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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Quem inspirou René Guénon?

É inegável que René Guénon (1886-1951) exerce uma influência importante nos ambientes intelectuais que reivindicam para si, a torto ou a direto, a Tradição. Para justificar a afirmação, basta citar o livro de Éric Vatré, La droite du père. Enquête sur la Tradition catholique aujourd’hui[1] [A direita do pai. Enquete sobre a Tradição Católica nos dias de hoje]: um terço da obra se dedica aos discípulos de Guénon[2].

O problema da compatibilidade entre as idéias de Guénon e o catolicismo já se discutia enquanto o escritor ainda vivia. René Guénon, de origem católica, colaborou no início com revistas monárquicas e católicas na França, quais La France anti-maçonnique (1913-1914) ou a Revue universelle du Sacré-Coeur, Regnabit (1925-1927)[3]. As primeiras reações vieram dos colaboradores da Revue Internationale des Societé Secrètes, de Mons. Jouin; a disputa terminou em 1930, quando Guénon se “exilou” de própria vontade no Egito, onde se viu livre para praticar o esoterismo muçulmano que abraçara secretamente em 1912.

Depois disso, começaram a aparecer diversos estudos que tendem a demonstrar que o pensamento de Guénon é incompatível com a doutrina católica. Assinalemos, entre os mais pertinentes, os de Lucien Meroz[4], Daniel Jacob[5] e Jean Vaquié[6]. Esses estudos não impediram que a influência do pensamento de Guénon aumentasse em alguns ambientes católicos.

Veja-se por ex. a entrevista de mais de 12 páginas do sociólogo Émile Poulat, que, em uma espécie de “suma” sobre René Guénon[7], mostra-se mui favorável a certos aspectos do guénonismo e faz estranhas correlações entre o cardeal Pitra e o pensamento de Guénon.

Jean Hani, cujos livros sobre simbolismo tiveram a honra da publicação em alguns ambientes mui próximos a Dom Lefebvre, lamenta-se sobre a incompreensão dos ambientes católicos que não aceitam, como ele aceita, o pensamento do mestre:

[...] Os ambientes que deveriam prestar mais atenção à mensagem de Guénon são justamente os que mais estão fechados a ela; quando passam a conhecê-la, transformam-se nos mais hostis: com isso queremos apontar os ambientes religiosos, sobretudo católicos. À medida que a obra de Guénon se populariza, começa a se expor às críticas cada vez mais violentas desses ambientes. E não só violentas mas, afirmemo-lo às claras, injustas e às vezes odiosas. De fato, com honráveis exceções – como a obra de Andruzac, que é um esforço sincero de aproximação e uma tentativa de compreensão das opiniões de Guénon a partir da teologia católica, ou a obra póstuma do Pe. Stéphane – o que se lê nessas críticas causa aflição e revolta; aflição, porque os autores parece que nada entenderam da obra de Guénon, cometendo absurdos interpretativos contra o que ele escreveu; e revolta, porque esses censores estão animados por uma tendência fanática, manifestada em uma cólera mal disfarçada[8].

Até uma revista próxima a Dom Lefebvre, como era Itinéraires em 1985, reproduzia, em um artigo de Yves Donald, o julgamento mui favorável de Noële Maurice-Denis Boulet:

[...] Parece temerário, em duas páginas e meia, dar uma lição em Guénon e concluir que a sua doutrina se limita ao velho gnosticismo: “A deformação grega das idéias orientais mal compreendidas não me interessa nem um pouco”, dizia Guénon a Maritain. Guénon é um inimigo do gnosticismo, escrevia Noële Maurice-Denis Boulet. Não é possível chegar aqui ao fundo do problema. Quem quiser ter uma idéia do debate e em que nível se situa, consulte o estudo de Noële Maurice-Denis Boulet (doutora em teologia), publicado em 1962 na revista La pensée catholique. Nesse estudo se lê, por ex.: “A despeito de problemas de vocabulário, cuja unificação é impossível, a opinião de Guénon, em metafísica pura, está mais próxima da opinião tomista do que qualquer outra opinião professada por um pensador moderno, cristão ou não”.

No entanto, constata-se sem dificuldades, ao consultar o supracitado artigo de La pensée catholique, que Noële Maurice-Denis Boulet defende a memória do velho amigo – o querido René Guénon, como ela o chama; assim, é imprudente estribar-se apenas na autoridade dela. Citemos um excerto revelador do artigo:

Tenho diante de mim a narração, já legendária, da morte de Guénon, que um de seus amigos redigiu em 1951: “[...] A doença combatida se manifestou na garganta e um abscesso lhe provocou sufocamento... Na tarde precedente à morte... sentado no beliche, conseguiu realizar todas as orações e ritos do derradeiro dhikr. Por meio das escolas iniciáticas do islã, totalizara em si de algum modo a iniciação de há muito fragmentada (?). A prática do dhikr era sempre esgotante. Nas presentes condições, era imenso o esforço, de sorte que lhe escorria um suor abundante da testa e da barba branca. O suor emanava um perfume de rosas que durou até ao fim. A última palavra, antes de expirar, foi o nome de Alá.”

Querido René Guénon! O “iniciado”, e mais de uma vez “iniciado”, não o vemos “imóvel no centro da roda cósmica”, como um “liberto já em vida”, graças à “realização metafísica”, nem como um sufi que alcançasse em definitivo “a identidade suprema”. Antes, o que nele se vê é essa necessidade, para assegurar a passagem, do recurso ao derradeiro dhikr, como um humilde cristão que recorresse à comendatio animae, mostrando-nos a posteriori, até o último suspiro, a “sede” por esse Deus que ele recusara a identificar com o Amor. Parece-me que o metafísico hindu, iluminado e sutil, tem direito ao nosso respeito; já o mau cristão, até apóstata (desde a mocidade), à nossa piedade. Contudo, ele morreu foi como místico muçulmano, “místico” contra a vontade, sem dúvida, o que, somado à íntegra dignidade da sua vida, dá-lhe o direito ao nosso amor e nos desperta, em relação a ele, a fraternal esperança[9].

Como o livro de Lucien Méroz sumiu das lojas, e o estudo de Daniel Jacob é antigo e difícil de encontrar, e os trabalhos de Jean Vaquié sofreram por vezes uma injusta depreciação[10], parece útil nos dedicarmos um pouco ao problema nesta revista.

Queremos evidenciar que existe uma oposição, fundamental e radical, entre o guenonismo e o catolicismo, e que tal oposição não é apenas de idéias mas de inspirações. Guénon não é só um filósofo ou pensador de idéias heterodoxas, como afirmara com razão a maioria dos contestadores católicos. O problema é muito mais grave e sério: na verdade, ele é um autor espiritual que propõe uma espiritualidade pretensamente superior à espiritualidade da Igreja Católica. Aos leitores expõe muito mais do que considerações algo estranhas: sugere o recebimento da iniciação que lhes outorgará uma influência espiritual capaz de impeli-los para muito além da mera “salvação” cristã: a iniciação alçá-los-ia até à “realização espiritual”, à identificação suprema com o absoluto indiferenciado.

Desse modo, força é descobrir a natureza da influência espiritual proposta por René Guénon. Existe, de fato? Se existe, que espírito é esse?

 

Aviso ao leitor guenonista

O nosso estudo se dirigiria apenas ao leitor católico, cuja maioria já está quase convencida da impossibilidade de ser ao mesmo tempo guenonista e católico. Porém gostaríamos, se for possível, de alcançar os admiradores de René Guénon, sejam católicos ou não.

Até nós sofremos, antes de conhecer a doutrina tomista, a influência de René Guénon. Ele é um autor inteligentíssimo, de estilo vivaz, que propõe com grande autoridade idéias de forte coerência. Demais, as críticas sobre o mundo moderno e algumas referências à filosofia escolástica são capazes de seduzir inteligências que conheçam mal a doutrina da Igreja. E é justamente no que há de mais sedutor que mora o maior perigo: diferente dos numerosos filósofos de gabinete – “especulativos”, para empregar a linguagem de Guénon – ele é um “operativo”, uma pessoa que propõe uma vida espiritual intelectualizadíssima e, na aparência, de alta qualidade. Quando alguém se enoja do materialismo e do sensualismo modernos, quando só enxerga diante de si a espiritualidade sentimental e carismática ou a espiritualidade grosseira dos teósofos e outros epígonos, contra os quais Guénon foi o primeiro a reagir, o pensamento guenonista pode ser tentador.

Estimamos possuir alguma competência para versar sobre a questão, porque lemos todas as obras de Guénon e diversos livros dos seus mais importantes discípulos, e frequentamos durante certo tempo os ambientes guenonistas, católicos ou não; em suma, porque conhecemos de dentro o guenonismo. Não se precipitem os leitores guenonistas, achando que não temos “gabarito” para realizar este estudo, pois seríamos um católico apto a entender apenas a doutrina “exotérica” e incapaz de penetrar no verdadeiro pensamento do mestre.

Façamos uma observação ao qualificativo guenonista, ou discípulo de René Guénon, que empregamos. Sabemos que certas pessoas que partilham em muito das idéias de René Guénon recusam declarar-se guenonistas. Guénon, afirmam elas, é só um representante passageiro da “Tradição”[11] não humana. Essas pessoas se declaram tão-somente “tradicionalistas”.

Pouco importa. O que queremos analisar aqui é a natureza da influência espiritual que o próprio René Guénon sofreu e descreveu nas suas obras. A partir daí seria fácil deduzir se convém ou não a alguém intentar uma experiência espiritual semelhante àquela que Guénon viveu, ainda que recuse a declarar-se discípulo.

De início veremos como René Guénon apresenta a influência espiritual recebida na iniciação, e depois como se pode dar uma interpretação dessa influência na teologia tomista.

 

A influência espiritual segundo René Guénon

Embora René Guénon escreva amiúde sobre o tema em várias obras, limitar-nos-emos sobretudo ao estudo de duas delas: Aperçus sur l’initiation [Esboços sobre a iniciação] (doravante ASI) e Initiation et réalisation spirituelle [Iniciação e realização espiritual] (doravante IRS).

Nesta primeira parte, gostaríamos de dar o resumo mais objetivo possível do pensamento de René Guénon, conservando até o estilo tipográfico (notadamente, o emprego de letras capitais) desse autor. Reservamos a crítica para a segunda parte. O fato de que neste resumo nos abstivemos da crítica não significa que aceitamos as teorias expostas.

