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Artes (61)

Alegrias de Nossa Senhora

[Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.]

 

I

RECITANTE

O anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:

ANJO

O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.

RECITANTE

A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:

MARIA

Sou a escrava do Senhor;
Faça-se em mim segundo a sua palavra.

CORO

Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!

II

RECITANTE

Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espirito Santo.

ISABEL

Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto do teu ventre!

RECITANTE

O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:

MARIA

Minh´alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grande coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.

CORO

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

III

RECITANTE

Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:

CORO DE PASTORES

Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nas alturas!

IV

RECITANTE

Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no tempo, sentado entre os doutores,
Disse-lhe então Maria:

MARIA

Filho, por que fizeste assim para conosco!
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.

RECITANTE

Ao que Jesus responde:

JESUS (menino de doze anos)

Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?

RECITANTE

E Maria:

MARIA

Achei aquele a quem minh´alma adora.
Recobreio-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador

CORO

Santo! Santo! Santo!

V

RECITANTE

A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de veses resplandecentes falaram:

OS DOIS VARÕES

Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aquí, já ressucitou.
Lembrai-vos de que vos disse em Galiléia:
“Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
“E seja crucificado,
“E ao terceiro dia ressucite.”

CORO

Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!

Oração para aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, vosso pai,
Santa clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

Buscando a Cristo

À vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados. 
    

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados. 
            

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me        

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Do "Auto da Mofina Mendes"

(Neste passo entra o anjo Gabriel dizendo:)

 

Gabriel: Oh! Deus te salve, Maria,

Cheia de graça graciosa,

Dos pecadores abrigo!

Goza-te com alegria,

Humana e divina rosa,

Porque o Senhor é contigo.

 

Virgem: Prudência, que dizeis vós?

Que eu muito turbada sou;

Porque tal saudação

Não se costuma entre nós.

 

Prudência: Pois que é auto do Senhor,

Senhora, não estai turbada;

Tornai em vossa color

Que, segundo o embaixador,

Tal se espera a embaixada.

 

Gabriel: Ó Virgem, se ouvir me queres,

Mais te quero inda dizer.

Benta és tu em mereceres,

Mais que todas as mulheres,

Nascidas e por nascer.

 

Virgem: Que dizeis vós, Humildade;

Que este verso vai mui fundo,

Porque eu tenho por verdade

Ser em minha qualidade

A menos cousa do mundo?

 

Humildade: O anjo, que dá o recado,

Sabe bem disso a certeza.

Diz David no seu tratado,

Qu’esse sp’rito assim humilhado

É cousa que Deus mais preza.

 

Gabriel: Alta senhora, sab’rás

Que tua santa humildade

Te deu tanta dignidade,

Que um filho conceberás

Da divina Eternidade.

Seu nome, será chamado

Jesu e Filho de Deus;

E o teu ventre sagrado

Ficará horto cerrado;

E tu — Princesa dos Céus.

 

Virgem: Que direi, prudência minha?

A vós quero por espelho.

 

Prudência: Segundo o caso caminha,

Deveis, Senhora Rainha,

Tomar com o Anjo conselho.

 

Virgem: Quomodo fiat istud,

Quoniam rirum non cognosco?

Porque eu dei minha pureza

Ao Senhor, e meu poder,

Com toda minha firmeza.

 

Gabriel: Spiritus sanctus supervenit in te;

E a virtude do Altíssimo,

Senhora, te cobrirá;

Porque seu filho será,

E teu ventre sacratíssimo

Por graça conceberá.

 

Virgem: Fé, dizei-me vosso intento,

Que este passo a vós convêm.

Cuidemos nisto mui bem,

Porque a meu consentimento

Grandes dúvidas lhe vem.

Justo é que imagine eu,

E que esteja muito turbada.

Querer quem o mundo é seu,

Sem merecimento meu,

Entrar em minha morada;

E uma suma perfeição,

De resplendor guarnecido,

Tomar para seu vestido

Sangue do meu coração,

Indigno de ser nascido!

E aquele que ocupa o mar,

Enche os céus e as profundezas,

Os orbes e redondezas;

Em tão pequeno lugar

Como poderá estar

A grandeza das grandezas!

 

Gabriel: Porque tanto isto não pezes,

Nem duvides de quere,

Tua prima Elizabeth

É prenhe, e de seis meses.

E tu, Senhora, hás de crer,

Que tudo a Deus é possível,

E o que é mais impossível,

Lhe é o menos de fazer.

 

Virgem: Anjo, perdoai-me vós,

Que com a Fé quero falar.

Pedirei sinal dos Céus.

 

Fé: Senhora, o poder de Deus

Não se ha de examinar.

Nem deveis duvidar,

Pois sois dele tão querida.

 

Gabriel: E d’abinício escolhida:

E manda-vos convidar;

Para madre vos convida.

 

Virgem: Ecce ancilla Domini,

Faça-se sua vontade

No que sua Divindade

Mandar que seja de mi,

E de minha liberdade.

Setenário das dores de Nossa Senhora

 Heu! sputa, alapae, verbera, vulnera,
Clavi, fel, aloe, spongia, lancea,        
Spitis, spina, cruor, quam varia pium 
Cor pressere tyrannide!

(Hino de Matinas do Ofício das
Sete Dores de Nossa Senhora)  

ANTÍFONA

Volvo o rosto para o teu afago,
Vendo o consolo dos teus olhares...
Sê propícia para mim que trago
Os olhos mortos de chorar pesares.

A minha Alma, pobre ave que se assusta,
Veio Encontrar o derradeiro asilo
No teu olhar de Imperatriz augusta,
Cheio de mar e de céu tranqüilo.

Olhos piedosos, palmas de exílios,
Vasos de goivos, macerados vasos!
Venho pousar à sombra dos teus cílios,
Que se fecham sobre dois ocasos.

Volvo o peito para as tuas Dores 
E o coração para as Sete Espadas...
Dá-me, Senhora, para os teus louvores,
A paz das Almas bem-aventuradas.

Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre
Nos pobres lábios de quem espera:
Sê propícia para mim, socorre
Quem te adorara, se adorar pudera!

Mas eu, a poeira que o vento espalha,
O homem de carne vil, cheio de assombros,
O esqueleto que busca uma mortalha,
Pedir o manto que te envolve os ombros!

Adorar-te, Senhora, se eu pudesse
Subir tão alto na hora da agonia!
Sê propícia para a minha prece.
Mãe dos aflitos...

                   Ave, Maria.

 

    


 

PRIMEIRA DOR

Et tuam ipsius animam pertransibit glaudius...
S. LUC. II, 35.

- I -

Nossa Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.

O teu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.

Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.

Diz-lhe o velho Simeão: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada...

    

- ÏI -

 

Sofrer por Ele! E pálida, ofegante, 
Nossa-Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranqüilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.

Sofrer por Quem! Ventura semelhante,
Só a um peito como o seu de estrelas cheio...
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio...

Que lhe importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu próprio Filho...

Sofrer pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!

    

- III -

 

Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.

Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.

Por Ele toda a mágoa sofreria...
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.

Sofrer por Ele... Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!

        

- IV -

 

E as palavras do Velho em tom celeste
Murmuraram-lhe assim: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."

Chorou. "Guardião do Templo, que disseste?"
E a ansiedade passou-lhe contristada
Pela Alma, como a sombra de um cipreste
Plantado à beira de uma encruzilhada.

Talvez que toda aquela noite espessa
Profetizada pelo Velho, triste
Viesse envolver de luto outra Cabeça...

Sim! Pois vê-Lo sofrer era por certo
Ter em meio do peito a lança em riste,
E em chaga viva o coração aberto.

- V -

Pudesse ela poupar-lhe o sofrimento,
Adivinhar-lhe as dores e os pesares,
Ter poeiras de astros para o mal sedento,
Ter bons olhares para os maus olhares...

De repente, num rútilo momento,
Na Alma surgiu-lhe uma visão de altares:
Era a grandeza do seu Nascimento
No Lar eleito em meio de outros lares...

Mas que fizera para tanta glória,
Sentir a Deus chamá-la Mãe querida,
Ela, mulher, como as demais corpórea?

E a aparição daquele Arcanjo etéreo,
Que lhe anunciara a nova prometida,
Engrinaldou-lhe a fronte de mistério...

- VI -

De luar vestido, o fúlgido semblante
Entre bastos cabelos irisados, 
E sobre o flanco a túnica irradiante
Que eram nesgas de céus nunca sonhados:

Os seus olhos de poente e de levante
Em silêncios de luz ilimitados;
Era o celeste Cavaleiro andante,
Anunciador de místicos Noivados...

E que Noivado o seu! Nuvens radiosas
Cercando o Mensageiro altivo e doce,
Debaixo de amplo céu de seda e rosas...

E dentro das olheiras cor-de-goivo,
O olhar da Virgem santa eternizou-se:
O Espírito de Deus era o seu Noivo...

- VII -

Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-lhe o vulto em toda a parte.

Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.

Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.

Que me chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!

 

SEGUNDA DOR

 

...Angelus Domini apparuit in somnis Joseph...
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.                      

S. MATTH. II, 13, 14.

- I -

Eram pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:

Eram bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a benção do Senhor floresce:

Era a sublime adoração do povo,
À luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:

Diante do leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhã de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...

    - ÏI -

Fora uma estrela de fulgor imenso
Que os guiara, em noite deserta, ao Lugar-Santo...
Mirra trouxera Belthesar: incenso,
Gaspar: Melchior, o ouro que fulge tanto.

Eram vales e montes, e era o denso
Bosque, e o campo espraiado em verde manto:
E ao luar, todo de jaspe, e ao sol intenso,
Seguiam na asa de celeste encanto.

Quando se viram sob o mesmo teto
Que abrigara a Família imaculada,
Brotou-lhes na Alma a flor do etéreo Afeto.

E os Reis Magos, olhar humilde e terno,
Os Diademas tiraram, poeira e nada,
Diante dAquele que era o Verbo eterno...

- III -

Sagrada adoração dos três Reis Magos,
Genuflexão piedosa aos pés de Cristo,
Que nuvens augurais e que pressagos,
Ventos te guiaram para o Lar benquisto!

