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Artes (61)

História da polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Introdução

As seguintes anotações são, em sua maioria, resumos de diferentes livros de música que, por interesse pessoal, fui fazendo ao longo dos anos. Têm valor de resumo somente. São poucas as apreciações pessoais. É que me parece interessante primeiro conhecer o aspecto histórico do desenvolvimento da música, especialmente da música sacra, através dos séculos, para só depois estudar mais a fundo a sua essência mesma, a sua linguagem. 

Para a parte histórica, os resumos foram feitos sobretudo com base em História da Música, de Franco Abbiati (Edições Uteha, em cinco tomos). São poucas as citações entre aspas desta obra. Em geral, resumi a ideia com minhas próprias palavras. Mas a substância vem toda dela [N. do T.: da obra].

São Pio X, em seu Motu Proprio Codex musicae sacrae juridicus, diz que: “(...) o canto gregoriano considera-se, de certo modo, como o mais elevado ideal da música sacra, de maneira que, com razão, se pode assentar como geralmente válida a seguinte regra: uma obra musical que seja apropriada para o uso religioso será tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, aproximar-se do ‘melos’ gregoriano. Pelo contrário, será menos adequada ao serviço divino quanto mais afastar-se desse modelo”. 

Segundo São João da Cruz, a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético1. A arte na liturgia, como acessório que é do culto, deve subordinar-se estritamente a seu fim, a sua função. Será, pois, mais própria para a liturgia, a música que, ao ser escutada nas funções religiosas, não inclinar o ouvinte a deter-se nela, a estancar-se no gozo estético que produz; senão a levar sua alma, através desse gozo, ao recolhimento, à oração e a dispor-se para melhor receber as graças de Deus. (Continue a ler)

  1. 1. Cita-o em Quero ver a Deus o Pe. Maria Eugênio, (Ed. El Carmen), p. 595, na terceira nota. A nota inteira diz: “Não menospreza nem recusa São João da Cruz – como tampouco Santa Teresa – a natureza sensível, para encerrar-se numa noite que tudo ignora. O santo coloca a natureza no posto que lhe corresponde na escala de valores espirituais que devem conduzir-nos à união com Deus. Sabemos quanto os dois reformadores apreciavam que seus conventos estivessem em lugares de cujas belezas naturais pudesse a alma servir-se para recolher-se em si e elevar-se a Deus. Toda a teoria da arte em São João da Cruz dimana desse mesmo princípio: a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético”.

Gustavo Corção, animal-professor, escritor genial

Dom Lourenço Fleichman, OSB

O texto sobre Gustavo Corção que publicamos aqui foi escrito para a Revista citada no artigo em 2010. Vale notar que as publicações da Permanência sobre Gustavo Corção, seus artigos publicados no site e depois em livros de coletâneas, atraíram a atenção de alguns poucos estudiosos e pensadores. Foi assim que algumas teses acadêmicas foram escritas, e livros publicados. Hoje já é mais fácil encontrar Gustavo Corção nas livrarias do que na época em que escrevi esse artigo.

Se a Revista Conhecimento Prático de Literatura fizesse uma pesquisa junto a seus leitores com as seguintes perguntas:

- qual o autor brasileiro que foi considerado sucessor de Machado de Assis?
- qual o autor brasileiro que teve seu primeiro livro esgotado em menos de um mês?
- qual o escritor nacional que foi indicado por Manuel Bandeira para o Premio Nobel de Literatura?

Quem pensaria em Gustavo Corção? Pode-se dizer que Corção é um ilustre desconhecido, tendo sido esquecido e abandonado pelo mundo dos intelectuais. Hoje dificilmente se imagina a importância desse escritor nos vinte e cinco anos de sua carreira literária. Seu pensamento é de tal personalidade e profundidade que atraiu a atenção e a amizade dos grandes que o precederam. Vejam o que dizia dele o grande crítico Oswaldo de Andrade:

“Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Leger, Cocteau e Cendras, a esse original e magnífico Valéry Larbaud, a Supervielle e Romains, enfim, a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sarcástica, alguém me lembra o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei, no Quartier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX.

O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável — faca de dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem, sem dúvida, o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também na Descoberta do Outro não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.”
Correio da Manhã
, Rio de Janeiro, 5-4-1952 (Continue a ler)

A verdade do Evangelho no filme "A Paixão de Cristo"

Pe. Bertrand Labouche - FSSPX

 

[Nota da Permanência: o texto seguinte é a transcrição de uma conferência dada pelo autor em um evento da Permanência ocorrido muitos anos atrás, sobre o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

“‘Quem a ti me entregou tem maior pecado’ (Jo 19, 11). Essa frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são os escritos de Mateus, Marcos e Lucas”, afirma Isabela Boscov na revista “Veja" de 03/03/04.

Dois outros versículos do Evangelho são postos em dúvida, senão negados, especialmente pelos judeus que até exigiram que fossem tiradas por serem anti-semitas: 

“Os seus não O receberam” (Jo 1, 11).

“Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos” (Mt 27,25). Aliás, Mel Gibson teve de aceitar, para acalmar os espíritos, que este versículo não aparecesse traduzido na tela, embora seja pronunciado em hebreu.

Estas objeções, dúvidas, críticas sobre um texto evangélico não dizem respeito diretamente ao realizador do filme “A Paixão de Cristo”, mas bem ao santo Evangelho. A polêmica não é cinematográfica mas exegética, quer dizer, trata da interpretação da Sagrada Escritura. 

Portanto, é oportuno reafirmar a autenticidade e a veracidade dos Evangelhos: 

• pela razão, por meio da apologética, que é a defesa racional da fé. 

• pela fé, que nos obriga a acreditar firmemente que o Autor da Sagrada Escritura é o próprio Deus, que não se pode enganar, nem enganar-nos. 

Estudaremos especialmente o evangelho de S. João, por ser o alvo principal de vários ataques a propósito do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Mas é claro que a nosso argumentação valeria também para os sinópticos (Mt., Mc., Lc.)  (Continue a ler)

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

A esperança

A ESPERANÇA

Charles Péguy

 

A crença de que eu gosto mais, diz Deus, é a esperança.

