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Moral (8)

Os escravos da imaginação

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Uma oposição sistemática entre o mundo e a Igreja, entre a sociedade civil apóstata e a família católica: realidade mais do que conhecida, denunciada e lamentada. Todos nós sabemos disso e procuramos nos orientar de modo a não perder a fé, a não nos entregarmos aos prazeres e aos critérios desse mundo mau. Temos, sim, os Evangelhos e São Paulo que já nos alertavam e nos alertam ainda hoje, pela Revelação das Sagradas Escrituras. Temos a Igreja, com sua palavra forte, sua Tradição, seu depósito da fé, transmitindo, de papa a papa, de concílio a concílio, os conselhos e mandamentos que devemos seguir para não cair no abismo. E os padres lembram, em sermões e artigos, que devemos viver no mundo sem ser do mundo, que devemos estudar, nos armar contra a enganação do mundo, defender as crianças contra as escolas deformadoras, a televisão invasora e destruidora da moral católica.

Tudo isso nós sabemos e por isso devemos estar atentos e fortalecidos pela graça.

Mas não adiantou muito!

Não adiantou muito sabermos disso tudo, não adiantou muito os pais católicos saberem e desejarem um mundo católico para seus filhos. O testemunho dos pais é eloquente. Mesmo as famílias que não têm televisão sofrem do mesmo mal. Mesmo as crianças que estudam nos colégios de padres da Tradição, passam pela mesma crise.

Onde vamos encontrar os instrumentos para recompor a Cristandade? É possível recompor a Cristandade? Onde vamos encontrar forças para manter nossas famílias num mundo católico se “devemos combater as forças adversas espalhadas pelos ares”?

Pelos ares? Que forças são essas de que nos fala o Apóstolo, forças do mal, que nos ameaçam pelos ares? Vamos reler esta passagem do cap. VI da Ep. aos Efésios:

“Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue e sim contra os príncipes e  poderosos, contra os governadores deste mundo de trevas, contra as ondas iníquas espalhadas pelos ares”.

Os comentadores atribuem estes ataques aos demônios e traduzem principes e potestates como sendo parte da hierarquia dos anjos maus, por “principados e potestades”. São Tomás de Aquino explica que se deve entender assim estes termos porque o diabo é o mandante, a causa principal, tendo o poder de atacar os homens com forças tão estranhas que são chamadas pelo Apóstolo de “spiritualia”, ou seja, forças imateriais, ondas, que causam dano maior do que as tentações da carne, ondas contra as quais só conseguiremos resistir com a armadura de Deus.

Mas hoje, vivendo neste mundo de alta tecnologia, podemos perfeitamente entender o que sejam estas ondas imateriais que atravessam os céus (in caelestibus) e que são comandadas pelos poderosos deste mundo de trevas que é o nosso. Parece-me portanto lícito e importante traduzir os termos “principes et potestates”  com seu significado próprio que é de “príncipes e poderosos, e incluir nesses “príncipes e poderosos” os que controlam esse mundo da Informação, das ondas que atravessam os céus. Para São Tomás, os únicos nomes de anjos que poderiam servir tanto para os anjos bons como para os demônios seriam os Principados e Potestades, por esta razão nomeados aqui. Mas a explicação do Doutor Angélico confirma a participação dos homens maus nesta passagem de São Paulo:

“Eles são, portanto, poderosos e grandes e por isso possuem um grande exército contra o qual deveremos lutar, contra os governantes deste mundo de trevas, a saber, dos pecadores.” (São Tomás de Aquino, Comentário sobre Efésios, Cap.VI, leit.3)

Isso tudo leva São Paulo a indicar o uso de uma armadura como único remédio contra o ataque final do demônio, que não seria pelos pecados da carne, pelos pecados próprios ao corpo humano. E devemos ligar esta grave advertência à grandeza do que o Apóstolo dizia no cap. 5,8:

“Outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz, porque o fruto da luz consiste em toda a espécie de bondade, de justiça e de verdade, examinando o que é agradável a Deus; e não tomeis parte (nolite communicare) nas obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as. Porque as coisas que eles fazem em secreto, vergonha é até o dizê-las. Mas todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, porque tudo o que é manifestado é luz. Por isso a Escritura diz: Desperta, tu que dormes e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.”

E São Paulo completa esta maravilhosa passagem dizendo que devemos “recobrar o tempo porque os dias são maus”.

Eis, assim, que o Apóstolo grita para despertar a homens que, segundo ele, tinham sido iluminados pelo batismo. Estavam dormindo, então?

Não me parece que os homens passaram estes dois mil anos dormindo. O mundo conheceu mil anos de atividades enriquecedoras tanto no ponto de vista natural quanto do ponto de vista sobrenatural, do estudo da doutrina, da teologia e da filosofia, e da compreensão dos mistérios da união mística com Deus. Isso tudo animou e desenvolveu os homens da Idade Média nos mil anos em que o demônio ficou amarrado no inferno, como nos revela o Apocalipse (cap. 20, 1-3).1

Nós é que dormimos. A nós se dirige o Apóstolo quando grita para nos despertar. E de onde vem o nosso sono? A resposta a esta pergunta é o ambiente profetizado por São Paulo nesta passagem que citei, e que impregna tudo, vai roendo e dilacerando as nossas forças sem percebermos, como procuro descrever abaixo.

Inteligência, vontade e imaginação

É conhecido o fenômeno que ocorre com nossa consciência quando lemos um romance. Acontece de nos transportarmos em espírito ao ambiente, ao mundo que vivemos pela leitura. Com o uso da imaginação, esquecemos temporariamente da realidade que nos cerca a ponto de, muitas vezes, termos os próprios sentidos externos diminuídos. Já não ouvimos os sons do ambiente e não vemos os objetos que nos cercam.

