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Pensamento (107)

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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A república do pensamento

A REPÚBLICA DO PENSAMENTO

(A POLÍTICA ABSTRATA)

Alfredo Lage

 

Todas as civilizações, uma vez esgotadas as virtualidades humanas contidas nas formas coletivas que as constituem, e que exprimem a essência do homem dentro de certas condições particulares de tempo e lugar, tendem a se tornar repetitivas e a manifestar sintomas de esclerose. As estruturas que deviam ser meios para a expressão do homem e instrumento da sua atuação sobre o ambiente antepõem-se ao mundo real, passam de meios a fins, tornam-se fatores de isolamento e de irrealidade.

Nesse momento geralmente surgem elementos alheios à esfera dessas estruturas e que conservam a possibilidade de alguma relação mais direta com a realidade — assim, os romanos em face dos gregos, os bárbaros cristianizados relativamente aos romanos, etc. os antigos portadores de uma civilização ora são deixados à margem e “colonizados”, como as elites hindus pelos ingleses, ora são substituídos aos poucos, ou são varridos de um golpe, como os dominadores indígenas do México pelos espanhóis, etc.

A chamada civilização ocidental cristã não parece fazer exceção a essa regra. Cabe evocar aqui a mecanização da vida, a disseminação de uma cultura enlatada, a padronização forçada do indivíduo, enfim, uma tendência universal para o nivelamento sócio-cultural, tendência para passar do complexo para o simples e do diferenciado para o indiferenciado, que parece ser a lei da matéria e das coisas que se deixam arrastar pela entropia crescente do mundo físico. No nosso caso, desde o século XVIII, o peso das estruturas materiais mostra sinais de predominar sobre o espírito[1]. Mas ao mesmo tempo — e essa circunstância serviu para confundir o faro dos historiadores — aumenta consideravelmente o domínio do homem sobre o mundo físico. Declinam as forças criadoras à proporção que os meios da técnica se tornam mais perfeitos[2]. O chamado progresso técnico esconde aos olhos de muitos a realidade do processo que Spengler chamava o “ocaso do Ocidente”.

Seria fatal esse processo? Resta saber. Mas o fato é este: no momento em que a evolução do mundo vai ser entregue ao automatismo das forças materiais, e todos se comprazem (ou se conformam) com a idéia de submeter o curso da civilização ao incremento necessário dos meios de dominar a natureza, desenha-se no horizonte uma grande abdicação da inteligência, e surge uma forma aguda de irrealismo espiritual.

As teorias do liberalismo preparam uma primazia do sistemático sobre o vital e do técnico sobre o econômico. Primeiro: no centro motor da ordem social, no lugar da monarquia destronada ou da aristocracia que aboliu, a Revolução Francesa colocou não um princípio pessoal, ou uma nova elite responsável, mas uma Razão impessoal, cujo desdobramento, desimpedido dos inúmeros “embaraços” de ordem particular representados pelos privilégios e liberdades incorporados à antiga legislação, devia assegurar automaticamente o progresso decorrente da perfectibilidade indefinida do homem. Depois, à direção e iniciativa individual em economia substitui-se aos poucos a ação do poder público, ao passo que a regulação última da atividade econômica passa de um princípio natural: a necessidade do consumidor, para um princípio técnico: a produtividade. É importante conhecer esse processo[3]. Primeiro, o empreendimento torna-se um “instrumento de lucro”, um mecanismo independente dos homens que o realizam e de sua própria finalidade natural. Como um organismo autônomo, ele busca então seus interesses e finalidades em obediência a uma lei própria de conservação e de expansão (qualquer regulação propriamente humana — assim é alegado — perturba o jogo normal da concorrência). Em seguida, a empresa como unidade básica da atividade econômica e como comunidade natural especificada por um fim produtivo ou um ramo de atividade é englobada seja pelos monopólios, seja por grupos de empresas cujo fim é o bem de um império financeiro. Finalmente, “atendendo aos apelos dos próprios interessados — como salienta de Corte — o Estado se imiscui na totalidade do processo econômico”; essa primeira intrusão provoca uma reação em cadeia: “todos os grupos econômicos passam a exigir o apoio do Estado”.

De atividade que no mundo antigo era estritamente privada — de ordem aliás sobretudo doméstica (uma denominação usada ainda para  designar a empresa: casa reflete esse fato) — a economia pende modernamente para a ordem pública. (Ao inverso, observou certa vez Hannah Arendt, as coisas que na antiguidade, como de resto na natureza das coisas, pertenciam à esfera cívica ou à órbita da vida pública, como a opinião política ou a religião, sob o liberalismo, tendem a ser consideradas como assuntos de foro interno).

A confusão entre as esferas do público e do privado foi extremamente prejudicial para ambas. De um lado, como observa de Corte, “os detentores do poder econômico que, no intuito de acrescer o seu império, obrigam o Estado a sustentar as suas empresas ou a mantê-las artificialmente, assumindo-lhes as dívidas, são vítimas do seu sucesso. Fazem a economia transferir-se infalivelmente da esfera privada para a esfera pública. Em vez de assumirem os riscos e fracassos que todo empreendimento humano comporta, tornam-se parasitas do poder político. Crêem dirigir o Estado mas, de fato, o Estado é que os submete a suas próprias imposições... e que acaba, sob a pressão conjugada de todas as forças ou, mais exatamente, de todas as fraquezas econômicas, por tornar-se o único motor da economia e o só proprietário dos meios de produção”.

De outro lado, a absorção da esfera privada do econômico pelo Estado determina uma degenerescência do Estado, usado afinal como simples instrumento de coação por uma oligarquia ou, pior ainda, por um tirânico Poder paralelo instalado pela Revolução. “Deslocando continuamente os limites que separam o setor público do privado — cito agora de Corte — estende e acresce o Estado seu poder; mas como age, no caso, sob a pressão de grupos econômicos, de fato ele o contrai e enfraquece. Seu poder se dilata na proporção em que é menos Estado — poder supremo a serviço do bem público. Se ele cada vez mais dirige, é na medida em que é cada vez mais dirigido”. No caso limite, tudo o que resta do Estado como instituto jurídico e como órgão finalizado pelo bem comum é a esfera administrativa dos serviços públicos hipertrofiada para englobar os negócios econômicos e os setores nacionalizados. Torna-se assim o Estado um mero instrumento do poder revolucionário ou do poder oligárquico, e se subordina à produtividade. O critério supremo da res publica será o desenvolvimento tecnológico e o incremento da produção. O homem como fator econômico de produção e de consumo ficará abrangido na esfera dessa universal “administração de coisas”, ele próprio reduzido pelo critério mensurável da eficiência a uma “coisa”.

Desse modo, o sistema assume precedência sobre a função econômica, a qual, como acentuou Pio XII, “não mais, de resto, do que qualquer outro ramo da atividade humana — constitui, por sua natureza, uma instituição do Estado; ao contrário, a economia é o produto vivo da livre iniciativa dos indivíduos e dos grupos que eles espontaneamente constituem”. Ao invés de ser regulada por um princípio real: a necessidade do consumidor (expressa pela demanda) passa agora a economia a ser regida por um critério abstrato: a produtividade e regulada pelo Estado a título de função econômica da Sociedade[4]. Essa precedência do abstrato sobre o concreto é o padrão que veremos sob o liberalismo insinuar-se em todos os domínios da atividade humana.

“A economia se artificializa em rápida cadência, continua de Corte. Seu sentido não mais deriva das suas atividades econômicas reais ou do fim que a natureza lhes impõe... O economista é chamado a pôr ordem, a introduzir uma estrutura numa coisa amorfa. Como essa ordem e essa estrutura deixaram de provir da realidade econômica definida por sua finalidade, ou da natureza das coisas, resta que seja imposta de fora como o plano de um mecanismo, graças ao apoio do poder político”. Desse modo, como já observara Pio XI, a propósito do antigo liberalismo, não são as necessidades humanas, conforme a sua importância natural e objetiva, que regulam a vida econômica e o emprego dos fatores de produção, mas, ao contrário, os interesses econômicos é que determinam quais as necessidades que devem ser satisfeitas e em que medida.

*

De qualquer sorte, o mundo moderno, instaurou-se sob a égide de uma dupla demissão do homem. Tanto em economia como em política, relega-se a realidade do espírito (presente na História pela decisão humana capaz de introduzir um fator novo: a liberdade) à margem da vida prática. O homem abdica da sua responsabilidade última. Deixa-se arrastar pelo Sistema. O resultado é a tirania. Pois assim como o governo impessoal, por consulta à “vontade geral”, na realidade é um governo pessoal e oculto que maneja grandes massas passivas e espiritualmente ausentes, assim também, a economia liberal é de fato uma economia dirigida por um poder oligárquico discreto através de um corpo de especialistas. Tudo converge para um só fim: substituir a sociedade política por uma gigantesca corporation,[5] converter um governo de homens na operação de um sistema e organismo dirigente da sociedade numa tecnocracia político-econômica alheia a toda finalidade ética ou espiritual. Fazendo “de necessidade virtude”, as elites responsáveis glorificam a sua abdicação sob a forma de um culto à Razão imanente e divina. A religião do progresso empresta virtudes mágicas à simples mudança, poder automático de transfiguração. Tudo o que muda se renova. Tudo o que se renova, sobe e o que sobe converge para a unidade do Divino. Os intelectuais transformaram o seu desentrosamento da realidade no acicate da contradição. Já que não podem influir na ordem de coisas vigente, fazem-se seus detratores e afinal seus destruidores pela exigência constante de renovação. Paralelamente ao mundo concreto constroem uma região do Absoluto, um reino teorético dos valores, de onde tiram os critérios para julgar o atual. Pois trata-se de um absoluto imanente, trata-se de um estranho mundo separado, abstrato e, ao mesmo tempo, mais real do que o mundo real, já que o norteia como seu modelo platônico baixado à terra.

Por volta de 1770, funda-se na Europa uma república singular. Escreve Augustin Cochin: “A República das Letras é um mundo onde se conversa, mas onde nada se faz a não ser conversar, onde o esforço de cada inteligência busca o assentimento de todos, i. é, a opinião, assim como, na vida real, busca a obra e o efeito”.

Eis aí — eu é que agora sublinho — eis aí o irrealismo. No mundo real, a inteligência procura adequar-se ao que é, quer dizer, atingir a verdade. Aqui, visa a acordar-se (ou afinar-se) com outros espíritos num mesmo esquema mental ao qual conformará o dado exterior. “On cause, prossegue Cochin. On est là pour parler, non pour faire”. Ou por outra, a obra aqui é verbal. As pessoas se reúnem para fazer a opinião.

E que significa a glorificação do “diálogo” e a reverência diante da “comunicação” senão que se pôr de acordo com alguém sobre alguma coisa é mais importante do que conhecer-lhe a natureza? Ora, como observa Marcel de Corte: “só pode haver concordância, harmonia, união real entre os corações, porque há valores e objetos independentes de nós (...) Sem esse fundamento objetivo para o esforço solidário dos membros de uma sociedade, sobre que se há de fundar a sua concordância? Só cabe uma resposta: sobre palavras (...) Enquanto numa sociedade viva o ser social faz a opinião real, na “dissociedade” democrática a opinião é que faz o ser social e constrói a sociedade. Aqui, não é pois o ser do vero, do bom, do belo participados que dá origem à opinião e que a faz existir mas, ao contrário, a opinião é que gera os valores de verdade, de bondade, de beleza. A OPINIÃO FAZ O SER.[6]

“Eu quisera que os filósofos constituíssem um corpo de iniciados. Então morreria contente”, escreve Voltaire a d’Alembert. E já em 1758: “Amotinai-vos e dominareis: eu vos falo como republicano, mas trata-se — é bem de ver — da república das letras; pobre república!” Retoma Cochin: Esses augúrios do patriarca se cumprem e até com demasia a partir de 1770: a república das letras está fundada e organizada, e intimida a Côrte. Tem seus legisladores: a Enciclopédia; seu parlamento: dois ou três salões; sua tribuna, a Academia Francesa, onde Duclos introduziu e, após 15 anos de luta perseverante, de política conseqüente, d’Alembert fez reinar a filosofia. Sobretudo, em todas as províncias, possui colônias e agencias; nas grandes cidades, as Academias; nas pequenas, as salas de leitura. De um extremo a outro dessa grande rede de sociedades, há um perpétuo vaivém de cartas, mensagens, votos, moções, um imenso concerto de palavras, de admirável harmonia: o exército dos filósofos disseminado pelo País, onde cada cidade tem sua guarnição de pensadores, seu “foco de luzes”, adestra-se em toda a parte no mesmo espírito, exercita os mesmos métodos, num idêntico trabalho verbal de discussões platônicas. De tempos em tempos, a um sinal de Paris, há um congraçamento geral para as grandes manobras, os “casos”, as “affaires”, como já então se dizia, i. é, incidentes judiciários ou políticos. Há sublevações contra o clero, contra a corte e mesmo contra tal ou qual imprudente particular, Palissot ou Pompignan, ou Linguet, que julgaram poder atacar essa curriola como qualquer outra, e, com estupor, vêem alçar-se de um golpe, desde Marseilles até Arras e de Rennes a Nancy, o enxame inteiro dos filósofos.  

“Pois há perseguições — outra praxe de seita — (prossegue Cochin). Antes do Terror sangrento de 1793, houve, de 1765 a 1780, na república das letras, um terror seco, de que a Enciclopédia foi o comité de salut public e d’Alembert o Robespierre. Ele ceifa as reputações assim como o outro as cabeças. Sua guilhotina é a difamação, a infâmia, como então se dizia (...) A operação noter d’infamie conota um curso processual bem definido, que comporta inquérito, discussão, julgamento e, enfim, execução, quer dizer, condenação pública ao desprezo...”(Les Sociétés de Pensée et la Démocratie Moderne, Plon, Paris, 1921, ps. 4-6).

Esse trabalho das idéias abstratas acarreta finalmente, um imenso poder social. Poder essencialmente nivelador. Apenas, esse poder se exerce não diretamente, mas através de uma sociedade em miniatura, de um mundo separado e de um poder paralelo. “Os habitantes desse mundo, escreve Cochin, vêem-se situados num outro ponto de vista, numa vertente diversa, ante propósitos que não são os da vida real. Esse ponto de vista é o da opinião, “a nova soberana do mundo”, como diz Voltaire, que saúda o seu advento na cidade do pensamento (Ibid. p. 9). Toda essa agitação intelectual, esse trabalho incessante de elaboração verbal não conduz ao menor começo de obra no mundo real, à mais pequena iniciativa construtiva, como hoje diríamos. “O termo, não digo o objeto desse trabalho passivo, observa o historiador, é uma destruição. Consiste em suma em eliminar, em reduzir. O pensamento que a ele se submete perde a preocupação, depois, pouco a pouco, o sentimento, a noção do real (p. 15). “C’est l’opinion qui fait l’être”. As conseqüências sociais são terríveis. O concreto é substituído pelo ideal. A justiça declamatória corrói a real. A Liberdade com maiúscula extingue as liberdades. Assim como o amor abstrato da humanidade é uma forma niveladora de ressentimento, não há despotismo comparável ao da Razão entronizada. “O que me perturba, escreve Cochin, é reduzir essas apavorantes e diabólicas conseqüências ao fato insignificante que as explica, tão banal, tão miúdo: conversar. No entanto nisto reside o essencial” (p. 8).