 

A fé, isso não me espanta.

Isso não é espantoso.

Eu resplandeço de tal maneira na minha criação.

No sol e na lua e nas estrelas.

Em todas as minhas criaturas.

Nos astros do firmamento e nos peixes do mar.

No universo das minhas criaturas.

Sobre a face da terra e sobre a face das águas.

No movimento dos astros que estão no céu.

No vento que sopra sobre o mar e no vento que sopra

no vale.

No calmo vale.

No tão quieto vale.

Nas plantas e nos animais e nos animais das florestas.

E no homem.

Minha criatura.

Nos povos e nos homens e nos reis e nos povos.

No homem e na mulher sua companheira.

E principalmente nas crianças.

Minhas criaturas.

No olhar e na voz das crianças.

Porque as crianças são mais minhas criaturas.

Do que os homens.

Elas não foram ainda desfeitas pela vida.

Da terra.

E entre todos elas são meus servidores.

Antes de todos.

E a voz das crianças é mais pura do que a vos dos

ventos na calma do vale.

No vale tão quieto.

E o olhar das crianças é mais puro do que o azul do

céu, do que o leitoso do céu, e do que um raio

de estrela na calma noite.

Ora eu resplandeço de tal maneira na minha criação.

Na face da montanha e na face da planície.

No pão e no vinho e no homem que lavra e no homem

que semeia e na messe e na vindima.

Na luz e nas trevas.

E no coração do homem que é o que há de mais

profundo no mundo

Criado.

Tão profundo que é impenetrável a todo olhar.

Exceto ao meu olhar.

Na tempestade que faz cabriolar as ondas e na

tempestade que faz cabriolar as folhas.

Das árvores da floresta.

E ao contrário na calma de uma bela tarde.

Na areia do mar e nas estrelas que são uma areia

no céu.

Na pedra do limiar e na pedra da lareira e na pedra

do altar.

Na oração e nos sacramentos.

Nas casas dos homens e na igreja que é a minha casa

sobre a terra.

Na águia minha criatura que voa sobre os píncaros.

A águia real que tem pelo menos dois metros de

envergadura e talvez três metros.

E na formiga minha criatura que rasteja e que armazena

um pouquinho.

Na terra.

Na formiga meu servidor.

E até na serpente.

Na formiga minha serva, minha ínfima serva, que

armazena a custo, a parcimoniosa.

Que trabalha como uma desgraçada e que não tem

mesmo folga e que não tem mesmo descanso.

A não ser a morte e o longo sono de inverno.

 

Eu resplandeço de tal maneira em toda a minha criação.

 

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A caridade, diz Deus, isso não me espanta.

Isso não é espantoso.

Essas pobres criaturas são tão infelizes que a não ser

que tivessem um coração de pedra, como não

haveriam de ter caridade umas para com as outras.

Como não haveriam de ter caridade para com seus irmãos.

Como é que eles não haviam de tirar o pão da boca,

o pão de cada dia, para dá-lo a desgraçadas

crianças que passam.

E meu filho teve para com eles uma tal caridade.

Meu filho irmão deles.

Uma tão grande caridade.

 

Mas a esperança, diz Deus, eis o que me espanta.

A mim mesmo.

Isso é espantoso.

Que essas pobres crianças vejam como tudo isso acontece

e acreditem que amanhã vai ser melhor.

Que vejam como isso acontece hoje e acreditem que vai

ser melhor amanhã cedo.

Isso é espantoso e é mesmo a maior maravilha da nossa

graça.

E eu mesmo me espanto com isso.

E é preciso que de fato minha graça seja de uma força

incrível.

E que ela escorra de uma fonte e como um rio

inesgotável.

Desde aquela primeira vez que ela escorreu e escorre

sempre desde então.

Na minha criação natural e sobrenatural.

Na minha criação espiritual e carnal e ainda espiritual.

Na minha criação eterna e temporal e ainda eterna.

Mortal e imortal.

E aquela vez, ó aquela vez, desde aquela vez que

ela escorreu. Como um rio de sangue, do flanco

trespassado de meu filho.

Qual não deve ser a minha graça e a força da minha

graça para que essa pequena esperança, vacilante

ao sopro do pecado, trêmula a todos os ventos,

ansiosa ao menos sopro.

seja tão invariável, mantenha-se tão fiel, tão reta,

tão pura; e invencível, e imortal , e impossível

de apagar-se; que essa pequena flama do

santuário.

Que queima eternamente na lâmpada fiel.

Uma chama tiritante atravessou a espessura dos mundos.

Uma chama vacilante atravessou a espessura dos tempos.

Uma chama ansiosa atravessou a espessura das noites.

Desde aquela primeira vez que a minha graça escorreu

para a criação do mundo.

Desde então que a minha graça escorre sempre para a

conservação do mundo.

Uma chama impossível de se alcançar, impossível de se

apagar ao sopro da morte.

 

O que me espanta, diz Deus, é a esperança.

E fico pasmo.

Essa pequena esperança que parece uma cousa de nada.

Essa pequena esperança.

Imortal.

Porque as minhas três virtude, diz Deus.

As três virtudes minhas criaturas.

Minhas filhas minhas crianças.

Elas próprias são como as minhas outras criaturas.

Da raça dos homens.

A Fé é uma Esposa fiel.

A Caridade é uma Mãe.

Uma mão ardente, cheia de coração.

Ou uma irmã mais velha que é como uma mãe.

A Esperança é uma meninazinha de nada.

Que veio ao mundo no dia de Natal do ano passado.

Que brinca ainda com o boneco de neve.

Com seus pinheirinhos de madeira da Alemanha.

Pintados.

E com seu presépio cheio de palha que os animais não

comem.

Porque elas são de madeira.

Entretanto é essa meninazinha que atravessará os

mundos.

Essa meninazinha de nada.

Ela só, levando os outros, que atravessará os mundos

volvidos.

