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Art. 3 ─ Se os santos se movem instantaneamente.

O terceiro discute-se assim. ─ Parece que os santos se movem instantaneamente.

1. ─ Pois, diz Agostinho, que o corpo estará onde bem o quiser o espírito. Ora, o movimento da vontade, pelo qual o espírito vai para onde quer, é instantâneo. Logo, também instantâneo será o movimento do corpo.

2. Demais. - Como o prova o Filósofo, nenhum movimento é possível no vácuo, porque nele o móvel se moveria instantaneamente, desde que o vácuo não lhe opõe nenhuma resistência. Mas o espaço cheio opõe resistência. E assim nenhuma proporção haveria entre a velocidade do movimento no vácuo e no espaço cheio, pois a proporção entre as velocidades dos movimentos se funda na proporção da resistência do meio. Ora, dois movimentos, que se desenvolvem no tempo, hão de ter velocidades proporcionais, porque um tempo é proporcional a outro. Semelhantemente, nenhum espaço cheio pode opor resistência a um corpo glorioso, que pode simultaneamente com outro ocupar o mesmo lugar, de qualquer modo que seja; assim como o vácuo não pode opor resistência ao outro corpo. Logo, se um santo se move, há de mover-se instantaneamente.

3. Demais. ─ O poder da alma glorificada excede como que sem proporção o da alma não glorificada. Ora, a alma não glorificada pode mover um corpo no tempo. Logo, a alma glorificada pode movê-lo num instante.

4. Demais. ─ Tudo o que percorre com a mesma velocidade um espaço pequeno ou grande se move instantaneamente. Ora, tal é o movimento do corpo glorioso; pois, percorre num tempo imperceptível um espaço qualquer. Donde o dizer Agostinho, que o corpo glorioso, como o raio do sol, vence espaços desiguais com a mesma celeridade. Logo, o corpo glorioso se move num instante.

5. Demais. ─ Tudo o que se move ou é no tempo ou no instante. Ora, o corpo glorioso, depois da ressurreição, não se moverá no tempo porque então não haverá mais tempo, como diz a Escritura. Logo, há de mover-se no instante.

Mas, em contrário. ─ No movimento local o espaço, o movimento e o tempo se medem pela mesma divisão, como Aristóteles o demonstra. Ora, o espaço atravessado pelo corpo glorioso em movimento é divisível. Logo, tanto o seu movimento como o tempo que emprega são divisíveis. Ora, o instante é indivisível. Portanto, o movimento do corpo glorioso não se dá no instante.

2. Demais. ─ Um corpo não pode estar totalmente num lugar e parcialmente em outro. Porque então, uma das suas partes estaria simultaneamente em dois lugares, o que não pode ser. Ora, todo móvel está parte na origem e parte no termo do movimento, como o demonstra o Filósofo. Ora, tudo o que foi movido está totalmente no termo final do movimento. Logo, não pode simultaneamente estar em movimento e já ter-se movido. Ora, todo ser que se move num instante ao mesmo tempo que se move já se moveu. Logo, o movimento local do corpo glorioso não pode ser instantâneo.

SOLUÇÃO. ─ Nesta matéria são muitas as opiniões.

Assim certos pretendem que um corpo glorioso pode passar de um lugar para outro sem passar pelas posições intermediárias, assim como a vontade de um lugar se transfere para outro sem passar por essas posições. Por isso, como o da vontade, pode o movimento de um corpo glorioso ser instantâneo. ─ Mas esta opinião é insustentável. Porque um corpo glorioso não deixa nunca de ser corpo. Além disso, quando dizemos que a vontade se move de um lugar para outro, não significa isso que se transfira essencialmente de um para outro lugar, pois nenhum desses lugares a contém na sua essência. Mas, dirige-se para um lugar depois de se ter em intenção dirigido para outro, sendo nesse sentido que dizemos que se move de um para outro lugar.