Com a leitura do livro, somos obrigados a interromper esse mundo virtual criado pelo romance, por conta das nossas obrigações e necessidades. Voltamos à realidade e, num próximo momento de lazer mergulhamos novamente no país das maravilhas. No caso do cinema, a concentração do mundo virtual é muito maior, apesar de o tempo ser reduzido. A sala escura, a ausência de som exterior, o tamanho da tela e sobretudo a imagem viva, em movimento, provocam um mergulho profundo dos nossos sentidos no mundo virtual. Mas ele termina logo e permite um retorno à realidade e às obrigações do dia à dia.

Este ritmo de leitura dos bons livros permite à nossa alma assimilar o bem que ali se encontra, seja ele a beleza artística do estilo ou o exemplo moral das virtudes dos personagens, ou a descrição viva dos lugares desconhecidos. No caso do cinema o proveito é nitidamente menor, na medida em que a arte da escrita cede lugar à arte da imagem fotográfica, muito mais material do que aquela, exigindo menos elevação e domínio da razão. O ritmo do mundo virtual, porém, é mais forte e não é raro um filme marcar profundamente, por suas imagens fortes, nosso comportamento, por vezes durante alguns dias, até que voltamos ao normal.

Apesar de não estarmos aqui analisando o valor moral dos romances ou dos filmes, não podemos deixar de assinalar que é obrigação do artista apresentar aos seus leitores ou espectadores luzes para a razão e elevação moral. Uma obra de arte que, se dirigindo à nossa inteligência, como é o caso dessas duas artes, nos levasse ao pecado ou à quebra dos costumes naturais e cristãos, não deveria ser apresentada ao público. Gustavo Corção explica como deve agir o artista: “A literatura moderna tem produzido muita obra demonstrativa das chagas e da baixeza humana, coisa que não oferece maior dificuldade; mas são poucos que sabem fazer nos seus romances, nas suas cenas, aparecer um homem como Marmeladof, de Crime e Castigo, que na pior abjeção deixa entrever ainda um último fulgor de grande dignidade, de quem foi feito à imagem e semelhança de Deus” (artigo Dostoievski, Diário de Notícias de 27/9/61).

Escravos da Imaginação

O que aconteceria com uma pessoa que tomasse um livro para ler, entrasse no mundo virtual do romance e nunca mais saísse dele? Quais as consequências de ordem moral, psiquica e espiritual que adviriam a um homem prisioneiro do mundo da imaginação? E sobretudo, seria possível isso acontecer, mesmo na continuidade dos afazeres domésticos?

Em 1968 o mundo foi sacudido por manifestações políticas estudantis. O centro dessa febre foi Paris. Lá, no meio de uma enxurrada de faixas e slogans revolucionários e contra a natureza, lia-se o seguinte: “A imaginação no poder”.

Trinta anos depois, não podemos deixar de considerar que esta frase, como as demais também, não estava ali por acaso; não se tratava de uma tirada esperta de algum estudante mais vivo. Ela e as demais foram escritas e expostas com objetivos mais definidos do que parece. Hoje podemos compreender que, não somente a imaginação está no Poder, como entendemos que a imaginação já escraviza a nossa sociedade. Fomos levados, sem nos darmos conta, ao mundo virtual da imaginação, que assumiu o controle dos homens, das famílias, da política e da Igreja. Trata-se de um envenenamento maciço de toda a população mundial, mantida sob o domínio alegre e feliz do mundo virtual.2 As fontes dessa vida da imaginação se multiplicaram tanto que hoje já podemos dizer que vivemos grande parte da nossa vida mergulhados naqueles sentimentos estranhos de um mundo imaginário, como se vivêssemos num mundo de romance. Claro está que o contato desse mundo em que vivemos presos com a dura realidade do dia a dia causa-nos diversas reações perigosas e doentias, aumentando o drama em que vive a humanidade.

Nosso sistema de coordenadas espirituais

A inteligência é uma faculdade de nossa alma espiritual pela qual nós conhecemos a verdade. Conhecer a verdade é encontrar uma luz sobre alguma coisa. Uma vez esta luz encontrada, um certo repouso produz-se na alma que conhece um objeto. Esse descanso significa que chegou-se ao termo do ato de conhecer. Por isso podemos definir a verdade como sendo a “adequação do objeto conhecido com a inteligência que conhece”. Este exercício do ato de conhecer supõe que exista um objeto a ser conhecido, e este objeto, de alguma forma, deve chegar até nós, pelos nossos sentidos e deve se “encaixar” perfeitamente em nós, pela sua essência objetiva e natural.

Vemos assim que o ato de nossa inteligência banha-se na realidade da coisa.

Agora, se nós somos levados insensivelmente a não tomarmos parte na realidade, se o mundo virtual levar nossas vidas a concentrar-se na nossa imaginação, deixando de lado o real concreto, nossas atividades de conhecimento nunca alcançarão a verdade, limitando-se a conhecer as coisas como supostas. Com isso ocorrerá uma atrofia da nossa inteligência, a qual não encontrará o objeto próprio de seu ato, que é a coisa real.

A conseqüência imediata deste desvio de nossa atividade de conhecimento é o desaparecimento da certeza em nossas vidas. Já não há lugar, em nossa atividade de conhecimento, para a verdade, já que o acesso às coisas reais está ofuscado pelo uso contínuo da imaginação. Desaparece aquele repouso da alma no objeto conhecido, e nasce a dúvida, a angústia, a incerteza.

Como se não bastasse essa atrofia da inteligência, ocorrerá um outro distúrbio psíquico em nossa alma. A nossa vontade também ficará atrofiada.

A vontade é uma faculdade da alma que nos move em busca do objeto real. Ela é movida porque a luz que a inteligência lança sobre a coisa, apresenta-a como um bem, levando a alma a querer possuí-la. Quando nossa inteligência alimenta-se da verdade, o amor nos move ao bem. Mas se nossa inteligência não conhece mais os objetos reais, o que vamos amar, então? Vamos querer os frutos da nossa imaginação: prazer, bens de consumo, viagens, dinheiro, lazer etc. Tudo aquilo que o mundo da Informação nos apresentar em suas campanhas publicitárias e em seus programas políticos e sociais, em sua televisão e no mundo virtual da internet, nas drogas, na pornografia e nas diversões.