*

Ligando de volta essas considerações ao seu ponto de partida, observarei que estamos diante da mais espantosa abdicação da inteligência. Conversar (hoje dissemos dialogar) é buscar na convivência compulsiva dos outros, às expensas quase sempre da realidade, uma unanimidade confortante. O indivíduo atomizado carece da aprovação do grupo para existir. O regime de opinião é o reino do conformismo, o predomínio que o contágio de massa vai adquirindo sobre as manifestações sempre individuais do gênio, do senso crítico e da capacidade criadora. E sendo a inteligência a faculdade do real, esse regime instaura, insensivelmente, o domínio incontestado do mito. Governar, de um lado, será construir as mitologias de massas, de outro, condicionar os espíritos para a aceitação desse irrealismo. Vejamos este último aspecto.

Com efeito, é em técnicas precisas de manipulação do pensamento e na imposição calculada de um mimetismo gregário que se fundamentam as práticas políticas do regime de opinião. O reino da opinião é o governo dos seus manipuladores, cujos processos só no mundo contemporâneo deram todos os seus frutos, atingindo, nas chamadas técnicas de animação de grupos, a sua maior perfeição e eficácia. Os grupos são os corpos fortuitos que na sociedade de massa substituíram as antigas comunidades naturais ou corpos intermediários, como se dizia, baseados em princípios naturais de convivência, como a profissão, a família, a paróquia, as “ordens” hierárquicas da sociedade, ou a comunidade local (cidade, município, comarca, etc). Exatamente porque não têm uma base natural, os grupos fortuitos, como as multidões das grandes cidades, carecem de uma animação extrínseca, de uma dinâmica incutida para existir. Reduzem o homem à condição abstrata de elementos social constitutivo. Daí serem o campo ideal para ação de minorias propulsoras das reformas igualitárias. As campanhas de opinião desencadeadas na imprensa e no seio das massas pelos pequenos grupos motores (como as sociedades para a promoção disto ou daquilo) preparam o terreno para a política e a legislação niveladoras que aos poucos arrancam o indivíduo às comunidades onde se enraizava naturalmente a sua vida e a sua atividade. Abolição dos “privilégios”, discriminações contra o clero e as instituições eclesiais, centralização da administração e do ensino, expulsão das Ordens e Congregações religiosas, separação da Igreja e do Estado; adoção do salário individual e do assistencialismo estatizado, proletarização das comunidades rurais, formação individualista nas escolas, lei do divórcio, monopólio estatal da educação, abolição das antigas divisões territoriais autônomas (substituídas por “departamentos” administrativos), etc. Eis em suma os processos usados para extrair o homem de seu meio formativo natural a fim de entrega-lo inerme ao mecanismo do Estado. Repito: aí temos, arroladas em rápido inventário, as metas e a substância da obra desagregadora do liberalismo inaugurada em 1789, continuada sob a Monarquia de Julho e a Terceira República e reativada hoje com as campanhas pela “liberdade contraceptiva”, a legalização do aborto, a abolição total da censura, o reconhecimento legal da homossexualidade, a legalização da eutanásia, a oficialização da Universidade contestatária etc., etc. Esse quadro ficaria incompleto se não mencionássemos a dissolução das antigas “ordens” sociais (clero, nobreza, tiers état) nas chamadas “classes” e a substituição das corporações profissionais pelos sindicatos. As classes (burguesia, proletariado) são formações sociais baseadas não numa função concreta ou numa realidade social que aproxima os homens, mas em semelhanças abstratas como “nível de vida”, gênero de atividade, estatuto funcional, etc. Seu arquétipo de primitivo manancial são os “proletários” de Marx (abusivamente identificados com as classes trabalhadoras); os “proletários”, nesse sentido, são os deserdados absolutos, os outsiders físicos — por isso mesmo supostamente imunes ao condicionamentos ideológicos do pensamento — assim como aintelligentsia, a classe intelectual, são os outsiders morais por vocação. Suas condições de existência não se realizam perfeitamente em nenhum segmento ou conjunto real de trabalhadores, já que os “proletários” como tais não passam de uma idéia limite, de uma abstração.[7]

*

Graças à unanimidade ostensivamente “sem mestres e sem dogmas” das sociedades ideológicas (cito mais uma vez Cochin), “o filosofismo é capaz de desencadear uma falsa opinião, mais ruidosa, mais unânime, mais universal do que a verdadeira. É pelo treinamento e a perfeição do trabalho conjunto da claque, que o sistema faz “passar” uma peça de teatro de baixa categoria. Tão bem exercitado é o pessoal das sociedades, que essa claque se torna até sincera; tão bem disseminada está pela platéia que a si mesma se ignora: cada um dos espectadores toma-a pelo público. Ela imita a amplidão e a unidade de um grande movimento de opinião, sem perder a coesão e a conduta de uma cabala (...). não há argumento nem sedução que atue sobre a opinião como esse fantasma dela mesma. Cada indivíduo se submete ao que julga aprovado por todos. A opinião acompanha a sua contrafação, e da ilusão nasce a realidade” (Ibid. ps. 21-2).

Se hoje estamos em situação de avaliar perfeitamente a penetração e a justeza das observações acima. Comparemo-las, por exemplo, com certas conclusões de Etienne Malnoux a respeito das assembléias e reuniões da Sorbonne sublevada em maio de 1968: “À primeira vista, escreve Malnoux, essas assembléias (...) davam uma impressão de anarquia, de incoerência, de espontaneidade; todos os estudantes tinham sido convidados; não havida pois nenhuma coerência de grupo, nenhuma unidade”.

“Mas a tribuna era ocupada e o microfone guardado por um grupo, uma equipe que preparara a reunião, fixara uma ordem do dia, conforme os métodos clássicos: essa equipe compunha-se de um presidente de mesa, de um ou dois relatores que expunham os resultados dos trabalhos das “comissões” e que apresentavam as moções. Esse grupo animador dispunha do auxílio de um ou mais grupos de apoio disseminados na sala, de um serviço de ordem, e também de alguns “figurantes” cujo papel seria intervir no debate para sustentar o grupo dirigente, no caso de se manifestar alguma oposição, e impedi-la de se exprimir, pedindo constantemente a palavra. Essa organização revolucionária era articulada com muita habilidade. Dava ao neófito a impressão de espontaneidade, de uma consciência coletiva a exprimir o sentimento e a vontade livremente manifestada do grupo ali reunido. Na realidade, era tudo combinado, tudo fruto das manigâncias de uma equipe animadora perfeitamente coerente bem treinada, emanada de agrupamentos que se adestravam cuidadosamente nas técnicas de animação de grupos (...)”.

“Em suma, numa vasta assembléia inorgânica e heterogênea, composta de indivíduos isolados que não se conhecem, e convocados para apreciar uma ordem do dia muito vaga, que não tiveram a ocasião de estudar, e à qual portanto dificilmente poderiam trazer a contribuição de soluções adequadas, um grupo coerente, organizado, que examinou as questões e que traz respostas preparadas não encontra muita dificuldade para impor-se e fazer que prevaleça seu ponto de vista” (“Techniques d’Animation Culturelle et Conditionnement Révolutionaire” ap. Culture et Révolution (Actes du Congrès de Lausanne V) ps. 239-242).

Uma sociedade de massa, precisamente, é um conjunto de “indivíduos isolados, que não se conhecem”. Nas assembléias inorgânicas que constituem, um grupo coeso de indivíduos que, estes sim, se conhecem e que ocultam essa circunstância, indivíduos versados em certas táticas de dissimulação, de liderança invisível, não tarda a impor a sua vontade. O regime soi-disant popular, revolucionário, ou de democracia direta, regime de poder impessoal, na realidade é um regime de poder pessoal e secreto.

Dois outros traços devem ser assinalados, ainda que resumidamente, para terminar este perfil da República do pensamento. Destes, o primeiro que mencionarei, o terrorismo, é bem conhecido. Um clima permanente de terror é necessário para manter o indivíduo numa situação de parcela isolada e perdida num todo amorfo que o engloba. O terror impede que o indivíduo se subtraia ao poder paralelo, encontre a sua expressão própria e refaça as conexões vitais com o ambiente através dos corpos intermediários: a família, as comunidades territoriais de base, a corporação, a igreja, etc. Pois na sociedade de massa nada deve se interpor entre o indivíduo puramente inerte, passivo, e o Estado (como instrumento do Poder paralelo), fonte de toda iniciativa vital e criadora. O terrorismo é o grande liquidificador cultural. O outro traço, regra geral menos debatido, resulta de certo modo do primeiro. É a degradação humana e cultural. Pois a cultura é sobretudo o fruto da atividade espontânea do indivíduo sob a proteção vital de grupos intermediários livremente constituídos. Subordinada ao primado da eficiência, a Tecnocracia estanca o processo natural de formação das elites. E aqui voltamos às nossas considerações sobre a “decadência do Ocidente”.

Esse clima de aviltamento do homem impressionou vivamente todos os observadores imparciais dos últimos eventos revolucionários em França. “A Revolução de maio de 1968 da intelligentsia subdesenvolvida, do proletariado intelectual fracassado — escreve Malnoux — constituiu uma extraordinária explosão de imbecilidade. Por uma ironia diabólica, foi obra do que se supunha a nossa elite intelectual” (Op. cit. P. 244).

Quem hoje pode avaliar o que, em matéria de cultura, foi irremediavelmente sacrificado ao terror Staliniano (pensemos na ceifa de talentos resultante dos sucessivos expurgos, no pompierismo glorificado e oficializado da arte soviética, etc.) ou o que na China pereceu sob a fúria desencadeada na Revolução Cultural.

Fenômeno de decadência, forma aguda de abdicação da inteligência, o progressismo social-revolucionário ameaça hoje o conjunto da cultura no Ocidente. Os remédios que porventura sejam eficazes contra ele dependem de uma condição prévia: uma tomada de consciência.

 

Alfredo Lage, A Recusa do Ser — A Falência do Pensamento Liberal, , Parte I, Cap. II, Agir 1971.

 

Notas:

[1] Não reclamava Bérgson um “supplément d’âme” para a sociedade industrial? A “cara negativa” do progresso técnico, como diz Hermann J. Meyer, compreende a padronização do pensamento, sua redução ao plano do pensamento calculador, a dissolução das comunidades naturais e da própria família, o cerceamento da liberdade individual por obra da racionalização, etc. Sem contar que a destruição do ambiente natural, o congestionamento dos centros urbanos e o excesso de “mudanças não significativas”, convertem às vezes o progresso técnico num logro e num pesadelo. E há uma grande aspiração da nossa barbárie interna, negativa e tecnológica, à barbárie externa. O desmoronamento interior, como um vácuo espiritual, é um chamamento de elementos estranhos à tradição do Ocidente.

[2] Não há contradição nenhuma entre essas afirmações. No primeiro caso, trata-se da criação de formas civilizacionais. No segundo, de estruturas técnicas da ciência, que poderiam passar, talvez, praticamente intactas, de uma civilização para outra.

[3] Ninguém o descreveu com mais clareza do que Marcel de Corte, cujo estudo “L´Economie à l’envers” (ap. “Itinéraires” n° 141) é a mais completa e profunda análise do ponto de vista filosófico da atual conjuntura sócio-econômica.

[4] “O termo do processo econômico — eis o ponto capital salientado por de Corte — é não o consumo mas o consumidor, isto é, o indivíduo de carne e osso. Ele é que unicamente é capaz de consumir os bens materiais; é o ser humano dotado de vontade, de liberdade e de responsabilidade; a França não o pode. O consumidor não é apenas a condição da produção, é aquilo, para que a produção existe, seu único fim possível. O papel dele não é absorver o fluxo da produção, como um vaso cujo volume seria indefinidamente dilatável. O consumidor não consome jamais para consumir. Ele consome para subsistir no seu ser, para viver. Utiliza os bens materiais produzidos na sua intenção em vista da realização do seu ser e do único fim cabível para o ser humano: a felicidade”.

A “sociedade de consumo” é aquela em que uma abstração “o consumo substitui o consumidor como fim real do processo produtivo. “A França consumiu tantos hectolitros de vinho, comprou tantos automóveis esta ano, etc. Invertendo a relação do produtor ao consumidor — prossegue de Corte — essa sociedade será obrigada a adaptar o consumo global à sua produção global por todos os meios” (Como? Pela eliminação da oferta diversificada, pelo nivelamento da qualidade; pelas baixas de preço e outros artifícios de venda; last but not least, pela propaganda como fator de condicionamento forçado, bourrage de crâne, etc. De sorte que os dados globais acima mencionados, por paradoxal que isto nos pareça, representam não a expressão numérica de um fator real determinante, mas o resultado de um cálculo abstrato que computou um acréscimo de tantos por cento sobre o consumo do ano anterior e que, por sua vez, servirá de base abstrata para avaliar o consumo do ano vindouro). Desse modo, “o consumidor exerce apenas a função inferior e instrumental de intermediário, ao qual o produtor é forçado a se dirigir para que a máquina continue a girar. O fim da economia é pois o produtor”. Assim caracteriza de Corte a “economie à l’envers”, o principal fator de desumanizaçao social — sob a sociedade industrial. Como observa Galbraith em O Novo Estudo Industrial, “a necessidade de controlar o comportamento do consumidor é uma exigência da planificação”. De onde a injunção de criar novas necessidades de consumo mediante pressões psicológicas, como a emulação (Keep up with the Jones), a sensação de progresso, de saúde, de “bem-estar ou eficácia peristáltica”, etc. Destarte, nota o conhecido economista, a sociedade de consumo empurra o indivíduo a trabalhar cada vez mais  (horas extras, pluriemprego) para adquirir novos bens que a propaganda comercial inculca como imprescindíveis à sua dignidade.

[5] Empresa por ações. Sociedade Anônima.

[6] L’Intelligence em Péril de Mort. Ed. du Club de la Culture Française, Paris, 1969, ps. 234-5.

