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Thesauri

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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A que, precisamente, o preceito de amar nossos inimigos nos obriga?

“Inimigos” são aqueles que nos odeiam, ou que nos fizeram algum mal sem uma justa compensação ou a quem sentimos aversão por algum motivo (desgosto natural, inveja, etc).

Há um preceito divino especial de amar esses inimigos, não enquanto inimigos, mas na medida em que são capazes da bem-aventurança eterna e, de fato, estão destinados a ela. A inimizade deles é um mal e, como tal, deve ser rejeitada, mas as pessoas que são nossas inimigas devem ser amadas pelos dons que Deus lhes deu – elas devem ser amadas por Deus. O preceito é “especial” no sentido de ter sido promulgado por Nosso Senhor em pessoa (Mt 5, 4) e em razão da dificuldade de colocá-lo em prática. Na verdade, ele não é diferente do preceito de amar ao próximo.

Portanto não devemos odiá-los, isto é, não devemos desejar-lhes mal algum, nem nos alegrarmos com algum mal que lhes suceda. Mesmo sendo nossos inimigos, não deixam de ser filhos de Deus e de terem sido chamados à bem-aventurança; odiá-los seria um pecado, é  incompatível com o amor de Deus.

Não podemos vingar-nos deles, isto é, não podemos retribuir o mal com o mal, pois essa intenção deriva do ódio ou de outro motivo desordenado. Em teoria, é permitido desejar algum mal, algum tipo de punição ou sofrimento a eles, mas apenas se formos motivados por motivos de justiça ou de caridade genuína – isto é, para por um freio ao malfeitor e restaurar a ordem da justiça, ou para ajudá-lo a corrigir-se e a voltar-se para Deus. Mas, na prática, em razão da nossa fraqueza, é muito difícil agir baseado puramente nesses motivos. Portanto, é melhor abster-se de desejar mal a qualquer um.

Somos obrigados a dar aos nossos inimigos os sinais comuns de caridade dados a qualquer homem (por exemplo, responder a um cumprimento ou a uma pergunta) ou a aqueles que estão em condições específicas (por exemplo, ser misericordioso com os pobres).

Dentro de certas circunstâncias extraordinárias, quando certos sinais especiais de caridade são devidos pois sua omissão ou negação seria interpretada como ódio ou inimizade, podemos estar até mesmo obrigados a mostrar sinais especiais de caridade que não seriam devidos a qualquer pessoa (ou seja, aqueles que não são exigidos por sua condição, estado ou pelos costumes), mas dados por liberdade e numa amizade especial.

Somos obrigados a perdoar nossos inimigos, pois não fazer isso nos levaria de volta ao ódio da inimizade – mas não somos obrigados a aceitá-los novamente como amigos e a dar-lhes os sinais de afeição que antes dávamos.

Finalmente, o ofensor é obrigado a buscar reconciliação o quanto antes. Mas ele está isento disso se tiver certeza moral de que terá o perdão negado, ou que vai aumentar ainda mais a tensão entre as partes, ou se o ofendido não estiver disposto a aceitar nada além da total humilhação do ofensor.

O uso de armas nucleares em tempos de guerra pode ser justificado?

Os princípios tradicionais da moralidade católica expressamente proíbem todo e qualquer uso de armas nucleares em tempos de guerra. A razão para isso é que, como os autores dizem, assassinar inocentes é um ato ilícito e imoral que não pode ser justificado pelo objetivo de vencer a guerra. Os não-combatentes, isto é, aqueles que não contribuem direta ou indiretamente para o sucesso dos atos de guerra do inimigo, devem ser considerados como inocentes. Atacá-los diretamente por qualquer razão, como abalar o ânimo da nação, é um ato imoral. Entende-se que a morte de inocentes pode, ocasionalmente, acontecer como um efeito colateral da guerra, mas não como um efeito primário, diretamente buscado. Nesse caso, não é imoral, mas desde que não seja algo desejado, mas apenas um efeito colateral inevitável de uma ofensiva agressiva ou do bombardeiro de alvos militares.

Porém, as armas nucleares provocam destruição em massa de populações civis inteiras e não podem ser utilizadas para atacar alvos militares isoladamente. Portanto, a morte de civis inocentes e de não-combatentes não é um mero efeito colateral: é o que se busca diretamente. Isso é manifestamente imoral, não importando que a guerra seja justa.

Essa realidade deve, porém, ser modificada em razão da natureza dinâmica da guerra no mundo moderno. Surgiu uma nova forma de barbarismo que responde pelo nome de “guerra total”. Desde a Guerra Civil Americana, as guerras modernas não têm sido um simples conflito entre combatentes de ambos os lados, e essa realidade tem aumentado de maneira cada vez mais intensa. Todos os recursos de um povo passaram a ser direcionados para a guerra e para a destruição total do inimigo, incluindo a indústria, a educação e toda a infraestrutura de uma sociedade. Esse conceito de guerra é manifestamente imoral e não pode, de maneira alguma, ser usado para justificar a morte de inocentes ou de não-combatentes.

A dificuldade surge quando uma nação inimiga passa a empregar a técnica da guerra total. Pode acontecer de a única maneira de se defender contra um agressor injusto em uma guerra imoral como essas seria responder à altura, alocando todos os recursos do país e atacando os alvos civis do inimigo (cf. Fagothey, Right and Reason, p. 572). A justificativa para essa resposta seria que, nesse caso, não existem não-combatentes e que, como a população inteira está envolvida na atividade de guerra inimiga, então todos podem ser alvos de agressão para autodefesa. Apesar disso poder ser admitido como uma possibilidade teórica, seria uma decisão extremamente difícil de se tomar.

Consequentemente, pode-se imaginar uma situação na qual a morte de um grande número de civis através do uso de armas nucleares poderia ser justificado através do princípio do efeito duplo, ou seja, como um meio necessário para se vencer uma guerra justa. Porém, mesmo nessas circunstâncias, teria que haver uma razão proporcional ao mal que a morte de inocentes representa, a saber, o bem desejado. Meu ponto é que, no mundo moderno, essa razão proporcional jamais poderia ser imaginada. O uso de uma arma nuclear acarreteria o uso de outras armas nucleares pelo inimigo ou por seus aliados, e um ciclo de destruição inacreditável seria criado, o que faria a situação geral ser um mal muito maior do que mesmo perder uma guerra justa.

Consequentemente, parece-me que, ainda que se conceda a possibilidade teórica de a guerra total ser respondida com uma guerra total, na prática, o uso de armas nucleares jamais seria permitido.

É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.

 

— Pe. Scott, Maio de 2003.

Einstein e o padre

 

Por Pe. Frank Riccomini FSSPX

Uma ironia ecoará através dos séculos: no início de sua carreira profissional (circa 1900), Albert Einstein, o brilhante físico teórico, estava desempregado e não conseguia encontrar um cargo de professor em nenhuma escola ou universidade da Suíça, nem mesmo para lecionar matemática no ensino médio. Dotado da fundada reputação de inconformista, algo imperdoável para a sociedade suíça e para a academia, foi prontamente barrado das salas de aula e da cátedra. Foi, portanto, na condição de gênio proscrito e menosprezado, que ele teve de se apertar em um escritório de examinador de patentes de terceiro escalão, no centro de Berna, onde dedicava oito tediosas horas do dia a inspecionar pedidos de patente, a maioria dos quais propunha maneiras de sincronizar os relógios da estação de trem. Talvez tenha sido nessa exígua parte do universo que concebeu o pensamento que tantas vezes lhe atribuem: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; mas não tenho certeza sobre o universo.”

 

Um estado de espírito humilde

A condenação ao escritório de patentes foi na verdade uma ajuda preciosa. Além de lhe proporcionar comida para o seu prato e um teto para sua cabeça, duas necessidades vitais que corria o risco de perder, o trabalho colocava-o em um estado de espírito mais humilde, mais apto à concepção de grandes descobertas. Concretamente, fez com que adquirisse o hábito mental de contrastar objetos em movimento, como trens, com objetos estacionários, como relógios, no contexto de “experiências mentais” com o espaço-tempo. Isso, numa mente como a sua, eclodiu um desígnio muito mais impactante do que zelar pela pontualidade dos trens: inspirou sua teoria especial da relatividade, mais tarde expandida para uma teoria geral da relatividade, idéia tão brilhante e revolucionária que, sozinha, descarrilou o trem newtoniano, uma linha de raciocínio sobre o mundo físico que vinha correndo regularmente por quase três séculos, com grande número de passageiros. Esta mudança cósmica e revolucionária tornou-se tão popular que, antes que completasse seis anos, já mais de 600 livros e artigos tinham sido escritos. Muito antes que o Twitter e o YouTube revolucionassem ainda mais o universo, tornou-se “viral”, por assim dizer; tornou-se o assunto favorito da gente comum, como garçons e atrizes.

Após a publicação de sua teoria, junto com as elegantes equações matemáticas que a demostravam possível, seguiu-se um esforço frenético dos cientistas experimentais para reunir evidências que a provassem “factual”. Fora do turbilhão de convulsiva atividade científica, caracterizada pelos escritos, pela personalidade e, posteriormente, pelos cabelos de Albert Einstein, surgiu-lhe um complemento clerical, menos conhecido e mais apresentável que o gênio alemão: o padre de fala mansa e brilhante, belga de nascimento, Georges Lemaître. Sua própria formação acadêmica como matemático, astrofísico e cosmólogo teórico o levou a estudar e desenvolver algumas dessas equações einsteinianas, de modo a criar uma peça especial e distinta da história científica. Aplicando a lógica da teoria matemática, acompanhada de mudanças observáveis ​​no espectro de luz que circunda as galáxias muito distantes, ele calculou que o universo está num contínuo estado de expansão a partir de um único ponto, ou singularidade ― a “hipótese do átomo primordial”, como ele a chamou, mais tarde difundida sob o nome de “teoria do Big Bang”, como pejorativamente apelidaram os cientistas que a desprezavam (Einstein entre eles), e hoje popularizada por um programa televisivo homônimo que a glorifica, mas numa versão distorcida.

As origens profissionais de Lemaître eram mais auspiciosas que as de Einstein. Formou-se cedo no ensino médio, tendo diante de si a perspectiva do sacerdócio, e dentro de si um grave pendor para a ciência. Embora a Grande Guerra tenha adiado um e outro objetivo, o serviço militar o ajudou a desenvolver suas qualidades morais mais profundas. Servindo com grande coragem e distinção durante a resistência belga, recebeu três menções pessoais por ato de bravura e ganhou a honraria militar equivalente, em seu país, à “Silver Star” americana 1. Após a guerra, começou seus estudos para o sacerdócio sob a orientação do Cardeal Mercier, que, para todos os belgas, personificara a resistência nacional ao invasor alemão, e que, para o jovem ex-soldado, desempenhou o papel de diretor espiritual em um tipo diferente de guerra. É que o Cardeal Mercier, um gigante entre os educadores católicos, cuidou das aptidões tanto espirituais como intelectuais do seu talentoso aluno. Em 1923, Lemaître recebeu as Sagradas Ordens das próprias mãos de seu diretor e, graças ao seu apoio pessoal, ganhou uma bolsa de estudos para estudar astronomia no St. Edmund's College, Cambridge. Um ano depois, transferiu-se para Harvard e, no ano seguinte, para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde em 1926 obteve seu doutorado. Finalmente, em 1927, publicou sua famosa teoria do universo em constante expansão. Infelizmente, não foi muito conhecida: o jornal em que foi impressa nunca ultrapassou as fronteiras da Bélgica, nem foi traduzida da língua francesa.

 

Uma importante reunião

Em outubro de 1927, o Pe. Georges Lemaître encontrou-se com o Dr. Albert Einstein pela primeira vez. Ambos, bem como Marie Curie, Niels Bohr, Max Born, Erwin Schrödinger e outros famosos físicos da época, foram convidados para o Quinto Congresso de Física de Solvay, em Bruxelas. Os organizadores provavelmente convidaram Lemaître por influência de Théophile de Donder, fundador da Université Libre de Bruxelles. Também fora graças a ele que, quatro anos antes, Lemaître recebera sua bolsa de estudos em Cambridge. Foi de Donder ou Arthur Eddington, professor de Lemaître em Cambridge e intérprete de Einstein, que fez com que Einstein lesse o engenhoso artigo de Lemaître. Isso, por sua vez, precipitou a primeira reunião do físico alemão e judeu não praticante com o cosmologista belga e ardoroso sacerdote católico, na famosa caminhada pelo Parc Léopold em Bruxelas, onde Einstein, com sua sumária franqueza, disse ao jovem padre que, apesar dos seus cálculos matemáticos estarem corretos, “do ponto de vista da física, essa teoria é abominável”.

Por mais violenta que fosse (alguns diriam rude e repreensível), essa reação manifestava um traço relevante e humano do caráter de Einstein: às vezes suas “crenças” eram ainda mais fortes que sua ciência. Ao que parece, embora fosse um pensador revolucionário, Einstein sempre lamentou a devastação causada à física newtoniana clássica2 por sua teoria da relatividade e por outras especulações no campo da física quântica. A concepção de universo estável foi uma das últimas características até então intocadas no familiar e tradicional mundo newtoniano, e Einstein não pôde suportar a idéia de vê-la desfigurada em conseqüência de seu próprio trabalho. Em seu livro Einstein, Sua Vida e Universo, Walter Isaacson revela que, de certa forma, o eminente físico sentiu-se isolado de alguns de seus discípulos mais fervorosos e até mesmo de significativa parcela do mundo científico, não apenas porque se elevou acima deles como uma celebridade no mundo científico, mas porque jamais poderia aprovar o entusiasmo com que desdenhavam da física clássica, entusiasmo esse que, reconhecia ele, suas próprias descobertas serviram para inflamar. De fato, para Newton, a quem Einstein tinha idolatrado desde a infância, o físico alemão emitiu um pedido público de desculpas durante uma palestra, e mais tarde, ao escrever suas memórias, dirigia-se a ele da mesma maneira: “Newton, me perdoe. Você encontrou o único caminho que, no seu tempo, era possível para um homem do mais alto pensamento e poder criativo.” Experimentou ele o desejo cheio de remorsos de expiar o desrespeito ao seu herói de toda a vida? Nesse caso, quem era esse jovem padre de 33 anos que se interpunha com sua teoria ridícula no caminho da sua expiação?

Se nenhuma dessas motivações — quer tradição, quer expiação — fosse convincente o bastante para Einstein, ele ainda tinha outra razão para rejeitar Lemaître… uma razão surpreendentemente teológica. É verdade que já fazia pelo menos dois séculos que sua ascendência judaico-germânica, não observante, de nada se enaltecia que tivesse o mais remoto traço de religião; e é também verdade que Einstein havia declarado convicta incredulidade em qualquer “Deus pessoal que se preocupa com o destino e ações dos seres humanos”. No entanto, foi só quando compreendeu o universo como expressão de Deus que Einstein pôde melhor admirá-lo. A Max Born, colega alemão obcecado na idéia de aleatoriedade essencial na física quântica e ausência de causalidade na natureza, ele retrucou piedosa e sensatamente: “Deus não joga dados!” Isaacson observa, além disso, que Einstein foi influenciado por Spinoza, um dos poucos filósofos que leu e apreciou, e por sua perspectiva da “vontade eternamente fixa de Deus”, uma noção fixa e estável, naturalmente refletida em um universo fixo e estável, ao contrário de um universo dinâmico e em expansão. Sendo esse o caso, quem era esse jovem sacerdote de 33 anos, dentre todas as pessoas do mundo, para desafiar suas convicções com uma teoria ridícula?

 

Firmeza sim,  desânimo não

Por sua parte, felizmente, o Pe. Lemaître não desanimou. Talvez sua experiência durante a Grande Guerra o tenha preparado para investidas teutônicas e irracionais. Talvez algum instinto mais sacerdotal o tenha advertido de um conflito moral dentro da alma do gênio alemão. Certamente, sabia melhor que Spinoza da beleza e dinamismo da vontade criativa de Deus. De todo modo, manteve-se firme e esperou ocasião mais oportuna para conquistar a “bênção” de Einstein.

Felizmente, alguns amigos organizaram uma nova conversa. Nesse segundo round, Lemaître ficou surpreso ao saber que Einstein não parecia muito bem informado sobre alguns dados astronômicos de certas galáxias, usados por Lemaître para dar peso à sua teoria. Não há registro exato de como a conversa transcorreu a partir daí: não sabemos se Einstein estava disposto a ceder naquele momento, se houve uma reconciliação intelectual em privado. O que é certo, e público, é que o encontro seguinte foi excepcionalmente dramático. Nesse terceiro encontro, alguns anos depois, o mundo inteiro veio a saber que Einstein mudara de opinião. Em um gesto simples, espontâneo e magnífico, Einstein, que nunca se esquivava de participar de momentos históricos, criou o “material das lendas” dos livros de história de ciência e da religião. 

Em janeiro de 1933, durante uma série de conferências organizada em Pasadena, na Califórnia, agraciada pela augusta presença do principal cientista do mundo, mais uma vez o Pe. Lemaître expôs seu conceito de universo em expansão. O autor Mark Midbom, em A Day without Yesterday, descreveu o que aconteceu em seguida: “Depois que o padre belga detalhou sua teoria na íntegra, Einstein levantou-se, aplaudiu e disse: ‘Esta é a mais bela e satisfatória explicação da criação que eu já ouvi’.”

Se postulássemos uma teoria, não científica, mas psicológica, para explicar a aceitação de Lemaître por Einstein, seria a seguinte: a teologia unidimensional de um cientista foi ajudada pela ciência perspicaz de um padre. Isso só mostra que a ironia não se mede em relação à sua posição ou à rapidez com que as coisas se movem. Einstein pode ter depositado considerável fé na estupidez da humanidade — quem poderia culpá-lo? — mas tinha sabedoria e humildade para não se colocar fora dela. Como freqüentemente declarava, “não tenho certeza sobre o universo”. De acordo com o amigo e colega físico George Gamow, Einstein qualificou suas antigas tentativas de rejeitar o universo em expansão como “o maior erro da minha vida”. Quanto ao Pe. Lemaître, ignora-se se ele deu novas conferências sobre o assunto.

 

(Tradutor: Fábio Almeida e Sousa. Exclusivo para Permanência)

  1. 1. A “Estrela de Prata” (em inglês,“Silver Star”) é uma das condecorações militares mais altas dos Estados Unidos da América. [N. da P.]
  2. 2. Aqui é preciso prudência. A “devastação” citada pelo autor deve-se à impulsividade de alguns cientistas de espírito iconoclasta e ao sensacionalismo da imprensa para com as Teorias da Relatividade de Einstein. A famosa “concupiscência por coisas novas”, que criou um falso embate Newton X Einstein. A física Newtoniana continua plenamente válida para aplicações convencionais em que não temos que lidar com velocidades, espaços e gravidades astronômicas. [N. do T.]

1517 d.C. - A Catástrofe protestante

“Mesmo se derramássemos todo o Rio Elba em lágrimas, não seria o suficiente para lamentar os desastres da Reforma: é um mal sem solução”. Por mais estranho que pareça, essas palavras não foram ditas por um católico, mas por Filipe Melâncton, amigo de Lutero e um dos principais realizadores da Reforma. O próprio Lutero, pouco antes de morrer, escreveu sobre a mágoa que sentia a respeito do caos e da proliferação das seitas propagadas por seus ensinamentos: 

“Devo confessar que minhas doutrinas produziram muitos escândalos. Não posso negá-los, e isso me assusta, especialmente quando minha consciência traz-me a lembrança de que destruí a situação na qual a Igreja se encontrava, calma e tranquila, sob o papado”.

Se até mesmo alguns líderes protestantes chegaram a ter essa percepção sobre a Reforma, não espanta que os católicos a vejam como uma verdadeira catástrofe. O historiador Paul Johnson chamou-a de “uma das maiores tragédias da história, e a tragédia central do cristianismo”. Ela foi uma catástrofe e um castigo para a Cristandade; um desastre levado até as últimas conseqüências, pois foi o apogeu de uma série de castigos sem precedentes, desatrelados no curso dos dois séculos anteriores.

Duzentos anos antes de Lutero pregar suas famosas teses em 1517, o primeiro dos castigos que demoliriam a civilização medieval já havia sido lançado: a grande fome de 1315 a 1322, que causou muitas mortes no norte da Europa, onde algumas áreas tiveram uma taxa de mortalidade de 10%. No mesmo século, houve sete outras grandes fomes no sul da França.

