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Thesauri

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Conclusão: nossa atitude em face da nova missa

Pe. François-Marie Chautard

 

Se juntarmos as diversas peças deste dossiê, poderemos constatar sobretudo:

- A existência de uma clara protestantização do novo rito da missa com uma desagregação da fé: “se nós considerarmos as inovações sugeridas ou dadas por definitivo, as quais podem naturalmente serem avaliadas de diferentes modos, o Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento.”1 Essa missa protestantizada engendra naturalmente, naqueles que a assistem regularmente, uma perda do senso de fé2 

- Um risco de invalidade.

 

Esses dois defeitos levam a duas conclusões:

  • Uma missa que afasta as almas da fé não pode vir do Espírito Santo e até mesmo se pode dizer que se opõe a Ele. Não se trata de uma missa católica; 
  • Assim sendo, não se deve participar dela, não apenas para não se deixar gangrenar, mas mesmo para não cooperar com um rito que destrói a fé na Igreja, e para não participar de uma profissão de fé equívoca. “Esta missa está envenenada. Esta missa é má, ela conduz à perda da fé pouco a pouco, logo, nós nos vemos obrigados a recusá-la.”3

“No tocante à missa nova, afastemos logo essa idéia absurda: se a missa nova é válida, podemos participar dela. A Igreja sempre proibiu assistirmos as missas dos cismáticos e dos hereges, mesmo se fossem válidas. É evidente que não se pode participar de missas sacrílegas, nem a missas que põem a fé em perigo.”4

 

Consequência prática

“Os católicos fiéis devem fazer de tudo para guardar a fé católica intacta e íntegra: logo, assistir a missa de sempre quando acessível, ainda que fosse uma vez por mês; oferecer sua colaboração ativa para ajudar os padres fiéis na celebração dessas missas de sempre, com os sacramentos segundo os antigos ritos e o catecismo tradicional.

Aqueles que estiverem impossibilitados de assistir a missa, rezem o missal aos domingos em família se possível, como fazem os católicos em terras de missão, que não tem a visita do padre por mais de duas ou três vezes no ano, às vezes, uma única vez no ano!

Essas instruções são dadas afim de que cada um possa adotar a linha de conduta mais favorável para a preservação da fé. É claro que o preceito dominical obriga quando a missa de sempre é normalmente acessível.

É a época do heroísmo; não é uma graça de Deus viver nesses tempos conturbados, afim de reencontrar a Cruz de Jesus, seu sacrifício redentor, estimar em seu valor justo essa fonte de santidade da Igreja, de recolocar em honra, de melhor apreciar a grandeza do sacerdócio? Melhor compreender a Cruz de Jesus é elevar-se no Céu e aprofundar a verdadeira espiritualidade católica do sacrifício, do sentido de sofrimento, de penitência, de humildade e de morte.”5

  1. 1. Breve exame crítico, no. 1.
  2. 2. Isto se perceber notadamente na concepção ecumênica e salvífica da salvação. Para aqueles que, habitualmente, seguem a missa nova, as almas podem continuar a praticar qualquer religião, ainda que fosse melhor se converter. Aconteça o que acontecer, irão para o céu, como a grande maioria das almas.
  3. 3. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 21 de janeiro de 1982.
  4. 4. Dom Marcel Lefebvre, 8 de novembrode 1979. Nota sobre o NOM e o papa.
  5. 5. Dom Marcel Lefebvre, 20 de janeiro de 1978.

Catolicismo e astrologia

 

Parte I: O Ensinamento dos santos doutores

Santo Tomás, logo no início de sua epístola sobre o tema, afirma que não procurará escrever senão sobre aquilo que ensinaram os santos doutores (ea quae a sacris doctoribus traduntur). Com efeito, a oposição às adivinhações astrológicas e outras supertições não é uma peculiaridade do Aquinate — ao contrário, é ela quase tão antiga quanto a própria Igreja. Façamos um breve retrospecto e ouçamos a voz da Igreja.

Talvez a primeira coisa que se deva dizer acerca da consulta aos astros é que ela está formalmente condenada desde os primeiros séculos da Igreja, como se vê no Denziger:

[Dz 35] Se alguém pensa que se deve crer na astrologia, seja anátema. [Concílio de Toledo, ano 400].

E, novamente, pelo Papa João III, no século VI:

[Dz 239] Se alguém crê que as almas humanas estão ligadas a um signo fatal, como disseram os pagãos e Prisciano, seja anátema.

Estas definições, suficientes para todo católico que não tem nem quer ter espírito de revolta, foi ainda repetida por inúmeros Santos, Doutores e Teólogos. Mesmos em tempos mais recentes, não deixou o Magistério de condená-la, como se vê em trechos do Catecismo de S. Pio X.

As condenações à astrologia são antiquissimas. Se tentássemos fazer uma história destas condenações, começaríamos com as próprias Sagradas Escrituras: Dt. 4:19, 17:3, 2 Rs. 17:16, 21:3 Jr. 8:2.

Passaríamos, em seguida, ao Catecismo dos Apóstolos, chamado Didaqué:

“[...] Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a idolatria.” [Didaqué, ed. Paulus, 1989, pp. 12-13]

Mais um passo, e encontraríamos as objeções dos Padres da Igreja. Citemos alguns autores:

— Tertuliano: “Observamos entre as artes algumas acusáveis de idolatria. Dos astrólogos, nem deveríamos falar; mas como nesses dias um deles nos desafiou, defendendo em proveito próprio a perseverança nesta profissão, direi algumas palavras. Alego não que ele honre ídolos, cujo nome escreveu nos céus, para quem atribui todo o poder de Deus... Proponho o que segue: aqueles anjos, os desertores de Deus [demônios]... eram muito provavelmente os descobridores dessa curiosa arte [a astrologia] por isso mesmo condenada também por Deus” (Idolatria 9 [211 D.C ]).

— Hipólito: “Quão impotente é o sistema [astrológico] para comparar as formas de disposições dos homens com os nomes das estrelas!” (Refutação de Todas Heresias 4:37 [228 D.C.]).

— Taciano o Sírio: “[Sob a influência de demônios] os homens formam o material de sua apostasia. Tendo a eles mostrando o plano da posição das estrelas, como jogadores de dados, introduzem o Destino, uma injustiça patente. O julgamento e o julgado são feitos pelo Destino, os assassinos e os assassinados, os afluentes e os necessitados – [todos são] o produto do mesmo Destino” (Discurso Aos Gregos 8 [D.C. 170])

 

Escutemos agora os Doutores da Igreja:

— Sto. Atanásio: “Donde ser verdade que os autores de tais livros [os astrólogos] acarretaram a si próprios uma dupla reprovação, pois aprofundaram-se em uma desprezível e mentirosa ciência”. (Carta de Páscoa 39:1 [D.C. 367])

— Sto. Basílio Magno: “Aqueles que ultrapassam os limites, fazendo das palavras da Escritura sua apologética para a arte de calcular temas de genitura [horóscopos], pretendem que nossa vida dependa da moção dos corpos celestes, e assim os Caldeus leem nos planetas o que nos ocorrerá”. (Os 6 dias da Criação 6:5 [D.C. 370])

— Sto. João Crisóstomo: “(...) E de fato uma treva profunda oprime o mundo. É ela que devemos fazer dissipar e dissolver. E tal treva não se encontra somente entre os heréticos e os gregos, mas também na multidão do nosso lado, no que diz respeito às doutrinas da vida. Pois muitos [os Católicos] descrêem inteiramente na ressurreição; muitas fortificam-se com o horóscopo; muitos aderem a práticas supersticiosas, augúrios e presságios”. (Homilias sobre Coríntios I, 4:11 [D.C. 392])”.