[7] Cf. Gaston Fessard: De l’Actualité Historique. Tomo II, ps. 150-9: “A diferença das tarefas, das condições de trabalho, de nível de vida, de origem social, para não falar da que nasce da hierarquia das formações de mão-de-obra, basta para criar divisões que tornam vã e abstrata a unidade operária”. Acrescentemos que o uso dessa abstração é por vezes legítimo. Posso falar em “proletariado” para designar as classes laboriosas na medida em que suas condições de vida são de inferioridade humana e cívica. O que não é legítimo contudo é usar essa abstração para substituir ou deturpar a realidade.

A covardia é um pecado e, em alguns casos, muito grave.

No quarto domingo depois da Epifania, a Igreja lê, na Missa, a narração da Tempestade no mar, que é contada pelos três Sinópticos, segundo o texto mais breve de todos, que é o de São Mateus: tem apenas quatro versículos, mas a narração é feita com energia tão formidável, que parece um gravado em cobre ou madeira, com quatro traços principais. São Mateus é o mais saboroso e enérgico dos três Sinópticos. A Bíblia de Bover-Cantera diz: "Este Evangelho pertence à literatura escrita; o de Marcos, à oral". É um erro grave que denota muito atraso em exegese. Com toda certeza, os quatro Evangelhos pertencem ao gênero que hoje lingüistas, etnólogos e psicólogos chamam estilo oral; e foram recitados de memória antes de serem fixados em pergaminho — ao menos os três primeiros — como as rapsódias de Homero, o Vedanta, o Corão, o Poema del Myo Cid e, em realidade, quase todos os monumentos religiosos ou épicos da Antiguidade. Esta noção, que hoje em dia se possui cientificamente, resolve de um golpe a falsa Questão Sinóptica, que preocupou a eruditos durante dois séculos; e que consiste em terem os Evangelhos, por um lado, algumas diferenças entre si e, por outro, uma concordância maciça; como pode se ver neste relato que os três Sinópticos trazem. Isto deu causa a uma confusão enorme na cabeça dos sábios alemães, alguns dois quais chegaram a negar a autenticidade destes três documentos religiosos, até que Marcel Jousse descobriu as admiráveis leis do estilo oral. 

Coisa incrível: há uma tempestade tal no Mar de Tiberíades, que as ondas invadem a barca dos pescadores; e Jesus Cristo dorme. Fingiria dormir, como dizem alguns, para "provar seus discípulos"? Não, dorme, com a cabeça apoiada em um banco. Essa maneira de experimentar os outros com coisas fingidas é uma palhaçada inventada por algum mal mestre de noviços: a única coisa que prova verdadeiramente é a vida, a verdade, a realidade; não as ficções. Tampouco é verdade que Deus tenha proibido a Eva o Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal para prová-la; proibiu-o porque, simplesmente, este fruto não lhe convinha, nem a ela nem a ninguém. Deus não faz tolices, mas há gente inclinada a atribuir-Lhe as tolices próprias. Deus fez o homem a sua imagem e semelhança; mas o homem retribuiu; porque, quantas vezes o homem não refez a Deus à sua imagem e semelhança!

Jesus Cristo é notável: dorme de dia, no meio de uma tormenta; e de noite deixa a cama e sobe até uma colina, para rezar até a madrugada. Não o despertam o bramir do vento, o golpe da água, os gritos dos marinheiros mas, à noite, o desperta um gemido ou uma mulher com hemorragia que lhe toca o vestido. Dona Madalena, minha avó, dizia: "Jesus Cristo é bom, não digo nada, mas, quem O pode entender?" Só uma criança ou uma animal podem dormir nestas condições em que os três Evangelistas dizem que Cristo realmente "dormia"; e também um homem que esteja tão cansado como um animal e que tenha uma natureza tão sã como a de um menino. Sabemos que muitos homens de natureza privilegiadamente robusta podiam dormir quando quisessem; como Napoleão I, por exemplo, do qual se conta que podia fazer isto: dormir quando lhe parecia bem, sobretudo nos sermões; e foi preciso despertá-lo na manhã da batalha de Austerlitz. Ao contrário, Napoleão III, seu sobrinho, não pregou os olhos na noite do golpe de Estado de 1851 e se levantou três vezes para ver se tinha dormido a sentinela. Isso porque Napoleão I foi um herói; mas, Napoleão III, uma imitação de herói: um palhaço. Bom, o fato é que Cristo dormia, e seus discípulos o despertaram dizendo algo que varia nos três Evangelistas; mas, na realidade, devem ter gritado não três, mas umas doze coisas diferentes pelo menos; que se resumem nesta: "vamos morrer!" Não vos importais se  "vamos morrer"? que traz São Lucas como resumo de toda a gritaria. O que disse São Mateus, que estava ali, foi isto: "Senhor, ajuda-nos, que perecemos". Cada um disse o melhor que soube, e isto é tudo. O que lhes disse Cristo — nisto concordam os três relatos — foi, "covardes". A Vulgata latina traduz "Modicae fidei", ou seja, "homens de pouca fé"; mas Cristo, em grego ou aramaico, lhes disse: "covardes". Um homem que grita quando entra água em sua barca em uma tempestade do Mar da Galiléia, que são breves mas violentas; supondo até que tenha gritado um pouco demais, é covarde? Para mim, não é covarde. Mas para Jesus Cristo, é covarde. E Jesus Cristo não gosta de covardes. A Igreja ("a barca de Pedro", como é chamada) teve muitas tempestades e há de ter ainda outra que está profetizada, na qual as ondas entrarão a bordo e parecerá realmente que os poucos que estão dentro, morrem. Cristo parece ter conservado seu costume juvenil de dormir nestes casos; e também sua idiossincrasia de não amar a covardia. A covardia é pecado? Sim; e, em alguns casos, muito grave. Os Apóstolos tinham uma maneira de pregar que, se me deixassem, eu não usaria outra: trata-se de fazer uma lista de pecados grandes, recitá-la e depois dizer: "Nenhum destes entrará no Reino dos Céus. Basta" Assim, São Paulo disse: "Não vos enganeis, irmãos; que nem os idólatras, nem os ladrões, nem os adúlteros, nem os avarentos, nem os efeminados nem... e assim continua... entrarão no Reino dos Céus". Hoje em diz deveria pregar-se assim, de modo simples... é nossa opinião. Pois bem, São João, no Apokalypsis, que é uma profecia sobre os últimos tempos, acrescenta à lista de pecados outros dois que não estão em São Paulo: "os mentirosos e os covardes". O qual parece indicar que, nos últimos tempos, haverá um grande esforço de mentira e de covardia. Que Deus nos encontre confessados. A covardia em um cristão é um pecado sério, porque sinal de pouca fé em Cristo ("covardes e homens de pouca fé") que provou ser um homem "a quem o mar e os ventos obedecem" — como disse o Evangelho de hoje — ao lado de quem, portanto, ter medo não é coisa bonita; nem mesmo lícita. Júlio César, em uma ocasião parecida, não permitiu a seus companheiros que se assustassem. "Que temeis?" Levais César a sua boa estrela", lhes disse. Por mais forte razão Cristo, que é criador das estrelas. O que governa o mundo são as idéias e as mulheres, disse alguém. As idéias, não duvido. As mulheres, teria de se provar. Que sucederia se, na Argentina, surgisse uma S. Teresa de Jesus, que persuadisse a todas as mulheres deste propósito: "Não me casarei com nenhum homem que seja covarde!" Creio que cairia a tirania atual, e que não subiria ao poder mais nenhum tirano. 

(extr. de "El Evangelio de Jesucristo ", tradução: PERMANÊNCIA)

A religião do progresso

A RELIGIÃO DO PROGRESSO

Alfredo Lage

I

O PENSAMENTO UTÓPICO

  

O mundo moderno apresenta-nos, sob muitos aspectos, a imagem de um progresso humano paralisado por falsas concepções do progresso. Não só, avaliado em termos propriamente humanos, esse progresso muitas vezes é apenas aparente (pois resulta de uma opção que preferiu um valor material a algum valor essencial do homem), mas a idéia de que o progresso é alcançado graças à negação dos valores tradicionais, e por oposição a uma conjuntura anterior, leva a confundir o movimento ascensional de um grupo humano ou da civilização em geral com as modificações mais superficiais e exteriores da vida, como o comprimento das saias ou a largura das lapelas. (Que essas, sim, se medem por uma fácil oposição ao passado). Além disso, o relativismo filosófico, isto é, a ausência de um seguro critério para escolher entre as possibilidades que se apresentam, abrindo tantos problemas quantos soluciona, geralmente torna esse “progresso” um “marcar passo” (um “piétner sur place”, como dizem os franceses).

O pitecântropo e os professores

Talvez não se conceda bastante atenção a um caso singular que oferece a ciência dos estudos pré-históricos. Toda a ciência se funda, com efeito, no conjunto admirável de suas conquistas, por um método de acumulação. Todas as invenções mecânicas e a maior parte dos descobrimentos da física derivam da observação completada pela experiência. Ora, bem; não se fabricam homens primitivos. Esta é a grande dificuldade para o conhecimento de nossas origens. Assim, chegareis a aperfeiçoar, peça por peça, o aeroplano de vossa invenção, assistindo no jardim às evoluções de um modelo reduzido feito de bambus e de latas de sardinhas; porém, jamais, nesse mesmo jardim, assistireis a evolução do missing-link1. Se cometeis um erro de cálculo, o aeroplano fará, por si mesmo, a prova em uma caída precipitada. Porém, se incidis num erro de suposição, a respeito dos costumes de um dos vossos ascendentes, na selva, por exemplo, não será, de certo, ele quem o demonstrará, deixando-se cair, da árvore em que estiver trepado, ao solo.

É impossível criar o homem de Weanderthal2 em uma gaiola, como galo, com o objetivo de descobrir se ele pratica a antropofagia e o rapto nupcial. É absurda a idéia de manter uma manada de homens de Cromagnon3 a fim de estudar as manifestações do instinto gregário. Se um pássaro se comporta de um modo insólito, é bem possível que adivinhemos os costumes de outros pássaros; mas, de um crânio ou de um fragmento de crânio a imaginação mais científica não pode deduzir todo um vale de Josafat, e, falha de experiência, ficaria reduzida a contar com o único testemunho evidente, se o próprio desse passado, quase inteiramente abolido, não fora o não ter deixado dele nenhum, sequer... Dessas diversas dificuldades resulta que se as outras ciências progridem, segundo uma espécie de curva incessantemente corrigida por incorporações novas, os estudos pré-históricos tomam a tangente com uma velocidade geometricamente acelerada. Não importa. O costume de tirar conclusões é um reflexo tão profundo do espírito científico que se não poderá impedir de colocar em um único e mesmo plano de realidade a teoria construída sobre um resto de ossada e o avião Paris-Londres, fabricado com os despojos de vinte modelos destroçados.

A vantagem do aviador está em fazer tantas saídas falsas quantas lhe venham à vontade, enquanto que a desgraça do professor de pré-história reside em não ter ele direito a mais de uma saída, verdadeira ou falsa. Tudo isto explica, mas, não justifica, o estado de precipitação ousada e, ao mesmo tempo, temerosa que se apodera de certos teóricos, induzindo-os a hipóteses arriscadas, a ponto de caírem na região da pura fantasia. Fala-se muito, geralmente, da paciência científica. Da impaciência é que se devia falar. O mais empírico dos antropólogos, está nas mesmíssimas condições que o mais prudente dos arqueólogos:  é-lhe preciso ater-se a um farrapo do passado, sem a esperança de, jamais, vê-lo aumentar entre as suas mãos. Manuseia a porção dos seus descobrimentos com a mesma energia feroz com que o homem das cavernas manuseava o seu pedaço de sílex, e por idênticas razões. É o seu único patrimônio, o seu único utensílio e a sua arma única; arma que manejará com uma espécie de fanatismo desesperado, ao qual não nos acostumaram, ainda, os sábios do laboratório. Estou seguro de que mais de um professor superaria a mais de um cão, na arte de arreganhar os dentes, em defesa do seu osso.

Contemplemos a sua obra. Ante a dificuldade de criar um macaco e de vê-lo transformar-se em ser humano, nosso homem não se contentará em dizer, o que nós o faríamos de bom grado:  que uma evolução desse gênero se apresenta, em suma, como bastante verossímil. Não, ele exibe a sua pequena esquírola ou a sua minúscula coleção de ossos, e deduz, para maravilhar as multidões, toda uma série de revelações surpreendentes. Assim, por exemplo, em Java se encontraram os restos de um crânio que devia ser mais estreito que o nosso, pelo que se pôde deduzir. Um pouco mais distante, um fêmur, e, dispersos pelas cercanias, alguns dentes que não eram humanos. Se o todo proviesse de um mesmo indivíduo, o que está, ainda, por averiguar, a idéia que poderíamos fazer de tal indivíduo, não seria, talvez, menos incerta. Entretanto, tudo isto bastou à ciência popular para fabricar um personagem completo, mais que completo, terminado dos pés à cabeça, sem a carência do mínimo detalhe, e que recebeu, para logo, um nome próprio, como toda a personagem histórica que se respeite.

O público falou, assim de Pitecântropo como de Richelieu, de Fox ou de Napoleão. As enciclopédias ilustradas publicaram a sua efígie entre Pesistrate e William Pitt e, nós temos dele um excelente desenho, de um tão minucioso realismo, que se não pode duvidar de que lhe foram contados, um por um, até os cabelos. Quem suspeitaria ao ver aqueles rasgos fisionômicos, tão poderosamente acentuados, e aquele olhar meditabundo, que são o retrato de um fêmur ou de um pedaço de abóbada craniana e de um punhado de dentes? Seu caráter e seus costumes são, igualmente, de notoriedade pública. Eu li, ainda não faz muito, uma novela, cujo autor empenha toda a sua arte em demonstrar como os modernos colonos da ilha de Java se vêm irresistivelmente compelidos à infringirem as leis da conveniência pelo influxo pessoal desse pobre velho Pitecantropo. Que os habitantes contemporâneos daquela ilha observem, amiúde, uma conduta das mais inconvenientes, eu não o duvido. Mas, faz-me pena aceitar que sejam, fatalmente estimulados em seus excessos pelo descobrimento de uns velhos ossos de autenticidade mais que duvidosa. Ossos demasiado raros e bastante fragmentados para preencher o vácuo imenso que separa o homem, tanto em razão como de fato, do seu pretenso ascendente. Uma vez admitido este parentesco  o meu objetivo não é discuti-lo  não seria, de outra parte, senão mais surpreendente, ainda, a ausência quase completa de vestígios que o testemunhem.

Foi, exatamente, o que Darwin admitiu, de boa fé, criando a expressão  “missing link”  “elo perdido”, sem prever que o dogmatismo dos darwinistas acabaria, finalmente, com o agnosticismo darwiniano, dando a esse termo, completamente negativo, o sentido de uma expressão positiva. Essa gente fala, seriamente, em descobrir a habitação e os costumes do “missing-link”, depois do que não lhes faltará mais nada que almoçar com um guião, passear pelo bosque em companhia de uma solução de continuidade e passar o melhor possível com a incógnita de uma equação.