O insólito clamor dos teus afagos,
E a mesma prece em que hoje me contristo,
Despertam do Tetrarca os ódios vagos...
E as Angústias chegaram depois disto.

Hás de ir, Senhora, para a terra adusta
Onde a grande Pirâmide singela
De veloz tempo os passos tolhe e susta.

Volve para Ele os olhos tristemente:
Deixa a Judéia como te revela
A estranha adoração dos Reis do Oriente.

        - IV -

José, filho de Reis, o Carpinteiro
Descendente da Casa do Salmista,
Acorda em plena noite, e o corpo inteiro
Treme-lhe, e um raio lhe perturba a vista.

Alvo Kerub ideal, de olhar guerreiro, 
Com uns heráldicos sables de conquista,
Surge por entre nimbos, e o nevoeiro
Que faz a grande luz à treva mista.

Num pantaclo estelar estava escrito:
"Ele é o Filho de Deus. Acolhe-o, Esposo,
Ao solo ardente do abrasado Egito."

"Meu Deus!" exclama o Santo, e mudo espia
A áurea face do Arcanjo luminoso:
Uma fonte de lágrimas corria. 

      - V -

O jumento abre os olhos compassivos,
E montanhas e rios atravessa.
E a Mãe aflita, e o Esposo, apenas vivos,
Fazem gestos de angústias e de pressa.

As horas de pavor e os aflitivos
Dias, ei-los: a Dor cedo começa.
Surgem na treva espectros redivivos:
E o pesadelo trágico não cessa...

Seguem-se dias claros, noites quentes,
E o céu, que é uma turquesa de luar cheia,
Enubla-se de lágrimas dolentes.

E parece que se ouve o leve passo
Da lua, pobre morta que passeia
Nos castelos hieráticos do espaço... 

      - VI -

Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos:

Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos:

Mãos a bordar o santo Escapulário,
Que revelaste para quem padece
O inefável consolo do Rosário:

Mãos ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A benção que redime e que perdoa! 

- VII -

Doce consolação dos infelizes,
Primeiro e último amparo de quem chora,
Oh! dá-me alívio, dá-me cicatrizes
Para estas chagas que te mostro agora.

Dá-me dias de luz, horas felizes,
Toda a inocência das manhãs de outrora:
As colunas de nuvens em que pises
Transformam-se em clarões de fim de aurora.

Tu que és Rosa branca entre os espinhos,
Estrela no alto mar e torre forte,
Vem mostrar-me, Senhora, os bons caminhos.

Que ao meditar as tuas Sete Dores,
Eu sinto na minha alma a dor de morte
Dos meus pecados e dos meus terrores...

 

TERCEIRA DOR

Fili, quid fecisti nobis sic? Ecce pater tuus et

ego dolentes quaerebamus te.                    
S. LUC. II, 48.

- I -

Fé, Esperança, Caridade, — hinário
De lausperenes e de misereres, —
Canto de paz em tempo solitário,
Fazeis sonhar em pálidas mulheres.

Fé! ter os olhos fitos no Calvário...
E a Esperança que diz: "Tudo que esperes
Virá por entre as dobras do sudário..."
E a Caridade, as Almas esmoleres!

Trindade augusta que me segue, vozes
Que vêm do Inacessível, e coluna
Erguida em frente aos temporais atrozes:

Santas virtudes primitivas, ponde
Bênçãos nesta Alma para que ela se una
A Deus, e vá, sabendo bem por onde...

    - ÏI -

Foi a primeira dElas que me veio,
No exílio do meu pávido abandono,
Aconchegar, rezando, contra o seio,
Quando longe de mim estava o outono.

Da primavera ao delicioso enleio
Florescia a minha Alma como um trono:
De lírios o jardim estava cheio...
Era a delícia do primeiro sono.

Depois, tantas serpentes pela estrada,
Ao sol, que me cegava o olhar de outrora,
E sob o luar da noite constelada...

E entre nimbos de rútilos altares,
O Anjo da fé, num resplendor de aurora,
Baixava as grandes asas tutelares.
    

- III -

A Segunda das três Irmãs, um dia,
Vendo-me à beira de um abismo: "Espera!"
Veio dizer-me, e pálida sorria...
De mim bem longe estava a primavera.

O meu imoto olhar de esfinge erguia
Luares de morte ao Céu, que já não era
O mesmo azul em ondas de harmonia,
Mistério ascensional que eu bendissera.

Abrindo as grandes asas fulgurantes,
A Esperança tomou-me os braços hirtos...
E o Céu ficava azul como era dantes.

Os meus olhos de mar em noite calma,
Entre festões de rosas e de mirtos,
Tombavam sobre o luto da minh'Alma.

        - IV -

E foi então que a Virgem de olhos castos,
Tão branca e macerada como os círios,
Surgiu em frente dos satãs nefastos
Que o coração me enchiam de delírios.

Sobre a noite dos seus cabelos bastos 
O luar resplende: as mãos curam martírios,
E os pés flordelisados deixam rastos
De fulgor estrelar por entre lírios...

Uma fonte lustral de preces corre
Daqueles olhos, onde, suavemente,
A noite nasce e o dia, ao longe, morre.

— Virgem da Caridade, eu vou contigo!
E então, pela primeira vez, ao poente,
Rezei trindade, eu, Poeta e mendigo... 

      - V -

Mendigo mas do teu Amor sublime,
Que ao pungente fulgor das Sete Espadas
Vem relembrar o inolvidável crime,
Através das esferas consteladas...

Fé, Esperança, Caridade, ungi-me,
Ó bênçãos da maior das Bem-Amadas!
Que eu me eleve a esse Amor que nos redime,
Ao clarão das virtudes consagradas...

Como a estrela de Efrata na sombria
Degolação dos Santos Inocentes,
Olhos, chorai as Dores de Maria.

E se dado vos for chorá-las, tanto
Que em lágrimas cegueis, mudas e crentes,
Bendita seja a noite desse pranto! 

      - VI -

É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melacoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas
Aromalizam com os ungüentos brancos
Dos nigromantes de mortais aromas...

Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas. 

        - VII -

Foi por aquelas ruas circulares
Que O perdeste, Senhora, e que O não viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste...

Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angústia a que o peito não resiste,
Te guiara em via-sacra pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!

Três dias procuraste, em mágoa imensa,
Sofrendo a multidão dos hebreus rudes,
Do Filho eterno a celestial Presença...

(Fé, Esperança, Caridade, hinário
De alívio à Mãe aflita, áureas Virtudes
Que haveis de segui-la até o Calvário!)

Janeiro de 1897

 

QUARTA DOR

Et bajulans sibi crucem, exivit in eum qui

dicitur Calvariae locum...                    

S. JOAN. XIX, 17.

- I -

Pontius Pilatus olha-O. Quieto e fundo
Olhar mau que talvez de ódio não fosse;
De ódio, não, mas de dúvidas fecundo...
E Cristo era de pé, sereno e doce.

Depois, aquele olhar, que de profundo
Se fizera de escárnio, iluminou-se:
— "És o Rei dos Judeus?" Que deste mundo
O seu Reino não era. E a Voz calou-se.

— "És Rei?" — "Disseste-o". E a multidão oprime
A Pilatus. No entanto para a turba
Ele fala: — "Não lhe acho nenhum crime.

"Ei-los, Jesus e Barabás precito:
Qual à morte votais?" (A dor pertuba
O Céu de amplo clamor...) — "Jesus"! foi dito.

- ÏI -

E Barabás era um ladrão. Perdoado
Foi da morte naquela Páscoa, e o Justo
Sofreu o atroz suplício inolvidado,
Braços abertos no Madeiro augusto.

Na solidão do Monte descalvado
O vento ulula, trêmulo de susto:
No Céu, que lança à terra o olhar magoado,
É sangue o luar, é sangue o sol adusto.

Soa dorida a Hora marcada. Círios
Em pranto, além, no Céu. Que negras noites
Estendem véus de luto aos seus Martírios...

Que Alma de penha quem não soluçasse
Ao ver impressa ao sangue dos açoites
A Verônica real da sua Face

- III -

Densas nuvens sem luz, como flabelos,
Velando o sol, que de pesar se ofusca,
Surgem por entre os límpidos castelos,
Numa dolência desolada e fusca.

Cristo fita no Céu os olhos belos,
Como quem meigo olhar amado busca:
E começa o martírio dos flagelos...
A tarde faz-se parda, a noite brusca.

Sempre-divino, o imáculo Cordeiro
Sob os golpes em fúria cruel parece
Que vai soltar o alento derradeiro.

mais uma vez o Azul sagrado fita,
E baixa os olhos, úmidos de prece,
Ele a Clemência, o Amor, a Paz bendita...

- IV -

Nossa Senhora encontra-O... Se não fora
O eterno sopro que do Céu lhe vinha,
Diante dessa visão contristadora,
Certo caíra a pálida Rainha.

É Ele, o seu Filho amado: a luz que doura
O seu cabelo, é sangue: linha a linha,
É sangue o rosto: e a barba, que entre loura
E negra está, clarões de sangue tinha.

Verga-lhe as Pernas o Madeiro: os braços
A sua Mãe estende-lhe, chorando,
Ante a incerteza dos seus pobres Passos.

Sob irrisórios aparatos régios,
Tudo se apronta para o mais nefando,
Para o mais infernal dos sacrilégios... 

- V -

Se puderas, Senhora, nesse instante
Tomar-lhe a Cruz que os Ombros lhe crucia,
E levando-a, seguir agonizante
Pela santa montanha da agonia...

Com que sorriso excelso no semblante,
Por entre sombras de melancolia,
Das nuvens sob o pálio suavizante,
A tua Alma de mãe não seguiria!

Oh Porta celestial do Paraíso,
Ante a esperança dos teus olhos venho
Mover-te à compaixão de que preciso.

Possa eu, Poeta da morte, Alma de assombros,
Um dia carregar o santo Lenho
Sobre o esqueleto dos meus frágeis ombros! 

- VI -

Magnificat anima mea Dominum...