— Sto. Agostinho: "O bom cristão deve precaver-se de astrólogos e outros adivinhadores ímpios" (cit. na Suma Teológica de Sto. Tomás, IIa IIae., q.95, art.5).

Para não nos alongarmos demasiadamente em citações, mencione-se apenas que também condenaram a astrologia Sto. Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias, Sto. Boaventura, no Hexaemeron (onde qualifica a astrologia de “abuso da razão”), Sto. Afonso Maria de Ligório, doutor em teologia moral, para quem praticar astrologia é incorrer em pecado mortal (Comentário aos Dez Mandamentos).

Parte II: A posição de Santo Tomás de Aquino

Para maior esclarecimento quanto à posição de Santo Tomás de Aquino, publicamos estas notas extraídas das “Conclusões” do capítulo X do livro "Les corps célestes dans l´univers de saint Thomas d´Aquin", de Thomas Litt, O.C.S.O (Publications Universitaires — Louvain, Belgique, 1963, p. 240-241). Entre colchetes, algumas observações de nossa autoria:

 

Finalmente cremos poder resumir como segue a posição de Santo Tomás com respeito à astrologia:

 

1. Ele afirma como absolutamente certo o princípio geral de uma influência universal dos corpos celestes sobre todos os eventos corporais da terra, incluídos os eventos fisiológicos concernentes aos animais e aos homens.

É para ele uma certeza filosófica absoluta; é, ademais, uma verdade de senso comum (II Sent., 15, 1, 2, c.) e é também uma verdade ensinada pelas "autoridades dos santos" (ibidem); ele cita notadamente Dênis e Santo Agostinho (p.ex., Ia, 115, 3, sed contra).

[A influência admitida restringe-se aos eventos corporais. Nisso, na Suma Contra os Gentios, Santo Tomás é taxativo: "é impossível que a operação intelectual esteja sujeita aos movimentos celestes" (III. 84). Da mesma forma, nega qualquer influência dos astros sobre nossa vontade, como se vê na epístola supra, "... é preciso absolutamente compreender que a vontade do homem não está sujeita à necessidade dos astros". Assim, Santo Tomás exclui do raio de influência dos astros justamente as faculdades que especificam o homem — os intelectos e a vontade.]

 

2. Ele afirma com igual certeza que a influência dos corpos celestes sobre os atos humanos é indireta e jamais necessitante. Acrescenta que a opinião contrária é herética, porque exclui a liberdade humana.

[Isso fica claro nessa passagem da C. G. (III. 85): "[os corpos celestes] podem ser, não obstante, causa ocasional indiretamente (...)". E o exemplo clarifica: "por exemplo, quando por disposição dos corpos celestes o ar se esfria intensamente, decidimos esquentar-mo-nos no fogo ou outras coisas em consonância com o tempo".]

 

3. Ele não se pergunta nem uma única vez se o axioma ou postulado astrológico fundamental é fundado ou não: a importância decisiva, sobre todo o futuro de um homem, da configuração do céu no momento de seu nascimento (tema de genitura).

Não encontramos senão uma só vez em Santo Tomás a palavra nativitas no sentido de tema de genitura: na citação do Centiloquium que referimos na p. 233. Esta citação é aliás a única predição astrológica concreta que encontramos, e é introduzida por uma formula muito dubitativa.

Sucede-lhe outra vez mencionar os patronatos estrelares dos sete dias da semana, mas é para observar que se pode, sem perigo para a fé, adotar ou rejeitar essa teoria.

 

4. Ele admite que, em princípio, os astrólogos predizem corretamente o futuro dos homens. Eis as dez referências que conhecemos. Nas três últimas em data, diz que as predições são justas ut in pluribus.

II Sent., 7, 2, 2, ad 5: Quando as predições têm em vista os atos humanos livres, são amiúde falsas.

II Sent., 15, 1, 3, ad 4: As predições são verdadeiras, mas porque os demônios ajudam o astrólogo.

II Sent., 25, 2, ad 5: As predições fazem-se conjecturaliter et non per certitudinem scientiae.

C. G. III, 84: Os astrólogos podem julgar do nível intelectual de um homem (não há indicação sobre a frequência dos julgamentos justos).

C. G. III, 85: A impressão das estrelas produz seu efeito na maior parte dos homens, a saber, naqueles que não resistem a suas paixões.

C. G. III, 154: Os demônios podem fazer muitas predições justas (mais acima Santo Tomás mais ou menos equiparou a ciência das demônios e a dos astrólogos).

De sortibus, c. 4, n. 660: Os astrólogos predizem justamente quandoque, e enganam-se amiúde nas predições particulares.

Ia., 115, 4, ad 3: Os astrólogos predizem justamente ut in pluribus, sobretudo nas predições gerais.

Ia.IIae., 9, 5, ad 3: Eles predizem justamente ut in pluribus.

IIa. IIae., 95, 5, ad 2: Eles predizem justamente frequenter.

5. Acerca da licitude da adivinhação astrológica, temos seis textos, onde o ensinamento permanece constante ao longo da carreira de Santo Tomás, sem que se possa discernir uma evolução nem para mais nem para menos severidade.

A doutrina resume-se a isto: não é supersticioso nem ilícito buscar prever pelos astros as secas, as chuvas etc. É supersticioso e ilícito buscar prever pelos astros as ações livres humanas, e, segundo a autoridade de Santo Agostinho, o demônio imiscui-se amiúde nesse gênero de consultas, que se tornam por isso mesmo um pacto com o demônio.

Intenção e validade do novo rito

Pe. François-Marie Chautard

Um sacramento pode ser inválido se falta a matéria (por exemplo, usando-se arroz ao invés de pão), a forma (por exemplo, ao dizer: «este é o corpo de Cristo») ou o ministro (um leigo ao invés de um padre), ou ainda se a intenção do ministro for falsa.

Para que a intenção do ministro baste para a validade de um sacramento, ele tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz. Ora, o que faz a Igreja na missa tradicional é sem nenhuma ambiguidade: de toda evidência, a Igreja oferece um sacrifício propiciatório. Mas, todo o problema do novo rito, é que ele significa, de uma maneira ambígua a presença real, bem como a oferenda de um sacrifício, isso sob uma clara influência protestante. Os protestantes assinalaram: o novo rito é tão ambivalente, que é possível lhe atribuir tanto um sentido protestante como um católico. 1

Dito de outro modo, a intenção expressa pelo NOM é dúbia. Tudo dependerá, portanto, da intenção subjetiva do celebrante, uma vez que faz falta a intenção objetiva do rito.