Isso é, propriamente, perder o tempo, tanto como conjeturar, sem regra, sobre o homem, antes que ele fora tal. Mas, ainda deduzida a matéria de seu corpo da dos brutos, esta explicação deixaria intacto o mistério de sua alma, tal como nos revela a história. Desgraçadamente, os autores em questão continuam raciocinando da mesma maneira, quando deparam com os documentos autenticamente humanos. Falando em um sentido estrito, quero fazer ressaltar que ignoramos tudo o que se refere ao homem pré-histórico, pela simples razão de que é pré-histórico, por isso que não é logicamente possível existir uma história da pré-história, expressão esta tão falha de razão, que só os racionalistas podiam inventá-la. Um predicador que qualificasse o dilúvio de antidiluviano surpreenderia, talvez, alguns sorrisos furtivos no rosto de seus ouvintes.

Um bispo faria bem não classificando Adão entre os pré-adanistas. Mas, que um historiador leigo nos fale das épocas pré-históricas da História não nos surpreende na medida que devera.

O que se quer dizer, sem dúvida, o que se pode e se deve dizer é que a Humanidade é mais velha do que a História, e que a civilização é anterior às crônicas escritas. O homem, de fato, cultivou várias artes antes da escritura, do que se não deve deduzir que, até então, fosse ele um consumado bruto.

O caçador que traçava a imagem de um rengífero não sabia fazer a descrição escrita da sua caça, por forma que esta não pertence à História. Mas, o seu desenho é inteligente; sua descrição também podia sê-lo. Em uma palavra: a expressão  tempos pré-históricos  não designa, necessariamente, tempos bárbaros e incultos, senão tempos, simplesmente, durante os quais se não escreveu nada que possamos decifrar. É bem possível que o grande passado mudo encerre em seu antro, inacessível à nossa sondagem, formas sociais tão civilizadas como rudes ou ferozes, ou melhores, talvez, do que o vão público pensa hoje em dia. Mas, quanta prudência e tato se requer para estas conjecturas! Qualidades, aliás, que não embaraçam aos senhores evolucionistas e que estão muito pouco de acordo com o gênio íntimo de uma época, devorada pela curiosidade, que nada teme tanto como às angústias do agnosticismo!

Na época darwiniana fez-se possível o fenômeno da  “palavra antes da coisa!”  Tanta ignorância, digamo-lo claramente, se cobre com o manto da mais ultrajante impudicícia. Fazem-se em um tom tão categórico e soberbo certas afirmações gratuitas, que é preciso, para examiná-las, uma virtude crítica que ultrapasse o comum. Escolhamos, entre outros, um estudo recente sobre um povo da idade de pedra. Começa, destemerosamente, deste modo: “Viviam em completa nudez!” Talvez não ocorresse a um leitor, entre cem, pensar donde e como esse autor pode comprovar o estado do guarda-roupa de gene da qual se não encontrou  outro vestígio que um montão de ossos ou de calhaus. Será que se esperava encontrar um chapéu de sílex entre os machados feitos desse material ou se pensava descobrir umas ceroulas de pedra e umas calças literalmente paleolíticas? Pessoas de temperamento mais ponderado, ao contrário, aceitariam que um povo se poderia vestir sumariamente ou, mesmo, com suntuosidade, sem que ficassem vestígios disso. Se poderiam ter trançado ervas e juncos num trabalho esquisito, sem eternizar os tecidos. É fácil imaginar a existência de certas sociedades especializadas em artes frágeis, tais como as do tecido e do bordado, em detrimento de outras mais duradouras como a da escultura e a da arquitetura. Existem numerosos exemplos dessas sociedades especializadas. Nossos descendentes distantes, quando registrem as ruínas de nossas fábricas, deduzirão, quiçá, que não conhecíamos mais do que o ferro, e anunciarão, como um interessante descobrimento, que o diretor e seus engenheiros, andavam completamente nus, a não ser trouxessem trajes e chapéus feitos de ferro. Eu não afirmo que os primitivos se vestissem com roupas feitas de ervas. Limito-me a comprovar que não sabemos nada a respeito da sua indumentária e que suas pinturas testemunham que eles possuíam a noção da ornamentação bastante desenvolvida. Outro escritor notável, comentando os desenhos atribuídos aos povos neolíticos da época da rena, e conjeturando que nenhuma dessas imagens parecia ter uma significação religiosa, não vacila em chegar à conclusão de que aqueles povos não tinham religião alguma. Belo sistema! Deste modo nos podemos fazer intérprete dos mais íntimos e secretos movimentos da alma primitiva, por isso que um não se sabe quem, ensaiando, não se sabe porque, esgravatar na rocha, achou mais cômodo desenhar uma rena que uma religião! Desenhou uma rena porque esta era o seu emblema religioso; desenhou porque não o era; desenhou porque não importa o quê, exceto o seu emblema; desenhou seu verdadeiro emblema religioso em outra parte; ou este emblema desenhado foi deliberadamente borrado. Há dez mil explicações de igual valor. Mas, eu, em todo o caso, acho peregrina a dedução de que nosso homem não possuísse um emblema religioso, ou que, ainda no caso de o não possuir, não acreditasse em nada.

E vede que lógica! Descobriram-se, nas mesmas grutas, outras figuras de animais não desenhadas, e sim esculpidas, algumas das quais têm buracos ou talhos que se supõem sejam sinais de flechas. As figuras, assim danificadas, foram, imediatamente, catalogadas como vestígios excludentes de um rito mágico que matava as bestas em efígie, enquanto que as figuras indenes serviriam a outros ritos não menos de magia que tinham como objeto a fecundação de animais. Assim, as imagens danificadas testemunham uma superstição e as indenes, outra. Decididamente estes cavalheiros cultivam uma comicidade inconsciente, que é, também, a melhor. Tudo isto é trabalhar demasiado depressa. Se terá pensado em que uma tribo de caçadores encerrados pelo inverno numa caverna pode entreter o tempo atirando ao alvo? Mas, enfim, que seja superstição:  que se faz, então, da teoria segundo a qual a religião nada tem a ver com os desenhos? Em uma palavra: todas estas hipóteses são flechas lançadas à lua. É muito melhor, ainda, como jogo de sociedade, atirar contra um bisonte de argila.

Se os nossos teóricos se dessem ao trabalho de olhar em redor, comprovariam que o homem moderno conservou o gosto de escrever na pedra. A passagem de uma caravana de turistas por lugares históricos é seguida, fatalmente, por uma floração de legendas e de hieróglifos, aos quais os sábios recusam atribuir qualquer antiguidade. Mas, se os professores do ano 3.000 não se tiverem curado da magnífica seguridade de seus antecessores, entre os quais não me conto,  que admiráveis deduções tirarão das inscrições insertas no ano da graça de 1925! As iniciais entrelaçadas de Júlia e Marianinho, na gruta de Butts-Chaumont, lhes revelariam, indiscutivelmente:  1°, por serem grosseiramente talhados com um canivete mal afiado, que no século XX não se dispunha de nenhum instrumento de precisão e, ignorava-se a arte da escultura; 2°, que sendo formadas por maiúsculas, nossa civilização não tinha idéia da caixa baixa da tipografia, nem da escrita cursiva; 3°, que estando agrupadas em consoantes impronunciáveis, nossa linguagem tinha fundas afinidades com o “galés”, ou mais provavelmente, com os dialetos proto-semitas, que proscrevem o uso das vogais; 4°, que estando manifestamente desprovidas de sugestões religiosas, nossa época não tinha, por isso, nenhuma religião. No que, aliás, não se equivocariam, senão em parte, por isso, se tivéssemos religião, teríamos, certamente, mais senso comum. Afirma-se, segundo os mesmos métodos, que o sentimento religioso se desenvolveu pouco a pouco, em um encadeamento de causas fortuitas que não têm mais do que um valor de coincidência. Estas causas, se nos assegura, se reduzem a três principais: a) ao terror ao chefe da tribo, a que Mr. G. Wells chama, com uma deplorável familiaridade, “o velho”; b) os fenômenos do sonho, e c) a associação de idéias que reúne a colheita, as sementes e a germinação, de uma parte, e, de outra, as noções de sacrifício e de ressurreição. Confesso não conceder grande credulidade a uma opinião que faz derivar um sentimento tão vivo de três fontes tão díspares. Imaginemos que Mr. Wells, em uma das suas encantadoras antecipações, quer fazer-nos assistir ao advento de uma paixão nova e misteriosa que embriague o homem,  como o primeiro amor, pela qual verteria o seu sangue como por uma pátria. Ficaríamos bastante intrigados se o novelista nos explicasse que essa paixão singular era resultante de três influências distintas, a saber: o gosto pelos cigarros turcos, aumento do imposto sobre a renda e os cento e vinte à hora.

A relação se nos escapa; não a compreendemos. Porém, não há outra entre um pesadelo, uma seara e um velho cacique armado de lança, a menos que pré-exista um sentimento que os associe. Este sentimento não pode ser senão de ordem religiosa e eu me permito observar que se é ele a causa da associação de idéias assinaladas, então, não pode ser, ao mesmo tempo, o efeito. Sentimento, graças ao qual, agora como antes, é natural ver os campos, os reis e os sonhos sob uma luz mística.

É um excesso de malícia dar ao passado um aspecto estranho e inumano, fingindo não se entender o que se entende muito bem. Se poderia dizer, igualmente, que os homens pré-históricos tinham o costume repugnante de abrir a boca desmesuradamente em intervalos regulares e engolir substâncias estranhas, ou que os terríveis trogloditas da idade de pedra imprimiam, alternativamente, a cada uma das pernas, um movimento de elevação centrífuga,  como se ninguém ouvira, ainda, falar em comer ou em caminhar.

Não se faria, assim, mais do que um mal em parte, se se pretendesse, desse modo, solicitar nossa fibra mística e tornar-nos sensíveis ao milagre das coisas familiares. Trata-se, ao contrário, de fazê-las ininteligíveis. Mas, quem não sentirá o mistério do sonho? Quem não pressentirá na morte e na ressurreição da matéria vegetal um dos segredos do universo? Quem não apreenderá esse caráter sagrado da autoridade em que se encarna a alma de um povo?

O antropólogo que de boa fé achasse estas idéias inverossímeis teria de confessar que tinha menos espírito e menos coração que o homem de Cromagnon. Eu creio indubitável que só um instinto religioso, já manifesto, poderia reunir em uma mesma veneração coisas tão diversas. Querer que a religião nasça do temor a um chefe ou de sacrificar à colheita, é pôr um veículo moderníssimo diante de uma parelha de cavalos não domados. É pretender que a idéia de pintar provenha da contemplação de imagens em uma caverna e que ninguém pensasse escrever em verso sem o costume de compor uma ode oficial para festejar a chegada da primavera, ou, sem o hábito, adquirido por certo jovem, de ouvir primeiramente o canto da calhandra para depois fixar no papel a impressão recebida. É bem verdade que freqüentemente algum jovem, em chegando o mês de maio, se descobre uma alma de poeta, e, então, aqui em baixo, nada é capaz de impedi-lo que celebre à calhandra ou ao rouxinol. Isto, entretanto, não significa que o senso poético venha da prosódia. Tão pouco que a religião provenha dos ritos religiosos.

Precisa-se uma certa dose de espírito para sentir o mistério do sonho e da morte, o valor poético da primavera e o canto dos pássaros. A vaca, nos prados, não parece tirar nenhum partido lírico das facilidades insignes que lhe são oferecidas para ouvir o rouxinol e nada permite pressagiar que os carneiros vivos se decidam a render aos carneiros mortos a homenagem de piedosas cerimônias. É verdade que os primeiros raios da primavera sugerem aos quadrúpedes jovens fantasias galantes, mas todas as primaveras do mundo têm sido, até o presente, impotentes para lhes sugerirem fantasias literárias. Igualmente, se o cão, segundo todas as aparências, possui a faculdade de sonhar, há muito que esperamos que faça de seus sonhos a base de um sistema refinado de cerimônias litúrgicas; tanto tempo esperamos e muito nos surpreenderia vê-lo utilizar seus sonhos em um sentido eclesiástico e interpretá-lo segundo as doutrinas da psicanálise. Qualquer que seja a razão é indubitável que certas experiências e certas emoções não franqueiam mais que no homem a fronteira da expressão criadora.

Jamais se viu isto em outra criatura e, sem dúvida, nunca será visto. Não é impossível, num sentido de auto-contradição, que víssemos os bois se absterem do pasto nas sextas-feiras e, como na legenda, caírem de joelhos ao ouvir o sino da Natividade ou, então, expressarem suas esperanças de felicidade celeste por meio de uma dança simbólica em honra da famosa vaca da canção que saltou por cima da lua. A força de sonhar o cão chegaria, talvez, a erigir um templo a Cérebro, concebido como uma espécie de trindade canina. Talvez seus sonhos comecem já a traduzir-se em visões suscetíveis de expressão verbal, em revelações concernentes à constelação do Grande Cão, pátria espiritual dos cães abandonados... Nada de tudo isto constitui uma contradição de princípio absoluto; mas o senso das probabilidades ou o bom senso nos adverte de que os animais não evoluem nesta direção, ainda que a morte, a primavera e até o sonho pertençam tanto à sua experiência como à nossa. Do que se depreende que só o nosso espírito é suscetível de receber as impressões de ordem religiosa.

E, eis-nos, de novo, no âmago de nosso tema  a existência, tão distante quanto possamos remontá-la, de um pensamento ativo, solitário, capaz de formar doutrinas tanto como imagens, de extrair da matéria imóvel suas razões de temor e de esperança e de abandonar-se à contemplação misteriosa de sua natureza, que o fará já não crer mais na morte.

As raras observações permitidas aos nossos olhos só nos deixam ver o homem como tal. Guardam na sombra o elo suposto que o uniria ao animal, pela razão muito simples de que ele é mera suposição, e, em conseqüência de não saber se o Pitecantropo existiu, de fato, ignoramos mais, ainda, se ele sabia rezar. É um ente de razão, um sinal convencional, um tampão destinando a tapar a brecha que separa macacos incontestes de homens incontestáveis. Assim, o homem-macaco, se é que existiu, será, segundo nosso humor, tão piedoso como o homem, tão livre-pensador como o macaco e não será um resto de crânio recolhido em Java que vai nos ilustrar sobre este ponto. A verdade é que, em um dado momento, tão distante que escapa à ciência, produziu-se uma transição de que não podem ser testemunhas nem pedras, nem ossos, e na qual se revelou a alma humana.