 

 

Tradução: Guilherme de Almeida

Fonte: ALMEIDA, Guilherme de (org.). Poetas de França, 3ª ed.

Companhia Editora Nacional – São Paulo. 1958

A inspiração

Henri Charlier

 

Quem pode conhecer a Deus? A razão só nos dá a conhecer Sua existência, Sua natureza em negativo e Seu espírito criador de tudo quanto há de bom e belo. Só conhecemos a parte que Ele comunica de Si – o amor. A cada qual seu quinhão, que é bem discreto, tão discreto que ficamos atordoados só em examiná-lo. Discorrer sobre ele então, nem pensar! Mas é justamente o que eu pretendo! Como enaltecer essa liberalidade de bens de que usa conosco?  Só falando podemos transmiti-la, e falando queremos mostrar que esquecemos o principal.

Cristianismo e poesia

Jackson de Figueiredo foi uma das fortes e brilhantes personalidades que constituem especial categoria de católicos brasileiros, em tudo distantes da vulgaridade perversa dos progressistas de nossos dias. Pode-se traçar uma linha dinástica ilustre, inteligente, batalhadora e fiel que liga por cima do tempo um Visconde de Cairu a um Carlos de Laet e vincula Jackson de Figueiredo a Gustavo Corção. Jackson foi o fundador do Centro Dom Vital, de onde saíram Gustavo Corção e vários amigos para fundar Permanência em 1968. 

A Redação

 

CRISTIANISMO E POESIA 1

“A tradição cristã aceita Orfeu como um dos símbolos do Cristo” 2, e o canto foi, desde os primeiros tempos do Cristianismo, a linguagem preferida do homem, que imitava os anjos do céu. E não podia ser de outra forma desde que, com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, surgira o novo homem, com mais luz nos olhos e por conseguinte mais amor no coração. Pode-se dizer que se havia, propriamente, inaugurado o reino da prece, ou, pelo menos, ela tinha tomado proporções tão grandiosas como jamais se concebera. O Filho de Deus descera à terra e demonstrara, pelo exemplo de seu sacrifício, o grande valor que tem a vida do homem aos olhos de seu Pai.

Desde então se sentia o homem em relação mais direta com o próprio céu, e a prece, desse outro plano de existência, a que subira, deixara de ser sinal de respeito e adoração unicamente, para ser também palavra amorosa; podia ser mais suavemente dita e mais claramente ouvida, tornar-se um colóquio mais intimo, mais confiante, com a Divindade.

Como não elevar-se também a poesia numa alma assim, como que criada de novo, tendo aos olhos um mundo novo a conquistar?

“O lirismo na sua mais alta concepção pode-se definir como a prece: é uma elevação da alma para Deus.” 3

E a poesia, ajustando-se à definição platônica, quando poderia irmanar-se com tanta força à prece como após o drama do Calvário? A dúvida humana não fora ali desiludida de si mesma? Não tocara as feridas que ela própria e a maldade tinham feito na humanidade de que se revestira o Criador dos mundos? A missão providencial da sua inteligência não foi ali, aos pés daquela Cruz, que ao homem se revelou na plenitude de uma luz descida do mais profundo mistério?

“Guarda, e guarda único da retidão natural, único capaz, com efeito, de disciplinar, sem destruir, as forças vivas do homem, como não atuar o Cristianismo em benefício da palavra literária, a qual jorra da conjugação mesma de todas essas forças? O Cristianismo mantém as potências humanas em sua harmoniosa atividade; já assim fica dito o que lhe pode dever a palavra literária. Se o pagão se conserva como nosso modelo pelo que imprimiu de força e ordem nas suas obras, conservando por isto mesmo algo de retidão, nisto reconhecemos, por um lado, o testemunho da alma naturalmente cristã, e de direito o fazemos porque o Cristianismo admite, depura, assegura e consagra tudo quanto de beleza real tem a musa profana.” 4

Se o sangue do Cordeiro curara a cegueira do indivíduo, foi porque a sociedade humana tomara, aos olhos deste, aspecto inesperado: foi esta a prova do milagre. A transmutação de todos os valores sociais se opera tão vivamente, que uma alma só não poderia ficar impassível ante a deslumbradora aurora que, a surgir dentre as ruínas de um mundo, e vinda de outro mundo, rompia as nuvens do imenso crepúsculo do paganismo.

Um autor pouco cristão disse uma vez que o santuário dos templos é o verdadeiro berço da poesia. 5

Ora, o Cristianismo sagrou a morada do homem e dela fez um só Templo grandioso; não despedaçaria nas mãos dos crentes a lira que se lhe consagrava. Antes, abençoou-a, e aos poetas do mundo novo ensinou a linguagem vibrante dos Apóstolos.

A poesia se faz então “um meio de glorificar a Deus, uma forma da prece” 6, e deixa, tanto quanto a ação daqueles homens, ver bem claro que a velha sociedade tinha de desaparecer, arrojada da terra pela onda do novo espírito, que fazia assim visível, palpável quase, uma divisão entre o tempo, que passara, obscuro e sinistro, às vezes, e a eternidade, que a fé revelava, imperativa, vitoriosamente. Porque, se o pagão vivera para o tempo, o cristão é o homem que vive para a eternidade.

O certo é que o ser essencialmente religioso que é o homem — e que até então como que se achava desterrado de si mesmo — entrara de novo na plena posse da sua natureza e da sua essência. Degradado pela queda, afastado cada vez mais pela força das suas paixões, das verdades reveladas pelo Deus criador e ordenador, só um pugilo de eleitos, a raça de Abraão, tinha noção clara do seu destino religioso, e a arte fora, até à suprema revelação do Calvário, o alimento mais puro da consciência humana em geral, sem que jamais, entretanto, pudesse satisfazê-la, porque, além do belo, a consciência deseja o bem, a Verdade, enfim, o bem e o belo no máximo esplendor da sua harmonia.

São de Ernest Hello estas profundas verdades: “Uma recordação ainda viva da unidade primordial domina a alta Antiguidade. A religião e a arte estão inteiramente unidas na vida dos primeiros homens. A religião e a arte vivem do mesmo ar, ambas coloridas pelos mesmos longínquos reflexos, ambas desonradas pelas mesmas torpezas.