Desastres ainda piores vieram em seguida. Menos de trinta anos depois, a Peste Negra, a maior pandemia que o mundo já viu, tirou a vida de milhões. Iniciou-se a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra, e o papado enfrentava uma série de adversidades, entre elas o Papado de Avignon, o Grande Cisma do Ocidente e a heresia do conciliarismo (que reivindicava para os concílios uma autoridade maior que a do papa). Como se já não bastasse, um novo grupo muçulmano, os turcos otomanos, invadiu o sudeste da Europa em 1354.

Por que Deus parecia estar punindo a Europa de Santo Tomás de Aquino e São Luís, de São Gregório VII, São Francisco de Assis e tantos outros grandes santos católicos? É claro que historiadores seculares negam que os desastres dos séculos XIV, XV e XVI tenham sido castigos divinos. Para eles, as coisas na história simplesmente acontecem, sem qualquer plano ou desígnio superior. Mudanças climáticas ocorrem periodicamente, guerras simplesmente estouram, epidemias podem se espalhar a qualquer momento. Para eles, o trabalho do historiador consiste apenas em analisar e registrar os acontecimentos e não buscar neles algum significado transcendente. O historiador católico, porém, vê a história como a ação de Deus no mundo em que Ele se encarnou. Para isso, Deus utiliza-se de instrumentos humanos, e nem sempre é fácil notar de que modo e em que lugar opera a Sua mão. 

Mas podemos examinar as pistas. Com efeito, desastres e catástrofes aparentam ser respostas de Deus a ações imorais. Por isso, enquanto o historiador secular considera a catastrófica dissolução da civilização medieval como um mero fenômeno interessante, eu me inclino a considerá-la um castigo. Mas um castigo contra o quê, visto que a era precedente parecia tão dedicada às coisas de Deus e à Sua Igreja?

 

A frieza

São Francisco de Assis já havia notado algo errado em sua época, o começo do século XIII. Apesar da impressão que se tem do século XIII como uma época fervorosamente devota, Francisco a via como uma nova “era do gelo” para a espiritualidade. “A caridade”, dizia ele, “congelou”.

Como é possível, no século em que o Papa Inocêncio III ordenara a internação gratuita dos pobres nos hospitais de todas as grandes cidades, no período em que até mesmo reis e duquesas se dispunham a cuidar dos doentes, em que se fundaram novas ordens para pregar, ensinar, curar e redimir prisioneiros? 

É evidente que São Francisco, ao utilizar a palavra “caridade”, não se referia somente aos trabalhos de misericórdia corporal — embora estivesse profundamente empenhado neles — mas pensava antes de tudo naquele terno amor por Deus, ordenado pelo que Nosso Senhor chama de “o primeiro e maior” dos mandamentos. Era o amor a Deus que havia esfriado. (Vale a pena observar que Dante, ao escrever na entrada do século XIV, representou as punições dos recantos mais profundos do inferno não com o tradicional fogo, mas com gelo).

A coleta da Festa dos Estigmas de São Francisco de Assis, em 17 de setembro (Missal Tridentino), se refere a esse crescente esfriamento:

Senhor Jesus Cristo, que no meio da indiferença do século Vos dignastes, para reacender os nossos corações no fogo da Vossa caridade, gravar na carne do bem-aventurado Francisco os estigmas da Vossa paixão, concedei-nos, por seus merecimentos e intercessão, a graça de sempre levar a cruz e produzir frutos dignos de penitência.

Outro sinal desse esfriamento espiritual é o fato de que o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, viu-se obrigado a exigir o recebimento da Sagrada Comunhão ao menos uma vez por ano, sob pena de pecado mortal. O fato de que a expressão central da devoção católica — sem mencionar o inefável privilégio — precisasse ser transformada em obrigação em vez de ser naturalmente considerada uma alegria, mostra-nos uma vez mais como o fervor religioso havia diminuído. É claro que Deus não responde ao pecado somente com castigos, ele também envia graças especiais. Aqui, encontramos Deus se revelando de maneira extraordinária a duas almas santas desse mesmo século: Ele deu à bem-aventurada Juliana de Liège a missão de promover a Festa de Corpus Christi, para reviver a devoção ao Santíssimo Sacramento; e a Santa Gertrudes, no final do século, Ele revelou o Seu Sagrado Coração.

 

A sociedade medieval e o desenvolvimento do comércio

A questão permanece: o que causou essa diminuição do fervor e o crescimento da frieza, mesmo no século que parece ser o mais católico de todos? Alguns culpam as heresias que colocavam em dúvida a verdadeira presença de Cristo na Eucaristia. Todavia, a maioria delas havia fracassado e não trouxe muitos danos, embora tenha sido necessário o uso de grande força militar para reprimir a bizarra seita dos cátaros, que florescia no sul da França e em partes da Áustria e Itália. O ensinamento cátaro de que toda matéria era produzida por um espírito maligno atacava implicitamente o culto ao Corpo de Cristo no Santíssimo Sacramento. No século XIII, contudo, as heresias ainda não tinham a grande influência que viriam a ter mais tarde dentro da Cristandade; ainda não chegara o seu momento. As heresias medievais, portanto, não foram a causa principal do crescimento da frieza, tampouco a corrupção que existia em certas áreas do clero.

Logo, deve haver outro elemento envolvido no enfraquecimento da fé e do amor na Idade Média Plena, e o ambiente no qual São Francisco cresceu nos dá uma pista dele. Seu pai era um próspero comerciante de tecidos e residia numa movimentada cidade-Estado, num tempo em que a atividade comercial crescia por toda a Europa. Por si só, isso não foi algo ruim. Comerciantes e associações de artífices operavam sob princípios cristãos, prestando serviços sociais aos seus membros, regulando a qualidade do trabalho, pagando salários dignos e cobrando preços justos. Gradualmente, porém, aumentava a complexidade dos negócios e o individualismo dos comerciantes; no século XIII, ganhar dinheiro tornou-se uma preocupação muito maior do que nos séculos anteriores.

Um medievalista francês observou que embora o povo do começo da Idade Média pudesse ser ganancioso, ao cobiçar terras, prestígio, poder, entre outras coisas, o que ele vê no período final da Idade Média é diferente. É o crescimento da avareza: o amor pelo dinheiro. Enquanto a cultura dos negócios crescia rumo ao que por vezes se chama protocapitalismo, os corações católicos se mostravam cada vez mais divididos entre Deus e o mundo. Um mercador do século XV escreve no topo do seu livro de contabilidade: “Em nome de Deus e do lucro”. Como observa outro historiador da Idade Média Tardia: “Começou-se a manter dois tipos de condutas: uma voltada para o lucro e a outra voltada para Deus”.

Nosso Senhor afirma claramente: “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Daí a pobreza radical esposada por São Francisco: Deus enviara um santo que dizia aos católicos o que estava errado e o inspirara a lhes ensinar o remédio. Ao que parece, os ensinamentos de São Francisco não foram suficientemente praticados. A ordem franciscana cresceu rapidamente, e as massas ouviam os frades pregarem. Governantes santos como Isabel da Hungria e Luís de França entraram para a Ordem Terceira franciscana. Porém, tudo indica que esse grau de conversão não satisfez os pedidos de Nosso Senhor.

É difícil acreditar que essa crescente preocupação com lucro não teve efeitos sobre a vida espiritual dos habitantes cada vez mais ocupados das cidades do século XIV. O amor pelo dinheiro talvez não impeça que uma alma ame a Deus, mas pode facilmente destruir o ardor espiritual, o gosto pela contemplação, pelas devoções e o zelo pelos trabalhos de caridade. As crônicas nos contam que mesmo depois da Peste Negra, as pessoas não se tornaram menos avarentas, muito pelo contrário. As heresias que brotaram naquele momento, de algum modo, causaram mais danos e fincaram raízes mais fortes nas mentes do que as heresias anteriores; as ideias heterodoxas de John Wycliffe na Inglaterra e Jan Hus na Boêmia duraram bastante nos seus países de origem. Tudo isso, além dos problemas que prejudicaram o papado e neutralizaram sua resistência aos males da época, havia debilitado as almas dos católicos comuns, tornando-os mais vulneráveis aos heresiarcas do século XVI.

 

Subversão do pensamento

Quanto aos intelectuais, muitos haviam sido influenciados ao longo dos séculos XIV e XV pelas novas ideias de Guilherme de Ockham, cuja filosofia do nominalismo subverteu a grande síntese escolástica entre fé e razão, ao destruir sua fundação filosófica no realismo aristotélico. Ockham defendia que a mente humana é capaz de conhecer coisas individuais, mas não conceitos universais (defendidos pelos realistas), ou seja, não se pode conhecer Deus pela natureza; algo que é verdadeiro pela fé não o deve ser pela razão, e vice-versa. Esses são apenas alguns pontos de um amplo e complexo pensamento, mas eles já indicam uma mudança radical na mentalidade: da confiança dos medievais e clássicos no uso da mente, para o pessimismo teológico e filosófico. 

A perda de confiança na possibilidade de que a razão pudesse demonstrar a existência de Deus, e a ideia das “duas verdades” (uma de fé e outra da razão) geraram incerteza teológica e até mesmo futilidade. O nominalismo tornou-se popular entre círculos reformistas; é até possível que tenha sido o motivo de Lutero se voltar inteiramente contra a razão: “A razão é a prostituta, sustentáculo do Diabo”, escreve ele. “O Batismo deve eliminá-la”. 

O Renascimento do final do século XV e do século XVI desferiu o derradeiro golpe na estrutura cambaleante da civilização medieval. O individualismo, já alimentado pela nova cultura dos negócios, tornou-se um verdadeiro culto para escritores como Pico della Mirandola, que glorificava o homem de uma maneira nunca antes vista em cultura alguma, incluída aí a dos gregos e romanos. Outros exaltavam o “indivíduo heroico”, enquanto Maquiavel, com o seu infame mote “os fins justificam os meios”, conseguiu ser o mais imoral de todos os que estavam determinados a manter sua posição e poder. As ideias desses homens representavam a antítese do pensamento medieval, que valorizava a coletividade em vez do individualismo, a humildade em vez do orgulho e a moral católica em todas as áreas.

 

A revolta seguinte

Esses elementos não representam as causas inevitáveis do desastre conhecido como Reforma Protestante, mas contribuíram para favorecer sua emergência. A frieza espiritual, a preocupação excessiva com os afazeres mundanos, o individualismo, a exposição a diversas noções heréticas e a corrupção generalizada do pensamento (o que prejudicou a relação entre fé e razão): todos esses elementos contribuíram para deixar as mentes confusas e as almas indefesas perante o tsunami que estava prestes a atingi-las. 

Aqui já podemos notar a diferença entre essa análise e a versão convencional sobre as origens da Reforma. O mito da Reforma é descrito da seguinte maneira: No século XVI, a Igreja Católica havia se tornado mundana e corrupta. O clero era imoral, os mosteiros eram fossas de iniquidade e se praticava a compra e venda de coisas santas. A situação era intolerável por toda parte, todos sentiam que alguma medida precisava ser tomada. Havia uma insatisfação generalizada contra a Igreja Católica, e um grande anseio por uma religião mais simples, fiel aos Evangelhos e que colocasse as pessoas em contato direto com Deus. Por fim, um corajoso padre alemão, Martinho Lutero, revoltado com a venda de indulgências, indignou-se e protestou publicamente. Esse foi o começo de uma grande renovação do cristianismo, inevitável e historicamente necessária.

A maioria dos protestantes, evidentemente, tem aceitado esse enredo, e até mesmo historiadores católicos aceitaram partes dele, talvez intimidados com a difusão universal do mito nos livros didáticos e nas universidades. A verdade, porém, é muito diferente.

Em 1991, a Oxford University Press publicou uma revisão do assunto feita por Euan Cameron intitulada The European Reformation. É um resumo excelente e erudito sobre a Reforma, e inclui uma investigação das pequenas seitas e das práticas religiosas do povo comum. Contribuiu muito para desmantelar os elementos do mito reformista. A respeito da afirmação de que a corrupção no clero inflamou entre o povo um clamor generalizado por reforma, Cameron diz o seguinte:

Antes do ano 1500, padres extravagantes ou libertinos vinham sendo reprimidos em sermões havia pelo menos 150 anos. São Bernardo de Claraval, já no ano 1150, escrevia severamente contra a avareza no clero. A respeito de vícios e ambições políticas, João XII (955-964) ultrapassou facilmente o Papa Alexandre VI. Se os problemas eram antigos, também eram as críticas. Mas, os agitadores “reformistas” do ano 1500 pensavam que sua época era um tempo de declínio catastrófico, precedida por séculos de primordial piedade. É preciso que esse mito seja visto somente como mais um clichê.

Uma abordagem como essa traz novos ares para os estudos sobre a Reforma. Males existiam e sempre existiram. Os católicos comuns não esperavam que o homem — com sua natureza corrompida — fosse perfeito, e não mudariam da indignação com as “maçãs podres” dentro do clero para a ideia de que a própria Igreja devia ser fragmentada. Não há evidências de que a maioria dos católicos sequer quisesse que a Igreja ensinasse algo que já não fizesse antes. Muitos estavam conscientes da necessidade de reformas institucionais, para garantir, por exemplo, que os bispos fizessem seu trabalho adequadamente e que os padres fossem corretamente educados. Com efeito, o Quinto Concílio Geral de Latrão, realizado de 1512 a 1517, incluiu entre os diversos temas a serem discutidos a necessidade de reformas. O seu foco principal, porém, foram as questões políticas urgentes, e o seu trabalho foi dificultado pelas rivalidades entre alguns participantes. Talvez tenha sido uma última chance dada à Igreja para que respondesse com vigor à apatia e ao materialismo dentro do clero; pouco depois, naquele mesmo ano de 1517, era tarde demais, pois Lutero havia entrado em cena.

Ao analisar as origens da Reforma, é preciso lembrar também que grande parte da Europa não cedeu às suas ideias. Onde a Reforma de fato ocorreu, observa Cameron, o seu êxito estava ligado à prática de submeter o dogma ao debate público. Em lugar da verdade revelada por Deus, convidavam-se as pessoas a escolher aquilo em que desejavam acreditar. Nessas áreas, contudo, a religião misturou-se com a política. O historiador Carlton Hayes diz: “O protestantismo foi o aspecto religioso do nacionalismo”. Segundo Cameron: “A Reforma deu a muitos grupos da Europa as primeiras lições sobre o comprometimento político com uma ideologia universal. No século XVI, a religião se tornou política de massa”. 

 

Três “reformistas”: Lutero, Calvino e Henrique VIII

Não discutirei aqui em detalhes as posições teológicas dos fundadores das três novas religiões criadas na Reforma. Além da falta de espaço, seria inútil falar sobre a “posição teológica” de um homem como Henrique VIII. As principais novidades ensinadas pelos heresiarcas se encontram em diversas obras católicas conceituadas. Em todo caso, minha preocupação é menos com as complexidades teológicas do movimento herético do que com a questão de por que ele obteve sucesso. Irei simplesmente apontar algumas características do novo ensinamento protestante que parecem ter agravado o enfraquecido estado espiritual em que grande parte da Cristandade já se encontrava: esfriamento da devoção a Deus, a Nossa Senhora e à Santa Eucaristia, preocupação excessiva com dinheiro e aumento do individualismo. Até mesmo o abuso que levou Lutero a apregoar publicamente suas novas ideias religiosas — que ele já havia desenvolvido — era o tipo que interessava à sua época: a venda de indulgências.

 

A questão das indulgências

Essa afronta causou escândalo na época, e embora o Papa Leão X (Giovanni di Lorenzo de Médici) a tivesse ordenado, algumas autoridades da Igreja não a permitiam em suas dioceses. Leão — que queria dinheiro para a construção da nova basílica de São Pedro — e um arcebispo alemão endividado com jogos reuniram forças para implantar a venda de indulgências (reduções das punições temporais decorrentes do pecado, inclusive os pecados dos indivíduos que estão no purgatório). O famoso verso citado por Tetzel, “Assim que soa a moeda no fundo do cofre, sai do purgatório a alma que sofre”, talvez seja um pouco exagerado, mas sintetiza o objetivo da campanha: venda por atacado de benefícios espirituais em troca de dinheiro.

Esse tipo de comércio imoral não era algo novo; há um vendedor de indulgências trabalhando de modo semelhante nos Contos de Cantuária, obra de Geoffrey Chaucher, do final do século XIV. O mais interessante é a razão de esse comércio estar ativo naquele momento. Não se pode imaginar a venda de indulgências sendo tão lucrativa sem que houvesse uma economia florescente e uma mentalidade receptiva da parte das classes endinheiradas. É certo que o comerciante, não propenso a adquirir as indulgências mediante orações e boas obras, e sem tempo para rezar por seus parentes falecidos, viu o mercado de indulgências como uma bênção. Dinheiro, tinha-o; tempo livre, não. Mais tarde, quando Lutero dizer-lhe que não existe a necessidade de indulgências e que, portanto, ele poderia guardar seu dinheiro, o comerciante ficará ainda mais feliz.

 

As ideias de Lutero se adaptam a uma era comercial e individualista

Podemos agora examinar as ideias de Lutero no contexto de sua época. A sua afirmação de que “somente a fé” é necessária para a salvação, por exemplo, casou bem com a época, ao livrar-se da necessidade daquelas penosas boas obras. (Lutero não disse que não se devia fazer boas obras; na verdade, ele disse que se devia fazê-las; mas é natural ao homem concluir que, se algo não é estritamente necessário para a salvação, pode ser deixado de lado). Lutero também disse que “o cumprimento dos deveres temporais é a única maneira de agradar a Deus”. Essa perda na ênfase da contemplação e da vida espiritual provavelmente contribuiu para o fechamento dos mosteiros e conventos na Alemanha e para a concentração em objetivos seculares, entre eles o comércio. Isso soou bem aos ouvidos dos burgueses do Sacro Império Romano-Germânico, e se adaptou bem ao espírito da época. Devemos relembrar que desde a Idade Média reis e autoridades se esforçavam incansavelmente para controlar as terras da Igreja dentro do império. Não é de admirar que seus descendentes tenham se encantado ao ver esses valiosos territórios, que seus ancestrais tanto haviam cobiçado, desprotegidos e sem poder de reação.

Outro ponto que casou bem com a época e que seduziu mentes cada vez mais individualistas foi o princípio de que somente a Bíblia era a regra de fé e que cada indivíduo podia interpretá-la sozinho.

Como observa um autor moderno, “o mandato divino de decidir o que era verdade e o que era heresia passou da Igreja — a quem pertencia — para o indivíduo”.

 

A teologia de Calvino prepara o terreno para os negócios

O pregador francês João Calvino concordava com Lutero em muitos pontos, mas enfatizou a doutrina que se tornaria seu cartão de visitas: a Predestinação Absoluta. Calvino acreditava que, desde a eternidade, Deus havia determinado algumas almas ao Céu e outras ao Inferno, e nada que um indivíduo fizesse poderia mudar sua sentença eterna. Era horrível ter de conviver com uma ideia como essa, e os primeiros calvinistas freqüentemente se angustiavam com a noção de que talvez estivessem condenados e que não podiam fazer nada a respeito.

A teoria, porém, fora de algum modo abrandada pela ideia de que se o indivíduo fosse um dos “eleitos”, sabê-lo-ia mediante alguns sinais de Deus. Acreditar nos ensinamentos calvinistas seria um desses sinais, assim como se comportar bem; mas o sinal mais seguro, porque mais objetivo, seria o de que os negócios mundanos da pessoa estavam melhorando. Isso se inspira no modo como Deus lidava com os hebreus no Antigo Testamento, recompensando-os com prosperidade material quando eles O agradavam.

 

Henrique VIII promove o cisma da Inglaterra

Diferentemente de Lutero e Calvino, Henrique VIII não pretendia criar uma nova teologia; ele queria apenas um divórcio, mas o papa não queria concedê-lo. 

Quando fez de si mesmo o chefe da Igreja na Inglaterra, rompendo com Roma, ele primeiramente criou um cisma, e não uma nova igreja. Contudo, mesmo antes de morrer, depois de ter passado por mais dois divórcios e ter executado duas esposas, seus colegas de ideologia protestante haviam começado a introduzir mudanças na liturgia católica.

Durante o reinado do sucessor de Henrique, surgiu a Igreja da Inglaterra. Era uma nova seita protestante que costurara remendos católicos com diversas ideias heréticas e uma forte associação à coroa e aos deveres patrióticos. Mais tarde, alguns calvinistas — sempre radicais e militantes — se tornaram muito influentes no país, a ponto de, no século XVII, conseguirem implantar uma revolução e executar o rei legítimo (Carlos I). Essa influência calvinista afetaria a sociedade e a economia tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, onde rebeldes puritanos fundaram as primeiras colônias da Nova Inglaterra em 1620 e 1630. As ideias calvinistas inglesas contribuiriam para moldar a perspectiva americana sobre a vida política, social e econômica. 