Reconhecemo-la como nossa e a saudamos no seu longínquo aparecer. Seu passo e seu gesto nos são familiares. Por ela, todos somos irmãos. Por ela um selvagem, um estrangeiro, uma figura histórica despertam em nosso coração fibras profundas.

Assim, vemos que o costume de vestir-se é uma das regras fundamentais da vida humana universal. O vestuário é, desde suas origens, o sinal de um sacerdócio, pois, se é verdade que o homem, enquanto como animal difere dos outros, a ponto de que a nudez lhe pode causar a morte, não é menos certo que se veste por decência e magnificência quando não por necessidade. O traje tem, amiúde, um valor de decoro. A diversidade de convenções que o regem, segundo os povos e segundo os tempos, é extrema como também o é a simplicidade da boa gente, a qual esta simples observação basta para desmoralizar. Será, pois, que o pudor não existe desde o momento em que os insulares do Pacífico e os habitantes de Paris não têm a mesma idéia da moda? Como se disséramos que, posto que tenham levado tantos e tão estranhos chapéus, estes não existem, nem sequer a calvície e as insolações. O simples bom senso mostra que sempre se tem precisado de regras que, velando certas intimidades do homem, o pusessem a coberto da mofa e do desprezo e que a observação destas regras, qualquer que fossem gera o sentido da dignidade e do respeito mútuo. O fato delas, a maior parte das vezes, estarem ligadas às relações entre os dois sexos, ilustra os dois grandes casos que dominam desde a origem da história da indumentária: um deles é que o pecado original é literalmente original, não somente no sentido teológico como no histórico da palavra. Quaisquer que tenham sido suas crenças, a Humanidade acreditou, sempre, na evidência do mal, e este senso do pecado tornou impossível, para sempre, o viver nu e o ser natural na vida. O outro caso é a família.

Aqui, mais do que em nenhuma outra parte, guardemos o justo sentido das proporções. Estamos em frente de uma montanha. A nuvem flutuante das teorias e das teses pode ofuscá-la em parte, mas não por completo; mons parturiens4    em verdade, de onde procede todo o reino aqui de baixo, todo o império e toda a república. O que chamamos família teve de abrir um caminho através das diversas formas de anarquia e de aberração?

Pode ser. O certo é que ela os sobrevive; o provável é que ela os precedeu. O comunismo e o nomadismo provam que estados sociais amorfos podem se desenvolver à margem das sociedades civilizadas; mas nada testemunha que a forma não se tenha adiantado à deformidade. Sempre é a forma a que conta e a humanidade foi quem escolheu esta forma. Nada mais curioso, por exemplo, que o costume selvagem que se chama couvade, mundo invertido, digno dos antípodas, em que o pai, durante o embaraço da mulher, é tratado como se fora esta. Não somente se supõe certo misticismo sexual, senão que simboliza a aceitação pelo homem de suas responsabilidades paternais. Neste caso, a feroz mascarada se converte em um rito dos mais solenes, e no fundamento de toda família e de toda sociedade.

Alguns têm emitido a hipótese de que a humanidade constituía, em outro tempo, um matriarcado (feminismo devera chamar-se); outros, alegam que se tratava de um período de anarquia no qual a mãe não representava o ponto fixo, senão em razão do descuido e do anonimato dos pais. Depois, viriam os tempos em que o pai se decidiria a cuidar da prole, a protegê-la e a converter-se em chefe de família consciente e organizado. É muito possível, e, então, pela primeira vez, o homem teria obrado como homem. Porém, é também possível, igualmente, que o estado de matriarcado, de anarquia, de promiscuidade, como se queira, não fora mais que uma das inumeráveis regressões bárbaras que se terão produzido nos tempos pré-históricos tanto como nos históricos. Se é um símbolo, a couvade talvez comemore, não o nascimento de uma religião, mas a destruição de uma heresia.

Quaisquer que sejam as origens do edifício humano, ele está ante nossos olhos e a família constitui sua célula central, ao redor da qual, como uma guarda de honra, velam as santas virtudes domésticas que nos distinguem da abelha e da formiga. O pudor é a cortina da tenda e a liberdade a muralha desta cidade. A propriedade não é senão o reduto da família. A honra seu brasão.

A história se abre com um pai, uma mãe e um filho, e se não somos dos que invocam uma divina Trindade, teremos, não obstante, de invocar uma trindade humana, cujo triângulo se repete até o infinito na trama do universo. Pois o ponto culminante da história, para o qual tende a criação de todas as partes, vibrando, estremecendo-se, nos apresenta esse mesmo triângulo invertido, ou, melhor dito, um triângulo novo, que, superpondo-se ao primeiro, forma com ele uma estrela de cinco pontas, mais terrível para os demônios que a dos Magos.

A antiga trindade, composta do pai, da mãe e do filho, tinha um nome: a família humana. A nova se compõe do filho, da mãe, e do pai, e, também, tem um nome: a Sagrada Família. Não foi alterada, exceto no sentido de ter sido inteiramente invertida. O mesmo que o mundo, que ela transformou, não se tornou diferente, mas completamente ao inverso:  Isto é, tudo ao contrário do que era antes.

(“The Everlasting Man”, 2o. cap., trad. Lourival Cunha, Editora O Globo de Porto Alegre, 1934.)       

  1. 1. Missing-link  Expressão com que Darwin interrompeu o seu estudo evolutivo do macaco para o homem  “elo perdido”.
  2. 2. O homem de Weanderthal  O homem da caverna,  o homem primitivo (N.T.).
  3. 3. O homem de Cromagnon  Tipo de homem que viveu na Europa quaternária, construído pelos antropólogos sobre um crânio de velho, encontrado em Cromagnon (França) em 1858, e maior do que o do homem atual. (N.T.).
  4. 4. Mons parturiens  O parto da montanha.

O dever de desobedecer aos homens para obedecer a Deus

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um leitor nos escreve:

 

Prezado Diretor,

Faço questão de participar-lhe do alívio e da satisfação que senti ao ler o Si Si No No de fevereiro de 2003 [edição italiana], especialmente o artigo ‘Autoridade e verdade. Noite ao meio dia?’ [que está sendo publicado neste número da edição brasileira]. Realmente, a brilhante argumentação referente à autoridade papal, que não é absoluta e está limitada pelo direito divino e, portanto, nem sempre obriga à obediência, confirmou-me, mais uma vez, que têm razão de sobra os que decidem continuar pertencendo à Igreja de sempre, isto é, à Igreja da Tradição Apostólica.

Suas demonstrações e provas, dedicadas à refutação dos neomodernistas e “conciliaristas” (que hoje estão soltos pelo mundo e como que possessos por uma sanha diabólica), baseiam-se num plano profundo da moral e da doutrina que nos enche de certeza e esperança quanto ao futuro da Igreja e também à salvação de nossas almas.

Mas, caro diretor, eis aqui a razão de minha carta: há pouco tempo deparei-me com um texto que transcrevo brevemente e que me causou uma pequena “crise” [...]. Trata-se de um livro sobre os grandes santos italianos [...] em que Santa Catarina de Sena, a grande santa do século XIV, padroeira da Itália, dirige-se a Sire Bernabó Visconti, senhor de Milão, um dos mais perigosos inimigos do papado (1373): “Pecamos diariamente, e por isso necessitamos diariamente de receber o perdão de nossos pecados, mas só a Igreja administra este sacramento, por ser a única depositária do sangue do Cordeiro. Então, quão néscio é quem se afasta do Vigário de Cristo, guardião das chaves do céu! Mesmo que fosse o diabo encarnado, o senhor não deveria rebelar-se contra ele, e sim, humilhar-se sempre e pedir o sangue [do Cordeiro] por misericórdia. De outro modo não poderia obtê-lo nem participar de seus frutos. Rogo-vos, pelo amor de Cristo crucificado, que nunca façais nada contra vosso Chefe [...]. Dai-vos conta de que só o demônio pode vos ter tentado a fazer justiça em relação aos maus pastores da Igreja. Não creiais no demônio; o castigo dos prelados não é vossa incumbência; não o consente nosso Salvador, que não quer que Vós nem criatura alguma faça tal justiça, pois é ele próprio quem deseja realizá-la [...]”.

Mais tarde [...], em 1375, a República de Florença rebelou-se abertamente contra a autoridade do Papado; Catarina trovejou e fulminou seus anátemas contra os reitores do Povoado de Sena:

“Quem, como membro infecto, rebela-se contra a Santa Igreja e contra nosso Pai, o Cristo na Terra, cai no domínio da morte, porque o que se faz ao Vigário de Cristo faz-se ao próprio Cristo. Prestai atenção ao que conseguistes com vossa desobediência e perseguições: cair na morte, tornar-vos odiosos a Deus e desagradáveis a Ele; não vos podia acontecer coisa pior do que estar privados de Sua graça. Admito que muitos imaginam não ofender a Deus agindo assim, e que enquanto perseguem a Igreja e seus pastores se desculpam alegando que eles são maus e autores de toda sorte de dano. Mas digo-vos que Deus quer e manda que, apesar de o Cristo na terra e os outros pastores serem diabos encarnados, submetamo-nos igualmente e os obedeçamos. Não por causa de suas pessoas, senão por obediência a Deus, pois o Papa é o vigário de Cristo”.

Chegando a esse ponto, caro Diretor, peço-lhe um comentário, uma explicação sobre as afirmações de Santa Catarina relativas ao Papa e à obediência absoluta que lhe devemos, como parece, em qualquer caso ou circunstância, mesmo que seja o demônio encarnado. Encontro-me entre a “cruz” das poderosas razões que o senhor expôs no artigo supracitado e a “espada” das palavras da padroeira da Itália que parecem, à primeira vista, irrefutáveis e irrepreensíveis”.

Carta assinada

 

Para compreender os textos de Santa Catarina é mister levar em conta que para ela eram perfeitamente normais e verdadeiras as noções de obediência e desobediência. São Pedro também dizia aos escravos que obedecessem a seus senhores mesmo que fossem maus (I Pedro 2, 18) mas, certamente, não queria dizer com isso que deviam obedecer às más ordens dos maus senhores, nem a Igreja jamais o compreendeu assim (caso contrário, os mártires teriam oferecido sacrifícios aos deuses para obedecer ao imperador). Portanto, aproveitando a ocasião que nos oferece o leitor, “tiremos o pó” da doutrina católica sobre a obediência, já recordada aqui em mais de uma ocasião.

Comecemos por descartar que Santa Catarina exija uma obediência “absoluta” ao Papa. Na verdade, a Igreja ensina que a obediência absoluta se deve somente a Deus. Santo Tomás pergunta-se, em sua Summa Theologica se é necessário obedecer a Deus em tudo (S. Th. II-II, q.104, a.4). Sim, responde, porque além de ser o senhor supremo, Deus não pode mandar nada contra a verdade e a virtude (ibid. ad 2). Depois o santo pergunta-se se os subordinados também estão obrigados a obedecer em tudo a seus superiores (S.Th. II-II, q.104, a.5). Não, responde, porque o superior pode mandar alguma coisa contra Deus, e nesse caso é imperativo obedecer a Deus sem considerar a ordem da autoridade inferior, de acordo com o princípio proclamado por São Pedro (At 5, 29): “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens”(ibid.).

Tampouco é absoluta a obediência a que estão obrigados por voto os religiosos. Tal obediência está submetida à norma supracitada, e a partir daí Santo Tomás distingue três tipos de obediência:

“A primeira, suficiente para a salvação, limita-se a obedecer nas coisas obrigatórias; a segunda, perfeita, obedece em todas as coisas lícitas; a terceira, desordenada (indiscreta), obedece também no que é ilícito” (ibid. ad 3). Entretanto, é em nome dessa última obediência “indiscreta”, desordenada e sem discernimento, que muitos religiosos e eclesiásticos se dobram frente ao modernismo, outrora condenado pela Igreja.

Assim, “a obediência é ilimitada quando diz respeito a Deus...; quanto aos homens, ela é limitada pelo direito divino (natural e positivo), por toda autoridade humana superior e pela matéria subtraída ao poder do superior” (Enciclopédia Católica, verbete “ubbidienza”).

Não há autoridade humana que seja superior à do Papa, mas seu poder não está isento dos outros dois limites: o direito divino (natural e positivo) e a matéria que não é de sua competência.

A revista jesuíta La Civiltá Cattolica, que era, então, influente, gloriosa e benemérita, escrevia há mais de um século:

Todo poder absoluto nesse mundo repugna. Nem a Igreja o possui: ela tem no Evangelho um código imutável; em seu organismo, uma constituição de que não pode afastar-se; na assistência divina um guia que a conforta. Temos algum poder graças à verdade, mas nada podemos contra ela. São Paulo escreveu: Non possumus aliquid adversus veritatem, sed pro veritate [...]. Só Deus, Senhor supremo de Suas criaturas, carece de limites de qualquer tipo, porque não necessita deles de modo algum, sendo reto e sábio por essência; portanto só Ele é regra para si próprio. [...] Qualquer outro poder só pode ser ministerial, pois acha-se circunscrito por limites e necessita de direção” (vol II, série XV, 1892, pág. 10). Também comentou acerca do Papa em particular: “Mas, enfim, é verdade que o Papa goza de soberania absoluta na Igreja? Tal expressão, se nos fixarmos no sentido próprio das palavras, é falsa. Não há dúvida de que a Igreja parece reger-se monarquicamente – assim é, de fato. Mas uma coisa é pôr no Papa uma soberania monárquica na forma, e outra muito distinta é fazer dele sujeito de uma soberania absoluta. A soberania monárquica refere-se ao sujeito do poder, e significa governo de um só; a soberania absoluta faz referência ao poder, e significa um poder independente de quem quer que seja. O Papa goza da soberania monárquica enquanto que só nele está concentrado todo o governo da Igreja, mas não tem a soberania absoluta, visto que não é rei nem dono da Igreja, senão vigário de seu rei e de seu dono: Cristo. Donde se segue que, assim como o vigário não pode exercer a administração de que está encarregado a seu “bel prazer” e está obrigado a submeter-se às prescrições daquele de quem é vigário, também o Papa não pode conduzir a Igreja de acordo com seus caprichos, mas tem que depender da vontade de Cristo, de quem é vigário. Em outros termos, o Papa tem que guardar, sem violar, as leis e prescrições dadas por Cristo e, atendo-se a elas, tem de administrar a Igreja com prudência” (vol VII, série IX, 1875, pág 193).

Por isso Bento XIV escreveu o seguinte ao bispo de Breslava (12 de setembro de 1750): “O fato de que nós conhecemos isso e o toleramos deve ser suficiente para tranqüilizar vossa consciência, pois nesse assunto não há nenhuma oposição ao direito divino (natural ou positivo) [caso houvesse oposição, a consciência do bispo não poderia gozar de tranqüilidade], somente ao direito eclesiástico”.