A vida espiritual proposta por René Guénon compreende três condições, que se cumprem em três etapas:

A iniciação implica três condições que se apresentam de modo sucessivo, as quais poderiam corresponder respectivamente aos três termos de “potencialidade”, “virtualidade” e “atualidade”: 1º a “qualificação”, que se constitui de certas possibilidades inerentes à natureza própria do indivíduo, e que são a matéria prima sobre a qual o trabalho iniciático deve efetuar-se; 2º a transmissão, por meio da adesão a uma organização tradicional, cuja influência espiritual dê ao ser a “iluminação” que lhe permitirá a ordenação e o desenvolvimento das possibilidades que traz em si; 3º o trabalho interior pelo qual o desenvolvimento se realizará gradualmente – com a ajuda de “auxiliadores” ou “suportes” exteriores, se possível, sobretudo nos primeiros estágios – fazendo que o ser percorra, de nível em nível, os diferentes graus da hierarquia iniciática, para conduzi-lo ao objetivo final da “Libertação” ou da “Identidade Suprema”. (ASI, p.34)

Analisemos cada uma dessas etapas ou condições da iniciação.

 

A qualificação

A primeira condição, a qualificação, já é uma condição que distingue a vida iniciática da vida mística:

É claro que o místico também deve ter uma disposição natural e especial, embora inteiramente diferente da disposição do “iniciável”, quiçá oposta em alguns aspectos; mas para o místico essa condição, se é igualmente necessária, é ademais suficiente: não há nenhuma outra condição que venha acrescentar-se à primeira; as circunstâncias cuidam do resto, fazendo a seu talante passar da “potência” ao “ato” tais ou quais potencialidades inerentes àquela disposição. Esse processo resulta diretamente do caráter “passivo” que mencionamos acima: não se trataria, em semelhante caso, de um esforço ou um trabalho pessoal de qualquer natureza, pois que nunca cabe ao místico efetuá-lo; ao contrário, deverá precaver-se dele com todo o cuidado, como de algo que se opusesse a sua “via”, ao passo que, no que respeita à iniciação, e em razão do caráter “ativo” dela, esse trabalho constitui outra condição tão indispensável quanto a primeira, sem a qual a passagem da “potência” ao “ato”, que é propriamente a “realização”, não se cumpriria de modo nenhum[12]. (ASI. p. 29-30)

Existe, pois, uma diferença profunda entre as duas vias, a mística e a iniciática: a primeira é passiva, e a segunda é ativa.

No caso da iniciação, ao contrário, pertence ao indivíduo a iniciativa de uma “realização” que se buscará com método, sob rigoroso e incessante controle, e que deverá de regra se completar com a superação das possibilidades do indivíduo enquanto tal. (ASI, p. 18)

 

A iniciação virtual

A segunda etapa da realização iniciática é a mais importante: a recepção da influência espiritual no momento da iniciação:

A iniciação consiste essencialmente na transmissão de certa influência espiritual. (IRS, p. 46)

A melhor forma de a caracterizarmos [a transmissão iniciática] é dizer que ela é essencialmente a transmissão de uma influência espiritual. (ASI, p. 33)

Para que o caos comece a tomar forma e organizar-se, força é que as potências espirituais, que o Gênese hebraico denomina os Eloím, comuniquem ao iniciado uma vibração inicial; essa vibração é o Fiat Lux que ilumina o caos e é o ponto de partida necessário para todos os desenvolvimentos ulteriores; do ponto de vista iniciático, essa iluminação se constitui precisamente na transmissão da influência espiritual que acabamos de mencionar. Daí então, e em virtude dessa influência, as possibilidades espirituais do ser já não são a simples potencialidade de outrora, mas se transformaram em uma virtualidade prestes a se desenvolver em ato nos diversos estados da realização iniciática. (ASI, p. 34)

Dizíamos que essa etapa é a mais importante. É possível acontecer que as organizações iniciáticas (adiante falaremos delas novamente), depois de uma degenerescência, só possam conferir a iniciação virtual. Todavia elas continuarão a ser o suporte dessa influência espiritual, de modo que o trabalho iniciático sempre se realize:

Daí decorre imediatamente a conseqüência de que mesmo uma organização em que só se encontrassem em certo momento o que denominamos iniciados “virtuais” (insistiremos neste assunto a seguir) seria capaz de continuar a transmitir realmente a influência espiritual da qual é depositária; para tanto, basta não romper a “cadeia”; neste sentido, a célebre fábula do “burro que levava relíquias” é susceptível de uma significação iniciática digna de meditação. (ASI, p. 59)

Na iniciação também há transmissão de ensinamentos, todavia a transmissão da influência espiritual ainda é o elemento principal:

A iniciação é essencialmente uma transmissão; acrescentemos ainda que é possível entendê-la em dois sentidos diferentes: por um lado, como transmissão de uma influência espiritual e, por outro, como transmissão de um ensinamento tradicional. Considere-se a mais importante a transmissão da influência espiritual, não apenas porque ela deve logicamente preceder todo o ensinamento – o que é evidentíssimo, desde o instante em que se compreende a necessidade do vínculo tradicional – mas também e sobretudo porque nela se constitui essencialmente a iniciação em sentido estrito, de sorte que, caso se faça somente a iniciação virtual, o processo iniciático poderia limitar-se a isso, sem que houvesse necessidade do acréscimo de qualquer ensinamento ulterior. (ASI, p. 199)

 

A iniciação efetiva

Apesar de a iniciação virtual ser uma etapa decisiva, ainda estamos longe de atingir o objetivo proposto por René Guénon:

Claro que a primeira [iniciação virtual] não se pode considerar negligenciável, muito pelo contrário, pois que ela é a iniciação propriamente dita, ou seja, é o “começo” (initium) indispensável, carregando consigo a possibilidade de todos os desenvolvimentos ulteriores; mas é mister reconhecer que, mais que nunca nas presentes condições, está mui longe dessa iniciação virtual qualquer indício de realização.

Para alcançar essa finalidade existem vários trabalhos a se realizar, dentre os quais um dos mais importantes consiste na meditação dos símbolos:

Os símbolos são essencialmente um meio de ensinamento, não apenas de ensinamento exterior, mas também de algo a mais, na medida em que devem mormente servir de “suportes” à meditação, que é no mínimo o começo do trabalho interior; porém, esses símbolos, enquanto elementos de ritos e em razão do seu caráter “não humano”, são também “suportes” da própria influência espiritual. Demais, quando se pensa que o trabalho interior seria ineficaz sem a ação ou, se se preferir, sem a colaboração de alguma influência espiritual, poder-se-ia compreender daí que a meditação dos símbolos tem em si mesma, em certas condições, o caráter de um verdadeiro rito, de um rito que, dessa vez, não confere apenas a iniciação virtual, mas permite alcançar um grau mais avançado ou menos avançado de iniciação efetiva. (ASI, p. 199-200)

René Guénon assinala também que é possível vincular a influência espiritual aos símbolos e objetos por uma “consagração”:

Assinalemos de passagem, acerca dessa “vivificação”, se é lícito exprimir-se assim, que a consagração dos templos, das imagens e dos objetos rituais tem em essência a finalidade de transformá-los em receptáculos efetivos das influências espirituais, sem a presença das quais os ritos a que devem servir seriam desprovidos de eficácia. (ASI, p. 59, nota 2)

Outro meio de progredir em direção à iniciação efetiva é a encantação, que se há de distinguir da oração:

A encantação de que falamos, ao contrário da oração, não é um pedido, ou sequer pressupõe a existência de alguma coisa exterior (o que todo pedido pressupõe forçosamente), porque a exterioridade só é compreensível se for relacionada ao indivíduo, que é precisamente aquilo que se deve superar; ela é uma aspiração do ser em direção ao Universal, a fim de obter o que poderíamos denominar, em uma linguagem de aparência algo “teológica”, uma graça espiritual, ou seja, no fundo, uma iluminação interior que, naturalmente, poderá ser mais completa ou menos completa segundo o caso. Aqui se deve visar à ação da influência espiritual em estado puro, se é lícito exprimir-se assim; o ser, em vez de buscar o descenso dessa influência sobre si, como no caso da oração, tende pelo contrário a elevar-se até ela. Essa encantação, que em princípio se define como operação interior, pode contudo, em numerosos casos, ser expressada e “suportada” do exterior com palavras e gestos, a exemplo de certos ritos iniciáticos, qual o mantra na tradição hindu ou o dhikr na tradição islâmica; devemos considerá-la prenhe de vibrações rítmicas que provocam repercussões ao longo de um domínio mais extenso ou menos extenso na série indefinida dos estados do ser. Seja embora o resultado logrado mais completo ou menos completo, como dizíamos há pouco, a finalidade a se alcançar é sempre a realização em si do “Homem Universal”, pela comunicação perfeita da totalidade dos estados, hierarquizada com harmonia e conformidade, em uma expansão integral nos dois sentidos da “amplidão” e “exaltação”, ou seja, ao mesmo tempo na propagação horizontal das modalidades de cada estado e na superposição vertical dos diferentes estados, segundo a representação geométrica que alhures expusemos em pormenor (em Le symbolisme de la croix [O simbolismo da cruz]). (ASI, p. 169)

Notemos de passagem que uma das finalidades a que René Guénon aspira é permitir aos maçons (que ainda transmitem a iniciação virtual) chegar à iniciação efetiva.

Após essa breve análise do itinerário espiritual do iniciado, retornemos a certos aspectos para particularizar a natureza dessa influência espiritual.

