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Category: Gustavo CorçãoConteúdo sindicalizado

A civilização do prazer

Qualquer pessoa medianamente dotada e ainda não dopada pelo imperativo de um otimismo que é julgado hoje virtude máxima, e máxima lucidez, qualquer pessoa, em suma, que ainda não esteja possessa pelo Sistema, já percebeu que vive dentro de uma decomposição civilizacional cuja característica principal é a de um furioso hedonismo.

O problema do lazer

É este o mais curioso, e talvez o mais significativo dos problemas sociais de nossos tempos. O que fazer do saldo disponível de horas? Como vadiar? Psicólogos, economistas, políticos e sociólogos americanos já prevêem que o crescente desenvolvimento técnico trará, inevitavelmente, uma dilatação do ócio; e já se preocupam com tal perspectiva, pois parece admitido por todos que os mesmos homens que sabem fazer bombas e satélites, não sabem o que fazer de si mesmos nas horas de folga. Arma-se então "o problema do lazer".

Fora da realidade

— Mamãe, você está fora da realidade!... exclamou com admiração e carinho a boa filha que ainda entretém sentimentos afetuosos por sua mãe, mas não esconde o pasmo que lhe causa seu espantoso alheamento às “realidades”.

 

Os trinta risos do moribundo

 

Estivesse eu em artigo de morte, como o religioso Padre Manuel Bernardes, teria trinta e não apenas três razões de rir-me apiedado dos que acaso cercassem com lágrimas o meu leito derradeiro. E não precisaria para tais tristes risos invocar as mais altas alegrias da Esperança divina, nem lembrar-me dos grandes místicos que souberam dizer “muero por que no muero”. Poderia rir-me a primeira vez, a segunda, a terceira, a quarta, a décima, e talvez mais, em sinal de agradecimento pelas largas e claras alegrias idas e vividas, mas ainda retidas na lembrança, sim, em sinal de agradecimento, pelo mundo que ainda alcancei, pela água não clorada que bebi, pelo ar virginal que ainda cheguei a tempo de sorver e por muito mais coisas no céu, na terra e no mar, cujos merecidíssimos elogios não caberiam em todos os livros que em vão se escrevem para dizer mal das coisas boas, ou dizer bem das coisas más. Em vão chamaria mais papel, meu tão certo secretário de queixumes que sempre ando fazendo, porque todo o papel do mundo seria pouco para conter o extenso ou mesmo resumido o mérito do mundo. Como poderia eu exprimir as claras manhãs em que a gente acorda feliz sem nenhuma razão a não ser a razão essencial de estar, de ser, de acordar, de viver? Como poderia eu exprimir o prazer castíssimo dos músculos que vivem a dançar de alegria na cercadura dos corpos moços? E como exprimir a quase interminável mocidade que tanto tempo se alongou? Em que capítulo contaria o gosto que dão as gotas d’água que correm pela pele, e o gosto mais fino que dão as estrelas, gotas do céu, que correm pelos olhos como que no sentido inverso do correr das lágrimas? E a alegria calma e profunda das longas conversas amigas, como poderia contá-las sem transformá-las em penoso sentimento de perdê-las. Rindo-me num breve riso de despedida agradecida posso evocá-las sem contá-las e sem perdê-las. E nestas considerações já dou conta dos dez primeiros risos.

A pátria

A idéia de pátria e a correlata de patriotismo vêm sendo sabotadas, há séculos, pelas correntes históricas que nas últimas décadas formam o enorme estuário de equívocos que constituem o néctar, o uísque escocês dos “intelectuais” das chamadas esquerdas.

Regina sine labe originali concepta

Dentro das comemorações dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), reproduzimos aqui um editorial da Revista Permanência (que eram escritos por Gustavo Corção). A espiritualidade mariana é sempre a mesma, católica, eterna. Já os desmandos e invenções dos modernistas estavam, naquela época, em sua fase de "destruições". Tudo o que era católico, tudo o que "cheirava a incenso", tudo o que era da Tradição, era simplesmente dilapidado, destruído, chutado, desprezado. Tábula rasa, era o lema dos progressistas. Depois virão outras fases que nos conduzirão à construção do monstro que hoje tenta nos devorar. Porque os modernistas instalados no Vaticano, quando toda a Tradição já estava destruída, construíram uma nova religião que tem uma carapaça pintada com "catolicismos", mas cujo conteúdo, tirado de Vaticano II, já não é mais católico. Este editorial pode parecer defasado na sua crítica aos progressistas, mas não é. O monstro cresceu mas é o mesmo daquela época. "Eis que o diabo, como um leão rugidor, vos cerca querendo vos devorar. Resisti-lhe fortes na Fé" (Ep. de S. Pedro)

A Ariano Suassuna

Tivemos quarta-feira passada na PERMANÊNCIA1, numa sala repleta, que quiséramos mais ampla e mais repleta, uma conferência de Ariano Suassuna sobre o Romanceiro Popular do Nordeste. Depois de uma sábia apresentação de Gladstone Chaves de Melo que esboçou um resumo da vida já bem vivida do mais jovem membro do Conselho Federal de Cultura, e uma interpretação de seu último grande livro, “A PEDRA DO REINO’ (Ed.

  1. 1. [N. da P.] Esta conferência ocorreu em dezembro de 1971

Um amigo de verdade

Os artigos que andei escrevendo ultimamente sobre alguns pontos da teoria de Albert Einstein trouxeram-me à memória o nome e a figura de um outro judeu, pobre e obscuro, de que talvez nenhum de meus leitores ouviu falar, e que morreu de repente, na força da idade, sem deixar a obra que sonhava escrever. Para mim, entretanto, Nathan Neugroschel foi uma das mais curiosas e ricas personalidades que jamais encontrei. Foi, sem sombra de dúvida, um dos melhores homens que até hoje conheci.

Castelo Branco

Inclina o ouvido, jovem leitor, às palavras de um velho amigo, e guarda este nome: Humberto Castelo Branco. Foi o maior Chefe de Estado, o mais decisivo, o mais significativo de todas as qualidades latentes em nosso povo, a mais importante figura da História do Brasil. Não exagero.
 

Lembrança de Bernanos

 

A Fernando Carneiro
 
O primeiro sentimento que me veio, quando Fernando Carneiro me comunicou por telefone a morte de Bernanos, foi uma falta enorme, instantânea, brusca, como se aquele homem que apenas encontrara meia dúzia de vezes, e que se achava perdido para mim, “somewhere in France”, estivesse ligado à minha vida com os vínculos de uma antiga amizade. E estava. Realmente, estava. Sem que eu mesmo o soubesse, Bernanos tinha deixado em mim a marca inapagável de um contato verdadeiramente humano. Um minuto antes da notícia, mal me lembrava de seu vulto, de sua voz, de suas bengalas, de sua cólera pronta e de sua prontíssima ternura. Agora, pondo o fone no gancho, eu sentia crescer em mim, por todos os lados, em torno, atrás, adiante, nas recordações e nas esperanças uma falta enorme.
 
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