E, até mesmo nessa questão de uma tolerância não contrária ao direito divino, o Papa se acha na obrigação de justificar-se: “Tudo que fazemos, testemunhamos diante de Vós, e ao pé do crucifixo, fazemo-lo somente para evitar maiores males à nossa religião”.

Assim respondeu Pio VI a Napoleão, que lhe pedia que anulasse o matrimônio – válido - de seu irmão: “Se usurpássemos uma autoridade que não temos, tornar-nos-íamos culpáveis do abuso mais abominável de nosso ministério diante do tribunal de Deus e da Igreja” (Que Votre Majesté, 26 de junho de 1805).

Compreendido isso, claro está que ao falar de obediência ao Papa, Santa Catarina refere-se, como São Pedro, a ordens que não usurpem uma autoridade que o Papa não recebe de Cristo; ela se refere a ordens que não contrariem o direito divino (natural ou positivo), que mesmo sendo um “demônio encarnado”, o Papa pode dar. Se além de ser um “demônio encarnado” o Papa der ordens próprias de um “demônio encarnado”, então o fato de ser Papa não basta para “tranqüilizar a consciência” de ninguém (cf. Bento XIV cit).

A obediência, na verdade, exige não apenas que a autoridade seja legítima, mas que as ordens sejam também legítimas (e por aqui se vê a inconsistência do sedevacantismo: se meu pai me ordena algo mau, não devo me preocupar em provar que ele não é meu verdadeiro pai. Para negar-lhe obediência, basta que sua ordem seja má).

A obediência é uma virtude moral, não teologal. Entre as duas categorias há uma diferença fundamental: não é possível pecar por excesso nas virtudes teologais (fé, esperança e caridade), porque tendo Deus por objeto direto, quanto mais se crê, mais se espera e mais se ama, melhor. Nas virtudes morais, entretanto, pode-se pecar por excesso ou por falta. Quanto à obediência, “peca-se por defeito quando não se executa uma ordem legítima. Nesse caso, há desobediência. Peca-se por excesso contra a obediência quando se obedecem a coisas contrárias a uma lei ou um preceito superiores; nesse caso há abjeção (ou servilismo)” (cf Roberti, Dizzionario de Theologia Morale, ed. Studium verbete “ubbidienza”). Por isso São Francisco de Sales escreve: “Muitos se enganaram profundamente ao crer que a obediência consistia em cumprir, com ou sem razão, tudo que nos é mandado, mesmo quando for contrário aos mandamentos de Deus e da Santa Igreja, no que erraram sobremaneira [...] porque em tudo que diz respeito aos mandamentos de Deus, os superiores não têm faculdade para dar uma ordem contra eles e os subordinados não têm jamais obrigação de obedecer em tal caso. Pior ainda: se obedecessem, cometeriam um pecado” (Centelhas Espirituais, cap IX, págs 170-171).

Assim, o dever de obedecer pressupõe sempre que a ordem do superior seja sempre legítima. Caso contrário, não há obediência e sim, pecado contra a obediência. E para a obediência perfeita, também chamada “cega” o Padre Persh esclarece: “Para que ocorra um ato de obediência é necessário que o subordinado veja duas coisas: 

1o. Que quem manda é um superior competente.

2o. Que aquilo que ele manda não é um pecado. 

Para assegurar-se desses dois pontos, a obediência deve enxergar e não ser cega... Em que sentido então se fala de obediência “cega” como ato perfeito de obediência? No sentido de que, estando seguros acerca dos dois pontos acima, tanto da competência do superior quanto da liceidade de sua ordem, nós excluímos a prudência carnal, que torna odioso para nós tudo aquilo que vai contra nossa natureza corrompida e nos estimula a buscar razões para subtrairmo-nos aos preceitos desagradáveis” (Pralectionas Dogmatical, t. 9, ed 1923, nn 261 s.).

Contudo, há um caso em que se deve ao Papa uma obediência “verdadeiramente” cega, e é quando ele fala “ex cathedra” (magistério extraordinário infalível) ou quando ele propõe novamente o que a Igreja sempre creu e ensinou (magistério ordinário infalível). Assim, a obediência cega pressupõe uma autoridade infalível (cardeal Billot, De Ecclesia): no primeiro caso, o Papa goza pessoalmente da infalibilidade prometida a Pedro e a seus sucessores; no segundo, seu ensino goza da infalibilidade prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo à sua Igreja em geral. Por isso, a obediência cega, que “não examina a intenção nem pesa as razões [...] é absolutamente necessária em relação a Deus e ao magistério infalível da Igreja” (Enciclopedia Cattolica, verbete “ubbidienza”).

Conclui-se que, fora do magistério infalível, vale para o Papa o mesmo critério que para qualquer superior (melhor dizendo, vale com maior razão para o Papa, dadas suas gravíssimas responsabilidades): nos casos em que ele não goza do dom de infalibilidade, ele tem o dever de ser muito prudente e os súditos não têm obrigação de obedecer “cegamente”, achando-se, sim, obrigados àquela obediência que pode e deve “enxergar”, como dizia acima o padre Persh. “Enxergar” é perceber com o “sensus fidei” (que não é o juízo pessoal dos luteranos) um contraste com o que a Igreja sempre creu, ensinou, e praticou constantemente. Claro, não nos referimos a um contraste de gostos ou opiniões particulares.

Por isso os bispos alemães responderam a Bismarck, depois da definição da infalibilidade pontifícia, que “a Igreja Católica não é, certamente, uma sociedade em que se admite o princípio imoral e despótico de que a ordem do superior libera, sem condições, os inferiores de qualquer responsabilidade pessoal”; e que tampouco a infalibilidade faz do Papa “um soberano absoluto”, como pretendia o chanceler alemão, porque “a infalibilidade é uma propriedade que se refere unicamente ao magistério supremo do Papa; e isto coincide com o âmbito do magistério infalível da Igreja em geral e está diretamente ligado às Sagradas Escrituras e à Tradição, assim como às definições efetuadas pelo magistério eclesiástico”.

Pio IX aprovou, em nome de sua suprema autoridade apostólica, a supracitada declaração coletiva dos bispos alemães, louvou-a e fê-la sua, e por isso ela figura no Denzinger 5 (cf parag. 3115-3116).

Na Inglaterra, Gladstone acusou os católicos de não poderem ser súditos leais à rainha porque deviam ao Papa uma obediência “absoluta”, o que dava ao Papa “o direito de criar uma consciência falsa para seus fins” e tornava os católicos “escravos intelectuais e morais”. O cardeal Newman respondeu que o Papa não reivindicava uma obediência absoluta, nem os católicos obedeciam daquela maneira, em coisas lícitas ou ilícitas. Newman citou São Belarmino, entre outros doutores da Igreja: “assim como seria lícito resistir ao Papa se ele atacasse fisicamente qualquer homem, também seria lícito resistir-lhe se ele atacasse as almas e perturbasse os Estados, e com maior razão se ele pretendesse destruir a Igreja. Seria lícito resistir-lhe não cumprindo o que ele mandasse e impedindo que sua vontade fosse cumprida” (Newman, carta ao Duque de Norfolk, Belarmino, De Romano Pontifice, II, 29). Se devêssemos interpretar os textos de Santa Catarina no sentido em que entendeu nosso leitor, com sua conseqüente perturbação (o demônio é bem esperto na hora de arrumar um jeito de roubar a paz às almas de boa vontade), teríamos de dizer que, apesar do ensinamento da Igreja e de seus doutores, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo é realmente uma sociedade em que está vigente o princípio imoral segundo o qual a ordem do superior libera, sem condições, os subordinados de toda responsabilidade pessoal, o que é falso. Portanto, devemos supor, e a história daquele tempo no-lo confirma, que se tratavam de príncipes ou governantes que resistiam a ordens papais legítimas (ou que não estavam fora de sua competência) e que se justificavam hipocritamente, como se depreende da carta ao povo de Sena, com o pretexto da indignidade pessoal do Papa e dos demais pastores da Igreja; por isso, Santa Catarina sublinha que se devia obediência “àquele e a estes, não por causa de suas pessoas, mas por obediência a Deus, de quem o Papa é vigário”. A Santa não teria escrito tal coisa se a obediência exigida pelo Papa fosse contrária a Deus e ao ofício do vigário de Cristo.

Quando as ordens ou as diretrizes do Papa contradizem o direito divino (natural ou positivo), deve-se obediência a uma autoridade mais alta que o Papa, a Jesus Cristo Nosso Senhor, de quem ele é o vigário. Vale então para o Papa o que vale para toda autoridade terrena: “quando o mandato é contrário à razão, à lei eterna, à autoridade de Deus, então deve-se desobedecer aos homens para obedecer a Deus” (Leão XIII, Libertas Praestantissimum, no. 15).

No que tange à situação atual, limitar-nos-emos a uns poucos exemplos:

1) Sabemos que Deus quer que o Evangelho seja pregado a todos os homens, porque não há salvação fora de Jesus Cristo nem de sua Igreja (Mc 16, 15-16), e por isso a Igreja sempre foi missionária.

O ecumenismo atual, entretanto, quer que abracemos a idéia de que já não é necessário pregar o evangelho de Jesus Cristo, nem que as pessoas sejam batizadas em sua Igreja; além disso, tacha de “proselitismo” toda ação missionária de cunho tradicional, porque dizem que para os mouros se salvarem basta que sejam bons mouros (o que significa negar a Trindade de Deus, a divindade de Jesus Cristo, a realidade de seu sacrifício pelos homens, etc.); para os hindus, basta serem bons hindus (o que significa até negar a unidade de Deus), e assim para todos os outros, inclusive os heréticos e cismáticos.

A quem prestaremos a obediência de nosso intelecto: a Deus ou a alguns homens da Igreja que traem a Deus e a sua Igreja? (Não julgamos seu grau de responsabilidade, porque não nos cabe julgar).

2) O direito divino proíbe que os fiéis tenham parte e relação com os infiéis, a não ser no campo das atividades materiais e por necessidade (São Paulo: Haereticum hominem devita: “evita o herege”, Tito 3, 10, e São João: “Nem sequer o saudais”. 2 Jo. 10, etc.). Na verdade, é um pecado contra a fé expô-la ao perigo (cf. Enciclopedia Cattolica, verbete fé). O ecumenismo atual, entretanto, promove contatos em todos os níveis, inclusive no âmbito do culto e da pregação (intercâmbio de púlpitos), com infiéis de todo tipo (hereges, cismáticos, idólatras).

A quem devemos obediência: a Deus, ou a homens que, mesmo sendo homens da Igreja, não agem como tais?

3) Nosso Senhor Jesus Cristo fundou sua Igreja na unidade da fé, raiz e fundamento da vida cristã e de toda virtude, a caridade inclusive, porque é conforme à própria natureza do homem que a concórdia das vontades nasça da concórdia das inteligências (cf. Leão XIII, Satis Cognitum, Pio XI, Mortalium animos).

O ecumenismo atual nos diz, entretanto, que devemos colocar a “caridade” como fundamento, desconsiderando a fé e abraçando a idéia de “unidade na diversidade” (salta aos olhos que se referem à diversidade de fé, porque a diversidade na unidade de fé sempre houve na Igreja). A quem obedeceremos: a Deus ou aos homens? E poderíamos estender-nos muito mais em nossos exemplos. 

Sabemos – porque a Santa Madre Igreja sempre nos ensinou (e porque a reta razão no-lo dita) – que é preciso obedecer primeiro a Deus, e depois aos homens (Atos, 5, 29), mesmo que sejam homens da Igreja (mas que abusam de sua autoridade). Conclui-se que, com tranqüilidade de consciência, defendamos nossa fé e a de nossos irmãos contra o “novo rumo” promovido na Igreja em nome de um concílio apresentado como “pastoral” e imposto como “dogmático”; melhor dizendo, como se fosse o único concílio dogmático, ou ao menos como se fosse superior a todos os demais, inclusive ao de Nicéia (Paulo VI!), que defendeu a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo contra Ário.

O que diria hoje Santa Catarina? Ela fez os desobedientes voltarem à verdadeira obediência, mas em sua carta ela também exortou aos Papas, com extrema franqueza, que cumprissem seus deveres: “Peço-vos que façais virilmente o que tendes de fazer, e com temor de Deus”. “Sede homem varonil, não um covarde” (a Gregório XI). Assim, as deficiências daqueles Papas não eram nem de longe como as da hierarquia atual. E tal comentário não supõe que estejamos nos arrogando o direito de “julgar” o Papa (ou os outros pastores). Na verdade, escreve Vitoria, grande teólogo dominicano, citando Caetano e outros teólogos de renome na Igreja: “Nós afirmamos tudo isso (o direito de resistir, inclusive publicamente, ao Papa que demole a Igreja), não porque alguém tenha o direito de julgar o Papa ou porque tenha autoridade sobre ele (exceto Deus, entende-se), mas porque é lícito defender-se. Todo mundo goza do direito (inclusive natural) de resistir a um ato injusto, de tentar impedi-lo, de defender-se dele” (Vitoria, Obras, pág. 487). Com maior razão quando se trata de fé.

Não, os príncipes e governantes a quem Santa Catarina escrevia, não tinham de escolher, como nós, entre a fé e uma “obediência” indevida ao Papa, entre a fidelidade a Cristo e uma “fidelidade” indevida a seu vigário, que deslumbrado pela quimera do ecumenismo, sai de seus limites de vigário e expõe a fé, as almas e a Igreja a todos os tipos de perigo. Caso contrário, Santa Catarina, ao exortar-nos a uma falsa obediência ao homem, indevida e ruinosa, teria nos exortado a desobedecer a Deus para obedecer aos homens.

 

Georgius

 

Reflexões sobre as exigências espirituais na ordem temporal

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Há verdades fundamentais que cada vez se nomeiam menos, quando não são deixadas sistematicamente no esquecimento; silêncio que explica por que nossos contemporâneos encontram um não sei quê de estranho e antinatural cada vez que, devido a circunstâncias excepcionais, estas verdades chegam a seus ouvidos.

Convém observar que em tempos normais — tanto em sua vida social como pessoal — o homem manifesta uma atração pela verdade se esta se apresenta sob uma aparência lisonjeira e sedutora. 

E se, ao contrário, a verdade requer um esforço nos atos ou uma renúncia? O homem se aparta rapidamente para seguir seu próprio interesse ou prazer; não consente em escutar essa voz que vem do alto, e só o faz quando que se encontra oprimido, metido em um caminho sem saída ou presa do sofrimento.