 

Os resultados

Conhecemos bem os resultados da Reforma. Criaram-se novas religiões hostis a Roma e, geralmente, submissas às novas monarquias sob as quais haviam emergido. A Cristandade foi fragmentada de modo irreversível, e a Igreja perdeu grande parte da Europa, a qual conseguira unificar a duras penas durante a Alta Idade Média. Os santos da Contrarreforma conseguiram recuperar alguns desses territórios e reformar os abusos na administração eclesiástica, mas grande dano já havia sido causado e grande parte da Civilização Ocidental permaneceria infestada com ideias protestantes. O Padre Frederick Faber, um convertido do anglicanismo, analisou diversos efeitos da mentalidade protestante nos católicos da Inglaterra do século XIX. “É difícil”, observa ele, “viver entre icebergs e não sentir frio”.

Em um de seus livros, ele aponta um dos resultados mais prejudiciais da convivência dos católicos com os descrentes:

As Sagradas Escrituras comparam a vida a uma terra cansada (...) Assim é com a religião. Não podemos viver entre descrentes e, ao mesmo tempo, gozar da brilhante vida espiritual dos que vivem nos tempos e regiões de fé. Os que passam a vida numa espécie de Éden doméstico, que deixariam senão com pesar, e convivem em demasia com os que não são filhos da Igreja, logo são prejudicados por estas relações, desde que vivam em paz com aqueles a quem nunca deveriam cessar de tentar converter. A fé, bem como a santidade, debilita-se e fenece no convívio de tal sociedade, cuja atmosfera não lhes é conveniente. Daí originam-se tantas opiniões estranhas sobre a facilidade da salvação para os hereges, indo até a baixeza de considerar a bondade de qualquer doutrina como medida de verdade. E bondade, entenda-se, não para com Nosso Senhor e a Sua Igreja, mas para com os que não estão ligados a Ele ou a Ela. 

Quem, hoje em dia, não tem na família ao menos um descrente, com o qual ninguém quer discutir, para não ter que perturbá-lo com incômodas questões religiosas?

O processo de mudança da civilização católica da Idade Média até a fragmentação do mundo cristão no século XVI pode se resumir da seguinte maneira: a cobiça e a mundanidade primeiro produziram indiferença às coisas de Deus, e o amor por Nosso Senhor esfriou. Quando nem sequer os numerosos santos que Deus enviou no século XIII puderam tocar os corações dos cristãos na medida que Ele desejava, a Europa sofreu os castigos da fome, da peste e da guerra. Conseqüentemente, os homens cresceram piores e não melhores. Até mesmo os papas foram punidos com cismas e heresias. O castigo seguinte, muito pior, foi a difusão de erros filosóficos e teológicos em toda a Cristandade por heresiarcas carismáticos e obstinados, pregadores de falsas doutrinas e ódio à Igreja.

Esse processo continua até hoje. Com efeito, o julgamento privado alcançou sua conclusão lógica no culto do homem moderno: a partir do conceito “todo homem é um papa” durante a Reforma, para a ideia de que “todo homem é seu próprio rei” no período revolucionário seguinte, chegando ao atual “todo homem é seu próprio deus”. É verdade que a Igreja da Contrarreforma, cuja ponta de lança foi o Concílio de Trento, reformaria abusos e conseguiria grandes vitórias. Papas exemplares a lideraram, e ela recebeu a graça de ser auxiliada por vários santos. O número total das legiões de almas que ela não pôde recuperar na Europa talvez tenha sido compensado pela conversão de milhões no Novo Mundo.

Entretanto, muito do que se perdeu nunca mais foi recuperado. A Igreja, no mundo moderno, tem permanecido na defensiva, e todos nós fomos afetados pela mudança do clima intelectual originariamente introduzido pela mentalidade protestante. 

 

Fonte: Dez datas que todo católico deveria conhecer, Castela Editorial, 2013.

Tradução de Gabriel Galeffi Barreiro

 

 

As duas democracias

Jean Madiran

I. A clássica e a moderna

Existem duas democracias, uma que nós designamos como clássica, outra moderna. Desta distinção reivindiquei, há mais de vinte anos, não tanto a propriedade, pois as idéias são de quem as adota e ninguém é dono delas, mas a responsabilidade inicial. Essa distinção foi proposta em nossos escritos anteriores, mas queremos completar alguns pormenores e retificá-la aqui e ali. 

A reflexão sobre esse tema tem nos acompanhado desde a mocidade, como também o tem a todos os da nossa geração que, se por um lado conheceram a democracia desde o berço, nunca a consideraram um fenômeno natural, um imperativo categórico, um fato definitivamente encerrado, mas antes como um estímulo incômodo ao pensamento político e à reação. Essa reflexão não ficou inerte, mas, desde o momento em que começamos a expô-la, as sucessivas modificações que sofreu não consistiram em variações doutrinais no tocante aos princípios, mas em desenvolvimentos mais ou menos empíricos quanto à sua formulação. 

Clássica é a democracia que sempre ou quase sempre existiu, e que igualmente poderíamos chamar, num sentido relativo, de eterna: ela é um modo de designação dos governantes. A designação dos governantes pelos governados, segundo diversos sistemas eleitorais, é algo que figura em todas as épocas da histórica, com maior ou menor extensão. Variam os tempos e os lugares, e sempre se elegeram bispos, reis, magistrados, presidentes, ditadores. O número e a qualidade dos eleitores variavam, pois sempre existiram regimes “mistos”, combinando em proporções diversas o sistema democrático com o sistema aristocrático. Quando aparece sem mistura, a democracia clássica consiste em não haver nenhuma autoridade política na cidade cujo titular não seja, direta ou indiretamente, designado por um tempo limitado pelos cidadãos, que são os eleitores. 

A democracia moderna funciona como a democracia clássica. Aparenta ser a mesma coisa, mas não é:

Em primeiro lugar, a escolha dos governantes pelos governos é tido como o único modo justo: sendo assim, os regimes não democráticos são tidos por imorais. Uma democracia assim não é mais um regime entre outros, que se pode preferir por razões de técnica, de oportunidade, de conveniência política, e que se pode consertar, limitar ou suprimir por razões da mesma ordem. Santo Agostinho ou Santo Tomás de Aquino, por exemplo, que só conheceram a democracia clássica, concebem facilmente a possibilidade de ela ser suprimida, e não vêem nisso qualquer problema de natureza moral: 

"Agostinho dá o exemplo seguinte no seu Tratado do Livre Arbítrio (I, 6). Se um povo for moderado, sério e zeloso da utilidade comum, a lei é justamente feita para que a tal povo seja lícito estabelecer os seus magistrados, que administrem a república. Mas se esse povo se torna paulatinamente depravado, a ponto de tornar o seu sufrágio venal e entregar o governo a homens escandalosos e criminosos, é justo cassar-lhe o poder de distribuir as honras, e transferi-lo ao arbítrio de uns poucos bons.”

Algo assim é tido como moralmente absurdo e contraditório para a democracia moderna, que se apresenta como um direito imprescritível, que não se poderia abolir sem grave injustiça. A democracia clássica, ao contrário, era uma instituição revogável, que se estabelecia ou se suspendia conforme os tempos, os lugares e as circunstâncias.

Para a democracia moderna, a justiça política é definida pela democracia, e a injustiça, pela ausência de democracia.

Em segundo lugar, a designação dos governantes pelos governados é o único fundamento da legitimidade. Sobretudo, é essa a razão por detrás daquilo que se disse antes. “O princípio de toda soberania reside essencialmente na nação” e “a lei é a expressão da vontade geral”, estipula a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, ato de nascimento da democracia moderna. Toda soberania, toda lei que invocar outro fundamento que não este, é tirânica. Nenhuma soberania, nenhuma lei, portanto, jamais poderá existir se não se fundar na vontade geral.

Assim, a democracia moderna pretende ser idêntica à democracia clássica, disfarça-se dela e recusa-se a distinguir-se dela — ela seria a verdadeira democracia. A designação dos governantes confunde-se com a sua legitimidade: a legitimidade funda-se na designação (democrática) e é uma só com ela.

Em terceiro lugar, a consequência: o poder democrático, na democracia moderna, se torna um poder ilimitado. Ele se torna assim de direito. Quando a legitimidade do poder tira todo o seu fundamento unicamente da designação de quem é chamado a exercê-lo, um tal poder é ilimitado de direito: quem ou o quê poderá limitá-lo? De fato, ele mantém certos limites, é contido pelos hábitos, pelas tradições, pelas realidades, pelas idéias contrárias, mas essas coisas são todas estranhas ao direito democrático (moderno), e tendem a ser suprimidas por uma contínua democratização da sociedade.

A sociedade é por natureza familiar, profissional, hierárquica. Na democracia moderna, o direito (novo) entra em conflito com a natureza: a democratização ilimitada é o progresso indefinido do direito, por uma evolução que desqualifica, desacredita e finalmente destrói as sociedades naturais.

*

Que a “lei” seja a “expressão da vontade geral” e nada mais, é uma grande novidade na história do mundo. A proclamação de 1789 não inventou a democracia, ela lhe deu um outro conteúdo. Ela impôs na vida política uma nova moral e um novo direito.

Sempre, em todas as civilizações até 1789 (e mesmo depois, mas então por sobrevivência cada vez mais frágil, cada vez mais implícita), a lei era a expressão de uma realidade superior ao homem, de um bem objetivo, de um bem comum que o homem traduzia, interpretava, codificava livremente mas não arbitrariamente. O legislador fazia o que estava ao seu alcance, nem sempre o que devia fazer: mas a sua função reconhecida era a de formular os grandes imperativos que não estavam para ser inventados, mas descobertos ou recebidos, como Moisés no Monte Sinai. A lei era a expressão humana da vontade de Deus sobre os homens, conforme à natureza que lhes deu, ao destino que quis para eles. Mesmo quando Deus era desconhecido, ou não reconhecido, a lei ainda era a expressão de uma justiça, de uma razão, de uma ordem superior às vontades humanas:

“Os teus decretos, ó Creonte”, declara Antígona, “não têm força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram!”

Assim, a legitimidade da lei, do poder e dos governantes residia na sua conformidade a essa ordem superior, e não numa designação regular dos magistrados e dos legisladores. Essa regularidade é uma legalidade que tem sua importância. Mas a legitimidade, isto é, a justiça, funda-se no bem comum, ou seja, no Decálogo ou, em outras palavras, em Deus. Os próprios pagãos, mesmo não possuindo um conhecimento muito claro, tinham ao menos um vivo sentimento disso. Foi uma dia terrível na história do mundo o dia em que os homens decidiram que, a partir de então, a lei seria “a expressão da vontade geral”, ou seja, a expressão da vontade dos homens; dia em que os homens decidiram dar-se a si mesmos a sua lei; data em que declinaram no plural o pecado original.

Pois, no singular, o pecado de Adão consistiu em querer ser para si mesmo a origem da própria lei, segundo a descrição clássica: “Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele, se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 5). Santo Tomás comenta: “[O] primeiro homem pecou, principalmente, desejando assemelhar–se a Deus pela ciência do bem e do mal, à sugestão da serpente. De modo que, por virtude da própria natureza, determinasse para si o que fosse bom e mau no agir…”; “… a fim de que, como Deus, que pela luz da sua natureza rege a todas as coisas, o homem, pela luz da sua natureza, e sem o socorro de uma luz exterior, pudesse reger-se a si mesmo…”.

Pecado fundamental; revolta essencial pela qual o homem quer estabelecer para si mesmo a lei moral, pondo de lado a que recebeu de Deus. Em 1789, essa apostasia tornou-se coletiva. Ela se tornou o fundamento do direito político. A democracia moderna é a democracia clássica em estado de pecado mortal.

 

II. A natural e a totalitária

Que os legisladores ou os governantes sejam designados pelo conjunto dos cidadãos, que estes adotem ou rejeitem, por sufrágio direto ou por meio de representantes eleitos, as leis positivas, isso não está em questão neste nível, que é o da justiça e da moralidade: pode-se proceder de um jeito ou de outro; pode-se discutir a esse respeito e mesmo lutar por isso, em nome de todas as particularidades históricas, geográficas, circunstanciais. Mas, quando se procede assim, é preciso ter clara consciência dos poderes que se reconhecem ao corpo eleitoral:

— ou bem se lhe pede designar os homens ou aprovar as leis positivas que lhes pareçam mais conformes à vontade de Deus — seja Ele direta, implícita ou mesmo inconscientemente invocado na procura por uma conformidade ao bem comum objetivo e superior aos homens;

— ou bem se lhe pede escolher os homens ou editar as leis mais conformes à sua própria vontade declarada universalmente soberana, e única soberana legítima.

A aparência pode ser a mesma, e é por isso que se confundem as duas condutas. Mas a realidade é bem distinta, e mesmo oposta.

*

Para passar da democracia clássica à democracia moderna, falou-se aos povos mais da aparência clássica do que da realidade moderna. Começou-se a lhes falar da democracia como se ela fosse apenas uma forma de governo mais evoluída, mais agradável ou mais digna que as outras. E ainda em nosso tempo, o dicionário Larousse define assim a democracia: “Forma de governo na qual o povo é considerado como exercendo a soberania”. Há uma nuance de ceticismo: “considerado como. Mas não se trata apenas de exercer (mais ou menos) a “soberania”, ou a “autoridade suprema”, não se trata apenas do exercício do poder, mas do seu novo princípio. O artigo 3º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 diz: “O princípio de toda soberania reside essencialmente na nação.” A democracia não é apenas uma forma de governo, mas a única; ela não é mais uma oportunidade, uma garantia, uma comodidade, uma concordância, objeto de uma preferência variável segundo os tempos, lugares e circunstâncias. O artigo 3º acrescenta: “Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer a autoridade se ela não emanar expressamente dela.” O que suprimia de direito até mesmo a autoridade paterna. Nós vivemos, cada vez mais de fato, nesse tipo de democracia; mas em nome da outra. Após essa doce definição de democracia, o Larousse apresenta um exemplo igualmente dulçoroso, um só: “a democracia ateniense”. Como se a Declaração dos Direitos de 1789 jamais tivesse existido, ou como se ela não tivesse mudado coisa alguma.

Nenhum progresso ocorreu na lexicografia mais recente. Segundo o Petit Larousse illustré, a democracia ainda é “o governo em que o povo exerce a soberania”. E segundo o Petit Robert, editado no mesmo ano: “doutrina política segundo a qual a soberania deve pertencer ao conjunto dos cidadãos; organização política (ordinariamente, a república) na qual os cidadãos exercem essa soberania.” Um e outro definem assim a “soberania" em questão: “autoridade suprema; qualidade do poder político de um Estado ou de um organismo que não está submetido ao controle de nenhum Estado ou organismo”; em direito constitucional, o “soberano” é a “pessoa física ou moral na qual reside a soberania”; em direito público francês, a “soberania nacional” é o “princípio segundo o qual a soberania outrora exercida pelo rei é atualmente exercida pelo povo, personificado na nação.” A verdadeira questão moderna é escamoteada. 

Ninguém tem poder sobre o vocabulário. Se fosse possível, seria melhor usar dois nomes diferentes para cada uma das duas democracias. Poderíamos talvez chamar a primeira de “república” (mas isso não exclui uma monarquia à inglesa). É o que em suma fazia Aristóteles (politeia), empregando ordinariamente a palavra democratia no sentido pejorativo, como demagogia. O Larousse universal em dois volumes citado acima define a república como idêntica à democracia: “Estado no qual o povo exerce a sua soberania pelo intermédio de homens por ele eleitos para um certo tempo.”

Nossa terminologia, democracia clássica e democracia moderna, possui a vantagem da precisão científica. Ela possui o inconveniente psicológico de que o termo “clássico” soa anacrônico, sobretudo uma vez que as letras clássicas, a poesia clássica, as filosofias clássicas não são mais estudadas em classe, e são tidas como remanescentes de idades obscuras, de uma pré-história a ser deixada no esquecimento; enquanto isso, o termo “moderno” sugere progresso. O moderno, enquanto tal, prevalece espontaneamente sobre o clássico no espírito do público porque o homem tem sempre a tendência de crer no que vê, e ele vê que as máquinas e motores de hoje são mais avançados que os de anteontem. No entanto, não ocorre assim com as árvores: a mais nova, que mal foi plantada, não é a melhor, pois elas precisam crescer e, portanto, só são úteis quando antigas; é verdade que, após um certo ponto, elas envelhecem. O progresso indefinido não é contraditório nem necessariamente impossível no domínio das ciências da matéria e das suas aplicações mecânicas; mas ele o é no domínio da política, da moral, da vida (mesmo vegetal): os álamos não crescem até o céu e não há nada entre os seres vivos que cresça sempre mais e mais, salvo o cumprimento no tempo e para a eternidade do número dos eleitos de Deus. Nós não vivemos mais no meio das árvores, do seu movimento imóvel, da sua lição silenciosa. No que diz respeito aos motores, é o mais jovem e o mais novo, é o último a ser lançado que é o bom — salvo defeito de fabricação. Ninguém preferirá as mecânicas clássicas às mecânicas modernas; nem quererá trocar automóveis modernos pelos veículos de Luís XIV. “Democracia clássica” faz pensar em coisas velhas, em ruínas inúteis. “Democracia moderna” evoca invenção, progresso técnico, um espírito moderno e voltado para o futuro. Ressonâncias afetivas de vocábulos e influência do novo conformismo sociológico forjado pelas máquinas de fabricar opiniões. Os termos “clássico” e “moderno” possuem aqui a vantagem de serem referências históricas exatas: mas hoje a história, quando não foi esquecida, como ocorre normalmente, está completamente viciada. Será melhor falar, portanto, com o benefício de um maior rigor doutrinal, em democracia natural e democracia totalitária.

Totalitária? A democracia poderá ser totalitária? Blasfêmia! Horror! Sacrilégio! Nós vimos, nos fins do ano 1976, o general Pinochet, presidente do Chile, declarar numa entrevista à televisão colombiana que pretendia fundar em seu país uma “democracia autoritária”. Por acaso ou malícia, jornais como o Le Monde de 23 de dezembro imprimiram as manchetes: “democracia totalitária”, e os intelectuais debocharam em uníssono, dizendo que o general era decididamente um ignorante, um imbecil, e que lhes custava crer que ainda pudesse existir na superfície da terra, em pleno século XX, alguém tão retardado, tão desprovido de instrução laica e obrigatória, a ponto de ser capaz, o coitado, de falar em círculo quadrado, de submarino alado, e de não compreender que totalitarismo e democracia são coisas tão incompatíveis entre si quanto a água e o fogo, o branco e o preto, o sim e o não. A Rádio Vaticano distinguiu-se, tanto quanto o Le Monde, nesse tipo de divertimento. No entanto, eles mesmos têm o partido comunista por um partido democrático, gozando direito de existência legal em toda verdadeira democracia (enquanto que os partidos fascistas devem ser interditos), os mesmos por vezes confessam que esse partido ainda segue um pouco totalitário demais, mas não tem problema, falar em “democracia totalitária” é que é um absurdo.

Nós usaremos o termo democracia totalitária, pois entendemos que ela o é. O totalitarismo comunista não é uma anomalia no universo democrático, mas a sua conclusão lógica; a conclusão necessária; a conclusão inevitável se, para impedi-lo, não intervier algo a mais do que a política e a moral democráticas. Pois a democracia moderna traz consigo o totalitarismo como a semente carrega consigo a colheita. Ela é totalitária desde a origem, não necessariamente em todas as suas formas sucessivas: ela o é no seu princípio. Ela só se limita por uma declaração de direitos ditos “imprescritíveis”, mas proclamados por uma autoridade que pode perfeitamente mudá-los, decretar outros ou aboli-los. Ela já os mudou muitas vezes, bem como já decretou novos direitos “imprescritíveis”. Ela já os suspendeu ou os aboliu. Não são mais direitos. Não existe, na democracia moderna, nenhum direito que possa ser democraticamente garantido e mantido contra a vontade geral.