Isso afetará fortemente nossa força de vontade. Fugiremos de nossas mais simples obrigações, que serão vistas como coisas pesadas e desagradáveis. Perderemos a concentração no estudo, no trabalho e na vida de oração. Haverá nesta espécie de “depressão”  a soma de um certo desespero pela falta de um objeto de conhecimento que repouse nossa inteligência, com a tendência evidente em dirigir nosso ato de vontade às coisas que nos trazem prazer, na ausência do bem verdadeiro. E estaremos como que entregues a todos os erros ensinados por esses poderosos nos programas de mídia e de informação. Os homens passaram assim a condenar como absurdas as mais claras verdades, aceitando calados todas as mentiras sobre nós mesmos, sobre o mundo e, principalmente, sobre a atuação da Igreja Católica na história da humanidade.3

Mais do que isso. Vivendo com este mundo virtual pingando gôta à gôta na alma, como um sôro espiritual nefasto, mesmo quando, num momento de lucidez, vermos que estamos mergulhados no vício, não encontraremos forças para dele sair, pois para isso precisaríamos romper com muitos costumes considerados “normais” e apresentados noite e dia como sendo de uso comum e universal.

Terremoto psíquico

A consequência desse tremendo distúrbio interior é a perda das referências da nossa existência. Vamos tomar um exemplo. Quando estamos num determinado plano, nossa vista toma alguns parâmetros como referência: as paredes de uma casa, a inclinação de uma montanha, a linha do horizonte, dependendo de onde estivermos. Se num determinado momento o lugar começa a se mover de modo rápido e por muito tempo, nossa vista não tem tempo de mudar seu eixo referencial. Por exemplo quando um avião faz voltas, perdemos a linha do horizonte. O que acontece? Ficamos tontos, enjoados, podendo até mesmo perder a consciência e desmaiar. Pois o mesmo acontece com o veneno que descrevi acima. Nossa inteligência e nossa vontade atrofiadas e nossa imaginação super-excitada provocam o estado tão conhecido de stress, angústias, depressões, tão comuns no homem moderno. Ele perdeu seus critérios de vida, tanto psíquica quanto social.

E quais são esses critérios?

O critério da inteligência é a verdade natural, pela qual nós conhecemos a natureza de todas as coisas, sua essência. Na vida da graça, a verdade sobrenatural, o Verbo divino e seu Evangelho, a Revelação, de onde brota a nossa fé, que nada mais é do que o conhecimento infalível da verdade revelada.

O critério da vontade é o bem natural que flui de tudo o que é verdade;  e a fonte de todo o bem sobrenatural é o Divino Espírito Santo, o amor de Deus em nós, que se chama Caridade. O sistema de coordenadas de nossa alma é o Sinal da Cruz, mas o Sinal da Cruz fincado na terra. Nossa referência maior é Jesus Cristo crucificado, restaurando nossas vidas, vida do corpo, vida psíquica e vida espiritual, pelo seu Sacrifício, para seu fim último que é a felicidade de Deus, no céu.

Já estamos perdendo contato, cada dia mais, com o eixo de coordenadas da nossa vida, com o mundo real, luminoso e moral, e com a verdadeira religião de Jesus Cristo. Os homens já dão mostras evidentes de um distúrbio interior impressionante. Estamos todos numa epidemia mundial, uma lepra, uma Aids espiritual que nos tirou todos os recursos naturais e sobrenaturais necessários para viver numa civilização natural e cristã. A peste! A peste! E as almas vão se acumulando pelas ruas, desfiguradas, mortas, como nos tempos da peste negra e do cólera. As consequências práticas desse distúrbio já fazem parte do nosso mundo globalizado.

- A política perdeu seu caráter de bem comum, acima dos bens particulares. O poder será disputado acirradamente na busca desenfreada de um lugar na máquina democrática alimentadora de propinas e corrupção. A Demagogia reinará como rainha no mundo mitológico da manipulação das consciências, pela imaginação. Os políticos, semi-deuses deste Olimpo, serão mestres na arte de enganar e levar as massas de milhões de eleitores a crer na lisura e integridade de suas vidas. Veremos idéias destruidoras da humanidade serem aceitas com todo o respeito e homens ditos de bem venderem-se por um prato de lentilhas (de votos).4

- Na vida social, de relacionamentos dos homens com seus semelhantes e consigo mesmo, o mundo virtual e imaginário cria laços também imaginários, selados pelo interesse próprio, mesquinho e egoísta, animados pelo uso generalizado das drogas e da pornografia, coisas aparentemente combatidas pelos governantes mas que parecem ser, ao contrário, estimuladas, senão financiadas, pelo Poder do mundo da Informação. Como em “Admirável Mundo Novo”, são coisas que ajudam os pobres homens escravizados a manterem-se fora da realidade quando chegam do trabalho. Ainda outro evento estranho que se espalha pelo mundo são os programas de reality shows, com os quais o mundo da Informação está habituando seus escravos a viver sob vigilância constante. Os homens vão acabar não sabendo mais viver sem uma câmerazinha ligada neles. Os semi-deuses aqui são os artistas, desportistas, jornalistas e intelectuais.5


- Os cientistas, infelizmente, fazem parte do Olimpo da Informação, divulgando tantas mentiras e falsidades que disputam com os políticos e intelectuais o primeiro lugar, bem perto do Zeus da Informação. Tudo inventam para denegrir a Igreja. Inventaram o Evolucionismo, onde a matéria vai ganhando maiores perfeições, sem que expliquem de onde elas vêm; inventaram a vida em outros planetas cujo dogma principal é que os tais seres são sempre apresentados como mais fortes, mais inteligentes e capazes do que o homem. Tentam agora manipular a vida e se arriscam no orgulho de “ser como deuses” e sentir o fogo da espada divina a lhes expulsar do “Paraíso”.6


- Do ponto de vista da religião, estamos vendo o desaparecimento dos dogmas, das verdades de fé, reveladas e infalíveis, base da nossa salvação. Em seu lugar os homens modernos só aceitam as religiões que se apresentem como uma escolha entre outras, fruto de opiniões, todas elas respeitáveis. E então podemos compreender todo o enlace do Concílio Vaticano II, cúmplice dessa manobra dos infernos, impondo às almas dos católicos a liberdade religiosa e o falso ecumenismo. Religião da liberdade ao erro, da escolha de “opções”; religião da democracia e da imaginação. E trememos diante de tal realidade, quando consideramos que os escravos que aceitam isso estão perdendo a fé sobrenatural, e com isso, correm o risco de se perderem para sempre.