“Entretanto a arte é mais fiel que a religião. Esta guarda dos fatos o que eles têm de falso, e se faz idolatria. A arte mantém-se mais perto da origem, mais perto do espírito, da tradição. Fala a religião de Júpiter, a arte de Prometeu. Dobra-se a religião aos instintos, aos erros, às paixões de cada cidade e de cada indivíduo. A arte conserva-se mais universal. A religião diverte o pagão com faunos e sátiros. Mantém-se a arte como que à parte, menos infiel à dor antiga e à antiga esperança da humanidade.

“É a religião mais degradada pelos caprichos do homem; a arte menos distante do coração.

“Ésquilo está mais em relação com a arte, Eurípides com a religião.

“A religião antiga excita as paixões. A arte é mais afligida e ferida por elas que propriamente dominada. O paganismo ri com um riso ignóbil. A arte conserva uma certa tristeza imperfeita mas nobre. É o refúgio das lágrimas do homem.” 7

Que é, porém, o Cristianismo senão a luz do céu que esclarece a tristeza do homem, e diz: — Nela persistes, porque erraste, mas certo de que dentro dela conquistarás a perfeita alegria —?

Que fez ele senão dar a divina significação das nossas lágrimas?

Foi assim, legitimamente, que a arte, “refúgio das lágrimas do homem”, também mergulhou nessa luz do eterno dia, que despontava.

Salva e até revigorada na sua essência, perdera, não resta dúvida, a riqueza das formas exteriores, que o paganismo lhe dera. Lentamente, porém, com segurança, o Cristianismo, que, antes do mais, busca acender o bem no coração dos homens, vai dotando-a de outras formas, vestindo-a do seu gênio prático, amoldando-a ao gênero de ação que requer a humanidade salva pelo batismo... Não lhe foi difícil achar os sinais meio apagados de uma tradição poética, que a arte propriamente cristã deveria também redimir. A poesia do Velho Testamento já se poderia chamar de poesia cristã, pois a realização das profecias também lhe dava, com o vigor da sublime verdade que se impunha, sabor de novidade, e, quando Santo Ambrósio introduziu no Ocidente o uso dos hinos durante o ofício público 8, já no Oriente ele era universal entre os cristãos 9.

É não só as Escrituras seriam origem dessa poesia cristã. Conta-nos Eusébio que no segundo século, tendo ensinado Ártemon que Jesus Cristo era apenas um homem, foi combatido por um escritor católico que, para refutar, lhe alegou a fé da Igreja contida em certos hinos compostos em época vizinha do Cristianismo 10.

E tão notável é o desenvolvimento da poesia cristã, desde os primeiros séculos paralelo, como nota Bayle 11, ao da arquitetura, que foi um poema, a História Evangélica de Juvenco, a primeira concordância que tiveram os cristãos dos quatro evangelhos 12. E não mentirá quem disser poder-se provar que a Igreja jamais se desviou da primitiva fé e sempre teve os mesmos dogmas, só com as citações tiradas dos poetas da primeira época da poesia cristã, que vai até o sexto século 13.

Também não seria difícil mostrar como o sobrenaturalismo cristão criou causas segundas, naturais, de uma bem maior importância para a arte, em geral, e para a poesia, em particular, na vida dos povos. De fato, como faz observar Ozanam, mediam-se ainda duas civilizações, a cristã e a dos pagãos, quando os bárbaros forçavam as portas do império. Mas uma invasão mais poderosa, de conseqüências muito mais importantes, já despedaçara todas as linhas delimitadoras no quadro da antiga ordem social. O Cristianismo elevara de nível a grande maioria dos homens, igualando na ordem do espírito pobres e ricos; pondo aqueles talvez ainda mais alto na ordem da caridade. “É esta invasão dos deserdados do mundo antigo, aqueles que a sociedade desprezava, que, a meu ver, prepara, antecede e ultrapassa muito, nas suas proporções”, diz o grande historiador, “a invasão dos bárbaros. É ela que já fez maior o auditório a que se dirigirá a palavra humana e que, por conseqüência, renovou a inspiração das letras.” 14

Ozanam mostra como a literatura cristã conquistou, por assim dizer, uma língua, e o que há de espantoso no caso é ser a língua conquistada o latim, “Cette vieille langue païenne que gardait les noms de ses trente mille dieux, cette langue souillée des impuretés de Pétrone et de Martial.”

A princípio “nada parece menos capaz de transmitir as idéias cristãs que essa velha língua latina, que, na sua primitiva aspereza, só parecia feita para a guerra, a agricultura e os processos” 15. Mas já a invasão dos costumes gregos a alterara no sentido das próprias formas gregas da expressão 16, e já em Cícero ela em plena maturidade, se mostra à altura “de qualquer esforço da inteligência humana, até os últimos degraus, que tocam o infinito” 17. A sua decomposição, porém, já se fazia ver a esse tempo de modo violento; o latim está a morrer quando o Cristianismo o salva 18, o Cristianismo, que fundiu os três gênios que dividiam a Antiguidade, a poesia do Oriente, a filosofia da Grécia e a ação de Roma 19.

Mas “para que a arte cristã se manifestasse foi preciso que a paz fosse dada à Igreja, que fosse permitido aos fiéis sair dos subterrâneos, mostrar-se à luz do dia, adorar em novos templos ao Deus desconhecido do velho mundo”. É o que se deu no 4º século com a vitória de Constantino 20, e o instrumento da reforma do latim, da completa cristianização do latim, é a primeira grande, imortal, incomparável obra de arte da fé católica, a Bíblia, a Vulgata de S. Jerônimo. É por isto que com tanto critério dizia Ozanam: “Tinham razão os nossos antepassados cobrindo de ouro a Bíblia e carregando-a em triunfo; este, primeiro dos livros antigos, é também o primeiro dos livros modernos; é, por assim dizer, o autor destes mesmos livros, pois das suas páginas saíram todas as línguas, toda a eloqüência, toda a poesia e toda a civilização dos novos tempos” 21.