Essa realidade é mais ou menos velada pelo artifício da constituição. A “constituição" era inicialmente uma garantia contra arbitrariedades do príncipe. A monarquia mesma, sob condição de ser uma monarquia constitucional, poderia sobreviver nos tempos novos. A Declaração dos Direitos de 1789 diz em seu artigo 16: “Toda sociedade na qual a garantia dos direitos não esteja assegurada, nem a separação de poderes determinada, não possui uma constituição”. A garantia de direitos assegurada, mas por quem? Substitui-se uma liberdade tida como arbitrária, a do príncipe, por uma arbitrariedade tida como liberdade, a vontade geral. Não se conhecem mais os LIMITES definidos — e que são os únicos reais — que a ordem antiga impingia ao poder temporal do príncipe. Esses limites eram religiosos. Eram os da religião natural, do decálogo, da piedade filial e nacional, do respeito aos costumes, da franqueza e da palavra dada. Os da religião revelada, do poder espiritual da Igreja que educava a consciência religiosa da nação. Não era suficiente? Era frágil? Não se criou nada de mais sólido. Contra a arbitrariedade pessoal, estabeleceram-se garantias constitucionais que tiveram por conseqüência direta instituir a arbitrariedade coletiva, que não é menor, e pode ser pior, como é o caso mais freqüente, conforme notava Santo Tomás no capítulo quinto da primeira parte de De regno.

Uma vez que a garantia contra o rei se tornou “constitucional”, a constituição deveria ser hoje uma garantia contra a tirania da vontade geral: mas ela não quer sê-lo. Garantia contra os governantes, ela se apresenta, superiora a eles, como um conjunto de leis intangíveis. Sempre existe, nas nossas democracias ocidentais, alguma assembléia superior, alguma corte suprema tendo a função de proferir julgamento sobre a “constitucionalidade” das leis e decretos: pode-se apelar aí das decisões da assembléia legislativa e do governo, que são no entanto um e outro designados pela maioria soberana. Assim se restabelece a idéia de valores permanentes e superiores, de princípios, de direitos aos quais seja impossível tocar. Mas é assim só na aparência.

Essas regras constitucionais não podem ser ditas sagradas senão por uma analogia enganadora. Como as outras, foram fundadas apenas sobre a soberania popular: que pode corrigi-las, abrogá-las, substituí-las. A soberania popular, no direito democrático moderno, é uma soberania absoluta, onipotente, totalitária e ilimitada. Por complicado e inacessível que seja o modo de revisão das constituições, elas são perfeitamente revisáveis. Nossas democracias têm se orgulhado de garantir constitucionalmente a independência da justiça, o direito à propriedade privada e as liberdades fundamentais segundo a idéia que delas fazem. Mas essas garantias são meramente constitucionais. A vontade popular pode, amanhã ou depois de amanhã (como já calhou de ocorrer ontem ou ante-ontem), decretar que o justo é injusto, que o bem é o mal, proibir o que é lícito, tornar obrigatório o que é monstruoso e retocar nesse sentido até mesmo a constituição: contra a vontade popular não há nenhum recurso democraticamente legal ou legítimo. O importante, numa democracia moderna, não é que ela reconheça hoje esse ou aquele “direito do homem” codificados numa “declaração”: o importante é que ela possa, legitimamente, segundo a sua própria legitimidade, não os reconhecer amanhã. Todas as constituições, todas as declarações de direitos são revisáveis pela vontade superior da maioria que as decretou. O decálogo não é revisável, nem mesmo por Deus. Mas a democracia moderna não reconhece mais o decálogo: mesmo quando se conforma às suas estipulações práticas, ela pretende tirar de si mesma, e não dele, a fonte e a legitimidade da obrigação moral. A democracia moderna se pretende a única legisladora, e só respeita o decálogo na medida, e no sentido, e quando ela mesma o promulgou soberanamente.

Sed contra, protesta o catolicismo: Pio IX ensinava na Quanta Cura que é falso dizer que a vontade do povo, manifestada pela opinião pública ou por qualquer outro modo, constitua uma lei suprema, livre de todo direito divino ou humano. — Essa é a doutrina comum da Igreja, doutrina imutável e de alcance universal.

Quando os homens decidem que não há mais nada de superior à soberania popular e à lei do número, eles fazem bem mais do que mudar a constituição política: eles fazem uma revolução moral e religiosa, e não uma revolução qualquer, mas A revolução, a única, a da criatura que recusa, desde Adão, sua condição de dependência. No lugar dos deuses de Antígona, das Tábuas da Lei do Sinai, do Deus dos cristãos, só restou o homem, coletivamente emancipado, senhor de seu destino, único juízo do bem e do mal: dobrado sobre si mesmo e vazio; esmagado, alienado, apagado para desaparecer na noite sem fim do comunismo.

A democracia natural é política, pode ser boa ou má politicamente. Sistema de designação dos governantes pelos governados, ela não contradiz no seu princípio nenhuma das leis da criação e do Criador; sua adoção aponta para um julgamento circunstancial ou uma preferência sentimental. A democracia natural respeita o direito: a democracia totalitária arroga-se o poder de criá-lo.

A democracia moderna é religiosa: ela substitui as religiões pela religião do homem que coletivamente se faz deus. Sem reconhecer nenhum limite que lhe seja exterior, nenhum valor que lhe seja superior, nenhum outro direito que lhe possa resistir, ela suscita uma extensão indefinida do Estado totalitário e encontra no comunismo, ou seja, no domínio do partido comunista, a conclusão da sua lógica interna mais fundamental. Freada de fato pela existência de costumes e pensamentos cristãos, que ela só suporta provisoriamente, a título de excrescências condenáveis à luz da evolução dos espíritos e do progresso dos costumes, só ela pode em direito decidir sobre o bem e o mal, o justo e o injusto; só ela admite as liberdades e garantias que outorga e de bom-grado suspende. Ela proíbe até mesmo que o princípio democrático seja posto em questão: o adversário da democracia é um sacrílego a quem se subtrai, ao menos virtualmente, todo direito de cidadania; os Estados não democráticos são sempre ameaçados de serem banidos das nações. A Europa de 1977 aceitou que a Espanha estivesse na Europa, sob a condição de que a democratização espanhola realmente avançasse. No denominado mundo livre — que é apenas o mundo ainda livre do domínio comunista — a democracia mais plenamente moderna, a mais radicalmente laica, a mais separada de Deus, é sem dúvida a democracia francesa. As democracias anglo-saxãs, imperfeitamente laicas, são temperadas e limitadas por algum resquício de religião natural: e nessa medida, resistem melhor ao comunismo. No entanto, também elas estão ameaçadas. A lei do número é, como o Deus do Antigo Testamento, um deus ciumento, mas ela não o confessa facilmente; ela consente entrar no panteão, aceita um lugar humilde e discreto na assembléia das outras leis. Por natureza, contudo, ela não tolera nem superiores, nem pares, nem semelhantes. Ela não se apressa, dá tempo ao tempo até devorar tudo.

 

III. A liberal e a popular

É num sentido inteiramente distinto do nosso que se fala ordinariamente de duas democracias, segundo uma outra distinção: a democracia liberal e a democracia popular. Em 1941, tendo Hitler enviado suas tropas para se atolarem na Rússia, as democracias anglo-saxãs não se contentaram em conceder aos soviéticos uma significativa ajuda tecnológica e militar: elas fizeram com que a URSS ingressasse no “campo das democracias”, dando assim, no nível ideológico e moral, uma caução burguesa ao comunismo. Desde então se admitem duas formas de democracia, duas concepções democráticas — ambas próximas uma da outra, e dignas de se chamarem assim. 

Na seqüência, durante os tempos da “guerra fria”, que era a guerra política do mundo dominado pelo comunismo contra o mundo ainda livre dessa dominação, cada uma das duas concepções pretendeu ser a única “democracia verdadeira”. No mundo não comunista, dizia-se que a democracia soviética, sem pluralidade de partidos concorrentes e sem eleições livres, era totalitária. No mundo comunista, respondia-se que a democracia capitalista, imperialista e colonialista, era uma falsa figura de democracia. Os liberais tornaram então a recusar ao comunismo a qualidade de democracia, assegurando, como François Mauriac o fez, que não se pode incarnar ao mesmo tempo a revolução marxista e o Estado democrático, pois a democracia repousa sobre os próprios princípios que a fé do partido comunista obriga derrubar e destruir, e que o partido comunista não pode crescer sem que a democracia diminua.

A tradição doutrinal do catolicismo opõe-se a essa distinção (duas formas diferentes de democracia, a liberal e a popular) e a esta exclusão (a democracia marxista não é a verdadeira democracia).

Pode-se tomar por testemunho Leão XIII na Encíclica Graves de communi de janeiro de 1901. Um parêntesis, foi essa a Encíclica que autorizava os católicos a usar o nome “democracia cristã”, com a condição expressa de não se dar a esse termo nenhum sentido político, mas apenas o significado de uma ação caridosa com respeito ao povo; as democracias cristãs receberam essa permissão sob condição murmurando: “o papa acaba de engolir a palavra, em breve engolirá a coisa”; nisso, a sua manobra seria bem sucedida, mas não imediatamente; primeiro tiveram de dobrar a cerviz sob o reino de São Pio X, em seguida lançar fora o pensamento e a herança do papa, acusando-os de “integrismo”. 

Ora, em Graves de communi encontramos a seguinte advertência contra uma forma de democracia autenticamente democrática, assim definida:

“Desaparecendo as classes sociais e estando todos os cidadãos reduzidos ao mesmo nível de igualdade, isso seria o encaminhamento para a igualdade dos bens; o direito de propriedade seria abolido e todas as fortunas que pertencem aos particulares, os instrumentos mesmos de produção, seriam vistos como bens comuns.”

Quando Leão XIII nomeava um regime assim, chamava-o pelo seu nome: democracia social; ou seja, a aplicação às estruturas econômicas e sociais dos princípios mesmos que a democracia política aplica às estruturas políticas. Democracia social, democracia integral, verdadeira democracia — o marxismo-leninismo não está errado em reivindicar esse nome.

Reconhecer a identidade subjacente do princípio fundamental não é se recusar a perceber as grandes diferenças que se verificam entre a democracia liberal e a democracia marxista. Essas diferenças giram em torno das liberdades individuais: mas estas não pertencem à essência da democracia moderna e não são o critério para se avaliar se há mais ou menos democracia ou uma democracia mais verdadeira. Segundo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, o direito novo, o direito democrático consiste em que a soberania reside doravante na nação (personificando o povo), e que nenhum corpo ou indivíduo pode exercer autoridade que não emane expressamente dele: a única diferença democrática (ou seja, a única que tem valor na perspectiva da democracia moderna) entre a democracia liberal e a democracia marxista é que, para a primeira, a lei majoritária do primado do número restringe-se ao funcionamento governamental e legislativo, enquanto que, para a segunda, toda a organização social é submetida a isso. Tanto para o marxista como para o liberal, a lei suprema é a mesma: o primado do número. Eles só se opõem sobre a extensão (ou a velocidade) da aplicação. Ambas estão de acordo com a filosofia política que Leão XIII descrevia nestes termos:

“Hoje em dia vê-se que foi além; um grande número dos nossos contemporâneos, seguindo as pegadas daqueles que no século passado deram a si mesmos o nome de filósofos, afirmam que todo poder vem do povo. Por conseguinte, aqueles que exercem o poder não o exercem como coisa própria, mas sim como mandatários ou emissários do povo; e por essa própria regra a vontade do povo pode a qualquer momento retirar de seus mandatários o poder que lhes foi delegado.” (Encíclica Diuturnum Illud, junho de 1881.)

A autoridade do pai de família, do professor na sua classe, do patrão na sua firma, do bispo na sua diocese são heterogêneas à luz do princípio democrático moderno, e contrárias à Declaração dos Direitos de 1789. Essas autoridades, que são liberdades, não podem ser mantidas senão limitando-se a expansão do princípio democrático. O que faz a democracia liberal não é tanto limitar, mas meramente frear essa expansão, enquanto gaba-se de salvaguardar o que seria democraticamente normal destruir. Essas autoridades, essas liberdades, fundadas na ordem natural anterior à democracia, a democracia liberal as abala aos poucos, ela as dissolve lentamente, as diminui sem cessar. A diferença é de grau, não de natureza, com a democracia marxista, que as suprime ou as subjuga.

Existe uma democracia mais lógica que a outra: a que remete ao poder da vontade popular não apenas a composição do governo e da assembléia legislativa, mas ainda os bens, as pessoas, a educação, a cultura, os trabalhos, as informações, confiando tudo ao novo deus como o homem na cristandade confiava tudo a Deus. 

Existe também uma democracia menos lógica: a que, tendo admitido que todo poder e todo direito vêm da vontade popular, deixa sobreviver na sociedade direitos e poderes que não vêm dessa vontade; a democracia liberal é por vezes dita ocidental, e a outra oriental, como se Robespierre tivesse nascido numa aldeia do Cáucaso e a Convenção de 1793 tivesse se dado em Moscou.

*

Objeta-se que a democracia soviética é, na realidade, uma mentira; uma hipocrisia; ela invoca a lei do número na teoria, mas a contradiz na prática; ela fala em nome da vontade popular, mas obedece às vontades de um tirano rodeado de pretorianos que, com o nome de “partido”, constituem uma casta privilegiada de políticos e policiais. 

A objeção confunde os pontos de vista. Se nos dizem que existem dois conceitos fundamentalmente diferentes de democracia, a soviética e a ocidental, nós examinamos esses conceitos em si mesmos, e verificamos que ambos estão de acordo no fundamental, que é situar a vontade popular como fonte de toda legitimidade; uma levou esse conceito até as suas últimas conseqüências; o outro não se joga no despenhadeiro por considerações que não possuem fundamento democrático. 

Falar da maneira com que essas concepções são executadas é levantar outra questão. Elas se chocam com a realidade que tanto mais lhes resiste quanto mais utópicas se mostram. A teoria democrática pressupõe a igualdade: a lei do número seria intrinsecamente contraditória se os cidadãos, todos contados por uma unidade, não fossem tidos por tão iguais quanto possível. Ao mesmo tempo, o impulso mais potente que as revoluções democráticas utilizam é a aspiração à igualdade, exacerbada e manipulada. Há muito se sabe que a igualdade social entre os homens é uma quimera: jamais foi realizada, nem na democracia ateniense nem na república romana; nem durante a revolução de 1793; não foi realizada nem no país dos soviéticos nem nas Américas. Por maior que seja o esforço feito pelos governos, pela legislação ou pela ideologia no poder, as desigualdades sempre renascem entre homens e mulheres, pais e filhos, ricos e pobres, proprietários ou não, patrões e empregados, artistas e assalariados, trabalhadores e camponeses, mestres e aprendizes, clero e leigos. Não é nem mesmo certo que os partidários da igualdade a tenham realmente desejado: o sentimento que os tem animado ao longo da história é antes o desejo de suprimir uma superioridade que os desfavorece (ou que parece desfavorecê-los); há muito de inveja na sua suposta justiça e nas suas proclamações de amor. A aspiração democrática à igualdade é sobretudo o ódio das superioridades que temos de suportar. Os aristocratas que renunciam espontaneamente aos seus privilégios e se tornam revolucionários, normalmente o fazem para suplantar os seus pares ou porque foram rejeitados por eles. Mirabeau e Barras, que eram nobres, elegeram-se em 1789 como deputados do terceiro estado porque a sua ordem não os havia designado; eles apoiaram a abolição dos antigos privilégios dos quais estavam sendo privados, mas nenhum escrúpulo os impediu de se atribuírem novos privilégios na sociedade revolucionária. De resto, diga-se o que se quiser do desejo de igualdade da parte dos democratas, o projeto de uma sociedade igualitária contradiz a inclinação natural dos homens e das coisas. Por mais que se tente, por mais que se esforce, para o estabelecimento da igualdade sempre foi preciso usar da mais terrível coação. De Robespierre a Lênin, os partidários da igualdade foram os tiranos mais implacáveis, porque a igualdade pode, numa certa medida, ser imposta às sociedades humanas pela força, mas nunca pela persuasão, e menos ainda por uma evolução natural.

Os fanáticos da lei do número são inevitavelmente inclinados a promover uma repressão universal para levar os homens ao estado de nivelamento em que a lei do número poderia funcionar logicamente. Uma tirania desse gênero só pode ser exercida com sua coorte de funcionários e políciais, de oligarcas e privilegiados; mas ela está a serviço do ideal igualitário. Nem Robespierre nem Lênin foram infiéis à lei do número nisso; antes, são fanáticos dela, fazendo tudo o que está em seu alcance para a impor, mesmo quando o número não quer; e essa coação, essa tirania, tiveram por estandarte a Liberdade, ficando subentendido que não há liberdades contra a Liberdade; e que a Liberdade em maiúsculas consiste, para a humanidade, numa recusa coletiva de toda dependência moral no tocante ao que quer que seja de moralmente superior à sua autonomia.

A ideologia liberal se limita a uma igualdade limitada, que é a de colocar o voto na urna eleitoral em toda liberdade e em segredo absoluto. Ela protesta que essa igualdade, restrita mas específica, e que essa liberdade não existem nos regimes comunistas. As “democracias populares” pretendem ser regimes eletivos: está claro que o “funcionamento normal” da democracia eletiva está falseado aqui pela onipotência do partido único. Sem dúvida. E mesmo bem mais do que os liberais imaginam ordinariamente, como escrevi no livro La vieillesse du monde. Mas, nas democracias ocidentais, esse funcionamento normal foi por muito tempo falsificado pela plutocracia, ou seja, pela prepotência do dinheiro, antes de alcançarmos os processos atuais de socialização, nos quais os mais ricos se arranjam e continuam sendo os mais bem posicionados. A democracia soviética é a abominável ditadura do partido, a democracia liberal é a abominável dominação da riqueza anônima e vagabunda.

Essas duas abominações não possuem o mesmo peso. Para qualquer um, mesmo para os apparatchiks do partido comunista, é inequivocamente preferível viver numa democracia liberal que numa democracia marxista. Mas não é assim porque a primeira seria mais democrática ou a única verdadeira democracia. A sua superioridade sobre a segunda vem de realidades estrangeiras ao dogma democrático: ela deixa sobreviver, ainda que cada vez menos, valores, usos, direitos, princípios realmente bons, amigos do homem, apesar de suspeitos para um verdadeiro democrata, pois tiram a sua origem e seus fundamentos em outro lugar do que no princípio democrático — no decálogo e na revelação católica.

 

( Les deux democraties, N.E.L., Paris, 1977.  / Tradução: Permanência / Revista Permanência 296 – TEMPO DO NATAL )

A Igreja deu condições para que uma guerra seja justa?

Existem princípios católicos imutáveis para que uma guerra seja justa. O procedimento é simples: aplicamos à guerra os fatores determinantes de um ato moral. Em todo ato moral deve haver três fatores: (a) o objeto, (b) a intenção, (c) as circunstâncias. Todos os três devem ser considerados moralmente bons; caso contrário, o ato é mau e deve ser proscrito. Em outras palavras, todos os determinantes da moralidade devem ser bons e presentes.

 

O objeto

O objeto deve ser bom, isto é, a guerra deve ter justa causa. As guerras podem ser de dois tipos: defensiva e ofensiva. Uma guerra defensiva tem justa causa se praticada para defender um direito essencial e fundamental que foi injustamente negado; uma guerra ofensiva é justa se for o único meio para preservar um direito essencial e fundamental injustamente negado, desde que todos os outros meios pacíficos e diplomáticos hajam sido exauridos.

Além disso, é indispensável que o bem defendido seja proporcional aos males que a guerra causará. Em hipótese alguma o católico pode aceitar o princípio “meu país, esteja ele certo ou errado”.

 

A intenção

A única intenção que pode justificar a guerra é a promoção do bem comum e o objetivo de evitar um mal maior. No nosso mundo, o bem comum abrange não apenas o bem daquela nação específica, mas o bem de todo o mundo, pois nenhuma nação vive isoladamente; a ordem da prosperidade das nações está diretamente conectada com o bem de cada uma delas.

 

As circunstâncias

A guerra deve ser boa não apenas na sua causa e intenção, mas também nas suas circunstâncias ou métodos. O Papa Pio XII declarou, em Março de 1937, aos Bispos mexicanos: “1) Os métodos usados para vindicar direitos são meios para se atingir um fim e, portanto, constituem um ‘fim relativo, não um fim absoluto em si mesmo. 2) Por serem meios para se buscar um fim, os métodos de vindicar direitos devem ser lícitos e não atos intrinsecamente maus’. Em outras palavras, o fim não justifica os meios. Roubar os ricos para ajudar os pobres não é um princípio moral católico. Nenhuma vantagem, por maior que seja, pode ser adquirida às custas da violação da lei moral. 3) Como os métodos para vindicar direitos devem ser proporcionais ao fim, eles devem ser usados apenas na medida que pareçam atingir aquele fim, no todo ou em parte, e de tal maneira que não tragam dano maior à comunidade que o dano que eles, supostamente, deveriam remediar.