"Bendita sois entre as mulheres!" Puras
Irradiações de salmos encantados
De glória a ti, Senhora, nas alturas,
Por séculos de séculos sagrados.

Vejo, no entanto, as tuas Amarguras...
Senhora, que há de ser dos desgraçados,
Se tu, a mais feliz das criaturas,
Tens os olhos em lágrimas banhados?

Feliz, bem sei, pois és quem Deus mais ama...
"Donde me vem que a Mãe do Verbo eterno
Me venha a mim?" Santa Isabel exclama.

Passa-te na Alma a inspiração sublime:
E dos teus lábios desce o brando e terno
Hino que a glória da tua Alma exprime... 

- VII -

Se a Alma que aos pés vós tendes, vos parece
Indigna de chorar as vossas Dores,
Por não poder a fervorosa prece
De um pecador subir a tais louvores:

Se a Alma que esta Coroa astral vos tece
Humildemente, com tão pobres flores,
Não devera ascender a quem não desce
De um sólio de celeste resplendores:

Se por dizer o que vos digo, e creio,
Ponho o meu triste coração aberto
Ao desamor do Imaculado Seio:

Perdoai-me o zelo fiel que me consome,
Que estes meus versos valerão por certo,
Porque neles fulgura o Vosso Nome...

 

QUINTA DOR

Ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos

hinc et hinc, medium autem Jesum.                    
S. JOAN. XIX, 18.

- I -

Senhor Jesus, que sois toda a bondade,
Muitas vezes faz frio e a mágoa é intensa
Na minha Alma, e esta angústia que me invade
Clama só pela vossa real Presença...

Amparai-me com a vossa caridade:
Vindo, como virá, da luz imensa
Da vossa Mão (de toda a eternidade),
Há de ser grande sempre a recompensa.

Seja um sinal apenas de conforto,
Um gesto simples que, tombando do Alto,
Possa animar-me o coração já morto.

Fujam de mim as tentações do Inferno:
Que é o momento de contemplar o assalto
Contra a glória do vosso Corpo eterno.
    

- ÏI -

E tu, Senhora, cujo olhar tranqüilo
De nuvens brancas a minha Alma veste,
Olhar sublime que foi tudo aquilo
Que no Céu encontrei de mais celeste:

Tu, ermida sagrada onde me exilo,
Longe da fome, e sede, e guerra, e peste,
A mostrar-me no Céu, para segui-lo,
Todo o luar da esperança que me deste:

Mãe dolorosa! num momento incerto
Virás abrir-me os rútilos sacrários
De tua Alma que está de Deus tão perto...

Virás, talvez, e então, por certo, as minhas
Mãos de sombra debulharão rosários
Para a maior de todas as Rainhas...

    - III -

De mim piedade vós tereis. Bem ledes
Que espero o que jamais me será dado...
Mas a minha Alma é um templo sem paredes
Em que penetra o sol de cada lado.

Com os vossos olhos sinto que vós vedes
A desgraça em que vivo encastelado...
Oh as sedes siderais! Eternas sedes
Suavizadas no mundo constelado.

Mas com que amor cheio de unção e glória
Convosco chorarei as vossas Dores
Na outra vida e na vida transitória...

E possa eu ver-vos, na hora das Trindades,
Tendo aos pés, em etéreos resplendores,
Tronos, Dominações e Potestades...

        - IV -

Pois sede teve o vosso FIlho na hora
Em que Vós, e Elas, a seus Pés vos vistes,
Certo coroadas por suprema aurora,
Mas todas três tão pálidas, tão tristes...

O seu Olhar, cheio de dor, não chora,
Resignado ante as Dores que sentistes,
Vós, torre de marfim, santa Senhora,
Alma que em pranto astral vos diluístes!

E então secos os Lábios, a Garganta
Em fogo, é o instante do cruel martírio:
"Sede"! geme-lhe a Voz que se quebranta.

Na ponta de uma lança ergue-se a Esponja:
Mais se enlanguesce a vossa cor de lírio,
E esse perfil que predizia a monja... 

      - V -

Iam Maria mais José e o Infante
Louro na fuga para o Egito. Ruídos
Soam: a tarde vai caindo, e diante
Deles surgem, velozes, dois bandidos.

— "Somos pobres!" e a voz é um sonho errante.
Gestas assalta os Pais entristecidos;
Dimas a Criança toma, e o seu semblante
É outro; sente harpas de Anjos nos ouvidos...

E faz Gestas abandoná-los. Ora,
Esses ladrões, os Dois, crucificados
Com aquele mesmo Infante estão agora.

DEle se lembra Dimas, indeciso:
— "Vós, Senhor!" e Jesus (... Lábios sagrados!)
— "Serás hoje comigo em Paraíso." 

      - VI -

Junto da Cruz, em pé, Maria estava,
E perto dela, João. Jesus, que os via,
Para os dois entes celestiais olhava,
Olhos saudosos de melancolia.

— "Eis teu filho, Mulher." E João chorava.
E a mesma Voz dulcíssima dizia
Ao discípulo que Jesus amava:
— "Eis tua mãe." Pouco depois, morria.

Sobre-humanas delícias nunca vistas
Vieram, brancas, beijar a Alma tão pura
Do mais suave dos Quatro Evangelistas.

Meio S. João! fado de glórias pôs-te
A mão de Deus: que é a maior ventura
Ser amado de Cristo como foste. 

        - VII -

Vê-Lo não vos bastava, doce Dama,
Longe dos vossos maternais carinhos;
Sentir que a plebe vil, que ruge e clama,
Viesse em fúria assaltá-Lo nos caminhos:

Escarros que tombavam como lama
Sobre Quem é mais alvo que os arminhos:
E a Fronte real, em radiações de flama,
Cingida pelas pontas dos Espinhos:

Açoites, bofetadas, Cravos, Chagas,
E a Esponja, e a Lança, e o Fel, e a Sede estranha,
E o Sangue santo que corria em bagas:

Tudo era pouco para as vossas Dores...
Que ainda havíeis de vê-Lo na Montanha,
Expirando entre dois salteadores!

Abril de 1898

 

 

SEXTA DOR

  Joseph autem mercatus sindonem, et deponens 
eum involvit sindone...
S. MARC. XV,46.

- I -

Branco círio de luz nunca apagado,
Que entre orações velais eternamente,
Vós floristes de azul o meu passado,
E sois a flor de lis do meu presente.

Quantas vezes, Senhora, eu que transviado
Vivia, como quem não vê nem sente,
Nem ouve, e até de vós desmemoriado,
Tive o auxílio do vosso amor clemente!

o vosso nome há de cantá-lo em verso
Terso, e mavioso, o Poeta miserando
Que nos seus hinos castos vive imerso:

Alma coroada de coroas verdes
E de ramos dominicais, orando,
Vereis, se os olhos para mim volverdes...

    - ÏI -

O teu nome, Senhora, é a estrela da alva
Que entre alfombras de nuvens irradia:
Salmo de amor, canto de alívio, e salva
De palmas a saudar a luz do dia...

Pela primeira vez, quando a veste alva
A mão do Sacerdote me vestia,
Ouvi-o: e na hora batismal, oh! salva
A alma que o santo nome repetia...

Foram-se os anos... e sonho que me segue
A doçura infinita dos teus olhos
Que me dão luzes para que eu não cegue:

Doce clarão de estrela em fins da tarde,
Que há de encontrar-me trêmulo, de giolhos,
Com remorsos de te adorar tão tarde...

- III -

Ela é o asilo da mendicidade:
Ei-los que vêm, os míseros pedintes...
(Musa, não lhe dirás a suavidade,
Por mais suaves as cores com que a pintes!)

Maio! São rezas virginais. Invade
O templo a humilde multidão de ouvintes.
Quem acompanha o mês, quanta saudade
Não guardará nas épocas seguintes!

O Altar é todo branco: arde o Santo-Óleo
Em frente ao Filho eterno, e Ela, magoada,
Mais resplandece no sagrado Sólio...

Reza por mim, Senhora! Ah quem me dera
Sentir no peito, agora, a mesma Espada
Aguda e funda que te dilacera...

        - IV -

E recebeste-O nos teus braços. Vinha
Do alto do Lenho onde estivera exposto
Ao ímpio olhar, tão ímpio! da mesquinha
Multidão que insultava o santo Rosto...

Sangue o Peito suavíssimo continha,
Num resplandor de raios de sol posto...
Oh! Vinha do Senhor, excelsa Vinha
Em cachos siderais de etéreo mosto!

Sangue que se derrama em ondas, sangue
Que para a salvação dos homens, corre
Purpureamente brand, e O deixa exangue...

E que correndo como então corria,
Por toda a eternidade nos socorre
No mistério eternal da Eucaristia...     

- V -

Morto... mas vivo em todos nós, em cada
Alma que O queira receber em prece,
Pois Ele é a casta flor desabrochada
Que nas santas Partículas floresce...

Vive dentro de nós como a alvorada
No Céu: bem longa seja a noite, a messe
De astros longínquos morre, e a doce fada
Que fia os raios de ouro, resplandece...

Tem lábios que consolam, Mãos tão finas
Que dão carícias à Alma que O procura,
Cante o sol, chorem horas vespertinas...

E sempre ao pé de nós, anda nos ermos
Enchendo céus e terra com a ventura
Que envia aos corações que estão enfermos... 

      - VI -

Ora José de Arimatéia viera
Tomar o Corpo de Jesus. Mais cedo
Nicodemos no Gólgota estivera,
E com mirra voltara. E tinham medo.

Pois cada um destes homens puros era
Do bom Senhor discípulo em segredo,
Por temor dos judeus. Logo o soubera
O Sinedrim judaico, injusto e tredo.

Junto ao lugar do Sacrifício, um horto
Havia, e nele um monumento aberto
Onde nunca pousara nenhum morto.

Sepultaram-No, e a lápide fechou-se.
Viu-se depois o túmulo deserto:
Voara ao Céu Quem o Céu consigo trouxe.        