“É pelo ofertório que o padre exprime claramente a sua intenção. Ora, isso não existe mais no novus ordo. A nova missa pode, portanto, ser válida ou inválida segundo a intenção do celebrante, enquanto que, na missa antiga, é impossível para alguém que tem a fé não ter a intenção precisa de fazer o sacrifício e de fazê-lo segundo os fins previstos pela santa Igreja.”2

Isso coloca um novo problema: a deformação do clero é tamanha, as heresias se difundiram a tal ponto pela Igreja, que há uma dúvida sobre a intenção autenticamente católicas dos padres que celebram a missa. Quando se vê, por exemplo, a leviandade com que muitos padres tratam as hóstias “consagradas”, podemos duvidar da sua fé na presença real e, portanto, da sua intenção católica ao celebrar a “eucaristia".

“Todas essas mudanças do novo rito são realmente perigosas, porque, pouco a pouco, sobretudo para os jovens padres que não tem mais a idéia de sacrifício, de presença real, de transubstanciação e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens padres perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não dizem mais missas válidas. Claro, os padres idosos, quando celebram segundo o novo rito, ainda tem a fé de sempre. Eles rezaram o rito antigo durante tanto tempo, guardam as mesmas intenções, podemos crer que sua missa seja válida. Mas, na medida em que estas intenções desaparecem, as missas não são mais válidas.”3

É também esse o sentido da crítica dirigida ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci em 1969: “Da forma como aparecem no contexto do Novus Ordo, as palavras da consagração poderiam ser válidas em virtude das intenções do padre. Mas, uma vez que sua validade não advém mais da força das próprias palavras sacramentais (ex vi verborum) – ou mais precisamente, do significado que o antigo rito da Missa conferia à fórmula – as palavras de consagração no Novo Ordinário da Missa poderiam também não ser válidas. No futuro os padres que não receberem formação tradicional e que confiarem no Novus Ordo para a intenção de “fazer o que a Igreja faz” farão consagrações válidas na Missa? Pode-se duvidar disto.”

É portanto abusivo dizer que a missa de Paulo VI é válida. Ela é em si mesma duvidosa. Ela só é válida se a intenção subjetiva do ministro for católica. E, infelizmente, isso nem sempre ocorre. 

 

 

 

 

  1. 1. Em 1973, o Consistório Superior da Igreja da Confissão de Ausburgo da Alsácia e Lorena publicou uma Declaração oficial na qual figuravam as seguintes linhas:

    “Dadas as formas atuais da celebração eucarística na Igreja Católica e em razão das convergências teológicas presentes, muitos obstáculos que impediriam um protestante de participar na sua celebração eucarística parecem atualmente em vias de desaparição. Hoje parece possível a um protestante reconhecer na celebração eucarística a ceia instituída pelo Senhor [quer dizer, a ceia protestante]… Nós apoiamos a utilização das novas orações litúrgicas, nas quais nós nos reconhecemos, e que tem a vantagem de mitigar a teologia do sacrifício que sempre atribuímos ao catolicismo.”

  2. 2. Conferência espiritual, Écône, 28 de fevereiro de 1975.
  3. 3. Conferência de 15 de fevereiro de 1975, La Messe de Luther, Éditions Saint-Gabriel, p. 10.

Os autores da Missa Nova

Pe. François-Marie Chautard

 

1) Paulo VI

A chamada missa de Paulo VI leva seu nome. Apesar de todas as pressões possíveis, o NOM foi assinado por Paulo VI, e data do pontificado de Paulo VI. Ele é o primeiro responsável, ele é seu verdadeiro autor. Devemos também rejeitar a idéia de que Paulo VI teria assinado às cegas os textos sobre a reforma litúrgica. 

"Para mostrar que a reforma litúrgica foi conduzida em estreita colaboração com Paulo VI, Monsenhor Bugnini afirmou: 

"Quantas horas da noite passei com ele, estudando juntos os muitos e volumosos dossiês empilhados sobre sua mesa! Ele os lia e examinava, linha por linha, palavra por palavra, anotando tudo em preto, vermelho ou azul, criticando, se necessário, com sua dialética, capaz de formular dez perguntas sobre um mesmo ponto.

"Mas essa descrição vale sobretudo para os anos 1968-1969, depois da partida de Lercaro e durante a fase mais intensa da preparação do Novus Ordo Missæ.”1

 

2) Arcebispo Bugnini 

A pedra angular da "reforma" do Missal Romano foi, entretanto, Monsenhor Hannibal Bugnini como nos lembra Monsenhor Lefebvre: "A reforma litúrgica foi, como sabemos, obra de um pai bem conhecido: Padre Bugnini, que a vinha preparando há muito tempo. Já em 1955, ele fizera traduzir textos protestantes por Monsenhor Pintonello (...) que me disse que traduzira livros litúrgicos protestantes para o padre Bugnini, que nessa época era apenas um membro modesto de uma comissão litúrgica. Ele não era nada. Depois, tornou-se professor de liturgia em Latrão. O Papa João XXIII o tirou de lá por causa de seu modernismo, seu progressismo. Pois bem, ele acabou presidindo a Comissão de Reforma da Liturgia! Inacreditável! Tive a oportunidade de ver por mim mesmo a influência do padre Bugnini. É estarrecedor que algo assim possa ter acontecido em Roma.”2

 

Apresentação da nova missa por Monsenhor Bugnini 

"Nessa época, logo após o Concílio, eu era Superior Geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, e houve em Roma uma reunião dos Superiores Gerais. Pedimos ao padre Bugnini que nos explicasse sua nova missa, porque, no fim das contas, aquilo não era um evento qualquer. (…) Então pedimos que o Padre Bugnini explicasse aos oitenta e quatro Superiores Gerais ali reunidos, entre os quais eu estava, sua missa. 

"O padre Bugnini, com muita bonomia, explicou-nos o que era a missa normativa. Vamos mudar isso, vamos mudar aquilo, vamos colocar outro ofertório, vai ser possível escolher os Cânones, reduzir as orações da comunhão, haverá vários padrões para o início da missa, será possível dizer a missa em vernáculo.

Olhamo-nos uns para os outros como que dizendo: ”Não é possível!” Ele falava como se antes dele jamais tivesse existido uma missa na Igreja. Ele falou de sua missa normativa como uma nova invenção. Pessoalmente, fiquei tão perplexo, que eu, que tão facilmente tomo a palavra para me opor àqueles com quem não concordo, permaneci em silêncio. Eu não conseguia dizer palavra. 

"Não é possível que tenha sido a este homem que estava diante de mim que toda a reforma da liturgia católica tenha sido confiada, a reforma do santo sacrifício da missa, dos sacramentos, do breviário, de todas as nossas orações. 

"Para onde estamos indo? Para onde vai a Igreja? Dois Superiores Gerais tiveram a coragem de se levantar. Um deles questionou o padre Bugnini: - "É uma participação ativa, é uma participação corporal, isto é, orações vocais, ou é a participação espiritual? Em todo caso, o senhor falou tanto sobre a participação dos fiéis, que parece que já não se justifica a missa sem fiéis, já que toda a sua missa foi feita em função da participação dos fiéis. Nós, Beneditinos celebramos nossas missas sem fiéis. Devemos então continuar a dizer nossas missas privadas, já que não temos fiéis que participem delas?” 