Apenas quando essas três condições de uma causa ou moralmente boa, intenções corretas e métodos justificáveis estiverem presentes, pode-se dizer, afirmativamente, que uma guerra está justificada.

- Pe. Boyle, Julho de 1995.

As promessas do Sagrado Coração de Jesus

Em suas aparições a Santa Margarida Maria, Nosso Senhor insiste que o culto a seu Sagrado Coração seja revestido do aspecto de reparação. Seus devotos devem não somente descobrir seu Amor insondável, mas também oferecer reparação pelas injúrias, friezas e ingratidão com que Ele é ofendido. De fato, o liberalismo, desconhecendo a submissão que o homem deve a Deus, põe na liberdade do homem o princípio de todas as leis da sociedade moderna. O liberalismo quer que o próprio Deus se submeta à liberdade do homem. Que blasfêmia!

A essência da devoção ao Sagrado Coração é o reconhecimento de que a submissão humilde do homem à lei de Deus é seu maior bem, e que o homem deve submeter-se não como um escravo ao seu tirano, mas como um filho que reconhece o amor de seu pai em suas disposições e ordens. A devoção ao Sagrado Coração é, portanto, essencialmente antiliberal.

As reclamações de Nosso Senhor sobre os jansenistas parecem definir nossos modernistas atuais: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até esgotar-se e consumir-se para dar-lhes testemunho do seu amor, e em paga não recebe da maior parte deles mais do que ingratidão, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor”. Irreverências, sacrilégios, friezas: Nosso Senhor parece aqui estar descrevendo a Missa Nova!

O modernismo é o esforço de teologia para justificar o sacrilégio do homem que se põe no lugar de Deus. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é a descoberta do amor de Jesus Crucificado e de como devemos obedecer a Ele.

 

I – Introdução

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi apresentada oficialmente ao mundo católico pelo Papa Leão XIII, em 25 de maio de 1899, como meio extraordinário de salvação para a humanidade. “Hoje se oferece aos nossos olhos” – disse então o Papa – “um grande sinal de salvação, sinal todo infuso de divino amor e de suprema esperança. É o Sagrado Coração de Jesus, encimado pela Cruz, cercado de espinhos e resplandecente de uma claridade esplêndida, em meio às chamas de seu amor. N’Ele é necessário depositar toda a nossa confiança; a Ele é necessário pedir e esperar a salvação”.

Foi longo o caminho que essa devoção percorreu até chegar a uma proclamação tão solene e explícita por parte do Vigário de Cristo.

Certamente ela expressa a própria essência do catolicismo. Mas existe também, sem dúvida, algo de novo nela. Dom Columba Marmion, no capítulo que dedica à devoção do Sagrado Coração no seu livro “Jesus Cristo em seus mistérios”, mostra bem como ali se dão os dois aspectos de continuidade e de novidade.

Podemos dizer que o primeiro devoto do Sagrado Coração de Jesus foi o apóstolo São João, que ouviu suas palavras comovedoras na Última Ceia, e que o viu ser ferido pela lança e dele jorrar sangue e água.

Na Idade Média, o amor à santa humanidade de Nosso Senhor professado pelos místicos incluía, certamente, o aspecto central dessa devoção. Vemos São Bernardo inflamado em sua pregação, ouvimos as conversas íntimas entre Nosso Senhor e Santa Gertrudes, vemos o admirável Pobre de Assis reproduzir as chagas da Paixão do Salvador em sua própria carne.

São Boaventura assim convidava as almas: “Para que do lado de Cristo, adormecido na Cruz, se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz ‘farão lamentações sobre Aquele que traspassaram’ (Zc 12, 10), um dos soldados o feriu com uma lança e abriu-lhe o lado. Isto foi permitido pela divina Providência, a fim de que, brotando sangue e água da ferida, se derramasse o preço de nossa salvação, o qual, manando do arcano do Coração, desse aos sacramentos da Igreja a virtude de conferir a vida da graça, e fosse, para os que vivem em Cristo, a taça levada à fonte viva que mana para a vida eterna. Essa é a mesma lança do pérfido Saul – figura do povo eleito castigado – que, errando o golpe, se cravou por divina misericórdia na parede, e abriu um buraco na pedra e um furo no muro. Aparece pois, alma amiga de Cristo, e sê como a pomba que faz seu ninho na parte mais alta da entrada da caverna: ali, como um pássaro, encontrarás morada; ali, onde o rouxinol de amor casto esconde os filhotes; põe ali tua boca para que bebas as águas das fontes do Salvador. Esta é a fonte que jorra no centro do paraíso e que, dividida em quatro rios, deságua nos corações devotos, rega e fecunda toda a terra.”

Mas essa devoção, que até então estava reservada aos altos místicos e contemplativos, encontrou uma nova expressão quando Nosso Senhor tomou, Ele próprio, a iniciativa de estendê-la a todos os fiéis. O que até então fora um segredo das almas mais santas e penitentes passou a ser uma oferta de amizade íntima a todos os católicos.

 

II – Divina Estratégia

Muitas devoções nascem espontaneamente do espírito do povo católico. Aparecem, crescem e se difundem, movidas pelo interesse e pela admiração dos fiéis. Mas a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não foi assim. Não foi uma devoção espontânea, mas sim uma devoção ensinada e propagada pelo Céu. Serão as diversas intervenções de Nosso Senhor, Ele mesmo, que farão com que essa devoção se difunda de modo tão admirável.

Ela é uma resposta do Salvador à perfídia do humanismo renascentista, que se propôs a abalar a lei de Deus e de sua Igreja. Essa oferta é uma vingança amorosa diante do protestantismo e de seu sucedâneo, o Jansenismo. Nosso Senhor propõe essa devoção como um remédio para os males modernos, como um antídoto contra o espírito da revolução.

Assim considerada, essa devoção poderia parecer uma coisa antiga e sem importância, ou que, ao menos, teve sua importância no século XVII, mas já não mais hoje em dia. Que nos importam hoje as disputas protestantes? Que nos interessam as querelas dos jansenistas? Será então esta devoção algo fora de época? Pensar assim seria um engano grave da nossa parte. A crise modernista, que vivemos hoje com o Vaticano II e todas as suas reformas, é a continuação em linha direta da crise do protestantismo e do jansenismo, da revolução francesa e da revolução comunista.

Se as idéias são as mesmas, se a revolução é a mesma, podemos pensar, sem medo de engano, que o remédio para sua cura será exatamente o mesmo.

Qual será o plano do divino Salvador ao querer difundir deste modo a devoção ao seu Sagrado Coração? Qual será sua intenção ao revelar de modo tão amplo os segredos de sua divina amizade? E como esta devoção pode ser o antídoto para crise tão aguda?

Nosso Senhor quer curar os males dessa peste que se difunde entre nós usando o remédio contrário. A peste negra que dizima a cristandade desde o início do Renascimento é o egoísmo satânico que propõe a própria liberdade como princípio absoluto de todas as relações do homem com Deus. O liberalismo insolente que nascerá desse espírito malsão quer transformar essa rebelião contra Deus em lei e em fundamento da sociedade. E assim o fez.

O remédio apresentado pelo Salvador será a manifestação do Amor que o moveu a encarnar-se e a morrer na Cruz por nós. Amor desinteressado, amor generoso, capaz de curar todos os nossos males: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e que é por eles tão ingratamente correspondido!”.

Ingratidão! Esse é o nome próprio da nossa sociedade moderna. Esse é o rosto verdadeiro da revolução. Nosso Salvador propõe a contemplação e o estudo do seu Amor como o grande remédio capaz de curar-nos dessa ingratidão.

Vejamos bem: Nosso Senhor não reclama da nossa desobediência. E bem que poderia reclamar. Poderia repreender-nos pelos nossos pecados. São enormes e sem número! Poderia lançar-nos ao rosto nossa malícia. Entorpecemos tudo aquilo que tocamos! Mas não, nada disso. Nosso Senhor aparece repetidas vezes para reclamar da nossa ingratidão.

 

II – Santa Margarida Maria

Em meio à tormenta do século XVII, entre a surda conspiração dos inimigos de seu reinado, Nosso Senhor elege como instrumento de seus desígnios uma religiosa tímida e escondida na clausura. Ela será o general que deverá, como nova Joana d’Arc, conduzir a batalha da cristandade.

Margarida Maria Alacoque nasceu em 22 de agosto de 1647, em Verosvres, na Borgonha. A formação da nossa santa foi marcada especialmente pelo sofrimento. Dos quatro aos sete anos, ou seja, entre 1652 e 1655, foi morar no castelo de sua madrinha, Madame de Corcheval, dama nobre da região, para ali começar, em ambiente sereno e austero, sua formação. Mas sua educação teve de ser interrompida quando Madame de Corcheval morreu. Sua afilhada então voltou à casa paterna. Em 1655, mesmo ano da morte de sua madrinha, falecem também sua irmã mais nova e seu pai, Cláudio de Alacoque. Sua mãe, Felisberta, colocou seus filhos maiores em colégios, e Margarida como interna no convento das Clarissas mitigadas de Charolles.

No convento das Clarissas, Margarida contraiu uma doença grave, sendo necessário mandá-la de volta para sua casa. Lá permaneceu cerca de quatro anos prostrada na cama, sem poder se levantar. Os médicos não sabiam mais o que fazer quando ela resolveu consagrar-se à Santíssima Virgem, prometendo-lhe que seria sua filha. “Bastou que eu fizesse o voto” – declarou Margarida – “e logo fui curada da doença com a nova proteção da Santíssima Virgem, que, tomando posse tão completa do meu coração, e tendo-me como sua filha, me governava como coisa que lhe era consagrada; me repreendia pelos meus erros e me ensinava a cumprir a vontade de Deus.” 

Em sua casa, outra situação muito dolorosa a esperava. Sua mãe tinha deixado a gestão do seu patrimônio por conta de seu cunhado, Toussaint Delaroche, homem avarento e de temperamento irritável. Ele, sua mulher e sua mãe tomaram as rédeas da casa e começaram a tratar a senhora Alacoque e seus filhos como se fossem empregados. A santa suportou durante anos a semiescravidão a que era submetida pelas injustiças do tio. Às vezes tinha até que mendigar pão aos vizinhos. A casa materna se transformou numa prisão torturante. “Deus me deu tanto amor à Cruz que não consigo viver um momento que seja sem sofrer, mas sofrer em silêncio, sem consolo, alívio ou compaixão, e morrer com este Soberano da minha alma, sob o peso de toda sorte de opróbrios, dores, humilhações, esquecimentos e desprezos...”     

Diante de seu desejo constante pela vida religiosa, e superadas as intenções de casar a jovem Margarida, sua família quis enviá-la a um convento das Ursulinas onde já vivia uma prima sua. Santa Margarida Maria – que tinha muito carinho por essa prima – deu uma resposta em que transparece seu grande desejo de perfeição: “Olha, se eu entrar no teu convento, será por amor a ti. Mas prefiro ir a um convento onde não tenha parentes nem conhecidos, para ser religiosa somente por amor a Deus.” Uma voz interior já a tinha avisado: “Não te quero lá, mas sim em Santa Maria”, que era o nome do convento das visitandinas de Paray-le-Monial. No entanto, as pressões familiares para que escolhesse as Ursulinas eram fortes. Doenças de sua mãe e de um dos seus irmãos a obrigaram de todas as maneiras a adiar seus planos de vida religiosa. Em certa ocasião, um sacerdote franciscano hospedou-se na casa dos Alacoque durante uma missão. Santa Margarida aproveitou a oportunidade para fazer uma confissão geral. Ao conhecer o alto grau de virtude e os desejos de vida religiosa da jovem, o sacerdote achou que ela devia seguir sua vocação. O religioso então conversou com o irmão dela e o convenceu a mudar de atitude. Nossa Santa foi então finalmente aceita como noviça em 20 de junho de 1671, vestiu o hábito em 25 de agosto do mesmo ano, e fez sua profissão solene em 6 de dezembro de 1672.

Nosso Senhor vinha misteriosamente dispondo de Santa Margarida de tal modo que ela era, humanamente falando, o instrumento menos apto possível para a tarefa a que a destinara. De caráter tímido, de saúde frágil, religiosa sob obediência estrita sem poder dispor de si mesma, levando uma vida de clausura sem jamais sair de dentro dos muros do seu convento, e que morreu antes de completar 45 anos, ela deveria ser o grande apóstolo que difundiria no mundo inteiro a devoção ao Sagrado Coração. Disposição surpreendente de Nosso Senhor, que quis com isso mostrar que essa difusão era obra inteiramente sua.

O Papa Pio XII, depois de fazer a lista dos Santos que a precederam na prática e difusão da devoção ao Sagrado Coração, disse a esse respeito: “Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção, merece um lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda de seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, e com seu zelo ardente, conseguiu, não sem a admiração dos fiéis, que esse culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas de piedade cristã.”

Durante a curta vida da nossa santa, Nosso Senhor lhe revelou os segredos do seu Amor incompreensível. Suas palavras ficarão registradas na autobiografia que Santa Margarida foi obrigada a escrever. Esse texto foi o grande meio para dar a conhecer as intenções de Nosso Senhor ao lamentável século XVII. Além dessas páginas, nossa santa conseguiu lançar seu confessor, Cláudio de la Colombière, e sua superiora, a Madre Greyfié, na obra de pregação desta devoção. Eles serão os braços de Santa Margarida em sua difusão.

 

III – As Promessas

Para mover vontades tão atrofiadas, para aquecer corações tão gelados, o divino Mestre uniu promessas surpreendentes à manifestação de seu insondável Amor.

Não se sabe quem foi que fez a compilação das famosas 12 promessas do Sagrado Coração. Mas esse devoto atento procurou cuidadosamente em todas as palavras de Nosso Senhor a Santa Margarida as promessas que associou à devoção ensinada, e as apresentou numa única lista.

 

1ª Promessa: “Eu darei aos devotos do meu Coração todas as graças necessárias a seu estado”.

É curioso como uma promessa tão grande como esta seja lida e vista com tanto desinteresse por parte dos católicos. Vejamos bem o que é que Nosso Senhor promete. Neste mundo submetido à Revolução, neste mundo apóstata, cumprir com os deveres do seu estado é, na maioria das vezes, uma situação dramática, que exige uma virtude heróica. Que pai de família nunca se viu atormentado diante das infinitas influências que empurram seus filhos na direção contrária daquilo que ele lhes ensina? Que professor católico nunca se sentiu perseguido por ensinar a seus alunos as verdades mais simples e evidentes? Que médico católico nunca teve medo de ser despedido do hospital em que trabalha por não querer receitar meios desonestos de contracepção? Que advogado católico nunca se viu compelido a mentir e a aceitar procedimentos desonrosos em seu trabalho cotidiano?

E o que mais assusta é vermos como todos estes procedimentos inadmissíveis para um católico vão se tornando lei comum em nosso mundo contemporâneo. Temos a impressão de que as garras da revolução vão se apertando e fechando todas as saídas. A desobediência à lei de Deus se torna a lei dos homens.

Pois bem: é diante desse mundo ameaçador que Nosso Senhor oferece sua ajuda ao católico indefeso. Promete a quem se torne devoto de seu Coração todas as graças necessárias, sua ajuda, sua intervenção em cada uma destas situações tão prementes. Promete abrir-nos uma porta quando o mundo nos tiver fechado todas elas. Promete Ele mesmo nos conduzir, como Capitão experiente, quando o barco da nossa vida enfrentar os recifes modernos em meio à tempestade.

 

2ª Promessa: “Eu estabelecerei e conservarei a paz em suas famílias”.

Há de fato duas promessas nesta pequena frase. A primeira é o estabelecimento da paz nas famílias, e a segunda é a sua conservação. Paz significa tranqüilidade na ordem. Portanto, estabelecer a paz significa alicerçar a vida daquela família que se fez devota do Sagrado Coração na ordem da verdade. E esse estabelecimento, para que seja pacífico, exige que seja também tranqüilo, que essa ordem estabelecida seja constante e estável. Que família não tem um filho, um pai, um irmão que esteja longe de Deus e de sua Lei? Que família não vê sua vida interna católica constantemente ameaçada? Pois Nosso Senhor promete estabelecer a paz e conservá-la, mesmo diante dos mais ferozes ataques. Nosso Senhor se oferece como o fundador e conservador das nossas famílias!

 

3ª Promessa: “Consolarei meu devoto em todas as suas aflições”.

Consideremos bem estas palavras. O divino Mestre não diz que seus devotos não terão aflições. Não! Estamos em tempo de apostasia, em tempo de guerra. O mundo está em fogo, a Santa Igreja é perseguida e humilhada, e nós, devotos do Sagrado Coração, ainda queremos ter uma vida cômoda? Não! É necessário que tomemos parte nas dores da Santa Igreja, é preciso que subamos com Nosso Senhor ao Calvário. Mas – e aqui entra a admirável promessa – o Salvador promete que estará ao nosso lado, e de cada pequena injúria, dor ou sofrimento que tenhamos, Ele mesmo virá consolar-nos! Virá mostrar-nos como superar nossos males, como tirar deles um bem maior, como os bens deste mundo passam, como teremos uma felicidade eterna. Nos consolará melhor do que um pai amoroso faria por um filho único afligido. Ele dirá em nosso interior dulcíssimas palavras que iluminem nossa inteligência inquieta e sustentem nosso coração cansado.

É tão grande o bem deste consolo que quase desejamos aflições que nos obtenham a promessa do Divino Consolador!

    

4ª Promessa: “Serei para eles um refúgio seguro na vida e principalmente na hora da morte”.

Refúgio é um lugar protegido, onde o perigo que ameaça não pode alcançar-nos, onde os males que nos perseguem encontram um escudo que os impede de chegar até nós. É um lugar que está sempre à nossa espera, para o qual podemos fugir em meio às tormentas.

O demônio, quando decide perder uma alma, se prepara longamente, estuda todos os seus passos, descobre todas as suas brechas, conhece todas as rachaduras em sua vontade e nos seus afetos, considera todos os erros que há em suas idéias. O tentador, então, vai conduzindo seu perseguido até a arapuca em que o fará cair irreparavelmente. Muitas vezes o demônio, nesse processo funesto, aceita perder um pouco para ganhar muito. Quando vemos uma inteligência angélica tão aguda dedicada inteiramente à nossa ruína, quão grande não é o nosso receio? Nos sentimos como presas fáceis diante de um predador voraz. Nos sentimos profundamente desamparados.

Nosso Senhor promete ao devoto do seu Coração ser seu refúgio. Nem toda a sutileza, nem toda a força e veemência, nem toda a astúcia do inferno inteiro reunido poderão alguma coisa contra nós, se Nosso Senhor oferecer seu Coração como refúgio. Quando o demônio, a carne e o mundo jurarem perdê-lo na hora de sua morte, o verdadeiro devoto do Coração de Jesus verá este refúgio que se abre consoladoramente para ele!

 

5ª Promessa: “Derramarei bênçãos abundantes sobre todos os seus trabalhos e empreendimentos”.

Como tudo hoje é difícil para um católico! O mundo moderno, fruto da revolução, dispôs todos os elementos da vida cotidiana de modo contrário não somente à lei de Deus e da Igreja, mas também contra a própria natureza humana. As instituições, os costumes, o trabalho, as famílias, as diversões, os estudos, tudo está organizado na direção contrária à qual um católico deveria ir. Nossos empreendimentos mais simples, as aspirações mais legítimas se vêem contrariadas constantemente. O católico parece estar diante de um frustrante dilema: ou lutar em vão, ou deixar-se levar pela corrente.

Nosso Senhor promete aqui a seu devoto que Ele mesmo conduzirá suas empreitadas e projetos. As obras realizadas deste modo terão o selo do Coração de Nosso Senhor, e, mais que uma simples ajuda em sua realização material, elas terão uma luz de vida eterna. Serão benditas para nossa salvação.

 

6ª Promessa: “Os pecadores encontrarão em meu Coração uma fonte inesgotável de misericórdias”.

Quantas vezes os sacerdotes encontram, em sua vida de apostolado, pessoas de grande valor que gostariam de sair deste ou daquele vício ou pecado, e pessoas que admiram a vida católica e gostariam de levar uma vida de piedade e que, apesar disso, terminam seus esforços com a dolorosa constatação: “Não consigo!”. Gostariam de sair do estado de pecado em que vivem, mas são tantos os laços e vínculos que os prendem a essa situação que concluem seus desejos com o grito: “Eu quero, mas não tenho valor!”.