Em busca da cura

O que fazem, atualmente, os homens, quando percebem que vivem depressivos e angustiados? Vão ao analista. Uma vez por semana, de quinze em quinze dias, cada um no seu ritmo, todos vão buscar no psicólogo o remédio do seu mal. Funciona? Dando sorte de encontrar uma pessoa boa, sensata, experiente, pode-se dizer que funciona até certo ponto. Mas como poderá curar a pessoa? Como poderá extirpar pela raiz a doença do espírito, se o paciente continua vivendo da imaginação, no seu sonho acordado do mundo virtual? Como poderá ser fonte de cura uma psicologia que não dá conta das atividades mais elevadas da alma, restringindo-se ao seu aspecto sensível e dando muitas vezes soluções em sentido contrário às necessidades espirituais dos seus pacientes? A psicologia freudiana encaixa-se perfeitamente dentro desse mundo alimentado pela imaginação. É um círculo vicioso e a pessoa vai sempre necessitar do analista. O eixo de referências continua sendo falsificado.

Só haverá cura verdadeira do mal da humanidade quando se oferecer às pessoas a pacificação das suas angústias pelo restabelecimento do eixo de coordenadas verdadeiro, de cada um de nós: a verdade e o bem, a certeza e o amor espiritual, elevado e determinante, no lugar da enxurrada de opiniões que nos levam como vagas amorfas e sem repouso. Só haverá cura verdadeira se os homens compreenderem que não podem se entregar cegamente às atividades manipuladoras da nossa consciência no envenenamento do mundo virtual. Só venceremos se colocarmos os pés no chão, sentirmos a brisa forte e o sol quente, a hora de levantar e trabalhar por razões divinas e por dever humano.

Proponho o confessionário, uma cura de confissões, para as almas depressivas e angustiadas. Lá, junto a um padre paciente e espiritual, a alma encontrará o aconselhamento adequado, baseado nas atividades mais importantes e necessárias da alma, sua inteligência e sua vontade, seu conhecer e seu amor, além de receber o perdão de seus pecados e restabelecer a amizade com Deus. Alimentados com a grande realidade da fé, o Pão Divino descido do céu, teremos acesso ao conhecimento verdadeiro de Deus e a seu Amor substancial: “Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com todo o teu espírito”

O que eu queria dizer ao longo destas já longas linhas é que não nos basta viver na Tradição. Não nos basta assistir à missa tradicional, e depois viver desatentos diante de todas estas coisas que nos devoram por dentro e que fazem parte de nossas vidas, hoje, querendo ou não querendo. Temos que conviver com o monstro dentro de casa, na rua, no trabalho, na escola. E se nos demorarmos dormindo, seremos transformados em estátuas de sal. A Sodoma e Gomorra de hoje queima por dentro, como numa explosão atômica e não encontraremos o caminho do céu se não acordarmos e levantarmos para tomar as armas descritas por São Paulo quando profetizou esta situação final.

“Portanto, tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau e estando aperfeiçoados em tudo.

“Estai pois firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade” [perfeitos na inteligência]

“E vestindo a couraça da justiça” [perfeitos na vontade]

“Tendo os pés calçados para anunciar o Evangelho da paz” [perfeitos na vida social]

“Sobretudo, tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados dos piores” [perfeitos na religião]

“Tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito que  é a palavra de Deus”

“Orando continuamente em espírito com toda sorte de orações e de súplicas e vigiando nisto mesmo com toda perseverança”.

Que os leitores me entendam bem. São variadas as formas como cada um vive e não devemos julgar nosso vizinho. Cada um vive como pode, procurando manter-se na vida da graça, na busca da salvação. Mas é necessário, imprescindível, questão de vida e de morte: reconhecer que estamos sendo levados como cordeirinhos ao matadouro por estas atividades do mundo virtual. Já é hora de levantar-se do sono. Voltar a dominar a imaginação com a luz da inteligência, com a força da vontade firme, reta, e santa. E só conseguiremos isso com o esforço de exercitar as faculdades mais elevadas da alma tanto no conhecimento das coisas naturais quanto na vida de oração e na prática das virtudes.

Não sei se ainda haverá, sem um milagre espantoso de Deus, uma Cristandade, um Reino Social de Jesus Cristo, como deveriam ser todas as nações. A impressão que temos é que precisamos nos armar e nos formar para um combate rude e solitário, contando com a ajuda da graça de Nosso Senhor e o manto maternal da Virgem Maria. Mas temos a Igreja, temos os santos, seus livros e seus ensinamentos, para levar o combate até a vitória final.

O demônio lançou seu ataque final. E o Justo vive da Fé.

   
  

  1. 1. “E vi descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. E prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o demônio e Satanás, e amarrou-o por mil anos; e meteu-o no abismo, e fechou-o, e pos sêlo sobre ele, para que não seduza mais as nações até se completarem os mil anos; e depois disso deve ser solto por um pouco de tempo.

        E vi tronos e várias personagens sentaram sobre eles e lhes foi dado o poder de julgar; vi também as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus e por causa da palavra de Deus, e aqueles que não adoraram a besta nem a sua imagem, nem receberam o seu caráter sobre a fronte ou sobre as suas mãos, e veveram e reinaram com Cristo durante mil anos. (...)