"Eu repito exatamente o que o padre Bugnini disse, eu ainda tenho suas palavras em meus ouvidos pelo tanto que me chocaram : -- "Na verdade, nós não pensamos nisso!", foi o que ele disse. 

"Depois, outro se levantou e disse: - "Meu Reverendo Padre, o senhor falou: nós vamos suprimir isto, suprimir aquilo, substituir tal coisa por outra, e sempre por orações mais curtas, que eu tenho a impressão que sua nova missa será dita em dez, doze minutos, um quarto de hora, e isso não é razoável, não é respeitoso. Pois bem! Ele respondeu: - "Podemos sempre adicionar alguma coisa". Isso pode ser sério? Mas eu mesmo ouvi. Se alguém tivesse me dito, mal teria acreditado, mas eu mesmo ouvi.”3

 

3) Os outros especialistas

À Bugnini, muitos outros especialistas se juntaram: Dom Botte e Dom Beauduin OSB. Os jesuítas Doncoeur e Daniélou. Padre Bouyer, do Oratório. Padre Gy, OP. E ainda o Monsenhor Dwyer, membro do Consilium de Liturgia, Arcebispo de Birmingham, que reconheceu a importância de tal reforma (Conferência de imprensa, 23 de outubro de 1967): "é a liturgia que forma o caráter, a mentalidade dos homens para enfrentar os problemas ... A reforma litúrgica é, em certo sentido, a chave para o aggiornamento, não se engane, é aqui que a revolução começa.”4

 

4) Os especialistas protestantes

Além de Monsenhor Bugnini e dos especialistas católicos do Consilium, seis pastores protestantes participaram da "reforma", como comprova a foto publicada  no número 1562, de 03 de maio de 1970, de Documentation Catholique

Segundo Dom Baum, responsável pelos assuntos ecumênicos da Conferência Episcopal do México, esses pastores "... não eram apenas observadores, mas também consultores. Eles participaram plenamente das discussões sobre a renovação litúrgica católica. Não faria muito sentido se eles apenas ouvissem, eles também contribuíram.”5

Além disso, falando a todos os membros do Consilium (com os pastores presentes), o Papa Paulo VI dirigiu sua declaração final, em 10 de abril, em que disse o seguinte: "Nós os agradecemos vivamente por todo o trabalho feito nos últimos anos. De fato, os senhores  diligentemente e com competência realizaram uma tarefa complexa e muito difícil sem esperar por qualquer outra recompensa além de saber que estar trabalhando para o bem da Igreja.”6

 

Epílogo 

Uma lamentável anedota sobre a redação de novos textos litúrgicos permite imaginar o profissionalismo dos “reformadores” e sua devoção pelo tesouro da Igreja.

"Monsenhor Bugnini reconheceu que as novas orações eucarísticas  (que se seguem à IV Oração Eucarística) foram feitas às pressas, quase em "marcha forçada”.  Um dos consultores da Subcomissão, o padre Bouyer, disse o mesmo, não sem humor e ironia, sobre a elaboração da II oração Eucaristica, que ele redigiu junto com Dom Botte, grande especialista em Santo Hipólito. Ele a compôs em ritmo de urgência, em 24 horas: 

“Em meio aos fanáticos arqueologizantes - que gostariam de banir as orações eucarísticas do Sanctus e as intercessões, tomando ao pé da letra a Eucaristia de Hipólito - e outros que pouco se importavam com sua suposta tradição apostólica, mas desejavam apenas uma missa rápida, Dom Botte e eu nos encarregamos de retocar seu texto, de modo a nele introduzir esses elementos, certamente mais antigos, para o dia seguinte! Por acaso, descobri  num texto, senão do próprio Santo Hipólito, ao menos ao seu estilo, uma fórmula feliz sobre o Espírito Santo que poderia fazer uma transição, do tipo Vere Sanctus, para a breve epiclese.  Botte, por sua vez, fabricou uma intercessão mais digna de Paulo Reboux e de seu “ao modo de…” que da sua própria ciência. Mas não posso reler esta composição insólita sem lembrar o terraço do bistrô em Trastevere onde tivemos de ajustar nosso pensum, em tempo hábil para nos apresentarmos na porta de Bronze no momento fixado por nossos diretores!” 7

 

 

  1. 1. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, p. 120-121.
  2. 2. L’Église infiltrée par le modernisme, p. 31.
  3. 3. L’Église infiltrée par le modernisme, pp. 32-34.
  4. 4. Citado por Dom Marcel Lefebvre na sua Carta ao Cardeal Seper, 26 de fevereiro de 1978.
  5. 5. Citado em La messe a-t-elle une histoire? p. 91.
  6. 6. D. C. 1970, no. 1562, p. 416.
  7. 7. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, pp. 146-147.

Deficiências doutrinais da Missa de Paulo VI

Pe. François-Marie Chautard

A maior das recriminações feitas ao missa de Paulo VI é a que se refere à fé católica. O rito mesmo, nos seus gestos e palavras, no conjunto como no detalhe, altera a nossa fé. Ele não a contradiz frontalmente, mas a escamoteia, silencia, oculta. 

 

1) Quanto ao mistério católico

O rito tem a tarefa de instruir padres e fiéis e de lhes dispôr ao culto de Deus lembrando-lhes as verdades da fé. Ora, o novo rito é acompanhado de um considerável empobrecimento dessas recordações. Numerosas verdades foram alteradas e dissimuladas por meio da supressão de orações:

O pecado: O NOM 1 não mais contém as orações da Indulgentiam, do Aufer a nobis, do Oramus te, do Deus qui humanae, do suscipe sancte Pater que, todas, recordavam ao homem a sua condição de pecador. 

O desprezo das coisas desse mundo: "Todas as orações que falavam do desprezo das coisas desse mundo para nos mover às coisas do céu foram mudadas. Que idéia passou na cabeça de quem mudou essas coisas? Pensou que os bens celestes não valem tanto assim para desprezarmos as coisas terrestres, que são para nós ocasião de pecado?”2

O combate espiritual: “Suprimiram nas orações tudo o que indicava luta, combate espiritual. Os termos “perseguidores”, “inimigos”, tudo isso foi suprimido sem razão. Por exemplo, São João de Capistrano: “[Ó Deus que…] fizeste triunfar [vossos fiéis] sobre os inimigos da Cruz (…) fazei, nós vos rogamos, que por vossa intercessão, possamos vencer as armadilhas  de nossos inimigos espirituais”.3

O mistério da Redenção: fala-se de “salvação" de modo muito vago.

A virgindade perpétua da Virgem Maria: no NOM é possível (conforme a escolha das orações propostas) não falar da Virgem Maria. Ora, sabemos que a virgindade perpétua de Nossa Senhora é uma pedra de tropeço para os protestantes… De resto, as palavras “Sempre Virgem” só aparecem em uma só das quatro orações eucarísticas. O antigo rito, ao contrário, repetia este dogma ao menos cinco vezes.

A Realeza de Cristo Rei: “No que se refere ao Cristo Rei, foram suprimidas duas estrofes que falavam do Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.”4

Os novíssimos: “O rito dos defuntos foi modificado. A palavra anima frequentemente desaparece das muitas orações para os defuntos, porque as novas filosofias questionam a realidade da distinção entre a alma e o corpo. Então, não se deve falar da alma. É inacreditável, inimaginável! Não há mais devoção pelos mortos, não há mais o sentido de Purgatório.”5

 

2) Quanto ao aspecto sagrado dos mistérios

As rubricas mesmas do missal institucionalizam esta perda de sentido do sobrenatural por meio da mutabilidade permanente do rito e de um relaxamento litúrgico geral.