Nosso Senhor promete ao pecador que abraçar a devoção ao seu Sagrado Coração que Ele mesmo descerá ao poço das suas misérias e debilidades. Promete conduzi-lo pela mão entre suas cadeias e amarras até trazê-lo de volta à vida da graça. Nosso Senhor promete ter paciência com ele. Ele mesmo abrirá as portas, Ele mesmo aplanará o caminho espinhoso e desfará os obstáculos que se opõem à sua conversão.

    

7ª Promessa: “As almas tíbias se tornarão fervorosas pela prática desta devoção”.

Com que facilidade os padres, pastores de almas, caem na idéia de que seja normal que a maioria dos seus paroquianos seja medíocre. Não se pode esperar que toda a paróquia seja fervorosa! Não se pode pretender que a grande maioria dos fiéis seja piedosa e bem formada! Devemos dar-nos por contentes com ter algumas almas que estejam um pouco acima da média.

Embora o fundamento deste pensamento seja uma desconfiança no valor da graça de Deus, e de certo modo quase uma blasfêmia, a experiência mostra que não é menor a dificuldade de um pecador para sair de seu estado habitual de pecado do que a de um católico medíocre para aproximar-se de uma vida fervorosa. Algumas vezes, este último é mais difícil de converter do que um pecador público! São Pio X dizia que tinha mais medo da tibieza dos bons do que da perversidade dos maus.

Pois Nosso Senhor promete a estas almas envelhecidas, a estas almas que já não se admiram com o sagrado, que não se sentem atraídas pelo céu, que já não temem sua condenação, a elas Ele promete uma renovação. Promete que do tronco velho e ressecado do seu catolicismo sairá um broto vigoroso, que dará flores e frutos surpreendentes. Estas almas que tantas vezes ouviram a pregação da Verdade, e que a recobriram com a poeira da sua banalidade, encontrarão na devoção ao Sagrado Coração uma renovada juventude.

 

8ª Promessa: “As almas fervorosas ascenderão em pouco tempo a uma alta perfeição”.

Os doutores místicos ensinam que, chegada certa altura da vida espiritual, os caminhos começam a fazer-se difíceis e sutis. Todos eles dizem que a complexidade dessas regiões espirituais é tal que as almas que atravessam o escolho do que chamam de a terceira conversão e entram na região que Santa Teresa chamou de Quarta Morada necessitam imperiosamente da ajuda de um diretor espiritual que os guie e conduza. Santa Teresa explica como, nesse momento, a falta de ajuda de um confessor bem instruído é geralmente causa de um acovardamento por parte da alma generosa. Então, ou bem regressam a uma vida de piedade comum, ou bem ficam paralisadas nesse desamparo.

Nosso Senhor promete ao generoso devoto de seu Coração que Ele mesmo será seu “Confessor instruído” ou seu “Diretor espiritual”. Ele mesmo será o Guia experiente nesses caminhos difíceis.

 

9ª Promessa: “Minha bênção permanecerá sobre as casas em que for exposta e venerada a imagem do meu Sagrado Coração”.

A bênção e proteção de Nosso Senhor e sua ação misericordiosa não serão algo passageiro, não será uma graça recebida em uma ocasião especial e memorável, mas será uma fonte constante e sempre viva. Nosso Senhor promete estar presente Ele mesmo como um fogo que mantenha a vida verdadeira da família que se fizer devota de seu Coração.

Nesta promessa vemos uma delicadeza de Nosso Senhor para conosco. A devoção consiste essencialmente em uma disposição interior, na prontidão da nossa vontade ao serviço de Deus. Mas a disposição interior necessita de uma prática exterior, tanto para expressar-se quanto para apoiar-se. É muito difícil encontrar uma prática exterior que não termine por afogar e substituir a devoção interior. Nosso Senhor aqui nos ensina Ele mesmo uma prática que possa concentrar e manifestar a devoção a seu Coração amoroso. Propõe que a família ponha no centro da casa uma imagem em que Ele apareça com seu Coração visível, e que diante dessa imagem a família venha a realizar suas práticas de piedade. Essa imagem deve ser o centro da família. Essa imagem deve ser exposta e deve ser honrada.

Nosso Senhor ali não deixará de ouvir o pai de família que venha rezar diante de sua imagem pedindo ajuda nas aflições para manter sua casa; atenderá prontamente a mãe que reze pelo filho que dá passos perigosos em sua vida incipiente; enfim, Nosso Senhor promete que Ele mesmo se tornará o Chefe daquela família, e dela cuidará como sua.

 

10ª Promessa: “Darei aos sacerdotes que pratiquem especialmente esta devoção o poder de tocar os corações mais endurecidos”.

Sacerdotes conformes ao Coração de Jesus! Nosso Senhor lhes promete que terão o poder de trazer as almas para Deus. Nos tempos da cristandade sempre houve sacerdotes generosos que, aceitando o sacrifício de suas vidas, eram enviados às terras de infiéis e pagãos. Lá deviam trabalhar, lutar e pregar sem fruto – ao menos, sem fruto aparente. E eram necessárias várias gerações de missionários para que os primeiros frutos começassem a aparecer. Que coisa terrível para um sacerdote é ver-se revestido do poder de Nosso Senhor, ser capaz de curar e salvar as almas que se condenam e, mesmo assim, ver que elas resistem ao seu chamado! Como um médico que tem nas mãos o remédio mais precioso e eficaz, e vê o doente morrer por não querer tomar o remédio que lhe é oferecido. Nosso Senhor aqui apresenta aos sacerdotes que abraçarem a devoção a seu Coração, e que façam dessa devoção o princípio da sua ação sacerdotal, a promessa de que Ele mesmo vencerá a obstinação dessas almas enfermas.

Noutros tempos, essa promessa já seria admirável; hoje, porém, ela é mais do que um tesouro raro, pois, se antigamente eram os pagãos e infiéis que mantinham seus corações inacessíveis à pregação da Verdade, hoje o mundo inteiro se tornou terra de missão: nossos países, que eram católicos, hoje vivem no mais desaforado indiferentismo. E não há nada que os faça sair dessa inação. A mais sábia pregação, os mais comovedores exemplos não causam nem sequer o mais mínimo interesse.

Pois Nosso Senhor promete que, nestes tempos de ineficácia, Ele dará poder aos pobres padres perdidos neste deserto de infidelidade para converter os corações mais endurecidos!

Uma última palavra sobre esta promessa. Embora ela se refira aos sacerdotes, podemos pensar que o próprio fato de haver sacerdotes conformes ao Coração de Jesus já é um dom do Divino Salvador. Um Priorado que tenha bem estabelecida a devoção ao Sagrado Coração não deixará de ter muitas e sólidas vocações sacerdotais.

 

11ª Promessa: “As pessoas que propagarem esta devoção terão seus nomes escritos para sempre no meu Coração”.

No dia da nossa confirmação recebemos o título de Soldados de Cristo. Este título nos deixa – nós, homens modernos – indiferentes. Soldado? O que quer dizer esta palavra que, desde então, passou a ser a nossa obrigação diante de Deus? Um rei, um duque ou um conde, em outros tempos, eram também chefes dos seus exércitos, e governavam seu reino por meio dos seus homens. Ser soldado, então, era ser um braço do rei; era participar do governo das posses de seu senhor. Nós, quando fomos armados cavaleiros, quando recebemos nosso título de nobreza de Soldados de Cristo pelas mãos do bispo, recebemos sobre os nossos ombros a obrigação de velar pela honra da Santa Igreja, pela difusão da Verdade, pela expansão do Reino de nosso divino Senhor.

Podemos dizer que, ao abraçar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, fomos recebidos na intimidade da sua amizade. O que é ainda mais do que ser seus soldados. Pois bem: tal título exige que disponhamos dos nossos bens, das nossas forças, das nossas atividades na difusão e expansão dessa mesma devoção. Seria uma ingratidão sem nome de nossa parte se não fizéssemos assim. Que nosso Rei seja conhecido, amado e obedecido! Qual não será a nossa glória se houvermos contribuído de alguma forma para que o Reino do Sagrado Coração tenha conquistado novas almas?

Mas isto, que não é mais do que a nossa obrigação, é visto e recompensado por Nosso Senhor como se fosse uma obra de grande valor, e Ele promete aos que assim se dediquem à expansão da sua devoção que “terão seus nomes escritos em seu Coração”. Vejam bem o que nos diz o Salvador: Ele, tomando a iniciativa, nos ofereceu sua amizade e intimidade; Ele, o Criador do céu e da terra, a quem devemos submissão. E é aqui, quando respondemos a esse convite imerecido e, orgulhosos da honra com que somos tratados, anunciamos aos nossos conterrâneos deste vale de lágrimas como é bom seu Coração generoso, que – oh, incompreensível grandeza – Nosso divino Rei se sente obrigado para conosco, e nos promete uma amizade ainda maior, colocando-nos em lugares de honra em seu amor!

 

12ª Promessa: “Eu prometo, na misericórdia excessiva do meu Coração, que concederei, a todos os que comungarem na primeira sexta-feira de nove meses consecutivos, a graça da perseverança final e da salvação eterna. Esses não morrerão em desgraça, nem sem receber os Sacramentos; e nesse transe extremo receberão asilo seguro no meu Coração”.

Esta é conhecida como A Grande Promessa. “Foi numa sexta-feira de maio de 1686” – escreve Santa Margarida Maria – “que, durante a Santa Comunhão, meu divino Mestre me disse estas palavras”. Vivemos tempos muito confusos e difíceis. A revolução chegou tão longe que tudo parece estar sob seu domínio. As almas que querem permanecer fiéis são arrastadas pelos ventos mais violentos. E esta gravíssima situação chegou ao paroxismo quando invadiu a própria Igreja e fez prisioneiras as próprias autoridades. A alma fiel parece abandonada por todos os lados, perseguida e desamparada.

Pois, em meio a esta tempestade sem igual, Nosso Senhor oferece um Porto Seguro aos que queiram atender a seu chamado. Como no pequeno barco do Evangelho. E é importante notar como em suas palavras essa devoção aparece associada ao momento de crise em que vivemos: “A devoção ao meu divino Coração é o último esforço do meu amor aos cristãos destes últimos séculos. Esta devoção, se realmente entendida, facilitará a salvação de todos, levando-os a amar-se mutuamente entre si, como Eu os amei. Quero reinar por meu divino Coração sobre a pobre humanidade destes tempos. E reinarei! Apesar da oposição de satanás e de todos os que ele instiga contra Mim.”

O que são os querubins e os serafins?

Querubim é a forma plural da palavra hebraica “cherub” e significa algo próximo a “aquele que abençoa” ou “aquele que reza” -- tratam-se de espíritos a serviço do Senhor Deus. Nós os encontramos, para citar apenas alguns lugares, após a expulsão de Adão do Jardim (Gn 3, 24) e na visão de Ezequiel (En 1, 10). Eles agem como guardiões no Antigo Testamento, seja de maneira real (Ez 28, 14), seja representados no Santo dos Santos sobre a Arca da Aliança.

Serafim é o plural de “seraph”, que significa “aquele que queima”. Nós os vemos na visão de Isaías ao redor do trono de Deus (Is 6, 1-7). Eles são descritos como possuindo seis asas e prostrados ante a divina majestade de Deus três vezes santo. Essas duas classes de seres celestiais são consideradas as mais elevadas, as mais próximas do trono de Deus.

(Trecho do livro "The best of Questions and Answers", Angelus Press)

O tempo de Fátima acabou?

A história prova Fátima. A Rússia NÃO se converteu nem está se convertendo!

O tema da minha palestra é: “O tempo de Fátima se encerrou?” Entendo por “tempo de Fátima” o tempo em que a mensagem e os pedidos de Fátima, bem como os eventos que com ela têm fortes ligações, nos trazem sua lembrança, ou lhe fazem alusão, mantêm-se atuais.

Esta aula consiste em duas partes: na primeira, nomearei alguns eventos históricos que aconteceram em datas importantes desde o ponto de vista de Fátima. Na segunda parte falarei porque a Rússia não se converteu nem está se convertendo – um dos pontos-chave para entendermos se o tempo de Fátima se encerrou, ou se ainda o estamos vivenciando. 

 

Primeira parte: A história prova Fátima. 


Não posso lembrar exatamente a primeira vez que escutei sobre Fátima. Isto ocorreu quando eu ainda era universitário ou quando ainda ia para a escola. Mas sempre me interessei por história e sempre pensei que a história do mundo tem algum propósito (a mensagem de Fátima teve grande dimensão histórica), e também como russo (Fátima teve uma grande relação com a Rússia), desde o começo fascinei-me com os eventos daquela longínqua vila portuguesa no ano de 1917 (ano que eu, como anticomunista convicto desde tenra idade, penso ser o ano mais trágico da história russa), e comecei a refletir sobre o que aquilo significava para a Rússia, para o mundo e para toda a humanidade. O que descobri foi um dos fatores que influenciaram a minha conversão à fé católica. Porém mesmo quando já era católico, durante meus estudos e pesquisas históricas, descobri mais fatos que somente reforçaram minha fé e credo na autenticidade de Fátima. 

Para mim, um dos fatos, ou melhor, série de fatos, é que muitos dos notáveis eventos históricos depois de 1917 aconteceram em “datas de Fátima” (com isso quero dizer os dias 13 dos meses de maio a outubro, com exceção de agosto, em que o dia é 19 – dias das aparições de Nossa Senhora de Fátima) e o fato de que eles provam a propagação dos “erros da Rússia” pelo mundo. Alguns desses eventos são amplamente conhecidos, outros não. Descobri a maioria dos eventos por conta própria, embora depois eu tenha encontrado alguns deles nas obras dos autores chamados “fatimistas”. 

Para relatar todos eles seria necessário escrever um livro, pois não é algo para o formato de uma curta palestra, portanto durante a minha conferência irei me ater  apenas a citar os mais impressionantes e fascinantes e, talvez, alguns pouco conhecidos. 

13 de junho de 1918 – Próximo à cidade russa de Perm, os bolcheviques assassinaram o primeiro membro da família imperial russa, ninguém menos que o grande duque Miguel, em favor do qual o imperador Nicolau II abdicou do trono na primavera de 1917. Embora Miguel não tenha aceitado o trono, de acordo com alguns historiadores e juristas ele foi, de fato, o último detentor do trono russo. A dinastia Romanov começou com Miguel e terminou com Miguel. De certo modo, podemos considerar seu assassinato simbolicamente como o fim da Velha Rússia. O corpo do grande duque até hoje não foi encontrado. 

19 de agosto de 1927 – A imprensa soviética (jornal oficial “Izvestia”) torna pública a Declaração de Sérgio Stragorodsky, ato patriarcal do então locum tenens (lugar-tenente) da igreja ortodoxa na Rússia sobre a “Lealdade incondicional da igreja ortodoxa russa ao governo soviético”. Apesar deste importante documento ter sido assinado antes, ele foi publicado exatamente no “dia de Fátima” de 19 de agosto. Infelizmente esse evento não é muito conhecido fora da Rússia, inclusive em círculos religiosos, mesmo sendo algo diretamente ligado com religião 1. O documento criou as bases de um certo fenômeno (ao qual os ortodoxos que a ele se opõem consideram heresia 2.) chamado Сергианство (Sergianismo). Na declaração, Sergio e os outros bispos que a assinaram, disseram que a igreja ortodoxa “decisivamente e irrevogavelmente" ingressou numa atmosfera "de lealdade” ao governo soviético (comunista e ateu) e sugeriu que o povo ortodoxo deixasse suas convicções políticas em casa e levasse para a igreja “apenas a fé”, ou, se eles não pudessem “fugir dos assuntos”, que a Declaração mudava apenas as “relações com o poder”, mas “a fé e a vida ortodoxa mantêm-se intactas” (o que não foi verdade) 3. No documento, Sergio também silenciou sem qualquer vergonha as perseguições religiosas na Rússia soviética, chamou as forças anticomunistas (incluindo clérigos ortodoxos) de “inimigos”, e disse que as “alegrias e sucessos” do governo soviético são “nossas (isto é, ortodoxas) alegrias e sucessos” e seus fracassos – “nossos fracassos” (sabemos porém que as “alegrias” do governo comunista incluem a destruição de igrejas e o assassinato de cristãos). Sergio todavia considerou qualquer golpe ao poder soviético como um “golpe contra nós” (ortodoxos). Porém, o mais importante é o primeiro parágrafo, citado acima. Como disse o autor russo Boris Talantov, a declaração criou uma situação em que as pessoas puderam ser chamadas ao mesmo tempo de crentes ortodoxos e leais, e cidadãos entusiastas do governo comunista 4. De modo que uma pessoa poderia acreditar em Deus, ir à igreja, rezar, comungar, etc., mas fora da igreja, a mesma pessoa poderia (e deveria) aderir fervorosa e lealmente ao regime comunista — regime que prega o ateísmo, materialismo, perseguição a cristãos, terror vermelho e assim por diante — não somente na Rússia, mas em todo o mundo. Esta é a essência do Sergianismo: A rejeição direta do Reinado Social de Jesus Cristo

Embora alguns bispos, padres e fiéis ortodoxos (que podemos chamar de um tipo de “ortodoxos tradicionalistas”) tenham sido contrários à Declaração de Sergio, logo foram silenciados, exilados ou assassinados. E fatalmente o sergianismo se tornou doutrina oficial da igreja ortodoxa (o próprio Sergio foi eleito patriarca de Moscou em 12 de setembro de 1943, com a ajuda de Stalin). E não obstante a igreja ortodoxa ter uma longa história de submissão ao poder estatal (cesaropapismo, período sinodal na Rússia, etc.), houve naquele ato algo sem precedentes: a submissão da igreja ortodoxa a um regime abertamente anti-cristão e ateu, que rompeu até com a tradicional doutrina ortodoxa sobre as relações entre igreja e estado. Outro ponto interessante sobre esse evento, é que tal mudança doutrinal aconteceu contra o plano de fundo de preservação da liturgia ortodoxa tradicional, das práticas litúrgicas ortodoxas tradicionais, etc. Quando hoje muitas pessoas do Ocidente (inclusive alguns católicos tradicionais) admiram a liturgia oriental ortodoxa, eles não entendem que essa forma tradicional não traz a essência tradicional 5. Isso foi uma astuta estratégia dos bolcheviques, verdadeiros instigadores da Declaração de Sergio, que depois de verem falhar esse primeiro atentado para destruir a igreja ortodoxa por dentro – também chamado de obnovlenchestvo (“renovação”), que incluiu a modernização da doutrina e liturgia – fizeram um segundo e mais bem-sucedido atentado (Sergianismo) para mudar a doutrina quase sem mudar a liturgia. A igreja ortodoxa e o povo ortodoxo, que foram (como podemos ver através da história) muito apegados às formas simples, frequentemente sem levar em consideração a essência, caíram vítimas desse engano. 

Curiosamente, esse evento ocorre em 1927, ano em que a Irmã Lúcia pela primeira vez recebeu do céu a permissão de revelar as primeiras duas partes do segredo de Fátima. 

Quero falar agora sobre os anos de 1929 a 1931, cruciais para todo o mundo do ponto de vista de Fátima. Por quê? Neste ano de 2017, muitas pessoas esperam algo incomum, um evento grandioso para acontecer, pois este ano é o centenário das aparições de Fátima. Mas eu, bem como outras pessoas que acreditam e se interessam por Fátima, não concordo com isso. Porque o ano em que Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia foi 1929. Em 1917 Nossa Senhora disse: “virei pedir a Consagração da Rússia...”, e de fato ela veio pedi-la em 1929 (aparição em Tuy no dia 13 de junho). Por que ela escolheu aquele ano de 1929 e por que os anos de 1929 a 1931 (em 1931 Nossa Senhora apareceu em Rianjo e disse que o papa e os bispos estavam atrasados na consagração) são tão cruciais? 

1929 – É uma interessante coincidência que esse ano tenha sido chamado na historiografia soviética de “o ano da grande virada”, pois em 1929 o governo soviético finalmente renunciou a política econômica anterior (menos radical e mais liberal) e acelerou a coletivização da agricultura diretamente contra os camponeses. A reação à essa política foi a onda de revoltas de camponeses em várias regiões da URSS entre 1929 e 1931. Em sua entrevista nos anos 80, o ex-ministro das relações exteriores de Stalin, V. Molotov, disse que considera a vitória comunista contra os camponeses russos durante a coletivização como um evento de grande importância, até mesmo mais importante do que a vitória na Segunda Guerra Mundial 6. Então ele percebeu que naqueles anos, mais que qualquer outro momento, esteve em jogo o destino da dominação comunista na Rússia, e foi quando a queda do poder comunista esteve mais próxima de acontecer. Depois a revolta dos camponeses foi esmagada e a coletivização se realizou (1931-32), a espinha dorsal da Velha Rússia, que eram os camponeses russos, foi quebrada econômica, política e culturalmente... 