- VII -

Eu sei cantar o sofrimento: basta,
Para cantá-lo bem, já ter sofrido...
Pois a musa que pelo chão se arrasta
Sobre às vezes ao Céu como um balido.

Mas canto e sempre-humana dor. A vasta 
Dolência angelical, o almo gemido
Que vem pungir-vos a Alma pura e casta,
Oh! não... Que para tal não fui nascido.

Nem pretendo, Senhora (fora um sonho)
Dizer toda a agonia que sofrestes
Nos versos que ante vós, humilde, ponho.

Por mais nobre que seja, é sempre tosco,
tem sempre versos pálidos como estes
O Poeta que quiser chorar convosco.

 

SÉTIMA DOR

... et posuit eum in monumento quod erat
excisum de petra.
S. MARC. XV,46.

- I -

Só! e ao redor de ti, Senhora, olhaste:
Gemia a solidão de extremo a extremo.
E o infinito silêncio interrogaste
Com a clemência do teu olhar supremo.

Goivos tristes penderam, suaves, da haste,
Orvalhados na dor do pranto extremo,
Os mesmos olhos com que tu choraste
Quando ouviste rugir o ódio blasfemo.

Asas de cisne, além, pairava, incerto,
O ermo clarão do luar sobre o deserto,
Indefinido e irial, dos olhos teus...

Virgem da Soledade, ancila triste,
Ah! quem dissera a mágoa que sentiste:
Ser do Céu e viver longe de Deus!

- ÏI -

Só... e cheio de estrelas era o espaço,
E sorria aos teus pés a terra em flores;
O Céu, abrindo o celestial regaço,
Queria consolar as tuas Dores.

Vias, em sonho, o Olhar já morto e baço
Que perdoara os satânicos furores,
E trilhavas, chorando, Passo a Passo.
A Rua dos pungentes Amargores.

Ele era a fonte branca da Virtude,
O cordeiro sagrado que se imola,
Cheio de paz, e amor, e mansuetude...

Sempre tranqüilo em frente aos inimigos,
Era o consolo extremo, a santa esmola,
Neste mundo de sombras e mendigos...

- III -

Só... Mas quem te fizera companhia,
Neste mundo, depois de Ele a ter feito?
Quem, Senhora dolente, poderia
Conter o mesmo amor daquele Peito?

Viesse-te Ele buscar naquele dia
Em que te abandonara, o Olhar desfeito
Em astros: e a tua Alma vagaria
Nas barbacas e torres do seu Preito...

As harmonias célicas, suaves,
Para saudar-te, oh santa Bem-Amada,
Gorjeariam como um bando de aves.

E novo som nas harpas, novo brilho
Nas esferas da mística Morada,
Quando chegasses junto com o teu Filho...

- IV -

Portas do Céu que dais para a outra vida,
Diante de mim, de par em par, abri-vos...
E a oblação da minha alma entristecida
Chegue ao limiar dos tronos primitivos.

Ermitão que procura a quieta ermida,
Isolada dos mortos e dos vivos,
Evoco a luz da terra prometida...
Falazes sonhos meus contemplativos!

Vagueando pela vastidão cerúlea,
Minha Alma é como um hino que se expanda
Em louvores de sempiterna dúlia...

Exaude, Virgem branca, intemerata,
A fervorosa prece miseranda,
— Rosário que entre os astros se desata...   

- V -

Havias, pois, de vê-Lo, muito em breve,
Na suprema hierarquia do infinito,
No trono de ouro nacarado em neve,
Sublime e santo, como estava escrito.

Mas, agora, choravas. E que leve
Véu te enublava o olhar nos astros fito:
A lembrança cruel da Parasceve
Vinha magoar-te o coração bendito.

Ei-Lo embaixo da Cruz pesada e amara,
Que envilecera a tantos, mas que santa,
Por-Lhe haver dado a morte, se tornara.

Sobe, gemendo, as infernais escarpas:
Na eternidade um coro se alevanta
De violinos, de cítaras e de harpas... 

- VI -

Entorna sobre mim as soberanas
Inspirações que brotam dos Altares,
Oh carisma de amor que tudo irmanas,
Serva de Deus, Esposa dos Cantares.

São matinas e vésperas... Hosanas
E aleluias a ti por sobre os mares,
A ti, branca açucena que dimanas
Dos celestes jardins que não têm pares.

Aleluias a ti por sobre a terra:
O espírito do mal, imundo e sevo,
Como um fluido incoercível, nos aterra...

Ah! Senhora, que sempre tu me prezes
Como a um filho: eis a prece que te elevo
Em meio ao temporal dos meus reveses.      

- VII -

Doce Mãe de Jesus, se vos não pude
Engrandecer por toda a eternidade,
Se o meu estilo, às vezes, fraco e rude,
Bem longe está da vossa ideal bondade:

Se a minha musa edênica se ilude,
Quando julga rezar com suavidade,
Quando cheia de zelo e de virtude
Vem falar-vos de vós com tal saudade:

Perdoai-me, vós que engrinaldais com flores
Castas as liras, feitas para a prece,
De tantos macerados trovadores...

Estes versos são como um lausperene:
Mais fizera, Senhora, se eu pudesse
Oficiar no Mosteiro de Verlaine.

Maio de 1898

Florilégio místico

Durval Borges de Moraes nasceu na Bahia, em 20 de novembro de 1882, e faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1948. Em sua obra, vasta e valiosa, verifica-se uma evolução marcante, correlata à sua evolução espiritual e à sua especial devoção ao pobre de Assis, com o progressivo despojamento de todo virtuosismo técnico em prol de uma pobreza intencional do verso. Pobreza que, posteriormente, veio a desabrochar em versos de grande resplendor e espiritualidade, versos "de um poeta livre, alto, nobre, e de um grande místico". (André Muricy, Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro).

Para apresentarmos a obra deste poeta, que também foi entre nós o tradutor do I Fioretti franciscano, escolhemos algumas das suas mais belas flores neste jardim de pobreza e religião.

À Virgem Santíssima

Num sono todo feito de incerteza, 
De noturna e indizível ansiedade, 
É que eu vi teu olhar de piedade 
E (mais que piedade) de tristeza.

Não era o vulgar brilho da beleza, 
Nem o ardor banal da mocidade, 
Era outra luz, era outra suavidade, 
Que até nem sei se as há na natureza.

Um místico sofrer, uma ventura 
Feita só do perdão, só da ternura 
E da paz da nossa hora derradeira.

Ó visão, visão triste e piedosa! 
Fita-me assim calada, assim chorosa... 
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Hamlet - um olhar católico

Em 23 de fevereiro de 2002, Mons. Richard Williamson apresentou uma conferência sobre Hamlet aos professores da Escola Sainte-Famille, em Lévis, no Quebec. Publicamos o resumo feito por Jean-Claude Dupuis no boletim Long-Sault, número 2 (primavera de 2002), págs. 14-18. -- Le Sel de la Terre

  

William Shakespeare (1564-1616) é o escritor mais famoso de língua inglesa. Sua peça de teatro Hamlet (1600) permanece como uma das mais conhecidas e apreciadas do mondo anglo-saxão. Mons. Williamson precisa que Shakespeare não era nem teólogo nem filósofo. Era um artista, um dos maiores de todos os tempos, diz. E como todo artista, sua obra é marcada por uma relativa imprecisão. Shakespeare reflete a passagem da mentalidade medieval para a mentalidade moderna, a passagem de um sociedade cristã à uma sociedade apóstata. Sua obra traz, a um tempo, algo do teatro moralizador da Idade Média e algo do drama psicológico moderno. Podemos, portanto, fazer uma leitura cristã e tradicional ou, ao contrário, uma leitura romântica e revolucionária, que Mons. Williamson qualifica de hollywoodiana. Naturalmente, é esta última que prevalece em nossos dias. Mas, um católico pode encontrar em Shakespeare interessantes reflexões sobre o problema do mal.

Mons. Williamson lembra que a Bíblia contém tudo o que é necessário para compreender a natureza satânica do mundo moderno e para aprender a resistir a ele. Não obstante, a literatura profana pode por vezes nos ajudar a ilustrar os princípios católicos em uma linguagem mais acessível aos nossos contemporâneos e, sobretudo, aos jovens que infelizmente são demasiadamente marcados por uma visão cinematográfica da vida. Os clássicos literários, diz o Bispo, nos desvendam a profundeza da natureza humana e as causas da sociedade moderna.

O problema da apostasia constitui a trama de fundo da obra de Shakespeare. Seus heróis lutam contra uma insurreição interior da alma, conseqüência do eterno conflito entre o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio. O herói shakespeariano é inicialmente nobre, mas entretém uma fraqueza que o fará sucumbir à tentação. Assim é a ambição para Macbeth, o ciúme, para Otelo e o puritanismo, para Ângelo. O herói cai. Ele rejeita o amor para satisfazer sua paixão desregrada cometendo um assassinato. Em seguida, toma consciência do mal que fez e que se fez, mas ele não pode resolver o conflito senão por uma fuga desesperada para a morte. O herói shakespeariano é um idealista que se perde no niilismo por não encontrar resposta às suas questões. Com efeito, falta-lhe a graça divina. Não é ele a imagem do mundo moderno?

Mons. Williamson analisa a peça à luz desta dupla leitura, católica e moderna. A história se passa na Dinamarca. O rei é envenenado furtivamente por seu irmão Cláudio, que usurpa a coroa e desposa sua cunhada Gertrudes, mãe do herói Hamlet. O espectro do rei assassinado aparece a Hamlet. Ele revela a seu filho as circunstâncias de sua morte e pede a ele de o vingar. Hamlet é um homem jovem de coração puro que denuncia a corrupção da corte (Há algo de podre no reino da Dinamarca) e ama sinceramente a filha do lorde camareiro Polônio, Ofélia. Entretanto, ele sofre de melancolia (hoje dir-se-ia: depressão) e pensa até em suicídio. A aparição do espectro de seu pai transforma suas nobres aspirações em paixões odientas. Ele repele o amor de Ofélia, cujo pai ele mata por acidente, mas sem remorso. Sua noiva perde a razão e se mata, talvez voluntariamente. Hamlet tem a oportunidade de matar Cláudio enquanto ele reza; mas renuncia a isto para não enviar seu tio para o céu. Seu desejo de vingança não tem mais limite. Contudo, a melancolia e uma certa crença o paralisam. Hamlet pergunta a si mesmo se mais vale combater o Mal ou fugir dele pela morte. 