A mutabilidade permanente do rito corrompe o caráter sagrado. É o que ocorre com a diversidade de missas: a primeira parte da mesma possui três fórmulas, a segunda, outras três, e o cânon, quatro fórmulas. Pode-se então construir uma missa personalizada segundo 3x3x4 possibilidades. Isso limitando-se às palavras, sem falar dos gestos e de outras cerimônias que podem ser inventadas e acrescentadas à liturgia segundo o gosto dos conselhos paroquiais. Dar ao padre e ao seu conselho paroquial uma liberdade de gestos quase total e conceder uma parte larguíssima à inciativa coletiva no tocante aos textos da missa, engendra automaticamente uma perda do respeito devido ao próprio rito. É raro que a imaginação ou a fantasia se acompanhem de senso de respeito.

Ao contrário, a utilização de um rito estabilizado há uns quinze séculos e codificado em detalhe engendra um profundo respeito da parte do padre e dos fiéis. A primeira regra para ensinar o caráter sagrado de um objeto, é não colocá-lo nas mãos de todos e proibir que o transformem à bel prazer.

Um relaxamento litúrgico geral engendrado pelo abandono e pela supressão de grande parte das marcas de respeito, em particular: 

  • A obrigação da Pedra da Ara, assim como do caráter precioso dos vasos sagrados, das três toalhas do altar ou ainda de certos ornamentos (o manípulo, o amito, o cíngulo, o véu do cálice e a bolsa ou a própria casula) 
  • As genuflexões, cujo número cai de 12 para 2; o sinal-da-cruz, que de 47 no rito tridentino passam para 7-8.
  • O número de orações, que reduzem a duração da Missa em até 10/12 minutos.

Dom Marcel Lefebvre observava com lucidez: 

“A dessacralização já começa com o uso do vernáculo. A supressão da língua sagrada, que era o latim, de certo modo transformou a santa missa em algo de profano, fez dela qualquer coisa que não é mais verdadeiramente sagrada.

"Pela pronunciação desta tradução em voz alta durante toda a santa missa -- Não há mais momentos de silêncio, não há mais palavras ditas em voz baixa pelo padre (…) que convidam à meditação sobre o grande mistério que se realiza.

"Pela introdução da mesa ao invés do altar (…)

"Pela posição do padre. A missa voltada para os fiéis não convida absolutamente ao recolhimento em face do mistério que se desenrola. O próprio padre se distrai pelas pessoas que tem diante de si. E os fiéis se distraem pelo padre, sobretudo se ele age de modo mais impetuoso, desordenado ou desrespeitoso (…)

"Pela distribuição da Eucaristia pelos fiéis”6.

 

3) Supressão do aspecto sacrificial 

“A missa não é um sacrifício… chamemo-la de benção, eucaristia, ceia do Senhor… demos a ela qualquer outro título que se queira, mas não a manchemos com o nome de sacrifício. Esta abominação […] que chamamos Ofertório. É praticamente daí que tudo ressoa a sacrifício” (Lutero)7

O NOM desviou-se do sentido de um sacrifício para o de uma ceia. Esta evolução se deu de quatro maneiras:

a) Pela supressão do Ofertório. Na doutrina católica o ofertório tem por finalidade precisar o fim sacrificial da missa, a saber, a oferenda do Corpo e do Sangue em expiação dos nossos pecados. O ofertório é, assim, antecipação do sacrifício (1) do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo (2) feita a Deus Pai (3), apresentada pelo padre (4) em expiação de nossos pecados (5). É por isso que o ofertório tradicional desenvolve esses cinco pontos sem nenhum equívoco possível. Não é mais o caso do novo ofertório que não é a oferenda antecipada do corpo e do sangue de Cristo, mas uma oração concebida a partir de um benedicite judáico 8

b) Pela supressão da menção ao sacrifício propiciatório. “As orações que exprimiam explicitamente a idéia de propiciação, como as do ofertório e as pronunciadas pelo padre antes da comunhão, foram suprimidas.”9 O termo “sacrifício” está inteiramente ausente do cânon no. 2, dito de santo Hipólito.”10

c) Pelo estilo narrativo da consagração, que mais remete a uma narração comemorativa do  que a uma ação litúrgica.

d) Pelos próprios gestos litúrgicos.

“Por outro lado, para analisar o novo rito, penso que não devemos considerar apenas os textos, mas é preciso levar em conta igualmente todas as atitudes, os gestos novos que são comandados: as genuflexões, o sinal-da-cruz, as inclinações (…) e mesmo a alteração dos objetos.”11 “Tudo foi transformado! Não há mais genuflexões, não há mais o sinal-da-cruz! É abominável! O sinal da cruz mostrava que se tratava do sacrifício da Cruz. Não se diga que são detalhes. Não são detalhes. São gestos que tem o seu significado, que tem o seu valor.”12

 

4) Diminuição da fé na presença real

“… É impossível ignorar como os gestos e costumes rituais que expressam a fé na Presença real foram abolidos ou modificados. O Novus Ordo elimina:

  • As genuflexões. Não mais do que três permanecem para o padre, e (com certas exceções) uma para os fiéis no momento da Consagração.
  • A purificação dos dedos do padre sobre o cálice;
  • A preservação dos dedos do padre de todo contato profano após a consagração;
  • A purificação dos recipientes sagrados, que não precisa ser feita imediatamente e pode ser feita fora do corporal;
  • A pala que protegia o cálice;
  • O ouro no interior dos recipientes sagrados.
  • A consagração solene para altares móveis.
  • As três toalhas no altar, reduzidas a uma. 
  • A ação de graças para a Eucaristia feita ajoelhada, agora substituída pela grotesca prática do padre e do povo sentando-se para fazer a ação de graças — uma consequência bastante lógica do ato de receber a comunhão em pé;
  • Todas as antigas prescrições a serem observadas no caso de uma hóstia que caía no chão, as quais agora se reduzem a uma única e quase sarcástica instrução: “Ela deve ser recolhida de forma reverente”.

Todas estas supressões somente enfatizam a maneira ultrajante que a fé no dogma da Presença Real é implicitamente repudiada.13

 

5) Diminuição do sacerdócio

Este empobrecimento doutrinal — em particular, o enfraquecimento da noção de missa-sacrifício em proveito da idéia de uma missa-refeição — conduz logicamente a uma diminuição do papel do padre. A missa se torna uma reunião presidida por um padre que é menos sacrificador do que animador de uma assembléia que se reuniu para, por meio de uma refeição simbólica, realizar um ato de rememorização. Essa nova dissimulação manifesta-se pela:

  • Supressão das orações feitas unicamente pelo padre, ou em nome do padre, como o confiteor que passa a ser recitado em comum. Do mesmo modo, as orações formuladas com “eu" desapareceram ou foram modificadas.
  • Supressão das orações feitas em voz baixa pelo padre. Tudo é rezado em voz alta, significando assim que o povo deve poder ouvir o que diz o padre afim de fazer esta oferenda juntamente com ele. Ora, isso era precisamente o que pretendiam os protestantes, posto que esses últimos negam o caráter próprio do padre e insistem sobre a oferenda comunitária da ceia.

