versos de Shakespeare onde o poeta atribui a Julieta essas palavras relativas ao nome da família de Romeu: “What is a name?” Teria a rosa menos perfume se tivesse outro nome? Há porém um abismo entre o diálogo amoroso de dois namorados e as exigências do bem comum. No plano das atividades políticas os nomes inculcados às multidões têm funcionado com força mágica. Nossos adversários, os comunistas — que militam dentro da mais dura e desumana de todas as oligarquias, apelidada democracia popular por escárnio — tornaram-se exímios no uso e abuso das palavras mágicas. Reação, fascismo, democracia, marcadas umas com o labéu da execração pública e outras com o halo dos idealismos puros, tornaram-se hoje impraticáveis, se quisermos escrever algumas linhas que sejam entendidas por mais de 10 pessoas. Sabemos de episódios em que jovens se entregaram aos comunistas só para fugir ao terrível anátema do termo “fascista”.

Como já me dispus a tudo nessa matéria não hesitei em denunciar a impostura que tinha a democracia como único regime condizente com os direitos do homem. Dou hoje mais um passo, depois de lembrar que Aristóteles considerava impraticável (e eu diria: sobretudo em regime democrático) a Polis que tivesse mais de 100.000 habitantes. Repito o jogo de palavras que já empreguei nestas colunas: nos tempos modernos aumentou a tal ponto a densidade demográfica que se tornou temerário, mais do que nunca, o uso da forma democrática. O governo e a designação dos chefes não podem ser, por sufrágio universal, entregues ao povo, cada vez mais desumanizado. Sim! Não podem e não devem jamais ser entregues a esse monstruoso soberano que é onipotente (já que todo o poder dele emana) e nihilciente (já que tal coletivo se torna irresistivelmente diminuído e subumanizado). Um modesto homem do povo pode ter a sabedoria de um Sócrates; mas cem milhões de pessoas tornam-se irresistivelmente um ídolo que tem olhos e não vê, orelhas e não ouve etc. De uma só cajadada abato dois nomes mágicos: democracia e povo. Agora, já que estamos com a mão na massa, aproveito para desaprovar, tarde demais, o nome dado ao movimento de 64: “Revolução”, que é o mot d’ordre de toda a esquerda revolucionária e anarquista. Nossos bravos e bons soldados, chamados por Deus à salvação da pátria, assumiram o poder cerimoniosamente, encabulados, e até com certo sentimento de culpa. Por isso até hoje se prendem às idéias políticas de 1789, quando vivemos o ano novo de 1978. O nome de nosso movimento deveria ser este: Reação Nacional. Corajosamente. E que nome daremos ao regime recomendado por Santo Agostinho? Fica aqui o desafio a quem tiver talento de títulos melhor do que o meu. Mas enquanto não acharem o nome, olhemos a “coisa” de face e sem nenhum constrangimento. O movimento de Reação Nacional de 64 veio acabar com o prestígio e a superstição do sufrágio universal. E deve manter-se firme nesta obra de purificação prestada ao país. Não! Nem prestígio nem superstição. O termo que convém melhor é o de “mentira vital”. Porque aqui entre nós dois, meu caro Fulano, desabafemo-nos. Na verdade, na verdade, não creio que ninguém, em são juízo, fora do torpor causado pelo ópio, possa acreditar na pureza e num mínimo de racionalidade do sufrágio universal. Eu votei em Jânio Quadros, e quem teve razão foi o cronista David Nasser, de “O Cruzeiro”, quando estampou com enorme destaque esta frase: “Seis milhões de loucos votaram em Jânio Quadros”.

E aqui, como derradeiro argumento, trago os dados da história do Brasil republicano. Os melhores governos que o país teve foram os dos três presidentes paulistas, Prudente de Morais, Campos Sales e principalmente Rodrigues Alves. Ora, como estamos cansados de saber, as eleições nesse tempo eram feitas a bico de pena, eram dirigidas por uma minoria.

Quando Getúlio Vargas trouxe o sufrágio universal em 34 (para logo liquidá-lo em 37), passamos a ter os governos catastróficos que culminaram em Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, que fizeram no Brasil obra semelhante à de Allende no Chile. Vocês se lembram de março de 1964? Lembro-me eu.

E mais não digo por hoje.

O Globo, 14/01/1978

Suicídio e martírio

Gustavo Corção

Nos últimos dias de agosto, como se não bastassem os acontecimentos desse mês que nos pareceu ter trezentos dias, correu entre nós um boato que nos deixou sacudidos entre o gáudio e a tristeza: as irmãzinhas do Père Foucald, que se achavam no sertão de Goiás, vivendo entre os índios o obscuro esplendor da virgindade e da paciência, como Santa Rosa de Lima, teriam sido trucidadas pelos tapirapés ou por seus ferozes inimigos. A morte horrível das duas moças, cujas irmãs tantas vezes visitamos na casinha do morro de São Carlos, parecia-nos um sinal do céu, uma réplica que o sertão do Brasil dirigia à capital do Brasil, nesse diálogo de violências que nos encheu o mês de agosto, uma réplica de Deus a nos dizer que seu pendão orvalhara a nossa terra com o sangue dos mártires...

Como se inventa

Visa o presente estudo investigar o processo e a natureza das faculdades especiais que caracterizam o inventor, esse singular indivíduo que consegue combinar, de um modo novo, os elementos antigos, criando um objeto novo como um abridor de latas ou um Radar.

 

O jogo esquerda-direita

Um Começo que Não Promete Grandes Coisas
 
Comecemos por um jogo falseado, ou melhor, pela realidade que se esconde sob aquela falsidade, ou ainda melhor, ou talvez irremediavelmente pior, comecemos pelo anúncio de trágicas conseqüências da falsificação tomada como critério de valor ou de verdade. E qual é essa falsificação? É o esquema, ou o jogo Esquerda-Direita.

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