Ser ou não ser, essa é que é a questão: Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna ou tomar armas contra um mar de escolhos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — Dormir: Nada mais; e dizer que pelo sono findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — Dormir. Dormir! Talvez sonhar — eis o problema, pois os sonhos que vieram nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida. [...] Quem carregara suando o fardo da pesada vida se o medo do que depois da morte —o país ignorado de onde nunca ninguém voltou — não nos turbasse a mente e nos fizesse arcar c'o mal que temos em vez de voar para esse, que ignoramos?1 

Enquanto que Hamlet se interroga sobre o sentido da vida e da morte, Cláudio conspira com o irmão de Ofélia, Laertes, para fazer com que ele perca a vida na ponta de um florete envenenado, durante uma competição de esgrima. Hamlet pressente a cilada. Ele poderia facilmente evitar a competição, mas ele não está mais interessado na vida, e se deixa conduzir por um sombrio pessimismo.

Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora;  e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo: se ninguém conhece aquilo que aqui deixa, que importa deixá-lo um pouco antes?2

O drama termina em uma carnificina rocambolesca em que morrem Hamlet, Laertes, Cláudio e Gertrudes. Um rude guerreiro estrangeiro, Fortimbrás, termina por se empossar do trono. A força bruta triunfa sobre as ruínas da corrupção moral (Cláudio) e do niilismo espiritual (Hamlet), dois traços característicos do mundo contemporâneo.

Hamlet é um herói ou criminoso? Os modernos responderiam que Hamlet teve razão de se revoltar contra a corrupção da sociedade encarnada por Cláudio. Ele comete talvez alguns erros grosseiros em sua revolta, como a morte, no fundo justificada, de Polônio ou o quase-suicídio, mais triste, de Ofélia. Mas o rebelde tem todos os direitos e a revolução exige sangue. Cláudio e Laertes, que representam o poder estabelecido (o papai), associam-se para destruir a juventude revolucionária (o adolescente em crise). O herói termina por triunfar e por restabelecer uma certa justiça, mas ao preço de sua vida (o suicídio "interpelante" do adolescente incompreendido). Tudo termina por uma carnificina malsã, cuja responsabilidade é devolvida à ordem social hipócrita. Assim, Hamlet encarna, na ótica moderna, "o drama da ascensão à consciência e à liberdade" (Petit Robert).

Um católico fará, da mesma peça, uma leitura completamente diferente. Hamlet é um nobre príncipe enfraquecido por sua melancolia (a tristeza, primeira armadilha do demônio) que não pode resistir à tentação da vingança. O espectro de seu pai vem certamente do inferno, pois uma alma do purgatório não poderia incitar ao mal. Tendo preferido o ódio ao amor, Hamlet rechaça sua noiva, destrata sua mãe e ataca o rei, do qual é, contudo, o legítimo herdeiro. Hamlet solapa os fundamentos da ordem social: o matrimônio, a piedade filial, a autoridade pública. Sua rebelião odienta arruinará sua vida pessoal, sua família e a paz do reino, mas ele prossegue com vivacidade, como estes jovens burgueses decadentes que se tornam comunistas para acertar suas contas com seus pais. Quem vive da espada, perecerá pela espada. A revolta conduz à morte, tanto a do herói como a de seus inimigos. Ela conduz sobretudo ao desgosto pela vida que Hamlet manifesta aceitando o duelo contra Laertes. Definitivamente, Hamlet não restabeleceu a justiça na Dinamarca; ele simplesmente fez aquele reino cair nas mãos do estrangeiro Fortimbrás.

O drama que aflige a alma de Hamlet é fascinante. Em uma sociedade corrompida, é melhor combater (inutilmente) ou suportar e morrer (também inutilmente)? Notemos que Hamlet não deseja aderir à imoralidade: seu coração é demasiado nobre. Notemos igualmente que os católicos podem por vezes colocar-se a mesma questão: É preciso combater a desordem atual (sem esperança de sucesso) ou se desinteressar dela (o que equivale a morrer espiritualmente)? Resistir é inútil, golpear também. Que fazer?

Segundo Mons. Williamson, Hamlet não encontrou a solução porque não colocou o problema em termos católicos. Hamlet é o filho perturbado de um Shakespeare perturbado, no qual a juventude de nosso tempo se reconhece. Mas, por que Shakespeare era perturbado?

A obra de Hildegard Hammerschmidt-Hummel, The Hidden Existence of William Shakespeare [A Vida Desconhecida de William Shakespeare], pode nos esclarecer. Shakespeare era um católico em uma Inglaterra elisabetana que perseguia severamente os católicos pela violência, mas, sobretudo, pelo ostracismo. Em 1600, ano em que Hamlet foi escrito, o triunfo do protestantismo é absoluto. A maior parte dos ingleses aceitou o cisma e os católicos que ainda sobreviveram não ousam se manifestar muito. Ora, Shakespeare era um destes católicos que escondiam sua fé para se manter na sociedade. Ele recusa tomar o caminho do martírio. Mons. Williamson não o culpa: é preciso, diz ele, ser um verdadeiro mártir antes de apontar o dedo para aqueles que cedem na perseguição. Quantos dentre nós terão a coragem de testemunhar a fé quando as forças do anticristo nos perseguirem violentamente (o que talvez ocorra em breve)? Mas a pusilanimidade de Shakespeare altera sua concepção da vida. Seu meio-catolicismo não o permite resolver os problemas existenciais que ele colocava, por outro lado, muito bem.

Mons. Williamson traça um paralelo entre Hamlet, Shakespeare e a juventude atual.

Hamlet, príncipe herdeiro da Dinamarca, vive exilado em seu próprio reino, abandonado ao mal pela dupla traição de seu tio e de sua mãe. Ele tem razão de reagir contra a corrupção, mas não emprega bons meios. Sua ação termina em um inútil banho de sangue e em uma interrogação niilista: Ser ou não ser?

Ao fim de sua vida, Shakespeare consegue sair do impasse ao redescobrir a resposta cristã ao problema do mal: a redenção pela morte sacrificadora. Em Rei Lear (1606), a heroína regenera o mundo por sua própria oblação, não pela morte dos maus. O Cristo não salvou o mundo caçando os Heródes e os Pilatos, mas oferecendo a si mesmo na cruz. No mundo atual, os católicos devem reagir imitando Nosso Senhor, sacrificando a si mesmos pela oração e pelo dever de estado, como justamente nos ensinou Nossa Senhora de Fátima. Shakespeare recuperou sua paz interior desta maneira. Ele morreu piedosamente, após ter recebido os últimos sacramentos de um monge beneditino.

Mons. Williamson termina sua magistral conferência explicando o objetivo do ensino da literatura clássica em uma escola católica. Os cinco últimos séculos da história ocidental são marcados pela apostasia. A literatura não poderia senão experimentar as conseqüências. Não teríamos o direito, diz ele, de procurar nesta literatura, mesmo na mais clássica, a expressão perfeita dos princípios cristão. Para isso, é preciso ler a Bíblia e os Padres da Igreja. Mas a literatura clássica ilustra uma certa ordem natural. Por exemplos, os homens aí são masculinos e as mulheres, femininas. A obra de Shakespeare é tão ligada à mentalidade tradicional, que quase se passa em silêncio sobre ela nos programas escolares atuais dos países anglófonos. De fato, Shakespeare, assim como tudo o que é clássico, contraria os modernos, uma vez que nos eleva ao nível dos princípios naturais da antiga sociedade. Se não se deve fazer da literatura um fim em si, ao modo dos humanistas ateus, lembremo-nos, contudo, que o sobrenatural tem de se apoiar sobre a natureza e que a fé dificilmente pode se enraizar em uma alma impregnada dos princípios contrários à natureza da cultura moderna. O estudo de Shakespeare pode servir de antídoto contra os grandes danos do espírito hollywoodiano.

  1. 1.  Hamlet e Macbeth, Shakespeare, Nova Fronteira, Rio, 1995.
  2. 2.  ibid.

São Venceslau, rei e mártir

São Venceslau, em torno de cujo monumento o povo tchecoslovaco ergueu sua última barricada, foi rei e santo. Seu reinado ocorreu no período em que, pressionados pelos magiares, o país vê seu centro político deslocar-se para oeste, fazendo crescer em importância o ducado da Boêmia e sua capital Praga. São Venceslau, duque da Boêmia, recebeu de sua avó Santa Ludmila, uma educação profundamente cristã. Como soberano foi um apoio para os órfãos, as viúvas e os pobres. Muitas vezes carregava em seus ombros, durante a noite, lenha para os necessitados; assistia ao enterro dos pobres e libertava os que definhavam nas prisões. Tinha grande respeito pelos sacerdotes. Semeava com as próprias mãos o trigo das hóstias e espremia ele mesmo as uvas para a Eucaristia. No inverno ia visitar de pés descalços as igrejas, pela neve e pelo gelo, deixando em sua passagem manchas de sangue. Boles'au, seu irmão, a conselho da própria mãe, resolveu matá-lo. Venceslau foi trespassado com uma lança e morreu agarrado à porta de uma igreja no dia 28 de setembro de 929. Seu túmulo acha-se em Praga e sua estátua na praça de seu nome onde se desenrolaram os episódios citados pelos jornais.

 

 

SÃO VENCESLAU, REI E MÁRTIR

Paul Claudel

 

Nem o golpe selvagem do pagão, nem o ódio dos heréticos,

Nem os traidores, os sábios, os políticos,

Nem os que arrebataram o globo dourado e a coroa tombada

Do limiar solene onde jaz o corpo assassinado,

Nem o povo órfão que o esquece, nada, ninguém jamais conseguirá

Arredar da porta do céu, Venceslau o Magnífico.