De modo hábil, a distinção não é negada, mas silenciada. A longo prazo, isso conduz a ocultar a distinção essencial entre padre e fiel.

 

6) Uma nova definição

Um dos aspectos  mais reveladores da nova orientação doutrinal da Missa de Paulo VI é a primeira definição da mesma, que encontramos na apresentação geral do novo missal, no no. 7:

“a ceia do Senhor, ou a missa, é uma sinaxe sagrada, ou seja, a reunião do povo de Deus sob a presidência do padre, para celebrar o memorial do Senhor. É por isso que a reunião da Santa Igreja em dado local realiza de modo eminente a promessa de Cristo: ‘Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles’"

Pode-se ver que:

  • Não se faz nenhuma menção do sacrifício, mas se fala de uma ceia e de uma “reunião do povo de Deus” e de um memorial; 
  • O padre é apresentado como o presidente da assembléia, e não como sacrificador: “sob a presidência do padre”;
  • A presença de Cristo é uma presença espiritual, como a de uma simples oração comum: “a reunião… realiza de modo eminente a promessa de Cristo: ‘Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles’”;
  • Esta definição corresponde de modo muito preciso ao novo rito.

Falando da Institutio Generalis, ou seja, da apresentação geral da nova instituição litúrgica, Bugnini declarou que este documento constituía “uma ampla exposição teológica, pastoral, catequética e litúrgica, uma introdução à compreensão e à celebração da missa”14. Quanto ao Cardeal Villot, falando em nome de Paulo VI, ele via nela “uma síntese dos princípios teológicos, ascéticos e pastorais indispensáveis, tanto para a divina doutrina, como para a celebração, catequese e pastoral da missa.”15

Este texto desencadeou, no entanto, uma tal avalanche de críticas que a definição foi modificada, sem que o sentido fosse verdadeiramente satisfatório.

“Mons. Bugnini, que era o seu autor disse: ‘— Quiseram nos fazer mudar alguma coisa da definição da missa. Alguns protestaram contra a definição. Ridículo. Esta definição não era absolutamente protestante’. Monsenhor Bugnini tentou se justificar: ‘— A nova definição feita não muda nada quanto ao essencial’16

 

Conclusão

Em suma, é o conjunto das grandes verdades de fé que são diminuídas, ocultadas, escamoteadas no novo rito da missa; o mistério da Redenção, o pecado, a imortalidade da alma, a Virgindade de Maria, o sacerdócio, a necessidade da expiação, tudo isso é alterado pelo novo rito.

Não é, pois, exagerado concluir que esta nova missa é corrosiva para a fé dos padres que a celebram e para a fé dos fiéis que a assistem, como infelizmente cinquenta anos de reforma litúrgica manifestam fartamente. 

  1. 1. Novus Ordo Missae, ou seja, o novo rito da Missa. Utilizaremos essa abreviação ao longo do nosso texto.
  2. 2. Dom Marcel Lefebvre, Mantes-la-Jolie, 2 de julho de 1977.
  3. 3. Dom Marcel Lefebve, Conferência espiritual, Écône, 25 de junho de 1981.
  4. 4. Ibidem.
  5. 5. Ibidem
  6. 6. 1o. de outubro de 1979
  7. 7. Formulae missae et communionis, 1523.
  8. 8. Trata-se da famosa oração: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de Vossa bondade. Fruto da Terra e do trabalho humano” etc.
  9. 9. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 26 de outubro de 1979.
  10. 10. O NOM deixa a escolha entre quatro cânones, entre os quais o dito de Santo Hipólito. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, p. 33.
  11. 11. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 25 de junho de 1981.
  12. 12. Dom Marcel Lefebvre, Retiro, Avrillé, 18 de outubro de 1989.
  13. 13. Breve exame crítico do NOM dos cardeais Bacci e Ottaviani.
  14. 14. Conferência geral do episcopado latino-americano, 30 de agosto de 1968.
  15. 15. D.C. 1594, p. 866.
  16. 16. ”Posto que foi dito e redito oficialmente que não se encontrou nenhum erro doutrinal na redação original e que as mudanças introduzidas não visavam mais do que cortar pela raiz algumas dificuldades inúteis, podemos continuar a nos apoiar no texto de 1969. Ele representa o pensamento da Institutio generalis em estado puro, para além dos compromissos ‘impostos'”. Jean-Marie R. Tillard, “A reforma litúrgica e a reaproximação das Igrejas”, in Liturgia opera divina e umana, Studi sulla riforma liturgica offerti a S. E. Mgr. Annibale Bugnini, Edizioni Liturgiche, 1982, p. 223.

O paralelo com a missa de Lutero

Pe. François-Marie Chautard

 

Zeloso defensor da missa tradicional, Dom Marcel Lefebvre não hesitou em chamar o Novus Ordo Missae (NOM) de "Missa de Lutero". Exagero retórico ou realidade doutrinal? Um rápido paralelo entre as duas responderá a pergunta.

 

 

1) A Doutrina Protestante

A doutrina protestante da "Missa" baseia-se em três princípios-chaves: a transubstanciação, o sacerdócio ministerial (do padre) e o sacrifício da missa são invenções, se não do diabo, ao menos dos homens.  

  • A presença real: na hóstia, há uma presença real, mas puramente espiritual. Não há transubstanciação, isto é, a conversão do pão em um corpo, sem que nada reste do pão a não ser a aparência; ao contrário, o pão permanece pão e Jesus Cristo vem espiritualmente pela fé dos fiéis e permanece apenas durante a Ceia do Senhor;
  • O sacerdócio católico é uma pretensão injustificada. Todo batizado é padre. Aquele que desempenha o papel de sacerdote tem, no máximo, o papel de presidente de assembléia, para oferecer um sacrifício de louvor, isto é, uma oração, com ordem e dignidade.
  • O sacrifício da missa é uma abominação. A ceia ou eucaristia é um memorial puro, um louvor a Deus e uma pregação aos homens, mas não um sacrifício onde Cristo seria imolado a fortiori em expiação pelos nossos pecados. O ofertório que expressa essa dimensão sacrificial e expiatória é, portanto, a primeira oração a ser suprimida.

 

2) A tática de Lutero

Querendo erradicar das almas alemãs o significado da missa, Lutero entendeu que era preciso agir com habilidade.

 "Para alcançar o objetivo com mais segurança", disse ele, "é necessário preservar algumas cerimônias da antiga missa por conta dos fracos que poderiam se escandalizar com a mudança abrupta". 

Como resultado, Lutero manteve algumas orações, algumas canções (Kyriale) para conduzir docemente os fiéis à heresia. 

Conselho que não foi esquecido pelo padre Mortimart, uma das peças-chave do suposto progresso litúrgica: "Se nos decidirmos por mudanças mais radicais, poderíamos manter os velhos usos, os antigos cantos e fórmulas que encantam nosso sacerdócio, nos mosteiros e em algumas igrejas, que, por suas características, não são freqüentados pelo grande público; a Capela Sistina e as abadias não são acessíveis senão a uma elite sensível às obras-primas da oração e da arte."1

Em suma, uma missa para os estetas e outra para o povo! Para conseguir isso, foi necessário proceder metodicamente, dosando as várias eliminações e acréscimos, que encontramos na massa de Paulo VI.