        E quando se completarem os mil anos, Satanás será solto de sua prisão e sairá e seduzirá as nações que estão nos quatro ângulos da terra, a Gog e a Magog, e os juntará para a batalha, o seu número é como a areia do mar. E estenderam-se pela superfície da terra e cercaram os acampamentos dos santos e a cidade querida. Mas desceu do céu (por mandato) de Deus um fogo que os devorou; e o demônio que os seduzia foi metido no tanque de fogo e de enxofre, onde também a besta e o falso profeta serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos”

  2. 2. Quem nunca chegou em visita a uma casa onde a televisão estava ligada sem ninguém ver, e continuou ligada apesar da visita? Impressionante também a notícia ouvida numa rádio de que a ONU está muito preocupada com a nova classe de homens: os não-conectados (a expressão é da ONU), e que está promovendo a distribuição de computadores entre esses “pobres”, começando pela Hungria, para que eles também tenham acesso ao mundo da Informação!
  3. 3. Seria longo demais desenvolvermos alguns desses pontos. Citamos aqui: escravidão, Idade Média, índios, Inquisição, ciência, judeus e muitos outros.
  4. 4. A aprovação pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso da lei que legaliza a união de homossexuais é prova disso. Lei iníqua, destruidora da família, destruidora do Brasil. A propaganda de televisão que acompanhou esta lei só merece o fogo do inferno.
  5. 5. É digno de nota o mundo dos esportes, em que milhões de adeptos, muitos deles pobres, enchem os estádios para assistir a esses semi-deuses que recebem salários exorbitantes.
  6. 6. Tenho ainda em mãos uma página do jornal O Globo de  8 de agosto de 1996, onde o anúncio do programa de naves espaciais para ir a Marte é acompanhado de uma série de chamadas mentirosas e sensacionalistas insinuando o descobrimento de vida em Marte, quando o próprio texto mostra claramente que se tratava de “elementos químicos” presentes nos seres vivos (e também nos inorgânicos). O leitor desatento só retém a mentira sensacional.

Não pecarás contra a castidade

Na volta às aulas deste ano de 1999, ficou patente o quanto estamos à mercê de um poder que nos escraviza. Já há muito que as aulas de ciências servem para corromper a inocência das crianças, desde as primeiras séries. Vestindo a máscara do assunto "científico", livros para crianças de 8 anos descrevem a reprodução humana sem o menor cuidado com as alminhas delicadas de crianças inocentes, mas que carregam a inclinação da concupiscência e as levam a ter curiosidades perigosas.

A cada ano aquele assunto voltará, sob diversos aspectos, mantendo a atenção da criança na fonte de pecados contra a pureza do corpo.

Mas o que vimos este ano ultrapassou todos os limites.

Depois de ter estudado todos esses anos este assunto, depois de terem suas forças minadas, ouvindo os professores falarem (científicamente!) sempre sobre isso, as crianças de 12-13 anos que ingressaram na 7ª série tiveram que comprar livros de ciências sobre o corpo humano. Mais uma vez vão falar do assunto. Porém, desta vez, aquilo que era ciência passou a ser Moral. Dentro do livro, em páginas de coloração diferente, bem destacado, introduziu-se uma verdadeira aula sobre pecados diversos contra o 6º mandamento da lei de Deus: não pecar contra a Castidade. Com ilustrações e desenhos de alta qualidade, o autor ultrapassa todas as barreiras da ética profissional, invade o campo alheio para deixar de lado a ciência do corpo e querer falar sobre a ciência da alma! Que autoridade tem esse autor, ou o diretor da escola que adota este livro, ou um professor que ouse falar destas coisas para meninas de 12 anos, que autoridade, repito, têm eles para falar sobre relacionamento sexual e ensinar as crianças a pecar?

Mas eles são materialistas, não acreditam em nada que não seja palpável e mensurável, não acreditam mais na alma, criada à imagem e à semelhança de Deus, ou seja, espiritual, inteligente e livre. Como pode um cérebro, um mecanismo, um corpo animal, conhecer como nós conhecemos, e amar livremente (conscientemente) como nós amamos, isso eles não explicam e nem podem explicar. Mentem! Inventam mágicas inexplicáveis cientificamente segundo as quais o cérebro foi evoluindo, evoluindo e, aos poucos começou a pensar.....

Logo, nada mais somos do que animais evoluídos e por isso, devemos usar do sexo como animais!Claro! Não existe a alma racional para impor aos sentidos uma razão elevada, uma finalidade sobrenatural. A dúvida é que eles não explicam porque, sendo tão evoluídos, eles ensinam aos homens um comportamento sexual tão degradante e baixo, inexistente no mundo animal. Se os homens seguissem o exemplo da natureza dos animais, que respeitam totalmente as finalidades criadas por Deus, não pecariam tanto!

Mas voltemos à escola pervertedora de crianças.

Falta ainda analisar a atitude dos pais diante desta monstruosidade.

Não existe nada que me faça entender que um pai, ou uma mãe, deva assistir ao envenenamento de seus filhos sem nada fazer. Eu bem sei que as crianças não aprendem estas coisas somente nestes livros, que é preciso acompanhar passo a passo as descobertas que elas fazem, e ir conversando, instruindo de modo católico, dando-lhes a consciência do pecado e a simplicidade da confissão, quando caírem. Quantas vezes eu mesmo ensinei assim.

Mas existem limites.

Uma coisa é a escola ensinar antes da hora, um aspecto natural do nosso organismo que, em si, nada tem de errado. Por ser ensinado antes da hora pode provocar curiosidades e mesmo pecados. Neste caso, pode acontecer que a única saída seja conversas e explicações para defender os filhos.

Outra coisa inteiramente diferente é a escola ensinar a pecar, pura e simplesmente. Neste caso, só existe uma atitude possível. Puxar a espada! Qualquer outra atitude seria uma fraqueza pecaminosa da parte dos pais.