 

Necessidade de vinculação a uma organização iniciática

Dissemos antes que a iniciação propriamente dita consiste em essência na transmissão de uma influência espiritual, transmissão que só se efetua por meio de uma organização tradicional e regular, de sorte que não se poderia falar em iniciação sem o vínculo a uma tal organização. Especificamos que se deveria entender a “regularidade” de maneira a excluir todas as organizações pseudo-iniciáticas, ou seja, todas as que, quaisquer que sejam as pretensões delas ou as aparências de que se revistam, não são de fato depositárias de alguma influência espiritual, nem são capazes por conseguinte de transmitir nada de real. Daí então se torna fácil compreender a importância capital que todas as tradições conferem ao que se designa de a “cadeia” iniciática, ou seja, a sucessão que assegura de forma ininterrupta a transmissão daquela influência; fora dessa sucessão, até a observância das formas rituais seria vã, pois lhe faltaria o elemento vital e essencial de eficácia. (ASI, p. 53)

Não basta ao indivíduo somente a intenção de ser iniciado, mas precisa de ser “aceito” por uma organização tradicional e regular, que tenha qualificação para lhe conferir a iniciação, ou seja, para lhe transmitir a influência espiritual, sem o auxílio da qual lhe seria impossível, a despeito de todos os esforços, chegar a libertar-se dos limites e entraves do mundo profano. Poderia acontecer que, em razão da deficiência de “qualificação”, não encontrasse reciprocidade a sua intenção, ainda que ela fosse sincera, pois aqui não é caso de sinceridade nem de nenhuma “moral”, mas tão-somente de regras “técnicas” referentes a leis “positivas” (valemo-nos desse termo, na falta de outro mais adequado), que se impõem com necessidade tão inelutável quanto, em outros misteres, as condições físicas e mentais indispensáveis ao exercício de certas profissões. Em tais casos, nunca ele poderá considerar-se um iniciado, sendo de nenhuma monta os conhecimentos teóricos que chegue a adquirir alhures; presuma-se de resto que, mesmo neste quesito, não irá muito longe (falamos naturalmente de uma verdadeira compreensão, embora ainda exterior, e não de mera erudição, ou seja, a acumulação de noções que remetem apenas à memória, como se pratica na educação profana), pois o próprio conhecimento teórico, para que ultrapasse certo limite, já pressupõe de ordinário a “qualificação” exigida para que se obtenha a iniciação que lhe permitirá transformar-se, pela “realização” interior, em conhecimento efetivo. (ASI, p. 39)

Quais são as organizações iniciáticas válidas na Europa atual? René Guénon é categórico: só existem duas – a Maçonaria e o Companheirismo[13]:

Investigações que empreendemos sobre o assunto, já em um tempo longínquo, levaram-nos a uma conclusão formal e indubitável que devemos aqui exprimir às claras sem nos preocupar com o furor que se arrisque a suscitar em diversas partes: se excetuarmos a possível sobrevivência de alguns grupos de hermetismo cristão da idade média, ademais muitíssimo restritos em todo caso, é fato que, dentre todas as organizações com pretensões iniciáticas que atualmente estão espalhadas no mundo ocidental, só existem duas que, por mais decadentes que ambas estejam em razão da ignorância e incompreensão da imensa maioria dos seus membros, podem reivindicar a autêntica origem tradicional e a real transmissão iniciática; essas duas organizações, que de mais a mais, a bem dizer, no início eram uma só, embora de ramos diferentes, são o Companheirismo e a Maçonaria. O resto é fantasia ou charlatanismo, quando não sirva apenas para dissimular qualquer coisa de pior; e, seguindo o raciocínio, não existe invenção tão absurda ou extravagante que na nossa época não tenha chances de sucesso e de ser levada a sério, desde os delírios ocultistas sobre as “iniciações astrais” até o sistema americano, com intenções sobretudo “comerciais”, das pretensas iniciações por correspondência! (ASI, p. 41)

 

A influência espiritual tem origem “não humana”.

Por intermédio da cadeia iniciática, o iniciado recebe a influência espiritual, cuja origem é “não humana”:

Em tais condições, compreende-se facilmente que o papel do indivíduo que confere a iniciação a outro é deveras o papel de “transmissor”, no sentido mais exato da palavra; ele não atua como indivíduo, mas como suporte de uma influência que não pertence à ordem individual; ele é só um elo da “cadeia”, cujo ponto de partida está fora e além da humanidade. Por isso, não pode atuar em nome próprio, mas em nome da organização a que se vinculou e de que retira os poderes, ou, ainda mais exatamente, em nome do princípio que a organização representa visivelmente. Demais, esse fato explica que a eficácia do rito exercido pelo indivíduo é independente do valor próprio do indivíduo como tal, o que também é verdade para os ritos religiosos. (ASI, p. 58)

Por isso, os ritos que transmitem essa influência espiritual, bem como os símbolos que também servem para desenvolvê-la, são igualmente de origem “não humana”:

Note-se que neste quesito, de fato, não existem formas ritualísticas tradicionais cujos autores possamos assinalar como indivíduos específicos. É fácil compreender o motivo disso, se pensarmos que o objetivo essencial e final da iniciação ultrapassa o domínio da individualidade e das suas possibilidades particulares, o que seria impossível se reduzíssemos a iniciação a meios de ordem puramente humana; desta simples constatação, e sem sequer ir ao fundo das coisas, conclui-se de imediato que se faz necessária a presença de um elemento “não humano”, que é o caráter especial da influência espiritual, cuja transmissão constitui a iniciação propriamente dita. (ASI, p. 42)

Dizíamos há pouco que a iniciação deve ter origem “não humana”, pois, sem isso, não poderia ela de modo nenhum alcançar o objetivo final, que ultrapassa o domínio das possibilidades individuais; por isso, os verdadeiros ritos iniciáticos, como já o apontamos, não podem remeter-se a autores humanos; de fato, ninguém jamais chega a conhecer tais autores, nem os inventores dos símbolos tradicionais, e ambos pela mesma razão, pois esses símbolos são também “não humanos” em origem e essência[14]. (ASI, p. 57)

 

Na influência espiritual não há “mágica”.

Para René Guénon, não há dúvidas: a iniciação se realiza em nível espiritual, que é por definição superior ao da magia, que se realiza em nível psíquico:

Acrescentemos ainda incidentalmente, antes de avançarmos a outro aspecto da questão, que essa transmissão, como ademais já o assinalamos expressamente, não tem nem pode ter em absoluto nada de “mágico”, porque se trata em essência de uma influência espiritual, ao passo que tudo o que se refere à ordem da magia concerne tão-somente à manipulação de influências psíquicas apenas. Ainda que se constate que a influência espiritual é acompanhada secundariamente de certas influências psíquicas, esse fato não muda nada, pois que ao fim não passa de uma conseqüência puramente acidental, que se deve unicamente à correspondência que por força sempre existe entre as diferentes ordens de realidade. (IRS, p. 49-50)

René Guénon professa certo desprezo por quem busca esses poderes mágicos. Este é um defeito típico dos Ocidentais, apegados demais aos fenômenos. A magia, como tudo o que é de ordem fenomenal, deixa-nos no estado individual, enquanto o trabalho iniciático tem por fim (retornaremos a este ponto) ultrapassar a individualidade e nos abrir um caminho para o Universal:

Nessa atividade existe amiúde uma ilusão que consiste em considerar “superior” o que de fato não o é, simplesmente porque tem uma aparência mais ou menos extraordinária ou “anormal”. Ser-nos-ia forçoso em suma repetir aqui o que já disséramos alhures acerca da confusão entre o psíquico e o espiritual, pois é esse um erro que se comete com muita freqüência neste mister; os estados psíquicos não têm, de fato, nada de “superior” nem de “transcendente”, pois que participam apenas do estado individual humano. (ASI, p. 25)

René Guénon nota que a influência espiritual, por causa precisamente da natureza espiritual, não é sensível:

Antes de tudo, devemos afastar a objeção que alguns seriam tentados a opor baseados no fato de que o neófito não sente de modo nenhum a influência espiritual no exato momento em que a recebe; a bem dizer, esse caso é realmente comparável ao de alguns ritos religiosos de ordem exotérica, quais os ritos religiosos da ordenação por ex., em que também se transmite uma influência espiritual que, de forma geral ao menos, não é sentida, o que não impede de estar realmente presente e de conferir a partir de então aos que a receberam algumas aptidões que não possuiriam sem ela. (IRS, p. 48)

Todavia o iniciado deve aos poucos tomar consciência dessa influência espiritual, e nisso a via iniciática difere da via religiosa:

No domínio exotérico, não há em suma nenhum inconveniente de que a influência recebida jamais se perceba conscientemente, mesmo de forma indireta e pelos seus efeitos, pois que não se pretende obter por esse meio, como resultado da transmissão realizada, um efetivo desenvolvimento espiritual; em contrário, o processo é totalmente diverso na iniciação: em conseqüência do trabalho interior executado pelo iniciado, os efeitos dessa influência deveriam sentir-se ulteriormente; esse sentir constitui propriamente a passagem para a iniciação efetiva, em qualquer grau a que se aspire. Esse é ao menos o resultado a que a iniciação deveria em regra chegar, caso desse os resultados que dela é justo esperar. (IRS, p. 48-49)

 

A via iniciática é bem diferente da via religiosa

Acabamos de ver uma diferença no nível de consciência da influência espiritual. Já havíamos notado outras diferenças no nível de qualificação (a via mística ou religiosa é apresentada como passiva, enquanto a via iniciática é ativa) e no de oração (que provoca o descenso da graça, enquanto a encantação elevaria o iniciado em direção ao “Universal”).

Antes de tudo, porém, nota Guénon que as duas vias são distintas nas finalidades perseguidas. A religião aspira a nos garantir a salvação, conservando-nos então no estado individual humano, ao passo que a iniciação tem por meta nos fazer alcançar a Identidade Suprema com o Absoluto Incondicionado – a Realização – que pressupõe a superação do estado individual e a possessão dos estados superiores ao estado humano:

Será suficiente, porém, a partir do que agora observamos, indicar que a religião considera o ser tão-somente no estado individual humano e não aspira de modo nenhum a retirá-lo dele, mas ao contrário busca assegurar-lhe as condições mais favoráveis neste mesmo estado, enquanto a iniciação em essência tem o objetivo de superar as possibilidades desse estado e possibilitar de fato a passagem para os estados superiores, e quiçá, ao final, de conduzir o ser para além de todo e qualquer estado condicionado. (ASI, p. 27)

O importante não é a mera comunicação com os estados superiores, o que a rigor seria possível por uma graça religiosa, mas tomar posse desses estados:

Resulta daí que, no que respeita à iniciação, a mera comunicação com os estados superiores não é passível de ser considerada um fim, mas apenas um ponto de partida: a comunicação deve estabelecer-se antes de tudo pela ação da influência espiritual, para que em seguida permita-se a efetiva tomada de posse desses estados, e não somente, como na ordem religiosa, para que descenda sobre o ser uma “graça” que se liga a ele, mas não o penetra. Para exprimir a coisa de um modo que talvez seja mais fácil e compreensível, diríamos que, se qualquer pessoa por ex. entrasse em contato com os anjos e ainda continuasse apesar disso a prender-se à condição de indivíduo humano, do ponto de vista iniciático ela não estaria no nível mais avançado; o cerne da questão não é comungar-se com seres em estado “angélico”, e sim alcançar e realizar em si esse estado supraindividual, não porém, entenda-se, enquanto indivíduo humano, o que seria evidente absurdo, mas enquanto um ser que se manifesta como indivíduo humano em certo estado e possui em si as possibilidades de todos os outros estados. (ASI, p. 27-28)

Até a união com Deus, procurada pelos místicos, é bem inferior à Libertação, finalidade da iniciação:

Alguns seriam talvez tentados a perguntar: como haveria de existir para um ser uma finalidade mais excelsa que a união com Deus? Depende do sentido que se empresta à palavra “união”; em realidade, os místicos, como todos os exoteristas, nunca se preocupam com nada mais nem com nada menos do que com a salvação, embora mirem, por assim dizer, uma modalidade superior de salvação, pois seria inconcebível que não existisse também uma hierarquia entre os seres “salvos”. Em todo caso, a união mística, ao deixar subsistir a individualidade enquanto tal, não é senão uma união exterior e relativa; além disso, é evidente que jamais os místicos conceberam a possibilidade da Identidade Suprema: uma vez que eles se limitam à “visão”, ainda lhes resta toda a extensão dos mundos angélicos a separá-los da Libertação. (IRS, p. 81-82)