 

3) Supressões da Ceia Protestante idênticas às do NOM 2

  • A menção da virgindade perpétua da Virgem Maria.
  • A menção aos santos.
  • A genuflexão antes da consagração, enquanto a seguida foi mantida. Com efeito, para os protestantes, é a fé dos fiéis que faz a presença de acordo com a palavra de Cristo: "Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei entre eles”. Assim, Cristo está presente apenas quando a hóstia é mostrada ao povo, mas não antes. Na NOM, o padre faz uma genuflexão somente depois de levantar a hóstia;
  • O ofertório.
  • O cânon.
  • O tabernáculo etc.

 

4) Adições da Ceia protestante idênticas às do NOM

  •  A oração universal.
  • O aumento da "liturgia da palavra". "O culto antes se dirigia a Deus, como uma homenagem", dizia Lutero, "Agora, se dirige ao homem para consolá-lo e iluminá-lo. O sacrifício ocupava o primeiro lugar, o sermão veio suplantá-lo.” 3
  • A aclamação depois do Pater.
  • A dupla comunhão.
  • A apresentação em voz alta dos Oblatos e do Cânon.
  • O uso da língua vernacular.
  • A celebração voltada para o povo etc. 

Eis aqui, para terminar, uma descrição de uma ceia protestante nos tempos de Lutero: 

"A maior anarquia reinava entre os sacerdotes. Cada um agora recitava a missa ao seu gosto. O Conselho, não cabendo em si, resolveu fixar uma nova liturgia destinada a restaurar a ordem, consolidando as reformas. Regulava-se o modo de dizer missa. O Intróito, o Gloria, a Epístola, o Evangelho, o Sanctus foram preservados, e seguidos de uma pregação. O Ofertório e o Cânon foram suprimidos. O padre simplesmente recitava a Instituição da Ceia, dizendo em voz alta e em alemão as palavras da Consagração, e dava a comunhão sob ambas as espécies. Com o canto do Agnus Dei, da Comunhão e do Benedicamus Domino terminava o serviço. 

"Lutero estava preocupado em criar novos cânticos. (...) Lutero dosava as transições. Ele mantém as cerimônias antigas o quanto possível. Ele se limita a mudar o sentido. A missa mantém em grande parte seu aparato exterior. As pessoas acham nas igrejas o mesmo cenário, os mesmos ritos, com alterações feitas para agradá-las, porque a partir de agora no dirigimos a elas muito mais do que antes. O povo está mais consciente de servir para alguma coisa  durante o culto, participando mais ativamente do canto e da oração em voz alta. Pouco a pouco, o latim dá lugar ao alemão. A consagração será cantada em alemão. Está escrita nestes termos: “a noite em que ia ser entregue, ele tomou o pão, deu graças, e o partiu e deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos, dizendo: tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim."

Assim são acrescentadas as palavras “quod pro vobis” ("que será derramado por vós”), e suprimidas “mysterium fidei” e “pro multis” na consagração do vinho."4

Compreende-se o que o Pe. Calmel escrevia acerca dos procedimentos dos modernistas: 

“O modo direto, próprio de todo reformador combativo e fanático, mas leal, repugna ao seu caráter tão impregnado de mentiras. Seu jogo é, ao contrário, sutil. Ele sabe muito bem que, para mudar a Igreja, é sobretudo necessário mudar a missa. Mas também é necessário, numa empreitada desse porte, evitar ao máximo chamar atenção. A dificuldade será resolvida se alcançar-se forjar uma Missa que, por um lado, seja ainda aceitável para aqueles que não mudaram na fé católica e apostólica, e, por outro, não seja repugnante àqueles que têm uma fé "mais ampla"; isto é, àqueles que não têm fé alguma. 

Na verdade, a dificuldade dos modernistas para forjar uma Missa que ainda pudesse ser uma Missa, embora  equívoca, e que tendesse à própria abolição, enfim, a dificuldade de mentir com uma habilidade suprema, foi finalmente resolvida. . (...) Que meios são usados ​​para arruinar o Cânon Romano, para fazer reinar a ambigüidade e a indecência em uma ordem ritual que até agora era apenas verdade e piedade? Esses meios são as reorganizações, as adições, e especialmente o silêncio intencional. (...)

Digamos, para concluir esse breve exame das novas preces, que nada foi deixado ao acaso. Tudo é calculado. Tudo é dirigido numa direção precisa."5 

O próprio Paulo VI reconheceu o aspecto "pedagógico" da reforma litúrgica: 

"... a nova pedagogia religiosa, que a atual renovação litúrgica quer estabelecer, foi inserida para ser o motor central do grande movimento inscrito nos princípios fundamentais da Igreja de Deu.” 6

  1. 1. Citado em A Missa tem uma história? ed. da MJCF, p.84.
  2. 2. Novus Ordo Missæ, isto é, o novo rito da missa. Usaremos essa abreviação no restante do nosso documento.
  3. 3. Leon Cristiani, Do Luteranismo ao Protestantismo, p. 312.
  4. 4. Dom Marcel Lefebvre, La messe de Luther dans la messe traditionnelle, Trésor de l’Église, p.33-34.
  5. 5. Fideliter Se conhecesses o dom de Deus ..., T.1 missa, NEL, 2007, p. 95-96, 98, 114-115, 118.
  6. 6. Pe. Didier Bonneterre, O Movimento Litúrgico.

Algumas notas de Doutrina Católica

Antes de considerar o rito de Paulo VI, convém apresentar algumas notas sobre a doutrina da missa e do sacerdócio, os ritos dos sacramentos e, finalmente, a heresia.

 

1) A doutrina da missa e do sacerdócio

A doutrina tradicional da missa é: 

  • A missa é um verdadeiro e autêntico sacrifício.
  • O propósito do sacrifício é quádruplo: latrêutico (dar glória a Deus), eucarístico (agradecer-lhe), impetratório (pedir-lhe graças) e propiciatório (expiar nossos pecados).
  • Cristo está presente verdadeiramente, realmente e substancialmente sob as espécies do pão e do vinho.
  • Esta presença é realizada pela transubstanciação. 

Quanto ao padre:

  • Ele age na missa primeiramente in persona Christi, isto é, como  no lugar de Cristo e não representando os fiéis.
  • Seu sacerdócio é de natureza diferente do sacerdócio dos fiéis.

 

2) Os ritos dos sacramentos

Todo ritual sacramental é constituído de duas partes: uma parte essencial e uma parte acidental. 

A parte essencial causa diretamente o efeito sacramental. Sem ela, não poderia haver sacramento (na missa, é a consagração; no batismo, é a ablução da água com a pronúncia da fórmula: "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"). 

A parte acidental reveste a parte essencial e destina-se a:

  • aumentar a solenidade do culto prestado a Deus, 
  • tornar clara a intenção do ministro,
  • dispor as almas dos fiéis a participar bem da adoração e a colher os frutos espirituais dela.