E ao tempo dos últimos esforços de S. Jerônimo pode-se dizer que a arte cristã, principalmente a poesia, ficava perfeitamente caracterizada, tanto do ponto de vista do espírito, que a anima, como das suas formas exteriores. Nela transparece um novo simbolismo da natureza (que já em Prudêncio é tão vivamente cristão) 22, e não já da natureza envilecida, conspurcada pelos deuses imorais, mas da natureza digna de admiração e respeito, restaurada também em Jesus Cristo 23.

Se, como observa Hello, o sacrifício é a essência mesma da palavra, e a arte é dividindo-se que se manifesta 24, como não encontrar no Cristianismo o plano mais próprio ao seu desenvolvimento?

É certo que, fazendo-se mais popular, a arte, cristianizada, longo tempo conserva um rude sabor e uma ingenuidade que só a rude gente, o povo ingênuo, podia casar perfeitamente ao seu sentir. Mas, nessa mesma primitiva ingenuidade, nessa mesma rudeza, criava, pouco a pouco, a verdadeira poesia do espírito, as lúcidas arcangélicas asas com que Dante voará um dia do Inferno ao Paraíso.

* * *

“Se no naufrágio do mundo antigo a civilização pôde salvar-se”, afirma um escritor nosso contemporâneo e que nada tem de católico 25, “devemo-lo às ordens religiosas; foram a arca do futuro. Sem elas a humanidade talvez sofresse irreparável regressão, todo o progresso adquirido ficaria aniquilado, a história teria de ser recomeçada.

“Os frades foram, então, em verdade, o sal da terra, o escol que trabalha pela espécie e a dignifica. É fazer-lhes injustiça reduzi-los ao papel de escribas ou de copistas, de bibliotecários da cristandade.

“Não só os livros mas também os hábitos e as sementes da cultura nos foram transmitidos pelos religiosos. Graças a eles as tradições não ficaram sendo letra morta. As funções liberais, as aplicações da indústria não deixaram de ser exercidas. Onde quer que houvesse frades, houve prescrição contra a barbaria. As artes foram praticadas. Elevaram-se monumentos. A vida inteligente não sofreu interrupção.”

Mudadas as condições sociais do Ocidente, já no período que vai do fim do século XIII ao meado do século XVIII, observa também o mesmo historiador, o que também caracteriza a marcha da civilização é uma criação de novas ordens, o aparecimento das duas grandes Ordens Mendicantes. “Contemporâneas das grandes lutas empreendidas pelas Comunas para a conquista de suas liberdades, foram, a seu modo, uma reação contra os costumes da Igreja feudal.”

Este papel de Menores e Pregadores pode ser interpretado de diversos modos, e não estamos de pleno acordo com o escritor citado, mas a verdade é que, como ele, se pode dizer, sem medo de errar, que o caráter essencial dessa forma original do monaquismo é a “ação popular”.

“Ajunte-se”, diz ainda Gillet, “que as Ordens Mendicantes suscitaram durante três séculos, através de toda a Europa, um incalculável número de obras de arte, que são contemporâneas do movimento intelectual de que saiu a Renascença, e que estiveram assim associadas, numa medida ainda a precisar, a alguns dos mais graves acontecimentos de nossa vida moral, que produziram multidão de legendas, de heróicas ou poéticas figuras, a começar pelas de seus fundadores, S. Domingos e S. Francisco, figuras que fazem parte das mais caras lembranças, do tesouro espiritual conservado pela humanidade”, e poder-se-á avaliar quanto essas Ordens merecem ser estudadas atualmente na sua história e nas suas legendas. Também, confessa Gillet, os trabalhos modernos sobre o assunto “se multiplicaram a ponto de não se poderem enumerar nem mesmo os principais”.

Deve-se dizer, porém, que a maior causa deste reflorescimento de estudos de toda espécie sobre o monaquismo ocidental daquele período é a figura incomparável de São Francisco. Após a obra de Ozanam, nunca mais modernamente esmoreceu o ardor dos estudiosos em derredor daquela figura central da poesia cristã no Ocidente.

Mas ao debate provocado por Sabatier (um protestante) é que o grande santo deve o ter sido proclamado na própria Alemanha “o homem do dia”.

Desse debate não saiu, como se sabe, nem de leve ferida a excelsa glória do humílimo Francisco. O próprio Sabatier veio a ser depois prova, de não pequena valia, de quanto é difícil à ciência mais bem aparelhada negar seja o que for da maravilhosa vida do Irmãozinho da cinza. E a complexa literatura franciscana dos nossos dias, em que há de tudo, desde a delicadeza e a profundeza de um Joergensen até as blasfêmias e truanices dos Gómez Carrillo e outros cabotinos de renome, diz bem da glória de quem não mais desejou que refletir Jesus Cristo, e por isto mesmo pode, caridosamente, ainda sustentar muita glória legítima e muita glória de malandrins letrados e perversos.

Livros como os de Joergensen, Cherancé, Pardo Bazan, d’Armestad, Lafenestre, Gillet e tantos outros forçam, pelo menos, a esta confissão: não há figura histórica em todo o Ocidente que tenha conseguido interessar tanto a inteligência contemporânea como a do criador dos Frades Menores. Mas, se concordamos com Gebhart que é diminuí-lo não querer ver, da sua grandeza, senão o que suavemente se impõe do singular poeta e ingênuo apóstolo das “Fioretti”, estamos convictos de que o que mais concorreu mesmo para sua moderna e contemporânea popularidade (popularidade entre letrados, bem entendido, desde Gorres, Ozanam, Renan, Rio até Wizewa, Joergensen etc.) foi o lirismo essencial da sua evangelização, foi mais o piedosíssimo vulto de trovador popular do que a sua figura de organizador, de economista da pobreza. Porque, se fora esta a feição mais apreciada da sua vida, certo não merecerá ele mais louvores ou, pelo menos, mais interesse que S. Domingos, máscula, gigantesca personalidade, de cuja ação se pode afirmar que vale, só por si, como uma epopéia dessa ordenadora energia cristã, eternamente em luta com as paixões e as misérias do homem.