Creio que a diferença entre as duas atitudes postas em negrito é bastante clara. Essa diferença estabelece o tipo de ação, assim como a responsabilidade dos pais em reagir à altura da gravidade da contaminação.

Daí vem a orientação que dei aos pais de rasgarem estas páginas dos livros antes das crianças lerem, e de se organizarem para que seus filhos não assistam às aulas que os professores derem sobre isso. Mais uma vez: eles não têm autoridade para ensinar a Moral, para ensinar quando um ato humano é bom e quando ele é mau. A moralidade dos nossos atos vem de Deus, de sua Lei Santa, da natureza criada e dirigida por Ele só. Por isso, só a Igreja Católica, única religião Revelada por Deus, pode nos dizer o que é certo e o que é errado. E os pais têm obrigação de ensinar assim aos filhos.

O monstrengo que chia

Estamos debaixo de uma verdadeira avalanche. Ouvimos o ruído estrondoso de uma montanha que despenca morro abaixo, sobre os homens: a maioria acha lindo e bate palmas; outros poucos choram e pedem a Deus "que as montanhas caiam sobre nós". Será de neve, a avalanche, como nos Andes? Ou de lama e rochas, como na serra de Petrópolis? Será de lixo e barracos como nas favelas cariocas? Apesar de todas estas avalanches serem graves e horríveis, falo aqui de outro tipo de destruição. A humanidade, orgulhosamente fincada em pés de barro, achando-se forte como o ferro e rica como o ouro, ousou gritar no desfiladeiro e se alegra com o rufar da neve, da lama, do lixo e de tudo o mais. Porque não restará pedra sobre pedra quando a vingança de Deus se levantar.

 

Esta avalanche provocada por sérios cientistas de jaleco branco, provocada por não tão sérios políticos de terno e gravata, está em todos os jornais, em todas as revistas de nosso pobre país. Está liberada a manipulação de cadáveres, de inocentes criancinhas abortadas. Depois do assassinato, vem a feira. O produto do assassinato é, assim, posto nas prateleiras da feira da esquina, onde os embriões humanos, aqueles mesmos que poderiam, amanhã ser um grande homem, bom, honesto, santo talvez, e que teve sua existência roubada antes mesmo da luz, antes mesmo da tosse e do choro, do abrir dos olhos para ver os olhos da mãe, estes bebês vão virar remédio! Dizem que já viram cosméticos num mercado macabro e paralelo. Agora vão ser sopinhas nutritivas.

 

Não vou entrar aqui nos detalhes da coisa, do monstro horrendo que nos devora sob os aplausos do mundo. Quisera antes tremer como o homem do leme diante do monstrengo do fim do mundo, tremer mas lutar, em nome d´El Rei e Senhor de toda a terra, e do céu e do mar:

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»





Um corpo sem cérebro tem alma?

 

Podem juntar todos os argumentos que estes homens maus e desgraçados lançam enganando a gente simples. Todos juntos não valem um graveto de palha. Começa que são materialistas até o fundo da alma. E sendo materialistas, querem nos impingir a falsa idéia de que um corpo humano sem cérebro não é humano, logo poderia ser abortado. Falso. Um corpo humano, no primeiro momento de sua existência, ou seja, na primeira divisão celular que ocorre quando as células reprodutoras do homem se unem às da mulher, neste momento em que se forma maravilhosamente o código genético que nunca mais será alterado, até a morte; neste momento em que todas as características do homem maduro já estão presentes, neste momento em que não existe nem cérebro, nem coração, nem órgão algum, Deus, o Criador dos homens e do mundo, sopra, num ato único de criação, particular, daquele ser, uma alma imortal, espiritual, racional. A presença desta alma é atestada pela nossa própria reflexão, pela própria observação do ateu que afirma não existir a alma. Só um ser dotado de alma espiritual seria capaz de escrever um artigo para tentar provar a não existência da alma racional. Só um ser dotado de vontade livre e espiritual, e não de instinto material, poderia tomar uma decisão tão grave de enfiar uma ferramenta dentro do útero de uma mulher para estraçalhar a cabeça de uma criancinha inocente, linda, maravilhosamente viva, que se debate defendendo sua vida, como se fora um adulto nas mãos de inimigos cruéis. O assassino cruel tem nas mãos a ferramenta da contradição e o castigo clama aos céus. O ato pecaminoso que comete é a prova da nulidade de seus argumentos.

 

Mas eles não se dão por vencidos,  lá vem os materialistas enlouquecidos insistir que um embrião sem cérebro não é humano, que pode ser abortado. Vamos tentar entender a argumentação. Se eles dizem que não é humano porque não têm cérebro, significa que, para essa gente, é o cérebro que define o homem. Se tem cérebro é humano, se não tem cérebro não é. Para um materialista, faz sentido, pois onde poderia ele se apoiar para explicar a vida? No centro de comandos dos sinais vitais. É compreensível, mas é pobre como explicação, é falso. Mas a questão é, como já assinalei acima, que o fato do organismo humano ter um centro nervoso que explique seus atos, seus movimentos físicos e psíquicos, não dá razão de um único pensamento racional. Não há nada na matéria que possa explicar como uma criança, olhando um ser estranho, pergunte para seu pai: — Pai, isso é bicho ou gente? A formulação da questão onde aparecem conceitos racionais definindo seres diferentes só é possível a partir de algo que está acima do centro nervoso ou do bater do coração. O simples bom senso permite que se entenda isso com facilidade, mas esta sabedoria popular parece faltar nos políticos e cientistas ateus. Ou será que eles entendem, mas têm outros interesses inconfessáveis? Imaginem um quadro de botões para apagar e acender um jogo de luzes. Dizer que o cérebro é a razão da vida, significaria dizer que o quadro de botões explica a luz. Do mesmo modo que o coração não explica a vida, apenas bombeia o sangue que alimenta os órgãos, assim também o cérebro, apenas abre e fecha comandos. Poderíamos imaginar que o funcionário de uma estrada de ferro que move com uma alavanca os trilhos para desviar o trem para determinada direção seria a razão essencial da viagem?