Por isso ensinam outros que o corpo glorioso é naturalmente próprio, como corpo, atravessar as posições intermediárias e, assim, de mover-se no tempo. Mas em virtude da glória, cuja virtude é de certo modo infinita em relação à da natureza, tem a faculdade de não precisar atravessar essas posições e de mover-se, assim, num instante. ─ Mas isto é inadmissível, porque implica em si contradição, como a seguir se verá. Seja o móvel Z, que se move de A para B. Quando está todo em A é claro que ainda não se move. Nem quando está todo em B, porque então já se moveu. Logo, se se move, não estará totalmente em A nem em B. Portanto, quando se move: ou não está em nenhum lugar; ou está parte em A e parte em B; ou todo num lugar intermediário; p. ex., C; ou parte em A e C; ou parte em C e B. Mas não é possível que não esteja em nenhum lugar, porque então teríamos o impossível de uma quantidade dimensiva não ocupar nenhum lugar. Nem se pode admitir que esteja parte em A e parte em B, sem ocupar nenhuma posição intermediária. Porque, sendo A um lugar distante de B, resultaria, desde que há um meio interjacente, que a parte de Z que estivesse em B não seria contínua com a que estivesse em A. Logo, só resta, ou que está Z totalmente C; Ou parte em C e parte noutra posição média entre C e A, p. ex., D; e assim por diante. Logo e necessariamente, não pode Z partir de A e chegar a B, sem primeiro ocupar todas as posições intermediárias. Salvo se se disser que parte de A e chega a B sem se ter movido; o que implica contradição, porque a sucessão mesma das posições é movimento local. E o mesmo raciocínio se aplica a qualquer mutação entre dois termos contrários, dos quais cada qual é um termo positivo. Diferentemente se dá, porém, com as mutações que tem só um termo positivo, sendo o outro uma simples privação. Porque entre uma afirmação e uma negação ou privação, não há nenhuma distância determinada. Por onde, o que está no termo negativo pode estar mais próximo ou mais afastado da afirmação, ou inversamente, em razão de uma causa geradora de um desses termos ou que dispõe para eles. E assim, da posição negativa, onde o móvel totalmente esteja, pode passar para a afirmativa, e ao inverso. Por onde, também neste caso o móvel primeiro se move para depois repousar no termo do movimento, como Aristóteles o prova. Nem há aqui nenhuma semelhança com o movimento angélico; porque só equivocam ente podemos dizer, de um corpo e de um anjo, que ocupam um lugar. Por onde, é claro que de nenhum modo pode um corpo passar de um lugar para outro, sem percorrer as posições intermediárias.

Por isso outros, apesar de o concederem, afirmam que o corpo glorioso se move no instante. ─ Mas daí resulta que um corpo glorioso iria ocupar, num mesmo instante, dois ou mais lugares simultaneamente; i. é, no termo último do seu movimento e em todas as posições intermediárias. O que não é possível.

Mas sustentam a sua opinião dizendo que, embora o instante seja realmente um mesmo, não o é contudo no conceito racional, como se dá com o ponto em que terminam linhas diversas. ─ Isto porém não basta. Porque o instante mede o que nele realmente se passa e não o que é objeto de uma consideração racional. Por onde, fazer considerações diversas sobre o instante não tornam possível que ele meça fatos que não se dão simultaneamente no tempo; assim como considerações diversas sobre o ponto não podem fazer com que um mesmo ponto local contenha cousas que ocupam outras posições espaciais.

Por isso outros, e com maior probabilidade, dizem que o corpo glorioso se move no tempo, mas num tempo imperceptível pela sua brevidade. E que contudo um corpo glorioso pode percorrer num tempo mais breve o mesmo espaço que outro; porque o tempo, por menor que seja, é divisível ao infinito.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Ao que falta pouco é quase como se nada lhe faltasse, diz Aristóteles. Assim dizemos ─ faço já, o que vamos fazer só depois de algum tempo. E é este o sentido de Agostinho quando escreve: O corpo estará logo onde o quiser a vontade. ─ Ou devemos responder que a vontade dos bem-aventurados nunca será desordenada. Por isso não quererão nunca ter instantaneamente o corpo num lugar em que ele não possa assim estar. E assim, qualquer instante que a vontade determinar, nesse mesmo o corpo estará onde ela o quiser.