E nem separar da Igreja e da porta de Deus

O punho real que a ela se prende pela argola e pelo meio.

A mão enraizada do mártir, da qual pende todo o corpo

Dá testemunho da porta ao esparso rebanho;

Alguns a preço de ouro, outros pela rudesa do ferro,

Alguns por herança, outros por aliança possuíram suas terras.

Mas a Boêmia bebeu seu soberano, 

Sua carne assinalou cada campo,

Seu sangue embebeu todo o solo,

Cada coração recebeu do rei semeado sua cor indelével.

Após a colheita de um dia, depois da obra servil e passageira,

Projeta-te sobre o escudo da Europa,

Testemunha ainda onde o centro da Europa e o nó de suas águas

Sobressai mais uma vez, desabrocha e vive, refloresce de novo e 

mostra-te! ó mancha do sangue do Rei sobre a neve!

Resiste, tcheco obstinado! Não soltes nunca a porta, ó Venceslau!

Roga vertiginosamente no céu pelo deserto de trigo aqui na terra,

Com seus duros pequenos vales repentinos,

Seus amplos açudes adormecidos.

Pede por teu país que espera entre florestas.

Por teus homens ardilosos e ardentes, suas mulheres de olhos claros,

Pelo deserto imenso e fastidioso!

É tudo plano, mas só, no horizonte, o esguio campanário lembra

uma haste.

E, longe da linha sombria dos pinheiros,

Um açude, a hospedaria, três casas,

Onde começa, com uma cruz, a estrada para Deus;

De cada lado macieiras tristes prosseguindo, sem que se veja o fim. 

 

(Revista Permanência, no. 1, Out. de 1968)

A atual decadência da língua literária

Se é certo que ainda há muito escritor cuidadoso e cioso da boa linguagem, também é tristemente certo que há hoje em dia, mormente na nova geração, um descaso completo pela língua literária, uma lamentável ignorância do que seja escrever bem. Talvez por isso mesmo tenha sido aceita com tanta facilidade, em certos meios, a idéia de “língua brasileira”.

Sim: é preciso que se tenha coragem de dizer a verdade, que é aquela mesma tão luminosamente definida pelo velho Rui, que, depois de um eclipse, volta hoje à cena mais vivo do que nunca. Para muitos a tal “língua brasileira” seria aquele “surrão amplo, onde cabem à larga, desde que o inventaram para sossego dos que não sabem a sua língua, todas as escórias da preguiça, da ignorância e do mau gosto, rótulo americano daquilo que o grande escritor lusitano tratara por um nome angolês. Lá encontrará o ouvido vernáculo todos os estigmas dessa degeneração, em estado coliquativo, do idioma em que escreveram no Brasil Gonçalves Dias, Francisco Lisboa e Machado de Assis”. (Réplica. Imprensa Nacional, Rio, 1904, n° 22, págs. 45-46).

É preciso que se diga a verdade. E aqui estou para dize-la, arrostando embora a pecha de ridículo, de carranca, de purista hors siècle, de gramaticóide.

Os que me conhecem, e principalmente os meus alunos, sabem que sou fundamentalmente antipurista, antigramático. Sabem que mantenho, nos limites das minhas fracas possibilidades, uma luta sem tréguas contra a “gramatiquice”, as “pífias regrinhas gramaticais” o falso conhecimento da língua. E acho mesmo, como logo adiante se verá, que grande parte da decadência da língua literária entre nós se deve à ação ruinosa dos maus gramáticos, dos charlatães, dos pseudo-sabedores da língua, dos filólogos das Arábias.

Mas propugno pelo cultivo da boa linguagem. Pela renovação dos métodos de estudo da gramática. Pela lição dos textos. Pelo atento e amoroso exame dos bons modelos.

E é por isso que, embora fugindo um pouco do meu assunto, vou aqui deter-me um instante a analisar algumas das causas da decadência da língua literária, e a apontar aquilo que me parece remédio para o mal.

 

2. Tenho para mim que à ação conjugada de quatro fatores se deve a atual e principalmente a atualíssima decadência da língua literária em nosso meio.

Já salientei que entre os jovens é que mais alarmante se mostra a situação. Realmente, é por parte dos moços mal saídos da adolescência que se vai encontrar um absoluto desinteresse pelas coisas da linguagem e uma gravíssima deficiência no conhecimento da língua literária.

Pois bem; para esse estado de coisas concorrem, como acabamos de dizer, quatro grandes causas: A) O clima espiritual da época; B) A decadência do ensino secundário; C) Métodos defeituosos empregados no ensino da língua nacional; D) A influência das más leituras.

 

A) O CLIMA ESPIRITUAL DA ÉPOCA

3. O ambiente espiritual do nosso tempo é, em geral, de horror ao esforço, de imediatismo, de falta de sólida e madura preparação para a vida. A grande arma de vitória é a improvisação e a grande virtude, a audácia.

Uma perigosa filosofia do êxito fácil, conjugada com a filosofia do conforto, insinuou-se profundamente entre a nossa mocidade, alterando a concepção geral da vida, pela subestima dos valores éticos e privativamente humanos. Daí aquele horror ao esforço, a fuga à reflexão, a ausência de formação longa e fecunda. Daí uma atitude de espírito excessivamente independente, desrespeitadora dos valores morais essenciais e das autoridades naturais ou constituídas. Daí um obscurecimento da noção profunda de “dever”, entendido como uma necessidade moral, como uma fidelidade do homem a si mesmo, um corolário da sua Personalidade. Substituiu-se esse conceito verdadeiro pela idéia de “dever” imposição exterior, a que se satisfaz por atos externos, superficiais, formais, faltos de toda substância moral, pois eles serão sonegados, falsificados ou defraudados quando falte o olho policial. É o espírito farisaico que se generaliza, a ética de aparências. Donde decorre e se alastra com pavorosa rapidez uma mentalidade de “sabotagem”. Há uma forte tendência para desumanizar o trabalho, procurando cada qual tirar, na atividade que exerce, o máximo de proveitos, lícitos ou ilícitos (aliás é esta uma distinção que se vai esmaecendo!), e dar o menos possível de sua pessoa. Nada de trabalho entendido como dever moral e muito menos como obra de arte, em que o homem é pessoa cônscia de sua dignidade, e artista cioso de sua criação.

Não quero exemplificar para não ferir suscetibilidades, mas não se terá dificuldade em colher amostras.

Há dias, no interior, visitava eu a oficina de um velho marceneiro siciliano, habilíssimo no seu ofício, em que atingiu invejável perfeição. E, admirando a finura do lavor e o impecável acabamento de um guarda-roupa, lamentei que tão belo espécime se destinasse a pessoa da roça. Respondeu-me o artífice, na sua meia-língua: “Mas a obra é muito mais minha do que do freguês”.

Estranhei e me alegrei de encontrar num homem rude tão bela concepção do trabalho, concepção essa que vai ficando anacrônica, mas que precisa de reviver a todo preço. No caso citado, a mentalidade corrente aplicaria o aforisma “para quem é bacalhau basta”.

Pois bem: é essa falsa mentalidade, que se vai generalizando a ponto de constituir a “atmosfera” da nossa época a primeira responsável pela decadência da língua literária.

Alguém poderia achar quixotesca esta última sentença. Mas não o é. Tal decadência é apenas um sintoma, ou, se quiserem, um dos muitos efeitos daquela grande causa. Escrever bem exige observação atenta, meticulosa, estudo, reflexão, planejamento, e, depois, retoque, polimento. Tudo isso briga com o espírito da época.

 

B) A DECADÊNCIA DO ENSINO SECUNDÁRIO

4. A decadência do ensino secundário é em parte uma das conseqüências do mal que acabamos de denunciar e, ao mesmo tempo, uma das causas eficientes do descalabro da língua literária.

Realmente, o nosso ensino secundário está em nível muito baixo. Eu diria mesmo que todas as deficiências da nossa cultura se prendem diretamente a essa fonte.

A nossa educação secundária de há muito vem faltando à sua verdadeira finalidade, qual seja o desenvolvimento harmônico das faculdades, a cultura geral básica, a formação humanística.

O fato é que os alunos passam pelo ginásio e dele saem quase sempre apenas com um leve verniz, a reminiscência de alguns nomes menos comuns, que eles não sabem bem para que servem; saem intelectualmente “inocentes”. Não tiveram interesse de aprender, de assimilar conhecimento, e realmente não aprenderam.

Está claro que fato em tese e de um modo geral, havendo, para consolo, honrosas exceções.

O problema é extremamente complexo e não cabe aqui analisa-lo. Basta dizer que sua solução depende: do Governo, dos diretores de estabelecimentos, dos professores, dos pais, e dos alunos.

5. Do Governo, por meio de uma legislação adequada.

Felizmente foi posta por terra a lei Campos, que pretendeu fazer do curso secundário um bazar enciclopédico, e se implantou no lugar a Reforma Capanema, a lei orgânica do ensino secundário, código modelar, enformado nos melhores princípios, sadio, equilibrado. Muito se pode esperar dessa benéfica reforma, que veio recolocar o ensino secundário no seu verdadeiro lugar; mas tudo depende da execução.

É necessário que não se lhe traía o espírito, que não se cumpra apenas nas formalidades exteriores, que ela não seja vítima do farisaísmo e daquela “sabotagem” de que atrás falávamos. Quid lege sine moribus? Ainda que seja perfeita a lei, de nada servirá, se a defraudam.

Portanto, o primeiro passo está dado, mas isso pode não significar coisa nenhuma. Ademais, a reforma é muito recente e ainda não se poderiam apreciar seus frutos.

6. Não é raro encontrarem-se diretores de estabelecimentos para quem o ginásio ou o colégio é apenas uma indústria rendosa, uma fábrica de bacharéis ou licenciados, onde a aprovação no fim do ano é garantida. Falta-lhes a esses diretores aquele idealismo, aquela consciência da imensa responsabilidade que lhes pesa sobre os ombros, o devotamento sacerdotal e paterno à causa da educação e do ensino.

7. O professorado constitui outro problema sério. Carecem os mestres muita vez da necessária formação intelectual, da vocação magisterial e de consciência moral esclarecida.