 

Como se combinam corpo e alma

 

Se o cérebro é matéria, faz-se necessário encontrar a forma substancial que explique o seu funcionamento. Desde Aristóteles que o homem aprendeu que todo ente material não possui na própria matéria a razão do seu ser. Todo ser material precisa da forma substancial para explicar o que ele é. O corpo humano, portanto, precisa de uma forma que explique e defina o ser humano e todas as suas faculdades. O cérebro só é causa dos impulsos nervosos, ou seja, algo material e físico; nada tem a dizer sobre uma série de atos que se constata no agir humano e que ultrapassam o domínio da matéria: o saber intelectual, o querer livre que comporta uma escolha, a renúncia de um bem material por escolha de um bem espiritual etc. A forma substancial do homem precisa dar razão também desta atividade espiritual, que se constata tão facilmente. Logo deve-se concluir na existência de uma forma substancial espiritual, capaz de todos os atos não materiais. Esta forma substancial é a alma. O termo procede de "coisa animada" e por isso será usada por Aristóteles de modo analógico em cada nível de atividade vital: a alma vegetativa explica como um ser material consegue atividades vitais nos vegetais; alma sensitiva explica como um ser material consegue atividades sensíveis e vitais nos animais; alma espiritual explica como um ser material consegue atividades espirituais, sensíveis e vitais, no homem. É na seqüência deste raciocínio que se alcança a compreensão da imortalidade da alma. Pois se as atividades espirituais do homem não têm sua origem na matéria (que se decompõe), mas sim na alma espiritual criada por Deus na concepção, então deve permanecer mesmo quando o organismo material falha, causando a morte, ou seja, a separação daquela matéria de sua forma substancial que a organizava, a mantinha na vida, a fazia agir.

 

A morte cerebral

 

Se é na origem da vida, no embrião, que a sociedade apóstata descarrega todo o seu ódio e loucura, na outra ponta da vida também estará presente a fraude do homem brincando de Deus. Tudo começou com os transplantes de coração, mas acontece também com transplante de fígado e outros órgãos vitais. Para que estes órgãos sejam viáveis para um transplante, é necessário que o coração do doador ainda esteja batendo, que o sangue ainda corra em suas veias, em outras palavras: que o doador esteja VIVO. Evidentemente a prática das doações de órgãos vitais trouxe para o mundo da medicina interesses que passam longe da cura dos doentes. Um mercado impressionante se estabeleceu nos grandes países e é a peso de ouro que este tipo de operação é feita. Era preciso continuar matando doadores para que as pesquisas continuassem e o mercado não se extinguisse. Calaram o crime e inventaram rapidamente um subterfúgio: a morte cerebral. A sociedade, por estar adormecida e sedada pelos prazeres, pela televisão, pelo grande objetivo de enriquecer, não percebeu o engano e foi engolindo a falsa noção de morte que estes senhores inventaram. Quando o cérebro não apresenta mais determinado nível de atividade nervosa, considera-se que a pessoa está morta e começa a carnificina, sob os eufemismos de "caridade", "benemérito da humanidade" e "salvador de vidas", que são passados para as famílias, em geral já anestesiadas pela dor do momento. A guerra é tão absurda que os organismos internacionais e os governos calam os cientistas que têm provado que certos tratamentos como a hipotermia (diminuição da temperatura do corpo) têm trazido grande número de "mortos cerebrais" de volta às atividades cerebrais. Se voltam é porque não estavam mortos. E se arrancam seus órgãos neste estado, estão assassinando. Portanto, não permitam que se faça o retalhamento dos seus doentes em coma profundo. Se não for possível que voltem, pelo menos que possam morrer em paz, assistidos por um padre para a salvação de suas almas.

 

Eutanásia

 

Evidentemente estamos entrando à galope na era da eutanásia. Hollywood está aí, desprezando o sucesso estrondoso do excelente filme "A Paixão de Cristo" para elevar à gloria dois filmes de propaganda de eutanásia ou suicídio assistido, como gostam de dizer. Já passou o aborto, já passou o homossexualismo, agora chegamos à escolha da morte. O homem que já se acha no direito de matar as criancinhas inocentes agora exige aos berros o direito de matar a si mesmo quando achar razoável. Não é preciso conversarmos sobre o que seja razoável ou não; Deus só é Senhor da vida e da morte. Nossa vida nos foi dada por Ele e só Ele pode tomá-la da volta. Nós somos depositários e temos contas a prestar no dia do juízo. É preciso viver num mundo pagão e sem razões profundas como é o neo-paganismo atual para achar que uma doença sem solução seja motivo para buscar a morte. Não é. Todo sofrimento tem uma razão, a qual se refere necessariamente com o resgate do gênero humano realizado por Jesus na Cruz. Ele deu sua vida por nós num sofrimento infinitas vezes maior do que qualquer sofrimento nosso, pois somava ao martírio terrível do seu corpo a expiação espiritual do peso tremendo de todos os pecados. Se os homens soubessem o que é o dogma da Comunhão dos Santos, não perderiam um minuto de sofrimento sem oferecer. Se soubessem que todos os nossos atos atuam sobre as almas do nosso próximo, por ação da pura vontade divina, que aplica uma oração, um sacrifício oferecido, para o bem de outros que, muitas vezes, nem conhecemos. É como uma grande equilíbrio espiritual onde o fiel da balança é a vontade divina, o coração de Deus amolecido pela dor de seus filhos que oferecem uns pelos outros. É preciso lembrar aos nossos velhinhos que eles têm uma razão muito forte para suportar o peso da idade, da doença, das dores. Eles podem carregar o mundo nas costas, converter os piores pecadores, salvar almas para o céu. Nossa missão aqui na terra só termina na hora da morte, quando Deus nos chama para o descanso eterno. Não aceitem os falsos argumentos da televisão. Estudem e mostrem aos familiares e amigos que só Deus pode nos dar a recompensa.