Mas S. Domingos, como diz Gillet, que cito ainda por insuspeito, “não fez o Cântico do Sol”. Não oferece essa inaudita mistura de sensibilidade e de paixão, de otimismo e de ternura, de requintada aristocracia e espírito popular que faz de S. Francisco — posta de lado a sua santidade (se isto é possível) — o mais maravilhoso poeta que jamais existiu.

Só a conversão de um homem como Joergensen já é título de glória singularíssimo na história moderna de um santo.

S. Francisco tinha de ser o santo desta época. Deus sabe que armas e que homens deve empregar a cada hora para reconduzir a criatura transviada ao seio da sua Igreja.

(Revista PERMANÊNCIA, 1981, novembro/dezembro, números 157/157.)

 

 

 

 

  1. 1. Este estudo, que faz parte do ensaio Durval de Morais e os Poetas de Nossa Senhora, é uma amostra das mais expressivas das virtudes intelectuais de Jackson de Figueiredo.
  2. 2. L. Veuillot, Mélanges, 3a. s., t. III.
  3. 3. Abbé A. Bayle, Étude sur Prudence, Paris, 1860
  4. 4. G. Longhaye S. J., Théorie des Belles-Lettres, Paris, 1920, p. 125.
  5. 5. Fabre d’Olivet, Les vers dores de Phytagore, p. 31.
  6. 6. Abbé A. Bayle, op. cit., 60.
  7. 7. Ernest Hello, L’Homme, cap. “L’art antique et la litterature ancienne”, 14a. ed., p. 328.
  8. 8. Bayle, op. cit., p. 20.
  9. 9. Bayle, op. cit., p. 21.
  10. 10. Bayle, op. cit., p. 21.
  11. 11. Bayle, op. cit., p. 5.
  12. 12. Bayle, op. cit., p. 13.
  13. 13. O autor que venho citando, no seu livro sobre Prudêncio, não faz esta asserção, mas eu próprio pude verificar das suas citações alguns edificantes exemplos.
  14. 14. Ozanam, op. cit., p. 125.
  15. 15. Ozanam, op. cit., p. 127.
  16. 16. Ozanam, op. cit., p. 127.
  17. 17. Ozanam, op. cit., p. 129.
  18. 18. Ozanam, op. cit., pp. 130-131.
  19. 19. Ozanam, op. cit., p. 131.
  20. 20. V. Bayle, op. cit., p. 2.
  21. 21. Ozanam, op. cit., p. 155.
  22. 22. Bayle, op. cit., p. 80.
  23. 23. Bayle, op. cit., pp. 82-83.
  24. 24. E. Hello, op. cit., livro III, p. 281: “Le son ne naît que pour mourir, et ne se posséde que pour se donner.”
  25. 25. Louis Gillet, Histoire Artistique des Ordres Mendiants, Paris, 1912.

Te Deum

Nós, Senhor, nós te louvamos, 
Nós, Senhor, te confessamos.

 
Senhor Deus Sabaó, três vezes santo,
Imenso é o teu poder, tua força imensa, 
Teus prodígios sem conta; — e os céus e a terra 
Teu ser e nome e glória preconizam.

E o arcanjo forte, e o serafim sem mancha, 
E o coro dos profetas, e dos mártires 
A turba eleita — a ti, Senhor, proclamam, 
Senhor Deus Sabaó, três vezes santo.

Na inocência do infante és tu quem falas; 
A beleza, o pudor — és tu que as gravas 
Nas faces da mulher, — és tu que ao velho 
Prudência dás, — e o que verdade e força 
Nos puros lábios, do que é justo, imprimes.

És tu quem dás rumor à quieta noite,
És tu quem dás frescor à mansa brisa, 
Quem dás fulgor ao raio, asas ao vento, 
Quem na voz do trovão longe rouquejas.

És tu que do oceano à fúria insana 
Pões limites e cobro, — és tu que a terra 
No seu vôo equilibras, — quem dos astros 
Governas a harmonia, como notas

Acordes, simultâneas, palpitando 
Nas cordas d'Harpa do teu Rei Profeta, 
Quando ele em teu furor hinos soltava, 
Qu'iam, cheios de amor, beijar teu sólio. 
Santo!  Santo!  Santo! — teus prodígios 
São grandes, como os astros, — são imensos, 
Como areia delgada em quadra estiva.

E o arcanjo forte e o serafim sem mancha, 
E o coro dos profetas, e dos mártires 
A turba eleita — a ti, Senhor, proclamam, 
Senhor Deus Sabaó, três vezes grande.

A função da beleza na religião

A beleza desempenha importante papel no culto religioso. O ato mesmo de adoração à divindade encerra o desejo de envolver o culto com a beleza. Estigmatizar a preocupação com o belo no culto religioso como "esteticismo" — como fizeram recentemente, com crescente acrimônia, alguns católicos — é revelar uma concepção deformada do culto religioso e da natureza do belo.

É o que se vê claramente quando se considera a natureza do "esteticismo", em vez de se usar o termo apenas com slogan destruidor.

O esteticismo é uma perversão na maneira de considerar a beleza. O esteta saboreia coisas belas como quem saboreia vinho. Não as trata com o respeito e a compreensão do valor intrínseco que requer uma resposta adequada, mas como fontes de satisfação meramente subjetiva. Mesmo dotado de refinado bom gosto, mesmo que seja um notável connaisseur, o tratamento do esteta não pode fazer de maneira alguma justiça à natureza do belo. Acima de tudo, é indiferente a todos os demais valores inerentes ao objeto. Qualquer que seja o tema de uma situação, vê-o somente do seu ponto de vista da satisfação e do prazer estético. Não consiste sua falha em superestimar o valor da beleza, mas em ignorar os outros valores fundamentais, sobretudo os morais.