Chegamos nós hoje a tal extremo no plano das realidades temporais? Sem dúvida ainda não de todo. No entanto, desde há alguns anos um sentimento novo parece manifestar-se nas massas: um desgosto e uma inquietude que não provêm somente das dificuldades do momento presente ou das dificuldades que se prevêem para um futuro mais ou menos próximo, mas que consistem mais profundamente em uma angústia mesclada com um ceticismo acerca das respostas dadas às aspirações humanas de felicidade e de justiça em todas as formas técnicas de organização.

Na medida em que estas dúvidas afastem de nós uma segurança artificialmente alimentada durante décadas pelo racionalismo e pelo positivismo político, devemo-nos alegrar: o florescimento de tal sentimento é provavelmente a percepção do que um filósofo chamou “a insuficiência essencial das coisas visíveis”. Sobre a terra, somente o homem é capaz desta percepção.

O fato curioso é que esse fenômeno geral e ainda bastante informe não parece ser advertido no plano da classe dirigente, seja porque esta tem o poder e em tal caso não percebe o que sucede nos corações inquietos acerca da ordem por ela estabelecida, seja porque se encontra na oposição, em cujo caso se mostra totalmente insensível àquilo que não entra em uma visão catastrófica do homem e das coisas.

De qualquer forma o fato está aí, imponente. E assim os “políticos”, em vez de dignar-se considerar esse desgosto coletivo, se limitam a lançar reformas superficiais, incessantemente submetidas a discussões por um prurido psicológico de mudanças, ou a elaborar programas unicamente centrados no melhoramento das condições técnicas.

Essa solicitude pelo progresso material, comum a todas as instituições, trate-se de instituições amigas ou rivais, impede-lhes conceber o futuro de outra maneira que não seja sob a forma de uma benéfica evolução contínua, concebida segundo o modelo — admirado por todos — do desenvolvimento científico. Desta perspectiva, a visão social do futuro não pode evidentemente consistir em outra coisa senão em proporcionar cada vez mais abundantes vantagens e direitos aos cidadãos, os quais cada vez estão mais exigentes com respeito à quantidade e variedade dos alimentos terrestres oferecidos a seu apetite.

 

Só se trata de um consumidor para alimentar e divertir?

É verdade que faz parte da responsabilidade do Poder procurar tais bens, e seria injusto reprovar a dita preocupação dos governantes, os quais se esforçam com boa vontade e com talento por corresponder às aspirações gerais da população. Todos esses esforços, no entanto, não impedem que as coletividades entrem em uma engrenagem geradora de novas dificuldades. Assegura-se-nos um nível de vida cada vez mais alto, mas os recursos do universo são ilimitados? A explosão demográfica do Terceiro Mundo nos permitirá desfrutá-los tranqüilamente? Os danos trazidos pelo progresso técnico não atentam contra o bom funcionamento dos fatores naturais? E, sobretudo, o homem se torna com tudo isso mais sábio?

Os governantes do mundo se submetem ansiosamente aos problemas próprios de nosso tempo recorrendo a novos remédios materiais, dado que, uma vez mais, não podem imaginar outros. 

Como não se perguntar se esse comportamento político-econômico universal não traduz uma filosofia do homem radicalmente insuficiente, que desemboca no desconhecimento de suas necessidades autênticas?

É como se nossos governantes considerassem o homem só sob o aspecto de um consumidor que há que alimentar e divertir, como se não vissem nele mais que uma emanação da ordem material, já que não se fala nunca do que constitui sua essência e sua nobreza, ou seja, sua participação na ordem espiritual, nem, com maior razão, se fala da subordinação da ordem espiritual à da Graça.

Podemos figurar a diversão dos homens públicos a quem se pediu que se debruçassem sobre as exigências morais e espirituais dos cidadãos, assim como, por outra parte, podemos figurar a irritação dos ditos homens se lhes dissessem que as vantagens materiais devem ter em vista seu próprio bem e não a satisfação de seus próprios egoísmos; sua ascensão às alturas e não seu envilecimento na lama.

Ai de mim! A maior parte de nossos chefes — também cristãos (sem dúvida cristãos na vida privada, mas fortemente “laicilizados” em seus pensamentos e comportamentos políticos, por terem demasiado bem aprendida a lição dos clérigos desviados) — já não querem saber que coisa é o homem, donde vem, para onde vai, as aspirações de seu coração nem a grandeza de seu destino.

 

Subdesenvolvimento moral e espiritual

É mister ir ainda mais longe e deplorar o fato de que a filosofia política dos tempos modernos se baseia no repúdio deliberado da “ferida original”, sem a qual é impossível compreender o homem e ajudá-lo eficazmente no plano político-social.

Alguns pensadores disseram que seria necessário dar ao mundo “uma alma suplementar” ou recordaram que as civilizações são mortais. Suas vozes não são escutadas: a batalha cotidiana, provocada pela busca dos próprios interesses, sufoca todos os clamores da razão.

Para estarem ainda mais seguros de que nenhuma luz seria projetada sobre a condição real do homem, foi negado às autoridades espirituais o direito de “informar” e de “animar” a ordem temporal, deixando-lhes somente o direito de ocupar-se do culto e a possibilidade de testemunhar sua simpatia a um mundo em decadência, e é necessário reconhecer que, salvo raras exceções, elas não fizeram muitos esforços por rechaçar a voz do Tentador.

É finalmente demasiado evidente que os bens materiais, ainda que sejam necessários tanto para o exercício da inteligência especulativa e prática como para a satisfação dos sentidos, não podem nutrir o corpo nem a alma. Mas os governantes não olham para o alto: limitam-se a formar eruditos, artistas, técnicos, amantes de doçuras sensíveis e de raciocínios sutis. Estão oficialmente impossibilitados de formar corações leais, ardentes e puros, almas cheias de coragem e de fé. Esse campo está “minguado”, “posto entre parênteses”, como dizem os filósofos alemães.

O resultado dessa extraordinária carência se manifesta agora: o mundo inteiro se encontra imerso em um subdesenvolvimento moral e espiritual, o qual comove todos os ambientes, e do qual pouquíssimos homens públicos parecem ter consciência, sem porém ousar dizer uma palavra.

 

Ao rés do chão, como as andorinhas que anunciam a chuva

Conhecer sempre mais a fundo o mundo exterior, interpretá-lo e transformá-lo para melhor gozá-lo parece ser verdadeiramente o único objetivo dos governantes e dos governados.

Até que ponto chefes e cidadãos compartilham esta visão mutilada e mutilante do homem, pudemos constatá-lo por ocasião dos debates sobre a anticoncepção e o aborto. Guias e guiados, todos sofrendo a mesma cegueira, trabalharam por via legal no delito mais inescusável, explicando solidamente seu repúdio em aceitar que no homem há algo que ultrapassa o mesmo homem.

No entanto, essa cumplicidade não tira absolutamente a maior responsabilidade dos governantes.

Os programas que hoje nos propõem sofrem todos esta lacuna. Nenhuma perspectiva ética ou espiritual se delineia, nem sequer em filigrana. Seja em nome da justiça, do progresso ou da liberdade, nós continuamos voando ao rés do chão como andorinhas que anunciam a chuva. Não nos surpreendamos que nessas condições nos choquemos contra obstáculos que podíamos evitar alçando os olhos um pouco mais alto.

Não imaginando tampouco a subordinação da ordem temporal à ordem espiritual e da ordem espiritual à ordem sobrenatural, os governantes podem esperar somente um redobramento de concupiscências ferozes, estendidas para colher os frutos proibidos, o que portanto fará necessário pôr em prática medidas repressivas destruidoras da liberdade.

 

Uma “liberdade” homicida

Quando se perdem de vista a origem e o fim do homem, por que o Poder e os cidadãos se deveriam privar de violar as leis naturais e morais, cujos imperativos os perturbam? Uma liberdade que se exercita no contexto de uma filosofia mutilada não é mais que uma liberdade egocêntrica e se torna, mais cedo ou mais tarde, uma liberdade homicida.

Dizem-nos que a metafísica e a religião não devem entrar no plano de nossos economistas e de nossos políticos, da mesma maneira que no século passado eram também declaradas alheias ao trabalho de nossos sábios. Mas essa decisão arbitrária nada pode contra a realidade: dado que criado por Deus, o homem é constitucionalmente um animal metafísico e religioso. O não levar em conta sua verdadeira natureza e seu fim leva aos piores erros doutrinais e práticos, até ao próprio sacrifício das vidas humanas.

Repetimo-lo: não podemos rechaçar em nome da verdade — ao contrário! — nenhum dos esforços realizados para melhorar a vida cotidiana dos homens. Digamos somente que é uma loucura querer limitar-se a obrar só no nível “cérebro-digestivo”, oferecer ao espírito humano só algumas quimeras astrais e a seu apetite só alimentos materiais. Estamos seguros de que os demônios que dormem em nós não tardarão a despertar para desencadear uma espantosa carnificina. Esse extermínio já se está realizando diante de nossos olhos, mas não perturba o sono de ninguém!

 

Uma escolha dramática

Em verdade se trata de uma escolha dramática, que consiste em salvar nossa vida ou perdê-la. Amiúde se comparou a vida humana à subida de uma alta montanha: antes de alcançar o cume onde nos espera Aquele que não pode enganar-se nem enganar-nos, nós caminhamos penosamente, não sem ser tentados a cada passo a tomar sendas equivocadas que nos convidam a descer facilmente a abismos bem dissimulados.

Não existe um caminho no meio! A maior parte dos homens gostaria de poder divertir-se descuidadamente sobre vertentes menos escarpadas, onde brotassem a cada passo todos os tipos de alimentos agradáveis. Mas este agradável hedonismo entra nas miragens ou paraísos que se podem chamar, com toda a justiça, artificiais.

O êxito sanguinário do século XVIII, tão próximo de nós por seu aspecto racional e por seu afã de gozo, está cheio de ensinamentos. Lembra aquele amante apaixonado da liberdade que, no momento de subir ao patíbulo, teve de reconhecer os crimes cometidos em nome dessa idéia. Como poderia ser de outra maneira, dado que se havia querido cortar o laço ontológico que une o homem à sua origem e ao seu fim? Estavam condenados a não compreender mais nada do mistério do homem e a deixar de respeitar sua dignidade. Algo desventurosamente semelhante nos ameaça ainda. As hierarquias desmoronam por todos os lados, enquanto as barreiras legais e morais, protetoras da Sociedade, se transtornaram. Sinal revelador, que, não podemos cansar de repeti-lo como um Leitmotiv, é o massacre legalmente autorizado dos inocentes.

 

Vae victoribus! (Ai dos vencedores!)

Em verdade, o trabalho que cabe a nossos governantes é gigantesco. Muitos deles se dedicam sinceramente a dar à gente o alimento e as diversões que exigem. Quase nenhum — ai de mim! — tem a coragem de praticar e de requerer dos outros o agere contra e o sursum corda (equivalente social e moral da inesgotável fórmula dada pela Virgem em Lourdes: “Oração e penitência”), o que constitui o preâmbulo indispensável para qualquer diretriz nacional.

Resta alguma esperança humana? Uma só poderia ser: a existência de certo número de dirigentes decididos que conheçam perfeitamente, conscientemente, as medidas por tomar:

  • para favorecer a unidade e a fecundidade da célula familiar;

  • para ensinar aos jovens e aos não tão jovens o respeito às leis fundamentais que regem a vida humana;

  • para restituir às instituições civis e militares o sentido de sua missão e para inseri-los novamente no “tecido” nacional.

Esta breve admoestação patriótica e moral feita aos governantes pode, por outro lado, ser dirigida aos governados. Deploramos já a cumplicidade na astúcia e no mal que infecciona de cima a baixo a pirâmide social. Essa constatação permite dizer aos cidadãos que também eles devem merecer os governantes que desejam ter.

Observemos, finalmente, um ponto importante que está relacionado com o que eu disse: as relações entre o poder temporal e o poder espiritual. Esse ponto mereceria, por si só, uma longa explanação. Basta dizer que sobre esse ponto capital haveria que corrigir muitas coisas tanto no plano dos princípios como no que se refere a atos concretos. Em todo o caso, não pode ser supérfluo recordar que os representantes dos dois poderes estão submetidos aos mesmos imperativos do bem e da verdade, e que tal exigência veda qualquer acordo secreto ao serviço de causas equívocas.

Estas últimas afirmações parecerão duras a alguns. Poderia pensar-se que fossem infundadas. Ao contrário, no curso da metade do século passado não assistimos muito freqüentemente à marginalização de espíritos excelentes pelas pressões, às vezes conjuntas (e jamais confessadas), das autoridades civis e religiosas? Sem dúvida é uma lei constante que a Cruz seja a sorte daqueles que amam e servem a verdade, ao passo que aqueles que abusam de seus poderes legítimos recebem na terra sua recompensa. Mas não duvidamos em dizer: Vae victoribus!, ai dos vencedores por um dia, que crucificam os justos com a aprovação do mundo e do inferno! São responsáveis pela dupla ruína do Templo e de Jerusalém, quer dizer, da Igreja e da Sociedade, à espera de serem os grandes vencidos na eternidade.

 

Conclusão

Possam os dirigentes em todas as ordens e de todos os graus:

  • compreender que a grandeza de um país não está ligada à acumulação de riquezas materiais nem ao desenvolvimento da arte e da técnica, mas que está unida sobretudo ao valor moral e espiritual dos homens que o compõem;

  • reconhecer, por conseguinte, que só a formação dos planificadores, peritos e eruditos, por muito honrosos que esses qualificativos possam ser, não acrescenta um côvado à estatura moral de uma nação;

  • dar-se conta de que, limitando-se a fabricar cada vez mais objetivos de consumo para indivíduos moralmente subdesenvolvidos, faz crescer consideravelmente o risco de graves desequilíbrios passionais tanto no plano individual como no coletivo;

  • aceitar corajosamente pôr em seu verdadeiro lugar os ídolos apresentados muito freqüentemente pelos tribunais oficiais como fins supremos;

  • pôr termo à mortal separação entre a política, a metafísica e a religião;

  • assumir os cargos públicos para servir ao bem comum e não para seu próprio proveito pessoal ou para o prestígio de um partido;

  • rechaçar os jogos de prestidigitação que consistem em apresentar a realidade sob uma luz incerta ou falsa, propícia para todos os maquiavelismos;

  • dedicar-se desde agora a construir, sobre os fundamentos dos verdadeiros princípios, a arca temporal que nos permitirá enfrentar sem demasiados danos o dilúvio devastador cujos sinais premonitórios já se fazem sentir;

  • em uma palavra, tomar consciência da excepcional responsabilidade tanto moral como social que pesa sobre eles, acrescentando que um dia serão julgados de maneira proporcional ao uso que hajam feito de seu poder e à energia que hajam utilizado para tal.