Deste modo, a finalidade da via esotérica é mui superior à da via religiosa, e o paraíso cristão pode parecer uma prisão ao iniciado:

Assim sendo, o exoterismo na sua acepção mais geral, ou seja, a parte da tradição que se dirige a todos sem distinção, só lhes consegue propor uma finalidade de ordem puramente individual, pois que as outras seriam totalmente inacessíveis para a maioria dos aderentes a essa tradição; essa finalidade é precisamente a salvação. Não é preciso dizer que se está muito distante da realização efetiva de um estado supraindividual, apesar de ainda condicionado, quanto mais da Libertação que, porquanto seja a obtenção do estado supremo e incondicionado, não tem deveras nenhuma medida comum com qualquer estado condicionado. Acrescentemos na seqüência que para alguns “o Paraíso é uma prisão”, conforme o dissemos antes, justamente porque o ser que se encontra no estado representado pelo Paraíso, ou seja, aquele que alcançou a salvação, ainda está preso, quiçá indefinidamente, pelas limitações que definiam a individualidade humana; essa condição seria em um estado de “privação” para os que aspiram à libertação dessas limitações e cujo grau de desenvolvimento espiritual capacita efetivamente à libertação já durante a vida terrena, ao passo que os demais, naturalmente, a partir do momento em que não possuem atualmente em si a possibilidade de ir mais além, não podem sentir de modo nenhum essa “privação” como tal. (IRS, p. 78-79)

Todavia, na teoria dos ciclos professada por René Guénon, quem tiver alcançado a salvação poderá também alcançar o estado supraindividual em outro ciclo:

O homem comum, que atualmente não é capaz de alcançar o estado supraindividual, poderá ao menos, se conseguir a salvação, lográ-lo ao final do ciclo humano.

 

Todavia não é possível seguir a via iniciática sem se filiar ao mesmo tempo a um “exoterismo”

Este ponto é importante e no mais das vezes pouco conhecido. Para René Guénon ninguém deve apegar-se pura e simplesmente à via iniciática: há de se praticar ao mesmo tempo um exoterismo, o que concretamente se traduzirá mais amiúde na prática religiosa. O próprio Guénon praticara nos derradeiros anos da sua vida a religião muçulmana:

Abdel Wahed Yahia, moreno, grande, magro, de olhos bem azuis, “vestido com uma simples galabia e calçado com humildes babuchas”, [ia] todos os dias à mesquita de Seydna el Hussein ou à do sultão Abu’l Ala para nelas realizar o dhikr[15].

Embora fosse pontualíssimo às orações e aos ritos do Islã, nem os pontífices de El Azhar nem nenhuma das antigas escolas iniciáticas lhe tinham amizade. Os seus amigos, no Cairo, eram os homens da família da esposa, que era uma família de xarifes notáveis pelo apego, sempre vivo e atuante, à tradição. Foram eles que o levaram ao cemitério, após uma breve visita a uma mesquita da cidade que Guénon freqüentava[16].

Com essa atitude, René Guénon se mostrava fiel às suas idéias:

[As organizações iniciáticas] não são de fato [compatíveis] com a ausência de exoterismo tradicional. (IRS, p. 73)

Muitos parecem duvidar da necessidade, para quem aspire à iniciação, de se vincular antes de tudo a uma forma tradicional de ordem exotérica e de nela observar todas as prescrições; demais, esse é um indício de um estado de espírito que é típico do Ocidente moderno, e cujos motivos são sem dúvida múltiplos. Não começaremos a buscar qual parcela de responsabilidade teriam os próprios representantes do exoterismo religioso, cujo exclusivismo leva muito amiúde a negar de modo mais expresso ou menos expresso tudo o que lhes ultrapassa o domínio; esse lado do problema não nos interessa aqui. Contudo, o mais espantoso é que as pessoas que se consideram qualificadas para a iniciação demonstrem uma incompreensão que, no fundo, é comparável à daqueles, apesar dos esforços em sentido como que contrário. Com efeito, admite-se que o exoterista ignore o esoterismo, embora decerto a ignorância não justifique a negação; mas, em contrário, não se admite que alguém que alimente pretensões ao esoterismo queira ignorar o exoterismo, ainda que fosse só na prática, pois o “mais” deve por força conter o “menos”. (IRS, p. 71)

Se alguém quer construir um edifício, deve antes de tudo cimentar as fundações; as fundações são a base indispensável sobre as quais se apoiará todo o edifício mesmo após a conclusão da obra, inclusive as partes mais elevadas que sempre permanecerão nele. Assim, a adesão a um exoterismo é precondição para que se chegue ao esoterismo; de mais a mais, ninguém creia que se possa rejeitar o exoterismo tão logo se obtenha a iniciação, assim como não se suprimem as fundações após a construção do edifício. Acrescentaremos que, em realidade, o exoterismo, em vez de ser rejeitado, há de ser “transformado” na proporção correspondente ao grau alcançado pelo iniciado, pois que este se vai tornando cada vez mais apto a compreender os motivos profundos desse exoterismo; por conseguinte, as fórmulas doutrinais e os ritos assumem para ele um significado muitíssimo mais importante e real do que o significado que poderiam assumir para o simples exoterista, que ao fim se limita, por definição, a enxergar apenas a aparência exterior, o que é pouco em face da “verdade” da tradição considerada na integralidade. (IRS, p. 74)

Como os discípulos de René Guénon são favoráveis à tradição nos níveis iniciático e esotérico, eles se interessarão naturalmente pelas formas exotéricas tradicionais. Esse interesse explica por ex. porque os guenonistas[17] procurarão as missas tradicionais de preferência às missas novas.

 

A vida de René Guénon

A vida de René Guénon é uma ilustração do seu ensinamento sobre a via iniciática. Citaremos alguns aspectos dela, que nos ajudarão a formular um julgamento sobre a natureza da influência espiritual recebida na iniciação.

Para falar apenas das organizações iniciáticas decerto regulares[18], e dos fatos conhecidos com certeza, René Guénon em 1909 se filiou à loja Tebá (Grande Loja da França) e em 1912 se iniciou no sufismo islâmico com o nome de Xeque Abdel Wâhed Yahia, por intermédio de John Gustaf Agélii.

Deve ele aos mistérios hindus, segundo toda a verossimilhança, o ensinamento que lhe permitiu sair da iniciação virtual e alcançar a iniciação efetiva. René Guénon confirmara mais tarde que “deve ao ensinamento oral dos Orientais ‘o conhecimento que possui sobre as doutrinas da Índia, o esoterismo islâmico e o Taoísmo, como também o conhecimento do sânscrito e do árabe’”[19]. Parece que as relações com os representantes da tradição hindu se encerraram por causa da publicação, em 1927, de Le Roi du Monde [O Rei do Mundo], livro que teria pecado por indiscrição[20]. René Guénon, que pensava em retirar-se na Índia, preferiu destarte o mundo islâmico.

Ao pesquisar agora alguns aspectos da vida de René Guénon aos quais se atribuiriam essa influência espiritual, acreditamos que convém conservar dois deles na memória.

Em primeiro, note-se que René Guénon já possuía toda a doutrina desde o início. Já nos primeiros escritos, publicados quando contava com vinte e três anos, deparamos com todos os elementos que ele se limitará doravante a repetir, a explicar com insistência, durante os quarenta e dois anos de vida que lhe sobravam:

“Não era possível seguir a sua ‘evolução’ pelo curso dos acontecimentos da sua vida e pela seqüência da ordem de aparecimento das obras, pois que tal evolução não existe: Guénon é o raríssimo caso de uma inteligência que se aferrou à presa intelectual aos vinte e três anos, limitando-se desde então a inventariar em detalhes as riquezas adquiridas de uma só vez[21].” A custo se nota um ou dois pormenores em que René Guénon mudara de opinião[22]. Realmente é excepcional um escritor patentear uma fixidez desse quilate.

 

Outro aspecto notável da vida de René Guénon: a incompreensão radical em face do catolicismo. Esse fato se torna ainda mais espantoso ao se saber que René Guénon veio de uma família católica, recebeu educação católica[23] e sólidos conhecimentos religiosos (em 1904, no colégio Augustin-Thierry de Blois, ele foi o único a ganhar o prêmio de instrução religiosa), e estabeleceu estreitas relações com pessoas católicas de cultura (por ex. o cônego Ferdinand Gombault, antigo aluno do Seminário Francês de Roma e doutor em filosofia da Academia Santo Tomás, com quem manterá uma relação regular durante mais de trinta anos; Noële Maurice-Denis, que o apresentou ao círculo de Jacques Maritain e ao Pe. Émile Peillaube, doge da faculdade de filosofia do Instituto Católico de Paris e fundador da Revue de philosophie, de inspiração tomista; o Pe. Félix Anizan, diretor da Revue universelle du Sacré-Coueur Regnabit, com a qual Guénon colaborou de 1925 a 1927, etc.).

No entanto, quando se lê o que René Guénon escreveu sobre a religião católica, chegam a pasmar os erros de julgamento cometidos. Basta reler o que citamos acima sobre a oração (René Guénon no-la apresenta incapaz de elevar a alma a Deus, contrariamente à definição do catecismo básico), sobre os místicos (descritos como puramente passivos, ao passo que a vida mística não seria possível sem uma sólida ascese ou sem a ciência do discernimento dos espíritos[24]), ou sobre o fim último (como se a visão beatífica não nos elevasse a um estado [sobrenatural] superior ao estado [natural] dos anjos). Contudo, o mais chocante para o leitor católico, ao ler René Guénon, é o silêncio em torno da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e a total incompreensão a respeito dela[25].

Natureza da influência espiritual

Depois de expor o ensinamento de René Guénon acerca da influência espiritual da iniciação e de fornecer sobre a vida dele informações capazes de ilustrar esse ensinamento, resta-nos procurar, à luz da teologia tomista, a natureza dessa influência espiritual.

 

Essa influência espiritual não é uma graça proveniente de Deus

René Guénon, já o vimos, compara a influência espiritual a uma graça espiritual. Assim nos apresenta a encantação como “uma aspiração do ser em direção ao Universal, a fim de obter o que poderíamos denominar, em uma linguagem de aparência algo “teológica”, uma graça espiritual, ou seja, no fundo, uma iluminação interior que, naturalmente, poderá ser mais completa ou menos completa segundo o caso”.