Tratar uma situação de um ponto de vista que não corresponde ao seu tema objetivo é sempre uma grande perversão. Por exemplo, é perverso que um homem trate de um drama humano que exige compaixão, simpatia e ajuda, como se fosse mero objeto de estudo psicológico. Fazer da análise científica o único ponto de vista em qualquer assunto é radicalmente antiobjetivo e até mesmo repulsivo; é desrespeitar e anular o tema objetivo. Além de ignorar qualquer ponto de vista que não seja o "estético" e qualquer outro tema que não seja o da beleza, o esteta também deforma a natureza real da beleza em sua profundidade e grandeza. Como já mostramos em outros livros, toda idolatria de um bem necessariamente exclui a compreensão de seu verdadeiro valor. A maior e mais autêntica apreciação de um bem somente é possível se o vemos em seu lugar objetivo na hierarquia dos seres, disposta por Deus.

Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimento de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos necessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza — mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: Nem só de pão vive o homem. No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo de Cura d'Ars, São João Batista Vianney.

Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente — e a que custo! — por igrejas prosaicas e monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica; mas não, decerto, a beleza e o esplendor das igrejas.

De um lado, afirmar-se que as igrejas deveriam ser despojadas, porém, ao mesmo tempo, paróquias e campus de escolas católicas estão levantando feios edifícios para assuntos sociais, dotados de todo tipo de luxo desnecessário. Isto é feito em nome de problemas sociais e do espírito de comunidade. Até mesmo nos conventos verifica-se desenvolvimento análogo. Essas novas estruturas não são apenas opostas à pobreza evangélica; criam, também, uma atmosfera tipicamente mundana. Cadeiras reclináveis e tapetes espessos com maciez não muito saudável. Esses edifícios reúnem, artificialmente, três propriedades negativas: dispendiosos (o que diretamente se opõe à pobreza evangélica), feios e convidativos a concessões pessoais, típicas da degeneração que, hoje, ameaça os homens.

Por vezes os argumentos iconoclastas tomam outra feição. Ouve-se, ocasionalmente, algum vigário dizer que a missa é algo abstrato e que as igrejas, especialmente o altar, deveriam ser despojados. Na verdade, a Santa Missa é um mistério surpreendente e que transcende a toda compreensão pela só razão, mas não é, absolutamente, abstrato.

Abstrato é algo especificamente racional; opõe-se a real, concreto, individual. O mundo do sobrenatural, a realidade revelada, transcende o mundo da razão, mas não implica nenhuma oposição ao real e ao concreto. É, pelo contrário, realidade definitiva e absoluta, se bem que invisível. A Missa é, assim, um epítome da realidade concreta, do nunc (agora), pois o próprio Cristo se faz verdadeiramente presente.

A força e o impacto existencial da Sagrada Liturgia têm suas raízes exatamente no fato de não ser abstrato e dirigir-se não só à nossa inteligência ou simplesmente à fé, mas, sobretudo, de falar, de inúmeras maneiras, à totalidade da pessoa humana. Imerge o fiel na sagrada atmosfera do Cristo, pela beleza e esplendor sagrado das igrejas, pelo colorido e beleza das vestimentas, pelo estilo de linguagem e sublimidade musical do Cantochão. 

Católicos progressistas dizem, às vezes, que aqueles que combatem a iconoclastia, se ocupam do "inessencial".

De fato, não é essencial que seja bonita a igreja, onde se celebra a Santa Missa e distribui a Comunhão aos fiéis. São essenciais apenas as palavras que perfazem a transubstanciação. Sendo este o sentido da frase, nada objetaremos. Se o termo "inessencial" significar "sem significação", então se está querendo dizer que coisas como a beleza das igrejas, a Liturgia e a música são "triviais" e a acusação é completamente errada, porque existe uma relação profunda entre a essência de alguma coisa e sua expressão adequada. A respeito da Santa Missa esta observação é particularmente verdadeira.

O modo como é apresentado esse mistério, sua visível manifestação, desempenha papel definido e não pode ser considerado sujeito a mudanças arbitrárias, apesar de ser incomparavelmente mais importante aquilo que se expressa do que sua expressão. Se bem que o tema efetivo da Missa seja tornar presente o mistério do Sacrifício de Cristo na Cruz e o Mistério da Eucaristia, deve-se dar grande peso à atmosfera sagrada criada pelas palavras, ações, acompanhamento musical e igreja onde se celebra. nada disso pode ser considerado de interesse meramente estético.

Contrapõe-se a todo esse menosprezo gnóstico do conteúdo e da forma externa o princípio especificamente cristão de que as atitudes espirituais devem encontrar também expressão adequada na conduta do corpo, nos seus movimentos e no estilo de nossas palavras. A Liturgia inteira está penetrada desse princípio. Analogamente, o salão e o edifício onde se desenrolam cerimônias sagradas devem irradiar uma atmosfera que lhe corresponda. É certo que a realidade dos mistérios nada sofre se a sua expressão for inadequada. Há, contudo, um valor específico em dar-lhe expressão adequada.

Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais, apenas revela sua cegueira à magnífica função desempenhada pela expressão adequada (e bela). Em última análise, trata-se de uma cegueira à própria natureza humana. Mesmo que essas pessoas se proclamem "existencialistas", continuam muito abstratas. Esquecem que a beleza autêntica encerra mensagem específica de Deus, que nos eleva as almas. Como dizia Platão: "À vista da beleza, crescem asas às nossas almas". Mais ainda: da beleza sagrada relacionada à Liturgia nunca se afirma que seja temática, como nas obras de arte; pelo contrário, como expressão, têm a função de servir. Longe de obnubilar ou de se substituir ao tema religioso da Liturgia, ajuda a torná-lo fulgurante.

Valor não é sinônimo de "ser indispensável". O princípio básico da superabundância em toda a criação e em todas as culturas manifesta-se, exatamente, nos valores não indispensáveis a certa finalidade ou tema. A beleza da natureza não é indispensável à economia da natureza. Nem a beleza da arquitetura é indispensável para nossas vidas. Mas, o valor da beleza, na natureza e na arquitetura não é diminuído pelo fato de ser um dom, que de muito transcende a mera utilidade. Desse modo, a beleza é importante não só quando é ela mesma o tema (caso da obra de arte), mas também quando a serviço de outro tema. Destacar que a Liturgia deve ser bela não é colorir religião com tratamento estético. A aspiração pela beleza, na Liturgia, nasce do sentido do valor específico que se apóia na adequação da expressão.