Está bem claro: só o ordenamento da ordem temporal à lei natural e sobrenatural apresenta caráter de necessidade; não está permitido (non licet) a nenhuma autoridade civil ou religiosa nem a nenhum súdito o subtrair-se. Ao contrário, as modalidades de atribuição ou de devolução do poder apresentam, enquanto puras técnicas institucionais, um caráter contingente; elas podem variar sensivelmente segundo os dados da história e do temperamento dos povos. Nesta perspectiva, a legitimidade do poder não está unida nem à forma do regime, nem a um homem eleito segundo os acontecimentos, nem a uma dinastia, mas essencialmente à fidelidade de que dá prova aquele regime, aquele homem ou aquela dinastia diante da lei natural e sobrenatural.

Fora dessa referência meta-histórica, o poder não pode senão alegar justificações mutiladas ou relativas que, por outro lado, ele não tarda a absolver, imitando a verdade para idealizar suas próprias ações e para melhor seduzir os espíritos.

Finalmente, é evidente que em nenhum país do mundo os mecanismos políticos, econômicos e sociais podem funcionar normalmente se estão “gangrenados” contemporaneamente pela sujeição de uma fração importante da nação a um empreendimento progressivo e programado de dominação planetária, e pela existência de um poder paralelo, difundido por todos os lados, que duplica de maneira oculta as instituições oficiais (civis, militares ou religiosas).

 

(Sim Sim Não Não, no. 106)

"Instaurare omnia in Christo"

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Giuseppe Sarto nasceu em 1853, padre em 1858, cura em 1867, vigário geral em 1875, bispo de Mantua em 1885, cardeal em 1893, patriarca de Veneza em 1894, foi eleito papa em 1903 e tomou o nome de Pio X. Depois de onze anos de pontificado, entrega sua alma a Deus em 20 de agosto de 1914.

Foi o último papa a ser canonizado.

Impressionante é a fecundidade de sua ação para “Instaurare Omnia in Christo”. Seu pontificado foi a ocasião da renovação da vida sacramental nas paróquias, renovação do canto litúrgico, renovação do ensino catequético, renovação dos seminários, renovação do direito canônico. Ele favorece e encoraja o apostolado dos leigos. A Cúria romana lhe deve uma reorganização que a tornou mais eficaz e mais rápida em suas decisões.

Em seu pontificado houve também a condenação do modernismo com a encíclica Pascendi. Condenação corajosa, pois São Pio X não se contenta com uma análise clara e profunda, mas coloca em sua encíclica medidas disciplinares para impedir o modernismo de se infiltrar no interior da Igreja. A Pascendi foi ainda profética, pois o Papa previu as conseqüências graves para a fé se os erros triunfassem. Depois do Concílio Vaticano II e suas reformas, podemos constatar como Pio X tinha razão.

Por sua santidade, por seu espírito eminentemente sobrenatural, pela sabedoria de seu governo, o Papa São Pio X deixa o exemplo sempre atual para nossa época de apostasia geral.

“Para fazer reinar Jesus Cristo, nada é mais necessário do que a santidade do clero”. (carta ao Cardeal Respighi, 1904).

“Estamos, infelizmente, num tempo em que se acolhem e adotam com grande facilidade certas idéias de conciliação da fé com o espírito moderno, idéias que conduzem muito mais longe do que se pensa, não somente à fraqueza mas à perda total da fé” (alocução aos cardeais, 27 de maio de 1914).

O modernismo: “síntese de todas as heresias”, “caminho para o ateísmo”, “ataque aos fundamentos da fé”.

“Vocês alargam as portas para introduzir aqueles que estão fora, e enquanto isso fazem sair aqueles que estão dentro” (São Pio X ao modernista Semeria).

Os compromissos “sem converter nenhum de nossos adversários (...) causam grande dano aos bons: estes, procurando a luz, encontram as trevas (...). Nossa bandeira deve ser desfraldada; é somente pela lealdade e franqueza que podermos fazer algum bem” (carta ao Prévost de Casalpusterlengo, 20 de outubro de 1912).

 

(Revista SIM SIM NÃO NÃO n° 9 ― Setembro de 1993)

Netos de Renan

A V., meu caro Amigo, parece que impressionou a frase, que foi do escol dos intelectuais do mundo inteiro e V. já ouviu dos augustos lábios do jornalista de Timboré...: “Somos netos de Renan”... Que mal faz isto? Nenhum, creia V. Somos bisnetos de Voltaire, tetranetos de muitos outros desgraçados... de preferirmos tais ascendentes entre tantos, bem mais nobres, que a história nos apresenta.

Mas, enfim, netos de Renan... Creia, meu Amigo, o jornalista de Timboré não sabe o que disse. Foi um puro instrumento, um instrumento da Providência! Pequena glória, já se vê, para o diretor-proprietário do Progresso Timboreense, mas não pouco proveitosa para nós... Porque foi após a leitura da sua carta que, pela primeira vez em minha vida, pensei na família de Renan... Sim, aquele homem, que tão suave e sorridentemente envenenou tantos corações, arrancou a fé de tantas almas frágeis, entregou fria e despiedosamente tantas consciências, ardentes e generosas, às misérias da dúvida, sim, aquele homem também fizera uma família, tivera filhos, talvez, e os criara e educara sabe Deus como... Que fins terá tido aquela gente, que será ela, hoje em dia, lá naquela revolvida terra européia, eis o que a mim próprio perguntava, tomado, acredite V., de verdadeira piedade. Pois bem: não só a mim interroguei. Fi-lo também a um padre francês, meu amigo, e que é hoje exemplo de dedicação e carinho à nossa rude gente do sertão mineiro, após ter-se batido quatro anos, como soldado, nas fileiras do glorioso exército de sua terra. A resposta não se fez esperar muito tempo. E, veja V., não é que aquele excelente sacerdote se desse ao trabalho de escrever, ele próprio, uma história dos Renans... Não. Enviou-me simplesmente um livro, que veio a calhar. Avalie que é, justamente, a biografia de Ernest Psichari, um neto de Renan...

Chega a parecer resposta direta ao jornalista de Timboré, e V. vai ver como acertou o fino ironista, o rival sertanejo do nosso Humberto de Campos.

Sim, V. verá, meu Amigo, que já não nos pode molestar, a nós católicos, a nós crentes, que se diga das gerações que entram agora em plenitude da ação que são netas do homem que fez de Jesus Cristo protagonista de um dos mais vis romances das letras modernas, pela açucarada perfídia com que quis vestir de inconsciência o mesmo tipo que, para nós, é o Filho de Deus vivo — mas que para ele era também o mais alto, o mais perfeito, da humanidade!!

Até já podemos proclamar bem alto que somos netos desse homem, para maior glória do Deus invencível e único.

“Dios no muere”, disse o grande García Moreno, respondendo à punhalada do infernal sectário... Sim, Deus não morre, nem mesmo no sangue dos que blasfemaram de seu nome, dos que repudiaram o amor de seu Filho e apunhalaram o seio da sua Esposa.

Nem de leve suponha que exagero se lhe digo que este livro, que venho de ler, me arrancou lágrimas. Somente não lhe sei dizer se foram elas de tristeza ou de alegria. Sei que as chorei. No silêncio da noite, em que, uma a uma, fui voltando as fúlgidas páginas de Henri Massis, como que vi levantar-se, mais do que nunca, formosa, digna de adoração, a figura da excelsa majestade do espírito da Igreja, sustentáculo do mundo, todos os dias crucifica­do, todos os dias exaltado, glorifica­do, vencedor de todo o mal!

Ouvi a prece que a todas as horas sobe aos céus e abranda a justiça do Criador, sofri também de to­dos os silenciosos sacrifícios que se fazem no altar da renúncia às vaidades do mundo, e como que, dentro em mim, ecoavam também — tão grande era o silêncio lá por fora — os cânticos felizes de todos os que, ardentes de fé, na paz dos claustros ou nos perigos da catequese, bendizem Jesus Cristo, aquele que deu sentido à nossa peregrinação sobre a terra.

Mas, se eu pudesse nestas poucas linhas dar-lhe a biografia desse neto de Renan, certo V. Compreenderia a minha exaltação.

Dele já se disse até que “a França cristã pode invocá-lo nas suas preces”. E por que não? Que vida mais gloriosa, que fim mais sublime e mais ardentemente santificado? Quem se conhece aí vencedor de mais temerosas vaidades?

Avalie V. que educação poderia ter tido um neto de Renan, respirando a atmosfera mesma da mais orgulhosa idolatria a tudo quanto falava daquele homem, que ousara contrapor a sua pérfida palavra ao sangue dos mártires! Ademais, tudo parecia indicar que era Ernest Psichari um digno herdeiro do nome tristemente glorioso: o mesmo pendor para as letras, o mesmo indomável intelectualismo, e fluidez de expressão...

Mas que pode o mal quando Deus não quer? Que é que tocou o coração do jovem príncipe da inteligência?

Ernest Psichari, diz o seu biógrafo, conheceu todas as febres, todas as perturbações da sua geração, mas, sempre adiante dos seus companheiros, “nele se exaltava a mocidades de França”.

Ainda foi com assombro que o viram abandonar os cursos da Sorbone para fazer-se soldado e partir para a África, a uma rude guerra de conquista. Mas, se o entusiasmo das suas primeiras obras, nascidas do contato com a barbaria e a religiosidade do deserto, a muitos pareceu ainda entusiasmo de diletante, não tardou que se compreendesse o idealista que se revelava com força invencível. E não é nunca demais esperar-se de um soldado que se faça apóstolo. O entusiasmo pela guerra não é já entusiasmo pelo sacrifício?

Ernest Psichari em poucos anos de guerra, de “vida perigosa”, se fizera um apóstolo da desforra francesa, e Deus é como Deus dos exércitos que, pela primeira vez, fulge na sua consciência.

Ele encarna, dentro em pouco, a ação intensa, mesmo a violência, para responder ao cepticismo do avô.

“Nossa geração”, escrevia ele, “a dos que começaram a vida com o século, é importante. Nela, sabemos, estão todas as esperanças. É dela que depende a salvação da França e assim a do mundo, a da civilização. Parece-me que os moços sentem obscuramente que verão grandes coisas, que grandes coisas se farão por eles. Não serão nem amadores nem cépticos. Não serão turistas através da vida. Sabem o que se espera deles.” Estava muda­do aos seus olhos o cenário do mundo. Estava delineado o seu programa, não havia mais escolher: “prendre contre son père le parti de ses pères”.

Ainda era quem assim falava um homem que não tinha por si as armas de uma fé positiva.

Mas, como ele mesmo disse:“Dès qu’on fait un pas hors de Ia médiocrité, on est sauvé...” “On est embarqué dans l’absolu...” – Ao primeiro passo para fora da mediocridade estamos salvos. Embarcamos no absoluto.

Daí em diante, seus livros assim como a sua vida são a resposta mais lúcida, mais vibrante e mais séria que o espírito de ordem podia dar à anarquia contemporânea, e a sua figura de herói e de artista, de homem de ação e de sábio vai pouco a pouco aproximando-se e por fim surge, duplamente envolvida, de entre as fileiras dos que, a esta hora, cristãos e franceses, já salvaram as grandes tradições da sua pátria do completo aniquilamento. A Igreja podia gloriar-se de mais um filho, um verdadeiro filho, amante e fiel.

E é comovente ler estas palavras do neto de um Renan... “Toda a tentativa por nos libertarmos do catolicismo é um absurdo, pois, queiramos ou não, somos cristãos; e é uma maldade, visto que, quanto temos de belo e grande no coração, nos vem do catolicismo. Não apaga­remos vinte séculos de história, precedidos de toda uma eternidade. E, como a ciência foi fundada por crentes, nossa moral, no que tem de nobre e de elevado, também vem dessa grande e única fonte do cristianismo, de cujo abandono decorre a falsa moral, assim como a falsa ciência.”

No dia 8 de fevereiro de 1913, Ernest Psichari, o neto de Renan, foi confirmado por Mons. Gibier, na capela do pequeno seminário de Grandchamp.

Com a voz a tremer de ardor contido, recitou o “Credo”, de que, uma a uma, acentuou as sílabas latinas. Após a confirmação, o Bispo de Versailles lhe perguntou a sua idade: — Vinte e nove anos! Muito tempo perdido!, foi sua resposta.

E porque, assim, tanto tempo perdera foi que desde então o viram seus soldados e toda a França intelectual arder na febre de reparar, em cada livro, em cada ato, as injúrias que seu avô fizera à França cristã, e, humílimo, ou melhor, possuído de santo orgulho, servir a missa e ser aquele mesmo ser — Cristão, que Louis Veuillot também quisera ser... E foi deste modo, entre os rigores da vida militar e os rigores de uma exaltada prática cristã, que a Grande Guerra surgiu. Foi dos primeiros que marcharam contra o inimigo de sua pátria, foi dos primeiros que caíram fulminados no campo de honra.

“Os que o viram mais tarde ficaram impressionados ante a calma de seu rosto; tinha nas mãos o rosário que pudera segurar.”

Eis aí, meu Amigo, como soube morrer um neto de Renan. Felicito o jornalista de Timboré pelas suas ironias. Já podemos ser bons netos de Renan. E V. há de concordar comigo: Ernest Psichari foi, de fato, uma dessas naturezas que são privilégio daquela nação a quem nem as desgraças nem os erros tiraram ainda o que Joseph de Maistre, então insuspeito de lhe ser favorável, pode observar no seu destino: o exercício de uma verdadeira magistratura sobre a Europa e, por conseguinte, sobre o mundo.

Quando uma dessas naturezas aparece como uma estrela sobre os céus borrascosos daquela grande pátria, não há consciência cristã que não veja claramente alguma coisa de mais profundo e de mais forte que o que prende todas as mais nações, ligando os destinos da França aos destinos da Igreja Católica.

E tem-se o desejo de dizer que, sejam quais forem as aparências, sempre a causa da França é a causa da Igreja.

 

(Revista PERMANÊNCIA, 1981, novembro/dezembro, números 157/157.)

Revista Permanência 272 - Tempo do Natal 2013

ÍNDICE DA REVISTA (272)                                              127 págs

(Editorial) O Oráculo dos deuses  Dom Lourenço Fleichman
Nazaré ressuscitada  Pe. Emmanuel-Marie
Ainda em defesa da Vulgata Dom Lourenço Fleichman
Ensaio sobre a história de Roma    Juan Fernando Segovia
O Terceiro Segredo de Fátima  Ir. Michel de la Sainte Trinité
O Terceiro Segredo de Fátima - um testemunho Franco Adessa
Milagre austríaco de 1955  Christopher Ferrara
Nas ruas  Gustavo Corção
Considerações destituídas de lógica impecável   Gustavo Corção
(Recensão) 10 datas que todo católico deve conhecer     Fernando Prado de Barros   

                                               

                                                       

                            

   

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