Muitos professores se improvisam. Tomam a disciplina que lecionam como um “bico” e por isso, às vezes, ensinam qualquer matéria. Não são especialistas. Autodidatas, apressados, falece-lhes a sólida formação cultural, que lhes dará segurança e profundeza de conhecimentos e orientação didática. É verdade que esse mal depende 95% da ausência, que tivemos até bem pouco, de um instituto superior de cultura desinteressada, especializado na formação de professores. São as Faculdades de Filosofia e Letras, que só neste último decênio começaram a aparecer, sendo que o estabelecimento-padrão, a Faculdade Nacional de Filosofia, entrou a funcionar em 1939. e já vão produzindo seus bons frutos esses estabelecimentos, que cumpre multiplicar pelo Brasil afora, mas sem se desvirtuarem. É preciso que essas Faculdades nunca percam a noção de importância transcendente de sua missão no Brasil.

Porém, não é somente a formação intelectual e a especialização científica que faltam a muitos professores. Falta-lhes ainda a vocação magisterial, o que é fruto daquela improvisação e daquele tomar o magistério como “bico”. O professor não se interessa, não tem a necessária atitude paternal para com os alunos, não se integra na sua profissão. É também professor. E daí a ausência de consciência moral: aulas não preparadas, aulas “matadas”, provas e trabalhos escolares corrigidos a trouxe-mouxe, aprovação sistemática dos alunos. O menos trabalho possível.

Sei de um professor de Português que, após a realização das provas parciais de sua matéria, passou pela secretaria do colégio e levou as provas para casa, para corrigi-las. Mais de cem. No seu gabinete abre os envelopes e vai lançando as notas: 9 e 10 alternadamente. Pronto o serviço, recolheu de novo as provas aos respectivos invólucros e foi almoçar. Eis se não quando lhe telefonam do colégio, dizendo que lhe deram por engano as provas de História da Civilização.

— Ah! é?, diz o nosso homem. Eu não reparei bem... Agora já dei as notas.

Mas se há essas deficiências por parte de certos elementos do professorado, é força reconhecer que esse professorado também tem sido vítima.

Salários baixos, vida cara, não podem os professores só com o magistério ou só com uma disciplina atender às suas responsabilidades econômicas. Daí a multiplicação de atividades, ou a sobrecarga das aulas, que impede uma execução perfeita da função magisterial. É certo que já veio a lei da remuneração condigna, mas toda lei pode ser fraudada e, de qualquer modo, muita coisa ainda se deve fazer em benefício da classe professoral.

8. Os pais, por sua vez, têm não raro larga culpa no cartório. Querem que os filhos passem. De qualquer maneira. Há muitos que exigem, nesse sentido, “garantia” por parte do estabelecimento. Se os filhos logram más notas ou são reprovados, esses cidadãos se enfurecem contra os professores e às vezes os ameaçam de pancada. Ou tentam o suborno, quando têm a nobreza do dinheiro. Se algum professor me lê, que diga dos seus momentos difíceis diante de pais furiosos com a “injúria”, com a “perseguição” que sofreram seus filhos.

9. Finalmente, os alunos são vítimas de todo esse estado de coisas, mas também são bastante culpados. O adolescente de hoje não tem em geral o mínimo interesse de aprender, a fome de saber. Sua preocupação máxima, e quase sempre única, na aula é descobrir e “gozar” o ridículo do professor. Pôr-lhe um apelido azado. Atucanar- lhe a paciência com mil diabruras e insolências, reduzi-lo à condição de Polícia Especial ou, antes, de domador de feras. Realmente é dificílimo ensinar a uma classe onde 80% dos alunos não prestam a mínima atenção, olham atrevidos para o mísero professor, vozeiam, molequeiam, distraem a atenção dos outros 20% que escutariam o mestre!

Esses rapazes (com meninas e coisa em geral vai melhor) não só não ouvem as aulas como não estudam nada. Chegam absolutamente crus ao exame. Já me aconteceu, examinando Latim num quarto ano, encontrar alunos que não sabiam o número das declinações.

E na Faculdade Nacional de Filosofia me aparecem provas onde se escreve intelequitual (intelectual), onde se diz que “comessem é particípio do verbo edere” (textual), onde se emprega a forma corrobóem por corroboram, onde se grafa cearence com “c”, onde se comete toda a sorte de solecismos, e principalmente, onde se redigem frases sem sentido. Nas provas orais aparecem alunos que, argüidos de propósito a esse respeito, se mostram incapazes de conjugar verbos, que não distinguem um advérbio de uma preposição, etc. e isso nos cursos de Letras!

Reproduzo, aqui, para documentar, a resposta a uma questão dada em trabalho de estágio da primeira série de Letras Clássicas. Era a questão: “Explicar brevemente o desaparecimento dos casos no Latim Vulgar hispânico”. E a resposta: “O Latim era uma língua muito sintética por isso que se caracterizava pelo seu analitismo. A 5a declinação absorveu a 2a e a 4a absorveu a 1a: fructus, us, dies, ei.”

Aí está! Com pessoas que saem do ginásio ou do colégio nessas condições, o que é que se pode fazer? O que é que deles se pode esperar? E em que estado se há de encontrar a língua literária na cabeça e na pena de tais cidadãos?

Não é natural que, tendo-lhes chegado aos ouvidos que se deve escrever como se fala, que é preciso proclamar a independência da “língua brasileira”, não é natural que aceitem eles sem restrições e sem mais exame idéia tão grata?

C) OS MÉTODOS DEFEITUOSOS NO ENSINO DA LÍNGUA NACIONAL

10. Entre as causas da decadência, que vimos analisando, da língua literária se há de dar o devido lugar aos métodos viciosos que se têm empregado no ensino da mesma.

Refiro-me sobretudo à “gramatiquice”. O Brasil foi durante muito tempo o paraíso dos gramáticos e por aí afora pulularam as brigas por questiúnculas gramaticais.

Herdamos e desenvolvemos a concepção do dogmatismo gramatical e mantivemos a tradição do “purismo” caturra do século XVIII.

A “gramática” era entendida como um conjunto de “preceitos” mais ou menos apriorísticos, decretados pela autoridade suprema dos gramáticos, os “grilos da língua”, como espirituosamente lhes chamou Monteiro Lobato.

E estes senhores eram no geral o que há de mais intransigente e caprichoso. Suas preferências e gostos pessoais é que decidiam o que está certo e o que está errado. Principalmente o que está errado. Porque a gramática, no fundo, era para eles a ciência e a arte de encontrar “erros” nos escritores, de classe ou não.

Assim sendo, erigiram um monumento gramatical feito principalmente de proibições, manietando e sufocando a grande liberdade de construção e de formas da língua portuguesa.

Destarte se criou um ambiente altamente propício às “brigas de gramáticos”, de todas as castas e valores. Desde os maiorais até os pequenos grandes sabedores de arrabalde e os “filólogos de Interior”, como os denomina um amigo meu. Uma vez que o argumento único em matéria de linguagem era o de autoridade, nada mais fácil do que levantar e manter uma polêmica de gramatiquice.

Um plumitivo qualquer empregava uma forma ou construção x. por exemplo, colocava “errado” um pronome. Outro plumitivo, às vezes da política local contrária, lançava-lhe em rosto publicamente a falta. Punha-se então a campo, para defender-se, o nosso homem. Citava os autores x, y e z que achavam que podia dizer daquela maneira. E aproveitava a oportunidade para descobrir e apontar três erros no artigo-libelo do adversário. Defesa deste, de envolta com novos ataques e caçada de novos “gatos”: tudo baseado na autoridade dos gramáticos. E assim por diante, até aquilo descair em pura ofensa pessoal.

Agora, imagine-se: um estudante aprendeu a sua gramática dogmaticamente e não raro pelo sistema do “decoreba”, como se diz na gíria escolar. Sim: muitos professores de Português passavam “para a próxima aula” um trecho da gramática, da página tal à pagina qual, para trazer de cor. Um aprendizado seco, material e brutal. Ninguém poderia saber a razão dos preceitos: é porque é. Ou, quando muito, porque o autor do livro diz que é.

Pois bem: esse conhecimento adquirido ficou estéril. Na melhor das hipóteses, o bom estudante ficou com a cabeça cheia de fórmulas vãs, um complicado código de proibições. Na maioria dos casos, aquele formulário “entrou por um ouvido, saiu pelo outro e acabou-se a história”. A menos que não pudesse sair porque o som não atravessa o vácuo...

Depois, cá fora, o ex-estudante, que já se tomou de forte antipatia pela gramática, lê ou tem notícia de várias brigas, em que os dois adversários provam que têm razão. Então, o homem passa-se da antipatia ao desdém: “Ora, que vão bugiar todos esses sujeitos. O melhor é escrever como me der na telha...”

11. Felizmente, já se vem processando há tempo no Brasil uma salutar e eficiente reação contra esse triste estado de coisas. A filologia científica fez auspiciosamente sua inauguração entre nós com João Ribeiro, com o grande Mário Barreto, com Silva Ramos, e continuou esplendida nas mãos de um Sousa da Silveira, de um Said Ali, de um Augusto Magne, de um Otoniel Mota, de um Cláudio Brandão, etc., brilhante geração essa que, para gáudio de todos nós, já suscitou outra representada pelos Serafim Silva Neto, Silvio Elia, Rocha Lima, Matoso Câmara Junior, Ismael Lima Coutinho, etc., “novos” de quem se pode esperar muita coisa.

Agora já se tem de gramática uma concepção justa e verdadeira, a só compatível com a orientação científica dos estudos lingüísticos. Hoje se entende que a gramática é a sistematização dos fatos da língua literária contemporânea. Assim sendo, a gramática não pode constituir-se em código de proibições. É uma apresentação dos fatos da língua, abonada sempre pela única autoridade respeitável, a dos bons escritores, esses homens que têm o senso e a intuição do gênio e da beleza da língua.