A beleza e a sagrada atmosfera da Liturgia são algo não só precioso e valioso por si mesmo (na qualidade de expressões adequadas dos atos religiosos de adoração), mas são, também, de grande importância para o desenvolvimento espiritual das almas e dos fiéis. Repetimos: aqueles que, no movimento litúrgico, têm insistido na afirmação de que orações e hinos cansativos denominam o ethos religioso dos fiéis, apelando para o que no interior humano está longe do que é religioso, lançam-no em uma atmosfera que obscurece e embaça o semblante de Cristo. É de enorme importância a beleza sagrada para a formação do verdadeiro ethos do fiel. No livro Liturgia e Personalidade, falamos em detalhe da função profunda da Liturgia em nossa santificação, sem sacrifício de ser o culto de Deus seu tema central. Na Liturgia louvamos e agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino. Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.

Um dos maiores objetivos do movimento litúrgico tem sido o de substituir orações e hinos inadequados por textos sagrados das preces litúrgicas oficiais e pelo Canto Gregoriano. Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gírias. Chegam mesmo a mudar, arbitrariamente, a Liturgia no intuito de "adaptá-la aos nossos tempos". O Canto Gregoriano vai dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao jazz ou ao rock and roll. Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparavelmente mais do que o fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devoção. Esses eram inadequados. Aqueles, além de inadequados, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.

Mesmo quando se substitui a beleza sagrada, já não pela vulgaridade profana, mas por abstração neutra, incorre-se em sérias conseqüências para as vidas dos fiéis, pois, como indicamos, a Liturgia católica se dirige à personalidade total do fiel. O fiel não é atraído ao mundo de Cristo apenas por sua crença ou por símbolos estritos. São levados a um mundo mais alto pela beleza do altar, pelo ritmo dos textos litúrgicos, pela sublimidade do Canto Gregoriano ou por músicas verdadeiramente sacras, tais como a Missa de Mozart ou de Bach. Até mesmo o perfume do incenso tem função significativa, nesse sentido. O emprego de todos os canais capazes de introduzir-nos no Santuário é profundamente realista e profundamente católico. É autenticamente existencial e realiza função notável em ajudar-nos a elevar nossos corações.

Se é verdade que considerações de cunho pastoral poderão recomendar como desejável o uso do vernáculo, o Latim da Missa — na missa silenciosa, dialogada e, especialmente, cantada com o Gregoriano — jamais deveria ser abandonado. Não se trata de guardar o latim de Missa por certo tempo até que os fiéis se habituem à missa em vernáculo. Como a Constituição da Sagrada Liturgia claramente determina, é permitido o uso do vernáculo, mas a Missa em Latim e o Canto Gregoriano conservam toda sua importância. Foi essa a intenção do motu proprio de São Pio X, que afirmou ser o Latim da missa, como o Canto Gregoriano, responsável também pela formação da piedade dos fiéis, através da atmosfera sagrada e única gerada por sua dicção. Assim, os anseios de muitos católicos e do movimento Una Voce não se dirigem contra o uso do vernáculo, mas contra a eliminação da Missa em Latim e do Canto Gregoriano. Eles apenas estão pedindo que se cumpra, realmente, a Constituição da Sagrada Litugia.

Contudo, certos católicos de hoje manifestam o desejo de mudar a forma exterior da Liturgia, adaptando-a ao estilo de vida de nossa época dessacralizada. Esse desejo denota cegueira com relação à natureza da Liturgia, bem como ausência de respeito reverencial e gratidão pelos dons sublimes de dois mil anos de vida cristã. Acreditar que as formas tradicionais podem ceder o lugar a algo melhor é dar provas de uma ridícula auto-suficiência. E esse conceito é particularmente incongruente nos que acusam a Igreja de "triunfalismo". De um lado, eles consideram falta de humildade a Igreja proclamar que Ela só é detentora da plena revelação divina (em vez de perceber que essa proclamação se fundamenta da natureza da Igreja e decorre de sua missão divina). De outro lado, demonstram ridículo orgulho quando simplesmente assumem que nossa época moderna é superior às anteriores.

Podem-se ouvir, hoje, razões de protesto declarando, por exemplo, que o texto do Glória e de outras partes da Missa estão repleto de expressões cansativas de louvor e glorificação a Deus, quando deveriam fazer mais referências a nossas vidas. É um contra-senso que revela como tinha razão Lichtemberg ao dizer que, se fosse dado a um macaco ler as epístolas de São Paulo, ele veria sua própria imagem refletida nelas. Admiram-se os nossos "teólogos" modernos não apresentarem, dentro em breve, uma nova versão do "Pai Nosso", como o fez Hitler. O "Pai Nosso" claramente enfatiza o primado absoluto de Deus, tão distante da mentalidade típica moderna. Um único pedido diz respeito ao bem-estar terrestre: "o pão nosso de cada dia"... O restante diz respeito ao próprio Deus, a seu Reino, a nosso bem-estar eterno.

 

(Extraído de "Cavalo de Tróia na Cidade de Deus". Publicado em PERMANÊNCIA, Nos. 142-143 Set-Out. 1980)

O crucifixo

É um crucifixo de marfim
Ligeiramente amarelado,
Pátina do tempo escoado.
Sempre o vi patinado assim.

Mãe, irmã, pai meus estreitando
Tiveram-no ao chegar o fim.
Hoje, em meu quarto colocado,
Ei-lo velando sobre mim.

E quando se cumprir aquele
Instante, que tardando vai,
De eu deixar esta vida, quero

Morrer agarrado com ele.
Talvez me salve. Como – espero –
Minha mãe, minha irmã, meu pai.

Teresópolis, março de 1966

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