Essa influência espiritual seria para ele como que uma graça superior à que se obtém de ordinário na vida religiosa; ela possibilita que o ser penetre nos estados superiores, o que não é possível por meio da graça religiosa ordinária:

A comunicação deve estabelecer-se antes de tudo pela ação da influência espiritual, para que em seguida permita-se a efetiva tomada de posse desses estados, e não somente, como na ordem religiosa, para que descenda sobre o ser uma “graça” que se liga a ele, mas não o penetra. (ASI, p. 27)

Não admitimos a explicação de René Guénon. Quem for católico compreenderá facilmente; mas, como não escrevemos somente para os leitores católicos, demos alguns argumentos sucintos. Cada um desses argumentos em separado seria cabal; porém, multiplicá-los-emos só porque alguns deles serão mais compreensíveis a uns e outros.

A graça “religiosa” é uma participação na natureza divina[26]. Não há meios de se imaginar uma influência espiritual superior a ela.

De mais a mais, toda a graça, qualquer que seja o grau, nos provém de Nosso Senhor Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, que restabeleceu o contato entre Deus e a humanidade pecadora. Porém, já o assinalamos, René Guénon ignora por completo o papel central que Jesus Cristo desempenha. Jamais ele nos afirma que a influência espiritual provém de Jesus Cristo. Ora, René Guénon nos declarou que o iniciado, diferente do místico, tinha a compreensão do caminho percorrido. Ele deveria saber, então, que a influência espiritual é uma graça que provém da pessoa de Jesus Cristo, pois qualquer místico, e até qualquer cristão, sabe que todas as graças que recebe lhe chegam dessa maneira.

A iniciação, caso fosse um rito que conferisse a graça, seria um sacramento[27]. Porém só existem sete sacramentos, e a Igreja Católica os confere todos. Não existe um oitavo sacramento, e menos ainda um sacramento que a Igreja desconhecesse.

Ainda é possível assinalar que para Guénon a finalidade da influência espiritual não é a visão beatífica: “Jamais os místicos conceberam a possibilidade da Identidade Suprema: uma vez que eles se detêm na ‘visão’, ainda lhes resta toda a extensão dos mundos angélicos a separá-los da Libertação.” (IRS, p. 81-82); contudo, a graça é essencialmente o germe da visão beatífica. Uma vez que a influência espiritual não nos conduz à visão, a natureza dela é distinta da natureza da graça.

Prosseguindo o raciocínio poderíamos dizer que a graça, porquanto seja uma participação da vida trinitária, aos poucos nos leva, quando nos elevamos na vida espiritual, a uma percepção cada vez maior do mistério da Santíssima Trindade, ao ponto de chegar à percepção intelectual da presença trinitária, nas sétimas moradas de Santa Teresa d’Ávila. Ora, René Guénon ignora por completo esse aspecto do dogma cristão, e termina a vida na prática do islã (esotérico e exotérico), que nega explicitamente esse mistério.

Já assinalamos também que Guénon ignorava quase tudo da religião católica, apesar da longa educação nesse ponto. Se a influência espiritual fosse uma graça de Deus, ela o inclinaria ao maior conhecimento de Deus e do seu Reino mas, em vez de ajudar a fortalecer a fé, a influência espiritual que Guénon recebeu o levou à apostasia e à prática da religião muçulmana[28].

Notamos enfim que para René Guénon as duas únicas organizações iniciáticas que poderiam transmitir a influência espiritual no Ocidente são o companheirismo e a maçonaria. A maçonaria estaria sob o influxo de uma graça proveniente de Deus, contudo não se compreende muito bem porque ela se encarniça há mais de dois séculos em destruir a Igreja Católica (por ex., ela preparou a Revolução Francesa anticatólica, foi a força animadora da terceira república e da sua política laicista, etc.)[29].

Alguns guenonistas talvez nos objetassem que a influência espiritual não é uma graça de Deus, pelo simples motivo de que ela provém de mais alto. Com efeito, para René Guénon, que é seguidor da filosofia hindu, haveria uma “Realidade Suprema”, superior ao Deus pessoal e criador, que também se denomina Infinito, Possibilidade Universal ou Todo Universal. Para além do ser haveria um Não-Ser, que não seria o nada, mas uma espécie de supra-ser indeterminado.

Tal objeção se origina da incompreensão da analogia do ser na estrutura da filosofia hindu. Na metafísica tomista, Deus é ao mesmo tempo o Ser Supremo e o Infinito, que contém todos os possíveis e em quem se encontra toda a realidade. Todavia há de se compreender esse Ser Supremo segundo as leis da analogia [...]: as perfeições das criaturas estão em Deus “formal e eminentemente”: formalmente, pois o ser (já que aqui falamos dessa perfeição) se deve atribuir a Deus em sentido próprio, para que signifique uma perfeição positiva[30]; eminentemente, porque tal perfeição divina em Deus se realiza de modo eminente. Conhecemos a formalidade dessa perfeição divina de maneira positiva, mas não captamos o modo infinito pelo qual se realiza senão de maneira negativa e relativa[31]. Por conseguinte há de se atribuir ao ser a Realidade Suprema, e não ao não-ser – conforme o rotundo equívoco de René Guénon, seguindo a opinião dos filósofos hindus: entretanto, esse ser é bem diferente do nosso, o qual podemos afirmar com todas as veras infinito.

 

A influência espiritual é provavelmente uma iluminação angélica

Uma vez que a influência espiritual não é uma graça de Deus, só nos restam duas soluções: ou ela não é nada, ou seja, seria apenas o resultado da sugestão ou auto-sugestão, ou é uma influência angélica. Com efeito, acima do homem só existe Deus ou os anjos.

A primeira solução é sempre possível em teoria; poderíamos acreditar que muitos dos que se submetem à cerimônia da iniciação não recebam nada. Não obstante, é muito mais provável que, quando tudo acontece “validamente”, o recipiendário receba de fato uma “influência espiritual de origem não humana”.

Esse é o parecer dos melhores conhecedores da maçonaria, como Charles Nicoullaud, autor do livro L’initiation maçonnique [A iniciação maçônica], prefaciado por Mons. Jouin[32]:

Não tenho pretensão de afirmar que os fenômenos dessa natureza [a presença sensível de Satã] são cotidianos nas oficinas maçônicas. Antes de tudo, porque a maioria dos componentes das lojas de diferentes matizes seriam incapazes de captar a sutilidade deles e de compreendê-los. Essas manifestações lhes passariam despercebidas e, ainda que alguém lhas apontasse, prevenir-se-iam de admitir a realidade delas. Além disso, porque o sobrenatural[33] não é assunto corrente nas lojas, nem nos capítulos, nem sequer nos areópagos. Demais, precisa haver nesses ambientes almas já predispostas.

Os fatos extraordinários são o triste privilégio de algumas pessoas: são elas os superiores desconhecidos, como se dizia no séc. XVIII, da seita. Esses agentes diretos de Satã lhe servem de instrumentos permanentes, para que o maligno se instile e influa nas disposições ruins e destrutivas no seio das sociedades secretas. São os sacerdotes da Contra-Igreja. A Igreja de Jesus Cristo tem os santos, e Satã, que desponta em toda parte como o macaco de Deus, tem os iniciados.

Creio eu que ainda há mais uma coisa. Lúcifer sugeriu a criação de sociedades secretas e as inspira; elas são o templo, a sinagoga e a morada onde se compraz. Ele é o Deus dos iniciados, conhecido de alguns e ignorado de quase todos. O domínio sobrenatural não se exerce apenas pelos homens que fizeram pacto, mas ainda, de modo mais geral, com o auxílio da iniciação, pela qual os adeptos recebem verdadeiros “sacramentos” demoníacos.

Por esse meio, Satã chega a criar um peculiar estado de espírito que influencia as cabeças dos membros das sociedades secretas, para que todos sejam em um mesmo momento unânimes ao ponderar uma questão apresentada. Assim rebentam e se propagam facilmente as grandes correntes de idéias diabólicas como a Revolução Francesa, por ex..

Sozinho e abandonado às próprias forças, o espírito humano seria perfeitamente capaz de levar a cabo os projetos de destruição revolucionária em qualquer canto do mundo, mas seria incapaz de lhe conferir a universalidade e o internacionalismo, de arrastar consigo as diversas classes da sociedade e conduzi-las ao êxito em meio às dificuldades e escolhos, onde quer que seja, com uma tenacidade e uma disposição de ânimo cujos resultados vemos atualmente em toda a terra; já não há território incólume, e em todo lugar se sentem os efeitos nefastos da revolta do espírito humano, o que, a meu ver, denota a intervenção de uma força esotérica superior e sobrenatural.

Existe em algum lugar, como acreditam quase todos os antimaçons, um supremo capítulo de iniciados, um poderio secreto encarregado de ordenar e dirigir a ação? De nada sei. Muitos escritores insistiram nessa idéia, que é a opinião mais adotada entre os católicos que se dedicam a esses problemas; contudo, não sou desse parecer. Eis os motivos: [...]

Em realidade, ninguém jamais viu o grande mestre das sociedades secretas; porque talvez seja invisível por natureza.

Para mim, após estudar a ação esotérica da seita, creio que Satã desempenhe esse papel, atuando diretamente nas almas dos adeptos e conduzindo-os a todos, pequenos e grandes, para onde os queira levar.

E o pior é que ele tem o talento de convencer as pessoas que mais lhe sofrem a influência a negar-lhe a existência. Esse influxo é sutilíssimo e muitíssimo mau. Os maçons das Lojas Latinas nos exclamariam: “- Não acreditamos em direção sobrenatural”! Mas ser descrente não é ter razão; como bem afirmara o senhor bispo de Cahors: “- Infelizmente, há mais de uma maneira de servir ao ‘maligno’. Alguns são escravos dele mas nele não crêem[34].”. [35]

 

Objetam-nos que algumas correntes de opinião necessitam de comando. Exato. Para tanto, porém, ninguém precisa de um órgão diretor sob a presidência de um grande mestre: basta a formação iniciática das cabeças, aos cuidados de Satã, para que tudo se explique a contento.

A idéia se origina em uma loja qualquer, em um capítulo, em uma simples associação, onde um iniciado a profere. Hoje aqui, amanhã acolá, não interessa. Transmitida às lojas, a idéia encontra de imediato, após a iniciação, um terreno fértil. Ela é acolhida, desenvolve-se, enrija-se e entra em ação, chegando às vezes a invadir o mundo!

Quantas idéias, proferidas nas mesmas condições e seguindo idêntico processo, quedaram improdutivas no meio do caminho, porque Satã as abandonou à própria iniciativa, ou porque não lhe permitiram que as executasse conforme desejara. Não esqueçamos que – fosse ele onipotente – o mundo já não existiria. Ele é o grande destruidor.