 

Porque a morte é a separação da alma e do corpo quando o corpo não tem mais organização material suficiente para ser "animado". A morte não é um dado da religião. Vamos deixar as coisas claras. Nem a questão da morte cerebral, nem a eutanásia, nem o aborto, nem a manipulação de embriões são temas apenas religiosos. Não é preciso invocar nenhum tratado de teologia, nem passagem da Bíblia ou texto do Magistério para se rechaçar com todas as forças tais crimes. Estamos lidando com argumentação filosófica, natural, horizontal e humana. E se o Papa aparece diante do mundo como um ferrenho defensor do "direito à vida", não significa que ele o faça porque é o chefe da Igreja. Ele o faz porque é homem e assim como ele, todos os homens, de qualquer credo que for, devem também fazer. A moral católica vem reforçar a argumentação com os dados da Revelação e com o ensinamento infalível da Tradição. Mas não significa, de modo algum, que a defesa destes valores da vida humana seja uma "opção" de tal ou tal credo religioso. Portanto, o pecado existe para todos e se não houver uma conversão de tudo isso, em breve o castigo de Deus cairá sobre a humanidade.

 

Existe um direito à vida?

 

Costuma-se alegar como motivo para combater o aborto, o direito à vida. Os que assim argumentam costumam afirmar que a vida é um bem sagrado, um direito absoluto e o que há de mais importante para o homem. Apesar de compreender a boa intenção desta argumentação, não posso deixar de salientar que não me parece correto o argumento. É verdade que, estando vivos, existe um certo direito civil de desenvolvermos esta vida, de podermos viver em paz, de termos alimento para saciar a nossa fome etc. Mas este "direito" é da ordem civil, no trato entre homens dentro de uma sociedade. Mas quando argumentamos sobre aborto, eutanásia ou morte cerebral, estamos, antes de tudo, diante de Deus. E neste caso, devemos lembrar que recebemos a vida de Deus sem mérito algum da nossa parte. Existimos mas poderíamos perfeitamente não existir. E se não temos méritos, também não temos direitos. Antes, ao contrário, temos muitos deveres para com Deus e para com o próximo, seja ele a sociedade civil ou o padeiro da esquina. O que quero dizer é que nossa argumentação para condenar o aborto, o uso dos embriões, a eutanásia e tudo mais, é que estas coisas são crimes e pecados contra a Lei Santa de Deus, que foi inscrita nos corações de todos os homens, chamada Lei Natural; que foi explicitada na Revelação do Antigo Testamento, nos dez mandamentos, e que foi santificada pela doutrina salvífica do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que serve uma doutrina de salvação? Para nos dar uma vida feliz e com saúde, como se costuma desejar? Não me parece. A vida para nós só pode ser um bem imenso e absoluto se estivermos falando da Vida Eterna! A vida, em si mesmo, não é sagrada. Ela faz parte da ordem natural. Torna-se sagrada pelo Santo Batismo, quando recebemos a vida sobrenatural, divina, dentro de nós, nos transformando e nos tornando aptos para a Vida Eterna. E é nela, na Beatitude de Deus, no Céu, na Visão beatífica que estaremos descobrindo no próprio Deus a razão de ser de tantos sofrimentos neste vale de lágrimas.

 

 

Razão, Paixão e Namoro

Dom Lourenço Fleichman OSB

Hoje eu queria lhes falar sobre um tema que tenho pensado e exposto em algumas conferências que andei fazendo por aí. Tema difícil e que eu tenho falado como em uma espécie de laboratório, de reflexão, captando aqui e ali as ponderações das pessoas sábias. É dentro desse espírito que eu lhes trago aqui. Meu intuito é tratar do assunto do namoro de forma racional, buscando as razões profundas que levam os homens a se comportar com respeito, na obediência à Lei de Deus. Não é suficiente, hoje, um padre dizer aos jovens: não façam isso ou aquilo. Quem quer entender, busque a verdade!

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Suicídio e martírio

Gustavo Corção

 

Nos últimos dias de agosto, como se não bastassem os acontecimentos desse mês que nos pareceu ter trezentos dias, correu entre nós um boato que nos deixou sacudidos entre o gáudio e a tristeza: as irmãzinhas do Père Foucald, que se achavam no sertão de Goiás, vivendo entre os índios o obscuro esplendor da virgindade e da paciência, como Santa Rosa de Lima, teriam sido trucidadas pelos tapirapés ou por seus ferozes inimigos. A morte horrível das duas moças, cujas irmãs tantas vezes visitamos na casinha do morro de São Carlos, parecia-nos um sinal do céu, uma réplica que o sertão do Brasil dirigia à capital do Brasil, nesse diálogo de violências que nos encheu o mês de agosto, uma réplica de Deus a nos dizer que seu pendão orvalhara a nossa terra com o sangue dos mártires...

 

Eutrapelia, a virtude da recreação

Catecismo familiar sobre as leituras e o modo cristão de divertir-se em geral.

A família sitiada

 

Relendo textos antigos sobre a Família
À medida que se aprofunda e, de social se torna cultural, a Revolução desloca seus ataques das instituições em escala nacional e da organização do Estado para a condição humana e a família. Mudar o próprio homem é o seu lema e o seu propósito. Pois, como observou Marcel Clément, se “a revolução política (a Rev. francesa) subverte essencialmente a ordem jurídica e se a revolução social (o socialismo) desagrega a ordem econômica, a revolução cultural “liquida” a ordem interior, espiritual, a fim de remodelar diretamente a alma humana sem qualquer escapatória” (Le Comunisme face a Dieu).

 

A natureza da moralidade

A.  A concepção casuística da moralidade
 
A natureza da moralidade é um dos problemas mais árduos e mais discutidos. Como não podemos trata-lo aqui exaustivamente nos contentaremos em dizer o que é necessário para permitir interpretar corretamente o texto de Santo Tomás que apresentamos.
 
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