Esta preparação dos fiéis destina-se especialmente a formar a sua fé e excitar sua devoção. Por exemplo, o Confiteor no início da Missa ajuda o sacerdote e os fiéis a assumir as disposições necessárias para assistir à missa. A gravidade dos gestos impostos ao sacerdote no momento em que ele pronuncia as palavras da consagração indica claramente que não se trata de mera recitação, mas de uma ação litúrgica. 

O ensinamento dado pelo rito da Missa é muito importante para os fiéis porque sua fé é conservada, instruída ou deformada pela liturgia, como disse o Cardeal Journet : "A liturgia e a catequese são como os dois braços da tenaz com que resgatamos a fé".

Imaginemos por um instante um rito que não fizesse qualquer menção do pecado e da reparação a que ele nos obriga, nenhuma alusão à penitência necessária, nenhum gesto de penitência (como bater no peito no Confiteor): depois de anos assistindo tal rito, a idéia de pecado correria forte risco de ser relegada ao fundo de uma consciência jamais despertada ou tomada de inquietação. 

Inversamente, se o rito exige dos fiéis (sacerdotes e leigos) que se ajoelhem diante do tabernáculo, ajoelhem-se para receber a hóstia das mãos de um sacerdote, que mantém os polegares e os indicadores unidos depois de recitar as palavras da consagração, tais fiéis serão capazes de compreender e seguir o ensinamento da Igreja sobre a presença real.

 

Lex orandi, lex credendi

Esta relação entre rito e fé é tão verdadeira que na Antiguidade o Papa São Celestino I usou uma expressão que ganharia notoriedade multisecular e que muitos outros papas repetirão (Bento XIV, Leão XIII Pio XI, Pio XII): "Legem credendi statuat lex supplicandi, lex credendi legem statuat supplicandi", que pode ser traduzido assim: "a lei da oração determina a lei da fé, a lei da fé determina a lei da oração" fórmula cuja síntese é: Lex orandi, lex credendi

Em outras palavras, a liturgia é o veículo da doutrina. Por isso, a melhor maneira de se mudar a doutrina de um povo é mudar a sua liturgia.

Este ponto é essencial, pois todo sacramento constitui assim uma profissão pública de fé 1. Assistir à missa católica é uma profissão desta fé, assistir a uma missa equívoca é garantia de uma duvidosa profissão de fé.

 

A licitude da mudança

A Igreja recebeu do Salvador certa liberdade quanto aos ritos dos sacramentos. Ela é livre para criar um rito acidental e mais ou menos livre para tocar nos pontos essenciais. 

No entanto, a mudança litúrgica deve levar ao progresso da expressão da fé, da solenidade do culto, ou da piedade dos fiéis, e certamente não ao empobrecimento da adoração ou da fé dos fiéis. 

Dom Marcel Lefebvre dizia: 

"Nunca recusamos certas mudanças, certas adaptações que atestam a vitalidade da Igreja. Em questões litúrgicas, não é a primeira reforma assistida por homens da minha idade: eu acabara de nascer quando São Pio X estava preocupado em fazer melhorias, especialmente dando mais importância ao ciclo temporal, avançando a idade da primeira comunhão para as crianças e restaurando o canto litúrgico que conhecera um certo obscurecimento.

"Pio XII, mais adiante, reduziu a duração do jejum eucarístico devido às dificuldades inerentes à vida moderna, permitiu pela mesma razão da celebração da Missa à tarde (...) João XXIII fez ele próprio algumas alterações, antes do Concílio, ao rito de São Pio V. Mas nada disso sequer se aproxima do que aconteceu em 1969, isto é, de uma nova concepção da missa."2 

E o grande artífice da nova missa, Monsenhor Bugnini, reconheceu: "Não se trata apenas de retocar uma obra de arte de grande valor, mas às vezes é necessário dar novas estruturas a ritos inteiros (sic). Trata-se de uma restauração fundamental; quase diria, de um redesenho e, em alguns pontos, de uma nova criação."3

 

3) Heresia

Existem dois tipos de heresias: a positiva e a negativa, a franca e a sorrateira. 

A heresia positiva consiste em negar abertamente uma verdade da fé. Por exemplo, o protestante que claramente ensina que o sacrifício da missa não é um sacrifício propiciatório. 

A heresia negativa, que é mais precisamente o caminho rumo à heresia positiva ou caracterizada, consiste primeiro em silenciar intencionalmente uma verdade da fé sem contradizê-la abertamente para que caia gradualmente no esquecimento. 

Pio VI condenou, por isso, a proposta de um "sínodo" da Assembléia dos Jansenistas, feita pelo bispo de Pistóia, em 1794, pela simples razão de que deixou de mencionar a palavra "transubstanciação". 4

Essa maneira sorrateira de induzir à heresia também consiste em orientar os espíritos na direção contrária à fé. Assim, ao beijar o Alcorão, o papa João Paulo II claramente encorajou os católicos a considerarem o Alcorão como um livro sagrado e nada contrário à fé católica. Essa negação emudece os Mistérios, e essa nova orientação doutrinal, baseada em “silêncios intencionais”, são claros na missa de Paulo VI quando a comparamos com a Ceia Luterana.

  1. 1. “Assim como os antigos Padres foram salvos pela fé no Cristo vindouro, assim somos salvos pela fé em Cristo, que agora nasceu e sofreu. Os sacramentos são sinais que professam essa fé que justifica.” IIIa, 61, 4, c.
  2. 2. Marcel Lefebvre, Carta aos Católicos Perplexos, 1984, pp. 45-46.
  3. 3. A. Bugnini, coletiva de imprensa de 4 de janeiro de 1967, citado em Missa, tem uma história? p.131, nota 1.
  4. 4. Bula Auctorem Fidei, 28 de agosto de 1794, Dz 2629.

Revista Permanência 266

Revista Permanência 266 - 160 páginas

(Editorial) Não deixe o sal perder a sua força Dom Lourenço Fleichman
A Caridade e as bem-aventuranças Garrigou-Lagrange
A guerra da Vendéia Jean de Viguérie
Comentário ao salmo 3 Santo Tomás de Aquino
O Sermão da Última Ceia - 2a. parte Pe. José Maria Mestre - FSSPX
Dos costumes divinos Anônimo
A crise do latim Alexandre Bastos
Deus marcou um encontro conosco Gustavo Corção
Bach - Ritcher, alegria do Rio Antônio Hernandez

História da Polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo - FSSPX
Calendário litúrgico  
   

Índice da Revista Permanência 265

Revista Permanência 265 - 179 páginas

(Editorial) Entre martírios e abismos Dom Lourenço Fleichman
A perseguição religiosa no mundo islâmico Robert Spencer
Por que a Rússia? Dom Lourenço Fleichman
O dever de reparação Pe. Réginald Garrigou-Lagrange
O sermão da última ceia Pe. José Maria Mestre - FSSPX
Exercícios práticos para via sacra São Leonardo de Porto-Maurício
Comentário ao salmo 2 Santo Tomás de Aquino
Media Vita Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX
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Entre a massificação da cultura
e a ampliação das elites

Antônio Hernandez
Recensão: a ilusão liberal Luiz de Carvalho
Recensão: sete mentiras sobre a Igreja católica Gabriel Galeffi

 

 

 

 

 

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