Surgiu então uma nova literatura gramatical, em que nos habituamos a ver uma exposição serena e agradável do estado atual e das tendências da língua, tudo ilustrado por farta documentação haurida nos bons modelos: Novos Estudos da Língua Portuguesa, de Mário Barreto, Lições de Português, de Sousa da Silveira, Dificuldades da Língua Portuguesa, de Said Ali, etc.

E daí uma renovação nos métodos de ensino. Gramática, sim, mas nos novos moldes, amena, obediente aos fatos, às realidades da língua, traçando normas onde elas têm lugar, denunciando “tendências” e mostrando liberdade de formas e de construções, onde for o caso. Mas, além da gramática, e de muito mais aplicação do que ela, os textos. Estudo e comentários de textos, onde se procura ressaltar e mostrar ao aluno a beleza e justeza da expressão e onde, a propósito de tal palavra, de tal forma ou de tal construção, se tecem considerações e se ministram ensinamentos relativos a fatos análogos. Interesse motivado. Aprendizagem vitalizada e assimilada. Gramática por partes. Português pelos textos.

12. Mas desgraçadamente, apesar dessa vitória da filologia sobre a gramatiquice, esta última, nos nossos dias, tenta uma contra- ofensiva, para usar a linguagem da época. Porque ela não tinha morrido, não tinha capitulado. Apenas tinha “encurtado as frentes’ e vinha sofrendo bombardeios na retaguarda e nas linhas de abastecimento, sendo que muitas de suas baterias tinham sido “reduzidas ao silêncio”.

Mais, eis que irrompeu agora num setor, com bastante potencial em homens e materiais. Refiro-me aos “textos para corrigir”, moderno processo de aprendizagem (?) da língua. O método só por si é condenável, e pior se tornou porque se fez dele quartel-general da gramatiquice.

13. Pretendo, em ocasião oportuna, examinar detidamente os inconvenientes pedagógicos do novo sistema. Mas não quero deixar de, a respeito, dizer duas palavrinhas.

Como acentuei, o método em si me parece condenável, porquanto não será por meio de um processo negativo que se há de aprender a escrever. Depois de ler, estudar, examinar, bisbilhotar mil frases erradas, quais os bons modelos que terá na consciência e no subconsciente um cidadão? Poder-se-á esperar dele graça, leveza, independência, originalidade de estilo?

Em segundo lugar, porque os remanescentes da gramatiquice viram no novo método uma boa ocasião para se manifestarem, aí se instalaram com armas e bagagens. E então “correção de textos” passou a significar aplicação da bitola gramatical vieux style a trechos dados. E vai-se revivendo toda aquela série de preceitos arbitrários, de fantasias e invencionices, todo aquele código de supostos erros, que já devia, depois de tão luminosos estudos a propósito, estar posto de lado. Volta à cena: não se pode começar frase por porém, não se pode usar o quê interrogativamente, apiede- se é forma errada, que se deve corrigir para apiade-se, não se pode colocar o pronome aqui ou ali, porque tal ou qual palavra o atrai, não se pode empregar o gerúndio com função atributiva, é galicismo o emprego desnecessário de um indefinido, não se pode deixar o verbo no singular tendo por sujeito um dos que, não se deve empregar o sufixo eria, estão errados tais e tais usos do infinito pessoal, e sei eu lá quantos outros preceitos insustentáveis.

O resultado de tudo isso é que o discente, após ter sofrido durante algum tempo a aplicação do método, não só não toma conhecimento das belezas e riquezas da língua, como principalmente perde toda a segurança, toda a confiança no seu sentimento da linguagem. Fica com a obsessão do erro. Quer encontra-lo por toda a parte. Não sente firmeza em nada, em matéria de linguagem.

Já tenho feito dois tipos de experiência em indivíduos intoxicados pelo método. Ora entrego-lhes textos certos, mas sem brilho, frases chãs mas corretas. O sujeito da experiência então fica tateando hesitante na caça aos erros. Acaba descobrindo ressonâncias, cacófatos, hiatos, achando que tal palavra não está bem empregada, censurando a ordem dos termos, etc. outras vezes, dou aos envenenados frases de grandes autores: Camões, Herculano, Garret, Machado, Bilac, etc. Neste caso, é freqüente descobrirem-se erros, impropriedades, anfibologias, solecismos, etc. mas tudo feito às tontas, sem firmeza ou convicção: o cidadão denuncia um defeito aqui, desdiz-se imediatamente; vê outro ali, arrepende-se, volta atrás; adianta que lhe parece isso ou aquilo, não diz coisa com coisa. Percebe-se bem que há uma infinidade de “normas” e “tabus” a flutuar-lhe no espírito, chamados à cena pela memória.

Pelos frutos se conhece a árvore. Se tais são os frutos do método de “textos para corrigir”, penso que se deveria abandona-lo de vez.

14. A “gramatiquice” e os falsos métodos de ensino sacrificaram gerações e gerações de estudantes, que, entrados na vida, deram de mão à gramática e à língua literária, passando a escrever como melhor lhes soubesse e votando mesmo antipatia a tudo que lhes parecesse trabalho de estilo, forma cuidada, busca de expressão, — qualidades essas havidas por ridículas e vitandas.

D) A INFLUÊNCIA DAS MÁS LEITURAS

15. Fazendo conjunto com a série de causas que acabamos de analisar, concorrem finalmente para a atual decadência da língua literária entre nós as más leituras.

Os maus escritos, maus no sentido de mal redigidos, pululam, são livros, originais e principalmente traduzidos, são jornais, são revistas, que veiculam solecismos e barbarismo de toda a sorte, e pela reincidência continuada geram o “hábito”, formando neste e naquele ponto um falso sentimento de linguagem.

Como acima lembrávamos, são as boas leituras as melhores formadoras do senso lingüístico e, por isso mesmo, são as más leituras um dos mais poderosos elementos de deformação lingüística.

Diz-se que Machado de Assis jamais lera uma gramática, e no entanto foi aquele primoroso escritor. Porque leu muito os bons autores. E os leu bem, isto é, com inteligência, observação e critério.

Nos nossos dias já não se lêem os mestre do estilo, ou quando se lêem, será pelo enredo, não se lhes presta atenção à frase lapidar, à justeza de expressão, ao aprimoramento lingüístico. Lêem-se por cima, saltando-se páginas. Mas, ainda assim, são muito poucos os livros bem escritos que merecem a honra da leitura hoje em dia. O que se vê é uma extraordinária avidez pelos romances policiais e de aventuras e pelos romances de outros gêneros, sempre estrangeiros e quase sempre pessimamente traduzidos. Numa linguagem abaixo da crítica. Pejada de solecismos, peregrinismos e destampatórios de toda a ordem.

O nosso “Diário de Notícias”, jornal tão simpático, vem mantendo há bastante tempo uma seção muito útil e digna dos maiores aplausos: “À margem das traduções”. Aí se analisam, com a espontânea colaboração de muitos e atilados leitores, os disparates e tolices que enxameiam esse mundo de traduções feitas na perna, que andam por aí. Outro dia, um colaborador que se assina A.P.R. chamava a atenção, entre muitas coisas, para um que traduziu “general Staff”, isto é, Estado-Maior geral, por “General Staff”, como se se tratasse de um militar altamente graduado.

O fato é que essas traduções, no geral, exercem uma ação ruinosa no que diz ao cultivo da língua literária, não só com perpetrarem a cada passo as maiores barbaridades de linguagem, como também por serem vazadas, de ponta a ponta, num estilo pobre, terra-a-terra, cheio de expressões forçadas, com termos mal empregados, numa ordem monótona e invariavelmente direta.

Essa redação vai ficando no subconsciente e, pela falta de boas leituras, toda a vez que os indivíduos viciados por tais defeitos topam casualmente, em algum escrito, com construções apuradas ou com um vocabulário menos trivial, embora ajustado ao caso, não entendem, ou tacham de extravagante o autor, arcaizante, pernóstico e sei lá que mais.

Não me refiro a estilo rococó, que também eu acho detestável, mas a bom estilo, preciso, claro, elegante, harmonioso.

Os jornais, principalmente agora, com o noticiário de guerra transmitido para cá em Espanhol ou em Francês, os jornais, digo, estão pondo em curso uma série de espanholismos e galicismos ridículos. Assim, por exemplo, é curial ler-se, no serviço telegráfico, que “a aviação aliada seguiu bombardeando a retaguarda inimiga”, quando em Português se diz continuou bombardeando; tem-se notícia, de vez em quando, de que o Oitavo Exército, por ex., “desferiu um ataque desde um ponto situado a Noroeste de Ravena”, quando em Português se diz de. Outro dia li eu que no Quartel- General aliado em Paris “se descartava a hipótese de que os alemães tentassem resistir em tal parte”. A princípio estranhei; mas depois vi que se tratava de expressão écarter l’hypothèse, “afastar a hipótese”. E assim por diante.

16. As causas de decadência da língua, que vimos de analisar per summa capita, mais de uma vez se causam reciprocamente. Assim, as deficiências do curso secundário são frutos do ambiente geral de dissipação e amoralismo; os maus livros são frutos da própria decadência da língua e contribuem poderosamente, por seu turno, para agrava-la.

17. Procurei denunciar esse mal, com a só intenção de colaborar, com as minhas débeis forças, no seu combate.

Já se desenha no horizonte uma reação contra esse funesto descaso pela língua literária e é de esperar que ela produza seus frutos no seu tempo.

Tudo tem a sua hora.

 

(Constitui este artigo a III parte do capítulo VIII — “A Língua Literária” — do livro A Língua do Brasil (Português ou Brasileiro), que se acha no prelo. Na primeira parte, refutando a opinião dos que defendem a “língua brasileira” acenando para a existência de um bilingüismo entre nós, demonstramos, ser natural, em todo país civilizado, a dicotomia língua literária e língua popular, diversa uma da outra. Na segunda parte, assentado que a língua literária, culta, como tal aceita entre nós é a portuguesa, fazemos um histórico dessa língua literária no Brasil. Nesta terceira parte, estudam-se as causas da atual decadência da língua literária.

Coleção Brasileira de Divulgação, Série III Filologia n° 2, Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, 1946.)

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