1929 – Foi também o ano da crise econômica nos EUA, que começou em outubro, pouco depois do dia 13. Essa crise econômica gerou uma depressão que, de acordo com alguns pesquisadores, devido a políticas equivocadas implementadas pela administração de Herbert Hoover e Franklin D. Roosevelt, se tornou a “Grande Depressão” (curiosamente, Hoover trabalhou antes na American Relief Administration, ligada à Rússia pós-revolucionária, e Roosevelt usou conselhos de especialistas econômicos da escola keynesiana, os quais admiravam e usavam experiências soviéticas, portanto aqui encontramos novamente "erros da Rússia"7.) A Grande Depressão influenciou os panoramas econômicos e políticos de todo o mundo. 

1929 – Foi também exatamente o ano em que um prisioneiro italiano começou a escrever seus “Cadernos da prisão”. Esse homem, Antonio Gramsci, foi o fundador do partido comunista italiano e seus cadernos serviram como a base do Marxismo Cultural, uma praga que tem devastado o Ocidente moderno e, de muitas maneiras, a Rússia moderna e o mundo inteiro. Mas Gramsci não foi o inventor dessa ideologia. Ele usou a experiência dos bolcheviques que recebeu enquanto morava na Rússia soviética, em Moscou, entre 1922 e 1923 8. Ali, ele não só casou-se com uma revolucionária russa de uma família de amigos de Lenin, como conheceu o próprio Lenin e assistiu não só a implementação das políticas econômicas comunistas, mas também viu como os bolcheviques buscavam mudar a cultura tradicional. Ele observou as consequências da legalização do aborto (o estado soviético foi o primeiro na Europa a legalizá-lo), provavelmente a preparação da primeira edição da Grande Enciclopédia Soviética, na qual proclamou-se a tolerância do poder soviético à homossexualidade (ao contrário dos estados "capitalistas" ocidentais), observou os desfiles de homens e mulheres nus sob a bandeira vermelha nas ruas de Moscou (mais tarde organizada na organização bolchevique "Abaixo a vergonha!") que proclamou a vergonha como um "preconceito burguês", e o indivíduo humano como "apenas um animal", assistiu à devassidão na Rússia bolchevique, seguida da disseminação de teorias como a famosa "teoria do copo d'água" de Alexandra Kollontai, revolucionária e feminista (mais tarde primeira embaixadora mulher da União Soviética, que notavelmente não foi vítima dos expurgos de Stalin dos velhos bolcheviques e viveu confortavelmente sob o governo stalinista até o fim de sua vida em 1952) e que proclamou não existir o amor e que as relações entre homem e mulher são "apenas uma necessidade fisiológica", "como beber um copo d'água", de modo que as mulheres podem se satisfazer com qualquer homem, em qualquer momento, etc. Todas essas coisas fascinaram Gramsci e ele as usou em seu desenvolvimento do Marxismo Cultural. A Rússia “espalhará seus erros..." 

Setembro de 1931 - O Japão invade a Manchúria, na China, evento que muitos historiadores hoje consideram o primeiro da cadeia de eventos que culminou na Segunda Guerra Mundial. 

1931 - Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia: "Não quiseram atender ao Meu pedido! ... Como o Rei da França, arrepender-se-ão, e fá-lo-ão, mas será tarde. A Rússia já terá espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições contra a Igreja." 

Agora, quero falar um pouco sobre os acontecimentos na história do país que durante muitos anos foi objeto de meus estudos históricos: a Espanha. Em 1931 aconteceu uma revolução naquele país, caiu a monarquia e proclamou-se a República. Desde o início, a Segunda República Espanhola manifestou tendências anticatólicas. 

11-13 de maio de 1931 - Em diversas grandes cidades da Espanha foram queimadas, saqueadas e destruídas muitas igrejas e conventos. O governo republicano ignorou (e por vezes encorajou) tais eventos. 

13 de outubro de 1931 - Durante os debates parlamentares sobre artigos anti-religiosos e anticatólicos da nova Constituição da República Espanhola, o líder dos liberais de esquerda e futuro primeiro-ministro Manuel Azana proclamou solenemente: "A Espanha deixou de ser católica." 

13 de maio de 1936 - Após a vitória da Frente Popular de extrema esquerda (coalizão de socialistas, comunistas e liberais de esquerda apoiados por anarquistas) nas eleições gerais no inverno daquele ano, após a qual Azana se tornou presidente da República, seu sócio Santiago Casares Quiroga tornou-se o novo primeiro-ministro. Durante os famosos debates parlamentares de 16 de junho, em que o líder da oposição de direita, o monarquista José Calvo Sotelo culpou o governo da Frente Popular pela desordem e violência que naqueles dias reinavam na Espanha, Casares respondeu-lhe que se algo acontecesse, o único responsável seria o próprio Calvo Sotelo. Os radicais de esquerda que participavam da sessão entenderam essa ameaça no sentido de que, se cometessem algumas ações contra a oposição de direita e contra Calvo Sotelo pessoalmente, não seriam punidos pelo governo. 

13 de julho de 1936 - Às três da madrugada, um grupo da polícia republicana, acompanhado de membros do Partido Socialista Espanhol, chegou ao apartamento de Calvo Sotelo em Madri, eles o prenderam ilegalmente e depois o assassinaram no carro da polícia. O assassinato do líder da oposição do parlamento pela polícia estatal teve um efeito tão forte no país, que foi exatamente depois disso que muitas pessoas — entre as quais o general Franco — que ainda tinham dúvidas sobre se unir à possível insurreição contra as forças revolucionárias do governo, decidiram agir antes que fosse tarde demais. A insurreição de 17-18 de julho, que terminou em abril de 1939 com (usando as palavras do papa Pio XII) "a vitória da Espanha católica" começara. Outro fato interessante sobre isso é que José Calvo Sotelo, assassinado naquela "data de Fátima" de 13 de julho de 1936, nasceu na cidade de Tuy, numa casa situada não muito longe do convento em que a Santíssima Trindade com Nossa Senhora apareceram à Irmã Lúcia em 1929! 

Quanto à Segunda Guerra Mundial, não é amplamente conhecido o seguinte evento: 

19 de agosto de 1939 - Como se sabe, o pacto entre a Alemanha nazista e a União Soviética (conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop) foi assinado em 23 de agosto de 1939, mas de fato fora decidido anteriormente, na data de 19 de agosto. Naquele dia assinou-se o acordo de crédito Alemão-Soviético, que precedeu o Pacto final. Além disso, esta é a data do suposto discurso de Stalin (suposto porque alguns historiadores, seguindo a historiografia soviética, negaram a sua existência, no entanto outros historiadores pensam que este discurso foi real), em que ele explicou que a URSS precisava rejeitar a união com a Grã-Bretanha e a França em favor de um acordo com a Alemanha, e que interessava à URSS 9 um conflito entre Alemanha, Grã-Bretanha e França. O embaixador alemão na URSS, Schulenburg, estava convencido de que a decisão sobre o Pacto de Stalin com a Alemanha (com seu protocolo secreto) ocorrera exatamente no dia 19 de agosto. Depois da assinatura do Pacto, Hitler entendeu que Stalin não impediria suas ações na Polônia, e o caminho para a guerra mundial estava aberto. 

Penso que todos esses acontecimentos, de grande importância histórica, ocorridos nas "datas de Fátima" no período anterior à Segunda Guerra Mundial, mostram-nos claramente o significado e a autenticidade da mensagem de Fátima. Como nosso tempo aqui é limitado vou apenas citar algumas datas semelhantes do período posterior à Segunda Guerra Mundial. 

13 de outubro de 1962 — Foi o dia da primeira importante vitória da facção liberal durante o Concílio Vaticano II da Igreja Católica (referente à questão da composição das comissões do Concílio) 10. No mesmo dia, de acordo com algumas fontes, representantes da igreja ortodoxa russa do patriarcado de Moscou chegaram ao Concílio 11. O Sergianismo, um dos principais "erros da Rússia", entrou na Igreja Católica não apenas literalmente através desses representantes, mas através das inovações introduzidas nos documentos conciliares pela facção liberal, cujo objetivo era uma "adaptação" da Igreja Católica ao "mundo moderno", rejeitando o Reinado Social de Jesus Cristo. 

13 de setembro de 1963 — Foi o dia da segunda importante vitória da facção liberal no Concílio Vaticano II (quando o novo papa Paulo VI nomeou quatro cardeais-moderadores com amplos poderes, três dos quais eram liberais, assegurando e reforçando com isso o domínio liberal no Concílio). 

Chegamos agora aos tempos do colapso da URSS. Curiosamente, mais uma vez, uma das principais pessoas que, juntamente com o  presidente dos EUA Ronald Reagan, derrotou a URSS na fase final da Guerra Fria, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher nasceu na "data de Fátima", 13 de outubro de 1925. Eventos que levaram diretamente ao colapso da URSS (prisão de Gorbatchov, tentativa frustrada de golpe de Estado por parte dos comunistas linha-dura, confronto em Moscou, etc.) aconteceram nos dias 19-21 de agosto de 1991. Entretanto, o dia da Independência da Rússia (da URSS, agora hipocritamente chamado simplesmente de o Dia da Rússia) é celebrado em 12 de junho (não 13, mas no dia anterior), talvez seja uma alusão do Céu ao fato de que a conversão da Rússia, não está concluída. 

Podemos dizer realmente, mesmo levando em consideração todos os eventos históricos ocorridos nessas datas características, que a "Época de Fátima" terminou e faz parte apenas da história, como algumas pessoas dizem? Começarei agora a segunda parte da minha palestra, na qual falarei sobre o tema da "conversão da Rússia". 

 

Segunda Parte: A Rússia NÃO está convertida nem está se convertendo! 


"Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16). 

Podemos realmente dizer que a Rússia se converteu à Fé (mesmo que não para a católica, mas para alguma fé "cristã") ou que pelo menos se converteu do comunismo? 12

Sei que há uma tendência no Ocidente contemporâneo e, o que me surpreende, mesmo em círculos tradicionalistas, de considerar que a Rússia atual passa por algum tipo de reavivamento político e cultural, religioso e "tradicionalista". Como exemplo, tomarei o artigo de um respeitado autor, Robert Siscoe, que li há alguns anos em uma cópia do jornal The Remnant, adquirido por mim na capela da FSSPX na Grã-Bretanha 13. A principal mensagem deste artigo é a de que a Rússia de hoje é quase tradicional materialmente, e que precisa apenas da essência (a fé católica) para alcançar a conversão formal ou final. Infelizmente, com todo o respeito ao Sr. Siscoe, devo dizer que tal visão da Rússia atual não é mais do que um pensamento conseqüente a um desejo. Devo discordar dele categoricamente, pois a realidade que vivemos na Rússia hoje é tão distante do quadro do Sr. Siscoe, que às vezes parece-me um pesadelo. 

Não, a Rússia não se converteu nem está se convertendo, nem sequer materialmente! Pelo contrário, está cada vez pior, comparando-se à situação de 15-20 anos atrás. Nos últimos anos, a Rússia tem passado não por um renascimento espiritual, mas por um renascimento soviético, que não pode prometer nada de bom. 

Não muito longe daqui, na praça Vermelha, a múmia de Lênin ainda está em seu mausoléu satânico. Centenas de monumentos a Lênin e seus asseclas ainda estão nas praças e ruas das cidades, vilas e aldeias russas. Apenas alguns deles foram destruídos nos anos 90. Hoje, eles não só são mantidos sob o pretexto de que "tudo isso é nossa história", mas foram acrescidos de novos monumentos a ninguém menos que Josef Stalin. Sim, nos últimos anos, em diferentes lugares da Rússia, foram instalados muitos monumentos e bustos para Stalin 14. O último foi erguido (em torno da nova escultura de Lênin) na chamada "Viela dos chefes de Estado" em Moscou, inaugurado em setembro deste ano na presença do ministro da Cultura da Federação Russa e outros funcionários. Essa tendência é algo sem precedentes, porque mesmo nas últimas décadas da URSS, na Rússia, monumentos a Stalin eram praticamente inexistentes, já que tinham sido destruídos durante os tempos de Khrushchov e só agora começaram a ser reerguidos! 

Milhares e milhares de ruas de cidades, vilas e aldeias russas ainda são batizadas com nomes de Lenin e outros criminosos comunistas e assassinos em massa (não apenas russos). Basta simplesmente olhar o mapa de qualquer (qualquer!) cidade, aldeia ou vila russa na internet para entender isso! Quando propostas para rebatizá-las aparecem, geralmente são combatidas sob o pretexto de que rebatizá-las é "caro". Mas isso não é verdade, porque é barato. Além do mais, é uma hipocrisia, pois quando por exemplo algumas pessoas danificaram a grande estátua de Lenin em São Petersburgo, na praça atrás da estação de trem "Finlândia" (inclusive, para o revestimento desta praça foram usadas pedras de um cemitério católico de São Petersburgo destruído pelos bolcheviques), esta estátua foi restaurada "em todo o seu esplendor", à custa de milhões do dinheiro dos contribuintes. Por outro lado, quando surgem tentativas modestas de instalar algo que glorifique os heróis da resistência anticomunista, essas tentativas encontram hostilidade. Recentemente, por exemplo, houve uma tentativa de pendurar uma pequena placa no prédio em que viveu o almirante Kolchak, um dos líderes do Movimento Branco, que lutou contra os bolcheviques durante a guerra civil. Esta placa dizia apenas que Kolchak fora um oficial e explorador russo, não havia sequer menções sobre sua liderança do Movimento Branco ou sobre a sua luta contra o bolchevismo. Mas, de qualquer forma, as organizações pró-comunismo, depois de muitas vezes vandalizarem a placa, foram ao tribunal e ela foi removida, por decisão do tribunal e das autoridades. Assim, nos mapas das cidades russas é praticamente impossível encontrar quaisquer ruas dedicadas aos heróis da resistência anticomunista, ou mesmo aos czares ou personalidades do tempo imperial, e o mesmo acontece com os monumentos. Se existe algum, o número é tão ínfimo que é apenas uma exceção à regra. 

Há alguns anos aconteceu algo semelhante ao incidente acima em Moscou. Alguém decidiu abrir um restaurante com o nome de "Anti-Soviético". A razão não era ideológica, mas apenas uma piada, pois no lado oposto da avenida havia uma "Cafeteria Soviética". Algumas pessoas, no entanto, também foram ao tribunal, exigindo eliminar esse nome, porque era "ofensivo" (não o "soviético", mas o "anti-soviético"!). Consequentemente, o nome foi removido, e o homem que iniciou o processo contra o restaurante "anti-soviético" foi nomeado pelo prefeito de Moscou, Sobyanin, como nada menos que Representante oficial de Moscou na Alta Câmara do Parlamento russo (13 de setembro de 2013)! 

Estes são fatos de caráter ideológico, mas e a esfera espiritual? Diz-se que a Rússia passa por algum renascimento espiritual, pelo menos ortodoxo. Mas é verdade? Os espectadores ocidentais, normalmente, observam apenas a hostilidade da atual Rússia ao casamento gay e à homossexualidade. Mas não entendem que as razões contra essas coisas na Rússia geralmente não são de caráter moral e, o que é mais impressionante, é que muitas pessoas na Rússia se opõem ao casamento homossexual ao mesmo tempo em que, por exemplo, apoiam o aborto. Não parece lógico, mas é verdade. A taxa de aborto na Rússia ainda é uma das mais altas do mundo, e, o que é especialmente curioso, não há um forte movimento Pró-Vida na Rússia, em comparação aos países ocidentais, sobretudo católicos. Até mesmo a igreja ortodoxa, à exceção de poucos indivíduos, prefere não falar sobre este importante tema, temendo uma reação hostil do público (quero dizer, não de grupos liberais, mas de um espectro mais amplo da sociedade) e de autoridades. Na verdade, a igreja ortodoxa continua a política sergiana de submissão à vontade do governo, mesmo que o governo não seja muito cristão. As autoridades na Rússia, de fato, têm uma postura pró-aborto. Às vezes, elas podem fazer algumas declarações sobre o "perigo da baixa taxa de natalidade", etc., mas em geral são apenas declarações, de modo que o aborto continua sendo um tema que não se pode tocar, e os indivíduos que tentam defender a sua proibição são zombados e silenciados. Além disso, os contraceptivos, os divórcios, a pornografia, a prostituição, etc., também são comuns na atual Rússia. 

A imprensa ocidental gosta de criar a sensação de um suposto "renascimento espiritual" da fé ortodoxa na Rússia de hoje. Eles geralmente observam, neste caso, a proximidade de autoridades do governo com a igreja ortodoxa russa, e longas filas de pessoas que querem ver algumas relíquias. Quanto ao primeiro ponto, já falei sobre o Sergianismo, quanto ao segundo, eles não levam em conta a curiosidade do povo russo. O mais importante, porém, é que tais expectadores, jornalistas, etc., só têm interesse em criar uma impressão falsa (ou fake news, se quiser), eles não vão a nenhuma celebração normal de domingo na igreja ortodoxa. Caso contrário, veriam um quadro bastante diferente: um número de fiéis muito pequeno, mesmo nas grandes catedrais de cidades como Moscou e São Petersburgo, comparado por exemplo, ao número de fiéis em países como a Polônia ou até mesmo nações hoje mais secularizadas da Europa Ocidental como a Espanha e a Itália. Falei sobre os domingos comuns, porém mesmo nas grandes festas, as estatísticas testemunham a mesma tendência. De acordo com estatísticas policiais, que são mais objetivas neste caso, nas celebrações da Páscoa de 2014, por exemplo, participaram 300 mil pessoas 15. A população de Moscou é de cerca de 12 milhões de pessoas, ou até mais. Pode-se contar quão pequeno é o número de verdadeiros crentes ortodoxos na capital da Federação Russa! Na realidade, o número de crentes ortodoxos não mudou muito durante a última década e não ultrapassa os 10%, mesmo nas regiões "mais ortodoxas"; em outras é cerca de 2-4%16. Por outro lado, o número de muçulmanos vem crescendo constantemente e em festas muçulmanas é possível ver multidões de muçulmanos rezando ao redor de suas mesquitas em Moscou, São Petersburgo e outras cidades e vilas. 

Além disso a espiritualidade ortodoxa, tal como praticada na Rússia de hoje, é muito peculiar. O sergianismo está vivo não só em mera forma, mas também em essência. Nos últimos anos houve casos de "ícones de Stalin" em algumas igrejas ortodoxas. Por exemplo, um certo "ícone" foi venerado no bairro de São Petersburgo de Strelna, não muito longe do palácio do Congresso Presidencial 17. Embora esses "ícones" similares não sejam oficiais, há tendências stalinistas e pró-comunistas difundidas entre os ortodoxos na Rússia, e até entre o clero. As mesmas pessoas podem se considerar ortodoxas e louvar a União Soviética, Stalin que é descrito por alguns extremistas como um "líder ortodoxo" (sic!) e até Lenin, etc. Muitos ortodoxos pediram a canonização de Sérgio Stragorodsky, o instigador do sergianismo. Até o próprio Patriarca Cirilo pediu que se reconhecessem "as conquistas do período soviético"18.(sic!) Alguns dias atrás, na ocasião da abertura do monumento às vítimas das repressões políticas (por algum motivo, incrivelmente, não são chamadas de vítimas das repressões comunistas), Cirilo disse que o comunismo era uma "grande ideia para construir um mundo livre e justo” (sic!) e apenas a sua implementação na prática estava errada 19

O próprio presidente Putin, em janeiro do ano passado (2016), disse que "gostava e ainda gosta de idéias comunistas e socialistas" (sic!). E comparava o chamado "Código moral do construtor do comunismo" nada menos do que à Bíblia 20! Apesar de ele também ter dito depois que a "incorporação prática" dessas ideias não foi perfeita, essa declaração é, de qualquer maneira, bastante notável. Antes, Putin apresentara uma cópia do "Manifesto Comunista" de Marx e Engels como presente de aniversário ao líder do Partido Comunista da Federação Russa, Guennadi Ziuganov, e depois disse: "São para esses tempos, devemos nos orientar nessa direção"21(sic!). 