RESPOSTA A SEGUNDA. ─ Certos contradisseram à proposição estabelecida pelo Filósofo na obra citada, como diz o Comentador a esse lugar. E afirmavam que não é necessário haver proporção entre dois movimentos completos, fundada na proporção dos meios respectivos que hão de atravessar. Mas é necessário haver proporção entre os meios, que devem atravessar, e o retardamento que lhes resulta da resistência desses meios. Pois, o retardamento e a aceleração de um movimento durante um tempo determinado lhes resulta do impulso eficaz do motor sobre o móvel, mesmo sem nenhuma resistência da parte do meio. E bem o manifestam os corpos celestes a que nenhuma resistência lhes serve de obstáculo ao movimento; e contudo não se movem no instante, mas num tempo determinado, proporcionalmente ao impulso do motor sobre o móvel. Por onde é claro que, mesmo admitindo-se que um móvel se mova no vácuo, não resulta necessariamente que se mova no instante; mas num tempo determinado proporcionalmente ao poder do motor sobre o móvel. Por onde, é claro que, mesmo admitindo um móvel movendo-se no vácuo, isso não implica que se mova instantaneamente. Mas que, nesta hipótese, não devemos nada acrescentar à duração do tempo exigido pelo movimento, em virtude da referida proporção entre o impulso do motor e a resistência do móvel, porque nenhum retardamento sofreu o movimento.

Mas esta resposta, como o mostra o comentador, no mesmo lugar, procede de se imaginar falsamente que o retardamento, causado pela resistência do meio, é um acréscimo feito ao movimento natural, movimento este cuja quantidade é determinada pela proporção entre o motor e o móvel, do mesmo modo por que uma linha se acrescenta a outra, resultando assim, em virtude desse acréscimo, que a linha total não tem mais a mesma proporção das linhas acrescentadas entre si. E assim, também não haverá a mesma proporção entre o movimento totalidade do movimento sensível resultante dos retardamentos causados pela resistência do meio. Ora, como dissemos, essa imaginação é falsa. Porque cada parte do movimento tem a mesma velocidade que o movimento total, mas qualquer parte da linha não tem a mesma quantidade dimensiva que a linha total. Por onde, o retardamento ou a aceleração com que um movimento se realiza, lhe redunda para cada uma das partes, o que não se dá com as linhas. Portanto, o retardamento com que o movimento se efetua nenhum acréscimo lhe constitui, ao contrário do que se dá com o acréscimo feito à linha, que constitui uma parte dela.

Por isso, a fim de entendermos a prova do Filósofo, como expõe o Comentador, no mesmo lugar, devemos saber que, no caso vertente, o todo há de ser tomado na sua unidade, i. é, levando em conta a resistência oposta pelo móvel ao impulso do motor, e a resistência do meio onde se realiza o movimento, além de qualquer outra resistência, De modo que calculemos a intensidade do retardamento do movimento total, causado pela resistência oposta pelo móvel ou por um elemento estranho, proporcionalmente a essa resistência e ao impulso da causa motriz. Pois, há de sempre o móvel resistir de qualquer modo ao motor, porque motor e movido, agente e paciente são entre si contrários. ─ Mas pode também o móvel resistir ao motor por si mesmo. Ou por possuir uma virtude que o inclina para um movimento contrário, como no caso dos movimentos violentos; ou ao menos por ocupar um lugar contrário ao da intenção do motor, resistência essa que também os corpos celestes opõem aos seus motores. ─ Mas outras vezes o móvel resiste ao motor, não por si mesmo, senão por uma causa estranha. Tal o que se dá com o movimento natural dos corpos graves e leves, que em virtude da sua própria forma se inclinam a um determinado movimento; pois, a forma é uma impressão do agente gerador, que é também o princípio do movimento dos corpos graves e leves. A matéria porém não opõe nenhuma resistência, nem a proveniente de uma virtude, que inclinasse a um movimento contrário; nem a procedente da contrariedade de lugar, porque a matéria não ocupa lugar senão enquanto recebe da sua forma natural dimensões determinadas. Portanto, a resistência não pode provir senão do meio; e essa resistência é conatural à natureza mesma do movimento dos corpos de que tratamos. ─ Outras vezes porém a resistência procede tanto do móvel como do meio, como se dá com o movimento dos animais.