Eis aí, acredito eu, a gênese e a démarche da ação das sociedades secretas. Segundo penso, baseado no estudo do ocultismo e da mística, o poderio e a força das seitas é a manifestação resultante da iniciação diabólica, em todos os graus[36].

Se dispersássemos cem maçons – iniciados de verdade, ou seja, animados com o espírito maçônico – por sobre a superfície do globo, eles atuariam da mesma maneira e nas mesmas circunstâncias contra os católicos, sem que premeditassem ou concertassem as ações, sem que recebessem ordens de quaisquer diretores espirituais[37].

 

Essa afirmativa é verdadeira. A história da maçonaria, nos dois últimos séculos, e também a de todas as sociedades secretas, no decorrer dos tempos, forneceriam numerosos exemplos. No entanto, ao passo que o racionalismo das lojas limita-se a enxergar nesse fenômeno um estado de espírito criado pela freqüentação regular das oficinas, um estudo mais aprofundado do problema descortina a intervenção certa de um ser sobrenatural que produz e determina a seu talante esse estado de espírito e essa semelhança de pensamentos entre os adeptos, que se puseram direta ou indiretamente sob a direção dele.

Eis o verdadeiro segredo da ação maçônica. Com efeito, se a tese exotérica que o Ir. Blatin expôs, nas palavras citadas acima, era a única verdadeira, ele teria de admitir que o fato se reproduziria em todas as outras associações. Por ex.: todos os padres, porque receberam a mesma formação intelectual nos seminários, deveriam pensar igualmente em circunstâncias idênticas. Todos os operários egressos de Saint-Cyr ou da Politécnica se comportariam de modo parecido em casos semelhantes. Todos os antigos normalistas pensariam nesse estilo[38]. Ora, são notórias as divergências de opinião que a diversidade de inteligências, caracteres e atavismos produz entre indivíduos que receberam idêntica cultura científica e moral.

As sociedades secretas apresentam ainda outra característica. Um fator novo, ou antes, antiqüíssimo intervém, não para que se dêem aos adeptos concepções semelhantes, mas para que se imponha aos iniciados uma vontade e uma direção únicas, que os membros comuns das lojas ignoram, porém os “iniciados superiores” das altas oficinais conhecem, sobretudo os mestres mais isolados que, embora não freqüentem com regularidade os capítulos ou os areópagos, dirigem em realidade, por meio da teurgia evocativa, todas as sociedades secretas internacionais[39].

 

Talvez nos objetem que a influência espiritual proviria de um anjo bom ou da alma de um defunto.

Muitos dos motivos que nos levaram a afastar a possibilidade de que essa influência espiritual viesse da graça de Deus também valem para a ação de um anjo bom. Com efeito, os anjos bons são os ministros de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Caso eles atuassem sobre os homens, seria com a finalidade de conduzi-los a Nosso Senhor e a sua Igreja. Ora, a luta contra a Igreja é uma constante na maçonaria e nas associações iniciáticas em geral; o caso de Guénon nos mostrou que a iniciação, em vez de levá-lo a conhecer melhor a Santíssima Trindade, a Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Igreja, conduzira-o a uma espécie de embotamento intelectual neste quesito.

Já a ação dos defuntos neste mundo cá debaixo é excepcional (não é esse o caso dos anjos e dos demônios, nota Santo Tomás, pois pertence à ordem da Providência que os superiores dirijam os inferiores).

Demais, mesmo que a alma de um defunto se manifeste cá embaixo, ainda será uma ação humana, ao passo que acabamos de ver que a atividade da maçonaria denota a presença de uma força preternatural. Já a influência de uma alma do purgatório não seria em nada suficiente para explicar a espécie de ciência infusa que René Guénon recebeu, nem para dar conta do seu embotamento em face da religião católica.

Enfim, note-se que não se deve atribuir às almas dos defuntos a maioria dos fenômenos do espiritismo, quando realmente há alguma coisa de preternatural, mas ao demônio, que se aproveita dessa superstição para se imiscuir.

 

Talvez ainda nos objetem que René Guénon rejeita a explicação que acabamos de dar sobre a influência angélica; porém, respondemos sem dificuldades que René Guénon tem uma concepção incompletíssima do mundo angélico. Na obra dele não se encontra nenhum tratado de demonologia. De fato, parece que ele se limita ao que a doutrina hindu ensina sobre os dêvas e os asuras, que ele identifica aos anjos e demônios[40].

A doutrina católica sobre a natureza e o poder dos anjos é muito mais completa e precisa. Assim Santo Tomás ensina que cada anjo conhece o conjunto da natureza criada por Deus: as coisas, afirma o Doutor Angélico remetendo-se à doutrina de Santo Agostinho, foram criadas por Deus no próprio ser delas e também na inteligência dos anjos sob forma de espécies ou idéias. Por meio dessas espécies, os anjos conhecem o conjunto do universo e até cada criatura em particular. E a ciência angélica, sendo algo que pertence à natureza, permanece nos anjos decaídos ou demônios.

Os anjos, possuidores de uma inteligência bem superior à dos homens, são capazes de iluminar os homens. Resta-nos examinar a maneira pela qual sucede essa iluminação, no caso de um anjo caído; veremos que ela corresponde perfeitamente à influência espiritual da iniciação, descrita por Guénon.

 

Pode o demônio iluminar a inteligência humana?

Eis aqui um ponto de doutrina quase desconhecido e pouco estudado – ao menos parece. Devemos então recorrer a Santo Tomás e colacionar todos os excertos em que versa sobre o problema na sua obra.

Em primeiro lugar, parece que Santo Tomás recusa a possibilidade dessa iluminação: “Não cabe aos demônios iluminar o intelecto, como dissemos na primeira parte desta obra[41].” Ao nos reportarmos à passagem citada, lemos: “Não pode existir iluminação propriamente dita nos demônios, porque essa iluminação é a manifestação da verdade, na medida em que ela se ordena a Deus, que ilumina todo intelecto[42].”

Dito de outro modo, Santo Tomás não chama essa influência espiritual dos demônios, se ela existir, de iluminação propriamente dita, porque o demônio não nos quer dizer deste modo a verdade que nos levará a Deus. Contudo, parece-nos que ainda assim é lícito chamá-la de iluminação em sentido extenso, pois há, como iremos ver, uma verdadeira ação do anjo caído sobre o intelecto para lhe comunicar conhecimentos e algumas luzes.

O demônio não é capaz de manifestar conhecimentos ao homem através da iluminação propriamente dita, ensina-nos Santo Tomás, mas certamente é capaz de fazê-lo através da visão imaginária ou sensível. Desta forma, o demônio pode ter os seus profetas, macacos dos verdadeiros profetas[43].

No caso da visão imaginária, o demônio nos forma fantasmas[44] na imaginação[45] (não diretamente, pois os anjos para Santo Tomás não formam por ação direta as formas materiais, mas indiretamente atuando no órgão e nos humores).

O demônio pode ainda atuar de outra maneira. No Comentário às Sentenças explica Santo Tomás que o anjo caído é capaz de atuar por “iluminação” sobre os fantasmas: “O anjo bom ou mau pode revelar o que conhece ao ministrar a sua luz nos nossos fantasmas, como ministramos a luz do intelecto agente, a fim de que intenções [ou seja, espécies] se formem no intelecto [possível]; quanto mais forte e perfeita é a luz, mais se formarão conhecimentos numerosos e certos. Por isso, com fantasmas esclarecidos pela luz angélica, alcança-se um conhecimento no intelecto possível, para o qual a luz do intelecto agente do homem não seria suficiente, pois ela é bem mais fraca do que a luz do anjo[46].”

A iluminação do anjo das trevas é inferior à do anjo bom, que pode imprimir a sua luz diretamente no nosso intelecto e assim fortificar a luz do próprio intelecto (o demônio se limita a clarificar os fantasmas)[47]. Os demônios não imprimem diretamente a sua luz no nosso intelecto, apesar de serem capazes de fazê-lo segundo a ordem natural, pois que o nosso intelecto assim iluminado teria mais forças para evitar o logro[48]. Essa possibilidade se contraporia à vontade demoníaca de nos enganar sempre.

 

Em suma, existem duas maneiras para que o demônio nos comunique conhecimentos interiormente: a formação de fantasmas na imaginação, e a iluminação dos fantasmas que já estão na imaginação (formados por nós mesmos de modo natural, ou formados pelo demônio).

O ponto de partida dessa revelação diabólica pode muito bem ser a cerimônia de iniciação. Deus deixa ao demônio certa liberdade de ação nessas cerimônias, por causa do caráter supersticioso delas: existe uma invocação ao menos implícita do demônio cada vez que se espera um efeito espiritual de uma causa que por si não é capaz de produzi-lo[49].

Admite-se que o demônio exerça uma influência espiritual durante a iniciação. Estamos na presença da contrafação de um sacramento. Todavia esse “sacramento” não impõe caráter nem marca indelével que confira poder espiritual. Assim, para Santo Tomás, o sinal da besta, sobre o qual se fala no Apocalipse, não será um poder espiritual: ele servirá para a realização de ações humanas, como comprar e vender (ao passo que o caráter sacramental nos permite a conformação às ações do Cristo)[50].

Tampouco dever-se-ia enxergar nessas cerimônias uma causa que funcionaria o tempo todo, ex opere operato, como pensa René Guénon. Elas só surtem efeito na medida em que Deus o permite, como punição ao pecado de superstição.

Nessa ótica não nos parece que se deva dar muita importância à “cadeia” iniciática. Sem dúvida o fato de se vincular a uma organização iniciática regular torna o pecado de superstição ainda mais característico, macaqueando de alguma maneira a transmissão do poder de ordem da Igreja, mas nada impede de que o demônio atue também na ausência dessa cadeia. Parece que em certas seitas (por exemplo, os pentecostalistas) as pessoas começaram a impor as mãos sem se vincularem a uma organização regular existente.

Demais, o próprio Guénon, apesar de recomendar a vinculação a uma organização iniciática, reconhece a possibilidade da iniciação isolada. Nesse caso o desenvolvimento iniciático será mais difícil, nota Guénon, o que se pode explicar a partir do fato de que uma organização iniciática, além da iniciação em si, proporciona ensinamentos, cerimônias e um “ambiente” favorável à atividade do demônio.

 

Confirmação do Doutor Místico

O que acabamos de dizer sobre a doutrina tomista concorda perfeitamente com o que nos disse o Doutor Místico. Para São João da Cruz, não é conveniente procurar as comunicações sobrenaturais por visão ou revelação, pois “além da dificuldade de não se equivocar no entendimento das palavras e das visões que vêm de Deus, há muitas delas que normalmente vêm do demônio. De modo geral, com efeito, o demônio imita os procedimentos e as relações de Deus com a alma; ele macaqueia tão bem essas comunicações, para insinuar-se a ela como o lobo rapace vestido em pele de cordeiro que entra no aprisco, que mal o reconhecemos. Ele diz muitas coisas que são verdadeiras e conformes à razão ou que se realizam. Portanto, é facílimo enganar-se[51]”. Assim, convém muitíssima prudência nas vias espirituais, e buscar a união com Deus só por meio da fé.