Portanto o que está se passando na Rússia agora não é um renascimento espiritual, mas um renascimento soviético (ou neossoviético), envenenando todas as esferas da vida. Quem for a qualquer grande livraria de Moscou, São Petersburgo, etc., verá dezenas ou até centenas de livros de autores que podemos chamar de "revisionistas soviéticos". Pode-se ver prateleiras de livros sobre Stalin, por exemplo, a maioria enaltecendo-o como "grande líder", "gestor eficaz", etc., e rejeitando os fatos das repressões soviéticas, dizendo que "elas nunca aconteceram" ou justificando-as; livros enaltecendo outros líderes soviéticos, até mesmo os mais sangrentos deles, como Beria, etc., e livros justificando a URSS 22. Comparado com eles, o número de livros que contam a verdade sobre as atrocidades comunistas, sua ideologia, seus líderes, etc., e livros sobre os heróis da resistência anticomunista é muito pequeno. O povo russo está hoje ativamente submetido a uma lavagem cerebral por essa propaganda neossoviética. Quem assistir canais de TV estatais russos (não canais como RT para espectadores estrangeiro, mas para o espectador doméstico em primeiro lugar), verá muitos filmes, séries, documentários que, se não elogiam, ao menos apresentam o período soviético como heróico, inofensivo e até mesmo "fofo" (como talvez não perfeitos, mas "velhos bons dias"). Diversas pessoas pró-soviéticas e pró-stalinistas participam regularmente de programas de entrevistas nos canais de TV russos (para o espectador doméstico, em primeiro lugar) como convidados bem-vindos, geralmente com apoio do público 23. Alguns anos atrás também foi aprovada uma lei que proíbe a crítica às ações do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e a comparação da União Soviética com a Alemanha nazista 24. Mitologia soviética e arquétipos, estereótipos e slogans da propaganda soviética são ativamente usados hoje na política externa russa, especialmente nas relações com países vizinhos e ex-membros da URSS. Essa propaganda esteve especialmente ativa durante as últimas crises na política externa. Quando durante esse período assisti aos canais estatais da televisão russa e li fontes pró-governo na internet, pareceu-me que tinha voltado à URSS, porque toda a retórica estava repleta de clichês tirados diretamente dos tempos soviéticos. Na arena da política externa, a Rússia agora tem amizade com a Venezuela socialista, Cuba, Coréia do Norte e China comunistas, Irã islâmico, etc. A única coisa boa que posso apontar sobre a atual política externa russa são suas ações na Síria, mas elas estão sendo realizadas por razões outras que a defesa dos cristãos ou do cristianismo. 

Se compararmos a Rússia atual com a Rússia dos anos 90, por exemplo, veremos que se nos anos 90 o principal discurso ideológico se houve algum em que existiu algum elemento de arrependimento dos crimes do comunismo era sobre o assassinato da família do imperador Nicolau II; agora o principal discurso ideológico do regime é a vitória na Segunda Guerra Mundial, que, não importa como seja abordada, foi também uma vitória comunista. Sob o prazer dessa vitória, muitas coisas soviéticas (de bandeiras vermelhas, agitadas maciçamente nas ruas hoje, até justificativas ideológicas ao regime comunista e suas diversas ações), como disse anteriormente, estão retornando às nossas vidas.

Na verdade, a sociedade contemporânea russa de líderes a pessoas comuns que critica ativamente o liberalismo em palavras, na prática, conscientemente ou inconscientemente, professa um dos princípios fundamentais do liberalismo: o relativismo moral. Especialmente em relação à sua própria história. "Tudo isso é a nossa história": é o chavão das pessoas que tentam defender os monumentos de Lenin, os crimes de Stalin, etc. Mas elas não entendem que não há "simplesmente história", o que há é boa história e má história, e para começar uma nova vida feliz, um homem ou um país deve avaliar o seu passado e condenar os seus pecados, tentando não repeti-los. 

Mas esta simples verdade cristã é o que está faltando na Rússia hoje! A maioria esmagadora do povo russo, do governo até à igreja (ortodoxa) e os homens comuns, está em estado de atrofia moral. Eles não têm arrependimentos pelos crimes do comunismo soviético nem compaixão por suas vítimas, eles se recusam a condenar essa ideologia maligna, que causou tanto dano não só ao mundo, mas em primeiro lugar ao próprio povo russo. Pelo contrário, como uma vítima da "síndrome de Estocolmo", a sociedade russa, à exceção de alguns indivíduos corajosos, começa a justificar e até louvar aquela época, tentando diminuir ou até mesmo rejeitar como "mentiras" (inventadas por “malfeitores anti-soviéticos") as atrocidades do regime comunista, ou mesmo aprovando-as, dizendo que eram “corretas e justas” e que as vítimas dos comunistas eram “traidores, fascistas”, etc.; ou até mesmo começa a inventar mitos óbvios, como o de que a URSS era "um país cristão" (não explicitamente, mas "em sua alma" e ações, dizem) e que Stalin era "um czar ortodoxo", "fiel disfarçado" e teorias malucas parecidas 25. Ou pelo menos, diz-se que o comunismo era uma "idéia boa e bonita", apenas sua implementação não foi tão perfeita etc. Pergunte a qualquer um nas ruas da atual Rússia o que pensa sobre o período soviético, o comunismo, Stalin, Lenin, etc. A resposta da maioria será positiva ou indiferente, mas dificilmente será negativa. De acordo com uma recente enquete do principal centro de pesquisa, 38% da população considera Stalin como "o maior homem da história"(!), 32% considera Lenin 26. Outras pesquisas indicam que o número de pessoas que considera as repressões como "um crime político" diminuiu nos últimos cinco anos de 51% para 39% 27

Mas nós, como cristãos, sabemos que sem arrependimento não há absolvição! Enquanto a sociedade russa, o povo russo, não entender a natureza perversa da ideologia comunista como tal e não condenar explicitamente a ideologia comunista e o regime soviético, não haverá conversão. Não se pode ser cristão e ao mesmo tempo elogiar, ou pelo menos justificar, o regime comunista. É preciso rejeitar o regime comunista completamente com todos os seus crimes, etc. Agora, porém, a Federação Russa é a sucessora legal da URSS, tem o hino nacional da era soviética (embora com outras palavras), festas soviéticas, a era soviética é louvada por parlamentares, funcionários, publicitários e até padres; milhares de ruas das cidades russas, vilas e aldeias ainda glorificam "heróis" bolcheviques e nelas ainda se levantam monumentos para eles. E, no centro da capital russa, em seu mausoléu satânico, se encontra a múmia do principal bolchevique, Lenin... 

Sim, a maioria dos russos atualmente não é comunista, mas ainda é soviética. "Soviético" é uma categoria mais ampla do que "comunista", relaciona-se não só com o partido, mas também com a mentalidade e com o estado. A mentalidade da maioria do povo russo agora, de funcionários do governo a trabalhadores comuns, na realidade ainda é "soviética", e mesmo a geração mais jovem foi envenenada de sovietismo por seus avós ou pelos livros didáticos, que ainda estão cheios de paradigmas marxistas, porque nos anos 90 as pessoas foram preguiçosas para limpá-los desse veneno. O povo russo ainda gosta de coisas que gostava nos tempos soviéticos e odeia coisas, pessoas e países que odiava naquele período, por causa das diretivas do poder soviético (por isso se opõem ao casamento gay, porque não existia naqueles tempos, ao mesmo tempo que apoiam aborto e divórcio), as divergências em relação a isso são pouco comuns 28

Na esfera espiritual, também não podemos ver nenhuma tendência positiva real. Além do aborto, há o divórcio (Putin, Sobyanin e outros são homens divorciados), etc. Quem simplesmente for às ruas de Moscou, São Petersburgo e outras cidades, verá o mesmo comportamento imoral, a mesma moda imoral, o mesmo envenenamento pelo Marxismo Cultural que existe nos países ocidentais modernos. Não há diferença. Em pequenas cidades e vilarejos, destruídos pela coletivização comunista, a decadência é ainda mais visível. Mas a situação na Rússia é ainda pior, porque diferentemente dos países europeus e americanos, em que existem, mesmo que pequenas, saudáveis forças de oposição tradicionalistas, conservadoras, anti-comunistas ou anti-liberais, na Rússia só existem forças pseudo-conservadoras soviéticas (ou semi-soviéticas), que justificam o comunismo criminoso, ou os liberais pró-Ocidente contemporâneo. Para pessoas de mentalidade realmente tradicional, qualquer uma dessas alternativas é inaceitável. Essa é a devastação que a URSS deixou para trás. 

Entretanto, não há nada de errado em rejeitar os pecados do passado e condená-los! Muito pelo contrário, depois disso (mas somente depois disso), uma nova vida feliz começará! Ademais, neste caso, um grande futuro aguarda a Rússia e o mundo — tempo do triunfo do Imaculado Coração, da paz e do reinado de Maria... Mas é evidente que agora a Rússia não pode fazer isso sozinha, ela precisa da ajuda urgente do céu. 

A sociedade russa está doente, há décadas que ela sofre lavagem cerebral de propaganda comunista e, agora, neo-soviética. Está doente a tal ponto que, como às vezes penso, pode dar nascimento a uma construção ainda mais monstruosa do que foi a URSS, ou pode ser salva por um milagre. Esta não é uma opinião apenas minha, mas de muitos conhecidos meus, católicos tradicionais ou não. 

Acredito que todos os fatos (que podem ser facilmente provados) citados em minha palestra falam por si mesmos. E que a resposta para a pergunta de se a Rússia foi convertida ou está se convertendo é evidente. A Rússia não foi convertida nem está se convertendo, pelo contrário, vai agora na direção oposta. Significa que o "Tempo de Fátima" está longe de terminar, nós ainda o vivemos. O mundo moderno está envenenado pelos "erros da Rússia": o Ocidente pelo Marxismo Cultural e a Rússia pelo sovietismo e pelo relativismo moral, e que justifica e se recusa a condenar tanto os crimes dos comunistas como essa ideologia maligna. O único meio de salvar o mundo foi definido pelo Céu em Fátima e Tuy. A Rússia precisa urgentemente da consagração! É nossa única esperança. 

Falei anteriormente sobre um milagre. Este milagre nos foi prometido por Nossa Senhora em Fátima. Quando isso vai acontecer, e depois de todo tipo de infortúnios, depende do papa, dos bispos e de nós também. 

P.S: Alguns eventos importantes aconteceram depois desta palestra, que são provas até maiores da tese principal nela apresentada — que a Rússia nem se converteu, nem está em vias de converter-se. Por causa de sua relevância, penso que é importante mencioná-los aqui na forma deste Post Scriptum

Em primeiro lugar, deve-se dizer que, no novo documentário, filmado em janeiro de 2018, o presidente russo Vladimir Putin disse que "o comunismo é muito semelhante ao cristianismo", porque em sua opinião, ambos se baseiam em idéias de "liberdade, igualdade, fraternidade"29. Mas sabemos que na realidade a tríade "liberdade, igualdade e fraternidade" é o slogan maçônico, e não cristão! 

Além disso, Putin repetiu novamente sua infeliz comparação do "código do construtor do comunismo" com a Bíblia, e ainda mais blasfemamente comparou a múmia de Lenin, ainda deitada no mausoléu em Moscou, com relíquias sagradas de santos cristãos! 

Além disso, Guennadi Ziuganov, chefe do Partido Comunista Russo, disse que Putin prometeu-lhe que enquanto permanecer como presidente, o corpo de Lenin permanecerá no mausoléu na Praça Vermelha. De acordo com Ziuganov, Putin também rejeitou as alegações de que Lenin não foi enterrado de acordo com as tradições cristãs 30, ignorando assim um óbvio caráter oculto e o simbolismo do mausoléu. 

O segundo evento notável aconteceu quase simultaneamente. A nova comédia britânica "A Morte de Stalin", de Armando Lanucci, foi proibida na Rússia. Não discutiremos aqui a qualidade ou precisão histórica desse filme, mas o que é importante para nós é o fato de que ele foi rotulado como "extremista" e "ofensivo à história russa (sic!)" por burocratas, políticos, ativistas culturais e até sacerdotes ortodoxos, porque zomba de líderes soviéticos! O autor pró-stalinista Nicolai Starikov chamou o filme de parte de uma "guerra de informação anti-russa (sic!)". O ministro da Cultura da Federação Russa, Vladimir Medinsky disse que o filme será visto pelo público em geral, na sua opinião, como uma "zombaria de todo o passado soviético" e Pavel Pozhigailo, o então chefe do conselho público do Ministério da Cultura da Federação Russa, chamou isso de "ofensivo aos comunistas" (sic!) 31. Como se os comunistas e o passado soviético fossem algo sagrado para a atual Rússia (e de fato eles são, como podemos ver nos numerosos exemplos mencionados nesta palestra, para muitas pessoas, de oficiais de alto escalão a pessoas comuns nas ruas, para sua própria infelicidade e para a infelicidade da Rússia). 

Em todos esses exemplos, podemos ver que o espírito soviético está longe de morrer na Rússia, ao contrário, ele está ressuscitando agora em uma forma neo-soviética! Isto prova claramente que a conversão da Rússia não foi concluída nos anos 1980-90 e não está acontecendo agora, pelo contrário, muitos processos e eventos alarmantes, como os dois mencionados neste Post Scriptum, são o grito pela necessidade urgente de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, exatamente como foi pedido em Fátima e em Tuy! Quanto antes melhor! Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós! 

  1. 1. Além disso, não há muita informação sobre o tema em inglês ou outras línguas, e este evento é considerado como caso estritamente ortodoxo, embora na realidade não seja, especialmente à luz de Fátima.
  2. 2. Veja, por exemplo: Moss V. Sergianism as an Ecclesiological Heresy. http://www.euphrosynoscafe.com/www.saintbasilchurch.org/10.html
  3. 3. Texto da Declaração com links para opiniões a favor e contra dos seus contemporâneos, pode ser visto aqui: http://www.krotov.info/acts/20/1927/19270729.html
  4. 4. Talantov B. Sergianism, or Adaptation to Atheism (the Leaven of Herod). http://orthodoxinfo.com/ecumenism/cat_tal.aspx
  5. 5. Eles não sabem também, que o nome atual da Igreja Ortodoxa Russa (Russkaya), do Patriarcado de Moscou também vem dos tempos de Stalin, porque antes o nome era outro — Igreja Ortodoxa Greco-Católica Russa (Rossiyskaya) (Cafólica (Kafolicheskaya)) aqui é a palavra grega, semelhante à católica (Katolicheskaya), mas usada pelos ortodoxos não no sentido de orientação a Roma ou a união com ela, é claro. Assim, a continuidade entre a ortodoxia russa pré-revolucionária e sua versão soviética é duplamente duvidosa.
  6. 6. https://www.e-reading.club/chapter.php/64297/131/Chuev_-_Sto_sorok_besed... // Чуев Ф. Сто сорок бесед с Молотовым. М., 1991.
  7. 7. Veja, por exemplo: Shlaes A. The Forgotten Man. A new history of the Great Depression. 2007.
  8. 8. Em Moscou, não muito longe do Kremlin, é possível ver uma placa comemorativa na casa em que Gramsci morou em 1922-23 (Rua Mokhovaya, 16) próxima à casa do sangrento revolucionário húngaro Béla Kun, que também morava lá, e outros.
  9. 9. Em inglês, por exemplo, aqui: http://theeasternfront.org/mein_sozialismus/downloads/articleI.pdf
  10. 10. Veja: Wiltgen R. M. (S.V.D.). El Rin desemboca en el Tiber. Historia del Concilio Vaticano II. Madrid, 1999., p. 21.
  11. 11. Veja note 68, p. 339 of: Socci A. El Quatro Secreto de Fatima. Madrid., 2012.
  12. 12. [N. do E.] O Pe. Alonso, maior estudioso de Fátima, ensinava o seguinte acerca deste ponto: “É preciso afirmar que Lúcia sempre julgou que esta conversão não se resume ao retorno do povo russo à religião ortodoxa, com a rejeição do marxismo ateu dos soviéticos. Antes, refere-se pura, simples e totalmente à conversão total da Russia à única verdadeira Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica”.
  13. 13. Siscoe R. Is Russia Converting? The material preparation for the Consecration. // The Remnant, September 15, AD 2013, Volume 46, Number 15.
  14. 14. A longa lista (com lugares e datas de construção) pode ser vista, por exemplo, aqui: Памятники Сталину. https://ru.wikipedia.org/wiki/Памятники_Сталину#Современные_памятники
  15. 15. Пасху в Москве встретили около трехсот тысяч человек. Интерфакс/Interfax, 20 апреля 2014. http://www.interfax.ru/moscow/372712.
  16. 16. As estatísticas policiais de diferentes regiões da Rússia podem ser vistas, por exemplo, aqui: Данные о посетивших пасхальные богослужения в 2014 г. http://www.sova-center.ru/religion/discussions/how-many/2014/04/d29380/
  17. 17. Sobre o "ícone" de Strelna com uma imagem e um comentário bastante interessante do pároco, veja, por exemplo, aqui: http://www.fontanka.ru/2008/11/26/078/ Sobre outro caso mais recente de "bênção" de um “ícone” similar na base aérea militar perto da cidade de Engels na região de Saratov (por ocasião, uma das áreas na qual antes dos tempos de Stalin viviam muitos católicos russos de origem alemã), veja, por exemplo, aqui: https://www.saratovnews.ru/news/2015/06/16/aleksandr-prohanov-bydet-rato... prichislenii-geroev-vov-k-liky-svyatyh/
  18. 18. Veja aqui: http://www.ng.ru/faith/2016-05-26/2_patriarh.html
  19. 19. Veja aqui: http://www.dw.com/ru/комментарий-день-памяти-жертв-репрессий-день-триумфа- кгб-трусости-и-унижения/a-41176479.
  20. 20. Artigo em um dos principais jornais russos "Novaya Gazeta" sob o nome notável "Putin falou sobre suas simpatias às idéias do comunismo e do socialismo", aqui: Путин рассказал о симпатии к идеям коммунизма и социализма. // Новая газета, 25.01.2016. // https://www.novayagazeta.ru/news/2016/01/25/117979-putin-rasskazal-o-sim... kommunizma-i-sotsializma.
  21. 21. A reportagem do canal controlado pelo governo NTV pode ser vista e lida aqui: Путин с "намеком" подарил Зюганову на юбилей фигурку Чапаева. http://www.ntv.ru/novosti/1075237
  22. 22. Por exemplo, obras de autores como: Mukhin, Starikov, Puchkov, Dugin, S. Kara-Murza, Kremliev, Martirosyan, Dukov, Wasserman, Kalashnikov, etc. – mencionando apenas alguns deles.
  23. 23. Por exemplo, personalidades como Kurginyan, Prokhanov, etc.
  24. 24. A iniciadora desta lei foi a parlamentar Irina Yarovaya, ex-membro do partido Liberal "Yabloko" e agora membro do partido pró-governo "Rússia Unida". Yarovaya foi especialmente atuante na promoção pró-soviética e também no controle da Religião, Internet, etc. da parte do estado, que foram iniciativas nos últimos anos. Ela também é apoiadora do sistema judiciário juvenil.
  25. 25. Essas teorias bobas se propagam em muitos livros que são vendidos até em respeitadas livrarias russas.
  26. 26. https://www.levada.ru/2017/06/26/vydayushhiesya-lyudi/
  27. 27. https://www.levada.ru/2017/05/23/zlonamerennoe-bezrazlichie/
  28. 28. Não há muitos trabalhos em inglês sobre esse tema importante. Um dos poucos e, provavelmente o melhor e o mais detalhado, embora com algumas tendências liberais, é: Satter David. It Was a Long Time Ago, and It Never Happened Anyway. Russia and the Communist Past. 2012.
  29. 29. Veja o relatório do canal RT oficial pró-Putin aqui (em inglês): https://www.rt.com/news/415883- putin-communist-ideology-christianity/ - ou aqui (em espanhol): https://actualidad.rt.com/actualidad/259997-putin-comunismo-cristianismo... - A única imprecisão, é que em "liberdade, igualdade, fraternidade" foi adicionado "justiça", mas se olharmos para o documentário, veremos que foi adicionado pelo questionador do documentário, não por Putin diretamente.
  30. 30. Ibid.
  31. 31. Mais detalhes veja, por exemplo, aqui (em inglês): https://www.theguardian.com/world/2017/oct/14/in- russia-nobodys-laughing-at-armando-iannucci-death-of-stalin – ou aqui (em espanhol): http://www.el- nacional.com/noticias/entretenimiento/nuestro-amigo-comun-muerte-stalin-renacimiento-censura_221417 – ou aqui (em russo): https://meduza.io/feature/2018/01/23/eto-ne-yumor-ya-byl-znakom-s-gaydaem.