Quando, pois, a resistência ao impulso motor vem só do móvel, como se dá com os corpos celestes, então o tempo se mede proporcionalmente ao movimento de um e à resistência do outro. E em tal caso não procede o raciocínio do Filósofo, porque, removido totalmente o meio, ainda resta que esses corpos se movem no tempo. ─ Mas nos movimentos em que a resistência só provém do meio, a medida do tempo se funda só nessa resistência. Portanto, esta desaparece totalmente, desde que totalmente se elimine o meio. E então ou o corpo se moverá no instante, ou no mesmo tempo se moverá no vácuo como num espaço cheio. Pois, dado que se movesse no vácuo, empregando um certo tempo, este tempo seria de certo modo proporcional ao tempo que empregasse em se mover num espaço cheio. Assim, se imaginássemos, como é possível, um corpo mais subtil, na mesma proporção em que o é o corpo que enche o meio, e se com esse corpo mais subtil enchermos um espaço igual, o móvel atravessaria esse meio no mesmo tempo em que atravessasse o vácuo. Porque quanto mais subtil supusermos o meio tanto mais diminuiremos o tempo empregado em percorrê-la; e quanto subtil ele for tanto menos resistirá. ─ Mas em relação aos outros movimentos, onde a resistência nasce tanto do móvel como do meio, o tempo se calcula na proporção entre o agente motor, e à resistência móvel e do meio simultaneamente. E assim, nem por supor-se de todo removido o meio ou a sua resistência resulta que o movimento seja instantâneo, mas que o tempo do movimento se mede só pela resistência do móvel. Nem há inconveniente em mover-se o móvel empregando o mesmo tempo, tanto no vácuo como num espaço cheio de um corpo que imaginemos subtilissimo. Porque quanto maior for uma determinada subtileza do meio, tanto mais será de natureza a retardar o movimento. E assim podemos supor uma tal subtileza do meio de natureza a causar um retardamento menor que o causado pela resistência do móvel; e então a resistência do meio não tornará de nenhum modo o movimento retardado.
 
Por onde, é claro que embora o meio não resista aos corpos gloriosos, por poderem ocupar simultaneamente com outro o mesmo lugar, contudo o movimento deles não será instantâneo. Porque o móvel resiste ao impulso do motor só pelo fato de ocupar um lugar, como o dissemos a respeito dos corpos celestes.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Embora a virtude da alma glorificada exceda inestimavelmente a da alma não glorificada, não a excede contudo infinitamente, porque ambas as virtudes são finitas. Donde não se segue que mova no instante. ─ Mas se, absolutamente falando, fosse de infinita virtude, daí não se seguiria que movesse num instante, senão superando de todo a resistência do móvel. E embora a resistência oposta pelo móvel ao motor ─ por causa da contrariedade que lhe opõe ao movimento do motor, em razão da sua inclinação para um movimento contrário ─ possa ser completamente superado por um motor de virtude infinita, contudo, a resistência que opõe, pela contrariedade que manifesta a ocupar o lugar a que o impele o movimento do motor, não pode ser totalmente superada, senão tirando-se ao móvel a possibilidade de ocupar um determinado lugar ou uma determinada posição. Pois, assim como o branco opõe resistência ao negro,em razão da sua brancura, e tanto mais quanto mais oposta For a brancura à negrura, assim um corpo resiste à ação de outro por ocupar um lugar oposto a este último, e tanto maior será a resistência quanto maior a distância entre eles. E não pode um corpo ser privado de ocupar um lugar ou posição, sem ser privado da sua corporeidade que o põe num lugar ou numa posição. Portanto, enquanto conservar a sua natureza corpórea, de nenhum modo poderá mover-se num instante, seja qual for a virtude do motor. Ora, os corpos gloriosos não perderão nunca a sua corporeidade. Logo, não poderão nunca mover-se instantaneamente.

RESPOSTA À QUARTA. ─ A palavra celebridade, no texto citado de Agostinho, significa o excesso imperceptível de um movimento sobre outro; assim como imperceptível é o tempo do movimento total.

RESPOSTA À QUINTA. ─ Embora depois da ressurreição não haja mais tempo, que é o número do movimento do céu, contudo haverá o tempo resultante das relações numéricas de anterioridade e posterioridade, que todo movimento supõe.

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