Aqueles que escolhem outras vias, sobretudo se fazem pacto implícito ou explícito com o demônio, como é o caso da iniciação, caem com facilidade sob a influência dele: “Acrescente-se que o demônio se insinua no mais das vezes nessa espécie de palavras interiores e sucessivas, sobretudo quando a alma tem alguma inclinação ou afeição a elas. No momento em que ela começa a recolher-se, o demônio costuma oferecer-lhe numerosos temas de digressão; ele os apresenta ao entendimento, através de sugestões, pensamentos ou palavras, para provocar-lhe a queda, enganando-a habilissimamente com todas as aparências do verdadeiro. Essa é uma das maneiras pelas quais o demônio se comunica com os que fizeram algum pacto tácito ou formal com ele. Algo assim acontece com os heréticos, e sobretudo com os heresiarcas: ele lhes enche o entendimento com pensamentos e raciocínios sutilíssimos, falsos, que têm a aparência do verdadeiro, mas errados[52].”

O demônio chega a dar às almas assim ligadas a ele palavras substanciais, que é não obstante o modo de revelação mais elevado: “Esse espírito maligno nunca conseguirá produzir passivamente, em uma alma qualquer, um efeito substancial de maneira a gravar nela o efeito habitual da sua palavra. Excetuo o caso em que a alma se ofereceria ao demônio por meio de um pacto voluntário e ele, possuindo-a como mestre, imprimiria nela não efeitos benéficos mas cheios de malícia. A partir do instante em que essa alma lhe está unida por perversidade voluntária, é facílimo ao demônio imprimir nela os efeitos de palavras cheias de perversidade[53].”

Antes de atirar-se em uma aventura espiritual, convém ser prudente, pois o demônio tem um poder enorme para enganar-nos. É preciso apoiar-se na fé pura, confiar-se dentro do possível a um prudente diretor espiritual e conhecer as regras do discernimento dos espíritos[54].

 

Conclusão

Pensamos que a análise de René Guénon sobre a iniciação é em parte exata: a iniciação bem pode conferir uma influência espiritual de origem não humana, pois ela constitui um pacto (ao menos implícito) com o demônio. Essa influência se exerce sobre a imaginação, formando fantasmas e iluminando-os. Existe, pois, uma espécie de iluminação demoníaca, ainda que não se trate, segundo o vocabulário de Santo Tomás, de uma iluminação em sentido estrito, pois uma verdadeira iluminação sempre nos leva à verdade e à aproximação de Deus.

Essa iluminação demoníaca pode permitir ao iniciado conhecer certas coisas que não seria capaz de conhecer naturalmente. Todavia esse conhecimento terá o efeito de afastá-lo de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo e da sua Igreja. Diante das verdades da fé, ela funciona em sentido contrário ao de uma iluminação, o que explicaria o extraordinário embotamento de René Guénon em relação à religião católica que, contudo, conheceu bem na infância.

De um ponto de vista moral, essa iniciação é um pecado mortal contra a virtude da religião. Até à reforma do Código de Direito Canônico, ela incidia na pena de excomunhão (ao menos no contexto da iniciação maçônica). O Novo Código suprimiu essa pena, mas o pecado permanece, bem como o pacto implícito com o demônio.

Uma pessoa que recebesse essa iniciação e percebesse o erro precisaria submeter-se ao poder das chaves da Igreja no sacramento da penitência. Esse sacramento é o suficiente para romper o pacto implícito com o demônio (vimos que a iniciação não deixa marca indelével no espírito, que é uma propriedade dos sacramentos). Em certos casos, é possível que Deus, como punição a essa falta, permita ao demônio algum domínio sobre o corpo e as faculdades do convertido. Nesse caso convém valer-se, em primeiro lugar, dos meios ordinários de luta contra o demônio (assistência à missa, frequentação aos sacramentos, oração, penitência) e, se tais meios se revelarem ineficazes, podemos considerar o uso prudente dos exorcismos da Igreja.

O que dissemos neste artigo sobre a iniciação recebida nas organizações iniciáticas como a maçonaria também é válido para cerimônias supersticiosas como o “batismo no espírito” das comunidades carismáticas. O efeito da intervenção diabólica se manifesta ademais muito amiúde pela obtenção de “poderes” ou pelo fato de falar línguas estranhas.

Encontramos o gesto iniciático da imposição das mãos em muitas seitas e movimentos que constituem o que se denomina a New Age. Nunca é demais prevenir-se contra tais práticas.

Terminemos o artigo estimulando os leitores a orarem aos bons anjos. Por eles é que o bom Deus nos protegerá da influência maléfica das cerimônias iniciáticas, que abrem as portas do inferno aos demônios para perder as almas. Oremos aos anjos, para que abram os olhos daqueles que se deixaram impressionar e influenciar pela obra de René Guénon, e dêem aos pastores da Igreja força e coragem de se contraporem a tais erros.

 


[1] VATRÉ, Éric. La droite du père. Enquête sur la Tradition catholique aujourd’hui, Guy Trédaniel, 1994, 372 p.

[2] A influência de Guénon não se limita à Tradição Católica. Ele se transformou numa espécie de doutor comum da maçonaria – ao menos, para os maçons que procuram um itinerário espiritual. Demais, a sua influência ultrapassa os limites da maçonaria e se estende a grande parte do movimento esotérico, que se ramifica em múltiplas escolas.

[3]                      Indicações bem pormenorizadas sobre as relações de Guénon com os ambientes católicos estão no livro de Marie-France James, Ésotérisme et cristianianisme autour de René Guénon [René Guénon segundo o esoterismo e o cristianismo], Nouvelles Éditions Latines, 1981. O livro é interessante por causa dos documentos, mas não é recomendável a todos, pois o autor, ao estilo universitário, abstém-se do menor julgamento.

[4] MÉROZ, Lucien. René Guénon ou la sagesse initiatique, Plon, 1962, 245 págs.

[5] JACOB, Daniel. “René Guénon, une super-religion pour les initiés”, Permanences 34, novembro de 1966, págs. 31-62.

[6] VAQUIÉ, Jean, em diversos estudos publicados em Lecture et Tradition (BP – 86190 Chiré-em-Montreuil), por ex., nos nºs  76, 79, 82 e 167, e nos Cahiers de la Societé Augustin Barruel (62 rue Sala – 69002 Lyon), por ex., no nº 25, o único atualmente disponível que contém a lista dos estudos precedentes.

[7] L’Herne René Guénon, periódico sob a direção de Jean-Pierre Laurant e Paul Barbanegra, Éd. de l’Herne, 1985, 459 págs. O periódico, ao responder a um interlocutor que se queixava da violência dos ataques da RISS (Revue Internationale des Societés Secrètes, revista católica dirigida pelo Mons. Jouin, que no começo do séc. XX lutava contra as sociedades secretas) e de certos ambientes católicos alinhados com o Pe. Barbier (por ex., a Societé Augustin Barruel) contra a gnose, diz que os “integristas” são hostis ao pensamento moderno e ao simbolismo; os coitados dos “integristas” decididamente não entenderam nada.

[8] L’Herne René Guénon, p. 273-274. O autor chega ao ponto de se questionar se não haveria uma conspiração contra René Guénon: “Ainda por cima, quando se analisam e – como dizem os eruditos – se colacionam esses libelos, evidencia-se a convergência entre eles e, não raro, a identidade de argumentação dos autores, às vezes com dezenas de anos de distância entre si, como se constata na recente obra de Marie-France James, de sorte que é possível perguntar se não existe, por trás de todas essas pessoas, uma inspiração única que orquestra, de alguma forma, as suas lucubrações” (id). Ele propõe uma via de reaproximação entre guenonismo e catolicismo, não pela doutrina mas pelo estudo do simbolismo. Decerto, haveria alguma coisa a se fazer nessa área, não para tentar reaproximar-se de Guénon, como propusera Jean Hani, mas para demonstrar que existe um verdadeiro simbolismo católico, mui diferente do simbolismo guenonista. Jean Vaquié vislumbrava tal estudo, quando a morte o surpreendeu; esperamos retomá-lo algum dia.

[9] BOULET, Noële Maurice-Denis, “L’ésoteriste René Guénon”, La pensée catholique 80, 1962, pág.80.

[10] Vimos alguns conhecidos paladinos da Tradição Católica, na linha de Dom Lefebvre, atacarem com violência os Cahiers de la Societé Augustin Barruel, sobretudo Jean Vaquié. Além disso, Jean Vaquié conhecia pouco a teologia de Santo Tomás, assim nos parece útil completá-lo neste quesito.

[11] Escrevemos a palavra entre aspas, pois não se trata da Tradição Católica, mas da Tradição Primordial, como Guénon a entende. Não discutiremos aqui esse conceito de Guénon, que é a contrafação do conceito católico de revelação primitiva.

[12] Resulta daí, entre outras conseqüências, que os conhecimentos de ordem doutrinal – indispensáveis ao iniciado, e cuja compreensão teórica lhe é uma precondição de “realização” – podem faltar totalmente ao místico; por isso lhe sobrevém com freqüência, além da possibilidade de erros e múltiplas confusões, uma estranha incapacidade de exprimir-se de forma inteligível (Nota de René Guénon).

[13] Companheirismo ou corporações de ofício eram associações que surgiram na Idade Média, a partir do século XII, para regulamentar o processo produtivo artesanal nas cidades. Essas unidades de produção artesanal eram marcadas pela hierarquia (mestres, oficiais e aprendizes) e pelo controle da técnica de produção das mercadorias pelo produtor. Companheirismo designa ainda o estágio por que o oficial (ou companheiro) tinha de passar, sob a conduta do mestre da guilda, para que se elevasse também ao grau de mestre e fosse autorizado a abrir a própria oficina e ensinar os aprendizes.

[14] As organizações do esoterismo islâmico transmitem entre si um sinal de reconhecimento que, segundo a tradição, o anjo Gabriel comunicou a Maomé; não há forma mais clara de indicar a origem “não humana” da iniciação (Nota de René Guénon).

[15] Lucien Meroz, René Guénon ou la sagesse initiatique [René Guénon ou a sabedoria iniciática], Plon, 1962, pág.11.

[16] Noële Maurice-Denis Boulet, “L’ésoteriste René Guénon”, La pensée catholique 80, 1962, pág. 80, nota 1.

[17] Mais de uma dúzia de maçons da G.L.N.F. [Grande Loja Nacional da França] vieram há pouco assistir, paramentados com os ornamentos maçônicos, a missa tradicional de indulto [missa privada por convite], na festa de São João (cf. Courrier hebdomadaire de Pierre Debray 1217, de 23/03/1995, pág. 3).

[18] Pois Guénon freqüentou também, na juventude, a ordem martinista ressuscitada por Papus, a igreja gnóstica fundada por Jules Doinel, a loja simbólica Humanidad nº 240 (do rito nacional espanhol, transformado em loja mãe para o rito Menfis-Misraím em 1908) e o rito primitivo e original swedenborguiano; ver Lucien Meroz, René Guénon ou la sagesse iniciatique, Plon, 1962, págs. 29-32.

[19] Lucien Méroz, op. cit., pág. 37-38.

[20] Lucien Méroz, op. cit., pág. 42.

[21] Lucien Méroz, op. cit., p. 42.

[22] Assim René Guénon mudara de opinião sobre o budismo, que no começo considerava uma doutrina não tradicional, antes de admitir a validade dele.

[23] Por ex., dos 12 aos 15 anos de idade, ele freqüentou um estabelecimento religioso, a escola Notre-Dame des Aydes em Blois. Encontram-se numerosas indicações acerca das relações de Guénon com o catolicismo no já citado livro de Marie-France James.

[24] O doutor da via mística, São João da Cruz, embora exponha que a alma, quando entra na via mística, é passiva em relação a Deus (pati divina, já afirmava Dionísio: a mística consiste em padecer as coisas de Deus), expõe também o papel do demônio e a necessidade de se pôr sob a influência de Deus e de evitar a do demônio. Essa ciência do discernimento dos espíritos está cruelmente ausente em René Guénon.

[25] Por outro lado, há de se reconhecer que também não se mostra hostil a Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Igreja. Tem-se a impressão de que o assunto não o interessa, pois ele se situa em outro nível, esotérico. Jesus Cristo e a sua Igreja só o interessam como símbolos, capazes de levá-lo para além do que são: Guénon não busca alcançar a pessoa de Jesus Cristo, mas o Indiferenciado, o Absoluto que estaria para além de Deus. Vede como utiliza a cruz, que para ele não é sinal da salvação, mas símbolo dos estados múltiplos do ser e da Libertação.

[26] (2P 1, 4). Observai que a união com Deus, proposta pela religião católica, não é uma mera união exterior, como acima afirmava constrangido René Guénon, mas uma união íntima com a própria natureza de Deus.

[27] DS 1601: “Se alguém diz que os sacramentos da Lei Nova não foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo; ou que existem mais do que sete ou menos do que sete (...) seja anátema.” Ver também DS 1310. A pretensão de que a iniciação ainda subsistiria a título de “sacramento da Tradição Primordial” patenteia o desconhecimento do efeito da encarnação e paixão de Nosso Senhor: a Nova Aliança substituiu e suprimiu a antiga economia da salvação. As cerimônias judaicas (e diga-se o mesmo por analogia das cerimônias pagãs) que poderiam ser causas (ex opere operantis, pela fé do fiel, e não ex opere operato, a exemplo dos sacramentos do cristianismo) da graça se tornaram, em primeiro lugar, mortuae (ineficazes), desde a paixão até a destruição de Jerusalém, e então mortiferae (mortíferas) em seguida.

[28] Alguns “guenonistas” reprovam essa atitude de Guénon, afirmando que ele deveria viver e morrer no exoterismo em que nasceu. A nossa intenção aqui é demonstrar que a influência espiritual recebida por Guénon e a “Realização Espiritual” que – acreditava – havia alcançado não o impediram de cometer esse ato, do qual jamais deu o menor sinal de arrependimento.

[29] Algumas pessoas acreditam que a maçonaria é um canal transviado, em que todavia continua a manar um pouco de “graça”; porém lhes respondemos que ainda estão ignorantes da economia da salvação que Deus quisera. Nosso Senhor só fundou uma Igreja, a quem deu todos os meios de salvação. Seria baldado buscar fora da Igreja uma fonte de graça. No máximo podem existir fora da Igreja sacramentos roubados a ela (como o batismo), que serão válidos mas – para os adultos – infrutíferos (pois imprimem caráter mas não dão a graça sacramental). No caso da iniciação, não temos sequer um sacramento da Nova Aliança, portanto é uma cerimônia decerto nula do ponto de vista da graça.

[30] Quando dizemos que Deus é, não dizemos apenas que Deus é a causa do ser das criaturas ou que Deus difere do não-ser, mas que a ele atribuímos uma perfeição, o ser, que é algo de positivo e de análogo ao ser das criaturas: Deus está em relação ao seu ser assim como as criaturas estão em relação ao ser delas.

[31] De maneira negativa: o ser divino é diferente do ser das criaturas. De maneira relativa: o ser divino é superior ao ser das criaturas como a causa em relação ao efeito.

[32] Charles Nicoullaud, L’initiation maçonnique, Perrin, Paris, 1931 (5ª ed.).

[33] O autor usa aqui e adiante a palavra “sobrenatural” em sentido extenso para designar também o que se nomeia mais propriamente de preternatural diabólico.

[34] Carta ao Sr. Pe. Barbier. Les infiltrations maçonnique dans l´Église [As infiltrações maçônicas na Igreja], pág. 8.

[35] Charles Nicoullaud, L’initiation maçonnique, Perrin, Paris, 1931 (5ª ed.), págs. 145-148.

[36] Charles Nicoullaud, L’initiation maçonnique, págs. 151-152.

[37] Artigo do Sr. Jean Bidegain, sobre o Irmão Blatin, Liberté du Sud-Ouest, 24 de outubro de 1911.

[38] De fato existe um espírito em comum entre os antigos alunos de Saint-Cyr, da Politécnica ou da Escola Normal. Essa conduta se explica pelo fato de que viveram certo tempo juntos, receberam o mesmo ensino, compartilharam certos gostos etc. No caso da maçonaria, é possível que exista certo espírito de associação, que se explicaria de forma puramente natural. Todavia, esse espírito não explica tudo, pensa o nosso autor, ao considerar os resultados obtidos pelas lojas, o “êxito em meio às dificuldades e escolhos, onde quer que seja, com tenacidade e disposição cujos resultados vemos atualmente em toda a terra; já não há território incólume, e em todo lugar se ressentem os efeitos nefastos da revolta do espírito humano, o que, a meu ver, denota a intervenção de uma força esotérica superior e sobrenatural.” De fato, o espírito que se encontra em uma grande escola não interfere na diversidade das idéias religiosas; já os maçons de todas as observâncias têm em comum uma peculiar aversão pela Igreja Católica (tradicional, diga-se). Por isso, pensamos que a hipótese da existência dessa força oculta, proposta por Nicoullaud, é justa, ainda que para alguns empreendimentos da maçonaria não há necessidade de remontar-se a ela.      A mesma explicação vale para a Igreja: alguns empreendimentos dos cristãos podem explicar-se de modo natural, sem remissão à graça sobrenatural. Porém, a Igreja como um todo, “pela sua admirável propagação, exímia santidade e inesgotável fecundidade em todos os bens, pela sua unidade católica e invicta estabilidade, é um grave e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho irrefragável da sua missão divina (Concílio Vaticano I, FC 95)”.

[39] Charles Nicoullaud, L’initiation maçonnique, págs. 159-162.

[40] Veja-se por ex. René Guénon, Symboles fundamentaux de la science sacrée [Símbolos fundamentais da ciência sagrada], Gallimard, 1962, p. 74-79. Guénon acredita que os demônios, transposição teológica dos estados inferiores do ser, atuam sobretudo no mundo sutil e, por isso, não são perigosos para quem busque tão-somente a influência espiritual: “Só há um domínio que lhe é de rigor proibido [ao diabo]: a metafísica pura [ou seja, a via da ‘Realização’ que Guénon gaba].” (René Guénon, L’erreur spirite [O erro espiritista], Villain et Belhomme – Éd. Traditionnelles, Paris, 1972, pág. 314). Entende-se daí que Guénon julgava-se imune aos demônios, para a sua grande infelicidade.

[41] IIa. IIae, q. 96, ª 1.

[42] Ia, q. 109, a. 3.

[43] IIa IIae, q. 15, a. 5, ad 2.

[44] Os fantasmas são as imagens formadas na imaginação, a partir das quais a inteligência abstrai a natureza das coisas.

[45] Ia, q. 111, a. 3; De Veritate, q. 11, a. 3.

[46] 2 Sent. D. 7, q. 2, a .2: “Angelus bonus vel malus ea quae cognoscit revelare potest per applicationem luminis sui ad phantasmata, sicut applicatur lumen intellectus agentis, ut ex eis quaedam intentiones in intellectu eliciantur. Et ideo ex phantasmatibus illustratis lumine angelico resultat aliquorum cognitio in intellectu possibili hominis, ad quam eliciendam illustratio intellectus agentis humani non sufficeret, cum lumen ejus sit debilius lumini angeli.” Ver também 2 Sent. D. 8, q. 2, a. 5, ad 6.

[47] I. q. 107, a. 2; I, q. 109, a. 3; 2 Sent. D. 8, q. 2, a. 5, ad 6. Para Santo Tomás é natural que Deus mova de imediato a vontade do homem, enquanto os (bons) anjos lhe ordenem a inteligência: C.G. 4, c. 79 e 91.

[48] De Malo, q. 3, a. 4.: “Quamvis diabolus secundum ordinem suae naturae posset homini aliquid persuadere intellectum eius illuminando, sicut facit bonus angelus; non tamem hoc facit, quia intellectus quanto magis illuminatur, tanto magis potest sibi cavere a deceptione, quam diabolus intendit.”  Santo Tomás confirma essa afirmação em De Malo, q. 19, a. 12.

[49] Santo Tomás precisa também que, por meio dessas cerimônias, não é lícito esperar a aquisição de uma ciência verdadeira (o que exige uma iluminação propriamente dita da inteligência), mas somente o recebimento da transmissão de certos elementos de ciência. Ver por ex.: II-II, q. 96, a. 1; Quodlibetum 12, q. 9, a. 2.

[50] 4 Sent. D. 4, q. 1, a. 1, ad 3.

[51] São João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, Livro II, capítulo 19, Seuil, 1947, pág. 223.

[52] São João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, Livro II, capítulo 27, Seuil, 1947, pág. 284.

[53] São João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, Livro II, capítulo 29, Seuil, 1947, pág. 294.

[54] Entre essas regras, assinalemos este conselho útil de São João da Cruz: “(O demônio) inspira facilidade e presteza para as ações imbuídas de fulgor e importância; mas só inspira repugnância para as coisas humildes.” A Subida do Monte Carmelo, Livro II, capítulo 28, Seuil, 1947, pág. 289.

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